Programa - Comunicação Oral - CO12.1 - Equidade, ações afirmativas e permanência estudantil
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ANÁLISE COMPARATIVA DAS POLÍTICAS AFIRMATIVAS NA FORMAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA: DIVERSIDADE, PERMANÊNCIA E DESAFIOS NA PÓS-GRADUAÇÃO
Comunicação Oral
1 UFC
2 UFBA
3 UFPI
4 UECE
Apresentação/Introdução
As políticas afirmativas no Brasil devem ser compreendidas como conquistas históricas resultantes da luta de movimentos sociais e intelectuais negros frente às desigualdades estruturais produzidas pelo racismo. No campo educacional, emergem como estratégias de democratização do acesso e reparação histórica de grupos excluídos. No âmbito da pós-graduação, embora haja um avanço na implementação das ações afirmativas, os espaços formativos ainda são atravessados por dinâmicas marcadas pela branquitude, pelo produtivismo acadêmico e por práticas institucionais que dificultam a efetiva inclusão. A saúde coletiva apresenta um compromisso ético-político com a justiça social. Assim, é importante compreender como as dinâmicas institucionais produzem silenciamentos, tensionam a diversidade e condicionam as possibilidades de acesso e permanência desses grupos.
Objetivos
Analisar a implementação das políticas afirmativas na pós-graduação em Saúde Coletiva em três universidades públicas brasileiras, com ênfase nas dimensões de acesso e permanência.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de abordagem descritivo-analítica e comparativa realizada em três instituições públicas localizadas no Nordeste do Brasil que ofertam programas de pós-graduação em Saúde Coletiva (PPGSC). O estudo fundamenta-se na análise documental de atos normativos institucionais, resoluções, regimentos, editais de seleção e documentos oficiais que regulamentam as políticas de ações afirmativas no período de 2010 a 2025. Complementarmente, foram considerados marcos legais nacionais que orientam essas políticas, como legislações de cotas e diretrizes do Ministério da Educação e da CAPES. A análise foi conduzida a partir de uma perspectiva crítica das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, mobilizando categorias analíticas como ações afirmativas, desigualdades sociais e colonialidade. Os dados foram organizados por instituição e analisados de forma comparativa, buscando identificar convergências, especificidades e limites na implementação das políticas afirmativas, com foco nas dimensões de acesso e permanência.
Resultados e Discussão
A análise das ações afirmativas nos PPGSC de três instituições públicas de ensino superior da região Nordeste revela trajetórias distintas de amadurecimento, influenciadas por conjunturas políticas e dimensões institucionais. Uma das instituições iniciou o processo em 2018, destacando-se pela adoção de uma perspectiva interseccional ao incluir pessoas trans, quilombolas e refugiados; ainda assim, observa-se uma institucionalização tardia das ações afirmativas. Em contraste, outra universidade evidenciou pioneirismo em âmbito estadual ao adotar cotas raciais em 2020, antecipando a obrigatoriedade federal, posteriormente consolidada em 2023 por normativas institucionais. Por fim, a terceira universidade apresenta um processo de “consolidação em camadas”: inicialmente voltado a servidores e pessoas com deficiência, avançou de forma gradual, incorporando cotas raciais apenas em 2020. Os modelos de concorrência para o acesso refletem diferentes estratégias. O primeiro programa analisado utiliza um sistema híbrido com vagas supranumerárias, ampliando a diversidade sem reduzir a ampla concorrência, além de regras diferentes para cada grupo. Outro utiliza o "bolsão unificado", integrando beneficiários em um fluxo seletivo simplificado, enquanto um terceiro PPG articula inclusão com qualificação profissional da universidade, reservando 20% das vagas para servidores. Além disso, dois deles aplica heteroidentificação obrigatória, enquanto outro adotou um modelo reativo, acionado por denúncia, visando reduzir custos administrativos. A permanência estudantil apresenta disparidades. Dois deles possuem editais de bolsas articulados a outros marcadores de vulnerabilidade social. O terceiro demonstra maior limitação para transformar normas em práticas efetivas de justiça social. A inclusão de outras inciativas de permanência também variam entre os PPG analisados. À luz desses resultados, é possível circunscrever uma analítica da racialidade que opera na institucionalização das políticas afirmativas em PPGSC. A análise, inspirada na avaliação em profundidade (GUSSI,2019), identificou categorias analíticas relacionadas à reparação histórica tardia das ações afirmativas, à governança burocrática, à estratificação institucional do acesso à pós-graduação e à oscilação das políticas de democratização universitária, em diálogo com reflexões do pensamento social negro, como as de Sueli Carneiro (2023), Lélia Gonzalez (2022) e Achille Mbembe(2018).
Conclusões/Considerações Finais
As experiências das instituições analisadas evidenciam que a consolidação das ações afirmativas na pós-graduação ocorre de forma desigual e condicionada a contextos institucionais e políticos. Assim, reafirma-se que a efetividade da equidade depende da articulação entre acesso, verificação e políticas consistentes de permanência.
ESTRATÉGIAS PARA O FORTALECIMENTO DAS AÇÕES AFIRMATIVAS NA PÓS-GRADUAÇÃO: EXPERIÊNCIA DE UM MESTRADO PROFISSIONAL EM REDE
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ
2 UERJ
Contextualização
O acesso à educação superior no Brasil esteve, por muito tempo, restrito a uma minoria dotada de privilégios sustentados pelas assimetrias raciais e sociais produzidas e perpetuadas ao longo da formação social brasileira. Apesar dos avanços, com a ampliação das oportunidades de acesso, a academia segue reproduzindo padrões racistas, hegemônicos e excludentes. Nos dias 26 e 27 de março de 2026 aconteceu o 1º Fórum Nacional de Ações Afirmativas para discutir caminhos para o fortalecimento dessas políticas. O Mestrado Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE) tem adotado estratégias voltadas ao fortalecimento da equidade e das políticas afirmativas, considerando que se trata de um programa de pós-graduação em rede nacional, cuja abrangência e capilaridade não apenas amplia o acesso à pós-graduação, mas também explicita as desigualdades sociais, raciais e regionais que atravessam a vida e trajetória dos profissionais que ingressam no programa.
Descrição
Dentre as estratégias adotadas pelo programa, destacam-se:
1. A elaboração de um documento nacional com recomendações sobre ações afirmativas e inclusão no âmbito do programa; 2. Incorporação de oferta de vagas afirmativas no Edital da Seleção Nacional de Acesso da turma 5; 3. Flexibilização do acesso, com retirada do caráter eliminatório da prova de inglês na primeira etapa; 4. Inclusão de disciplina voltada às realidades dos territórios da APS e ao enfrentamento das desigualdades e do racismo em saúde; 5. Formação docente em temas como racismo, branquitude, equidade em saúde e decolonialidade no âmbito da academia e do SUS; 6. Ação de acolhimento e escuta direcionada a estudantes ingressantes por ações afirmativas; 7. Revisão do regimento do programa, com incorporação de diretrizes voltadas à permanência e ao acompanhamento acadêmico desses estudantes; 8. Publicação de um material de apoio intitulado “Letramento em Ações Afirmativas: cartilha informativa do PROFSAÚDE”; 9. Produção de obras de narrativas de discentes e egressos, ampliando a compreensão das realidades sociais e dando visibilidade às diferentes trajetórias discentes; 10. Estabelecimento de cooperação internacional com Angola, contribuindo para o enfrentamento de desigualdades globais e para a ampliação da diversidade na formação; 11. Adequação do processo seletivo da próxima turma às diretrizes da Portaria GM/MS nº 5.801/2024, que institui o Programa de Ações Afirmativas do Ministério da Saúde.
Período de Realização
As estratégias foram desenvolvidas e implementadas pelo/no PROFSAÚDE, no período de 2023 a 2026, para fortalecer as ações afirmativas e ampliar o debate sobre equidade e diversidade no âmbito do programa em rede nacional.
Objetivo
Descrever as estratégias implementadas no PROFSAÚDE para fortalecer as ações afirmativas e ampliar o debate sobre equidade e diversidade no programa.
Resultados
As ações implementadas têm produzido impactos relevantes no programa. Observou-se um aumento significativo da candidatura em vagas afirmativas no processo seletivo em curso. Em relação a oferta, de 204 vagas aumentou para 334 (63,7%) e em relação ao número de inscrições homologadas, na turma anterior foram 298 inscrições, houve um aumento para 1.203, que corresponde a quase 300%. Além disso, destacam-se as mudanças no ambiente acadêmico, como o fortalecimento do sentimento de pertencimento e acolhimento entre os discentes e também sensibilização do corpo docente para as temáticas relacionadas às desigualdades e ao racismo, além da adoção de estratégias locais de acompanhamento de discentes pelas coordenações locais. Na última avaliação quadrienal, as estratégias desenvolvidas e implementadas pelo programa foram reconhecidas, sendo destacadas como exemplo para outros programas, em razão de sua amplitude e profundidade na defesa da equidade.
Aprendizado e Análise Crítica
No contexto da formação em saúde, as ações afirmativas assumem papel fundamental na promoção da equidade, da diversidade e da democratização do acesso, que contribuem para um ambiente acadêmico mais equânime e representativo, essencial para a formação de profissionais comprometidos com a redução das desigualdades e sensíveis às realidades dos territórios e necessidades das comunidades. A produção de cuidado nos territórios é indissociável das experiências e subjetividades dos sujeitos, constituindo-se tanto a partir de suas trajetórias de vida quanto de suas práticas profissionais. As estratégias adotadas pelo programa evidenciam avanços importantes na promoção da equidade e da diversidade na pós-graduação, contribuindo para a ampliação do acesso e para a construção de um ambiente acadêmico mais sensível às pluralidades, bem como às desigualdades. É necessário o fortalecimento contínuo de políticas e estratégias voltadas à permanência e conclusão da formação. Nesse sentido, destaca-se a importância de iniciativas institucionais articuladas, capazes de consolidar uma formação comprometida com a diversidade, com os territórios e com os princípios da Atenção Primária à Saúde e do Sistema Único de Saúde.
SENTIDOS E SIGNIFICADOS DO ACESSO, PERMANÊNCIA E EXPERIÊNCIAS ACADÊMICAS ENTRE ESTUDANTES COTISTAS E NÃO COTISTAS DO CURSO DE SAÚDE COLETIVA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
Comunicação Oral
1 UnB
2 UB
Apresentação/Introdução
A implementação das políticas de ação afirmativa no ensino superior brasileiro, a partir da Lei nº 12.711/2012 e suas atualizações posteriores, promoveu mudanças importantes no perfil social, racial e econômico das universidades públicas. Essas políticas ampliaram o acesso de estudantes oriundos de escolas públicas, de baixa renda, negros, indígenas, pessoas com deficiência e, mais recentemente, quilombolas. Após duas décadas da aprovação destas políticas na Universidade de Brasília (UnB) torna-se relevante conhecer os avanços e desafios quanto à permanência, ao desempenho acadêmico e às experiências vividas por esses estudantes no ambiente universitário.
Objetivos
Compreender os sentidos e significados das trajetórias de vida, desempenho acadêmico e permanência entre estudantes cotistas e não cotistas do curso de graduação de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde (FCTS) da UnB.
Metodologia
Estudo qualitativo baseado em análise de conteúdo temática. Foram realizadas 27 entrevistas semiestruturadas, entre novembro de 2023 e fevereiro de 2024, com estudantes maiores de 18 anos, 18 cotistas e 9 não cotistas, ingressantes a partir do primeiro semestre de 2019 e com pelo menos três semestres cursados presencialmente. Os temas abordados foram estruturados em dois eixos: 1) a trajetória familiar e escolar e a preparação para o ingresso na universidade; 2) as trajetórias e inserção acadêmica, a participação acadêmica e política e o impacto da covid-19. O material empírico foi organizado e analisado com apoio do software IRaMuTeQ por meio da sistematização do corpus textual baseado na Classificação Hierárquica Descendente (CHD).
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam diferenças nas trajetórias de acesso ao ensino superior entre estudantes cotistas e não cotistas do curso de saúde coletiva. Entre cotistas, o ingresso na universidade pública aparece frequentemente como conquista associada a trajetórias marcadas por limitações socioeconômicas e pela impossibilidade de custear instituições privadas. A preparação para o ingresso ocorreu principalmente durante o ensino médio em escolas públicas, com incentivo de professores, apoio familiar e redes de amizade. A universidade pública foi percebida como uma oportunidade de mobilidade social e realização pessoal, embora acompanhada de inseguranças relacionadas à competitividade do processo seletivo e à adaptação ao ambiente universitário. Já entre estudantes não cotistas, o ingresso na universidade pública apareceu como expectativa mais consolidada desde o ensino médio, associada a maior segurança quanto à preparação acadêmica, ao apoio familiar e maior familiaridade com o ambiente universitário e com as oportunidades acadêmicas disponíveis. Após o ingresso na universidade, tanto cotistas quanto não cotistas destacaram a importância da participação em atividades de ensino, pesquisa e extensão para o fortalecimento da identidade acadêmica e a ampliação da compreensão do campo da saúde coletiva. A participação em projetos de iniciação científica, monitorias e atividades estudantis favoreceram a construção de redes de apoio e o desenvolvimento de competências acadêmicas. Entretanto, desafios relacionados à permanência foram mais frequentes entre estudantes cotistas, incluindo dificuldades financeiras, necessidade de conciliar trabalho e estudos e acesso limitado a informações institucionais e adaptação às dinâmicas burocráticas da universidade. A pandemia de covid-19 também marcou profundamente as trajetórias acadêmicas. O ensino remoto emergencial gerou impactos negativos no processo de aprendizagem, na socialização universitária e na saúde mental dos estudantes. Estudantes relataram dificuldades de adaptação às plataformas digitais, redução das interações com colegas e professores e sensação de perda de experiências fundamentais da vida universitária. Entre estudantes indígenas e aqueles com menor acesso a recursos tecnológicos, essas dificuldades foram mais acentuadas.
Conclusões/Considerações Finais
As políticas de ação afirmativa ampliaram o acesso de grupos historicamente excluídos ao ensino superior e contribuíram para a maior diversidade no ambiente universitário. Contudo, persistem desigualdades nas condições de permanência e nas experiências vividas ao longo da formação universitária. Os resultados indicam a necessidade de fortalecer políticas institucionais de apoio estudantil, acompanhamento acadêmico, fortalecimento de redes de acolhimento e promoção de ações voltadas à equidade racial e social. Tais iniciativas são fundamentais para garantir não apenas o acesso, mas também trajetórias acadêmicas bem-sucedidas e socialmente transformadoras. Além disso, os achados reforçam a importância de reconhecer as diferentes trajetórias sociais que atravessam a experiência universitária e de incorporar perspectivas interseccionais como raça, classe social e gênero na formulação de políticas acadêmicas orientadas à inclusão, à permanência e à valorização da diversidade.
“A GENTE PERCEBE QUANDO A GENTE ESTÁ SENDO DISCRIMINADO, (...)ESTÁ (...) SOFRENDO RACISMO”: EXPERIÊNCIAS INDÍGENAS FRENTE AO RACISMO E DISCRIMINAÇÃO NA UNIVERSIDADE
Comunicação Oral
1 ILMD-Fiocruz/UFAM
2 ILMD-Fiocruz
Apresentação/Introdução
Por estar na estrutura da sociedade, o racismo se manifesta de difentes formas, seja por meio de preconceito (julgamento baseado em estereótipos), de discriminação (concretização do preconceito), de seletividade institucional, de barreiras no acesso a direitos e políticas públicas, entre outros. A propósito desse último ponto, ao longo dos últimos anos, várias ações foram implementadas no sentido de promover o acesso de grupos historicamente discriminados, em direitos básicos, como saúde e educação, entre as quais é possível citar a criação das políticas de equidade, no Sistema Único de Saúde, e da política de ação afirmativa (PAA), no âmbito das instituições de ensino superior. A PAA ampliou o acesso de negros e indígenas nas universidades, embora ainda existam lacunas na permanência e no pertencimento destes no referido espaço, sobretudo, em se tratando de povos indígenas, que são plurais culturalmente, socialmente, linguisticamente, pedagogicamente.
Objetivos
O presente trabalho objetiva compreender as experiências indígenas de reconhecimento e efrentamento do racismo e discriminação na universidade.
Metodologia
Trata-se de recorte de pesquisa exploratória mais ampla, que investiga as ações afirmativas para o acesso e permanência de indígenas no ensino superior brasileiro (CAAE nº 94231125.3.0000.9167). Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com pós-graduandos indígenas oriundos de universidades públicas brasileiras, que cursaram o ensino superior por meio das PAA, maiores de 18 anos e falantes de língua portuguesa. No presente recorte, foram analisadas sete entrevistas, cujos partícipes eram das etnias Kokama, Marubo e Tikuna, possuíam formação em antropologia, farmácia, biologia/química, odontologia e administração e compunham a turma especial de Mestrado em Saúde Coletiva para indígenas do Alto Solimões/Fiocruz Amazônia.
Resultados e Discussão
Os entrevistados cursaram o ensino superior entre 2012 e 2025, cinco em instituções públicas e dois, em instituições privadas. Os que frequentaram instituições públicas - com a exceção de um que ingressou via ampla concorrência (2012) – acessaram o ensino superior por meio de cota/reserva de vagas. Já os que se formaram em instituições privadas, acessaram as instituições por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). Salvo um dos entrevistados (2012), todos os demais relataram experiência(s) com o racismo e discriminação em suas respectivas universidades, que se manifestavam por meio de piadas, olhares, estereótipos, falas/comentários, cochichos. Segundo narrado, os indígenas “percebe[m] quando (...) está sendo discriminado, (...) quando (...) está (...) sofrendo racismo”, “pelo gesto”, e que essas experiências não são isoladas, com relatos de situações com outros membros da mesma família: meus primos relatavam que eles passaram por isso. Os trabalhos/apresentações em grupo, segundo os entrevistados, era o lócus/momento em que essas violências se manifestavam vigorosamente. Na formação de grupos, os estudantes não indígenas “deixava[m] os indígenas de lado”, eles eram “sempre excluí[dos]”. Nas apresentações “alguns alunos acaba[vam] rindo [quando os estudantes indígenas] erra[vam] algumas palavras”. Ter [o] “português, a princípio, [um] pouco travado”, abria espaço para “bullying”. Nesses cenários, os professores atuavam no sentido de garantir a participação dos estudantes indígenas: “mistura[va]m” eles nos grupos quando percebiam a exclusão. As estratégias de enfrentamento/resistência eram múltiplas: “não ligar, levar na brincadeira, se eforçar mais, ir jogar bola, conversar com a psicóloga, rebater, bater de frente, olhar/[encarar] pr/as pessoas”. Opostamente, não houve relatos de racismo e discriminação no curso de mestrado. Segundo os entrevistados, o curso sempre teve “um grande respeito por cada etnia que tinha ali”, valorizou a cultura indígena “até mais do que [os] indígenas”, sempre mostrou o quão os alunos são “importantes” e valorizou os indígenas “pela [própria] iniciativa [de oferta d]a turma fora de sede”. A ausência de experiências racistas e discriminatórias no curso de mestrado, talvez esteja relacionada com o fato do curso ser conduzido por professores que “trabalha[m] bastante com a população indígena, que, se preocupa[m] com a população indígena”.
Conclusões/Considerações Finais
Se, por um lado o acesso de indígenas, no ensino superior, principalmente por meio das PAA, tem representado um avanço significativo na luta contra o racismo, por outro esse acesso não blinda esses estudantes de experienciarem os efeitos dessa violência estrutural. Nesse processo, docentes sensíveis e cursos específicos tendem a ser aliados no combate ao racismo contra os indígenas e os próprios estudantes desenvolvem suas estratégias de resistência.
FORMAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA E EQUIDADE: TENSÕES NA PRIORIZAÇÃO DE AÇÕES AFIRMATIVAS E NA IMPLEMENTAÇÃO DE COTAS EM UMA ESCOLA DO SUS
Comunicação Oral
1 ESP-MG
Contextualização
A formação em saúde coletiva, orientada pelos princípios do SUS, pressupõe compromisso com equidade, diversidade e justiça social. Nesse campo, políticas afirmativas são reconhecidas como estratégias para enfrentar desigualdades estruturais que atravessam o acesso e a permanência em espaços formativos, uma vez que instituições educacionais tendem a reproduzir hierarquias sociais. Na Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG), a construção da Política de Equidade e do Plano de Promoção da Equidade expressa esse esforço institucional, destacando a necessidade de ampliação da diversidade nos cursos de especialização ofertados por meio de ações afirmativas. Após sua elaboração e lançamento em 2025, iniciou-se o planejamento de suas ações junto aos setores da Escola, por meio de três encontros com gestoras e gestores.
Descrição
O relato focaliza o segundo encontro de trabalho voltado ao desdobramento do plano, com objetivo de priorizar ações para o biênio 2026-2027, mais especificamente sobre os resultados deste processo em relação ao eixo dedicado à ampliação da diversidade na instituição. A priorização ocorreu em oficina com cerca de 20 lideranças institucionais, por metodologia que combinou pontuação individual e consolidação coletiva. Considerando impacto e urgência, participantes atribuíram graus de prioridade por meio de sistema de cores e pontuações: baixa (1 ponto), média (2 pontos) e alta (3 pontos). O resultado final decorreu da soma das pontuações, gerando ranking de prioridades.
Período de Realização
O processo de desdobramento e planejamento das ações do plano ocorreu entre dezembro de 2025 e março de 2026. O encontro de priorização, foco do relato, foi realizado em fevereiro de 2026.
Objetivo
Estabelecer, por meio de processo participativo, a agenda prioritária para o biênio 2026-2027 quanto às ações do eixo de ampliação da diversidade do Plano de Promoção da Equidade da ESP-MG.
Resultados
O somatório das pontuações individuais das cinco ações do eixo de fomento à ampliação da diversidade revelou tendência à priorização de medidas de caráter administrativo e diagnóstico. A padronização de formulários de inscrição para coleta de informações voltadas à equidade obteve a maior pontuação (50 pontos), seguida pelo mapeamento do perfil de pessoas trabalhadoras, docentes e palestrantes (48 pontos). Em contraste, a implementação de sistemas de cotas nos processos seletivos de discentes recebeu a menor pontuação (38 pontos), sendo excluída do planejamento do biênio. Destaca-se que não houve manifestação explícita contrária às cotas durante a discussão coletiva. Ainda assim, participantes indicaram insegurança institucional e a necessidade de maior preparo para a adoção de ações afirmativas, mesmo diante da existência de marcos legais e de experiências consolidadas no país, conforme argumentado pelos mediadores do encontro.
Aprendizado e Análise Crítica
Os resultados do processo de priorização relatado evidenciam uma tensão entre o compromisso institucional com a equidade e as decisões práticas para implementação de ações para sua promoção. A ausência de oposição explícita à adoção de cotas nos processos seletivos dos cursos da Escola, associada à sua despriorização na oficina realizada, sugere a presença de resistências implícitas, que podem ser interpretadas à luz do racismo estrutural, no qual práticas institucionais reproduzem desigualdades independentemente de intenções individuais. A partir da noção de matriz de dominação, proposta por Patricia Hill Collins, compreende-se que marcadores como raça, classe e posição institucional não apenas influenciam percepções sobre mérito e acesso, mas também estruturam relações de poder que naturalizam privilégios e prejudicam à adoção de políticas afirmativas. Nesse contexto, a mobilização da ideia de ‘falta de preparo’ pode deslocar o debate das desigualdades estruturais para um plano predominantemente técnico, o que tende, ainda que de forma não intencional, a reforçar dinâmicas de manutenção de privilégios nas organizações. Já sob a perspectiva da justiça como redistribuição e reconhecimento, elaborada por Nancy Fraser, a não priorização das cotas limita a capacidade institucional de promover mudanças substantivas, podendo também expressar formas de manutenção do epistemicídio institucional denunciado por Sueli Carneiro. O recuo observado neste processo de planejamento das ações do Plano de Promoção da Equidade não configura apenas cautela técnica, mas revela dificuldades institucionais em reconhecer e enfrentar as iniquidades que tensionam o papel da Escola como promotora de justiça reparatória e democratização da política de saúde. A análise do processo indica que o compromisso ético-político com a equidade exige o enfrentamento direto dessas contradições, bem como o fortalecimento de processos formativos e reflexivos capazes de explicitar conflitos, enfrentar resistências e alinhar práticas institucionais aos princípios do SUS, contribuindo para a construção de uma escola mais diversa, inclusiva e socialmente comprometida.
VOZES EM MOVIMENTO: EXPERIÊNCIAS INICIAIS DO PROJETO AFIRMASUS USP
Comunicação Oral
1 USP
Contextualização
O ensino superior e os serviços de saúde no Brasil são atravessados por heranças históricas de colonialismo, racismo, machismo e LGBTIAPN+fobias que perpetuam desigualdades na formação e atuação profissional. O projeto Vozes em movimento do AfimaSUS USP surge para ampliar o debate sobre essas iniquidades, focando em grupos historicamente marginalizados, como pessoas negras, indígenas, LGBTIAPN+ (especialmente pessoas trans e não binárias) e oriundas de escolas públicas.
Descrição
A iniciativa fundamenta-se na Pesquisa Participativa Baseada na Comunidade (PPBC), assumindo que o conhecimento deve ser emancipatório e estar a serviço da libertação das classes oprimidas, rompendo com a pretensa neutralidade científica tradicional. A experiência centra-se na implantação de um Grupo de Aprendizagem Tutorial (GAT) articulado ao projeto PET-Saúde Equidade USP, formado por dez alunos bolsistas e cinco voluntários (dos cursos de Enfermagem, Fisioterapia, Gerontologia, Saúde Pública, Psicologia, Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, Odontologia, Letras e Relações Públicas). O método estruturante é o Photovoice, que utiliza fotografias e narrativas verbais para captar vivências subjetivas de exclusão e resistência, funcionando como instrumento de escuta ativa e comunicação transformadora.
Período de Realização
O projeto está em seu primeiro ano de execução (desde dezembro/2025).
Objetivo
Frente a isso, o projeto busca promover e analisar estratégias de formação, permanência e inclusão para estudantes de Ações Afirmativas (AA), integrando ações de ensino, pesquisa, cultura e extensão com foco na equidade e na justiça social no SUS e na universidade.
Resultados
O relato compreende reflexões sobre aprendizagens do primeiro ano de execução do projeto (em curso), período dedicado ao alinhamento conceitual e metodológico, bem como mapeamento de redes de mentoria e coletivos. Nesse contexto, destaca-se aprendizados relacionados à forma de organização do trabalho coletivo, evidenciando a importância da escuta ativa, do respeito às diferentes vivências e da construção conjunta das decisões, além de leituras e discussões que tinham como propósito uma reflexão crítica sobre o modelo educacional interdisciplinar. As atividades envolveram: mapeamento de coletivos estudantis, ligas acadêmicas e movimentos sociais para com o objetivo de garantir a horizontalidade e permanência do projeto dentro da Universidade de São Paulo (USP); além das oficinas sobre determinações sociais da saúde e mentorias entre pares e docentes. As reuniões configuram como espaços de troca e construção, nos quais foram identificadas convergências, especialmente no compromisso com a equidade e a permanência estudantil, mas também diferenças de perspectivas entre os participantes. Então foi realizado um questionário interno que indicou que as reuniões promoveram trocas ativas, escuta e aprendizado, contribuindo para o conhecimento do método Photovoice; possibilitou ainda integração entre os diferentes cursos e reflexões sobre equidade, inclusão e populações em situação de vulnerabilidade. Como principais desafios, foram mencionadas diferenças de agendas, rotinas e vivências entre os integrantes, o que por vezes dificulta os encontros e a organização das atividades coletivas. Essas diferenças demandaram diálogo e reorganização das dinâmicas do grupo, contribuindo para a construção coletiva do processo.
Aprendizado e Análise Crítica
A fundamentação teórica sustentada nos pensamentos de Paulo Freire e Nego Bispo, valoriza a dialogicidade e o saber tradicional. O mapeamento de coletivos visa a criação de um "conselho de confluência", fortalecendo a rede de apoio à permanência. A utilização de redes sociais e as oficinas iniciais de Photovoice ampliaram o engajamento discente, promovendo espaços de reflexão crítica sobre as iniquidades no cotidiano acadêmico.
A integração do referencial teórico de Freire e Bispo fortalece o caráter político do projeto, transformando a comunidade do lugar de objeto para o de sujeito cognoscente. Conclui-se que o fortalecimento da permanência estudantil exige uma transformação cultural que valorize as ancestralidades e possibilite a justiça cognitiva na/da/pela Saúde Coletiva.
Realização: