Programa - Comunicação Oral - CO22.4 - Educação, comunicação e midias sociais em saúde digital
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
CULTURA POP E COMUNICAÇÃO PÚBLICA: UMA ANÁLISE PERFIL DO ZÉ GOTINHA NO INSTAGRAM
Comunicação Oral
1 UFJF
Apresentação/Introdução
O personagem Zé Gotinha nasceu como mascote da vacinação brasileira no final da década de 1980. Símbolo da erradicação da paralisia infantil, ele estrelou de cartazes até comerciais para televisão, atraindo de forma lúdica as crianças e promovendo a conscientização vacinal. Segundo dados do Instituto Butantan (2023), sua figura contribuiu ativamente para que o Brasil figurasse entre os países com maiores índices de cobertura vacinal, principalmente entre os anos de 2000 até 2015. No entanto, de acordo com levantamentos do Anuário VacinaBR 2025, do Instituto Questão de Ciência e Sociedade Brasileira de Imunização (2025), o país ainda está abaixo de atingir a cobertura vacinal adequada para crianças. Tendo em vista tal cenário e sua presença em um contexto plataformado (D’Ándrea, 2021), surge a necessidade de observar boas práticas que unem a comunicação para a saúde e os estudos da cultura pop. A ponte entre a comunicação e a saúde destacada por Almeida (2022) se mostra um debate atual e relevante.
A divulgação científica para as políticas públicas de saúde é uma imprescindível ferramenta para o combate à desinformação nas redes sociais. Esta facilita a competência da população de processar dados, tomar decisões assertivas, contribuindo para reduzir desigualdades de acesso à informação e para o fortalecimento da saúde pública (Chagas; Massarani, 2020). Na última década, é observada a crescente desconfiança da necessidade e eficácia das vacinas, discurso promovido pela disseminação de informações falsas nas redes sociais, impactando negativamente na cobertura vacinal (Guimarães, 2022). Desta forma, Villela et al (2023) afirmam que, para contornar este cenário, é necessário estratégias permanentes de comunicação em saúde que assegurem as intervenções vacinais.
Partindo da lógica de circulação de conteúdos nas plataformas de mídias sociais, o perfil @zegotinha no Instagram refresca o uso de táticas de colaboração e identificação. No atual contexto midiático novas linguagens e estéticas comuns ao público alvo são mobilizadas como referências a séries e filmes. Esse acionamento do repertório pop dos jovens toca diretamente no campo da educação. Maldlin e Sandlin (2015), denominam como “pedagogias da cultura pop” estratégias em que conteúdos mais densos podem ser explicados por meio de analogias simples e que fazem parte do cotidiano. Aqui, tal uso é deslocado para a inserção dos repertórios didáticos na compreensão de temas ligados à saúde pública.
Objetivos
Compreender de que forma o perfil @zegotinha no Instagram aciona elementos da cultura pop para conscientização vacinal, promovendo educação para a saúde e o sentimento de orgulho em relação ao SUS.
Metodologia
Com abordagem qualitativa, este estudo tem como metodologia a Análise de Conteúdo (Bardin, 2011). Entre 01/01/26 e 25/03/26, contemplando o primeiro trimestre do ano, foram observadas e coletadas de forma manual as postagens na conta @zegotinha no Instagram que utilizam da cultura pop como principal apelo discursivo. Assim, como corpus selecionado seguimos com 14 publicações, 29,79% do total de posts do período. Após a coleta, elas foram organizadas na exploração do material, buscando agrupar em conjuntos de características similares postagens que exploraram o mesmo apelo. Em seguida, o último passo consiste no tratamento de dados e na sua interpretação, buscando atender ao objetivo de pesquisa.
Resultados e Discussão
Dessa maneira, categorizamos as abordagens em três estratégias principais: Humor, Assuntos em Alta e Orgulho Nacional. Em Humor, com 4 ocorrências, é possível notar a presença constante de trocadilhos como recurso linguístico, como utilizado na postagem de 12/01/26 para relacionar estar protegido com a imunidade no programa Big Brother Brasil. Por sua vez, as 4 postagens centradas em Orgulho Nacional buscaram relacionar o sucesso do Brasil no cinema, nos esportes com a nossa saúde pública e gratuita. Por fim, em Assunto em Alta, com seis publicações, o perfil aproveita do que já está gerando conversação em rede para atrair engajamento, como em 23/03/26 ao citar a série One Piece, para explicar a importância do dia D de vacinação contra a influenza.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que o recurso à cultura pop é um artifício importante para a aproximação do Zé Gotinha com o público e para a democratização da ciência, sendo o tema central de cerca de 30% do conteúdo publicado no período de análise. Através de tendências de entretenimento, do humor e conteúdos acessíveis, o perfil reforça o orgulho pelo SUS, um patrimônio nacional, e a importância do Programa Nacional de Imunizações. A análise das métricas nos permite inferir que o recurso à categoria Assuntos em Alta foi a estratégia mais bem-sucedida em gerar conexão com o público-alvo. As postagens desse tipo entregaram os dados mais expressivos, considerando o total de postagens do perfil no período, fornecendo pistas de como se comunicar com os mais jovens.
EDUCAÇÃO SEXUAL E SAÚDE DIGITAL ENTRE JOVENS: POTENCIALIDADES E DESAFIOS NA MEDIAÇÃO TECNOLÓGICA DO CUIDADO NO SUS
Comunicação Oral
1 UEPA
2 SEMSA SANTARÉM
3 IESPES
Apresentação/Introdução
A crescente inserção das tecnologias digitais no campo da saúde tem reconfigurado as formas de produção do cuidado, especialmente entre jovens, para os quais o ambiente digital constitui um espaço privilegiado de construção de saberes e práticas. No campo da saúde sexual, essas tecnologias emergem como estratégias promissoras para ampliar o acesso à informação e aos serviços, sobretudo diante das barreiras socioculturais que permeiam o tema.
A literatura recente indica que o uso de ferramentas digitais, como aplicativos e mensagens de texto, pode ser eficaz para aumentar as taxas de testagem de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) no sistema público de saúde, além de proporcionar maior conforto para abordar temas sensíveis, como masturbação e disfunção erétil. Entretanto, sua incorporação ocorre em um contexto marcado por iniquidades, como o acesso limitado à internet em regiões remotas, o analfabetismo digital, além da preocupação constante com a privacidade e a confidencialidade dos dados.
Assim, torna-se fundamental analisar criticamente o papel das tecnologias digitais na educação sexual de jovens, considerando suas implicações no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
Objetivos
Descrever evidências acerca das potencialidades e desafios das intervenções em saúde digital na educação sexual de jovens, visando subsidiar estratégias de cuidado no contexto do SUS.
Metodologia
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, orientada por questão norteadora: “Como se configura a educação sexual de jovens no contexto da saúde digital, considerando as potencialidades e desafios da mediação tecnológica no cuidado no SUS?”. A busca foi realizada nas bases PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando os descritores “Sexual Health” AND “Digital Health”, nos idiomas português e inglês. Foram incluídos estudos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis na íntegra. A seleção ocorreu por meio das etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão, com apoio do software Rayyan. Foram encontrados 135 artigos na pesquisa, 127 na PubMed e 8 na BVS, dos quais, após a avaliação de título, resumo e corpo do texto foram incluídos 8 artigos no estudo.
Resultados e Discussão
Os achados evidenciam que intervenções digitais, como aplicativos, plataformas interativas e mensagens de texto se apresentam como uma ferramenta capaz de proporcionar um estímulo aos jovens em buscar conhecimentos e sanar dúvidas sobre temas sensíveis, como disfunção erétil ou masturbação, oferecendo maior conforto aos usuários, uma vez que a saúde sexual é vista como um "problema difícil" de discutir, além disso, proporciona expectativas de escolha e imediação, pois os jovens desejam respostas instantâneas e têm preferência por interfaces discretas e confiáveis, pois expressaram preocupação com a privacidade.
Por outro lado, os estudos apontam que essas tecnologias não substituem o cuidado presencial, sendo compreendidas como estratégias complementares no processo de atenção à saúde. Persistem desafios estruturais relevantes, como o acesso desigual às tecnologias, o analfabetismo digital, barreiras linguísticas e preocupações com a privacidade e a confidencialidade dos dados, os quais podem aprofundar iniquidades em saúde. Ademais, observa-se a necessidade de qualificação das equipes para o uso dessas ferramentas, bem como o fortalecimento de estratégias para sua aplicabilidade no SUS, considerando os diferentes territórios e contextos socioculturais.
Conclusões/Considerações Finais
As tecnologias digitais apresentam potencial significativo na mediação do cuidado em saúde sexual entre jovens, contribuindo para a ampliação do acesso à informação e para o fortalecimento de práticas preventivas. Contudo, sua incorporação no contexto do SUS exige a consideração das iniquidades no acesso, do letramento digital e da proteção de dados, de modo a garantir estratégias éticas, inclusivas e socialmente comprometidas com a equidade em saúde. Reforça-se, portanto, a necessidade de integração entre tecnologias digitais e práticas presenciais, visando à construção de um cuidado ampliado, sensível às diversidades e às realidades dos territórios.
EDUCOMUNICAÇÃO NA SAÚDE COLETIVA: REVISÃO DE ESCOPO SOBRE EXPERIÊNCIAS PARTICIPATIVAS NO BRASIL
Comunicação Oral
1 Fiocruz Brasília
2 Universidade de São Paulo
Apresentação/Introdução
A comunicação e a educação sempre estiveram presentes na saúde coletiva brasileira, fortalecidas a partir da Reforma Sanitária e da criação do SUS. No entanto, as práticas educomunicativas ainda são pouco sistematizadas nesse campo. A educomunicação, entendida como criação de ecossistemas comunicativos participativos, pode contribuir para qualificar ações de promoção e prevenção em saúde.
Objetivos
Mapear e analisar evidências sobre aplicações da educomunicação na saúde coletiva no Brasil, identificando conceitos, práticas, materiais produzidos e potenciais contribuições para o fortalecimento de processos participativos e dialógicos no âmbito do SUS.
Metodologia
Trata-se de uma revisão de escopo registrada no Open Science Framework, guiada pelo Instituto Joanna Briggs e PRISMA-ScR. Realizaram-se buscas sistemáticas em BVS, RedAlyc, Google Acadêmico, Web of Science, Scopus, PubMed e OASISbr, combinando descritores DeCS, MeSH e vocabulário livre. Foram incluídos estudos em inglês, português e espanhol que abordaram experiências brasileiras, sem restrição de delineamento. A triagem seguiu protocolo com Rayyan; divergências foram resolvidas por consenso. Os dados extraídos foram categorizados em autodenominação, elementos da ação, protagonismo, materiais produzidos e aplicação na Saúde Coletiva.
Resultados e Discussão
Foram incluídos 28 estudos publicados entre 2009 e 2023, abrangendo relatos de experiência, pesquisas-ação, estudos de caso e metodológicos, conduzidos em todas as regiões do país. As experiências se caracterizaram por práticas participativas, horizontalidade e diversidade de recursos: produção de vídeos, podcasts, cordéis, radionovelas, jogos, arte-educação e teatro. Os temas envolveram ISTs, câncer, álcool e drogas, saúde bucal, mental e ambiental. O protagonismo comunitário emergiu como elemento central, reforçando a educomunicação como estratégia inovadora para mobilizar saberes e transformar práticas no SUS.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo evidencia a importância da educomunicação como abordagem relacional que fortalece a produção de sentidos, o diálogo e a cidadania em saúde. Para ampliar seus impactos no SUS, é necessário institucionalizar políticas públicas que assegurem projetos participativos, planejamento coletivo e metodologias ativas. Recomenda-se expandir investigações e consolidar a educomunicação como estratégia de promoção e prevenção em saúde coletiva no Brasil.
QUANDO A CLÍNICA FALHA, O TIKTOK RESPONDE: A ECOLOGIA DE CUIDADO DIGITAL NÃO INSTITUCIONAL EM COMUNIDADES SOBRE PREP
Comunicação Oral
1 UNISANTOS
2 UNIP
Apresentação/Introdução
A incorporação da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) ao SUS em dezembro de 2017 representou avanço normativo relevante na resposta brasileira à epidemia de HIV. Contudo, barreiras estruturais persistem no acesso efetivo por populações em maior vulnerabilidade, entre elas o despreparo institucional dos serviços, o estigma nos atendimentos e a distribuição territorialmente desigual das unidades dispensadoras. Tais desigualdades reproduzem iniquidades de classe, raça e território, configurando cenário em que a pluralidade intercultural dos modos de vida e as assimetrias no acesso digital determinam diferenciadamente quem alcança as tecnologias de prevenção disponíveis. Plataformas digitais, notadamente o TikTok, passaram a ocupar lacunas deixadas pelo sistema formal de saúde, constituindo espaços alternativos de circulação de informação e orientação clínica informal. O perfil @odoutormaravilha, conduzido pelo infectologista Vinícius Borges, emergiu como ponto de convergência entre a demanda por informação sobre PrEP e a falha institucional relatada por usuários dos serviços de saúde.
Objetivos
Analisar os processos de produção e circulação de conhecimento sobre PrEP nos comentários do perfil @odoutormaravilha no TikTok, identificando a natureza dos vínculos parassociais estabelecidos entre usuários e criador de conteúdo, bem como os padrões de interação horizontal e de produção colaborativa de conhecimento entre pares.
Metodologia
Trata-se de estudo qualitativo com Análise Temática Reflexiva (Braun e Clarke, 2006; 2019) aplicada a corpus de 204 registros de comentários de seis vídeos publicados entre 2023 e 2024 no perfil @odoutormaravilha. Os comentários são de acesso público e foram tratados de maneira anonimizada, sem identificação dos usuários. O corpus foi organizado em cinco macrocategorias: adesão e efeitos do tratamento, barreiras de acesso ao cuidado, engajamento positivo, estigma e percepções morais, e informação e conhecimento. O referencial teórico mobilizou os conceitos de relação parassocial (Horton e Wohl, 1956; Hartmann, 2008) e comunidades de prática (Wenger, 1998).
Resultados e Discussão
A análise produziu três temas articulados. O primeiro, denominado transferência de confiança institucional, descreve o padrão presente em todos os vídeos analisados: relatos espontâneos de falha nos serviços convertidos em demanda de orientação dirigida ao criador ou à comunidade de usuários. Os relatos abrangem usuários de diferentes estados brasileiros (Ceará, Goiás, Rio Grande do Sul, entre outros) e de outros países, incluindo registros em inglês e de usuários de Angola, evidenciando que a falha institucional não é fenômeno localizado e que o alcance algorítmico da plataforma ultrapassa fronteiras nacionais. São frequentes os registros de pessoas reportando desconhecimento de profissionais sobre PrEP e pedidos diretos de atendimento clínico formulados nos comentários. Esse fenômeno dialoga com a teoria parassocial: o criador acumula autoridade de cuidado não por substituir o sistema, mas porque esse sistema falhou na oferta do cuidado esperado (Horton e Wohl, 1956). O segundo tema, relação parassocial ativa, descreve a bidirecionalidade parcial do vínculo: o criador alimenta a percepção de reciprocidade por meio de respostas personalizadas, reduzindo a barreira do estigma que opera nos serviços formais (Hartmann, 2008). O terceiro tema, produção horizontal de conhecimento entre pares, documenta sequências em que usuários desconhecidos trocam informações clínicas e referenciamentos nos comentários, constituindo comunidade de prática sem mediação institucional (Wenger, 1998). A articulação desses três temas sustenta o conceito proposto como contribuição original do estudo: ecologia de cuidado digital não institucional, configuração em que vínculos parassociais verticais e produção horizontal de conhecimento se combinam para suprir demandas de cuidado que o sistema formal não atende.
Conclusões/Considerações Finais
O TikTok não opera como mero canal de comunicação em saúde, mas como estrutura alternativa de cuidado ativada pela falha institucional, cuja capilaridade digital atravessa territórios que os serviços presenciais não alcançam. Este estudo propõe o conceito de ecologia de cuidado digital não institucional como contribuição teórica original ao campo da saúde digital e às Ciências Sociais e Humanas em Saúde. O fenômeno documentado interpela diretamente as políticas de acesso à PrEP e aponta a necessidade de formação profissional para redução do estigma, qualificação do atendimento a populações-chave e estratégias de letramento digital em saúde, de modo que o cuidado digital complemente o SUS sem substituí-lo.
RISCO RENAL E ANTI-INFLAMATÓRIOS NA MÍDIA DIGITAL BRASILEIRA: ANÁLISES DE CONTEÚDO E DE SIMILITUDE SOBRE ENQUADRAMENTOS DISCURSIVOS E USO DE EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS
Comunicação Oral
1 Universidade Estadual de Campinas
2 Universidade de Brasília
Apresentação/Introdução
A circulação digital de notícias em saúde influencia a forma como os riscos associados aos medicamentos são informados e compreendidos socialmente. No caso dos anti-inflamatórios, o risco renal adquire relevância não apenas clínica, mas também comunicacional, especialmente diante do uso de evidências científicas e de narrativas individuais como recursos para informar, interpretar e atribuir sentido a esses eventos no ambiente digital.
Objetivos
Analisar como notícias publicadas na mídia digital brasileira retratam o risco renal associado a anti-inflamatórios, considerando presença de evidência científica, narrativas individuais, contextualização do risco, orientação ao leitor e enquadramentos discursivos.
Metodologia
Trata-se de estudo documental, transversal, exploratório e descritivo, baseado em análise de conteúdo e análise de similitude de notícias disponíveis digitalmente no Brasil. O estudo partiu de três hipóteses analíticas: (1) narrativas individuais tenderiam a apresentar o risco renal associado a anti-inflamatórios de forma fatalista, com maior atribuição de responsabilidade ao indivíduo; (2) notícias baseadas em evidência científica tenderiam a apresentar esse risco de forma mais contextualizada, com maior presença de informações sobre frequência, fatores de risco e orientação ao leitor; (3) a combinação de narrativas individuais e evidência científica tenderia a informar o risco de forma mais humanizada e contextualizada, permitindo ao leitor compreender a real dimensão do risco. A coleta de dados ocorreu em março de 2026, por meio de buscas no Google News, sem recorte temporal prévio, utilizando a estratégia: (renal OR rins) AND (anti-inflamatórios OR anti-inflamatorios OR Nimesulida OR Ibuprofeno OR Diclofenaco OR Naproxeno OR Etoricoxibe OR Tenoxicam), complementada por busca aberta no Google. Após triagem para exclusão de notícias duplicadas, republicações e matérias não elegíveis, foi organizado o corpus textual contendo as notícias elegíveis, estruturado em formato JavaScript Object Notation (JSON). Foram construídos indicadores para representar construtos teóricos da comunicação do risco em saúde, como evidência científica, narrativa individual, fatalismo, contextualização, orientação ao leitor, culpabilização do indivíduo e coexistência entre narrativa e evidência. Análises descritivas e análise de similitude lexical foram realizadas a partir dos construtos. Testes de associação entre variáveis derivadas foram empregados, com qui-quadrado de Pearson ou do teste exato de Fisher. Todas as análises foram realizadas no pacote estatístico R versão 4.5.2 em ambiente VS Code.
Resultados e Discussão
Foram identificadas 49 notícias sobre anti-inflamatórios e risco renal, disponíveis em ambiente digital e analisadas em texto integral. Predominaram conteúdos com contextualização do risco (n=46), fatalismo (n=40), evidência científica (n=37) e orientação ao leitor (n=29), enquanto culpabilização (n=16), narrativas individuais (n=4) e a combinação entre narrativa individual e evidência científica (n=3) foram menos frequentes. Na análise de similitude lexical especialmente no subgrupo de contextualização, destacaram-se vocábulos como causar (n=30), pessoas (n=30), sangue (n=29) e ibuprofeno (n=27). Entre os termos mais recorrentes, sobressaíram causar-ibuprofeno (n=21), causar-pessoas, pessoas-sangue e renais-sangue (n=20). A maioria das matérias mencionou fatores relacionados ao dano renal (n=45), 21 informaram a frequência do evento, e apenas uma orientou explicitamente evitar o uso de anti-inflamatórios. A presença de evidência científica foi associada a maior orientação ao leitor (n=25), o que corroborou com a segunda hipótese (p=0,048). A cobertura digital sobre anti-inflamatórios e risco renal combina contextualização e evidência científica com forte fatalismo, mas oferece pouca informação sobre frequência do evento e orientações ao leitor. Esse padrão sugere que o risco renal é apresentado mais como possibilidade concreta de agravo do que como evento probabilístico e contextualizado.
Conclusões/Considerações Finais
A presença de evidência científica foi associada a maior orientação ao leitor, corroborando parcialmente a hipótese de que notícias baseadas em evidência tenderiam a informar o risco de modo mais útil ao público. A cobertura digital sobre risco renal associado a anti-inflamatórios articula evidência científica, contextualização e orientação de forma desigual, mantendo padrão fatalista. Quando as notícias apresentam respaldo científico, esse conteúdo nem sempre é traduzido ao público de modo a favorecer compreensão qualificada e tomada de decisão. Aspectos de culpabilização individual aparecem nesse processo, enquanto recomendações mais diretas de prevenção permanecem raras. Os achados reforçam a necessidade de comunicação do risco que torne a evidência mais acessível, reduza simplificações alarmistas e amplie a utilidade social da informação em ambientes digitais.
MEDIAÇÃO ALGORÍTMICA NAS REDES SOCIAIS DIGITAIS E CAMPANHAS DE VACINAÇÃO: DESAFIOS AO SUS E AO DIREITO À SAÚDE
Comunicação Oral
1 Fiocruz/Icict
2 UFRJ/Fiocruz
Apresentação/Introdução
Esta pesquisa em curso, desenvolvida para a elaboração de uma tese de doutorado, propõe uma investigação sobre os atravessamentos da lógica algorítmica das redes sociais digitais nas campanhas de saúde no Brasil, com ênfase nas campanhas de vacinação promovidas pelo Ministério da Saúde em mídias digitais. O trabalho parte da compreensão do fenômeno da mediação algorítmica como elemento do atual ecossistema comunicacional, marcado por lógicas privadas, opacidade operacional e interesses econômicos das big techs, e busca analisar seus efeitos na circulação de sentidos, discursos e enunciados relacionados à saúde. Ancorado nos campos da Saúde Coletiva, da Comunicação e da Comunicação e Saúde, este estudo adota uma abordagem interdisciplinar e mobiliza referenciais teóricos como a Semiótica Discursiva e a Análise do Discurso. A investigação discute os riscos e tensionamentos que a lógica algorítmica pode impor à comunicação e saúde, especialmente no que se refere à efetivação dos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) e ao direito universal à saúde.
Objetivos
A pesquisa objetiva produzir uma análise crítica acerca dos atravessamentos da lógica algorítmica em campanhas de saúde que sirva de mecanismo de observação aos riscos dessas modulações na efetivação dos princípios e diretrizes do SUS.
Metodologia
Ao considerar que os algoritmos não possuem critérios transparentes e não podem ser abordados diretamente como objeto, o projeto é estudar esses atravessamentos a partir do discurso publicitário, com base na Semiótica Discursiva (Fontanille, 2007) e na Análise do Discurso (Maingueneau, 2020), presente nas campanhas de vacinação promovidas pelo Ministério da Saúde. A proposta consiste na análise de quatro campanhas de imunização do Ministério, de 2021 a 2024, para identificar esses atravessamentos. Contudo, neste momento, serão apresentados resultados parciais da primeira parte do estudo, que é uma pesquisa referencial bibliográfica. Essa etapa da investigação utilizou com referências no campo da Saúde Coletiva, entre os principais autores, Almeida-Filho (2011) e Paim (2006); no campo da Comunicação e Saúde, Araújo e Cardoso (2007) e Stevanim e Murtinho (2021); na Comunicação, Azevedo (2012), Sodré (2021), Recuero (2020) e Bruno et al (2019); e, na Ciência da Computação, Turing (1937), Minsky (1967), Kleene (1967), Skiena (2008), além de diversos outros autores de todos esses campos.
Resultados e Discussão
A primeira contribuição identificada é que esses sistemas, chamados popularmente de algoritmos, não são neutros e produzem desfechos subjetivos, visando lucro, orientados por regras definidas por humanos, de forma não transparente. A promessa nas redes é a entrega de conteúdos customizados para “otimizar a experiência do usuário”, mas esse processo amplia o tempo de engajamento e de tela, para que eles possam permanecer nesses espaços por mais tempo, produzindo informação a seu respeito, utilizada e processada por complexos sistemas, que retornam com mais anúncios, serviços e promoções ao usuário. Foram identificados também riscos aos princípios e diretrizes do SUS, considerando esse ecossistema comunicacional regido por big techs e mediado por algoritmos. Essas interferências mostram-se desafios para a elaboração de campanhas de saúde, como as de vacinação. No caso da universalidade, identifica-se uma espécie de recorte e interferência individual na forma de comunicação que pode impactar a noção de construção coletiva, o que é estimulada pelos feeds personalizados, via algoritmos, de cada pessoa. No caso da integralidade, desenhada não só para pensar um atendimento além da prática curativa, mas, na perspectiva da Reforma Sanitária, segundo Paim (2006), um projeto integrado e integral, com diversas políticas públicas alinhadas, a forma de se comunicar pode trazer fragmentações ao processo de comunicação, o que tem potencial para limitar as conexões de diferentes iniciativas integradas a um projeto. Já que o atravessamento subjetivo da experiência do usuário, nessa lógica algorítmica, tem mais peso para o impacto e engajamento dos conteúdos na redes, como pensar estratégias comunicacionais alinhadas ao interesse público e ao SUS? Em relação à equidade, pode existir uma falsa impressão de que o digital pode trazer uma forma mais democrática de se comunicar, muito pautada na experiência dos usuários. Contudo, as redes sociais digitais são espaços privados, regidos por empresas, que lucram com a venda de anúncios, dessa forma, as plataformas reproduzem a lógica de periferia e centro dos sentidos.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados preliminares apontam para urgente necessidade de aprofundar estudos no campo da Saúde Coletiva, especialmente em sua interface com a Comunicação e Saúde, diante dos atravessamentos provocados pela atual lógica comunicacional. Esta lógica, amplamente influenciada por corporações globais de tecnologia, as chamadas big techs, e mediada por algoritmos, impõe novos desafios à efetivação do direito universal à saúde no Brasil.
Realização: