Programa - Comunicação Oral Curta - COC12.1 - Equidade, diversidade, relações étnico-raciais, gênero e inclusão na formação em saúde
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
A FORMAÇÃO EM SAÚDE SOB A PERSPECTIVA DAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS: DESAFIOS DA INTERSECCIONALIDADE NOS CURSOS DE GRADUAÇÃO EM SAÚDE DA UNEB
Comunicação Oral Curta
1 UNEB
Apresentação/Introdução
Os cursos da área da saúde, no ensino superior, fundamentam-se majoritariamente na perspectiva biomédica– centrado na doença, na clínica e nos processos de cura – os quais ofertam pouco espaço para a compreensão do homem em sua totalidade biopsicossocial. O modelo biomédico ainda hegemônico, tanto na formação quanto nas práticas de cuidado em saúde, invisibiliza desigualdades raciais e reforça o racismo institucional, que se manifesta em práticas que colocam a população negra em desvantagem no acesso a direitos e benefícios, bem como posicionada nos mais graves indicadores de morbimortalidade no país. Estes processos decorrem de falhas coletivas que perpetuam preconceitos e estereótipos dentro das organizações, sejam estas de saúde quanto das universidades, responsáveis pela formação teórica e prática dos futuros trabalhadores/as da saúde.
Objetivos
Compreender como as temáticas de saúde e práticas de cuidado em saúde referentes à população negra se apresentavam nos Projetos Políticos Pedagógicos (PPP) dos cursos de graduação em saúde de uma Universidade pública do Nordeste do Brasil.
Metodologia
Estudo de abordagem qualitativa do tipo análise documental. A produção de dados ocorreu através dos PPPs dos seis cursos de graduação em saúde (Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina e Nutrição), ofertados no Departamento de Ciências da Vida da Universidade do Estado da Bahia, Campus I no município de Salvador-Bahia. As análises realizadas neste estudo se desdobraram em duas vertentes. A primeira consistiu na análise de 419 ementas de componentes curriculares obrigatórios dos cursos em estudo, a partir da construção de glossários de termos vinculados a temática de saúde da população negra. A primeira analisou ementas de componentes obrigatórios via glossário de termos, categorizando as abordagens em diretas (explícitas) ou indiretas (implícitas). A segunda investigou a incorporação de diretrizes da Política Nacional de Saúde da População Negra em seções estratégicas dos documentos, tais como Perfil do Egresso, Organização Curricular e Estágio Supervisionado, visando identificar a integração da temática na formação em saúde. Os dados foram coletados entre maio a setembro de 2025 e foram analisados de acordo a Análise de Contéudo de Bardin. Esta pesquisa fez parte do Edital 123/2024 do Programa AFIRMATIVA de Pesquisa, Extensão, Inovação e Tecnologia nos Campi da UNEB.
Resultados e Discussão
A análise dos dados evidenciou presença limitada da saúde da população negra nos currículos dos cursos em estudo. Das 419 ementas analisadas, apenas 2,14% apresentam abordagem direta sobre as temáticas étnico raciais, sendo que em dois dos seis cursos analisados inexiste qualquer abordagem direta. Na análise das ementas e no conjunto dos PPPs, a temática aparece de forma majoritariamente indireta, fragilizando a formação crítica e a abordagem da interseccionalidade. Predomina, na abordagem indireta, a utilização do referencial dos Determinantes Sociais da Saúde, geralmente sem articulação explícita com a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, o que evidencia limitações na incorporação crítica do racismo estrutural e das opressões sociais na formação dos profissionais de saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Para a promoção da equidade em saúde, conforme a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, é necessária a revisão dos PPPs dos cursos em estudo, que possibilite explicitar, nas ementas e conteúdos, conceitos sobre racismo, desigualdades étnico-raciais e racismo institucional, alinhando a formação profissional às diretrizes da política nacional. A não explicitação das relações étnico-raciais fragiliza a abordagem da interseccionalidade e limita a promoção da saúde orientada pela equidade. A inclusão fortalece práticas comprometidas com a equidade racial e contribui para o enfrentamento do racismo institucional no acesso e nas práticas em saúde, a partir de processos de formação em saúde que tornem os futuros/as trabalhadores/as em saúde comprometidos com a equidade racial e com a ruptura de ciclos históricos de preconceitos e discriminação racial na saúde.
A POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE INTEGRAL DA POPULAÇÃO NEGRA - PNSINP E OS DESAFIOS PARA A FORMAÇÃO ANTIRRACISTA NO ENSINO EM SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 USCS, PUCSP
Apresentação/Introdução
A formação em saúde no Brasil insere-se em um contexto marcado por profundas desigualdades sociais e raciais, que se expressam de maneira contundente nos indicadores de saúde da população negra. Estudos como os de Dantas et al. (2025) e Oliveira et al. (2025) apontam que a incorporação de temáticas relacionadas à saúde da população negra e de discussões que promovam práticas antirracistas nos currículos da área da saúde ainda ocorre de forma fragmentada. Nesse contexto, a PNSIPN surge como resposta às desigualdades, ao reconhecer o racismo como determinante social e propor ações voltadas à equidade, destacando a formação inicial e educação permanente para o enfrentamento das desigualdades raciais. Santana et al. (2019) e Monteiro, Santos e Araújo (2021) indicam que as diretrizes da PNSIPN ainda não se traduzem de forma consistente nos currículos da área da saúde. Assim, a formação continua centrada em modelos que atribuem pouca relevância aos determinantes sociais e às relações raciais. Este estudo compreende a formação como um processo mediado, no qual os sujeitos produzem significações a partir de suas experiências sociais e institucionais. Assim, a análise das significações de estudantes permite compreender como a temática racial é apropriada, ressignificada ou negligenciada no processo formativo.
Objetivos
Neste contexto, o presente projeto tem como objetivo analisar as mediações formativas e as significações estudantis relacionadas à incorporação da PNSIPN e os princípios para uma educação antirracista na formação em saúde. Justifica-se a presente pesquisa ao corroborar com Souza e Rocha (2022) ao destacarem a existência de resistência, especialmente por parte da branquitude na área da saúde, no reconhecimento do racismo, muitas vezes reduzindo a análise das desigualdades à dimensão de classe social. Os autores ressaltam, ainda, a necessidade de considerar as interseccionalidades nas políticas públicas, sem hierarquização das opressões. Além disso, pela persistência das desigualdades raciais em saúde e pela necessidade de transformação na formação profissional. Dessa forma, torna-se fundamental produzir evidências que subsidiem mudanças curriculares e contribuam para a formação de profissionais comprometidos com a equidade e com o enfrentamento do racismo.
Metodologia
Entende-se a presente pesquisa alocada no campo das pesquisas qualitativas, indicando dessa forma, seu caráter exploratório e analítico. Conforme Minayo (2007, p. 24) a pesquisa qualitativa “trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes” e, a partir desse conjunto de fenômenos humanos gerados socialmente, busca compreender e interpretar a realidade. Para tanto, a pesquisa foi delineada com as seguintes etapas: I) análise documental de projetos pedagógicos e diretrizes curriculares de cursos da saúde; II) aplicação de questionário online estruturado a estudantes de cursos da área da saúde, maiores de 18 anos e que residam ou estudem região do ABC Paulista e III) realização de entrevista online para aprofundamento qualitativo. Os dados serão organizados a partir do procedimento de análise temática e analisados a partir de referencial crítico sobre formação em saúde, formação antirracista e articuladas à perspectiva da pesquisa-intervenção (Rocha; Aguiar, 2003).
Resultados e Discussão
Pesquisa em andamento, em processo de coleta de dados. Como resultados, espera-se identificar lacunas estruturais na formação em saúde quanto à abordagem da PNSIPN e das relações raciais. Pretende-se produzir um diagnóstico da formação em saúde na região do ABC Paulista e elaborar diretrizes pedagógicas e materiais orientativos voltados à educação antirracista na área da saúde.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa reafirma a necessidade de promover transformações mais profundas nos currículos e nas práticas pedagógicas, superando resistências institucionais e epistemológicas que limitam o reconhecimento do racismo como determinante social da saúde. A análise da formação na região do ABC Paulista poderá subsidiar a construção de diretrizes e materiais que fortaleçam a educação antirracista, contribuindo para a formação de profissionais comprometidos com a equidade e com os princípios do SUS. Mais do que um ajuste curricular pontual, trata-se de uma mudança de perspectiva: deslocar a formação de um modelo que silencia desigualdades para outro que as reconhece, problematiza e enfrenta de maneira ética, crítica e socialmente implicada.
AFROPERSPECTIVA E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA A FORMAÇÃO EM SAÚDE E O CUIDADO À POPULAÇÃO NEGRA
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Federal da Bahia/Instituto Multidisciplinar em Saúde
Apresentação/Introdução
As desigualdades sociais e de saúde são mazelas presentes na sociedade decorrentes do racismo e produtos de uma história de genocídio e de escravização de povos negros que contribuiu para a criação de uma estrutura de discriminação, permitindo por muitos anos a total ausência de políticas públicas comprometidas com a busca de equidade, porém tal condição não deve ser naturalizada. Esta estrutura, descrita como racismo estrutural, opera na sociedade de forma a moldar a política do necropoder, ou necropolítica, exercida pelo Estado, sendo “o poder e a capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer”.
O efeito do racismo estrutural e da necropolítica, que chega aos corpos de pessoas negras, perpassa também pelo campo da formação, pois o sistema educacional brasileiro tem sido usado como instrumento de controle de uma estrutura de discriminação cultural, e falha em atender aos princípios de equidade e integralidade exigidos pela Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e pelas próprias Diretrizes Curriculares Nacionais da área da saúde.
Objetivos
Este trabalho tem como objetivo propor um olhar para a formação em saúde a partir da lente epistemológica da Afroperspectiva, apresentando suas contribuições para o cuidado à saúde da população negra.
Metodologia
Trata-se de um estudo realizado a partir da técnica de análise interpretativa de dados documentais, que orientou a busca e a organização das informações mais relevantes para este estudo a partir da busca bibliográfica nas bases de dados científicas Scielo e LILACS-Biblioteca Virtual de Saúde, utilizando-se as seguintes palavras-chave e suas combinações: Afroperspectiva, Afroperspectiva AND Educação, Afroperspectiva AND Formação, Afroperspectiva AND Saúde, Afroperspectiva AND Saúde AND População Negra e Afroperspectiva AND Formação em Saúde.
Resultados e Discussão
A afroperspectiva é um modelo epistemológico fundamentado na afrocentricidade, que propõe uma forma de interpretar a realidade tendo como ponto de partida experiências vividas pelos povos africanos e suas diásporas. Essa visão inclui o reconhecimento da cosmovisão africana e a valorização de práticas culturais e filosóficas tradicionais que são frequentemente marginalizadas pelas narrativas dos colonizadores. Esta teoria busca desafiar e ressignificar as narrativas fundamentadas sobre a história e o conhecimento, não se tratando do abandono ou exclusão da tradição filosófica ocidental, mas, de ter a criticidade e considerar outras escolas como fundamentais para a realização de uma educação pluriversal.
A afroperspectiva compreende, então, o papel das relações estabelecidas e construídas na interação entre os diversos povos, e lança mão de categorias-chave da afrocentricidade como a localização e agência, propondo uma articulação ontológica por meio do perspectivismo ameríndio, do quilombismo, e do pensamento afro-pindorâmico.
Embora a afroperspectiva tenha nascido da vontade de se entender a origem da filosofia, este conceito abre caminhos para a busca de um currículo que rompa com o modelo ocidental hegemônico, indo em direção à Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Tal teoria pode ser aplicada aos currículos dos cursos de graduação em saúde no sentido de analisar como a saúde da população negra é trabalhada, compreendendo se o currículo questiona a universalidade da ciência biomédica e da epistemologia eurocêntrica; se posiciona o racismo estrutural e institucional como um determinante social de saúde fundamental, não apenas um fator marginal; valoriza e estuda práticas e conhecimentos populares de matriz africana, não apenas como folclore, mas como sistemas de saúde legítimos; se exige que os conteúdos sejam culturalmente sensíveis e contextualizados a realidade da população negra; utilizam metodologias de ensino que promovem o diálogo intercultural e o reconhecimento de outros olhares como das comunidades quilombolas; inclui bibliografia de autores negros em seus planos de ensino e se considera a diversidade do corpo docente um fator importante para a formação antirracista.
Conclusões/Considerações Finais
Diante do atual cenário de disparidades sociais e de saúde enfrentados pela população negra no Brasil e do perfil formativo dos profissionais de saúde, a afroperspectiva faz um convite diário e constante aos professores, pesquisadores e estudantes ao reconhecimento de que todas as perspectivas devem ser válidas; apontando como equívoco o privilégio de um ponto de vista, expondo os conhecimentos eticamente coerentes com a realidade dos povos africanos e afro-brasileiros, presentes em todo território.
Conclui-se que a inclusão da afroperspectiva nos currículos de saúde é uma ferramenta indispensável para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde e para a efetivação da política. Ela oferece os subsídios necessários para que o futuro profissional de saúde seja capaz de identificar e combater o racismo institucional, garantindo um cuidado que respeite a dignidade e a ancestralidade da população negra.
CINE-DEBATE COMO ESTRATÉGIA PEDAGÓGICA PARA SENSIBILIZAÇÃO DE ESTUDANTES DE MEDICINA SOBRE A SAÚDE INTEGRAL DA POPULAÇÃO TRANS E TRAVESTI
Comunicação Oral Curta
1 UFOB
2 UniCV
3 UNICAMP
Apresentação/Introdução
O documentário pode ser compreendido como uma ferramenta capaz de dar visibilidade às experiências de grupos socialmente marginalizados. Nesse contexto, o cine-debate surge como estratégia pedagógica que permite articular narrativas e discussões coletivas, contribuindo para a problematização de temas frequentemente invisibilizados na formação médica. Com o intuito de promover reflexões sobre a saúde integral da população trans e travesti, foi realizada a exibição do curta-metragem “Pai Grávido” durante a atividade cine-debate sobre a atenção primária à saúde para população LGBTQIA+ para três turmas do curso de Medicina da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), no âmbito do componente curricular “Práticas em Saúde Coletiva na ESF I: A Comunidade”. Ao final da disciplina, os estudantes elaboraram portfólios reflexivos nos quais registraram percepções pessoais sobre as atividades desenvolvidas e, especificamente, sobre a experiência do cine-debate.
Objetivos
Descrever as experiências de estudantes de medicina diante da atividade de cine-debate sobre a Atenção Primária à Saúde para população LGBTQIA+ e compreender de que forma essa estratégia pedagógica influenciou suas percepções acerca do cuidado em saúde voltado a essa população.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de abordagem fenomenológica e caráter descritivo com identificação de unidades de significado e posterior construção de categorias temáticas. A amostra intencional foi composta por 124 portfólios reflexivos elaborados por estudantes de três turmas do curso de Medicina da UFOB que cursaram o componente “Práticas em Saúde Coletiva na ESF I: A Comunidade”. A coleta de dados ocorreu por meio da seleção, nos portfólios, dos trechos referentes à atividade de cine-debate sobre a atenção primária à saúde para população LGBTQIA+. Posteriormente, procedeu-se à identificação e análise das unidades de significado presentes nos relatos dos estudantes, buscando compreender as experiências vividas e as percepções construídas a partir da atividade.
Resultados e Discussão
Entre as principais unidades de significado identificadas destacaram-se: ampliação do conhecimento sobre a saúde da população trans e travesti, compreensão e identificação dos impactos da transfobia em serviços de saúde e percepção positiva do documentário como ferramenta pedagógica capaz de provocar reflexão crítica no processo formativo. Muitos estudantes relataram que o contato com a narrativa audiovisual possibilitou maior compreensão sobre vivências trans e travestis, bem como sobre os desafios enfrentados no acesso aos serviços de saúde. Também emergiram relatos de estranhamento inicial, assim como a constatação do desconhecimento prévio sobre o assunto abordado. Nos relatos, apareceram ainda reflexões sobre o local de origem e a formação sociocultural das pessoas estudantes, sendo identificada, em alguns casos, resistência à temática discutida. Contudo, os relatos demonstraram dificuldades em diferenciar identidade de gênero e orientação sexual, bem como em distinguir homem trans e mulher trans, evidenciando lacunas que não foram totalmente supridas após a atividade.
Apesar disso, diversos estudantes descreveram a experiência como transformadora, apontando mudanças em suas perspectivas sobre o futuro exercício profissional. Destaca-se que o documentário exibido foi produzido previamente por um estudante transmasculino do próprio curso de medicina, cuja presença em uma das turmas também integrou a experiência pedagógica e contribuiu para ampliar as reflexões produzidas durante o debate, indicando a relevância da diversidade nos espaços formativos em saúde. Observou-se que, na turma em que havia a presença desse estudante, os relatos demonstraram maior clareza na distinção entre os conceitos de orientação sexual e identidade de gênero.
Conclusões/Considerações Finais
O cine-debate sobre a atenção primária à saúde para a população LGBTQIA+ mostrou-se uma estratégia pedagógica potente para a sensibilização de estudantes de medicina sobre a saúde integral da população trans e travesti, contribuindo para ampliar o letramento sobre diversidade de gênero, novas constituições familiares e para o reconhecimento de práticas transfóbicas presentes na sociedade e nos serviços de saúde. A atividade também se apresentou como uma potencial estratégia de transformação nas perspectivas relacionadas ao futuro exercício profissional. Os resultados sugerem que o uso de recursos audiovisuais, associado a espaços de reflexão coletiva, pode favorecer processos formativos mais críticos e sensíveis às demandas de populações historicamente marginalizadas. Além disso, a presença de estudantes trans no ambiente acadêmico emerge como elemento potencializador dessas discussões, reforçando a importância de políticas de ações afirmativas, inclusão e permanência na formação em saúde e, em especial, na graduação em medicina.
COLETIVO MURUMURU: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA SOBRE GÊNERO, SEXUALIDADE E SAÚDE DA COMUNIDADE LGBTQIAPN+ AMAZÔNICA
Comunicação Oral Curta
1 UFAM
Contextualização
A patologização de orientações sexuais e identidades de gênero contribui para violências contra a população LGBTQIAPN+, como rejeição familiar, marginalização e negação de direitos, incluindo o acesso à saúde. No contexto amazônico, essas questões se intensificam devido ao conservadorismo e à escassez de espaços seguros. Nesse cenário surge o Coletivo Murumuru, inicialmente vinculado ao Núcleo de Saúde, Sexualidade e Sociedade (NÓS/FAPSI-UFAM) e atualmente integrado ao PACE, com o objetivo de promover acolhimento, produção de conhecimento e incentivo à pesquisa.
Descrição
O coletivo atua por meio de três frentes: produção de podcast, encontros formativos e divulgação de conteúdos no Instagram. Seu nome faz referência simbólica ao aguapé, planta que floresce em ambientes poluídos, representando resistência e transformação. O Murumuru busca fortalecer pessoas LGBTQIAPN+, articulando ciência, afeto e comunidade, e contribuindo para a produção de conhecimento sobre gênero e sexualidade no contexto amazônico. Foram realizadas atividades formativas com especialistas, abordando temas como história da sexualidade, identidades de gênero e saúde LGBTQIAPN+. Na comunicação, o coletivo produziu conteúdos digitais e podcasts, além de organizar cinedebates com filmes que estimularam reflexões críticas sobre gênero, sexualidade e violência.
Período de Realização
A experiência relatada compreende o período entre março de 2024, data da institucionalização formal pelo PACE/UFAM, até o primeiro semestre de 2025. Configurando uma experiência em curso que já acumula aprendizados significativos.
Objetivo
Apresentar os impactos da participação no coletivo, destacando: produção de conteúdos acessíveis, promoção de ações educativas, articulação com movimentos sociais e fortalecimento de redes de apoio em saúde mental voltadas para a população LGBTQIAPN+.
Resultados
Foram realizadas atividades formativas com especialistas, abordando temas como história da sexualidade, identidades de gênero e saúde LGBTQIAPN+ , "Vivências Interioranas" de pessoas LGBTQIAPN+ no Amazonas, "Arromanticidade e Assexualidade", "Rotulação e Identidade de Gênero", "Parentalidade LGBTQIA+ em Manaus" e "Saúde de Mulheres Bissexuais". Na comunicação, o coletivo produziu conteúdos digitais e podcasts, além de organizar cinedebates com filmes que estimularam reflexões críticas sobre gênero, sexualidade e violência. Também houve ações de visibilidade, como intervenções na universidade e oficinas, além da participação em eventos e espaços políticos, incluindo conferências e audiências públicas. O coletivo ganhou reconhecimento externo, sendo acionado por lideranças políticas e integrando debates institucionais sobre direitos LGBTQIAPN+.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou o pertencimento como elemento central na promoção de saúde mental. O coletivo se mostrou um espaço de reconhecimento identitário, acolhimento e construção coletiva. A comunicação digital foi fundamental para ampliar o alcance e democratizar o conhecimento. O Murumuru atua como dispositivo de resistência, enfrentando desigualdades no acesso à saúde e promovendo escuta e apoio. Epistemologicamente, tensiona a lógica acadêmica ao valorizar saberes dissidentes e traduzir conteúdos científicos em linguagem acessível, contribuindo para a formação de profissionais mais preparados e sensíveis. Apesar disso, o coletivo enfrenta um ambiente institucional ainda marcado por violências e LGBTfobia, evidenciando a necessidade de políticas mais eficazes nas universidades. O mapeamento de iniciativas similares na região aponta para a importância de maior articulação entre coletivos.
Conclui-se, que o Coletivo Murumuru se consolida como uma experiência relevante de promoção de saúde mental, produção de conhecimento e fortalecimento de direitos LGBTQIAPN+ na Amazônia. Seus desafios envolvem crescer sem perder o caráter afetivo e político, mantendo o cuidado como eixo central de atuação.
CURSO PLURAIS: EDUCAÇÃO PERMANENTE PARA A EQUIDADE E O ACESSO À SAÚDE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA DO DISTRITO FEDERAL
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz Brasília / NUPOP
2 Fiocruz
3 FIOCRUZ/SESDF
4 Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário - IBEAC
5 SES DF
Contextualização
A Atenção Primária à Saúde (APS) no Distrito Federal enfrenta o desafio de garantir acesso universal a grupos historicamente vulnerados. A fragmentação do cuidado e o estigma institucional muitas vezes operam como barreiras invisíveis. Diante disso surge o “ Curso Plurais”, uma iniciativa de Educação Permanente em Saúde (EPS) desenhada para transformar as práticas de cuidado através da sensibilidade intersetorial e da justiça cognitiva, utilizando a literatura e as vivências como ferramentas de mobilização ético e política.
Descrição
A experiência consistiu na execução de um percurso formativo com plano político-pedagógico construído de forma participativa, valorizando a escuta dos territórios. O curso ofertou 200 vagas, com carga horária de 60 horas distribuídas em 8 semanas. A metodologia envolveu dispositivos pedagógicos potentes como o “ Rio da Vida”, a “ Caminhada de Privilégios” e o “ Mapa Falante de Rede”, além da utilização de textos de autoras como Conceição Evaristo para a sensibilização dos profissionais. Como produto final cada Equipe de Estratégia de Saúde da Família (eSF) participante, elaborou um projeto de intervenção focado na equipe e na melhoria do acesso em sua respectiva Unidade Básica de Saúde ( UBS)
Período de Realização
O curso foi realizado entre fevereiro e agosto de 2025
Objetivo
Proporcionar um espaço formativo a fim de qualificar profissionais da Atenção Primária à Saúde, com a Educação Permanente, baseado na reflexão crítica, troca de experiências e na aplicação prática do saber, visando ampliar o acesso e aprimorar o cuidado às populações vulnerabilizadas
Resultados
Através do monitoramento e avaliação parcial do curso, foi possível mensurar positivamente a metodologia, os temas abordados. A construção coletiva, escuta ativa e didática sensível foram valorizados. Além disso, foram citados pontos frágeis: questões de logística, dificuldades com a plataforma virtual e a carga horária reduzida. Além da dificuldade de liberação dos profissionais para a realização do curso integralmente, devido a alta demanda nos serviços de saúde e RH prejudicado.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência demonstrou que a formação baseada no cotidiano do trabalho é capaz de gerar diagnósticos situacionais mais precisos e um olhar interseccional sobre as vulnerabilidades. A análise crítica revela que o uso de instrumentos tradicionais da APS, quando ressignificados por uma perspectiva de equidade, potencializa o papel da eSF como articuladora de redes. A intersetorialidade emergiu não apenas como conceito, mas como prática necessária para enfrentar as lacunas do território. O aprendizado central reside na percepção de que a transformação do SUS passa pela sensibilização ética e literária, capaz de humanizar o olhar técnico e fortalecer o compromisso com a justiça social. Os projetos de intervenção resultantes sinalizam a sustentabilidade dos saberes construídos, funcionando como sementes de mudanças nas práticas locais de saúde.
INTERNATO MÉDICO OBRIGATÓRIO EM ATENÇÃO BÁSICA(IOAB) NA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF): ORIENTAÇÃO SEXUAL E IDENTIDADE DE GÊNERO NA PRODUÇÃO DO CUIDADO EM SAÚDE.
Comunicação Oral Curta
1 Docente do ISC/UFF
2 Docente/ISC
Contextualização
A vulnerabilidade da população LGBT+ e seu acesso aos serviços de saúde são desafios estruturais, mesmo com conquistas no âmbito das políticas públicas. Tal população apresenta especificidades pouco disseminadas nas escolas de medicina. Assim, a formação em saúde se torna essencial para diminuir obstáculos no acesso e continuidade do cuidado na prática. Percebe-se, pela literatura, a manutenção de estigmas, preconceitos e discriminações ligados à saúde LGBT+. A visibilidade destas questões é permeada por uma estrutura cisheteronormativa em todo processo de cuidado. Dito isso, problematizar o preenchimento de informações sobre orientação sexual e identidade de gênero de usuária(o)s das Unidades de Saúde (US), que recebem interna(o)s do curso de medicina, parece ser crucial para avaliar, monitorar e repensar ações da Educação Permanente nos serviços, formação de futuros profissionais e gestão da saúde territorial a partir da identificação das dificuldades na assistência em saúde. Pode ser também uma estratégia na articulação com a Política Nacional de Saúde Integral da População LGBT e com as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Medicina.
Descrição
O IOAB da UFF, na cidade de Niterói, dura três meses, com 4 turmas anuais e impactando a formação de quase 80 interna(o)s, presentes em 7 US nos diversos territórios da cidade. Em Niterói, o IOAB é composto por um módulo de Saúde da população LGBT+ e um módulo extensionista conduzido pelo projeto OIESS-RJ (Observatório de Integração Ensino-Serviço). Analisa-se perfil sociodemográfico e de saúde de usuária(o)s das US e posterior discussão com equipes para qualificação dos dados e desenvolvimento de ações de educação popular em saúde. Tais iniciativas somam esforços para que interna(o)s assimilem a importância do preenchimento das fichas de cadastro individual e as implicações produzidas pela incompletude de dados como orientação sexual e identidade de gênero. Essa problematização é fundamental para planejar ações em saúde com foco nos atributos que fundamentam a Atenção Básica (AB) (acesso no 1° contato, integralidade, coordenação do cuidado, longitudinalidade, competência cultural, foco individual/familiar).
Período de Realização
Janeiro de 2024 a dezembro de 2025
Objetivo
Qualificar o preenchimento dos dados a partir da sensibilização da equipe de saúde; mostrar, a partir das informações sobre identidade de gênero e orientação sexual dos usuários das US, possível invisibilidade de aspectos tangentes à saúde da população LGBT+; possibilitar apreensão dos aspectos multifatoriais associados ao cuidado da população LGBT+, tendo como horizonte o conceito ampliado de saúde.
Resultados
Nos últimos dois anos, o preenchimento dos dados sobre gênero e orientação sexual, são aprimorados continuamente, com aumento das respostas a tais quesitos. Entre as dificuldades apontadas tem-se: desconhecimento sobre o tema, desconforto em fazer a pergunta e elevado número de informações a serem coletadas. Neste sentido, realinha-se a formação; introduz-se desafios dos profissionais da AB; diminuem-se os estigmas; aumenta-se a oferta dos serviços na Rede de Saúde do município; elencam-se importância das políticas intersetoriais (Justiça, Educação, Assistência Social, Segurança Pública, etc.); sensibilizam-se a(o)s diversa(o)s atrizes/atores envolvidos na formação de médica(o)s e dos profissionais da Rede de Saúde no que tange a educação permanente, integralidade da atenção e equidade do cuidado.
Aprendizado e Análise Crítica
Percebe-se, a partir das avaliações discentes, a importância e a dimensão da identidade de uma pessoa no que tange à forma como se relaciona com as representações e signos de masculino e feminino, suas performances nos diversos contextos de sociabilidade e como suas subjetividades são traduzidas em suas experiências sociais, que não guarda necessariamente, relação com o sexo atribuído ao nascimento. Quanto a orientação sexual, possibilita a caracterização de contextos de vulnerabilidade específicos que acometem a referida população e auxilia na identificação de possiveis crimes por motivação LGBTfóbica de forma macro e no âmbito do território adscrito à US. A conformação estrutural cisheteronormativa no cuidar e padrões sócio culturais no processo ensino-aprendizagem, desconsideram subjetividades da sexualidade humana que podem gerar ações deletérias na saúde e inviabilizar a equidade e integralidade do cuidado. A inserção de conteúdos voltados à população LGBT+ promove olhares à produção do cuidado em saúde para além do modelo hegemônico da medicina, e evidencia o pulsar da vida para além de protocolos clínicos, que reduzem o existir a padrões fisiopatológicos na prática do cuidar; amplia visões de mundo de médico(a)s em formação no contato com realidades interseccionadas por raça, gênero, classe e sexualidade. Evidencia-se necessidade da temática ao longo do curso em outros componentes curriculares, e não de forma pontual.
O PROGRAMA DE EDUCAÇÃO PELO TRABALHO PARA A SAÚDE (PET-SAÚDE) EQUIDADE COMO FERRAMENTA DE ENSINO APRENDIZADO SOBRE POLÍTICAS AFIRMATIVAS PARA GRADUANDA DE SAÚDE E DANÇA
Comunicação Oral Curta
1 Universidade do Estado do Amazonas (UEA)
Contextualização
O Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde) Equidade promove a formação de estudantes e profissionais alinhada ao Sistema Único de Saúde (SUS), integrando ensino, serviço e comunidade. Foca na redução das desigualdades e no fortalecimento das políticas afirmativas no Brasil, que buscam garantir acesso, inclusão e justiça social a grupos historicamente vulnerabilizados. Entre estes grupos se destacam, principalmente populações negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+, mulheres e grupos em vulnerabilidade socioeconômica.
Assim, assumindo o papel formador, a Universidade do estado do Amazonas Universidade do Estado do Amazonas (UEA) em Parceria com Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (SEMSA/Manaus) concorreram ao pleito do Edital SGTES/MS Nº 11, DE 16 de setembro de 2023 e foram contemplados com o projeto “PET-Saúde Equidade UEA-SEMSA/Manaus - Empoderamento das Trabalhadoras do SUS frente à Violência e Promoção da Saúde Mental”, no qual participam docentes e discentes da UEA e tutores da SEMSA/AM.
Descrição
O projeto “PET-Saúde Equidade UEA-SEMSA/Manaus conta com uma coordenadora, uma orientadora de serviço e dois grupos de trabalho (GT),. Cada GT é formado por um coordenador de grupo e um tutor (professores da UEA), dois preceptores (servidores da SEMSA/Manaus), oito alunos bolsistas e alunos voluntários dos cursos da Dança, Enfermagem, Medicina e Odontologia. O projeto apresenta várias frentes, sendo uma dessas a de promover discussões participativas sobre o conceito de saúde mental e prevenção da violência contra trabalhadoras do SUS. Neste contexto, a temática saúde mental e violência contra trabalhadoras do SUS foi discutida transversalmente entre os Petianos (membros do PET) através da abordagem sobre peculiaridades das populações negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+ e mulheres que podem, pela sua condição de vulnerabilidade e a partir do conceito de intencionalidade, apresentar maior risco de agravo a sua saúde mental e a sofrerem violência em seu ambiente de trabalho. Seguindo este método, mensalmente os Petianos (discentes e docente da UEA e tutores da UEA-SEMSA/Manaus) se encontravam para que temas dessa natureza fossem debatidos. Os encontros ocorriam mensalmente na Escola Superior de Ciências da Saúde (ESA/UEA), na Unidade de Desenvolvimento Docente e Apoio ao Ensino da UEA (UDDAE), sempre nas segundas ou terceiras terças-feiras do mês, no horário de 12 às 13 horas, por ser este um horário de intervalo entre as aulas, o que facilitava a participação de discentes e docentes.
Período de Realização
Assim como o projeto “PET-Saúde Equidade UEA-SEMSA/Manaus, os encontros aconteceram entre maio de 2024 e abril de 2026
Objetivo
Promover discussões participativas sobre o conceito de saúde mental e a prevenção de violência contra trabalhadoras do SUS a partir da abordagem transversal das políticas afirmativas.
Resultados
De maio de 2024 a março de 2026 foram realizadas dezessete reuniões, nos quais foram abordados e discutidos os seguintes temáticas: O Programa Nacional de Equidade de Gênero, Raça, Etnia e Valorização das Trabalhadoras no Sistema Único de Saúde e as suas interfaces com as políticas afirmativas; Interseccionalidade; As relações de poder na sociedade; Os principais agravos a saúde mental no ambiente de trabalho; O poder da dança para a Saúde; Racismo estrutural; Expressões racistas do cotidiano; os aspectos jurídicos na violência em ambientes de trabalho; O capacitismo no mundo acadêmico e do trabalho; homofobia como agravo á saúde mental de trabalhadores (as) do SUS; Acesso à saúde para as populações indígena e a populações quilombolas e ribeirinhas.
Aprendizado e Análise Crítica
O Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde) Equidade representa um avanço importante na formação em saúde ao alinhar ensino, serviço e comunidade com os princípios do SUS. Sua ênfase na equidade e nas políticas afirmativas é um ponto forte, pois contribui para formar profissionais mais sensíveis às desigualdades sociais, raciais, de gênero e outras interseccionalidades que impactam o cuidado em saúde. A partir desse programa pode-se vivenciar essa experiência, que evidenciou a importância do diálogo participativo para compreender a saúde mental no trabalho e prevenir violências no SUS a Apartir de temas transversais que envolvem políticas afirmativas. A partir dessa temática transversalmente acadêmicos dos cursos de médica, enfermagem, odontologia e dança puderam experienciar as condutas e ações que futuramente poderão afetar a saúde de pessoas em seus ambientes de trabalho. As discussões ampliaram o olhar sobre interseccionalidade, desigualdades e direitos, fortalecendo a consciência crítica e o cuidado coletivo. Destacou-se a valorização das trabalhadoras, o reconhecimento de práticas integrativas e a necessidade de ambientes mais inclusivos, seguros e equitativos.
SILENCIAMENTOS CURRICULARES E DESIGUALDADES NA FORMAÇÃO EM SAÚDE: UMA ANÁLISE INTERSECCIONAL DAS EMENTAS DE CURSOS DE GRADUAÇÃO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Apresentação/Introdução
A formação em saúde no Brasil tem sido tensionada pela centralidade dos determinantes sociais e pelas agendas de equidade no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse contexto, o currículo universitário assume um papel estratégico como dispositivo político-epistemológico que regula a produção e a legitimação de saberes.
Objetivos
Este estudo analisa de que modo os marcadores sociais de gênero, raça e classe são incorporados ou silenciados nas ementas dos cursos da Área II (Ciências Biológicas e Profissões da Saúde) da Universidade Federal da Bahia, problematizando seus efeitos na formação em saúde.
Metodologia
Trata-se de pesquisa documental de abordagem qualitativa, orientada pela compreensão do currículo como artefato histórico e como campo de disputas. Foram analisadas 1.090 ementas de 22 cursos de graduação, das quais apenas 37 (3,4%) apresentaram menções diretas aos marcadores sociais, o que evidencia sua baixa incorporação e não transversalidade, mesmo diante de diretrizes que orientam a abordagem das desigualdades sociais na educação superior. O corpus foi submetido à análise lexicográfica por meio do software IRaMuTeQ, utilizando-se a Classificação Hierárquica Descendente, que resultou em quatro classes temáticas: (1) crítica epistemológica à modernidade e à racionalidade científica; (2) abordagens histórico-culturais da racialização; (3) mobilizações interseccionais articulando gênero, raça, classe, saúde e política; e (4) conteúdos normativos vinculados à legislação educacional.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que a presença dos marcadores sociais, na área da saúde, ocorre de forma restrita, concentrada e frequentemente periférica nos currículos, não configurando um eixo estruturante da formação. Observa-se que, quando presentes, tais conteúdos tendem a se organizar em componentes específicos ou optativos, sem deslocar os fundamentos teóricos e metodológicos dos cursos. Esse padrão sugere que a incorporação dos marcadores ocorre, em grande medida, por indução normativa, sem implicar transformação substantiva dos projetos formativos.
No campo da saúde, esses silenciamentos têm implicações relevantes ao limitar a formação de profissionais capazes de compreender o processo saúde-doença em sua determinação social e em sua complexidade interseccional. A ausência ou marginalização desses debates restringe o acesso a referenciais críticos e a epistemologias não hegemônicas, contribuindo para a reprodução de práticas pouco sensíveis às desigualdades que estruturam as condições de vida e de saúde da população.
Conclusões/Considerações Finais
A incorporação dos marcadores sociais na formação em saúde ocorre de forma seletiva e insuficiente, o que exige a revisão crítica dos currículos, o fortalecimento da formação docente e a transversalização efetiva dessas temáticas. Defende-se a necessidade de uma reconfiguração curricular orientada por perspectivas interseccionais, como condição para o fortalecimento do compromisso social da formação em saúde no Brasil.
TRAJETÓRIAS DE GRADUANDOS QUE INGRESSARAM EM UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA POR MEIO DE AÇÕES AFIRMATIVAS.
Comunicação Oral Curta
1 FMB/UNESP
Apresentação/Introdução
No Brasil, o sistema de cotas permitiu a diminuição na desigualdade de acesso ao ensino superior dos grupos mais vulneráveis. Contudo, muitas vezes, na universidade eles ainda vivenciam situações de vulnerabilidades socioeconômicas, raciais e de gênero que os impedem de usufruir integralmente a vida acadêmica.
Objetivos
Analisar as dificuldades socioeconômicas, raciais e de gênero, bem como as situações de preconceito e violência vividas por estudantes cotistas que ingressaram na graduação em medicina de uma universidade pública.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa nos moldes de história de vida tópica. Participaram do estudo 16 estudantes cotistas da graduação em medicina humana (cursando ou formado). Os participantes foram entrevistados presencialmente ou via Google Meet no período de abril a outubro de 2024. As entrevistas foram gravadas e orientadas por um roteiro semiestruturado que abordou momentos específicos das
trajetórias de vidas dos participantes. O estudo obedeceu aos seguintes critérios de inclusão: ser graduando ou formado em medicina, acima de 18 anos e ter ingressado na universidade via sistema de cotas. Após a coleta de dados, as entrevistas foram transcritas integralmente, pela pesquisadora, e analisadas à luz da Análise de Conteúdo modalidade análise temática de Bardin. O estudo foi submetido ao comitê de ética em pesquisa e aprovado sob o parecer 6.535. 804.
Resultados e Discussão
Dos 16 participantes, 08 são do sexo feminino e 08 do sexo masculino, bem como entre pretos(a) e brancos (a), a idade média é de 25 anos, as principais formar de ingresso foram pelo sistema de cotas por serem oriundos da escola pública e pelo sistema de cotas PPI, 07 identificam se como homossexuais, 08 dividem apartamento, 02 recebem Auxílio permanência. Os participantes do estudo relataram vivências de racismo velado, tais como exclusões de dinâmicas de grupo e preconceitos implícitos nas interações acadêmicas, além das dificuldades financeiras para se manterem em um curso integral e elitizado, e os impactos na
saúde mental devido ao frequente sentimento de não pertencimento.
Conclusões/Considerações Finais
As vulnerabilidades vivenciadas pelos estudantes cotistas podem influenciar na qualidade de vida e no potencial acadêmico deles, deste modo, a identificação das vulnerabilidades possibilitará o levantamento de estratégias de enfrentamento nas diferentes instâncias institucionais.
A EQUIDADE NA FORMAÇÃO DE SANITARISTAS: RELATO DA REVISÃO DA MATRIZ CURRICULAR DO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM SAÚDE PÚBLICA DA ESP-MG
Comunicação Oral Curta
1 Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG)
2 Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG
Contextualização
O Curso de Especialização lato sensu em Saúde Pública (CESP) foi a primeira especialização ofertada pela Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG), em 1947. Com oferta contínua desde 2012, o CESP possui a Educação Permanente em Saúde (EPS) como referencial teórico-metodológico e político-pedagógico que orienta o seu desenvolvimento, inclusive os processos de discussão e de revisão da matriz curricular, realizados, periódica e coletivamente, junto a docentes do curso, majoritariamente trabalhadoras/es da ESP-MG. Na última revisão curricular, realizada antes de início da oferta da Turma de 2025-2026, a pauta principal envolveu a necessidade de inclusão sistemática e consistente da equidade na matriz curricular, considerando as discussões mais atuais do campo da Saúde Coletiva, o compromisso ético-político da ESP-MG e o movimento recente de institucionalização da Política de Equidade na Escola.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência sobre as discussões realizadas no contexto da última revisão da matriz curricular do CESP da ESP-MG, para a qual foram desenvolvidas duas oficinas presenciais entre coordenação do curso e docentes. Durante as oficinas, discutiu-se como a equidade poderia ser institucionalizada na formação de sanitaristas, considerando os debates mais atuais do campo da Saúde Coletiva e os movimentos recentes na ESP-MG dedicados à institucionalização de ações que promovam a inclusão, a diversidade e a acessibilidade, internamente e no âmbito da formação de trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS). Até então, a equidade e as temáticas afins apareciam de modo pouco sistemático na matriz curricular do CESP, com abordagens pontuais e vinculadas a seminários temáticos do curso.
Período de Realização
As oficinas de discussão e de revisão da matriz curricular do CESP foram realizadas entre outubro e dezembro de 2024.
Objetivo
Relatar a experiência de discussão e de revisão da matriz curricular do Curso de Especialização em Saúde Pública da ESP-MG, com ênfase na institucionalização da equidade como eixo estruturante e transversal e na promoção de uma formação sensível à diversidade e às políticas afirmativas.
Resultados
Como resultado da discussão coletiva da matriz curricular do CESP, definiu-se a equidade como eixo estruturante e transversal do curso, o que significa concebê-la não como um tema eventual ou restrito a uma disciplina específica, mas como pauta que orienta as discussões de todos os módulos de aprendizagem. Além disso, foi instituída a disciplina “Corpo, saúde e modos de (re)existir”, com o objetivo de produzir debates sobre os sentidos da saúde e da doença, por meio da reflexão e da experimentação de vivências do corpo em relação consigo, com o espaço, com o outro e com o contexto, abordando, ainda, a noção de lugar de fala como ferramenta para refletir sobre corpo e as práticas de cuidado em saúde, com ênfase nos grupos sistematicamente vulnerabilizados. Também se incluiu, na disciplina de Produção do Cuidado, a discussão sobre a interseccionalidade e o cuidado, com o objetivo de discutir conceitos-ferramenta que contribuam para a problematização de preconceitos relacionados a raça, gênero, deficiência, sexualidade, no contexto do cuidado no SUS. As mudanças realizadas estão alinhadas à Política de Equidade da ESP-MG, recém publicada, que visibiliza um posicionamento institucional frente às desigualdades socialmente produzidas e às iniquidades no SUS.
Aprendizado e Análise Crítica
No contexto de revisão da matriz curricular do CESP para a Turma de 2025-2026, observamos que as mudanças propostas acompanham as transformações do campo da Saúde Coletiva e os movimentos recentes de institucionalização da Política de Equidade na ESP-MG. O processo de revisão curricular, que resultou na inclusão transversal da temática da equidade, na discussão sobre corpo e produção da saúde, no debate sobre a interseccionalidade e o cuidado no SUS, representa uma mudança importante para a formação de sanitaristas comprometidos com a justiça social e capacitados para atuar em territórios diversos, respeitando as especificidades socioculturais e promovendo a redução das desigualdades e das iniquidades em saúde. O aprendizado central foi que a inovação acadêmica, para ser efetiva na Saúde Coletiva, deve estar intrinsecamente ligada a políticas reparatórias que valorizem as diferenças como dimensão formativa essencial para a garantia do direito à saúde e da cidadania, em consonância com os princípios do SUS e com as necessidades da população brasileira.
Realização: