Programa - Comunicação Oral - CO19.2 - Múltiplos territórios, saberes e perspectivas de cuidado em saude mental antirracista
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ENTRE A ESTRUTURA DO RACISMO E OS FIOS DO CUIDADO: A TRAVESSIA DAS MULHERES NEGRAS NO CUIDADO EM SAÚDE MENTAL NO RECIFE
Comunicação Oral
1 IAM-Fiocruz/PE
Apresentação/Introdução
Introdução
O racismo estrutural impacta profundamente a saúde mental das mulheres negras, configurando (GONZALEZ, 1982). um campo de opressões interseccionais no qual o gênero e a raça se sobrepõem para produzir experiências singulares de sofrimento. Diferente de um aprendizado que pode ser explicado apenas pela dimensão biomédica, o sofrimento psíquico das mulheres negras deve ser lido como expressão da violência simbólica e material que atravessa suas vidas, desde a herança da escravidão até o racismo cotidiano e institucional que ainda persiste no Brasil. Como observa Fanon (1968), o racismo imprime marcas que corroem a subjetividade, gerando estados de alienação, medo e despersonalização. No contexto brasileiro, as autoras Werneck (2016) e Carneiro (2023) argumentam que a desumanização das mulheres negras se traduz em maior exposição à precarização do trabalho, à violência obstétrica e a dificultade de acessar os serviços de saúde. Tais marcadores podem atuar como gatilhos para o desenvolvimento do sofrimento mental das mulheres negras. Nesse sentido, a Rede de Atenção Psicossocial deve integrar práticas que contemplem a especificidade do sofrimento mental das mulheres negras. A Cidade do Recife se conformou com ampliação de rede em saúde mental, porém os profissionais não foram capacitados para correlacionar o racismo ao sofrimento mental. Por isso, não incorporam nas ações de cuidado práticas antirracistas.
Objetivos
Objetivo:
Analisar a percepção das mulheres sobre o racismo e o seu cuiddo na RAPS Recife
Metodologia
Metodologia
Pesquisa qualitativa, descritiva, exploratória e analítica, cujo cenário foram os CAPS de Transtorno, situados no DS III e DS VI. Participantes da pesquisa: 5 mulheres negras atendidas nos serviços, nos CAPS e 1 mulher negra representante do Movimento Negro. Instrumentos: entrevistas semiestruturadas.
Resultados e Discussão
Resultados e discussão
Os resultados preliminares, a partir das 5 entrevistas realizadas em mulheres negras usuárias dos CAPS, aqui apresentadas por pedras preciosas, apontam que os conceitos sobre racismo emergem de suas experiências pessoais. Tais experiências são traduzidas a partir do atravessamento do racismo em suas vidas, onde são percebidos por elas como agressão verbal e moral. Mas, desapercebido pela sociedade. Assim, declara Diamante e Tazanita: “Discriminar uma pessoa... É, assim... Pelo jeito dela... pela sexualidade dela, pela cor, pelo jeito que ela se veste. Para mim já é racismo. [...] as pessoas acham que racismo só é cor e não é só cor. O racismo engloba tudo”.
Segundo as declaçaões das participantes, o racismo pode despersonalizar as pessoas negras de diversas formas, inclusive pela estética. Logo, apontam o racismo como um mecanismo de violância simbólica e sujetiva que pode desencadear sofrimento psiquico segundo expressa Turquesa: “As pessoas que são brancas e que tem cabelo liso, essas coisas. Eu me sinto inferior, eu já sofri muito racismo e por conta disso, eu hoje tenho até medo de me aproximar dessas pessoas”. Estima-se que entre 20% e 25% da população brasileira vive algum tipo de sofrimento mental ao longo da vida, sendo que uma parcela significativa apresenta sintomas no momento atual, e que a maior parcela é a pop negra. A Politica de Saúde Mental foi implementada com um conjunto de ações para garantir um cuidado em liberdade e sem “preconceito” (BRASIL, 2011). No entanto, o tema do racismo não é abordaddo nos Planos de Cuidado, conforme relata a participante Turquesa: “Sobre racismo no meu PTS não perguntam nada sobre racismo, nunca perguntam”.
Conclusões/Considerações Finais
Conclusão
As participantes desta pesquisa, reconhecem que o racismo é uma mazela social que pode desencadear sofrimento mental causando prejuízos em todos contextos de suas vidas, atuando como gatilho para quadros de ansiedade, depressão, baixa auto estima e sentimentos de exclusão, tais fatores, incidem e agravam o sofrimento psíquico. Além disso, reconhecem que os serviços de saúde mental são importantes, mas que não tematizam sobre o racismo no seu cuidado.
Referencias
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011. Brasília, DF, 26 dez. 2011.
CARNEIRO, S. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
FANON, F. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
WERNECK, J. Racismo institucional e saúde da população negra. Saúde e Sociedade, v.3, 2016.
QUANDO MULHERES NEGRAS CUIDAM: TRABALHO, RACISMO E RESISTÊNCIA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE EM SALVADOR
Comunicação Oral
1 Fiocruz e UFF
2 UFBA
3 Fiocruz
4 UFRJ
5 UFF
Apresentação/Introdução
Este trabalho apresenta dados parciais de pesquisa, em Salvador, com trabalhadoras da Atenção Primária à Saúde (APS) autodeclaradas negras. No caso das mulheres negras trabalhadoras APS dinâmica do racismo assume contornos particularmente complexos, uma vez que raça e gênero se articulam na produção de experiências de deslegitimação profissional, suspeição sobre a competência técnica, sofrimento psíquico e necessidade permanente de autoafirmação. Ao mesmo tempo, essas trajetórias são também marcadas por qualificação profissional, forte vínculo com o trabalho em saúde, experiência acumulada no SUS e construção de estratégias de resistência diante das violências vividas. Desse modo, compreender como essas trabalhadoras nomeiam, interpretam e enfrentam o racismo no cotidiano laboral constitui um passo importante para o fortalecimento de uma agenda antirracista no interior da Saúde Coletiva.
Objetivos
Objetivo geral: analisar experiências de formação e trabalho em saúde de técnicas/os e enfermagem, enfermeiras/os, assistentes sociais e médicas/os negras e negros que atuam no Sistema Único de Saúde, especialmente na Atenção Primária à Saúde em Salvador à luz do debate do racismo estrutural e institucional.
Metodologia
Trata-se de estudo qualitativo, utilizando GF realizado em setembro de 2024. Participaram do GF 4 trabalhadoras que se autodeclaram negras atuantes na APS no município de Salvador, todas na faixa entre 30 e 51 anos e com diferentes formações e inserções profissionais: uma médica, uma técnica de enfermagem com graduação em enfermagem, uma enfermeira e uma assistente social. As participantes atuam em distintos territórios e distritos sanitários, com experiências em unidades de saúde da família, unidade básica de saúde, consultório na rua e ações de promoção da saúde. O roteiro contou com perguntas abertas enfocando as experiências/vivências dessas trabalhadoras negras e a questão do racismo no trabalho em saúde. Em relação à interpretação dos dados, buscamos no interacionismo simbólico, as referências para a interpretação relacionada às situações que compõem as experiências/vivências a partir do racismo.
O estudo atendeu integralmente às exigências éticas, aprovado com o registro CAAE 57976322.0.0000.5241. As falas das participantes foram identificadas por nomes indicados pelas entrevistadas, a fim de preservar seus anonimatos, são eles: Dra. Favela, Maria Vitória, Mulher Preta e Maria Filipa.
Resultados e Discussão
Os relatos demonstram que a experiência dessas trabalhadoras é atravessada pela articulação entre raça, classe e gênero, intensificando a suspeição sobre a competência da mulher negra e produzindo efeitos sobre o corpo, a estética, o pertencimento racial e a saúde mental. O quesito raça/cor, a rejeição à autoidentificação negra e a centralidade do cabelo como marcador racial revelam que o racismo opera igualmente como produção subjetiva, modelando a percepção de si e do outro. Ao mesmo tempo, a análise mostra que essas experiências não se reduzem à vitimização, as participantes constroem estratégias de resistência baseadas na permanência, na autoafirmação, na educação (educação em um sentido amplo e a educação permanente em saúde), na consciência racial e na valorização da representatividade negra. As iniciativas antirracistas no âmbito institucional permanecem desiguais, descontínuas e tensionadas pela lógica produtivista da APS, que tende a reduzir o cuidado à meta e ao procedimento, esvaziando espaços de enfrentamento das desigualdades raciais.
Conclusões/Considerações Finais
As considerações finais permitem afirmar que o racismo, tal como narrado pelas participantes, não constitui um elemento externo ou secundário ao trabalho em saúde, mas uma dimensão constitutiva da experiência de mulheres negras na Atenção Primária à Saúde. Ele se expressa na invisibilização da temática racial na formação, na deslegitimação profissional, no sofrimento psíquico, na dificuldade de autoidentificação racial e nos limites institucionais para o desenvolvimento de práticas antirracistas. Desse modo, os resultados reforçam a necessidade de compreender o racismo como categoria central para a análise do trabalho em saúde e para a construção de respostas comprometidas com a equidade racial no SUS. Ao mesmo tempo, o estudo evidencia que essas trabalhadoras elaboram formas concretas de resistência, sustentadas pela educação, pela consciência racial, pela permanência nos espaços ocupados e pela afirmação de si como profissionais e sujeitas políticas. Nesse horizonte, o fortalecimento de uma política antirracista na Saúde Coletiva exige não apenas o reconhecimento formal do problema, mas sua incorporação efetiva nos processos formativos, na educação permanente, na organização do cuidado e nas práticas institucionais cotidianas. Assim, mais do que descrever experiências individuais, o estudo pretende evidenciar como essas narrativas lançam luz sobre processos sociais e institucionais mais amplos, que desafiam a consolidação de uma política efetivamente antirracista no SUS.
CUIDADO EM SAÚDE MENTAL PARA A POPULAÇÃO NEGRA EM UMA DIREÇÃO ÉTICO-POLÍTICA ANTIRRACISTA - UMA REVISÃO INTEGRATIVA
Comunicação Oral
1 IPUB/UFRJ
Apresentação/Introdução
O presente trabalho analisa como a colonialidade impactou a subjetividade dos sujeitos negros e moldou o saber psiquiátrico. Historicamente, a psiquiatria, desde sua consolidação no século XIX, utilizou o racismo científico e a eugenia para legitimar sua dominação. A consolidação do campo caracterizou-se pela fixação das fronteiras entre normal e patológico que englobou debates sobre civilização e raça/cor, colocando sob suspeita sujeitos e setores sociais incômodos à ordem vigente, isto é, atuando como instrumento de controle social. Embora a Reforma Psiquiátrica brasileira (RPb) se fundamente em princípios de cidadania e inclusão, faz-se necessário problematizar a insuficiente consideração da temática racial nesse processo, que advém de uma lacuna estrutural e epistemológica enraizada na formação social do país. A constituição do Brasil é determinada pela exploração de uma raça sobre a outra, sendo a escravização dos povos negros o fato histórico estruturante de nossa realidade social. A população negra – majoritária no país e no público atendido pelos serviços substitutivos de saúde mental – continua sofrendo violação de direitos e precariedade social, além de lidar com os impactos da discriminação racial. O racismo configura um sistema de opressão manicomial e urge a necessidade de um tensionamento das bases eurocêntricas da assistência. Logo, a política de Atenção Psicossocial deve radicalmente se distanciar de práticas de exclusão, sendo crítica à estrutura racial brasileira, além de promover recursos que ampliem a participação social desses usuários, viabilizando possibilidades de cuidado em saúde mental em uma perspectiva antirracista.
Objetivos
O estudo tem como objetivo geral apresentar possibilidades de cuidado para a população negra, na Atenção Psicossocial, que sejam práticas antirracistas, o que fortalece a Reforma Psiquiátrica brasileira e contribui para a promoção da equidade no campo da saúde. Além disso, a respeito dos objetivos específicos, pode-se destacar: examinar a colonialidade em sua dimensão histórica no Brasil e os impactos resultantes para a organização social; identificar como a questão racial foi abordada no processo histórico da Reforma Psiquiátrica Brasileira; analisar contribuições teóricas de autores que discutem a subjetividade negra frente ao racismo; mapear práticas de cuidado em saúde mental que dialoguem com uma perspectiva antirracista no SUS e propor estratégias que possam fortalecer a equidade racial.
Metodologia
A metodologia adotada consistiu na realização de uma revisão bibliográfica narrativa - que utilizou livros e artigos que abordam racismo e psiquiatria - e de uma revisão integrativa da literatura a fim de examinar as possibilidades de cuidado antirracistas. As buscas foram realizadas nas bases de dados Google Acadêmico, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). O período de publicação estabelecido foi de 2020 a 2025, com o intuito de abarcar discussões atuais. A busca resultou em 1562 estudos e, depois da aplicação dos critérios de exclusão, foram selecionados 15 artigos que compuseram a amostra final. Sendo realizado, por fim, uma análise dos materiais trabalhados.
Resultados e Discussão
Conclui-se com a revisão integrativa que, embora haja uma incipiência do debate da questão étnico-racial e o cuidado em saúde mental, vide a reduzida quantidade de artigos encontrados, há uma convergência expressiva acerca do reconhecimento do racismo institucional e epistêmico como um fator significativo no desenvolvimento do sofrimento psíquico da população negra. Para mais, os artigos expõem desafios na implementação efetiva de práticas antirracistas nos serviços de saúde mental devido ao racismo estrutural que se configura como mantenedor de práticas manicomiais mesmo nesses dispositivos comunitários que se evidencia pela omissão do quesito raça/cor e da fragilidade da formação profissional. O aspecto mais notável é a urgência no que diz respeito ao fomento de práticas aquilombadas e contracoloniais na Rede de Atenção Psicossocial a fim de tensionar as heranças coloniais da psiquiatria, enfrentar o mito da democracia racial, desnaturalizar hierarquias institucionais, promover o protagonismo preto, incorporar saberes afro-diaspóricos e ampliar a potência comunitária e territorial do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
O cuidado em saúde mental para a população negra em uma direção ético-política antirracista deve partir do reconhecimento de que a formação socio-histórica do Brasil, ancorada na escravização dos sujeitos negros durante o período colonial, estabeleceu uma assimetria na ordem social. Por conseguinte, a sociedade brasileira é marcada por uma hierarquia que aloca os indivíduos brancos em posição de privilégio simbólico e material, enquanto os sujeitos negros foram relegados a um lugar de subalternidade, inferiorização e marginalização. Sendo assim, o estudo denota uma indissociabilidade entre luta antimanicomial e a luta antirracista.
CONCEPÇÕES E PRÁTICAS DE CUIDADO EM SAÚDE MENTAL EM UMA COMUNIDADE QUILOMBOLA DO BAIXO SUL DA BAHIA
Comunicação Oral
1 Universidade Federal da Bahia
2 University of Warwick
Apresentação/Introdução
Comunidades quilombolas são grupos étnicos negros que se auto definem a partir de relações específicas com o território, ancestralidade e práticas culturais próprias de matriz afro-brasileira. A constituição da sociedade brasileira, com base no processo colonial escravista, implicou em processos de vulnerabilização e negligência para com estas populações afetando suas condições de vida e saúde, bem como, o acesso às políticas públicas, perduráveis na contemporaneidade. Este cenário contribui para o registro de quadros de sofrimento psíquico nas comunidades quilombolas, segundo a literatura científica. Além disso, como marcas do racismo institucional, tais comunidades enfrentam barreiras de acesso aos serviços de saúde mental e, de modo geral, encontram a oferta de um cuidado descontextualizado de suas realidades socioculturais – caracterizadas por práticas tradicionais e ancestrais de cuidado. Sendo assim, se faz importante a investigação das concepções e práticas em saúde mental compartilhadas entre essas comunidades para se avançar em direção à garantia de um cuidado em saúde mental territorialmente situado.
Objetivos
Apreender as concepções sobre saúde mental e práticas de cuidado compartilhadas por moradores de uma comunidade quilombola no Baixo Sul da Bahia.
Metodologia
O presente relato de pesquisa descreve a realização de uma roda de conversa como uma das práticas de investigação qualitativa que compõe o Projeto ORI – Racismo e Iniquidades Sociais em Saúde Mental no Brasil. As rodas de conversa são utilizadas como instrumentos de produção de dados qualitativos, buscando alinhar intenções educativas e sistematização de informações a partir de uma dinâmica dialógica. A roda de conversa supracitada contou com 16 participantes de uma comunidade quilombola localizada no Baixo Sul da Bahia. A partir de um roteiro semiestruturado, buscou-se constituir uma dinâmica grupal para investigar sobre as concepções e práticas de cuidado em saúde mental presentes na comunidade.
Resultados e Discussão
Múltiplos significados foram atribuídos para saúde mental pelos participantes. Identificamos concepções de saúde mental atreladas a um estado de bem-estar e alegria, a experiência de garantia de direitos e recursos e como sinônimo de adoecimento psíquico. Destacou-se uma compreensão de que a falta de moradia, de renda e de laços de solidariedade comunitária impactam em uma experiência de “falta de saúde mental”. Ao mesmo tempo, concepções da saúde mental como “problema de loucura” e “problema de cabeça” também se destacaram. Termos como “doido” e “bongoló” apareceram como formas de caracterizar sujeitos que vivenciam essa experiência. Neste sentido, percebemos que concepções coletivas e individualistas convivem dentro do mesmo território. Há um reconhecimento de como fatores socioeconômicos e as relações comunitárias implicam diretamente na experiência de uma “mente em dias”. Ao mesmo tempo, uma perspectiva individualista e carregada de elementos do estigma em saúde mental também revela a experiência de indivíduos do território classificados como “doidos” serem excluídos das dinâmicas comunitárias e sofrerem discriminação. Diante dessa multiplicidade de concepções, também aparecem uma diversidade de práticas de cuidado. O apoio comunitário ou familiar se destacou como o principal elemento de cuidado entre os participantes, revelando como o laço comunitário exerce importante função para a escuta de experiências de sofrimento e aflição. Os “conselhos” e as “conversas” aparecerem como práticas de destaque entre os participantes. O uso de banhos de folhas e chás de plantas medicinais também apareceram como uma prática utilizada para “acalmar a cabeça”. Como práticas menos frequentes, mas ainda destacadas pelos participantes, apareceram o “apoio de Deus”, “remédio tarja preta” e “procurar psicólogo e psiquiatra”. Esta última aparece como uma prática menos relatada entre os participantes, porém, quando destacada, é apontada como de difícil acesso, assim, revelando barreiras de acesso aos serviços formais de saúde mental nesta comunidade quilombola.
Conclusões/Considerações Finais
A compreensão das concepções e práticas de cuidado em comunidades quilombola revela a importância de reconhecer a pluralidade de significados atribuídos às experiências de sofrimento e o pluralismo terapêutico nas ações de cuidado mobilizadas. O reconhecimento dessa diversidade importa para a legitimação das práticas de cuidado tradicionais, além de um avanço na formulação de práticas culturalmente sensíveis por parte dos serviços formais de saúde. Constata-se também a existência de barreiras de acesso aos serviços de saúde, um problema recorrente em territórios quilombolas, conforme indicado na literatura sobre o tema. Este último dado desvela a ação do racismo institucional sobre estas comunidades. Os resultados encontrados reforçam a necessidade de se avançar em direção à construção de um SUS que atenda e reconheça as necessidades de saúde e demandas assistenciais da população quilombola.
ESCUTA, TERRITÓRIO E RESISTÊNCIA: RODA DE CONVERSA EM SAÚDE MENTAL EM UMA COMUNIDADE QUILOMBOLA NA BAHIA
Comunicação Oral
1 UFBA
2 (FASA/ISC/UFBA)
3 Warwick
Contextualização
O presente relato de experiência aborda uma ação em saúde mental desenvolvida por um projeto internacional de pesquisa-ação (ORI) que aborda as relações entre racismo e iniquidades sociais em saúde mental no Brasil, focalizando, especificamente, um dos campos de investigação: uma comunidade quilombola na Bahia. Inserida no campo da Saúde Coletiva, a atividade parte do reconhecimento de que o racismo estrutural e as iniquidades sociais produzem efeitos diretos sobre a saúde mental da população negra. Nesse contexto, a roda de conversa foi construída como um dispositivo coletivo de escuta e cuidado, articulando território, experiências vividas e produção de saúde, a partir das especificidades históricas e sociais da comunidade.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa, construído a partir das memórias de campo de uma roda de conversa sobre saúde mental realizada em fevereiro de 2026, em uma comunidade quilombola na Bahia. A atividade integrou as ações do projeto no território e foi conduzida por sua equipe, com a participação de moradoras/es da comunidade. A roda foi estruturada a partir de três questões norteadoras, relacionadas à compreensão de saúde mental, aos fatores de sofrimento e às estratégias de cuidado. A análise fundamenta-se nos registros das falas, interações e dinâmicas produzidas durante a atividade.
Período de Realização
Fevereiro de 2026.
Objetivo
Refletir sobre a roda de conversa como dispositivo de cuidado em saúde mental, analisando os impactos do racismo e das iniquidades sociais na produção do sofrimento psíquico em uma comunidade quilombola.
Resultados
A ação contou com ampla participação da comunidade, majoritariamente composta por mulheres, evidenciando sua centralidade nas práticas de cuidado e na organização coletiva do território. As falas iniciais destacaram o pertencimento territorial, a convivência familiar e as práticas cotidianas como elementos fundamentais para o bem-estar.
No debate sobre saúde mental, emergiu a importância da escuta qualificada, sendo apontada a necessidade de acompanhamento psicológico como espaço de elaboração do sofrimento. As/os participantes destacaram que o racismo estrutural, a ausência de políticas públicas e o descaso com os territórios quilombolas impactam diretamente suas condições de vida, configurando um sofrimento de caráter coletivo.
Entre os fatores de sofrimento, destacaram-se as dificuldades de acesso aos serviços de saúde e educação, agravadas pela precariedade da infraestrutura local. A insuficiência de assistência psicossocial e o abandono estatal foram apontados como elementos que intensificam a sobrecarga, especialmente entre as mulheres. Relatos sobre dificuldades no acompanhamento de crianças com necessidades específicas evidenciaram o adoecimento compartilhado diante da ausência de suporte institucional.
O racismo institucional foi explicitado em narrativas de discriminação no acesso aos serviços de saúde, revelando barreiras que ultrapassam a dimensão individual e se inscrevem em dinâmicas estruturais. Por outro lado, a potência e resistência da comunidade se afirmam através das práticas de cuidado mencionadas, que perpassam a religiosidade, a ancestralidade, o trabalho e outras dimensões coletivas, como a própria roda de conversa, reconhecida como espaço de acolhimento e fortalecimento comunitário.
Aprendizado e Análise Crítica
Observou-se que as falas foram predominantemente construídas no plano coletivo, indicando que o sofrimento e suas formas de enfrentamento são compartilhados no território.
Nesse sentido, A experiência aproxima-se das discussões sobre o “aquilombar” como prática de produção de cuidado coletivo, territorial e antimanicomial, articulada ao enfrentamento do racismo e das desigualdades sociais.
Conclui-se que a roda de conversa se constitui como um importante dispositivo de cuidado em saúde mental, ao promover escuta, reconhecimento e elaboração coletiva do sofrimento. A experiência evidencia que o racismo estrutural, associado às iniquidades sociais e à ausência de políticas públicas, produz impactos significativos na saúde da população negra. Destaca-se a importância de iniciativas territorializadas que valorizem os saberes locais e fortaleçam os vínculos comunitários, contribuindo para a construção de práticas de cuidado sensíveis às realidades sociais, raciais e históricas. Ao mesmo tempo, a experiência evidencia os limites das ações pontuais frente à ausência do Estado, reforçando a necessidade de políticas públicas estruturais que enfrentem o racismo e as iniquidades sociais de forma também estrutural.
TRILHAS PARA UMA NOVA TRILHA: CAMINHOS PARA O DESENVOLVIMENTO DE UMA VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE MENTAL EM UMA COMUNIDADE PESQUEIRA-QUILOMBOLA
Comunicação Oral
1 Fiocruz
Apresentação/Introdução
Povos e comunidades tradicionais se caracterizam enquanto aqueles que produzem e reproduzem sua vida a partir da relação com o meio ambiente, em formas próprias e diferentes da ordem social hegemônica. O racismo e o capitalismo atuam enquanto determinações no processo de saúde-adoecimento mental destas comunidades, resistindo em cenários de conflito socioambiental e vulnerabilização psicossocial. Contudo, persiste um vazio de abordagens de pesquisa e de cuidado em saúde que articulem tais dimensões a partir de perspectivas participativas e culturalmente situadas. Este trabalho sistematiza uma experiência de Vigilância Popular em Saúde, com ênfase na saúde mental, em uma comunidade pesqueira-quilombola de Pernambuco, articulando Educação Popular em Saúde e metodologias participativas. Parte-se da crítica ao modelo biomédico e manicolonial para abordagem à saúde mental, propondo compreender os sentidos do sofrimento psíquico a partir do território, da história e das lutas sociais, em diálogo com práticas comunitárias de cuidado.
Objetivos
Analisar as contribuições do Círculo de Cultura (CC), articulado ao Diagnóstico Rápido Participativo (DRP), para a construção de uma vigilância popular em saúde mental, considerando as intersecções entre racismo, território, gênero, classe e modos de vida. Busca-se ainda identificar potencialidades metodológicas para produção de conhecimento participativo e fortalecimento de práticas antirracistas em saúde.
Metodologia
Trata-se de um relato de experiência de pesquisa participativa realizada com a comunidade pesqueira-quilombola Povoação de São Lourenço, localizada em Goiana/PE. A pesquisa foi coordenada pela Coordenação de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (CAAPS) da Fiocruz Pernambuco. Foram conduzidos seis encontros entre outubro e dezembro de 2025, integrando ferramentas do DRP (mapa mental, rio do tempo, FOFA, priorização e árvore dos problemas) às etapas do CC (investigação temática, categorização, problematização e inéditos-viáveis). Participaram cerca de 12 moradores por encontro. Os dados foram produzidos por registros audiovisuais, diários de campo e materiais gráficos. A análise concentrou-se no processo metodológico, orientada pela Educação Popular em Saúde, Vigilância Popular em Saúde e pela Reforma Psiquiátrica Brasileira, segundo a perspectiva antimanicolonial.
Resultados e Discussão
A articulação entre DRP e CC mostrou-se potente para qualificar e aprofundar o trabalho diagnóstico - enquanto primeira etapa da VPS - a partir do trabalho pedagógico. Observou-se a superação da compreensão da saúde mental em uma abordagem individualizante para uma leitura sócio-histórica. Inicialmente, o sofrimento aparecia associado somente a sintomas como ansiedade e depressão; ao longo do processo, emergiram relações do processo saúde-adoecimento mental levando em consideração as repercussões do racismo, conflitos socioambientais, precarização do trabalho e perda de direitos. Assim amplia-se a consciência crítica e a capacidade de análise sobre as determinações sociais da saúde mental. O CC garantiu o trabalho pedagógico, promovendo produção coletiva de conhecimento, apropriação de ferramentas de diagnóstico, valorização dos saberes locais e fortalecimento da autonomia. Ainda, a condução da experiência a partir do diálogo, coletividade e amorosidade evidenciou o potencial papel da educação popular como prática de cuidado em saúde mental.
Destaca-se também o fortalecimento identitário: a problematização da identidade quilombola revelou seu estágio de fragilização frente às violências coloniais e capitalistas sofridas historicamente, que vem ocasionando a descontinuidade de saberes e práticas tradicionais. Logo, foi identificada a necessidade de retomada e fortalecimento da identidade quilombola entre a comunidade enquanto condição para o cuidado em saúde mental. Tal movimento articulou saúde mental à resistência cultural e política, evidenciando que o cuidado passa pelo resgate da memória, reconstrução coletiva da identidade e enfrentamento às violências coloniais. Ainda, identificou-se que as mulheres da comunidade têm papel central para sustentação de redes de cuidado, da organização comunitária e para a continuidade dos saberes e modos de vida tradicionais.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência demonstra potencialidades para o desenvolvimento de uma Vigilância Popular em Saúde Mental, integrada a processos pedagógicos a partir da Educação Popular, em contribuição a tarefa histórica de produzir outros conhecimentos e práticas antirracistas em saúde. O CC qualifica o processo diagnóstico ao promover consciência crítica, protagonismo comunitário e integração entre saberes. Além disso, evidencia que o cuidado em saúde mental, em contextos marcados pelo racismo e pela desigualdade, exige articulação com as lutas por território, direitos e reconhecimento cultural. Aponta-se a necessidade de ampliar pesquisas participativas e de incorporar tais abordagens às políticas públicas, fortalecendo redes entre academia, serviços e movimentos sociais.
SAÚDE MENTAL, RACISMO ESTRUTURAL E CUIDADO EM TERRITÓRIO QUILOMBOLA: EXPERIÊNCIAS DE APROXIMAÇÃO DA EQUIPE DO PROJETO ORI NA COMUNIDADE ENGENHO DA PONTE, RECÔNCAVO - BA
Comunicação Oral
1 IHAC UFBA
2 CAHL UFRB
3 ISC UFBA
4 FAMEB UFBA
Contextualização
Esta comunicação apresenta reflexões produzidas a partir da aproximação de um grupo de pesquisa, ORI, com a comunidade quilombola do Engenho da Ponte, localizada no Recôncavo baiano, entre julho de 2025 e fevereiro de 2026. A experiência se insere nas discussões sobre saúde mental, desigualdades sociais e racismo estrutural, considerando que a população quilombola vivencia processos históricos de exclusão marcados pela herança do escravismo, pela persistência do racismo institucional e pelas dificuldades de acesso às políticas públicas, incluindo o Sistema Único de Saúde e a Rede de Atenção Psicossocial. As desigualdades raciais e socioeconômicas impactam diretamente os modos de vida, as formas de sofrimento e as práticas de cuidado. No campo da saúde mental, isso se expressa tanto na maior exposição a situações de vulnerabilização, violência e precarização, quanto nas barreiras de acesso aos serviços, frequentemente marcadas por discriminação, invisibilização cultural e inadequação das abordagens biomédicas. Ao mesmo tempo, os territórios quilombolas constituem espaços de produção de saberes, solidariedade, memória e resistência, onde o cuidado também se constrói por meio da espiritualidade, da ancestralidade e das relações comunitárias. Tais práticas desafiam modelos hegemônicos, apontando para abordagens interseccionais, territorializadas e antirracistas.
Descrição
A aproximação com a comunidade ocorreu de forma gradual, por meio da participação em atividades, reuniões e eventos organizados pelos moradores, permitindo a construção de vínculos e de uma escuta sensível às dinâmicas locais. A metodologia foi orientada pela observação participante, possibilitando acompanhar práticas cotidianas, formas de organização coletiva e modos de compreender o cuidado e o sofrimento. Foram observadas situações em que o sofrimento psíquico se associa a experiências de racismo, desigualdade social, insegurança material e dificuldades de acesso a serviços públicos. Em paralelo, identificaram-se práticas coletivas de cuidado baseadas na solidariedade, na espiritualidade e nas redes de apoio locais, constituindo estratégias fundamentais de enfrentamento. A experiência evidenciou a importância de uma aproximação respeitosa, construída em diálogo com a comunidade, reconhecendo seus saberes e formas próprias de cuidado.
Período de Realização
Julho de 2025 a 10 de fevereiro de 2026
Objetivo
Refletir sobre a relação entre racismo estrutural, desigualdades sociais e saúde mental a partir da aproximação com a comunidade, buscando compreender práticas comunitárias de cuidado e modos de enfrentamento do sofrimento psíquico.
Resultados
A experiência possibilitou identificar que a saúde mental no território está profundamente atravessada por desigualdades sociais, raciais e históricas. O sofrimento psíquico relaciona-se a condições concretas como dificuldades de acesso à água, precariedade da infraestrutura, estradas de barro e ausência de transporte, dificultando o acesso a serviços de saúde e assistência. Também foram percebidas barreiras na atenção psicossocial, como distância dos serviços, pouca oferta de cuidado especializado, ausência de ações voltadas à população quilombola e práticas institucionais marcadas por invisibilização cultural e discriminação. Esses fatores contribuem para o afastamento da comunidade dos serviços formais. Por outro lado, foram reconhecidas práticas comunitárias de cuidado organizadas a partir da convivência, da religiosidade, da ancestralidade e do apoio coletivo, fortalecendo o pertencimento e o enfrentamento das dificuldades. Os resultados indicam que o cuidado em saúde mental no território envolve dimensões sociais, culturais e políticas frequentemente não reconhecidas pelos serviços, apontando a necessidade de políticas públicas antirracistas e territorializadas.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que o sofrimento psíquico não pode ser compreendido de forma dissociada das condições materiais de existência, da história de exclusão e das formas contemporâneas de racismo estrutural. A vivência também colocou em análise o lugar do grupo de pesquisa, exigindo uma postura de escuta, respeito e construção de vínculos, reconhecendo que a produção de conhecimento deve ser construída em diálogo com a comunidade. Outro ponto refere-se aos limites dos modelos biomédicos, que tendem a individualizar o sofrimento e desconsiderar seus determinantes sociais. Tornou-se evidente a necessidade de incorporar perspectivas antirracistas e territorializadas na atenção psicossocial. As práticas comunitárias mostraram-se fundamentais, indicando a importância de políticas públicas que dialoguem com esses saberes. Conclui-se que a construção de práticas de cuidado junto a comunidades quilombolas exige uma postura ética, antirracista e comprometida com a transformação social, reconhecendo que a saúde mental está profundamente relacionada à luta por território, dignidade e direitos.
Realização: