Programa - Comunicação Oral Curta - COC23.2 - Saúde Mental LGBT (4)
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
CAPACITAÇÃO E SENSIBILIZAÇÃO SOBRE SAÚDE TRANS PARA MÉDICOS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA DE SAÚDE EM CAMPINAS -SP
Comunicação Oral Curta
1 UNICAMP
Contextualização
A identidade transgênero é condição na qual a pessoa não se identifica com o sexo definido ao nascimento baseado na sua aparência genital. É uma percepção pessoal e interna de gênero. Estima-se que 1,9% dos adultos no Brasil sejam pessoas trans(1,2).
O reconhecimento dessas pessoas na sociedade tem sido uma grande conquista e a busca por assistência médica vem aumentando significativamente. Embora existam políticas de saúde pública dirigidas a esse grupo, a realidade mostra que existem lacunas entre essas políticas e a assistência de fato.
A literatura mostra resultados de saúde consideravelmente piores comparados aos resultados da população cisgênero (que tem sua identidade de gênero coincidente com a aparência genital ao nascimento) (3,4,5,6). Uma das razões é o fato de a formação médica ser baseada numa visão binária de gênero com foco na orientação heterossexual, cultivando um viés cisheteronormativo(7). Desconstruir esta crença, é essencial para a inclusão das pessoas com diversidade de gênero na lógica assistencial.
Em 2024, trabalho de nossa autoria elencou pontos negativos e os positivos na assistência médica, segundo as pessoas trans. Entre os pontos negativos apareceram o desconhecimento técnico do profissional, falta de empatia e de respeito pela identidade da pessoa assistida, muitas vezes vista com estranhamento (8).
Descrição
A proposta desse projeto é avaliar médicos que atuam na atenção primária de Campinas quanto a conhecimento, atitudes e crenças sobre o tema e disponibilidade para atender pessoas transgênero, e estudar o impacto de uma intervenção de capacitação e sensibilização sobre as particularidades das vidas trans, nesta disponibilidade. Para tanto, foi criado um curso dirigido aos médicos da atenção primária do município, que acontece entre março e junho de 2026. Entendendo que o aprendizado técnico se dá pela cognição, mas as mudanças de comportamento exigem um forte componente afetivo para que aconteçam, o projeto proposto vai além de ensinar protocolos e propõe o contato com estas vidas. Acreditamos que essa abordagem tem o potencial de sensibilizar os médicos, possivelmente facilitando o encontro clínico. Consideramos essencial trazer aspectos sociais, vulnerabilidades e potências desse grupo.
O curso é composto de 8 encontros, com intervalo de 2 semanas entre si, dos quais participam 25 médicos da atenção primária. As aulas são as seguintes:
1) Conceitos de gênero e orientação sexual e suas diversidades
2) Estatísticas sobre ser uma pessoa trans no Brasil seguido de um psicodrama relativo ao atendimento de pacientes transgênero
3) Saúde mental de pessoas trans
4) Hormonização com testosterona
5) Hormonização com estrogênios e bloqueadores androgênicos
6) Cirurgias do processo transexualizador
7) Saúde geral, sexual e reprodutiva de pessoas trans
8) Encontro de fechamento com exibição de um filme relativo à temática seguido de discussão com os diversos docentes do curso e convidados.
Foi criada uma sala no Google Classroom onde são postados os materiais das aulas. Duas cineastas foram contratadas para realizarem pequenos filmes com participantes trans que aceitaram contribuir com depoimentos sobre suas vivências enquanto dissidentes de gênero. Esses vídeos também são postados no Classroom, na semana em que não ocorrem as aulas. O psicodrama, os vídeos e a escolha criteriosa dos docentes, todos com vasta experiência no atendimento a pessoas trans, tem como objetivo alcançar a sensibilização.
Entrevistamos todos os médicos antes do curso com a pergunta disparadora “O que você vê na unidade em que trabalha, que pode contribuir ou atrapalhar o atendimento de pessoas trans?”. Essas entrevistas passarão por análise qualitativa a fim de encontrar regras subjetivas presentes na atenção primária do município e que atuem positivamente ou negativamente na assistência. Também estão sendo utilizadas escalas para avaliar a disponibilidade, conhecimentos, atitudes e crenças dos médicos de UBSs de Campinas em relação as pessoas transgênero, antes e depois da intervenção.
Período de Realização
Março A JUNHO 2026
Objetivo
Esperamos enriquecer o repertório técnico e cultural dos participantes através da proposta e assim melhorar a assistência médica de pessoas trans na atenção primária do município.
Resultados
Durante as entrevistas houve a percepção de que a presença de profissionais trans nas equipes provoca revisão de paradigmas aprendidos na formação e aproxima os profissionais da cultura necessária ao atendimento adequado dessa população.
Aprendizado e Análise Crítica
O curso ainda está em andamento e os profissionais participantes fortemente engajados no processo.
Acreditamos que seja possível que tal procedimento seja replicado em outras metrópoles brasileiras com o objetivo de facilitar a assistência de atenção primária as pessoas com diversidade de gênero, quem sabe contribuindo para melhorar as estatísticas relativas aos resultados de saúde dessa população.
DO CONCEITO À MEDIDA: INSTRUMENTOS PARA ANÁLISE DE SAÚDE MENTAL E VIOLÊNCIA NA POPULAÇÃO LGBT+
Comunicação Oral Curta
1 FCMSCSP
Contextualização
A Saúde Mental (SM) e impactos da Violência na saúde da população LGBT+ constituem temas complexos que têm obtido destaque crescente na produção científica. A investigação desses fenômenos impõe desafios relevantes, destacando a escolha criteriosa de instrumentos disponíveis, para avaliar sua adequação a especificidades e heterogeneidades dessas populações. Assim, a elaboração de questionários capazes de apreender os fenômenos de interesse e as experiências vivenciadas de forma abrangente e acurada, torna-se um elemento central no processo de desenvolvimento de novas pesquisas. Tal esforço demanda a incorporação de outros determinantes sociais que estruturam as múltiplas camadas de discriminação – identidade de gênero, orientação sexual, raça/cor e origem - fundamentais para melhor compreensão das desigualdades em saúde. O Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Saúde da População LGBT+, ao longo dos últimos 12 anos, tem produzido conhecimento sobre os temas de SM e Violência, especialmente em mulheres trans e travestis (MTTr). Recentemente, durante a elaboração de pesquisa baseada em intervenção mediada por pares para melhorar a SM de MTTr, o grupo viu a necessidade de analisar retrospectivamente como a abordagem desses temas evoluiu em suas pesquisas, para identificar aspectos a serem observados futuramente.
Descrição
Inicialmente, foram reunidos os questionários utilizados em 13 pesquisas, selecionando os blocos de SM e violência, para análise e comparação. Os blocos correspondentes aos temas de interesse foram armazenados em abas de uma planilha de Excel e colocados lado a lado, de forma próximas às perguntas, cujo enunciado e respostas guardavam alguma relação. Depois, buscou-se identificar a origem dos instrumentos (autores e instituições), se eles estavam validados para a língua portuguesa brasileira e se tinham sido adaptados para uso na população LGBT+. Tais informações foram sistematizadas em quadros, com os links de acesso aos instrumentos-fonte e das respectivas referências bibliográficas. As questões foram comparadas e manualmente classificadas como ‘idênticas’ às originais, ‘modificadas’ (enunciado, categorias de respostas ou ambas) ou ‘novas’, utilizando cores distintas para cada situação.
Período de Realização
Março de 2024 e dezembro de 2025.
Objetivo
Identificar instrumentos utilizados para investigar SM e violência; se foram validados, adaptados (que novas questões foram incluídas) ou construídos pelo grupo. Comparar e contabilizar as questões utilizadas para identificar semelhanças, diferenças e questões novas. Criar repositório de referências bibliográficas.
Resultados
Das 13 pesquisas analisadas, SM foi abordada em 12, violência em 13. Foi observada grande variação de instrumentos utilizados, sendo 10 dos de SM e 8 de violência. No bloco de SM, foram abordados 10 subtemas, enquanto no de violência, 6. O número médio de questões de SM foi de 22, variando de 9 a 46; já em Violência, foi de 28, variando de 3 a 84. Dentre todos os analisados, 4 se encontravam em inglês. Nesse caso, o próprio grupo realizou traduções livres. Em relação à utilização integral dos instrumentos, a comparação revelou que no bloco de SM, das 13 pesquisas, apenas 4 mantiveram uma parte do instrumento original; 12 tiveram a maior parte das questões modificadas e em 6 foram adicionadas questões. Já na análise do tema Violência, em 5, parte das questões originais foram mantidas, mas na totalidade dos estudos analisados, a grande maioria das questões sofreu modificações e foram inseridas novas, variando de 1 a 49. Foi possível apreender que as adaptações de formulação e conteúdo visavam se adequar às realidades da população pesquisada, de modo a explorar vivências, estigmas e violências sofridas.
Aprendizado e Análise Crítica
Foi possível verificar como o grupo evoluiu na elaboração dos instrumentos para utilização em pesquisas, passando a utilizar, sempre que possível, questionários validados na literatura para populações específicas. O grupo identificou que este trabalho contribuiu para aumentar a experiência sobre construção de instrumentos de pesquisa em SM e violência voltados para população LGBT+, com ganho de experiência sobre fichamento e análise de questionários já aplicados ou em elaboração. A sistematização pode ser útil para outros grupos interessados nos temas, tendo produzido uma rica e bem referenciada documentação.
A elaboração de pesquisas sobre esses temas representa um desafio, uma vez que demanda o domínio sobre instrumentos de análise em cada uma dessas áreas, além da necessidade da adaptação para linguagem e realidade dos investigados. Para que um grupo produza pesquisas de qualidade é necessário constante aprofundamento nos tópicos abordados, visando identificar eventuais falhas e aspectos a serem aprimorados. Assim, a análise retrospectiva de instrumentos de pesquisas utilizados permite que o grupo aprimore sua capacidade de desenvolver instrumentos que apreendam os temas a serem investigados, considerando especificamente a população de interesse.
ENTRE LAUDOS E CUIDADO: BIOPOLÍTICA E SAÚDE MENTAL NA 1ª JORNADA MULTIPROFISSIONAL DE CIRURGIAS EM PESSOAS TRANS E INTERSEXO NO AMAZONAS
Comunicação Oral Curta
1 UEA
2 Secretaria de Estado de Saúde do AM
Apresentação/Introdução
A 1ª Jornada Multiprofissional de Cirurgias de Modificações Corporais em Pessoas Trans e Intersexo (JMC), realizada em agosto de 2024 no Amazonas, envolveu atividades formativas e a realização inédita de 23 cirurgias, configurando um marco no acesso à saúde para a população trans na região Norte, em um contexto de escassez de serviços e profundas desigualdades regionais no Sistema Único de Saúde (SUS). Partindo da assistência psicológica desenvolvida no Ambulatório de Diversidade Sexual e Gêneros em Manaus, este estudo compreende as cirurgias de afirmação de gênero como experiências complexas que articulam corpo, subjetividade e saúde mental. O sofrimento psíquico é analisado não como fenômeno individual isolado, mas como produção situada, atravessada por condições sociais, institucionais e políticas.
À luz das contribuições de Michel Foucault, examina-se como regimes de verdade e dispositivos biopolíticos produzem critérios de elegibilidade e reconhecimento das identidades trans no SUS, frequentemente condicionando o acesso às cirurgias à validação profissional por meio de pareceres patologizantes que definem quais corpos são reconhecidos como legítimos no campo da saúde.
Objetivos
O estudo tem como objetivo analisar as experiências de acesso às cirurgias de afirmação de gênero em Manaus, enfatizando os atravessamentos institucionais, políticos e sociais, bem como compreender seus impactos na produção do cuidado e na saúde mental da população trans, a partir do acompanhamento psicológico pré e pós-cirúrgico dos participantes da JMC
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de inspiração etnográfica, baseada no acompanhamento clínico de aproximadamente 20 pessoas trans, travestis e não binárias ao longo de mais de dois anos. Esse período inclui cinco meses de preparação intensiva desde o anúncio da jornada e cerca de um ano de seguimento no pós-cirúrgico. O campo empírico constitui-se por observação participante na organização do evento, registros de atendimentos psicológicos individuais e interlocuções com usuários/as do SUS e profissionais de saúde. A análise foi orientada por uma perspectiva interpretativa, mobilizando referenciais das Ciências Sociais e Humanas em Saúde. As avaliações psicológicas institucionais basearam-se na análise da consciência sobre o procedimento, na autonomia para tomada de decisão e na capacidade de consentimento informado.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam a fragilidade das redes de atenção e a persistência de critérios normativos que reiteram processos de patologização. A partir da noção de biopolítica, observa-se que o Estado regula os corpos trans por meio de dispositivos que definem condições de acesso e elegibilidade, transformando corpo e subjetividade em objetos de gestão. No campo da saúde mental, as cirurgias são vivenciadas de forma ambivalente, articulando experiências de afirmação, reconhecimento e ampliação das possibilidades de existência a intensas demandas psíquicas, expressas em ansiedade, medo do desamparo, insegurança quanto aos resultados, fragilidade das redes de apoio e conflitos familiares.
As condições materiais de vida incidem diretamente nesse processo, com destaque para dificuldades financeiras, acesso limitado a insumos pós-cirúrgicos e a necessidade de conciliar cuidado, trabalho e subsistência, afetando as dimensões emocionais e psíquicas. Evidencia-se que a exigência de avaliação psicológica, embora orientada pelo consentimento informado, insere-se em um regime ampliado de validação que pode operar como dispositivo biopolítico. Nesse sentido, a patologização não aparece apenas como efeito, mas como condição que antecede e legitima o acesso ao cuidado, definindo quais sujeitos são reconhecidos como aptos.
Essa dinâmica produz efeitos significativos na saúde mental, como a intensificação de processos de autovigilância, insegurança e necessidade de legitimação institucional. Ao mesmo tempo, emergem práticas de resistência, protagonismo e redes de apoio que evidenciam a produção ativa de saúde e a reinvenção das formas de existir. A análise aponta ainda para os riscos de uma clínica cisnormativa que, mesmo sob a lógica do cuidado, pode reproduzir tutelas e violências simbólicas ao desconsiderar os determinantes sociais e políticos da saúde mental.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que o acompanhamento psicológico nos processos de afirmação de gênero deve deslocar-se de uma lógica avaliativa para uma prática ética, despatologizante e comprometida com a promoção da saúde mental em sua dimensão ampliada, reconhecendo o sofrimento psíquico como socialmente produzido e indissociável das condições materiais, institucionais e territoriais. No contexto amazônico, as cirurgias evidenciam tanto avanços no acesso à saúde quanto a permanência de dispositivos normativos que regulam corpos e subjetividades, apontando para a necessidade de um fazer clínico crítico, territorializado e comprometido com a equidade no SUS.
ENTRE O ESPELHO E A SOBREVIVÊNCIA: SAÚDE MENTAL E AUTOIMAGEM NO ENVELHECIMENTO DE TRAVESTIS E MULHERES TRANS NO NORDESTE BRASILEIRO
Comunicação Oral Curta
1 UNIFOR
Apresentação/Introdução
O envelhecimento de travestis e mulheres trans no Brasil é atravessado por violências de gênero, desigualdades sociais e precarização histórica do cuidado. No Nordeste brasileiro, esses processos se expressam em trajetórias marcadas por pobreza, exclusão, insegurança material e reconhecimento social instável. Embora a produção sobre saúde LGBTQIA+ tenha crescido, ainda são escassos os estudos que analisam, a partir das narrativas dessas populações, como saúde mental e autoimagem se articulam no envelhecimento, especialmente diante das marcas corporais do tempo, das memórias de intervenções anteriores e das estratégias cotidianas de sustentação da vida.
Objetivos
Analisar como travestis e mulheres trans com 50 anos ou mais significam a autoimagem no envelhecimento, com ênfase nas relações entre corpo, sofrimento psíquico, memória corporal, espelho e estratégias de enfrentamento em contextos de vulnerabilidade social.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, de caráter interpretativo, ancorada no construcionismo social e na gerontologia crítica. Participaram 18 travestis e mulheres trans residentes no Ceará, com idades entre 50 e 70 anos. Os dados foram produzidos por entrevistas em profundidade, com roteiro semiestruturado, abordando trajetória de vida, transformações corporais, envelhecimento, autoimagem, cuidado e redes de apoio. O material foi submetido à análise temática reflexiva, com apoio do software Atlas.ti para organização do corpus e codificação analítica.
Resultados e Discussão
Os achados indicam que a autoimagem na velhice não pode ser compreendida apenas como avaliação estética, pois envolve sofrimento psíquico, reconhecimento social, dignidade e possibilidade de permanecer vivendo de forma habitável. O espelho apareceu como dispositivo ambivalente, produzindo confronto, evitamento, aceitação e reorganização subjetiva. Hormônios, silicone industrial e outras intervenções corporais reapareceram como legados materiais de processos anteriores de feminização, associados a dor, limitação, ambivalência e sobrevivência. Partes específicas do corpo concentraram feminilidade, vergonha, legitimidade e valor simbólico. Redes de apoio, ativismo e pertencimentos espirituais emergiram como suportes relevantes para o enfrentamento cotidiano, sugerindo que saúde mental no envelhecimento depende não apenas de acesso a serviços, mas também de vínculos, reconhecimento e proteção social.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo evidencia que saúde mental e autoimagem, entre travestis e mulheres trans mais velhas, são produzidas na articulação entre corpo, memória, sofrimento e condições sociais de existência. Os resultados reforçam a urgência de ampliar, na Saúde Coletiva, abordagens comprometidas com as experiências de envelhecimento trans e apontam para a necessidade de políticas e práticas de cuidado que enfrentem o abandono, reconheçam trajetórias marcadas por violência e sustentem dignidade, pertencimento e continuidade da vida.
ENTRE VIOLÊNCIAS E RESISTÊNCIAS: SAÚDE MENTAL, TERRITÓRIO E PRÁTICAS DE CUIDADO DE JOVENS TRANS EM CONTEXTOS NECROPOLÍTICOS
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Católica de Santos
2 Université Lumière Lyon 2, FioCruz Brasília
Apresentação/Introdução
A saúde mental de adolescentes e jovens trans é atravessada por desigualdades, violências e exclusões produzidas pela transfobia em contextos cisnormativos, em um período de construção da autonomia, com impacto nas condições de vida, no acesso a políticas públicas e nas possibilidades de cuidado. A perspectiva da necropolítica, entendida como a gestão diferencial da vida que produz condições que expõem à violência e à morte social, contribui na compressão desse fenômeno e evidencia como a transfobia se materializa em arranjos institucionais e sociais gerando desproteção sistemática desses jovens, especialmente no acesso à saúde, direitos e proteção social. Nesse cenário de violências e negação de direitos, emergem, nas fissuras desses regimes de precarização, práticas de cuidado, estratégias de enfrentamento e redes de apoio, que deslocam a saúde mental da compreensão centrada no adoecimento para reconhecê-la como campo de produção de vida.
Objetivos
Analisar como dinâmicas necropolíticas - expressas em experiências de violência, negação de direitos e acesso aos serviços - atravessam a saúde mental de jovens trans e as estratégias de cuidado comunitário por eles produzidas, em resposta a essas dinâmicas.
Metodologia
Estudo qualitativo, desenvolvido no âmbito do projeto Babado Certo!, pesquisa participativa de base comunitária voltada à ampliação do acesso à prevenção entre adolescentes e jovens trans e fortalecimento do cuidado de pessoas vivendo com HIV em Santos, SP. Participaram adolescentes e jovens trans, não bináries e de gênero fluido, acessados por estratégias territoriais articuladas a serviços de saúde, coletivos e redes comunitárias, com diversidade de inserções sociais e experiências de cuidado. A produção dos dados envolveu triangulação de entrevistas semiestruturadas, registros em diário de campo e de mobilização comunitária, como rodas de conversa e ações territoriais. Foi realizada Análise de Conteúdo temática, com apoio do MAXQDA.
Resultados e Discussão
Foram entrevistadas 13 pessoas (16–26 anos):4 mulheres trans, 1 travesti, 4 homens trans, 3 não-bináries e 1 de gênero fluido. 8 se autodeclararam brancas,3 pardas e 2 pretas. 6 eram estudantes, 5 possuíam vínculo empregatício formal,1 autônomo e 1 sem ocupação, destacando-se a sobreposição de atividades (estuda e trabalha, dois ou mais empregos) e instabilidade nas inserções. Emergiram três categorias: (1) Reiteração do sofrimento psíquico nos espaços privado e público: relatam situações de transfobia na família, escola, universidade, na rua e em serviços de saúde, expressas no não reconhecimento da identidade de gênero (uso de pronomes incorretos, deslegitimação da expressão de gênero), rejeição familiar e social, constrangimentos e atendimentos desrespeitosos. Essas violências simbólicas e materiais resultam em condições de vida precárias, como instabilidade habitacional e dificuldade de inserção no trabalho, compondo trajetórias marcadas pela repetição e continuidade das violências e evidenciam gestão diferencial da vida, com falhas no cuidado e intensificação do sofrimento; (2) Cuidados comunitários: emergem como práticas de resistência, ancoradas em redes de apoio entre pares e espaços comunitários (coletivos e grupos virtuais), que operam como referências de acolhimento e pertencimento. Destacam-se a circulação de informações sobre processos de afirmação de gênero, trabalho e apoio social, além de práticas de autocuidado, como escuta e apoio emocional. Essas redes sustentam o enfrentamento às experiências de violência e exclusão, permitindo a construção de trajetórias de cuidado mais contínuas, ampliando a possibilidade de circulação e permanência nos territórios; (3) Cuidados institucionais: os serviços de saúde mental aparecem de forma ambivalente nas trajetórias. CAPS, UBS e serviços especializados em saúde de pessoas trans são acessados, porém marcados por barreiras como dificuldades de acesso, encaminhamentos inadequados e não reconhecimento das identidades de gênero, além de descontinuidade e experiências de desrespeito. A psicoterapia, acessada via rede pública e privada, emerge como um dispositivo percebido como legitimador e fortalecedor, especialmente nos processos de afirmação de gênero.
Conclusões/Considerações Finais
A saúde mental de adolescentes e jovens trans é produzida em contextos de violências estruturais e gestão desigual da vida. Em cenários necropolíticos, práticas de cuidado emergem como formas de resistência, modulando as possibilidades de cuidado em saúde mental. Neste contexto, o cuidado comunitário se desloca para o campo relacional e territorial, construído em redes de apoio como resposta às experiências de exclusão. Os resultados evidenciam a centralidade das práticas comunitárias e os limites dos serviços institucionais, marcados por barreiras de acesso, descontinuidade e inadequação às necessidades de jovens e apontam a urgência de qualificar o cuidado em saúde mental, fortalecer o acolhimento, reconhecer as identidades e articular com as redes de cuidado existentes nos territórios.
FRAGMENTOS E CORPOS LGBTIQPNA+: EXPERIÊNCIA DE MEDIAÇÃO EM OFICINA DE COLAGEM NO PERÍODO DE INTERNACIONALIZAÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 UFRJ NUTES
Contextualização
A realização da oficina de colagem “Fragmentos & Corpos”, no âmbito da pesquisa de doutoramento intitulada Educação e Saúde: diálogos mediadores em artes dissidentes, constituiu-se como um potente dispositivo metodológico e político de produção de conhecimento situado. Desenvolvida no contexto do programa de doutoramento sanduíche junto ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa), a atividade ocorreu no espaço da Opus Diversidades, reunindo pessoas LGBT em percurso de doutoramento em Lisboa, oriundas de diferentes localidades, atravessadas por distintas experiências de raça, etnia, gênero, orientação sexual e faixas etárias. Esse encontro, longe de ser apenas um momento de produção artística, configurou-se como um território de escuta, partilha e elaboração coletiva de narrativas sobre o acesso, o acolhimento e as tensões vividas em saúde.
Descrição
Desde o início, a oficina foi pensada como um espaço seguro e sensível, onde as linguagens artísticas especialmente a colagem pudessem operar como mediadoras entre experiência vivida e elaboração crítica. A roda inicial de conversa permitiu alinhar expectativas e instaurar um clima de confiança, fundamental para que emergissem relatos muitas vezes marcados por dor, silenciamento ou invisibilização. As palavras escolhidas revelaram não apenas identidades, mas também afetos, lutas e estratégias de existência. Termos como “resistência”, “travessia”, “cuidado”, “sobrevivência”, “afeto” e “invisível” apareceram com frequência, compondo um léxico que, ao mesmo tempo em que individualiza, também aproxima. A partilha dessas palavras, acompanhada das narrativas que as sustentavam, produziu uma primeira camada de dados rica em densidade subjetiva e social.
A etapa seguinte, de construção de uma cartografia coletiva, intensificou esse movimento. Ao serem convidadas a agrupar suas palavras com as de outras pessoas, as participantes passaram a operar uma leitura relacional das experiências. Não se tratava apenas de reconhecer semelhanças, mas de tensionar diferenças, hesitações e deslocamentos. Os agrupamentos formados evidenciaram campos semânticos que atravessavam o grupo: um eixo relacionado à violência institucional (palavras como “preconceito”, “negação”, “espera”, “burocracia”); outro ligado ao cuidado e à rede de apoio (“acolhimento”, “escuta”, “comunidade”, “afeto”); e ainda um campo de afirmação identitária (“orgulho”, “corpo”, “existência”, “liberdade”). As dúvidas surgidas no processo de agrupamento foram particularmente reveladoras, indicando zonas de ambiguidade e conflito, onde as experiências não se encaixam facilmente em categorias fixas.
Período de Realização
O período do Doutorado Sanduíche 4 meses, fevereiro a maio de 2026, na Universidade de Lisboa - Instituto de Ciências Sociais, sob orientaçaõ da Professora Dra. Sofia Aboim (UL ICS).
Objetivo
-Explorar as linguagens artísticas da colagem, performance e sonoridade como ediadoras na narração, crítica e proposição de cuidado.
-Produzir rascunhos de vida, artísticos que evidenciem as tensões, potências e os afetos atravessados nas relações de saúde-doença-cuidado.
-Articular as vivências nos serviços de saúde com as discussões sobre diversidade, equidade e o conceito de Movimento LGBTQIPNA+ Educador.
Resultados
A cartografia das palavras, pode ser compreendido como uma síntese dinâmica desse processo. Ele não apenas organiza termos, mas revela relações, tensões e atravessamentos. Funciona como um dispositivo analítico que permite visualizar como as experiências individuais se entrelaçam em narrativas coletivas. Nesse mapa, a saúde aparece simultaneamente como espaço de acesso e de exclusão, de cuidado e de violência.
A oficina reafirma a potência das artes como mediadoras na pesquisa em educação e saúde. A colagem, em particular, mostrou-se mediadora e eficaz para acessar dimensões da experiência que muitas vezes escapam à linguagem verbal. Ao permitir a sobreposição de imagens, textos e materiais, ela cria um campo expandido de significação, onde o não-dito também encontra formas de expressão. A descrição verbal das colagens, realizada pelas participantes, operou como uma segunda camada narrativa, conectando as imagens às trajetórias de vida, às condições sociais e às marcadores de diferença como raça, gênero e classe.
Aprendizado e Análise Crítica
Por fim, a experiência na Opus Diversidades evidencia que produzir conhecimento com e não apenas sobre sujeitos historicamente marginalizados implica criar dispositivos que valorizem suas formas de expressão, seus saberes e suas estratégias de existência. A oficina “Fragmentos & Corpos” não apenas gerou dados para a pesquisa, mas também produziu um espaço de reconhecimento e fortalecimento coletivo. Nesse sentido, ela se inscreve não apenas como uma etapa metodológica, mas como uma prática ético-política comprometida com a transformação das relações entre educação, saúde e diversidade.
VISIBILIDADE TRANS NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM SAÚDE: ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA EDITORIAL
Comunicação Oral Curta
1 Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Brasília, Distrito Federal, Brasil
2 Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil
3 Universidade Federal da Bahia, Instituto de Saúde Coletiva, Salvador, Bahia, Brasil
4 niversidade Estadual de Maringá, Maringá, Paraná, Brasil
5 Fundação Oswaldo Cruz, Brasília, Distrito Federal, Brasil
Contextualização
Em 2004, consolida-se no Brasil o marco da Visibilidade Trans, impulsionado pela campanha “Travesti e Respeito”, realizada no Congresso Nacional e protagonizada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais. A iniciativa fortaleceu a promoção do orgulho, da visibilidade e da resistência da comunidade trans e travesti no âmbito do movimento LGBTQIA+ no país.1
Ao longo dos anos, essa mobilização tem contribuído para o avanço de pautas voltadas ao reconhecimento de direitos e à ampliação do acesso à saúde da população trans. Contudo, essa trajetória não se constituiu apenas por avanços, sendo também marcada pelo persistente enfrentamento do estigma e discriminação em múltiplos níveis.
Descrição
Em 2024, foram celebrados os 20 anos da trajetória da visibilidade trans. Nesse contexto, um número especial da Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do SUS (RESS), da área de saúde coletiva com acesso aberto diamante, mantida pelo Ministério da Saúde, foi organizado com o objetivo de fomentar a visibilidade das produções científicas que abordassem diferentes dimensões da saúde e da vida de pessoas trans no Brasil.2
Período de Realização
Um edital contendo os critérios para submissão foi lançado em outubro/2023. A submissão dos manuscritos foi realizada por meio do sistema OJS de publicação, sendo acolhidos no período até 29 de fevereiro de 2024. O número contou com três editoras convidadas, duas pesquisadoras seniores sobre o tema e uma mulher trans, doutoranda.
Objetivo
Analisar a produção científica sobre a população trans participantes de uma chamada especial sobre visibilidade trans e a promoção da equidade.
Resultados
Foram recebidos 103 manuscritos no sistema, 84 provenientes de chamada pública e 19 convidados. Após a revisão por pares e demais etapas editoriais, 29 artigos foram aprovados. O número especial reuniu estudos sobre a saúde integral de pessoas trans, incluindo acesso aos serviços, vigilância de agravos e violências, e itinerários terapêuticos, com ênfase em pesquisas inovadoras capazes de ampliar o conhecimento científico e subsidiar políticas públicas e práticas em saúde. Selecionamos alguns desses estudos para ilustrar o presente relato. Um estudo explorou o uso de hormônios, incluindo a automedicação, associada a barreiras de acesso e experiências de discriminação nos serviços de saúde.3 No campo da vigilância, foram identificadas altas proporções de carga viral detectável para HIV, relacionadas a vulnerabilidades sociais e condições de saúde mental, mesmo entre pessoas em uso de terapia antirretroviral.4 De forma complementar, análises sobre infecções sexualmente transmissíveis e distribuição espacial evidenciaram maior concentração dessa população em territórios de maior vulnerabilidade social, reforçando a relação entre desigualdades estruturais e condições de saúde.5
Uma elevada ocorrência de violência interpessoal e autoprovocada foi observada, frequentemente marcada por sua repetição ao longo da vida. Esses eventos mostraram-se associados a marcadores sociais, como escolaridade, deficiência e território, além de estarem relacionados a impactos relevantes na saúde mental.6 Análises dos itinerários do processo transexualizador evidenciaram barreiras persistentes, incluindo despreparo profissional, fragilidades estruturais e lacunas na atenção primária, destacando a centralidade das redes de apoio e a necessidade de ampliação de serviços especializados.7 Outros estudos ampliaram o escopo da análise ao abordar determinantes sociais da saúde, evidenciando alta prevalência de insegurança alimentar associada à baixa renda, ao desemprego e à ausência de apoio familiar.8 Também foram identificados impactos do estigma ao longo do ciclo de vida, especialmente sobre envelhecimento trans e redes de apoio.9 Iniciativas e propostas metodológicas voltadas ao acolhimento em situações críticas, como tentativas de suicídio, apontaram estratégias inovadoras para a qualificação do cuidado e a formação de profissionais.10
O lançamento do número especial contendo os 29 artigos aprovados ocorreu cerimônia oficial do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em 27 de janeiro de 2025, após a Audiência Pública em alusão ao Dia Nacional da Visibilidade Trans.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou elevada qualidade na produção científica nacional. Em conjunto, as pesquisas publicadas contribuíram para ampliar a visibilidade das demandas em saúde da população trans, ao mesmo tempo em que explicitaram desigualdades estruturais persistentes.
As pesquisas indicam que, apesar de avanços nas políticas públicas, as respostas institucionais ainda se mostram insuficientes para enfrentar as desigualdades que afetam o acesso, a qualidade do cuidado e os desfechos em saúde da população trans. Nesse contexto, destaca-se a necessidade de abordagens interdisciplinares e fortalecimento do SUS, em paralelo à ampliação da produção, disseminação e incorporação de evidências científicas como estratégias centrais para o enfrentamento desses desafios.
Realização: