Programa - Comunicação Oral Curta - COC23.1 - Saúde mental LGBT (3)
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
"A GENTE VIRA ESCUDO, NÉ?": UMA ANÁLISE QUALITATIVA SOBRE A EXPERIÊNCIA DE ESTIGMA VIVIDA POR FAMILIARES DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES TRANS OU GÊNERO-DIVERSO (TGD)
Comunicação Oral Curta
1 Universidade de São Paulo (USP)
2 Universidade de Toronto
Apresentação/Introdução
Crianças e adolescentes trans e de gênero-diverso (TGD) estão desproporcionalmente expostos ao estigma, impulsionado sobretudo pela não conformidade às normas sociais de gênero. Embora crescente atenção venha sendo dada ao impacto da estigmatização nos desfechos de saúde deste grupo, especialmente na literatura internacional, há comparativamente menos dados acerca do estigma enfrentado por seus familiares, em particular aqueles que reconhecem a identidade de gênero dos filhos e se engajam em seu suporte.
Objetivos
Neste trabalho, analisamos como o estigma direcionado a crianças e adolescentes TGD afeta também seus familiares (estigma de cortesia ou por associação).
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, conduzido com famílias de crianças e adolescentes TGD (5–17 anos) acompanhados em um Ambulatório Especializado no sudeste brasileiro (2023–2024) e com profissionais de saúde (psicólogas/os, assistentes sociais e médicas/os). O banco de dados analisado inclui 28 entrevistas em profundidade (13 com pais e mães e 15 com profissionais de saúde) e um ano e meio de observação participante no contexto do serviço. A análise seguiu a Análise Temática Reflexiva, de forma indutiva e orientada por um quadro construcionista-interpretativo, fundamentada no Modelo de Estresse de Minoria de Gênero e nos referenciais conceituais sobre estigma.
Resultados e Discussão
Os achados indicam que familiares de jovens TGD vivenciam sua própria carreira moral, estando sujeitos à estigmatização, sobretudo quando adotam atitudes afirmativas em relação aos filhos. O estigma se manifesta em três domínios principais: família estendida e amigos/as, comunidade e instituições (serviços de saúde, escolas e serviços de proteção à infância). Noções morais de "parentalidade inadequada" associam o suporte a filhos TGD à ideia de corrupção moral, sustentando o estigma direcionado à família como um todo. Em cada um desses domínios, o estigma mina a conexão emocional e o suporte material, expondo famílias ao escrutínio público e isolamento social. Mulheres cisgênero — especialmente mães e avós — são afetadas de forma desproporcional, sendo alvo de concepções normativas de maternidade e feminilidade. Homens cisgênero relataram maior solidão e vergonha diante de outros homens. Diante da ausência de proteções sociais, o anonimato e o ocultamento da identidade dos filhos emergiram como estratégias pragmáticas, levando famílias a mudar de escola, cidade ou bairro.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados avançam em direção a uma conceituação do estigma para além de seus impactos individuais, situando-o em uma abordagem comunitária para a saúde trans que inclui as famílias. Reforça-se que o suporte a jovens TGD passa, necessariamente, pela inclusão de seus familiares, apontando para a necessidade de mecanismos institucionais de proteção a famílias afirmativas e de expansão da saúde trans desde uma perspectiva comunitária que contemple também familiares e guardiões legais.
A PARENTALIDADE DE HOMENS CISGÊNERO GAYS VIA GESTAÇÃO DE SUBSTITUIÇÃO: POSSIBILIDADES NA CONSTITUIÇÃO DE FAMÍLIA E PÂNICOS MORAIS
Comunicação Oral Curta
1 UFRRJ
2 GEPSID/UERJ
3 UERJ
Apresentação/Introdução
A gestação de substituição constitui-se como uma biotecnologia reprodutiva na qual uma pessoa com útero, geralmente uma mulher cisgênero, gesta para outra pessoa e/ou casal. Na ausência de uma lei que contemple as biotecnologias reprodutivas no Brasil, a reprodução assistida é regulada pelo Conselho Federal de Medicina/CFM que a autoriza de modo não comercial e através de Resoluções que são periodicamente alteradas (de modo substancial ou não). A Resolução do CFM nº 2.320/2022 é a mais recente e afirma o seguinte acerca da gestação de substituição no país: “1. A cedente temporária do útero deve: a) ter ao menos um filho vivo; b) pertencer à família de um dos parceiros em parentesco consanguíneo até o quarto grau (primeiro grau: pais e filhos; segundo grau: avós e irmãos; terceiro grau: tios e sobrinhos; quarto grau: primos); c) na impossibilidade de atender o item b, deverá ser solicitada autorização do Conselho Regional de Medicina (CRM)” (CFM, 2022), para que uma amiga ou pessoa próxima, sem vínculo de parentesco, possa gestar. Como vimos discutindo, tanto as biotecnologias reprodutivas como as relações de parentesco e/ou de amizade vêm proporcionando que sujeitos/casais homossexuais construam a parentalidade dita biológica através da gestação de substituição, o que ao mesmo tempo em que os situam em privilégios de classe interseccionados especialmente à raça e gênero, também incitam moralidades que colocam tais projetos parentais em xeque.
Objetivos
Analisar os aspectos morais envolvidos no uso da gestação de substituição por homens gays cisgêneros no Brasil e seus impactos na saúde mental e na constituição de suas famílias e parentalidade.
Metodologia
Esta proposta utiliza-se do método cartográfico de pesquisa social (Romagnoli, 2009; Passos, Kastrup e Escóssia, 2009) e é parte de um projeto interinstitucional intitulado “Inseminação caseira e gestação de substituição: desafios para os estudos de família e parentesco”. Foram realizadas entrevistas com sujeitos homossexuais que realizaram a gestação de substituição no exterior, bem como entrevistamos mulheres cisgênero que gestaram para seus irmãos e/ou amigos muito próximos no Brasil. Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, número CAAE 60433322.4.0000.5282.
Resultados e Discussão
Nos casos que entrevistamos no Brasil, as mulheres cisgênero gestaram voluntariamente objetivando a constituição da parentalidade de alguém com quem partilhavam grande afeto e/ou amor, como um irmão ou um amigo. Assim, a construção da parentalidade por sujeitos/casais gays se deu dentro de seus núcleos familiares, que na maior parte das vezes os apoiou e também foram parte constitutiva daquele projeto parental. Apenas o casal gay que realizou a gestação de substituição no exterior relatou discriminações dentro do núcleo familiar, como o exemplo de um avô que não reconheceria o neto se não tivesse certeza de que o sêmen utilizado na inseminação era de sua própria linhagem. Por outro lado, ouvimos narrativas de discriminação no espaço público voltadas tanto para a gestante (reiterando certa noção idealizada de maternidade de que seria antinatural uma mulher cisgênero gerar um bebê do qual não seria mãe) como para os sujeitos/casais homossexuais (como na reedição de estigmas e pânicos morais que ainda constroem a homossexualidade e, especialmente a filiação homossexual, como “aberração”, “pecado”, etc ou mesmo em situações institucionais de questionamento da legitimidade de ocupar o espaço como pai na maternidade, na escola, etc ). Argumentos cisheteronormativos baseados tanto na biologia quanto na moralidade familiar cristã foram acionados para questionar os projetos parentais de gestantes e de casais ou pessoas gays cisgêneros.
Conclusões/Considerações Finais
Discutir a gestação de substituição por sujeitos homossexuais nos permite refletir sobre a construção discursiva da legitimidade de tais parentalidades a partir do acesso, manipulação e circulação tanto de biotecnologias reprodutivas como de pessoas. De modo transversal a todos estes processos e relações, há concepções morais em todos os âmbitos possíveis, de modo que, como afirma Daniel Borrillo “ao dissociar a maternidade do corpo da mulher e colocar a vontade no centro do sistema parental, a gestação de substituição atraiu a ira de correntes antirracionalistas, antiliberais e tecnocéticas” (2020, p. 16). Faz-se necessário lançarmos luz para toda a complexidade destes processos de constituição de parentalidade via gestação de substituição, porém tendo sempre em mente que moralidades estarão ao mesmo tempo sendo construídas e reconstruídas de acordo com diferentes interesses e movimentos macro e micropolíticos.
FAMÍLIAS E O PROCESSO DE CONVIVÊNCIA COM JOVENS LGBTQIAPN+: IMPLICAÇÕES PARA A SAÚDE MENTAL E O CUIDADO
Comunicação Oral Curta
1 PUC-SP
Apresentação/Introdução
A família, historicamente constituída sob bases cisheteronormativas e patriarcais, ocupa papel central na regulação da sexualidade e na reprodução de normas de gênero. Nesse contexto, jovens LGBTQIAPN+ frequentemente vivenciam processos de vigilância, silenciamento e rejeição, especialmente no momento de revelação de sua identidade de gênero ou orientação sexual. Tais dinâmicas produzem efeitos significativos nas relações familiares e na saúde mental, evidenciando a necessidade de abordagens que articulem dimensões sociais, subjetivas e políticas do cuidado.
Objetivos
Compreender as vivências de jovens LGBTQIAPN+ em seus contextos familiares, analisando os efeitos do processo de revelação da identidade de gênero e/ou orientação sexual nas relações familiares e na saúde mental.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, baseada em revisão de literatura e na realização de entrevistas semiestruturadas com quatro jovens LGBTQIAPN+, entre 21–24 anos, incluindo duas mulheres cisgênero e duas pessoas não binárias, todas brancas, residentes em São Paulo/SP, evidenciando um recorte empírico específico. O roteiro abordou trajetórias de descoberta, processos de revelação, dinâmicas familiares e repercussões subjetivas dessas experiências. As entrevistas foram analisadas por meio de categorização temática, orientada por referenciais críticos sobre gênero, sexualidade e família, permitindo identificar regularidades, tensões e singularidades nas narrativas. A análise buscou articular os planos individual e relacional às estruturas sociais mais amplas que configuram as experiências desses jovens.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que a cisheteronormatividade opera como matriz reguladora das relações familiares, estruturando expectativas de gênero e sexualidade e produzindo contextos de vulnerabilidade marcados por preconceito, discriminação e violência simbólica e material. A revelação da identidade ou orientação sexual tensiona esse regime normativo, frequentemente desencadeando reações de negação, silenciamento e tentativa de controle das expressões dissidentes, o que pode ser compreendido à luz de dispositivos de poder que atravessam a família enquanto instituição social de regulação da sexualidade. Tais processos impactam diretamente na saúde mental, gerando sofrimento psíquico, sensação de inadequação e restrições à autenticidade, configurando formas de sofrimento ético-político associadas à negação do reconhecimento. Observou-se que, diante desse cenário, os jovens desenvolvem estratégias de ocultamento e negociação de suas identidades como forma de preservar vínculos familiares, ainda que à custa de sua expressão subjetiva. Por outro lado, redes de apoio — especialmente entre pares e na comunidade LGBTQIAPN+ — emergem como espaços contra-hegemônicos de produção de pertencimento e validação, possibilitando a construção de autonomia e de formas de cuidado que tensionam as normas dominantes. Esses achados evidenciam a articulação entre dinâmicas familiares e estruturas sociais mais amplas, nas quais a família atua como mediadora e reprodutora de normas, mas também como espaço potencial de transformação.
Conclusões/Considerações Finais
As vivências de jovens LGBTQIAPN+ no contexto familiar evidenciam a persistência de desigualdades estruturais que atravessam a produção da saúde mental. A família pode operar tanto como espaço de cuidado quanto como locus de reprodução de violências. Torna-se fundamental promover estratégias de acolhimento e cuidado que considerem essas experiências, contribuindo para práticas em saúde mais equitativas, críticas e sensíveis à diversidade.
NAVEGAÇÃO POR PARES COMO ESTRATÉGIA COMUNITÁRIA PARA PROMOVER CUIDADO EM SAÚDE MENTAL ENTRE MULHERES TRANS E TRAVESTIS EM SÃO PAULO
Comunicação Oral Curta
1 NUDHES
Contextualização
Mulheres trans e travestis (MTTr) apresentam níveis desproporcionalmente elevados de desfechos adversos em saúde mental. O Manas por Manas foi uma intervenção em HIV multinível com viabilidade e aceitabilidade demonstradas entre MTTr no Brasil, projetada para abordar o estigma interseccional e fortalecer o engajamento ao longo do continuum de prevenção. Concluído em 2024, 42% das 392 participantes incluídas apresentaram sofrimento psicológico moderado a grave de acordo com a Escala de Sofrimento Psicológico de Kessler (K10); 65% relataram ideação suicida e 10% relataram tentativa de suicídio nos 12 meses anteriores. Em resposta a esses achados, foi desenvolvido o projeto piloto Aurora TRANS: intervenção mediada por pares para melhorar a saúde mental de MTTr em São Paulo.
Descrição
O projeto Aurora TRANS (2024–2026) envolveu quatro MTTr como navegadoras pares (NP), que ofereceram suporte a 50 participantes durante um período definido de intervenção (quatro meses). As participantes foram selecionadas aleatoriamente entre 124 MTTr que pontuaram 25 ou mais na K10 — indicativo de sofrimento psicológico moderado ou grave — em um estudo anterior com 200 participantes. A intervenção consistiu em quatro sessões em grupo roteirizadas, cada uma com até dez participantes, conduzidas por duplas de NP. As sessões focaram no desenvolvimento de estratégias práticas para lidar com emoções e desafios cotidianos, com o objetivo de reduzir sintomas de ansiedade e sofrimento psicológico. As NP receberam treinamento teórico e prático fundamentado no modelo de estresse de minorias e em técnicas cognitivo-comportamentais, complementado por visitas a serviços de saúde mental.
Período de Realização
O projeto Aurora TRANS ocorreu entre janeiro de 2024 a dezembro de 2026.
Objetivo
O objeitvo do projeto Aurora TRANS foi desenvolver e realizar uma intervenção mediada por pares para melhorar a saúde mental de MTTr em São Paulo.
Resultados
A intervenção evidenciou a centralidade da escuta ativa não julgadora e do cuidado de apoio, bem como o valor de espaços coletivos para reflexão sobre preocupações identificadas pelas participantes, incluindo as consequências do desemprego e da discriminação para a saúde mental, experiências de violência e racismo, automedicação psiquiátrica e luto. Os achados indicam que a promoção da saúde mental pode ir além de abordagens exclusivamente individuais e conduzidas por profissionais graduados, demonstrando o potencial de eficácia de intervenções em grupo conduzidas por pares devidamente capacitados.
Aprendizado e Análise Crítica
Esses achados reforçam a urgência de adotar uma abordagem abrangente para a saúde de pessoas trans que vá além do foco historicamente restrito ao HIV, integrando estruturalmente a saúde mental. A navegação por pares mostrou-se uma estratégia viável e eficaz, caracterizada por alto engajamento e fortes vínculos relacionais, sustentando seu potencial de ampliação e integração em políticas públicas de saúde.
IMPACTOS DA TRANSFOBIA NA SAÚDE MENTAL DE PESSOAS TRANSGÊNERO ASSISTIDAS NO AMBULATÓRIO TRANSEXUALIZADOR DO ESTADO DO CEARÁ.
Comunicação Oral Curta
1 UECE
Contextualização
A transfobia, entendida como expressão de preconceito, discriminação e violências dirigidas às pessoas transgêneras e travestis constitui um importante determinante social da saúde mental, produzindo sofrimento psíquico intenso e persistente, na medida em que se configura como prática estrutural de discriminação e exclusão. Tal contexto impacta diretamente as condições de vida, o acesso a direitos e a saúde mental de pessoas trans. Estudos no campo da saúde e dos direitos humanos indicam que essa população apresenta elevados índices de ansiedade, depressão e ideação suicida, frequentemente, associados a experiências de exclusão social, rejeição familiar e violência institucional. Nesse contexto, compreender os impactos da transfobia exige ultrapassar análises individualizantes, reconhecendo os atravessamentos sociais, históricos, culturais e políticos que produzem tais sofrimentos.
Descrição
Este estudo tem como objetivo refletir criticamente sobre os efeitos da transfobia na saúde mental de pessoas trans a partir da experiência profissional da autora principal acerca dos atendimentos em um ambulatório de afirmação de gênero do Estado do Ceará. Trata-se de um relato de experiência, fundamentado na sistematização proposta por Holiday que reconhece a prática profissional como campo legítimo de produção de conhecimento. A narrativa foi construída a partir de memórias e registros reflexivos da autora principal, considerando sua trajetória de oito anos de atuação em um ambulatório especializado no cuidado à população trans, inserido em uma instituição do SUS. A Reflexão é orientada pela perspectiva da interseccionalidade, na perspectiva de Akotirene e Collins, compreendida como ferramenta analítica que permite identificar como diferentes marcadores sociais, como gênero, raça, classe, sexualidade e território se articulam e produzem experiências singulares de opressão e vulnerabilidade denunciando as desigualdades sociais e iniquidades vividas por essa população
Período de Realização
O período referente ao relato de experiência compreende a trajetória profissional, da autora principal, ao longo de oito anos de atuação em um ambulatório de afirmação de gênero no Estado do Ceará, no âmbito do Sistema Único de Saúde entre novembro de 2017 a março de 2025.
Objetivo
Refletir criticamente sobre os efeitos da transfobia na saúde mental de pessoas transgêneras e travestis a partir da experiência profissional da autora principal nos atendimentos realizados em um ambulatório de afirmação de gênero.
Resultados
A partir da lente interseccional, evidencia-se que o sofrimento psíquico de pessoas trans não pode ser compreendido de forma isolada, mas como resultado de múltiplas opressões que se entrecruzam e se potencializam produzindo sofrimento singular. A exposição contínua a práticas e discursos transfóbicos inscreve-se no corpo e na subjetividade das pessoas transgêneras, produzindo estados de hipervigilância, ansiedade e desamparo. A partir dessa lente, torna-se possível reconhecer que o sofrimento psíquico emerge das condições sociais de exclusão e apagamento dessa população. Pessoas trans negras, pobres e periféricas, por exemplo, vivenciam camadas complexas de opressão que intensificam os efeitos do estigma e ampliam o risco de adoecimento mental. Tal compreensão desloca o foco para a crítica das estruturas que produzem sofrimento.
Aprendizado e Análise Crítica
O relato aponta para a necessidade de práticas em saúde mental que considerem o contexto social na construção de um cuidado integral, equitativo e comprometido com os direitos humanos. Destaca-se a importância de fortalecer dispositivos de escuta qualificada no SUS, bem como de investir na formação de profissionais sensíveis às questões de gênero e diversidade. A perspectiva interseccional permite uma leitura ampliada do sofrimento psíquico, evidenciando que ele emerge das condições sociais de exclusão e apagamento, e não apenas de dimensões intrapsíquicas. Assim, torna-se fundamental promover práticas institucionais que enfrentem a transfobia e seus efeitos, contribuindo para a produção de cuidado ético, político e comprometido com a dignidade das pessoas trans.
SUICÍDIO ENTRE TRANSMASCULINOS: UMA CRÍTICA À PATOLOGIZAÇÃO BIOMÉDICA E À NECROPOLÍTICA CISSEXISTA
Comunicação Oral Curta
1 Centro Universitário São Camilo
2 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Apresentação/Introdução
Esta pesquisa emerge de reflexões posteriores a uma investigação etnográfica concluída em 2024 sobre transmasculinidades e envelhecimento, realizada na Região Metropolitana de SP. Durante o trabalho de campo e nas entrevistas realizadas, a questão do suicídio entre pessoas transmasculinas emergiu de forma recorrente nas narrativas dos interlocutores, constituindo-se como um tema central para compreender os processos de adoecimento e morte nesta população. A perspectiva dos interlocutores — particularmente de transmasculinos mais velhos — oferece uma crítica fundamental às abordagens biomédicas que centralizam na experiência subjetiva individual o processo desencadeador do gesto suicida, propondo uma compreensão ancorada em uma perspectiva socio-antropológica que reconhece a dimensão estrutural, política e necropolítica deste fenômeno. Compreendemos que o suicídio entre transmasculinos não é um evento isolado ou individual, mas uma manifestação em ato de violências cissexistas, transfóbicas, racistas, classistas e capacitistas que se reproduzem em múltiplos contextos da vida social.
Objetivos
Analisar as perspectivas de transmasculinos sobre o suicídio em sua população, tomando como ponto de partida as narrativas de transmasculinos mais velhos (acima de 45 anos) coletadas em pesquisa etnográfica. Interrogar a patologização biomédica do suicídio, particularmente conforme aparece em manuais diagnósticos como o DSM-5, que privilegiam critérios individuais em detrimento de parâmetros estruturais e coletivos. Compreender como as violências cissexistas, que se reproduzem em contextos familiares, escolares, laborais e de saúde, produzem simultaneamente a aceleração do envelhecimento e o cerceamento da vida, privando transmasculinos da longevidade e da experiência de envelhecer.
Metodologia
Trata-se de uma análise qualitativa de narrativas etnográficas e trechos de entrevistas semi-estruturadas realizadas com seis transmasculinos residentes na Região Metropolitana de São Paulo, cujas idades variam de 45 a 65 anos. A etnografia dos contextos da vida cotidiana e as entrevistas constituem instrumentos para aprofundar compreensões sobre as experiências de vulnerabilidade, adoecimento e morte entre transmasculinos. Os interlocutores são reconhecidos como agentes ativos na interpretação e construção do conhecimento produzido. A análise das narrativas buscou identificar os "microtraumas" e as "microlesões" diárias (conforme verbalizado por um interlocutor) que se acumulam e afetam a saúde mental e a longevidade, em um processo de somatização de violências. Essa perspectiva dialoga com autores como Nagafuchi (2017, 2019), que propõe uma compreensão antropológica do suicídio centrada em conceitos como "devir" e "formas de vida", e com Viviane Simakawa (2015), que define o cissexismo como estrutura que produz a morte e o desaparecimento.
Resultados e Discussão
As narrativas dos interlocutores revelam uma compreensão crítica do suicídio que desafia a individualização biomédica. Um interlocutor (Gustavo, 53) afirma que "todo mundo que se assumiu antes dos 35 aconteceu alguma coisa. Ou se suicidou, ou foi assassinado" — uma verbalização que, embora não represente uma verdade absoluta, expressa um imaginário coletivo de vulnerabilidade extrema e morte iminente que marca as trajetórias de transmasculinos. Outro interlocutor (Roberto, 46) articula uma análise sofisticada sobre o processo de acumulação de violências: "são microlesões diárias... uma sucessão de coisas que vão se juntando. Você tá afogando, você sobe pra pegar um ar. Tem uma hora que você não tem mais força pra pegar o ar. É onde você se afoga".
As violências cissexistas — negação do direito ao uso do nome social, desrespeito aos pronomes, negação de atendimento médico, impossibilidade de usar banheiros seguros, constrangimentos corporais — não são eventos isolados, mas microtraumas que se acumulam ao longo da vida. Estes microtraumas produzem efeitos duplos: aceleram o envelhecimento (conforme perspectiva dos interlocutores) e simultaneamente cerceiam a vida, privando transmasculinos da longevidade e da experiência de envelhecer.
Conclusões/Considerações Finais
O suicídio entre transmasculinos não pode ser compreendido como um evento psicopatológico individual, mas como resultado de processos de necropolítica cissexista que se atualizam cotidianamente em múltiplos contextos sociais. As perspectivas dos interlocutores oferecem uma crítica fundamental às abordagens biomédicas que patologizam a morte, propondo uma compreensão que reconhece a agência, a resistência e as estratégias de sobrevivência desenvolvidas por transmasculinos diante de estruturas que negam sua existência. É necessário transformar não apenas os serviços de saúde, mas as dinâmicas socioculturais que produzem a morte transmasculina, reconhecendo que a longevidade e a experiência de envelhecer são direitos políticos fundamentais.
Realização: