Programa - Comunicação Oral Curta - COC13.2 - Práticas de Cuidado, Interseccionalidade, Vulnerabilidades e Promoção da Saúde Mental e Bucal
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
ATUAÇÃO DO CIRURGIÃO-DENTISTA EM VISITAS DOMICILIARES NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: DESAFIOS PARA A INTEGRALIDADE DO CUIDADO
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ/ILMD
2 IAES
3 UEA
Contextualização
A integralidade do cuidado, enquanto princípio do Sistema Único de Saúde (SUS), demanda a articulação entre práticas, saberes e sujeitos, reconhecendo as determinações sociais que atravessam os processos de saúde-doença (MERHY, 2002). Na Atenção Primária à Saúde (APS), a visita domiciliar (VD) constitui um importante dispositivo para a produção do cuidado no território adscrito às equipes de Saúde da Família, possibilitando a aproximação com as condições concretas de vida dos usuários (BRASIL, 2017; SAVASSI, 2016). Entretanto, sua efetivação tensiona o modelo hegemônico da saúde bucal, historicamente organizado sob uma lógica biomédica, procedimental e centrada no consultório, evidenciando disputas entre diferentes modos de produzir o cuidado (CUNHA; SÁ, 2013).
Descrição
Trata-se de um relato de experiência no âmbito da preceptoria em odontologia em um curso de Especialização em Saúde Pública com Ênfase em Saúde da Família, promovido pela SEMSA/ESAP, junto a cirurgiões-dentistas inseridos na Estratégia Saúde da Família (ESF). A experiência tomou a visita domiciliar como eixo problematizador das práticas de cuidado, permitindo tensionar os modos de organização do trabalho, os sentidos atribuídos à clínica e as relações entre profissionais, usuários e território. No desenvolvimento da preceptoria, foram acompanhados quatro alunos, cirurgiões-dentistas integrantes de equipes da ESF, cada um inserido em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) distinta, sendo três localizadas na zona norte e uma na zona oeste do município de Manaus, o que possibilitou a observação de diferentes realidades territoriais e organizacionais no âmbito da APS.
Período de Realização
A experiência foi realizada durante o período da especialização (período de 01/10/2023 a 01/04/2025).
Objetivo
Problematizar a visita domiciliar como dispositivo revelador das tensões na produção da integralidade do cuidado na APS, considerando seus atravessamentos organizacionais, sociais e subjetivos no contexto da saúde bucal.
Resultados
Observou-se que, nas três Unidades Básicas de Saúde (UBS) localizadas na zona norte, os cirurgiões-dentistas não realizavam visitas domiciliares como parte da rotina de trabalho, sendo essa prática desenvolvida apenas na UBS situada na zona oeste. Durante a preceptoria, esses profissionais relataram que a não realização dessas visitas estava relacionada, principalmente, à sobrecarga das agendas clínicas e à priorização do atendimento no consultório, voltado ao cumprimento de metas assistenciais. Também foi identificada a ausência de condições estruturais para a realização das visitas, especialmente a falta de transporte institucional, além de dificuldades de circulação em territórios marcados por violência e conflitos relacionados ao tráfico de drogas e à atuação de grupos criminosos.
Verificou-se que as visitas domiciliares eram realizadas predominantemente pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), que atuavam como mediadores entre os usuários e os dentistas, encaminhando as demandas para o atendimento clínico na unidade. No que se refere à saúde bucal, observou-se que o cuidado domiciliar não estava incorporado de forma sistemática ao processo de trabalho dos cirurgiões-dentistas, evidenciado pela ausência de protocolos, planejamento específico e suporte institucional para essa prática.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a realização da visita domiciliar pelos cirurgiões-dentistas desloca a prática do foco exclusivo no consultório para uma atuação mais implicada com as necessidades dos usuários e do território. Na única UBS em que a VD era realizada, observou-se uma postura mais ativa do profissional, com priorização do cuidado conforme a necessidade, realização de escuta qualificada e maior vínculo com os usuários, mesmo diante de limitações institucionais. Nas demais unidades, onde a VD não era incorporada à rotina, a prática manteve-se centrada no atendimento clínico e no cumprimento de metas. Esses achados indicam que a baixa adesão à VD não se explica apenas por decisões individuais, mas por uma organização do trabalho que desvaloriza as ações territoriais e reforça o modelo biomédico. Assim, a incorporação da visita domiciliar depende tanto de condições estruturais quanto do posicionamento dos profissionais frente às tensões entre a lógica produtivista e a integralidade do cuidado na Atenção Primária à Saúde.
A ASCENSÃO DA EXTREMA DIREITA NO BRASIL E SEUS IMPACTOS NA ATENÇÃO BÁSICA À SAÚDE EM FLORIANÓPOLIS
Comunicação Oral Curta
1 UFSC
Contextualização
A crise financeira de 2008, originada no colapso do mercado imobiliário dos Estados Unidos, teve impactos mais profundos no Brasil a partir de 2012. Nesse cenário, observa-se a ascensão da extrema direita, com marco nas Jornadas de Junho de 2013, inicialmente pautadas pelo passe livre e posteriormente apropriadas por setores conservadores. Esse processo, aliado à insuficiência do projeto de neoliberalismo progressista do Partido dos Trabalhadores, culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff. A partir disso, intensificam-se gestões neoliberais que direcionam a política pública aos interesses do capital financeiro, fragilizando o sistema representativo e os direitos sociais.
Descrição
O trabalho apresenta um relato de experiência no contexto da Atenção Básica à Saúde (AB), com foco nas equipes multiprofissionais (E-multi), após a revogação dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF). Destaca-se o impacto de políticas como a PEC 55/2016 e a Portaria nº 2.979/2019, que resultaram na redução de recursos, reorganização das equipes e precarização das condições de trabalho. A experiência é situada no município de Florianópolis, evidenciando mudanças na gestão da saúde, incluindo a ampliação das Organizações Sociais.
Período de Realização
A experiência relatada ocorreu durante o estágio profissionalizante em Psicologia, com ênfase no ano de 2025, no contexto da rede de Atenção Básica de Florianópolis.
Objetivo
Compartilhar e analisar as dificuldades enfrentadas pelas equipes multiprofissionais na Atenção Básica, especialmente no campo da Psicologia, a partir das transformações recentes nas políticas públicas de saúde, contribuindo para a reflexão crítica sobre a organização do trabalho e a defesa do SUS.
Resultados
Observou-se uma significativa defasagem de profissionais, com apenas 17 psicólogos(as) na rede em 2025, gerando sobrecarga e reforçando práticas ambulatoriais em detrimento de ações territoriais. A escassez também afeta outras categorias, como assistentes sociais e fisioterapeutas. O apoio matricial encontra-se fragilizado, ocorrendo de forma limitada entre poucas categorias profissionais. Além disso, há redução no número de agentes comunitários de saúde, impactando a territorialização e o vínculo com a população. No campo da educação, via Programa Saúde na Escola, identificam-se dificuldades estruturais que limitam ações mais aprofundadas.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a centralidade da atuação interdisciplinar e da construção coletiva do cuidado, ao mesmo tempo em que revelou os limites concretos impostos pela precarização do trabalho nas equipes multiprofissionais. A fragilização do apoio matricial, a sobrecarga de profissionais e a redução de agentes comunitários comprometem a integralidade do cuidado e a territorialização das ações em saúde.
Esses elementos não se apresentam de forma isolada, mas como expressão de um projeto político mais amplo, alinhado à lógica neoliberal, que prioriza interesses econômicos e corporativos em detrimento das políticas públicas universais. A revogação do NASF, a inserção de Organizações Sociais e o subfinanciamento da saúde indicam um movimento de desresponsabilização do Estado e de aprofundamento das desigualdades no acesso ao cuidado.
Nesse contexto, reforça-se a compreensão da saúde como um fenômeno sócio-histórico, que ultrapassa o campo biomédico e envolve condições estruturais como acesso à cultura, lazer, transporte e meio ambiente. Torna-se, portanto, fundamental a organização coletiva de trabalhadores e usuários na defesa de um SUS público, gratuito e de qualidade, bem como a construção de práticas em saúde comprometidas com o território e com a transformação social.
CUIDADO NO CÁRCERE: DIÁLOGOS E TENSÕES ENTRE A SEGURANÇA E A SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 Universidade de Brasília (UnB)
Contextualização
Este relato discute as experiências vividas pelos pesquisadores quando de uma pesquisa desenvolvida no Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal.
Descrição
Cada unidade prisional da Papuda possui uma UBS com equipe multiprofissional incorporada na Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade (PNAISP). As solicitações de atendimento são feitas pelos internos através do “catatau” – um bilhete com queixas entregue aos policiais penais e encaminhado à UBS para triagem.
Este percurso possui diversas camadas, desde o adoecimento até o atendimento. Muitos eram os tópicos citados pelos internos nos quais eram tratados as percepções, relatos e experiências de saúde vividas dentro da Papuda. Para além do que era dito em palavras, muitas informações sobre a situação saúde podem ser observadas em suas expressões físicas, na edificação do território onde vivem e no controle que é imposto sobre seus corpos e modos de agir. Existem diferentes pontos de vista, tanto das PPL quanto dos profissionais de saúde no que tange ao itinerário dos catataus e, consequentemente, dos encaminhamentos e atendimentos.
Período de Realização
A pesquisa de campo, realização de questionários e grupos focais, ocorreu entre julho e setembro de 2025 em quatro unidades prisionais com pessoas privadas de liberdade (PPL) em regime fechado e com os profissionais de saúde das Unidades Básicas de Saúde (UBS) de cada unidade.
Objetivo
Relatar as percepções sobre autonomia, direitos humanos e acesso à saúde da PPL, baseando-se nas observações realizadas e nos relatos dos internos e dos profissionais.
Resultados
É perceptível a perda de identidade e massificação dos corpos das PPL: cabelos raspados ou muito curtos, mãos para trás, olhar para ao chão e curvatura da coluna em um ângulo que confere uma postura que desenha a letra ‘c’ do alfabeto; todos enfileirados em silêncio sobre as ordens dos policiais penais que ditam o ritmo da passada, a direção e o momento em que os braços podem ser relaxados.
Após serem deixados em uma sala de aula com pesquisadores desconhecidos e com a saída dos policiais, os olhares começam a subir e, com a explicação do porquê de terem sido retirados de suas celas, um mínimo de confiança começa a ser estabelecido. Humilhação, má alimentação, fome, água insalubre, perda de dentes e falta de óculos são queixas recorrentes. Somam-se a isso ausência de visita de familiares, de visita íntima, tristeza e sentimento de solidão ao qual esses sujeitos outorgam como motivos da depressão e ansiedade que estão sofrendo.
Sobre a UBS, dizem que demora muito para serem chamados para o atendimento, desconfiam que o catatau não é entregue pelos policiais, relatam que muitas vezes é preciso estar desmaiando ou “quase morrendo” para que acreditem na urgência, além de testemunhos de violência a caminho da Unidade.
O atendimento ocorre com os sujeitos algemados e com presença policial. Pode-se dizer que existem interrupções nas falas dos pacientes pelos agentes de segurança e falta de privacidade. Tudo é mediado pela figura desse policial, como se o papel do agente comunitário de saúde fosse dele. Desde a desconfiança na entrega do catatau, na confirmação da urgência de atendimento a um interno, na deliberada violência infligida sobre seus corpos, na interferência durante os atendimentos.
Cadeia tem organização rígida e o papel dos policiais é garantir que tudo seja cumprido na sua devida ordem e garantir a segurança dos profissionais que lá trabalham – assim como a segurança dos internos. Essas questões são tensionadas a partir de relatos de violências diversas sofridas pelos PPL.
Aprendizado e Análise Crítica
O encarceramento causa ao sujeito adoecimento, perda de identidade, de autonomia e de direitos humanos básicos. Enquanto os profissionais da UBS têm a percepção de estarem conseguindo manter uma agenda compatível com as demandas da população, os internos reclamam de falta de atendimento. Ambos ressaltam o papel dos agentes de segurança no estabelecimento de rotinas sobre momentos possíveis de acessarem os serviços de saúde, bem como os sujeitos que deles podem usufruir. A PNAISP, política gerida pelas áreas da Saúde e da Segurança Pública, apresenta uma problemática que precisa de atenção no que confere aos papéis desempenhados no cuidado da PPL. Num território onde os direitos humanos se mostram frágeis, capacitação específica e diálogo entre os setores são fundamentais para que o atendimento seja humanizado e seguro para todas as partes, ainda que o território de vivência desse usuário seja todo intermediado pelos agentes de segurança a fim de garantir a ordem, o devido cumprimento de penas e a prevenção de possíveis manifestações de rebeldia e violência entre a massa carcerária.
GRUPO BEM VIVER: PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL E CUIDADO MULTIPROFISSIONAL NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE EM MANAUS
Comunicação Oral Curta
1 UEA
2 UFAM
Contextualização
A experiência foi desenvolvida a partir do acolhimento multiprofissional em uma Unidade de Saúde da Família (USF) localizada na zona sul de Manaus, Amazonas, envolvendo profissionais de psicologia, nutrição, educação física e farmácia clínica. Observou-se elevada demanda por atendimentos em saúde mental, associada à limitação de agenda e ao grande número de encaminhamentos para atendimento especializado. O tempo prolongado de espera via Sistema de Regulação (SISREG) resultava, frequentemente, no abandono do cuidado antes mesmo de seu início, contribuindo para o agravamento do sofrimento psíquico. Nesse contexto, identificou-se a necessidade de estratégias coletivas voltadas à promoção da saúde mental e ampliação do acesso ao cuidado no território.
Descrição
O grupo “Bem Viver” foi desenvolvido em espaço reservado da USF, com organização em círculo, favorecendo o diálogo e a escuta qualificada. As atividades foram conduzidas por equipe multiprofissional, com participação alternada dos diferentes núcleos, articulados à psicologia. Utilizaram-se metodologias ativas que incentivaram a participação dos usuários e o compartilhamento de saberes. As estratégias incluíram rodas de conversa, dinâmicas de grupo, técnicas de respiração e relaxamento, atividades expressivas, ações de psicoeducação em saúde mental e educação em saúde em sentido ampliado, com uso de linguagem acessível.
Período de Realização
A experiência teve início em fevereiro de 2026, com previsão de encerramento em maio de 2026, sendo realizada por meio de encontros quinzenais, previamente organizados, com flexibilidade para adequação às necessidades dos participantes.
Objetivo
Promover a saúde mental dos usuários da USF e prevenir o adoecimento psíquico por meio da criação de espaços coletivos de escuta, apoio e fortalecimento emocional, articulando diferentes áreas do cuidado e contribuindo para a ampliação do acesso aos serviços de saúde.
Resultados
Embora a experiência ainda esteja em andamento, observam-se indícios de melhora no bem-estar emocional dos participantes, evidenciados pela maior adesão aos encontros, participação ativa nas atividades propostas e fortalecimento do vínculo com a equipe de saúde. Destaca-se a permanência de parte dos usuários ao longo dos encontros e o aumento do engajamento nas rodas de conversa, com compartilhamento de experiências e construção coletiva de estratégias de enfrentamento.
Também se observa ampliação do acesso ao cuidado multiprofissional em menor tempo, contribuindo para a redução da demanda reprimida por atendimentos individuais. Relatos dos participantes indicam percepção de acolhimento, apoio emocional e melhoria na forma de lidar com o sofrimento psíquico, evidenciando a potência do grupo como espaço de cuidado na atenção primária.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a importância da abordagem ampliada do cuidado, considerando o usuário para além do adoecimento psíquico, em suas dimensões físicas, sociais e subjetivas. O trabalho multiprofissional mostrou-se fundamental para a compreensão integral das necessidades em saúde e para o fortalecimento de práticas colaborativas. Observou-se como potência a transição de um modelo centrado na doença para um cuidado centrado no sujeito, favorecendo processos de escuta e redução da medicalização de sofrimentos relacionados a questões sociais e relacionais.
Entretanto, apesar dos avanços observados na adesão e no vínculo, persistem desafios relacionados à continuidade da participação dos usuários e à alta demanda por atendimentos individuais, evidenciando limitações estruturais do serviço. Destaca-se que o cuidado em grupo não deve ser compreendido apenas como estratégia para redução de filas, mas como uma tecnologia relacional complexa, que promove autonomia, pertencimento e prevenção do agravamento do sofrimento psíquico no âmbito da atenção primária à saúde.
ADVOCACIA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO EM SAÚDE BUCAL: EXPERIÊNCIAS DO PROGRAMA CORE EM POPULAÇÕES VULNERABILIZADAS
Comunicação Oral Curta
1 UFPE-PPGSCA
2 UFPE
3 UFPE_PPGSCA
Contextualização
As desigualdades em saúde bucal no Brasil expressam-se de forma mais intensa em populações vulnerabilizadas, sendo determinadas por fatores sociais, territoriais e comerciais. Nesse contexto, o Programa CORE (Community Oral Health Research for Equity) articula pesquisa, formação e incidência política com foco na equidade em saúde bucal.
Descrição
Trata-se de uma análise construída a partir dos relatórios técnicos e das vivências desenvolvidas nos primeiros seis meses dos projetos financiados pelo Fundo de Pesquisa Responsivo, vinculado ao Programa CORE. O edital foi estruturado com foco na equidade em saúde bucal, priorizando pesquisas voltadas às desigualdades e aos determinantes sociais e comerciais da saúde, com ênfase em populações vulnerabilizadas e territórios das regiões Norte e Nordeste. A análise abrange experiências desenvolvidas nas regiões Norte, Nordeste e Sul do Brasil, considerando os resultados do edital, as ações de campo realizadas, a produção de seminários e grupos de estudo, além das rodas de conversa e estratégias de engajamento entre pesquisadores, profissionais de saúde, trabalhadores de organizações da sociedade civil e os grupos participantes.
Período de Realização
Junho de 2025 a Abril de 2026
Objetivo
Analisar o eixo de ações de advocacia e produção do conhecimento sobre as condições de saúde e saúde bucal em populações vulnerabilizadas no âmbito do Programa CORE, à luz das desigualdades em saúde e dos determinantes sociais.
Resultados
O edital contou com 13 propostas submetidas, evidenciando diversidade de perfis entre os proponentes e alinhamento com os princípios de equidade. Os projetos selecionados contemplaram diferentes contextos de vulnerabilidade social, incluindo comunidades quilombolas, populações ribeirinhas e população LGBTI+, reforçando a diversidade territorial e social das iniciativas apoiadas. Após seis meses, observa-se a mobilização dos territórios, o fortalecimento do engajamento comunitário e a ampliação do compartilhamento de saberes entre pesquisadores, profissionais de saúde, organizações sociais e comunidades. As ações têm favorecido a produção coletiva do conhecimento e ampliado espaços de escuta e participação. Destaca-se a interseccionalidade como categoria central, evidenciando como marcadores sociais como raça, território, gênero e orientação sexual se articulam na produção e no agravamento das desigualdades em saúde bucal.
Aprendizado e Análise Crítica
As experiências evidenciam o potencial de estratégias que articulam produção do conhecimento e advocacia no enfrentamento das desigualdades em saúde bucal. O Programa CORE contribui para fortalecer práticas orientadas pela equidade, participação social e abordagem interseccional, apontando caminhos para a qualificação das políticas públicas e do cuidado em saúde, e como parte indissóciável a saúde bucal.
A SAÚDE PARA ALÉM DOS MUROS INSTITUCIONAIS: OCUPAÇÕES URBANAS COMO ESPAÇOS PRODUTORES DE CUIDADO E RESISTÊNCIA POR EQUIDADE NO SUS
Comunicação Oral Curta
1 USP
Contextualização
A luta por moradia no Brasil responde ao déficit habitacional, contando com movimentos sociais na construção de ocupações que denunciam propriedades sem função social. Ao transformar espaços ociosos em moradia, agregam-se famílias plurais que, no coletivo, utilizam sua individualidade como potência.
As ocupações são marcadas pela luta ao direito à moradia, mas são também ambientes pulsantes: ao ocupar, não se divide apenas o teto, mas o cuidado. Para além dos serviços de saúde, esse cuidado se reflete nos territórios que, por suas subjetividades, demandam olhares interseccionais. Como elementos do território, as ocupações cultivam vivências pela cozinha coletiva, creche comunitária, troca de saberes, arte ou acolhimento.
Analisar os processos de cuidado e o acesso à saúde, buscando soluções de equidade no SUS, reafirma o protagonismo dos moradores de ocupações tanto na sua autonomia quanto no seu pertencimento como membros constituintes do território.
Descrição
Durante a graduação em Saúde Pública tive a oportunidade de participar de um movimento que constrói ocupações para mulheres vítimas de violência, participando de atividades dentro e fora da minha Universidade. A ocupação que tive mais contato foi a Casa Laudelina de Campos Melo até então localizada na região do Pari/ Canindé no Município de São Paulo, nesta ocupação pude compreender seu papel tanto para o movimento quanto para os moradores do bairro. No período da pandemia de COVID-19, esta mesma ocupação construiu uma cozinha solidária para os moradores da região que passavam por dificuldades financeiras e insegurança alimentar, com o tempo a Casa Laudelina adaptou uma brinquedoteca para o uso das crianças, oferecia oficinas de costura, bordado, artesanatos e outras atividades que integravam os moradores daquele território à ocupação.
Existindo e resistindo desde 2021, a Casa Laudelina passou por inúmeras adversidades, mas tornou-se referência em acolhimento, oferecendo apoio psicológico, jurídico e social gratuitamente, principalmente a mulheres da região. O movimento também foi incluído no conselho gestor da Unidade Básica de referência e pôde compartilhar as demandas dos moradores com o serviço de saúde, buscando coletivamente soluções para questões que atravessavam os muros do SUS.
Ao estagiar em uma UBS de outra região, presenciei relatos de moradores de ocupações sobre barreiras severas no acesso à saúde. A discrepância entre esses relatos e minha vivência no movimento social gerou questionamentos sobre como ocorre a produção de cuidado em espaços onde a equidade ainda é um direito a ser conquistado. Tais reflexões persistem e hoje consolidam meu objeto de estudo no mestrado.
Período de Realização
O início das participações em movimentos sociais de moradia se deu no segundo semestre de 2022 até o final do primeiro semestre de 2024. Em 2025, retornei para uma das ocupações para trabalhos pontuais, além disso tive a oportunidade de ter contato com moradores de ocupações durante um estágio realizado em uma UBS no mesmo ano.
Objetivo
Relatar a experiência de aproximação e inserção de uma sanitarista em movimentos de moradia e ocupações durante a Graduação em Saúde Pública. O relato busca compartilhar as vivências e a identificação das diversas expressões de saúde que surgiam nesses espaços e que constituíam as relações de cuidado, buscando refletir sobre as potências e contradições em territórios com ocupações urbanas.
Resultados
A experiência no movimento social e a oportunidade de estagiar em uma UBS revelaram contrastes profundos no acesso à saúde. A discrepância entre os relatos, o reconhecimento do potencial de cuidado e coletividade das ocupações, as barreiras institucionais e os determinantes que tensionam a vida dos moradores, evidenciaram a necessidade de investigar esse cenário. Reconhecer que os moradores de ocupações enfrentam invisibilidades e estigmas que dificultam o acesso pleno ao SUS impulsionou a necessidade de aprofundar o debate e estudo sobre equidade no acesso, construindo a base para o meu projeto de mestrado.
Aprendizado e Análise Crítica
Compreender como a saúde se manifesta para além dos serviços assistenciais é pensar em formas de replicar os princípios do SUS no dia a dia e nos espaços que ocupamos promovendo justiça social. O estudo aposta no protagonismo dos usuários na gestão do cuidado e em uma Atenção Primária integrada com as demandas de espaços vulnerabilizados, especialmente em relação às ocupações, que são espaços potentes para a promoção da saúde.
A saúde nas ocupações atravessa os cuidados clínicos e se ancora na coletividade e nas formas insurgentes de organização, na tentativa de driblar barreiras estruturais criadas por estigmas e invisibilidade social. Por mais que sejam espaços vulnerabilizados, buscam construir alternativas na produção do cuidado. Fortalecer a APS exige um olhar atento para esses espaços, considerando essas resistências do “ser e existir” como parte constituinte da busca por justiça social e equidade.
INTERSECCIONALIDADE NA SAUDE COLETIVA: CUIDADO INTEGRAL E EQUITATIVO PARA AS DIVERSAS PESSOAS E SUAS MÚLTIPLAS IDENTIDADES
Comunicação Oral Curta
1 UERJ/ UFRJ
2 UERJ
3 UFRJ
Contextualização
Relato de experiência que sistematiza reflexões e ações realizadas na formação, educação permanente e gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) sobre o cuidado integral e equitativo, na perspectiva interseccional. Em sua concepção, o SUS visa garantir o acesso universal, integral e equitativo à saúde para todas as pessoas. No entanto, a efetivação desse preceito encontra desafios complexos e de distintas naturezas, inclusive, considerar que a atenção à saúde implica em pensar nas interações das diversas identidades dos usuários, sejam elas: de gênero, raça/etnia, orientação sexual, ciclos de vida com suas especificidades, grupos e/ou populações e territórios vulnerabilizados e/ou estigmatizados e excluídos de seus direitos, tais como, população privada de liberdade e em situação de rua. Ignorar essa pluralidade de identidades ao formular e implementar políticas de saúde e educação resulta na perpetuação de iniquidades em saúde, por consequência na sua viabilidade como direito social universal, integral e equitativo.
Descrição
A interseccionalidade, conceito desenvolvido por Kimberlé Crenshaw, é essencial para desvendar como diferentes eixos de opressões e privilégios se cruzam e interagem, moldando as experiências individuais e coletivas. A análise se concentra no impacto da formação profissional na perspectiva interseccional, políticas públicas e gestão do cuidado no acesso, qualidade, resolutividade dos serviços e na promoção de cuidado mais humanizado, integral e justo para diferentes grupos sociais.
Período de Realização
As reflexões, em andamento, iniciaram-se em 2022, na Universidade do Rio de Janeiro (UERJ) e, em 2026, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Objetivo
Analisar como as políticas públicas de educação na saúde no Brasil, fomentam a gestão do cuidado integral e equitativo para as diversas identidades dos usuários.
Resultados
O diálogo entre ensino-extensão-práticas de cuidado na perspectiva interseccional, é realizada, na UERJ, no projeto de extensão: “O negro no mundo contemporâneo: empoderamento e direitos”, desde 2022. A temática é ministrada na subárea Ética-Social, a partir de 2023, para o primeiro período da Graduação em Enfermagem. Em 2025-2026, o “Cuidado na perspectiva interseccional”, foi inserido como eixo temático para nortear as ações de extensão na Faculdade de Enfermagem. No âmbito da educação permanente destaca-se o curso “Interseccionalidade e Saúde: ferramentas para a equidade e cuidado”, ofertado pela UFRJ ao Ministério da Saúde para a Rede Una-SUS, para ampla difusão de conhecimento para estudantes e profissionais de saúde, em 2026.
Aprendizado e Análise Crítica
A identidade deve ser vista como ponto central na experiência da clínica ampliada com cuidado centrado no usuário, para que este seja percebido e respeitado em suas singularidades. Políticas Públicas Afirmativas e Equitativas devem ser evocadas para o reconhecimento de desigualdades, históricas e estruturais, entre os diferentes grupos sociais, que se naturalizam no inconsciente coletivo e produzem iniquidades em saúde. Neste cenário, reflete-se sobre o papel da Atenção Primária à Saúde (APS) como espaço privilegiado para a gestão do cuidado integral e equitativo. Ao atuar próximo aos territórios onde vivem as pessoas, apresenta um potencial para o reconhecimento da pluralidade das identidades e suas interseccionalidades. Reafirma-se a necessidade de diálogo e participação de movimentos sociais e organizações que pautem a interseccionalidade na agenda pública de formulação, implementação e avaliação das políticas de saúde e de outras áreas, considerando seu caráter intersetorial. É urgente que se introduza a temática interseccionalidade na educação em saúde, para que estudantes, profissionais e usuários compreendam que as identidades se interconectam, criando experiências únicas de vulnerabilidade e discriminação que precisam ser compreendidas e incorporadas na atenção à saúde. Observa-se que os princípios doutrinários do SUS: universalidade, integralidade e equidade são indissociáveis e interdependentes. A saúde é uma prática social, nos quais seus profissionais podem ser sujeitos políticos para contribuir na transformação ou na manutenção de estruturas sociais desiguais. Ao longo do tempo, identificam-se avanços no campo das Políticas Públicas de Saúde Equitativas, referentes a abordagem por ciclos de vida e as pessoas e/ou populações, histórica e estruturalmente, vulnerabilizadas, tais como: mulheres, negras e negros, LGBTQIAPN+, pessoas privadas de liberdade, em situação de rua, ribeirinhos, entre outras. Todavia esses grupos ainda seguem estigmatizadas, com barreiras de acesso as ações/serviços de saúde, vítimas de práticas discriminatórias e socialmente conservadoras. Segue o desafio da produção em saúde que dialogue com os determinantes sociais da saúde em todos os níveis e que considere que prática social da saúde deve estar comprometida com a dignidade e o respeito à vida das pessoas, a promoção de direitos de cidadania com vistas a contribuir com a justiça social.
UMA EXPERIÊNCIA EXTENSIONISTA DE GESTÃO AUTÔNOMA DA MEDICAÇÃO NO AMBULATÓRIO DE SAÚDE MENTAL DA POLICLÍNICA PIQUET CARNEIRO/UERJ.
Comunicação Oral Curta
1 UERJ
Contextualização
A Gestão Autônoma da Medicação (GAM) é uma estratégia de promoção de autonomia e cogestão do cuidado em saúde valorizando os saberes do usuário. A GAM segue os princípios da Reforma Psiquiátrica brasileira na defesa dos direitos das pessoas sobre as decisões de seus tratamentos. Para isso, considera-se os conhecimentos sobre os direitos às informações do tratamento, poder de negociação na
comunicação de efeitos adversos e outras formas de cuidado, valorização de vivências e potenciais para enfrentamento de problemas na construção de cada Plano Terapêutico.
Descrição
No ambulatório de saúde mental da Policlínica Piquet Carneiro (PPC) as atividades da GAM são realizadas com um grupo de usuários que frequentam o serviço. Os grupos são abertos, permitindo às pessoas participação facultativa O grupo GAM na PPC é uma ação extensionista universitária, e devido a isso também é cenário de educação em serviço para discentes de graduação em psicologia que frequentam o serviço.
Período de Realização
O grupo GAM da PPC é um projeto de extensão e acontece desde o ano de 2024 até os dias atuais, com intervalo quinzenal e duração de aproximadamente 60 até 90 min.
Objetivo
São objetivos do grupo GAM promover a integralidade do cuidado em saúde, partindo-se da valorização dos usuários em conjunto com os profissionais de saúde. Além disso, o grupo GAM da PPC é uma ação extensionista que impulsiona a interação dialógica entre a universidade e a população assistida e também é um ambiente interdisciplinar de educação em serviço.
Resultados
Como resultados esperados, pretende-se desenvolver a autonomia dos usuários, a socialização de informações a respeito das possibilidades de tratamento para além da prescrição medicamentosa e a promoção
de espaços de compartilhamento de experiências e reflexões sobre o uso crítico de medicamentos no tratamento de saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
O grupo GAM é importante nas ações de fomento do cuidado integral em saúde, aos usuários que frequentam o ambulatório de saúde mental da PPC. Assim, fomentar estratégias que valorizam os saberes e fortalece o caminho para mudanças na perspectiva do cuidado, avançando na possibilidade de reformulação de novas práticas em saúde.
PROMOÇÃO DA SAÚDE DE MULHERES PRIVADAS DE LIBERDADE: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE UMA AÇÃO MULTIPROFISSIONAL NO SISTEMA PRISIONAL NO RIO DE JANEIRO
Comunicação Oral Curta
1 SMS/RJ
2 UFRJ
Contextualização
A garantia de acesso à saúde para mulheres privadas de liberdade é assegurado através da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) atuando dentro do sistema prisional que é estabelecido pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade (PNAISP). As ações de promoção da saúde e cuidado integral às mulheres em privação de liberdade tornam-se fundamentais considerando todas as especificidades relacionadas à saúde das mulheres e as condições de vulnerabilidade que se manifestam no ambiente prisional.
Descrição
Trata-se de um relato de experiências vivenciadas por residentes de diferentes áreas da saúde durante uma ação multiprofissional realizada em uma unidade prisional feminina no município do Rio de Janeiro. A intervenção foi proposta em três eixos de cuidado: saúde mental, saúde bucal e saúde da mulher.
Inicialmente foi realizada uma dinâmica coletiva voltada para a saúde mental com todas as internas com o objetivo de reforçar o cuidado, a rede de apoio e para se lembrarem quem elas eram. Durante essa atividade a fisioterapia contribuiu com orientações acerca da importância da atividade física, orientou acerca de exercícios de mobilidade, alongamento e força muscular, também conduziu exercícios respiratórios como estratégias para manejo da ansiedade. No segundo bloco as internas eram dividas em dois grupos que iam realizar avaliação com a saúde bucal e a consulta com a enfermeira para realização de testes rápidos, cadastro e preventivo.
Período de Realização
A ação ocorreu durante três vezes na semana, durante o mês de março de 2026, o mês conhecido como o mês da mulher.
Objetivo
O objetivo foi promover ações de cuidado integral e educação em saúde para mulheres privadas de liberdade por meio de uma intervenção multiprofissional voltada à saúde mental, saúde bucal e saúde da mulher.
Resultados
A atividade possibilitou a construção de um espaço coletivo de promoção da saúde, favorecendo o acesso à informação, o incentivo ao autocuidado e identificação de demandas de saúde as internas. a atuação multiprofissional contribuiu para ampliar o cuidado integral através de práticas educativas e estratégias da promoção da saúde e rastreamento de necessidades.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a importância da atuação interprofissional no contexto da saúde prisional e demonstrou o potencial das práticas coletivas de educação em saúde para fortalecer estratégias de cuidado e bem estar entre mulheres privadas de liberdade.
A vivência demonstrou a necessidade de fortalecimento de ações contínuas e articuladas de promoção à saúde prisional, evidenciando o papel das equipes de Atenção Primária Prisional na ampliação do acesso ao cuidado integral para essa população.
INTERDIÇÃO SANITÁRIA DE COMUNIDADE TERAPÊUTICA: RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE DIREITOS HUMANOS, AMBIENTE E SAÚDE MENTAL
Comunicação Oral Curta
1 SES/MG
Contextualização
Relata-se a experiência de inspeção sanitária intersetorial realizada, em novembro de 2025, em uma comunidade terapêutica localizada no interior de Minas Gerais, a partir de demanda da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa.
Descrição
A ação reuniu Vigilância Sanitária estadual e municipal, referência técnica da saúde mental, assistência social, equipe VISA CIS, polícia civil, evidenciando a interface entre regulação sanitária, defesa de direitos e cuidado em saúde mental. A experiência insere-se no debate sobre ambiente, convivência, democracia e transculturalidade porque o espaço inspecionado reproduzia isolamento, precarização da vida, controle moral e vulnerabilização de pessoas historicamente fragilizadas, em desacordo com os princípios do SUS e da atenção psicossocial.
Período de Realização
Inspeção em 14 de novembro de 2025, com sistematização técnica e adoção de medidas sanitárias nos dias subsequentes.
Objetivo
Sistematizar criticamente os achados e aprendizados de uma inspeção sanitária em comunidade terapêutica, destacando como condições ambientais degradantes, violações de direitos e fragilidades regulatórias podem agravar o sofrimento mental e comprometer a política de saúde mental no Brasil.
Resultados
Foram encontrados 29 residentes, entre homens e mulheres, incluindo pessoas com dependência química, idosos, pessoa cadeirante, pessoa acamada e indivíduos com transtornos mentais, sem triagem prévia, avaliação diagnóstica, prontuários adequados ou projeto terapêutico consistente. Observaram-se edificação extremamente degradada, esgoto a céu aberto, quartos com odor de urina e fezes, portas trancadas, fiação exposta, alimentação insuficiente e insegurança alimentar, alimentos e medicamentos vencidos, psicotrópicos sem prescrição válida, ausência de responsável técnico, uso de residentes como cuidadores de outros residentes e indícios de castigo psíquico/moral. Também houve situação de tensão durante a inspeção, com ameaças e registro de filmagem da equipe sem autorização. Diante da gravidade e do risco iminente à saúde e à integridade dos acolhidos, o estabelecimento e os medicamentos foram interditados cautelarmente.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência demonstrou que a inspeção sanitária, quando articulada à saúde mental, assistência social, apoio jurídico e, quando necessário, à segurança pública e à polícia civil, torna-se mais potente para proteger residentes e equipe inspetora diante de contextos de violência institucional e possível violação de direitos humanos. Mostrou ainda que comunidades terapêuticas podem operar como ambientes de exclusão, contenção moral e ruptura de vínculos, contrariando a lógica territorial, comunitária e antimanicomial da Rede de Atenção Psicossocial. Embora existam exigências sanitárias mínimas, persistem fragilidades normativas para coibir práticas asilares e assegurar responsável de nível superior com formação em saúde, presença técnica qualificada e responsabilização clínica e ética. Essa fragilidade contribui para a reprodução de práticas excludentes e potencialmente violadoras de direitos, configurando risco à consolidação da política de saúde mental no Brasil. Torna-se urgente o aprimoramento regulatório e o fortalecimento das ações de fiscalização, em perspectiva intersetorial e de defesa da democracia, para garantir cuidado ético, qualificado e coerente com os direitos humanos e os princípios do SUS.
Realização: