Programa - Outras Linguagens - OL1 - Racialidades, Ancestralidade e Saúde da População Negra e Quilombola
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
CARTOGRAFIA DO PERTENCIMENTO DE ESTUDANTES NEGROS/AS EM PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO: UM DISPOSITIVO INTERATIVO DE CUIDADO E RESISTÊNCIA
Outras Linguagens
1 Mestranda PPGSAT - UFBA
2 Mestrando PPGSAT UFBA
3 APG UFBA
Processo de escolha do tema e de produção da obra
O pertencimento no ensino superior, especialmente na pós-graduação, não se configura como uma condição dada, mas como um processo construído nas dimensões sociais, afetivas, políticas e epistemológicas. No contexto dos Programas de Pós-Graduação (PPG’s), estudantes negros/as frequentemente vivenciam experiências de deslocamento, solidão acadêmica, racismo institucional e violência simbólica, que impactam diretamente sua saúde mental e sua permanência.
Essas experiências estão relacionadas à reprodução de desigualdades raciais e à manutenção de uma lógica de produção de conhecimento marcada pela hegemonia eurocêntrica, configurando o que tem sido denominado como “escassez epistemológica” . Nesse cenário, os coletivos de estudantes negros/as emergem como espaços fundamentais de acolhimento, articulação política e produção de saberes, operando como dispositivos de enfrentamento ao racismo e de fortalecimento da permanência estudantil .
A partir dessa compreensão, propõe-se o desenvolvimento de um painel interativo intitulado “Cartografia do Pertencimento”, voltado à escuta e visibilização das experiências de estudantes negros/as na pós-graduação.
Objetivos
Produzir um espaço interativo de escuta e expressão que permita mapear experiências de pertencimento, cuidado e resistência no contexto dos Programas de Pós-Graduação.
Ano e local da produção
2026. Manaus.
Análise crítica da obra relacionada à Saúde Coletiva e ao tema do Congresso
A proposta insere-se no campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde ao reconhecer que a saúde é atravessada por determinantes sociais, incluindo raça, classe e acesso à educação. As experiências de exclusão e não pertencimento vivenciadas por estudantes negros/as nos PPG’s evidenciam impactos diretos na saúde mental, demandando estratégias coletivas de cuidado.
Nesse sentido, os coletivos negros se configuram como tecnologias sociais de cuidado, articulando dimensões afetivas e políticas e promovendo práticas de acolhimento, escuta e fortalecimento identitário . A cartografia do pertencimento, ao tornar visíveis essas experiências, contribui para tensionar as estruturas institucionais e ampliar o debate sobre permanência estudantil com recorte racial.
A “Cartografia do pertencimento” constitui-se como um dispositivo potente de produção de conhecimento, escuta e intervenção, ao articular pesquisa, cuidado e ação política. Ao visibilizar experiências de estudantes negros/as na pós-graduação, a proposta contribui para o enfrentamento do racismo institucional, o fortalecimento dos coletivos negros estudantis e para a construção de universidades mais inclusivas e equitativas.
Formatos e suportes necessários referentes à apresentação
A proposta fundamenta-se no método da cartografia, inspirado nas contribuições de Gilles Deleuze e Félix Guattari, e apropriado no campo da saúde por Eduardo Passos e Regina Benevides de Barros. Tal abordagem propõe acompanhar processos em movimento, valorizando experiências, afetos e relações, em oposição a modelos analíticos fixos e representacionais.
O painel será estruturado como um dispositivo expositivo-interativo, instalado em espaço de circulação do evento, com o objetivo de mobilizar a participação dos sujeitos. A atividade será orientada pela seguinte pergunta disparadora: “Quais experiências, pessoas ou espaços sustentam sua permanência na pós-graduação?”.
Os participantes poderão contribuir por meio de post-its fixados em painel coletivo, respostas digitais via QR code e, opcionalmente, depoimentos anônimos em áudio. As contribuições serão organizadas em categorias analíticas emergentes, como redes de apoio, coletivos estudantis, políticas institucionais, relações acadêmicas e identidade racial.
Os dados produzidos serão sistematizados por meio de análise qualitativa temática, permitindo identificar padrões de pertencimento, estratégias de permanência e experiências de enfrentamento ao racismo acadêmico. A proposta orienta-se por princípios éticos de anonimato, escuta sensível e valorização dos saberes experienciados
Breve biografia do/a autor/a
Verônica Moitinho Sena e Flávia Rita Alves dos Santos: Mulheres negras, mestrandas do PPGSAT UFBA e integrantes do CONESAT (Coletivo Negro de Saúde, Ambiente e Trabalho).
FOTOGRAFIA, IDENTIDADE QUILOMBOLA E SAÚDE: O ROSTO COMO TERRITÓRIO DE PERTENCIMENTO E CUIDADO
Outras Linguagens
1 UFPI
2 Fiocruz/PI
3 Fiocruz
Processo de escolha do tema e de produção da obra
A obra apresentada é um ensaio fotográfico composto por retratos de rosto de mulheres, homens e crianças quilombolas, produzidos em atividades de pesquisa de campo realizadas em territórios quilombolas do Piauí entre 2023 e 2025. A escolha do rosto como objeto fotográfico central não foi fortuita: surgiu da percepção de que, em uma sociedade que historicamente invisibilizou os corpos negros ou os fixou em representações desumanizantes, fotografar um rosto com cuidado e dignidade é um ato político de saúde — entendida não apenas como ausência de doença, mas como afirmação de existência, pertencimento e autoestima, dimensões indissociáveis dos determinantes sociais do processo saúde-doença.
O autor, não quilombola, situa-se intencionalmente como mediador intercultural: alguém que transita entre o território quilombola e o mundo externo, não para falar pelo outro, mas para criar condições de visibilidade compartilhada. Essa posição de "entre-lugar" é assumida como compromisso ético e metodológico — com devolução das imagens às comunidades, negociação dos sentidos e recusa ao uso que reforce estereótipos.
Objetivos
A obra tem três objetivos articulados: (1) documentar, por meio do retrato fotográfico, a singularidade de sujeitos quilombolas como afirmação de presença; (2) fortalecer processos de autoestima, pertencimento e autonomia identitária — reconhecidos como componentes do bem-viver e da saúde integral; e (3) contribuir para o diálogo intercultural entre territórios quilombolas e não quilombolas, interpelando imaginários coloniais sobre corpos negros.
Ano e local da produção
Territórios Quilombolas (Brejo Grande, Caldeirão, Curralinhos, Lagoas, Mimbó, Olho d´Água dos Negros, Paquetá, Pio IX, Pitombeira, Sítio Velho, Sumidouro, Tapuio e Vereda dos Anacletos) do Piauí, entre 2023 e 2025.
Análise crítica da obra relacionada à Saúde Coletiva e ao tema do Congresso
O pensamento de Beatriz Nascimento (2021) é central nesta obra. Para essa historiadora e militante negra, o corpo negro é o próprio lugar de memória e resistência — território onde a ancestralidade afro-brasileira se ancora e a identidade quilombola se atualiza cotidianamente. Fotografar esses corpos com dignidade é, portanto, uma forma de cartografar territórios vivos de memória e de saúde.
Conceição Evaristo (2016) acrescenta a noção de escrevivência — uma inscrição do sujeito negro no mundo que parte da experiência coletiva e nega o silenciamento histórico. O ensaio fotográfico opera como escrevivência visual: cada retrato é uma afirmação de presença, uma recusa à invisibilidade que produz adoecimento psicossocial.
A colonialidade do ver (BARRIENDOS, 2011) afeta diretamente a saúde das populações quilombolas: a imposição de imagens depreciativas sobre corpos negros gera baixa autoestima e ruptura de vínculos identitários. Testemunhos de mulheres quilombolas do Piauí recolhidos durante a produção revelam o impacto transformador do retrato digno: "a gente se vê, e na medida que a gente se vê, a gente passa a se amar" (ISA, 2025). Esse movimento de ver-se é um movimento de cuidado — individual e coletivo.
O ensaio dialoga com o tema do 10º CSHS — Ambiente, Saúde e Interculturalidade — ao propor que a relação com o território quilombola é indissociável da relação com o próprio corpo e com a memória ancestral. Território, corpo e saúde formam uma tríade decolonial: cuidar do território é cuidar do corpo; afirmar a identidade é produzir saúde.
Formatos e suportes necessários referentes à apresentação
A obra será apresentada na modalidade Outras linguagens, com exibição de 10 fotografias em formato impresso (A3), acompanhadas de legendas com nome e território dos fotografados. A apresentação incluirá fala do autor sobre o processo de produção e trechos de diálogos com as comunidades. Projetor será utilizado se disponível.
Breve biografia do/a autor/a
Osmar de Oliveira Cardoso é professor da Universidade Federal do Piauí, mantém um grupo de pesquisa sobre saúde em territórios quilombolas, pesquisador de campo e fotógrafo social com atuação em territórios quilombolas e comunidades tradicionais do Piauí. Seu trabalho situa-se na fronteira entre a documentação fotográfica, a pesquisa qualitativa e o compromisso ético com as comunidades que retrata, com foco na valorização da identidade e da autoestima como dimensões da saúde integral.
GUINÉ – FESTIVAL ECLIPSE DE ARTE, SAÚDE E SABERES, UMA CONSTRUÇÃO COPARTICIPATIVA NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DO BOQUEIRÃO (BA)
Outras Linguagens
1 UdeA
2 UFBA
3
4 Warrick University
Processo de escolha do tema e de produção da obra
O Guiné – Festival de Arte, Saúde e Saberes da Terra nasceu do encontro entre uma equipe de pesquisadores e artistas do Projeto ECLIPSE e a Comunidade Quilombola do Boqueirão, que se localiza a 21 quilômetros do centro de Teolândia, no Baixo Sul da Bahia. O festival foi concebido não como evento isolado, mas como um processo criativo, formativo e afetivo: um caminho de aprendizagens. Ele se construiu a partir da ativação das tecnologias comunitárias em diálogo com linguagens artísticas, universidade, gestão pública e sistema de saúde.
A criação do festival teve como base a premissa de que a produção coletiva de belezas, a reativação de tradições adormecidas e a afirmação pública de uma cultura viva constituem, em si mesmas, estratégias de enfrentamento ao apagamento histórico e à marginalização que influenciam diretamente as condições de vida e saúde de comunidades negras campesinas no Brasil.
O nome Guiné foi escolhido pela própria comunidade e a sugestão partiu das tantas vezes em que a folha de guiné era mencionada como agente nos ritos de cuidado e cura. A guiné apontou a potência do festival de ser uma ponte entre os saberes dos avós e a urgência de curar o agora.
Objetivos
A concepção do festival foi pensada de forma integralmente coletiva. Houve diversas reuniões com lideranças, artistas locais e moradores e a curadoria foi construída a partir do que eles reconheciam como seus repertórios mais vivos, por isso o festival emergiu da criação e desejo partilhados de celebrar as práticas comunitárias existentes, além de conceber novas produções artísticas.
O Guiné operou como uma prática de pesquisa na intersecção entre arte e saúde, um dispositivo que, ao mobilizar saberes, corpos e expressões em diferentes linguagens artísticas da própria comunidade, produziu um conhecimento situado e contribuiu para o fortalecimento comunitário.
Ano e local da produção
O Festival aconteceu entre os dias 27 e 28 de abril de 2024, no Quilombo do Boqueirão (município de Teolândia) e reuniu moradores locais, parceiros de outros territórios e pesquisadores.
Análise crítica da obra relacionada à Saúde Coletiva e ao tema do Congresso
Ao integrar arte, política e saúde, o festival demonstrou que, em contextos rurais, o “cuidado integral” exige romper com a dicotomia entre biomedicina e saberes tradicionais. Ali, a gente não pretendeu tratar doença, mas sim, tratar a vida. E lançamos um convite a repensar a saúde como prática comunitária de reencantamento, onde dançar, plantar e reivindicar direitos são atos indissociáveis de existir.
O Guiné foi pautado em duas dimensões que se articulam mutuamente. A primeira diz respeito à criação e ao reforço de repertórios próprios, como o Samba do Boqueirão reativado conjuntamente e executado pelos artistas locais após quinze anos de ausência, as narrativas sobre ervas medicinais e parto natural partilhadas em oficinas conduzidas pela própria comunidade e as expressões artísticas que emergiram do processo das ações propostas pela equipe, o que coloca a comunidade como produtora de sentidos e narrativas a partir de si mesma, gerando a sua linguagem artística. A segunda dimensão é o protagonismo cultural como exercício de autonomia. A comunidade organizou, decidiu, executou e avaliou o festival junto à equipe ECLIPSE, em um processo que gerou formação de agentes culturais, ampliação das noções artísticas dos envolvidos e aprendizagem prática sobre como construir um evento abarcando seus múltiplos sentidos.
O festival foi, portanto, um importante processo formativo-cultural comunitário e os impactos materiais disso se traduzem em ações que o ultrapassam: após o Guiné, a comunidade se articulou para organizar outros eventos culturais de maneira independente; o Samba do Boqueirão passou a ser convidado para se apresentar em territórios vizinhos e houve um visível fortalecimento da organização política local.
O Guiné é resultado de um processo investigativo que contribuiu para a compreensão das condições de vida e saúde de uma população, evidenciando a importância de valorizar as artes como campo produtor de conhecimento dentro das Ciências Sociais e Humanas em Saúde. As humanidades já ocupam um lugar periférico na Saúde Coletiva, e as artes, dentro delas, são ainda mais frequentemente negligenciadas, assim, iniciativas como o Guiné apontam para a necessidade de reconhecer as produções artísticas como forma legítima de investigação e intervenção.
O processo foi marcado por revelações mútuas: enquanto a comunidade nos ensinava sobre ervas, sobre samba, sobre caruru, sobre devoção, sobre vizinhança, sobre comunidade, ela também redescobria sua própria maestria.
Formatos e suportes necessários referentes à apresentação
Na apresentação sobre o festival, compartilharemos o seguinte vídeo de cobertura do evento: https://youtu.be/clK2mFOTLlw
Breve biografia do/a autor/a
Raiça Bomfim é criadora, coordenadora de projetos, produtora e professora. É doutora e mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFBA.
VOZES NEGRAS NA AVALIAÇÃO DA POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE INTEGRAL DA POPULAÇÃO NEGRA PARA A GARANTIA DO ACESSO E DA EQUIDADE NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Outras Linguagens
1 Universidade Federal Fluminense
2 ENSP- Fiocruz
3 UFRJ
4 Pelo Mar produções
Processo de escolha do tema e de produção da obra
Este trabalho apresenta o vídeo “Vozes Negras”, concebido a partir da translação do conhecimento como estratégia política, pedagógica e estética no campo da Saúde Coletiva. A obra emerge dos achados da tese “Avaliação decolonial da implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra nos municípios do Rio de Janeiro e São Gonçalo”, desenvolvida no âmbito da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz).
A escolha do tema parte da compreensão dos limites das linguagens acadêmicas tradicionais na comunicação de pesquisas atravessadas por desigualdades raciais. Como estratégia de tradução do conhecimento, convidamos o Slam das Minas (coletivo do Rio de Janeiro) para realizar uma transposição poética dos principais achados da pesquisa. O processo de produção envolveu curadoria de conteúdos, seleção de trechos analíticos da tese e elaboração de roteiro em diálogo com a linguagem do slam, resultando em uma narrativa audiovisual que articula estética, crítica social e produção de evidências.
Objetivos
Ampliar as formas de comunicação do conhecimento em saúde, traduzindo achados de pesquisa sobre a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra por meio da linguagem audiovisual, e valorizar linguagens afro-diaspóricas como produtoras legítimas de saber no campo da Saúde Coletiva.
Ano e local da produção
O vídeo foi produzido em 2025, no estado do Rio de Janeiro, no contexto de pesquisa desenvolvida nos municípios do Rio de Janeiro e São Gonçalo. A captação audiovisual ocorreu no bairro de Madureira, território historicamente constituído por forte presença negra, cuja centralidade cultural e social tensiona leituras hegemônicas sobre cidade e produção de saúde.
Análise crítica da obra relacionada à Saúde Coletiva e ao tema do Congresso
A obra se insere nos debates sobre racismo, iniquidades em saúde e implementação de políticas públicas, a partir de uma perspectiva decolonial. Os achados da pesquisa que fundamenta o vídeo evidenciaram baixa e insuficiente implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra nos municípios analisados, mesmo em territórios com ampla presença de população negra, revelando tensões entre formulação normativa e materialização da política no cotidiano dos serviços de saúde.
Diante disso, a produção do vídeo emerge como estratégia de devolutiva e translação do conhecimento, reconhecendo que os resultados de uma pesquisa de natureza decolonial, construída com a participação de movimentos sociais, gestores, trabalhadores da saúde e usuários, não podem se restringir aos circuitos acadêmicos tradicionais. Ao mobilizar a linguagem do slam, a obra busca comunicar esses achados para além dos dados e da escrita científica, ampliando o diálogo com os territórios implicados na pesquisa.
A translação do conhecimento por meio de linguagem artística tensiona a hegemonia da racionalidade técnico-científica, incorporando dimensões afetivas, corporais e territoriais frequentemente excluídas dos formatos acadêmicos convencionais. Mais do que romper, a obra desafia os limites da ciência avaliativa, propondo outras formas de produzir, compartilhar e restituir conhecimento. Nesse processo, desloca o lugar de enunciação, reconhecendo a centralidade das vozes negras na produção de narrativas sobre saúde e contribuindo para práticas mais democráticas e plurais de circulação do conhecimento, em diálogo com os princípios da Saúde Coletiva.
Formatos e suportes necessários referentes à apresentação
Propõe-se a exibição do vídeo em versão editada, com duração de até 15 minutos, em formato digital. O material encontra-se disponível em plataforma de acesso livre https://www.youtube.com/watch?v=udaln5nlrj0
podendo ser reproduzido em projetor multimídia com áudio.
Breve biografia do/a autor/a
Renata Pedreira é doutora em Saúde Coletiva, pesquisadora e docente no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal Fluminense. Mantém filiação com o movimento social negro e atua como pesquisadora em estudos voltados à saúde da população negra e à avaliação de políticas públicas, a partir de uma perspectiva decolonial.
RAÍZES VIVAS E HORIZONTES ANCESTRAIS: A TERRA É O CORAÇÃO DO CORPO? NARRANDO CORPOS-TERRITÓRIOS E CUIDADO A PARTIR DO ENCONTRO EXPOGRÁFICO ENTRE CIÊNCIA E ARTE
Outras Linguagens
1 DESCOL/PGDR/UFRGS
2 grad. Artes visuais/UFRGS
3 grad. História/UFRGS
4 PPGCOL/UFRGS
5 PGDR/UFRGS
Processo de escolha do tema e de produção da obra
A exposição Raízes vivas e horizontes ancestrais teve por objetivo dar visibilidade às formas de existência de povos indígenas e quilombolas, que resistem às opressões da colonialidade do ser e do fazer por meio de seus corpos-territórios. Reuniu 8 acervos de pesquisadores do PGDR da UFRGS, articulados em atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão do projeto Deslocamentos: imagens como dispositivos para acessar corpos-territórios. Propôs reconectar com as raízes e questionar modelos de desenvolvimento que apagam saberes, criando um espaço onde afetar e ser afetado promoveu encontros e reflexões sobre tempos, territórios, pertencimentos, colonialidade, saúde e cuidado. A expografia apresentou os corpos como territórios vivos, carregados de memórias, feridas e sonhos, em perspectiva cosmogônica e política. As narrativas dos corpos-territórios dialogam com paisagens marcadas pela ação humana, tensionando relações entre natureza e sociedade, espaço e território, cuidado e saúde. Cada acervo foi analisado a partir do Potosí Reverso, de Silvia Cusicanqui, promovendo um giro epistemológico que subverte a linearidade histórica e questiona opressões. As imagens suscitam reflexões sobre ancestralidade, pertencimento, colonialidade na saúde, equidade e Direitos Humanos. Link catálogo: https://drive.google.com/file/d/1Gn0RujNNqqmuCXsL1ZhJebiZaD3bM30u/view?usp=share_link
Objetivos
A exposição integrou arte e ciência, propondo uma reflexão sobre tempo, espaço e lugar no mundo, guiada pela pergunta: a terra é o coração do corpo? Buscou visualizar mundos silenciados, mobilizar a imaginação e apresentar imagens como dispositivos político-pedagógicos antirracistas, capazes de abordar a complexidade das populações invisibilizadas. Também propôs compreender diferentes epistemologias e práticas em saúde, destacando as imagens como mediadoras de diálogos interepistêmicos e interculturais no Sistema Único de Saúde e na sociedade.
Ano e local da produção
Foi realizada de 19 de agosto a 31 de outubro de 2025, no Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Análise crítica da obra relacionada à Saúde Coletiva e ao tema do Congresso
Em um contexto em que fronteiras entre territórios físicos e simbólicos são tensionadas, as raízes tornam-se fundamentais para compreender identidades e vínculos com a terra, saberes e culturas. Os horizontes convidam à expansão de perspectivas e à construção de novas conexões. As relações entre indivíduos, territórios, passado e presente sustentam o tecido social, sendo as narrativas ancestrais, transmitidas oralmente ou por imagens, expressões de modos de viver e perceber o mundo. As crises ambientais são também crises de saúde, com impactos desigualmente distribuídos que atingem sobretudo populações com forte vínculo territorial, evidenciando o racismo ambiental. As imagens, nesse contexto, operam como dispositivos de deslocamento e reflexão, conectando gerações e ampliando compreensões coletivas. Essa relação entre passado e presente se expressa nas práticas de cuidado, que integram ambiente, cultura e saúde. O território, mais que espaço geográfico, é um espaço de significados, resistência e transformação, refletindo raízes e possibilidades de futuro. A perspectiva de Sankofa reforça a necessidade de olhar para o passado para construir futuros mais justos. Assim, as raízes materializam condições históricas, culturais e ambientais que moldam saúde, doença e cuidado. Sua ruptura, por deslocamentos, degradação ambiental ou negação cultural, produz vulnerabilidades. A noção de corpo-território, evocada pela pergunta central da exposição, constitui uma crítica à separação entre natureza e sociedade, evidenciando que cuidar do território é cuidar da saúde. As imagens e narrativas atuam como dispositivos de memória e resistência, fundamentais para a produção de sentidos sobre saúde, corpo e território na Saúde Coletiva, promovendo espaços interculturais e interepistêmicos. Ao articular raízes, territórios e horizontes, a exposição contribui para pensar a Saúde Coletiva no século XXI, indicando que a sustentabilidade exige transformações nas relações entre humanos, culturas e natureza. Propõe a superação da hegemonia biomédica, incorporando perspectivas interculturais; a revalorização dos saberes ancestrais como parte legítima dos sistemas de cuidado; o enfrentamento das iniquidades socioambientais, reconhecendo seus impactos na saúde; a construção da sustentabilidade a partir de práticas territorializadas e culturalmente situadas; e a reintegração do corpo, território e ambiente, rompendo dicotomias modernas. Nesse sentido, aponta para um caminho ético e político: reconectar passado, presente e futuro na construção de práticas de saúde mais justas, plurais e sustentáveis.
Formatos e suportes necessários referentes à apresentação
computador, multimídia e internet.
Breve biografia do/a autor/a
Professora Titular em Saúde Coletiva UFRGS. Pós-doutorado em Antropologia Visual em 2012, trabalho a relação imagens e conhecimento científico nos temas itinerários terapêuticos, iniquidades sociais e de saúde, interculturalidade, corpo-território a partir da decolonialidade.
Realização: