Programa - Comunicação Oral Curta - COC12.3 - Práticas curriculares, saberes e formação
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
ABORDAGEM DA ESPIRITUALIDADE NA PRÁTICA CLÍNICA NOS CURSOS DE SAÚDE DE UMA UNIVERSIDADE FEDERAL
Comunicação Oral Curta
1 UFSCAR
Apresentação/Introdução
A minha participação neste trabalho surgiu a partir da inquietação enquanto estudante indígena, na busca do autoconhecimento, com objetivo de entender de forma crítica o processo saúde-doença na visão da medicina ocidental, questionando o por quê da não inclusão da dimensão espiritual nas matrizes curriculares da área da saúde. Apesar de a Organização Mundial da Saúde ter incluído a dimensão espiritual na definição de saúde desde o final do século XX, ainda se observa uma visão materialista do corpo humano e consequentemente, compreensão limitada de como reabilitar de forma integral. A dimensão espiritual é entendida pela OMS como um conjunto de todas as emoções e convicções de natureza não material que pressupõem que há mais no viver do que pode ser percebido ou plenamente compreendido, remetendo o indivíduo a questões como o significado e o sentido da vida, não necessariamente a partir de uma crença religiosa. Para o Povo Baniwa, somos compostos de dois corpos em um: corpo espiritual e corpo físico, formando o corpo-espírito, portanto, segundo os Baniwa, temos que cuidar primeiro do corpo espiritual e depois, do corpo físico, pois as doenças afetam primariamente o corpo sutil. Diante disso, compreendemos que as origens das dores físicas, das doenças que se manifestam no corpo físico começam no corpo espiritual. Por isso, para nós indígenas, procuramos primeiro os especialistas indígenas e depois, o especialista não indígena, tornando a medicina ocidental como complementar, porém, hoje compreendo que ambas podem beneficiar o homem.
Objetivos
Investigar a abordagem da dimensão espiritualidade na prática clínica entre estudantes dos cursos de medicina, terapia ocupacional (TO), fisioterapia e enfermagem da Universidade Federal de São Carlos.
Metodologia
A pesquisa é vinculada ao macro projeto “Percepção de estudantes da saúde acerca do papel da espiritualidade pós Covid-19”, um estudo observacional, exploratório-descritivo e transversal, do tipo survey online. Os dados foram coletados por formulário eletrônico. O convite foi enviado via e-mail para os 820 estudantes via coordenações dos cursos e ampla divulgação em redes sociais, obtendo 71 respostas (41% Medicina, 25% Fisioterapia, 22% TO e 11% Enfermagem).
Resultados e Discussão
Na prática clínica, 48% referem não terem falado com os pacientes sobre o tema espiritualidade/crenças religiosas e 39% já abordaram, porém 13% ainda não tiveram contato com o paciente durante a graduação. Entre os cursos, 87% na enfermagem referem ter abordado o tema e medicina 52%; na fisioterapia (67%) e TO (44%), a maioria não abordou o tema. Em relação a frequência de abordagem, a opção “Não pergunto” representou 27% do total e os cursos de fisioterapia (39%) e TO (37%) foram os que mais se sobressaíram nessa opção; na opção Raramente (27% do total), apenas o curso de medicina (45%) se destacou; na opção Às vezes (28%), houve destaque para o curso de enfermagem (62%). As principais barreiras que desencorajam abordar o tema com pacientes foram: Medo de ofender os pacientes (53%), nos cursos foram: enfermagem (62%), fisioterapia (44%), medicina (58%) e TO (50%); Medo de impor crenças religiosas (52%), na enfermagem (50%), fisioterapia (55%), medicina (58%) e TO (37%); Falta de treinamento (46%), na enfermagem (62%), fisioterapia (28%), medicina (62%) e TO (31%); e Falta de conhecimento (39%), na enfermagem (37%), fisioterapia (28%), medicina (48%) e TO (37%).
Na prática clínica, identificou-se que poucos estudantes abordam questões de espiritualidade com pacientes durante os atendimentos. Isso pode estar relacionado às barreiras que relatam encontrar durante a graduação, como falta de tempo, de conhecimento, de treinamento, medo de impor crença religiosa e desconforto na abordagem desse tema. Segundo Esporcatte et al., (2020), é “lícito imaginar que grande parte dessas dificuldades resultam de falta de treinamento, pois a temática ainda não é usualmente abordada durante os anos de formação profissional.” Isso vai ao encontro de Lucchetti et al. (2012) que afirma que “a resistência se deve, em grande parte, à falta de estudos brasileiros sobre espiritualidade, tendências à secularização e desejo de evitar a coerção religiosa.” Em consequência disso, “o assunto acaba por não ser incluído nas anamneses e perde-se assim a oportunidade de estreitar ainda mais a relação médico-paciente e abordar o paciente de modo mais completo”.
Conclusões/Considerações Finais
A inserção do tema da espiritualidade ainda é prioritariamente realizada por meio de estudos e atividades extracurriculares, sendo restrita a abordagem do tema na prática clínica, tendo como barreiras medos, insegurança e falta de conhecimento e treinamento. A inserção do tema nos conteúdos curriculares obrigatórios pode fortalecer a ampliação dessa dimensão do cuidado na prática clínica, baseada em evidências científicas.
CURRÍCULOS PARA A FORMAÇÃO SUPERIOR EM SAÚDE NO BRASIL: UMA ANÁLISE À LUZ DOS ELEMENTOS DA GOVERNANÇA E DOS PROCESSOS REGULATÓRIOS
Comunicação Oral Curta
1 Instituto Aggeu Magalhães - Fiocruz Pernambuco
Apresentação/Introdução
A formulação e implementação das políticas curriculares para a formação superior em saúde no Brasil configuram um campo complexo, marcado pela interação entre múltiplos atores, distintos níveis de governo e arranjos intersetoriais entre saúde e educação. No Brasil, esse processo é fortemente marcado pela publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de saúde. Nesse contexto, a governança dessas políticas envolve espaços formais e informais de articulação, marcos normativos e processos decisórios permeados por disputas e assimetrias. Apesar dos avanços teóricos, observa-se uma lacuna do conhecimento quanto à compreensão integrada desses elementos, com o privilégio de abordagens teóricas e metodológicas restritas. Diante disso, o estudo parte do questionamento “Como se organizam os atores, os espaços de articulação, as normas e os processos na governança das políticas curriculares para a formação superior em saúde no Brasil?”.
Objetivos
Analisar as categorias de atores, espaços de articulação, normas e processos decisórios que configuram a governança das políticas curriculares para a formação superior em saúde no Brasil entre 2014 a 2025
Metodologia
Estudo qualitativo e exploratório, fundamentado na análise documental e que possui como marco temporal a publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais. Foram organizados três momentos empíricos: (I) identificação e levantamento do corpus documental; (II) detalhamento do corpus; e (III) elaboração do quadro analítico. No primeiro momento foi conduzida uma busca exploratória para identificação das possibilidades de constituição do corpus documental, com priorização dos documentos do poder executivo federal disponíveis em domínio público, emitidos pelos órgãos responsáveis pela regulação da formação superior em saúde – Ministério da Saúde e Ministério da Educação – publicações dos conselhos de profissões da saúde, documentos institucionais, normativos e atas de reuniões de espaços decisórios federais (Comissão Intergestores Tripartite, Conselho Nacional de Saúde, Conselho Nacional de Educação). A seleção considerou critérios de relevância temática, abrangência nacional e relação direta com a regulação da formação em saúde. A análise foi orientada por categorias analíticas previamente definidas — atores, espaços de articulação, normas e processos. O tratamento dos dados ocorreu por meio de análise temática, com interpretação guiada pelos referenciais da governança e da análise de políticas públicas.
Resultados e Discussão
O corpus documental foi composto por normativas e instrumentos institucionais produzidos no âmbito da regulação e indução da formação superior em saúde no Brasil. Foram identificados e examinados um acervo de aproximadamente 125 documentos, dentre Diretrizes Curriculares Nacionais, portarias interministeriais que instituem e regulam programas indutores da formação em saúde e iniciativas vinculadas à integração ensino-serviço, além de leis e resoluções que orientam a organização da educação superior e sua articulação com o sistema de saúde e deliberações oriundas de instâncias de controle social, como o Conselho Nacional de Saúde e de Educação no período de 2014 a 2025. A dimensão dos atores demonstrou configuração heterogênea, envolvendo órgãos governamentais federais, instituições de ensino superior, entidades representativas de categorias profissionais e instâncias de participação social, com papéis distintos na formulação, regulação e indução das políticas, com diferentes graus de influência nos processos. Nos espaços de articulação, evidenciaram-se arenas formais e informais que sustentam a governança do campo, incluindo comissões intergestores, conselhos de saúde, câmaras técnicas e fóruns interinstitucionais voltados à integração ensino-serviço. Na identificação das normas, coexistiram instrumentos regulatórios de natureza diversa, incluindo diretrizes curriculares nacionais, legislações educacionais e sanitárias, além de portarias e programas indutores. Os processos foram demarcados por dinâmicas de negociação intersetorial, coordenação federativa e disputas entre diferentes projetos formativos, evidenciando arranjos de governança híbridos, nos quais coexistem mecanismos de regulação centralizada e práticas descentralizadas, influenciadas pela atuação dos atores e pelas trajetórias institucionais.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que a governança das políticas curriculares para a formação superior em saúde no Brasil se estrutura pela articulação entre múltiplos atores, espaços institucionais, normas e processos decisórios, configurando arranjos híbridos. O estudo contribui para o debate sobre formação em saúde sob a lente da governança e subsidia reflexões para o aprimoramento das políticas públicas no setor. Como limitação, tem-se a tipologia do estudo e a definição prévia de categorias de análise. Recomenda-se que investigações futuras possuam maior refinamento metodológico, com incorporação de abordagens empíricas complementares e o adensamento teórico pertinente à temática.
DIVERSIDADE E TERRITÓRIOS NA FORMAÇÃO DO SANITARISTA: UMA ANÁLISE DOS PROJETOS PEDAGÓGICOS DE CURSO
Comunicação Oral Curta
1 UFMT
Apresentação/Introdução
Este resumo integra a pesquisa desenvolvida no Mestrado Acadêmico em Saúde Coletiva do PPGSC/ISC/UFMT. A Saúde Coletiva, constituída no contexto da Reforma Sanitária Brasileira, como um campo interdisciplinar comprometido com a análise dos processos saúde-doença e determinação social da saúde e com a consolidação do SUS como projeto político de garantia do direito à saúde (Paim, 2008; Paim, 2009). Nesse cenário, a formação de sanitaristas assume papel estratégico, exigindo projetos pedagógicos alinhados aos princípios de universalidade, integralidade e equidade. Contudo, persistem desigualdades estruturais e limites na incorporação da diversidade, das políticas afirmativas e das epistemologias plurais (Bosi; Paim, 2010). A ampliação do acesso ao ensino superior tensiona tais limites, evidenciando a necessidade de reconhecer os territórios como espaços formativos e de valorizar as diferenças sociais, étnico-raciais e culturais (Ceccim; Feuerwerker, 2004).
Objetivos
Objetivo geral:
Refletir sobre a formação do sanitarista a partir da análise dos Projetos Pedagógicos de Curso, considerando sua articulação com os princípios do SUS, bem como a forma como os territórios e a diversidade são incorporados nesse processo.
Objetivos específicos:
- Analisar como os PPCs incorporam os princípios do SUS na organização da formação do sanitarista.
- Examinar de que modo as categorias diversidade e território são abordadas nos PPCs e suas implicações para os processos formativos.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de abordagem interpretativa, que compreende os PPCs como produções sociais historicamente situadas, atravessadas por disputas epistemológicas e intencionalidades político-pedagógicas (Sacristán, 2000; Apple, 2006). Foram analisados PPCs de cursos de graduação em Saúde Coletiva em funcionamento no Brasil, considerando elementos como organização curricular, diretrizes formativas e concepções de saúde, com ênfase na presença das categorias diversidade, políticas afirmativas e território. A análise fundamenta-se em referenciais críticos da Saúde Coletiva e da educação.
Resultados e Discussão
Os achados indicam que, embora os PPCs apresentem avanços na incorporação dos princípios do SUS e da determinação social da saúde (Paim, 2008), ainda são incipientes as abordagens explícitas sobre políticas afirmativas, diversidade e interculturalidade. Observa-se que o território é frequentemente mobilizado como categoria analítica e operacional, porém nem sempre articulado à valorização dos saberes locais e das experiências dos sujeitos. Persistem tensões entre o projeto ético-político da Saúde Coletiva e práticas formativas marcadas por lógicas tecnicistas e produtivistas (Campos, 2000). Por outro lado, a presença ampliada de estudantes oriundos de políticas afirmativas tem tensionado os currículos e produzido deslocamentos relevantes, ampliando as possibilidades de construção de práticas mais inclusivas e dialógicas.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a consolidação de uma formação em Saúde Coletiva comprometida com a justiça social requer o fortalecimento das políticas afirmativas e a transformação das racionalidades que orientam os processos formativos. Destaca-se a necessidade de incorporar a diversidade como dimensão estruturante do currículo, bem como de fortalecer a articulação com os territórios como espaços de produção de saberes e práticas. Tais movimentos são fundamentais para promover a permanência, a saúde mental e a qualidade de vida de estudantes e docentes, reafirmando o compromisso ético-político da formação em Saúde Coletiva com a equidade e com o SUS (Ceccim; Feuerwerker, 2004).
Referências:
APPLE, M. W. Ideologia e currículo. Porto Alegre: Artmed, 2006.
BOSI, M. L. M.; PAIM, J. S. Graduação em Saúde Coletiva: subsídios para um debate necessário. Ciência & Saúde Coletiva, v. 15, n. 4, 2010.
CAMPOS, G. W. S. Saúde pública e saúde coletiva: campo e núcleo de saberes e práticas. Ciência & Saúde Coletiva, v. 5, n. 2, 2000.
CECCIM, R. B.; FEUERWERKER, L. C. M. O quadrilátero da formação para a área da saúde. Physis, v. 14, n. 1, 2004.
PAIM, J. S. Reforma sanitária brasileira: contribuição para a compreensão e crítica. Salvador: EDUFBA, 2008.
PAIM, J. S. O que é o SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2009.
SACRISTÁN, J. G. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: Artmed, 2000.
ENSINO E FORMAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA: EXPERIÊNCIA COM METODOLOGIAS ATIVAS NA ABORDAGEM DO PROCESSO SAÚDE-DOENÇA
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz Pernambuco - Instituto Aggeu Magalhães
Contextualização
A formação em saúde no Brasil ainda é fortemente marcada pela hegemonia do modelo biomédico, o que pode limitar a compreensão do processo saúde-doença à sua dimensão biológica. Nesse contexto, as Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS) assumem papel fundamental na ampliação dessa compreensão, demandando também a incorporação de estratégias pedagógicas que favoreçam a construção crítica do conhecimento na formação em saúde coletiva.
Descrição
A atividade foi estruturada a partir da articulação de diferentes metodologias ativas. Inicialmente, realizou-se a “dinâmica da teia”, na qual os participantes, organizados em círculo e conectados por um barbante, foram convidados a responder, em uma palavra, qual a contribuição das CSHS para a saúde. A construção da teia simbolizou a interdependência entre os sujeitos e possibilitou uma reflexão sobre a importância do coletivo e da integração de saberes na formação em saúde.
Em seguida, desenvolveu-se um júri simulado, no qual a “contribuição das Ciências Sociais e Humanas para a saúde” foi colocada em julgamento. Os participantes assumiram papéis como juíza, advogados, testemunhas e júri popular, debatendo a questão central: “Explicar o processo saúde-doença como fator biológico é suficiente ou deve ser compreendido como fenômeno social?”. A atividade favoreceu argumentação, escuta qualificada e construção coletiva de posicionamentos.
Posteriormente, foi realizado um quiz interativo por meio do aplicativo Kahoot, com questões baseadas na bibliografia do painel, seguido de discussão coletiva das respostas, estimulando o raciocínio crítico. Na sequência, utilizou-se o curta “Tarja Preta”, ambientado em Itacuruba, para problematizar as relações entre território, desigualdades sociais e adoecimento. Ao final, realizou-se uma avaliação sintética, em que os participantes expressaram, em uma palavra, sua percepção sobre a experiência.
Período de Realização
Uma semana de preparação, com culminância na apresentação em 27 de março de 2026
Objetivo
Este trabalho tem como objetivo relatar a experiência de construção e execução de um painel discente desenvolvido na disciplina Introdução à Saúde Coletiva, voltada para residentes de Saúde Coletiva da Fiocruz Pernambuco, em Recife-PE, com foco na discussão do processo saúde-doença como fenômeno social no âmbito da formação para o SUS.
Resultados
Observou-se elevado engajamento dos residentes e ampliação da capacidade de problematização dos conteúdos, especialmente no reconhecimento dos determinantes sociais da saúde. As estratégias utilizadas favoreceram a construção coletiva do conhecimento e tensionaram práticas tradicionais centradas na transmissão, contribuindo para uma formação mais crítica e reflexiva.
Aprendizado e Análise Crítica
Como aprendizados, destaca-se que o uso de metodologias ativas potencializa o envolvimento dos sujeitos no processo formativo e contribui para a incorporação de perspectivas ampliadas sobre saúde. O júri simulado, em especial, mostrou-se potente para explicitar disputas de sentidos e aprofundar o debate sobre o processo saúde-doença.
Do ponto de vista crítico, reconhece-se que a implementação dessas estratégias exige maior tempo de planejamento e mediação qualificada e. Ainda assim, reafirma-se sua potência na qualificação dos processos formativos em saúde coletiva, contribuindo para a formação de profissionais mais sensíveis às dimensões sociais, culturais e políticas do cuidado no SUS.
FORMAÇÃO DE TRABALHADORES DE NÍVEL MÉDIO PARA A GESTÃO HOSPITALAR NO SUS: DESAFIOS E POTENCIALIDADES DE UMA EXPERIÊNCIA DA FIOCRUZ
Comunicação Oral Curta
1 EPSJV/FIOCRUZ
Contextualização
A formação de trabalhadores de nível médio que atuam em áreas administrativas de hospitais públicos constitui uma lacuna persistente na educação profissional em saúde. Embora representem parcela expressiva da força de trabalho do SUS, esses profissionais seguem à margem das políticas de educação permanente, voltadas sobretudo a categorias de nível superior. Quando existe, a oferta formativa tende a reproduzir referenciais do setor privado, ignorando que a gestão no SUS é atravessada por dimensões políticas, éticas e participativas que não se reduzem à racionalidade instrumental (Campos, 2000). A instituição do Formatec-SUS (Portaria GM/MS nº 9.038/2025) sinaliza o reconhecimento dessa lacuna no plano da política nacional. É nesse cenário que se insere a experiência da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), cuja proposta formativa, orientada pela politecnia (Saviani, 2003) e pela educação problematizadora (Freire, 1987), busca articular formação técnica, consciência crítica e participação na gestão democrática do SUS.
Descrição
O Curso de Qualificação Profissional em Gestão Hospitalar é ofertado há mais de 15 anos pelo Laboratório de Educação Profissional em Gestão em Saúde (LABGESTÃO) da EPSJV/Fiocruz. Com 360 horas, em formato presencial e integral, destina-se a trabalhadores de nível médio da área administrativo-gerencial de hospitais públicos federais, estaduais e municipais. O currículo se organiza em cinco eixos: Políticas Públicas e Sistema de Saúde no Brasil; Processo de Trabalho em Organizações Hospitalares; Administração dos Serviços Hospitalares; Gestão e Planejamento em Saúde; e Iniciação ao Trabalho Científico. Cada turma recebe em média 35 educandos que, ao final, elaboram um Trabalho de Conclusão de Curso no formato de plano de intervenção voltado a problemas concretos de suas unidades hospitalares. A partir de 2025, sob nova coordenação, o curso passou por reformulação e voltou a ser ofertado como demanda aberta, ampliando o acesso e a diversidade institucional dos participantes, em diálogo com o Quadrilátero da Formação (Ceccim e Feuerwerker, 2004) e sua articulação entre ensino, gestão, atenção e controle social.
Período de Realização
O curso existe há mais de 15 anos. Este relato focaliza a reformulação iniciada em 2025 sob nova coordenação.
Objetivo
Descrever e analisar criticamente a experiência de formação de trabalhadores de nível médio para a gestão hospitalar no SUS desenvolvida pelo LABGESTÃO/EPSJV/Fiocruz, discutindo como a proposta pedagógica articula dimensões técnicas e político-sociais da gestão e contribui para a inserção desses trabalhadores nos processos decisórios hospitalares.
Resultados
A trajetória do curso evidencia três resultados. Primeiro, o fato de os educandos serem trabalhadores do cotidiano hospitalar favorece um processo formativo em que a realidade do serviço alimenta a reflexão em sala de aula. Os problemas trazidos não são abstratos: envolvem filas, fluxo de leitos, gestão de materiais e processos de trabalho fragmentados. Isso configura o que Freire (1987) chamou de práxis, na medida em que ação e reflexão se articulam a partir de situações vividas. Segundo, os planos de intervenção elaborados como TCC incidem sobre problemas organizacionais reais das unidades de origem, indicando que trabalhadores de nível médio são produtores de conhecimento sobre gestão quando dispõem de condições formativas que valorizam sua experiência. Terceiro, a inclusão de eixos como Políticas Públicas e Controle Social amplia a leitura que esses trabalhadores fazem do SUS como projeto político, permitindo que se vejam como sujeitos nos processos de gestão e não apenas executores de rotinas.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência também expõe limites que não podem ser ignorados. A dificuldade de liberação dos trabalhadores pelas unidades hospitalares, a precarização dos vínculos e a resistência institucional à incorporação dos planos de intervenção dos egressos mostram que a formação crítica, por si só, não transforma estruturas organizacionais marcadas pela divisão social do trabalho em saúde e por uma lógica que reserva ao nível médio um papel estritamente operacional. Essas tensões, contudo, são parte do processo e não seu fracasso. À luz da politecnia e da educação problematizadora, o que a trajetória do LABGESTÃO ensina é que formar para a gestão hospitalar no SUS não se resume a transferir técnicas administrativas. Exige abrir espaço para que os trabalhadores desenvolvam leitura política do contexto institucional em que atuam. O curso mostra que isso é viável quando o SUS funciona como princípio organizador do currículo e quando os saberes construídos pelos trabalhadores nos territórios onde atuam e sustentam o trabalho em saúde são tratados como ponto de partida, e não como déficit a ser corrigido.
FORMAÇÃO TECNOCIENTÍFICA, MENTORIA E EQUIDADE: A EXPERIÊNCIA STEM NA SAÚDE DA REDE FIOCRUZ
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz
Contextualização
A formação acadêmico-científica costuma se organizar em torno de modelos individualizados de acompanhamento, centrados na relação entre estudante e orientador. Embora consolidado, esse formato tende a concentrar referências, oportunidades e mediações em vínculos hierárquicos e pouco abertos à circulação ampliada de saberes e redes, o que pode limitar a pluralidade de trajetórias nos espaços formativos. Além disso, em contextos marcados por desigualdades de gênero, raça e acesso aos espaços tecnocientíficos, tal configuração evidencia limites importantes relacionados às causas estruturais como as políticas educacionais históricas ineficientes. Nesse cenário, ganham relevância experiências que tensionam a lógica tradicional da orientação individual e propõem formas mais coletivas, colaborativas e ampliadas de acompanhamento.
Descrição
O STEM na Saúde constitui uma rede nacional de formação que articula, atualmente, 68 bolsistas, da educação básica à pós-graduação, e 113 pesquisadoras-mentoras em diferentes regiões do país. Esta iniciativa é voltada para as populações vulneráveis, sendo composta exclusivamente de alunas de escolas e universidades públicas, moradoras de periferias empobrecidas, favelas e quilombos. Seu desenho combina encontros nacionais por videoconferência e atividades regionais desenvolvidas nos respectivos territórios, envolvendo tanto momentos teóricos quanto experiências imersivas de visita a laboratórios e espaços de pesquisa, com atividades práticas hands-on. Trata-se, assim, de uma experiência de mentoria coletiva baseada na ampliação das referências formativas e na circulação entre diferentes contextos institucionais.
Período de Realização
As práticas formativas do projeto foram iniciadas em fevereiro de 2025, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec). Com duração de 36 meses, a etapa atual encerra-se em janeiro de 2028.
Objetivo
Refletir criticamente sobre a experiência do STEM na Saúde, destacando a mentoria coletiva como estratégia de formação voltada à promoção da equidade de gênero e raça e à democratização do acesso a projetos e processos que visam a construção de carreiras científicas nas áreas STEM, especialmente, na interface com a ciência e tecnologia em saúde.
Resultados
Por se tratar de experiência em andamento, os resultados apresentados são preliminares. Entre eles, ressaltamos a composição territorial e social da rede de bolsistas, com concentração expressiva nas regiões Norte e Nordeste e com presença majoritária de bolsistas pretas, pardas e indígenas, incluindo quilombolas e trans. Tais características demonstram o alcance do projeto junto a grupos historicamente sub-representados na formação científica e tecnológica. Observa-se também indícios de continuidade dos percursos formativos, expressos, até o momento, pela ausência de evasão escolar entre as bolsistas que estão sendo acompanhadas pela equipe técnico-pedagógica da Rede STEM na Saúde, assim como, por meio de desdobramentos concretos nas trajetórias educacionais, como o ingresso de participantes em cursos de pós-graduação como mestrado e doutorado acadêmico e a obtenção de bolsa de estudos em instituição de ensino por bolsistas da educação básica. O estudo de trajetórias inicia-se com perspectivas interessantes no que tange escolhas de carreiras e temas de estudo e/pesquisa. Outrossim, o projeto em desenvolvimento tem como um de seus objetivos específicos acompanhar a curto e médio prazos o aproveitamento acadêmico realizado pelas participantes, independente de futuras escolhas profissionais em áreas STEM.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a mentoria coletiva amplia possibilidades formativas ao apresentar às bolsistas diferentes temas, práticas de pesquisa e trajetórias de mulheres cientistas. Em lugar de restringir a formação a uma única referência de orientação acadêmica, esse modelo permite o reconhecimento de múltiplas possibilidades de inserção na ciência e contribui para que as participantes se identifiquem com percursos diversos e projetem seus próprios caminhos de formação.
A mentoria coletiva tensiona a lógica acadêmica centrada em vínculos individualizados e na avaliação de conteúdos, ao propor uma formação em rede, distribuída entre diferentes temas de pesquisa e plural em suas referências teórico-científicas. Contudo, sua consolidação requer investimento institucional contínuo, coordenação entre escalas nacional e territorial e articulação com políticas mais amplas de equidade, de educação científica, para que não fique restrita a uma experiência pontual diante de desigualdades persistentes e estruturalmente complexas de serem enfrentadas. Afinal, ampliar o acesso à ciência implica em lidar com questões históricas de exclusão, entre elas o racismo e a misoginia, que estão presentes nos espaços de pesquisa e limitam os percursos formativos.
INTERNACIONALIZAÇÃO, INTERCULTURALIDADE E FORMAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA DO DOUTORADO SANDUÍCHE
Comunicação Oral Curta
1 USP
2 UdeA
Contextualização
A internacionalização da formação em Saúde Coletiva na América Latina é importante para o intercâmbio de saberes e a construção coletiva do conhecimento a partir de perspectivas críticas e para reduzir a hegemonia dos saberes produzidos no Norte Global. Nesse sentido, o doutorado sanduíche pode ser uma estratégia de fortalecimento desse intercâmbio intercultural, possibilitando a ampliação do repertório teórico-prático no campo da Saúde Coletiva e o fortalecimento de uma formação crítica, comprometida com a equidade e a justiça social, especialmente a partir das realidades dos territórios latino-americanos.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência referente à realização de estágio de doutorado sanduíche (em andamento) na Universidade de Antioquia (UdeA), na Colômbia. Em, aproximadamente, três meses, houve a inserção em diferentes atividades formativas. Destaca-se a participação em aulas para estudantes de graduação dos cursos de Administração em Saúde; Administração Sanitária e Ambiental; Gerência de Sistemas de Informação em Saúde; Medicina; e Instrumentação Cirúrgica, nas quais foram realizadas discussões sobre o Sistema Único de Saúde e a organização da saúde pública no Brasil e na Colômbia. Também a participação como ouvinte em disciplinas de pós-graduação do mestrado em Saúde Pública e em Saúde Mental, ampliando o contato com diferentes abordagens formativas. Ainda houve atividades no território, como visitas para conhecer a realidade social e sanitária de populações residentes em áreas rurais ou urbanas socialmente vulnerabilizadas, possibilitando a articulação entre teoria e prática. As interações com estudantes de graduação e pós-graduação, docentes e profissionais de saúde têm favorecido esse intercâmbio intercultural das experiências latino-americanas no processo de construção da saúde coletiva/pública.
Período de Realização
Janeiro a junho de 2026.
Objetivo
Sistematizar e analisar criticamente a experiência de doutorado sanduíche no exterior, a partir da perspectiva da formação em Saúde Coletiva, destacando suas contribuições para o processo formativo.
Resultados
A vivência tem possibilitado o contato com diferentes formas e métodos de ensino-aprendizagem na formação em saúde, contribuindo para a reflexão sobre as práticas pedagógicas e para o aprimoramento da atuação no campo da Saúde Coletiva. As experiências em sala de aula e no território têm favorecido o amadurecimento crítico, a compreensão da determinação social do processo saúde-doença-cuidado em diferentes contextos e entender as diferenças e tensões no fazer em saúde pública brasileira e colombiana. Assim, essas interações interpessoais têm sido espaços de construção coletiva de conhecimentos e de diálogo plural, além de possibilitarem a formação de redes de colaboração internacional.
Aprendizado e Análise Crítica
Essa experiência internacional tem reforçado a compreensão da Saúde Coletiva enquanto um campo ético-político, pautado na equidade e na justiça social, que se constrói a partir do diálogo de saberes e nos distintos territórios e contextos. Destaca-se o aprofundamento da compreensão crítica sobre o processo saúde-doença-cuidado e sobre os desafios contemporâneos da saúde pública latino-americana, bem como a importância de fortalecer a visibilidade dos conhecimentos e práticas do Sul Global, tensionando perspectivas hegemônicas e valorizando os saberes situados nos territórios. A internacionalização é um importante eixo da formação na pós-graduação, porém é necessário problematizar as desigualdades de acesso a essas oportunidades, que envolvem desde questões financeiras e institucionais até condições sociais e familiares que limitam a participação. Assim, as experiências de doutorado sanduíche evidenciam tanto o seu potencial formativo quanto a necessidade de ampliação do acesso a essas iniciativas de internacionalização. Para aqueles que conseguem vivê-las, pode ser uma experiência com grande potencial transformador. A vivência em outro país latino-americano tem permitido reconhecer e problematizar semelhanças e diferenças culturais, sociais, políticas e formativas, contribuindo para o amadurecimento pessoal e profissional. A inserção em diferentes territórios e contextos tem reforçado a importância de uma formação comprometida com a realidade social, ampliando a capacidade crítica e a atuação em saúde orientada pelos princípios da equidade e da justiça social.
O LUGAR DA ANTROPOLOGIA NA FORMAÇÃO E PRÁTICA DA SAÚDE COLETIVA: NOTAS DE UMA DOCENTE-ETNÓGRAFA NA GRADUAÇÃO E NA PÓS-GRADUAÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 UNB
Apresentação/Introdução
Neste trabalho pretendo refletir sobre o espaço e as contribuições da antropologia na formação em Saúde Coletiva, no âmbito da graduação e da pós-graduação. Por espaço entenderei o debate a partir das hierarquias do campo, entre ciências humanas e sociais e ciências biológicas; tomando noções de prestígio e cientificidade para ponderar sobre a figuração das Ciências Sociais na formação em Saúde. Por outro lado, como contraponto, analisarei a singularidade do olhar da antropologia sobre o fenômeno social da saúde, buscando demonstrar a descrição e a compreensão das práticas e dos significados são fundamentais para o entendimento de pontos e lacunas que as ciências duras e suas métricas não nos permitem alcançar.
Objetivos
Para tanto, olharei especificamente para o lugar da antropologia na dimensão da prática da formação em saúde, de modo atento aos campos de estágio na graduação em Saúde Coletiva e à elaboração dos produtos técnicos esperados no programa de mestrado profissionalizante em Saúde Coletiva, ambos sediados na Universidade de Brasília, onde sou docente há 15 anos.
De que maneira a antropologia contribui para a realização das horas de estágio previstas nas DCNs da graduação em Saúde Coletiva? Em que medida a teoria social pode ali ser aplicada e discutida? De que forma o nosso olhar altera o que se compreende como estágio ou a prática da formação em Saúde? O que fazemos estranhar, relativizar ou avaliar?
Metodologia
Algumas dessas reflexões foram elaboradas em artigos pregressos sobre a pesquisa social e a prática em saúde (Carneiro, 2013) e mais recentemente sobre as Ciências Sociais e os campos de estágio em Saúde Coletiva (Carneiro e Pereira, 2018). Como se desenha nossa intervenção nos cenários de prática? Nossa ação pode ser chamada de intervenção? Como construímos diagnósticos de avaliação em saúde?
Na mesma medida, ao avançar no processo de formação, nos vemos diante das particularidades dos Programas de Pós-graduação Profissionalizantes em Saúde Coletiva, voltados para a prática dos serviços, ou seja, novamente para a interface entre ensino-serviço e comunidade. Esses programas exigem a elaboração de produtos técnicos, para além da dissertação e tese. Quais os desenhos desses produtos e como a antropologia têm influenciado, criticado e contribuído para novas leituras? Como a dimensão técnica tem sido compreendida?
No limite, vemo-nos diante das díades ciência e prática; academia e serviços; política pública e pesquisa. O campo da Saúde Coletiva, per si, borra tais divisões ou as torna tênues o suficiente para nos apresentar novos caminhos.
Resultados e Discussão
Neste SE gostaria de apresentar alguns casos experimentados em minha prática docente que me parecem “ser bons para pensar” sobre o lugar das Ciências Sociais e dos antropólogos na formação em Saúde no contexto brasileiro atual, atualizando debates que vem sendo travados desde a década de 1950 e 1960, mas que com a nossa inserção no campo certamente se complexificaram ainda mais. Demonstrarei como a descrição densa da antropologia muitas vezes aponta para dimensões do fenômeno da saúde antes não imaginados ou não compreendidos. Nos campos de estágio na graduação, o olhar, o ver e o ouvir de Roberto Cardoso de Oliveira tem qualificado as intervenções nos cenários e serviços de saúde, assim como tem problematizado até mesmo a noção de intervenção. Enquanto na pós-graduação profissional, tem afetado a perspectiva do profissional já em campo que, muitas vezes, naturaliza leituras de mundo e processos de trabalho, bem como tem desconstruído até mesmo a ideia do que é um produto técnico e das separações entre prática e política.
Conclusões/Considerações Finais
O que esperamos de um bacharel em Saúde Coletiva e de um mestre ou doutor egresso de um programa de pós-graduação profissionalizante? As Ciências Sociais, sobretudo, a Antropologia, que é o mundo através do qual me movimento tem apontado para outras figurações e práticas desses profissionais, na contemporaneidade da Saúde Coletiva. Longe de respostas ou conclusões, espero mais compartilhar experiências e refletir sobre o nosso lugar nesse campo de saberes e práticas.
“DISCUTINDO A RELAÇÃO”: UM ESTUDO SÓCIO-ANTROPOLÓGICO SOBRE RELAÇÕES DE ORIENTAÇÃO NAS FRONTEIRAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ
2 UFF
Apresentação/Introdução
A relação de orientação acadêmica é deveras importante para a construção do conhecimento científico, mas, paradoxalmente, apresenta-se pouco estudada academicamente.
Objetivos
Esta pesquisa objetiva analisar a construção da relação de orientação acadêmica em campos de ciências sociais e saúde coletiva a partir dos marcadores de gênero, geração, cor/raça e classe social; buscando compreendê-la a partir de três caminhos: a) a díade orientador/a/e-orientando/a/e, b) como os espaços institucionais de apoio ao estudante percebem a relação de orientação e como atuam/intervém sobre essa temática; c) como as relações de orientação são percebidas/ representadas em circuito não acadêmico. A pesquisa está em curso e pretendemos compartilhar o processo, destacando nossa experiência de pesquisa, passando por cada um desses três eixos na tentativa de trazer para a discussão aspectos geracionais, políticos, teórico-epistemológicos que estão envolvidos na construção dos saberes e na sua transmissão a partir das gerações.
Metodologia
Valorizaremos nessa comunicação olhares sobre nossos registros do trabalho de campo, que inclui entrevistas realizadas com 16 discentes e 8 docentes de diversos perfis, instituições e regiões, observações preliminares relacionadas a espaços de apoio ao estudante e conteúdo criado sobre relações de orientação em perfil de instagram. As principais categorias temáticas em análise são: 1. Trajetória acadêmica; 2. Relação com o/a orientador/a; 3. Formas de conhecimento e atribuição do orientador; 4. Representações sobre os/as orientadores/as; 5. Recomendações para orientadores/as; 6. Afetos e emoções nas relações de orientação; 7. Saúde Mental; 8. Assédio; 9. Racismo; 10. Espaços institucionais de apoio ao estudante;11. Representação estudantil; 12. Outras redes de apoio; 13. Cenas de orientação memoráveis.
Resultados e Discussão
Em conjunto, as narrativas, observações, dados de literatura e mídias sociais confirmam os problemas abordados na literatura acadêmica que nos embasa – ainda que esta seja, em sua maioria, produzida principalmente a partir de problematizações de suas experiências pessoais de orientação (Gilberto Velho, Marilza Peirano, Miriam Grossi, Parry Scott, Pierre Bourdieu, Cecília Minayo, bell hooks, Soraya Fleisher, Débora Diniz, Bárbara Carine, Maria Claudia Coelho, Charlote Block, dentre outras). As relações de orientação são arranjos conformados institucionalmente, em sua maior parte de forma arbitrária, constituindo relações hierárquicas e de poder, vistas idealmente como parcerias, mas que revelam também muitos desafios contidos em diferentes expectativas de docentes e docentes de distintas gerações e capitais sociais. Como a relação de orientação é uma relação social, está sujeita, por um lado, às interações sociais entre discentes e docentes, e por outro lado também responde a outros agentes institucionais, suas normas e diretrizes (demais docentes, coordenadores, representação estudantil, agências de fomento).
Conclusões/Considerações Finais
A despeito dos avanços ocorridos nos últimos anos com as políticas de ação afirmativa, os marcadores de gênero, raça, classe e geração revelam desafios cotidianos nos espaços de formação, como presença de assédio moral e racismo.
LETRAMENTO EM SAÚDE NA FORMAÇÃO EM APS: ENTRE DESIGUALDADES, TERRITÓRIOS E A CONSTRUÇÃO DE PRÁTICAS FORMATIVAS COMPROMETIDAS COM A EQUIDADE
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz
2 Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Apresentação/Introdução
O letramento em saúde é reconhecido como determinante social da saúde e elemento estratégico para a promoção da equidade no Sistema Único de Saúde (SUS). Na Atenção Primária à Saúde (APS), sua relevância se amplia diante das desigualdades sociais, culturais e educacionais que atravessam os territórios. Apesar disso, sua inserção na formação de profissionais ainda ocorre de forma incipiente, o que pode contribuir para a reprodução de barreiras comunicacionais e iniquidades no cuidado. Nesse contexto, o letramento em saúde é compreendido como prática relacional e política, que tensiona modelos formativos centrados no saber biomédico e na comunicação verticalizada.
Objetivos
Analisar como o letramento em saúde pode ser incorporado na formação de profissionais da APS, considerando suas contribuições para práticas de cuidado mais inclusivas, territorialmente situadas e comprometidas com a equidade.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, realizada no município do Rio de Janeiro. Participaram coordenadores, tutores e residentes de programas de residência em Saúde da Família, além de usuários do SUS. A produção dos dados ocorreu por meio de formulários online com questões abertas e fechadas. Os dados foram analisados por meio da Análise de Conteúdo Temática, com triangulação de fontes, permitindo a articulação entre diferentes perspectivas do processo formativo e do cuidado em saúde.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que o letramento em saúde se configura como fenômeno relacional, atravessado por dimensões comunicacionais, pedagógicas e sociais. Destacam-se as vulnerabilidades comunicacionais dos usuários, especialmente em contextos marcados por baixa escolaridade, desigualdades sociais e barreiras culturais, que impactam diretamente a compreensão das informações e a adesão ao cuidado. Observam-se lacunas formativas importantes, com ausência de abordagem sistemática do tema nos currículos, o que leva os profissionais a desenvolverem estratégias comunicacionais de forma empírica e desigual. Por outro lado, emergem práticas potentes no cotidiano da APS, como o uso da linguagem simples, recursos visuais e validação da compreensão, que apontam caminhos para uma formação mais sensível à diversidade e às realidades territoriais. Tais achados indicam que a comunicação em saúde não é apenas técnica, mas dimensão ética e política do cuidado, implicando disputas simbólicas sobre o acesso ao conhecimento e aos direitos.
Conclusões/Considerações Finais
A incorporação do letramento em saúde na formação em serviço mostra-se fundamental para a qualificação do cuidado na APS e para o enfrentamento das desigualdades em saúde. Ao reconhecer as diferenças como dimensão formativa e valorizar os saberes e contextos dos usuários, o letramento em saúde contribui para a construção de práticas mais inclusivas, dialógicas e comprometidas com a justiça social. Como desdobramento, foram elaborados produtos técnico-pedagógicos, incluindo uma proposta de ementa e uma cartilha digital de boas práticas, voltados ao fortalecimento de processos formativos alinhados aos princípios do SUS, à interculturalidade e à promoção do bem-viver de usuários e trabalhadores.
Realização: