Programa - Comunicação Oral - CO13.2 - Identidade de Gênero, Transgeneridade e a Integralidade do Cuidado
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ADOLES(C)ER GAY E GESTÃO DO CUIDADO: IDENTIDADE, FAMÍLIA E LIMITES DA INTEGRALIDADE NO SUS
Comunicação Oral
1 USP
Apresentação/Introdução
A adolescência é um período de intensas transformações subjetivas e sociais que, para meninos gays, ocorre sob o impacto de vulnerabilidades agravadas por estruturas cisheteronormativas e pelo avanço do conservadorismo. No cenário contemporâneo, a lógica neoliberal e a indústria cultural impõem padrões de corpo e comportamento que podem gerar sofrimento psíquico e invisibilidade no campo da Saúde Coletiva. Este estudo investiga como esses jovens constroem suas identidades e trajetórias de cuidado, destacando o papel das relações intergeracionais, especialmente com as mães.
Objetivos
Compreender a busca pelo cuidado de saúde por adolescentes gays considerando os constructos da identidade na contemporaneidade, a relação filho-mãe e as implicações para a Saúde Coletiva.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa com abordagem compreensivo-interpretativa, fundamentada na hermenêutica filosófica. O referencial teórico-conceitual articula o Interacionismo Simbólico de Mead, a Identidade Narrativa de Ricoeur e a concepção de Cuidado e Projeto de Felicidade de Ayres. O campo empírico será composto por entrevistas individuais semiestruturadas com adolescentes gays (12 a 17 anos) e suas mães, residentes em São Paulo/SP, com recrutamento mediado pela Associação Mães pela Diversidade. A análise dos dados seguirá a Análise Crítica do Discurso (ACD) de Fairclough.
Resultados e Discussão
Os resultados analíticos preliminares, oriundos da imersão teórica e da aproximação com o campo, indicam que a construção da identidade de adolescentes gays é atravessada por exigências performáticas neoliberais que intensificam sua vulnerabilidade. Byung-Chul Han denomina esse contexto como “sociedade do desempenho”, na qual a lógica neoliberal reorganiza a vida social em torno da produtividade, convertendo dimensões sociais e políticas em imperativos econômicos e fragilizando elementos centrais da democracia. Tais impactos atingem de modo mais dramático a adolescência e a juventude.
A análise evidencia que a relação filho-mãe ocupa lugar central na mediação da busca por cuidado, podendo configurar-se como fator de proteção e reconhecimento ou como fonte de tensão intergeracional. Transformações socioculturais reposicionaram o papel das mulheres nas dinâmicas familiares, tensionando papéis tradicionais. Nesse contexto, mães tendem a ser as primeiras interlocutoras na revelação da sexualidade, percebidas como mais compreensivas em contraste com reações paternas mais hostis, além de atuarem como mediadoras comunicacionais, ainda que atravessem dificuldades. Há uma tendência de acolhimento materno relacionada à historicidade das relações de gênero.
No campo da saúde, identifica-se uma lacuna: a ausência de capacitação profissional para lidar com a diversidade contribui para a evasão institucional dessa população. Apesar dos avanços em visibilidade e políticas públicas voltadas à população LGBTQIAPN+, tais temáticas ainda são pouco exploradas na Saúde Coletiva, comprometendo a efetivação do princípio da integralidade no SUS. A produção e a prática do conhecimento permanecem fragmentadas e pouco desafiadoras das normas que sustentam estigmatização e exclusão. Experiências discriminatórias contribuem para a resistência na busca por cuidado, evidenciando a necessidade de superar limitações profissionais.
Diante disso, torna-se fundamental a qualificação dos profissionais de saúde para o manejo sensível das questões de orientação sexual e gênero, garantindo acesso a cuidados adequados. Implica, ainda, superar práticas descontextualizadas que desconsideram a singularidade dos sujeitos. Nessa direção, propõe-se uma inflexão no “sentido da relação”, centrada na escuta qualificada, no protagonismo do adolescente e na valorização de sua narrativa.
Nesse sentido, a articulação teórica sugere que o “Projeto de Felicidade” desses jovens é atravessado pela superação da estigmatização, demandando a ressignificação do cuidado em saúde como prática ética e emancipatória.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa reafirma a urgência de políticas públicas e práticas de cuidado sensíveis às especificidades da juventude gay. Embora em fase inicial de coleta, os achados teóricos permitem concluir que a integralidade do cuidado no SUS depende da desconstrução do simbolismo heteronormativo e do fortalecimento das redes de apoio familiar. Espera-se que o estudo contribua para humanizar o atendimento e fomentar projetos de felicidade possíveis para adolescentes gays.
ALEITAMENTO POR HOMENS TRANS E SUAS PARCERIAS: AVANÇOS E DESAFIOS
Comunicação Oral
1 Maternidade Climério de Oliveira
2 Universidade Federal da Bahia
Apresentação/Introdução
INTRODUÇÃO: O Transgesta é um programa que desde o ano de 2021 é desenvolvido por uma maternidade escola pública em Salvador-BA. Volta-se à assistência de pessoas que se reconhecem e se declarem transexuais, travestis, transgêneras e demais formas de vivência da expressão da identidade de gênero. O atendimento a pessoas trans durante o período gravídico puerperal envolve particularidades, como questões referentes ao processo de hormonização, condições emocionais e clínicas provenientes da gestação e do puerpério, aspectos relacionados à vinculação com o bebê, incluindo contato pele a pele e aleitamento. Esse último, representa importante pilar para a saúde. O leite humano é o alimento que reúne as características nutricionais ideais, com balanceamento adequado de nutrientes, além de desenvolver inúmeras vantagens imunológicas importantes na diminuição da morbidade e mortalidade infantis¹. Ao trabalhar com o público trans, é essencial compreender a construção familiar, adaptando o processo de aleitamento às especificidades de cada caso. Ele deve ser abordado desde o início do acompanhamento gestacional, com o objetivo de orientar as possibilidades da prática e acolher os desejos da família, promovendo uma construção compartilhada com a equipe multiprofissional. Assim, o aleitamento não se limita à pessoa gestante, podendo envolver a parceria ou ambos, configurando como colactação.
Objetivos
OBJETIVO: O objetivo deste estudo é apresentar os dados iniciais sobre a prática de aleitamento por homens trans e suas parcerias no Programa Transgesta, destacando os avanços e desafios dessa prática. Além disso, busca-se descrever a experiência da indução da lactação nas parcerias de homens trans, avaliando as etapas do protocolo adotado, os desafios enfrentados durante o processo e os fatores que influenciaram a continuidade ou interrupção do aleitamento após o parto.
Metodologia
METODOLOGIA: Trata-se de um estudo observacional retrospectivo que apresenta os resultados iniciais sobre a prática do aleitamento por homens trans e suas parcerias no âmbito do Programa Transgesta, abrangendo o período de 2021 a 2025. A investigação baseou-se na análise de prontuários eletrônicos dos pacientes assistidos, com o objetivo de identificar a realização do aleitamento pelo gestante, o estímulo à lactação e/ou a prática de estímulo à lactação. A análise dos dados foi realizada entre janeiro e fevereiro de 2024 e integra o projeto de pesquisa Transgesta. O estudo seguiu todos os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, garantindo o sigilo e a confidencialidade das informações dos participantes. A pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Maternidade Climério de Oliveira – UFBA, EBSERH, sob o número de parecer 79580124700005543.
Resultados e Discussão
RESULTADOS: Foram realizados dez atendimentos, dos quais um resultou em aborto legal e nove pacientes e suas parcerias foram incluídos na análise. Dentre esses, quatro gestantes optaram por realizar o aleitamento, sendo uma delas pela colactação com sua parceira cisgênero. Cinco pacientes escolheram não realizar o aleitamento e, em dois casos, os homens trans tiveram suas parceiras (uma cisgênera e uma transgênera) responsáveis pelo aleitamento. A indução da lactação, portanto, foi realizada em três parcerias, seguindo orientações do Ministério de Saúde em três etapas: preparação hormonal do tecido mamário, estímulo à produção de prolactina e estimulação mecânica da mama. As pessoas interessadas passaram por triagem laboratorial com exames de rotina, semelhantes aos exigidos para a doação de leite humano. A produção de leite foi alcançada em todos os casos antes do parto, mas em volume reduzido. Após o nascimento, o acompanhamento foi interrompido devido a dificuldades pessoais dos pacientes, resultando na descontinuidade do aleitamento e risco de insegurança alimentar para a criança. Os principais desafios incluíram a baixa adesão ao aleitamento, impactada por fatores emocionais e pela falta de apoio social, além das dificuldades de acesso aos serviços de saúde no pós-parto, o que afetou a vivência parental das famílias. Destaca-se que a interrupção do acompanhamento no pós-parto, muitas vezes relacionou-se ao difícil acesso aos serviços de saúde, prejudicando a permanência do aleitamento e impactando a experiência parental das famílias .
Conclusões/Considerações Finais
CONCLUSÃO: O aleitamento é prática presente no contexto da parentalidade trans. Nesse sentido, a possibilidade de indução da lactação, já documentada em outros contextos, revelou-se viável também as parcerias de pessoas trans desde que seguidas as etapas adequadas de preparação hormonal, estimulação da prolactina e sucção mecânica. Entretanto, a adesão ao processo demonstrou-se um desafio, especialmente no pós-parto, devido às barreiras pessoais e estruturais que impactaram a continuidade do aleitamento.
IDENTIDADE DE GÊNERO E SEXUALIDADE NO ATENDIMENTO DE JOVENS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: UMA ANÁLISE DE “NÃO-LUGAR”
Comunicação Oral
1 UFMG
Apresentação/Introdução
A Atenção Primária à Saúde enfrenta o desafio do reconhecimento de direitos LGBTQIAPN+, a partir da necessária redefinição e ampliação de políticas públicas de saúde voltadas à população.Tal cenário se torna especialmente sensível quando lançamos luz sobre os atravessamentos tecidos a partir do marcador geração: desde o acolhimento à composição de práticas de atenção por/para juventudes cujas trajetórias são marcadas por dissidências de gênero e sexualidade. As narrativas sobre experiências de atendimento dessas/es jovens nos possibilitam compreender processos e dinâmicas constituintes de modos singulares de existência, com possíveis reflexos positivos no cuidado alicerçado na promoção da saúde.
Objetivos
Este trabalho analisa violências simbólicas institucionais que incidem sobre jovens LGBTQIAPN+ periféricos em situações de atendimento na Atenção Primária. A análise estrutura-se nos seguintes eixos de discussão: 1) barreiras simbólicas ao acesso aos serviços de saúde; 2) dimensão subjetiva e experiencial de corpos dissidentes frente às especialidades médicas e práticas de atenção enquadradas pelo binarismo, e produção de práticas de cuidado que reconheçam a pluralidade de corpos juvenis.
Metodologia
Este estudo constitui um recorte temático de um projeto de intervenção multissituado focado na integração entre educação e saúde para a prevenção de IST/HIV, Covid-19 e agravos psicossociais. A análise do acesso de jovens LGBTQIAPN+ aos serviços públicos de saúde focaliza as perspectivas de jovens e profissionais da saúde sobre o atendimento voltado à identidade de gênero e sexualidade. A pesquisa realizada em 2023 envolveu 34 entrevistas semiestruturadas com jovens e 58 com profissionais de serviços de saúde de seus territórios, além da observação do cotidiano assistencial, reuniões de equipe e visitas domiciliares, em seis Unidades Básicas de Saúde nas cidades de São Paulo, Santos e Sorocaba.
Resultados e Discussão
As narrativas das/os jovens situam a assistência nas UBS como território tensionado pelo enraizamento da cisheteronormatividade, que enseja o reforço da precariedade em pré-concepções, julgamentos e constrangimentos morais. Jovens com identidades dissidentes descrevem um "não-lugar" em que o binarismo de serviços como a ginecologia reduz sujeitas/os a um corpo biológico funcional, destituído de transcendência existencial para quem habita/produz. Relatos de uso excessivo de força física e comunicação descortês em procedimentos assinalam como a violência simbólica é institucionalmente (re)afirmada em episódios de invalidação e abjeção de corpos homossexuais. Já as/os profissionais pontuam uma "lógica de risco" focada na prevenção de gravidez e infecções sexualmente transmissíveis, o que resulta numa gestão técnica de corpos considerados indisciplinados, silenciando as dimensões de desejo, prazer e autonomia. Não obstante, elas/elas problematizam efeitos na assistência e permanência de uma visão “tradicional” biomédica com a falta de conhecimento técnico e diretrizes institucionais para lidar com a transexualidade e transição de gênero. A percepção da ininteligibilidade de suas formas de vivenciar/conceber gênero e sexualidade na Atenção Primária resulta na significação deste “espaço” como de vigilância e controle social.
Conclusões/Considerações Finais
A norma cisheteronormativa opera silenciamentos e interdições no cuidado, incitando à autossegregação do uso de serviços de saúde. A superação do "não-lugar" institucional passa pela ressignificação do “olhar clínico” pelo investimento em formação e capacitação atinentes das/os profissionais de saúde. As perspectivas da interseccionalidade e do sofrimento social oferecem elementos para inteligibilidade desse segmento tão diverso quanto complexo. A pluralidade de produções de si mais fluidas, não-binárias, coloca em voga a importância de práticas de assistência situacionais e coproduzidas por profissionais-jovem, como processo de cuidado integral lastreado por subjetividades e identidades que expressam a dinâmica perceptual-vivencial-estética afirmada pelas/os sujeitas/os.
PARTICIPAÇÃO DE PESSOAS TRANS E PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NO PROGRAMA ACADEMIA DA CIDADE: ENTRE A UNIVERSALIDADE E A EXCLUSÃO NAS PRÁTICAS CORPORAIS
Comunicação Oral
1 PPGSC - UFPE
Apresentação/Introdução
As práticas corporais são reconhecidas como benéficas à saúde e defendidas como um direito por órgãos nacionais e internacionais, devendo compor a agenda das políticas públicas em todas as esferas de governo. O Programa Academia da Cidade (PAC), no Recife, constitui-se como estratégia de ampliação e democratização do acesso a essas práticas, com foco na promoção da saúde no Sistema Único de Saúde. Contudo, embora se insira em um sistema orientado pelo princípio da universalidade, essa noção, quando considerada apenas em sua dimensão formal, pode velar processos cotidianos de exclusão. Pessoas trans e pessoas com deficiência (PCD), historicamente atravessadas por desigualdades, desafiam as formas hegemônicas dessas práticas, evidenciando como normas de gênero e de capacidade operam na produção de pertencimentos. Assim, mais do que a presença no programa, importa compreender como determinados corpos são reconhecidos nesses espaços.
Objetivos
Analisar a relação de pessoas trans e PCD com as práticas corporais do PAC, considerando normativas institucionais, práticas profissionais e experiências dos sujeitos.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, de desenho etnográfico, desenvolvida nos polos do PAC do Distrito Sanitário VII. Foram realizados três meses de observação participante com registros em diário de campo, possibilitando a apreensão das dinâmicas e interações cotidianas, analisadas de acordo com Geertz (1989). Conduziram-se entrevistas semi estruturadas com 21 participantes: professores, gestores, PCD e pessoas trans. Realizou-se ainda análise documental de políticas e normativas nacionais e municipais, examinadas segundo as dimensões propostas por Cellard (2012). A análise das entrevistas baseou-se na abordagem de Kvale (2011), articulada à triangulação de dados provenientes das entrevistas, da observação participante e dos documentos analisados.
Resultados e Discussão
Os achados evidenciam que, embora o PAC se apresente como política universal, suas práticas são atravessadas por normatividades corporais que centralizam a compreensão de um corpo considerado funcional, autônomo e produtivo, o que limita a participação de PCD diante da restrita adaptação das atividades e da acessibilidade predominantemente voltada à deficiência física, limitada a elementos como corrimões, rampas e banheiros adaptados.
Entre pessoas trans, a inexistência de usuários nos polos investigados, associada às narrativas de não usuários, aponta para processos de exclusão que antecedem o acesso, por expectativas negativas relacionadas ao medo de julgamento, discriminação e exposição corporal. Tais processos se expressam em microdinâmicas cotidianas, como olhares, silenciamentos e discursos que reiteram a cisnormatividade.
As práticas institucionais revelam que PCD e pessoas trans aparecem de forma restrita nos dispositivos formais do Programa, sobretudo no cadastro, limitadas ao registro, sem desdobramentos na organização das práticas. Os protocolos de avaliação física não contemplam adaptações específicas para PCD, nem consideram particularidades corporais de pessoas trans, como o uso de hormônios, evidenciando lacunas na operacionalização do cuidado.
Nesse contexto, destaca-se a centralidade do professor como mediador da inclusão. Usuários, não usuários, profissionais e gestores atribuem a essa figura o papel decisivo na permanência, sendo atitudes de acolhimento e adaptação, mesmo que improvisadas, reconhecidas como capazes de superar barreiras estruturais. Porém, essa centralidade evidencia fragilidade institucional, uma vez que a inclusão se apresenta mais como iniciativa individual do que como diretriz do programa.
Para pessoas trans, embora a postura do professor possa favorecer a permanência mesmo diante de preconceito entre usuários, observa-se ausência de diretriz institucional, incluindo falta de consenso sobre considerar sexo biológico ou identidade de gênero para avaliação ou prescrição das práticas.
A análise documental reforça esses achados ao evidenciar lacunas na incorporação dessas populações nas políticas, predominando uma lógica de universalidade abstrata, sem reconhecimento das demandas específicas dos usuários. Enquanto PCD aparecem de forma parcial, a população trans é amplamente invisibilizada. Essas ausências produzem efeitos concretos, contribuindo para a reprodução de barreiras simbólicas e institucionais.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que o PAC, embora orientado por princípios de universalidade, ainda opera a partir de referências normativas de corpo que limitam a inclusão efetiva de pessoas trans e PCD. A produção de (in)exclusão se dá no entrelaçamento entre diretrizes institucionais, práticas profissionais e experiências vividas. Destaca-se a necessidade de qualificação das práticas corporais com base em perspectivas interseccionais, incorporando a diversidade dos corpos como princípio norteador. O estudo contribui para o campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde ao evidenciar como as desigualdades são produzidas no cotidiano das políticas públicas.
TRAVESSIAS DO SER: BUCALIDADE, IDENTIDADE E TRABALHO SEXUAL EM EXPERIÊNCIAS TRANSFEMININAS
Comunicação Oral
1 Unicamp
2 USP
Apresentação/Introdução
A boca ultrapassa suas funções fisiológicas para constituir um território de produção social, subjetiva e simbólica. O conceito de bucalidade propõe um deslocamento epistemológico da odontologia tradicional, centrada na unidade dentária, para a compreensão da boca como espaço atravessado por relações sociais, práticas culturais e processos de subjetivação. A contrasexualidade evidencia que a distinção entre órgãos “sexuais” e “não sexuais” é historicamente construída e regulada por dispositivos de poder. Portanto, a boca pode ser compreendida como um território erótico, político e laboral.
Objetivos
Analisar os sentidos e significados atribuídos à boca por pessoas transfemininas que exercem o trabalho sexual, à luz do conceito de bucalidade.
Metodologia
Estudo clínico-qualitativo realizado com pessoas transfemininas que exercem o trabalho sexual, acompanhadas por uma organização não governamental em Ribeirão Preto, São Paulo. Foram conduzidas entrevistas individuais semidirigidas, em profundidade, audiogravadas e transcritas integralmente, com duração média de 20 a 40 minutos. A questão disparadora foi: “Você poderia me contar das suas experiências bucais?”. O número de participantes foi definido por saturação teórica. A análise seguiu a técnica de Análise de Conteúdo Clínico-Qualitativa em sete etapas: (1) edição do material para análise; (2) leitura flutuante; (3) construção das unidades de análise; (4) construção de códigos de significado; (5) refinamento geral dos códigos e construção de categorias; (6) discussão; e (7) validação. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa, e todas as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que a boca ocupa uma posição central e multifacetada na experiência das participantes. A análise qualitativa permitiu a identificação de três categorias analíticas: (1) a construção da feminilidade por meio do território bucal: estética, voz e performatividade; (2) boca como instrumento de trabalho e território de erotização; e (3) boca enquanto locus de vulnerabilidade e estigmatização. Na primeira categoria, elementos como voz, sorriso e estética dental foram descritos como recursos relevantes para a expressão da feminilidade e a performatividade de sexo/gênero. Na segunda, o território bucal emerge simultaneamente como instrumento de trabalho diretamente associado à geração de renda e à sobrevivência econômica e como espaço de erotização, dimensões indissociáveis no contexto do trabalho sexual. Na terceira, evidencia-se que esse processo de erotização vem acompanhado da objetificação dos corpos das participantes, sendo a boca descrita também como locus de vulnerabilidade, marcado pela exposição a riscos físicos, experiências de discriminação e julgamento moral. Os achados reforçam a bucalidade como ferramenta teórica capaz de ampliar a compreensão do processo saúde-doença para além da perspectiva “dentarizada”. Para pessoas transfemininas que exercem o trabalho sexual, a boca articula dimensões laborais, eróticas e identitárias que tensionam o modelo biomédico hegemônico, o qual relega a segundo plano os aspectos sociais, simbólicos e subjetivos das experiências corporais. O território bucal ocupa papel central para a autoestima e a afirmação de gênero dessas pessoas. Além disso, observa-se como a cisnormatividade exerce impacto direto sobre o corpo e, consequentemente, sobre a boca de pessoas transfemininas que realizam trabalho sexual. Paradoxalmente, no contexto do sexo oral, a boca adquire o status de cavidade erótica objetificada, ao mesmo tempo em que se verifica o rompimento de tabus higienistas que estigmatizam práticas sexuais dissidentes, como o sexo oral. Reduzir a escuta clínica à ótica biologicista e ignorar a percepção dos sujeitos sobre seus próprios corpos equivale a tratá-los como agentes passivos, destituídos de agência e autoridade epistêmica sobre si mesmos.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo evidencia que a bucalidade, analisada a partir das experiências de pessoas transfemininas em situação de trabalho sexual, configura-se por meio de dimensões laborais, eróticas, identitárias e sociais. Nesse contexto, a boca emerge como elemento central na expressão da feminilidade, na interação com clientes e nas estratégias de geração de renda e sobrevivência. Ao mesmo tempo, constitui-se como território atravessado por processos de erotização, objetificação e vulnerabilidades relacionadas ao estigma, à discriminação e à exposição a riscos no contexto do trabalho sexual. Aponta-se, assim, para a necessidade de ampliar o olhar da odontologia e dos serviços de saúde, incorporando perspectivas sensíveis à diversidade das experiências corporais.
GESTÃO DO CUIDADO E CONTINUIDADE DA ATENÇÃO À SAÚDE DE MULHERES TRANS E TRAVESTIS VIVENDO COM HIV: DESAFIOS PARA A INTEGRALIDADE NO SUS
Comunicação Oral
1 Universidade do Estado do Amazonas (UEA)
2 FMT-HVD
Apresentação/Introdução
A Terapia Antirretroviral (TARV) representa um dos principais avanços no enfrentamento do HIV/AIDS, contribuindo para a melhora da resposta imunológica e da qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV. No entanto, o acesso e a continuidade do tratamento entre mulheres trans e travestis ainda são atravessados por estigma, discriminação e desigualdades sociais, o que evidencia desafios para a integralidade do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS).
Objetivos
Analisar as possíveis causas que levam à interrupção do tratamento de mulheres trans e travestis vivendo com HIV/AIDS em uma unidade terciária de saúde de Manaus, à luz da gestão do cuidado e da continuidade da atenção no SUS.
Metodologia
Trata-se de um estudo descritivo de abordagem qualitativa, realizado na Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), em Manaus-AM. Participaram mulheres trans e travestis vivendo com HIV/AIDS que, em algum momento, interromperam a TARV, identificadas por meio do Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (SICLOM). A coleta ocorreu entre janeiro e agosto de 2025, por meio de entrevistas individuais gravadas. Os dados foram transcritos e analisados segundo a análise temática proposta por Braun e Clarke, com apoio do software MAXQDA. A amostra foi composta por três participantes. O estudo seguiu as diretrizes éticas vigentes.
Resultados e Discussão
Os achados evidenciam que a interrupção da TARV não se configura como uma decisão individual isolada, mas como resultado de uma complexa rede de vulnerabilidades sociais, estruturais e simbólicas. O itinerário terapêutico das participantes revelou trajetórias marcadas por descontinuidade, dificuldades de acesso e fragilidade na coordenação do cuidado. Foram identificadas barreiras relacionadas à falta de documentação, instabilidade de moradia, uso de substâncias, migração e ausência de rede de apoio institucionalizada. No âmbito dos serviços de saúde, destacam-se a demora no atendimento, a exposição durante a dispensação de medicamentos e a ocorrência de práticas como o uso inadequado de pronomes, configurando situações de constrangimento e transfobia institucional. Tais elementos indicam fragilidades na gestão da diversidade e na garantia da integralidade do cuidado, contribuindo para a evasão do serviço e a ruptura da continuidade da atenção. Além disso, aspectos como estigma, medo da exposição e isolamento social impactam diretamente a adesão ao tratamento, evidenciando a necessidade de estratégias intersetoriais que considerem as especificidades dessa população. Após a análise das entrevistas, foi possível perceber que desde o momento do diagnóstico até as etapas mais cotidianas do tratamento com a Terapia Antirretroviral (TARV), identificaram-se quebras no seguimento e no acesso, ora por fatores logísticos, ora por determinantes sociais de identidade de gênero. A interrupção do tratamento, presente majoritariamente nos relatos da comunidade transfeminina, não é fruto apenas da negligência individual, pois decorre de fatores como a exclusão social vivida por essas mulheres. A ausência de políticas públicas eficazes, o despreparo das equipes de saúde para lidar com a diversidade de gênero, o desrespeito ao nome social e a precarização do acolhimento constituem obstáculos significativos, que contribuem para o agravamento clínico e psicológico das participantes. A adesão integral à medicação, portanto, está atravessada por múltiplas camadas de opressão social, evidenciadas pela falta de moradia, pelo uso de substâncias, pela vivência nas ruas e pelo estigma da sorologia. Ademais, a transfobia institucional, como a falta de reconhecimento dos pronomes, o atendimento desrespeitoso realizado por profissionais de saúde e outras formas mais sutis de violência, como a exposição da farmácia onde a medicação é disponibilizada, corrobora para o afastamento dessa comunidade.
Conclusões/Considerações Finais
Apesar das distintas formas de violência, é inevitável destacar a importância de um sistema de apoio constituído por cônjuges e amigos na vivência dessas pessoas: o incentivo proporcionado por esse suporte constante transforma positivamente o cuidado individual e impulsiona o acompanhamento médico na manutenção da saúde. No entanto, ainda assim, o medo de revelar a sorologia à família ou ao parceiro, bem como o sentimento de culpa associado à infecção, revela o peso simbólico que o HIV carrega sobre os corpos dessas mulheres, contribuindo para sua morte social e afetiva. Assim, os achados deste estudo reafirmam que mais do que a oferta de medicamentos, é necessário reconhecer que a adesão à TARV está intrinsecamente ligada a condições de vida dignas, acolhimento respeitoso e reconhecimento social. O enfrentamento das barreiras que sustentam a exclusão dessa população exige o compromisso ético e político do sistema de saúde em promover equidade e garantir que essas mulheres possam viver com dignidade, autonomia e protagonismo em seus processos de cuidado.
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