Programa - Comunicação Oral Curta - COC13.5 - Integralidade do cuidado, necessidades, diferenças e o agir dos profissionais da saúde
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
SAÚDE NA AMAZÔNIA LEGAL BRASILEIRA: DESAFIOS DA MOBILIDADE HUMANA, INTEGRALIDADE E REGIONALIZAÇÃO NA GESTÃO DO SUS
Comunicação Oral Curta
1 UEA
2 SES-AM
Apresentação/Introdução
O direito universal à saúde, assegurado pela Constituição Federal de 1988 e materializado no Sistema Único de Saúde (SUS), enfrenta desafios singulares na Amazônia Legal Brasileira. A vastidão territorial, a baixa densidade populacional e a diversidade sociocultural impõem barreiras concretas ao acesso e à continuidade do cuidado. A lógica urbana que orienta grande parte das políticas públicas invisibiliza modos de vida amazônicos, como os das comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas. Este estudo reflete sobre a gestão do cuidado e a regionalização da saúde no Amazonas, destacando as tensões entre universalidade, integralidade e as especificidades territoriais.
Objetivos
O trabalho busca analisar criticamente os desafios da gestão do SUS na Amazônia, considerando:
1. A mobilidade humana e suas implicações para o acesso aos serviços de saúde.
2. A integralidade do cuidado diante da rotatividade de profissionais e da ausência de protocolos adaptados.
3. A regionalização como estratégia de organização da rede de atenção, suas potencialidades e limites.
Metodologia
A pesquisa se fundamenta em revisão bibliográfica e documental, incluindo dados do Plano Estadual de Educação Permanente em Saúde (PEEPS-SES/AM 2020-2023), além da vivência de profissionais do SUS em áreas ribeirinhas e urbanas de Manaus. Foram analisados estudos recentes sobre mobilidade, integralidade e regionalização, articulando perspectivas das Ciências Sociais e Humanas em Saúde com relatos de experiências locais.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que a mobilidade humana na Amazônia é condicionada pela sazonalidade dos rios e pela precariedade do transporte fluvial, o que compromete a oportunidade do cuidado e a fixação de profissionais. A integralidade é fragilizada pela ausência de protocolos flexíveis e pela descontinuidade das ações, mas pode ser fortalecida pela valorização dos Agentes Comunitários de Saúde e pela formação contextualizada. A regionalização, embora estruturada em macrorregiões e regiões de saúde, enfrenta dificuldades operacionais, como a concentração de serviços especializados em Manaus e a fragilidade das redes assistenciais no interior. A classificação de áreas ribeirinhas como urbanas para fins de financiamento federal perpetua desigualdades e subdimensiona recursos.
Entretanto, o território amazônico não deve ser visto apenas como obstáculo. Sua singularidade abre espaço para inovações em modelos de cuidado, como as Unidades Básicas de Saúde Fluviais, que transformam os rios em vias de acesso à saúde. A diversidade sociocultural também é oportunidade para integrar saberes comunitários e práticas tradicionais ao SUS, ampliando a resolutividade e a legitimidade das políticas públicas. Assim, a Amazônia revela que a gestão do cuidado pode ser reinventada a partir das águas, das distâncias e dos modos de vida locais.
Conclusões/Considerações Finais
Repensar a gestão do cuidado na Amazônia é repensar o futuro do SUS. A integralidade e a universalidade só se concretizam quando se reconhecem os saberes comunitários, os vínculos duradouros e a pluralidade dos territórios. A regionalização é promissora, mas precisa ser acompanhada de financiamento equitativo, indicadores específicos e políticas que dialoguem com os modos de vida locais.
Mais do que um desafio, a Amazônia é uma oportunidade de inovação: ao exigir soluções criativas e intersetoriais, o território ensina que saúde é processo social, cultural e ecológico. A experiência das Unidades Básicas de Saúde Fluviais e das Equipes de Saúde da Família Fluviais mostra que o SUS pode se reinventar, desde que a gestão seja territorializada e intersetorial. Assim, a saúde na Amazônia deve ser pensada não como problema, mas como laboratório vivo de práticas inovadoras, reafirmando o compromisso com a integralidade e a equidade.
A POLISSEMIA DO CONCEITO DE NECESSIDADES DE SAÚDE COMO DESAFIO À INTEGRALIDADE NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE: UMA PERSPECTIVA DAS CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
Comunicação Oral Curta
1 FAMEMA
Apresentação/Introdução
A hegemonia da concepção biomédica de saúde, consolidada sobre o paradigma cartesiano, revela-se insuficiente para abarcar a complexidade inerente à vida humana, produzindo práticas assistenciais fragmentadas e centradas na patologia. No âmbito das Ciências Humanas e Sociais em Saúde (CHSS), o desafio para o Sistema Único de Saúde (SUS) reside na operacionalização de uma concepção ampliada da determinação social do processo saúde-doença via referencial de necessidades de saúde. Este conceito não é meramente técnico; constitui um dos pilares ético-políticos da Reforma Sanitária Brasileira, visando superar a lógica da queixa-conduta pelo reconhecimento do sujeito em sua totalidade histórica e social. Historicamente, a expansão desse conceito ganhou força após a Segunda Guerra Mundial e a Declaração de Alma-Ata em 1978. Todavia, a trajetória desse referencial no Brasil produziu uma acentuada polissemia interpretativa que, embora confira riqueza epistemológica ao campo, gera indefinição teórica na prática dos serviços. A discussão sobre necessidades é, fundamentalmente, uma reflexão sobre a condição humana e as estruturas de poder que definem o cuidado, tornando-se um tema de investigação mandatório para as ciências sociais na Saúde Coletiva.
Objetivos
O presente ensaio analisa a polissemia do conceito de necessidades de saúde como desafio epistemológico para as CHSS. Objetiva-se demonstrar como a imprecisão teórica obstaculiza a integralidade no SUS, ressaltando a importância vital da fundamentação sociológica e humana na estruturação das práticas assistenciais contemporâneas para garantir o direito à saúde e a dignidade dos sujeitos.
Metodologia
Trata-se de um ensaio teórico-conceitual reflexivo, fundamentado na análise da trajetória epistemológica do conceito de saúde na literatura brasileira. A investigação debruçou-se sobre a produção seminal da Saúde Coletiva, selecionando autores das vertentes socio-históricas, interacionais e taxonômicas. O processamento analítico identificou como a ausência de consenso impacta a percepção técnica sobre o sofrimento social. A premissa adotada é de que o conceito atua como mediador fundamental entre a subjetividade do usuário e a objetividade das instituições, exigindo o instrumental analítico das ciências sociais para sua compreensão multidimensional.
Resultados e Discussão
A análise demonstra que a polissemia do referencial reflete disputas de narrativas sobre modelos de sociedade e cuidado. Na visão socio-histórica de Stotz, as necessidades são determinadas por contextos políticos e econômicos, exigindo mediação para serem apreendidas na esfera individual, e o profissional deve atuar como um tradutor das carências sociais expressas no corpo. Já a abordagem de Campos e Bataiero foca na micropolítica do trabalho vivo, definindo necessidades como produto da interação dialógica entre demandas e respostas sistêmicas no encontro clínico. Cecílio, por sua vez, propõe uma cartografia estruturada em boas condições de vida, acesso a tecnologias, vínculos com a equipe de saúde e autonomia, e considera-se que esta cartografia é importante para as CHSS ao inserir a saúde no campo da cidadania. Entretanto, Freitas et al. alertam que a indefinição teórica permite a medicalização de demandas essencialmente sociais ou afetivas. Assim, sem a ocupação desse espaço pelas Ciências Humanas, o reducionismo biomédico reemerge, convertendo sofrimento em diagnóstico clínico e justiça em prescrição farmacológica. A importância das CHSS reside em resgatar a dimensão subjetiva contra a objetificação mecânica do corpo doente. A disputa pelo conceito é, portanto, política: define-se se o sistema responderá a carências biológicas ou a projetos de felicidade e inserção social. A ausência de clareza conceitual fragiliza a resistência ao paradigma curativista, tornando urgente a reafirmação da determinação social das necessidades de saúde no SUS.
Conclusões/Considerações Finais
A polissemia do conceito de necessidades de saúde permanece como desafio central para a Saúde Coletiva. A dicotomia entre teoria e prática é alimentada por essa indefinição, que muitas vezes desconsidera a autonomia do sujeito em favor de protocolos quantitativos. Reafirmar as necessidades como referencial que possui determinação social é indispensável para superar a medicalização da vida, produzindo o bem-viver. Somente este reconhecimento permitirá um SUS que responda à complexidade social, garantindo que seus princípios doutrinários estejam verdadeiramente vivos.
GESTÃO DO CUIDADO, GÊNERO E INTEGRALIDADE: EXPERIÊNCIAS DE MULHERES ACOMPANHANTES NA ONCOPEDIATRIA DO SUS
Comunicação Oral Curta
1 IMIP / FACULDADE PERNAMBUCANA DE SAÚDE
2 FACULDADE PERNAMBUCANA DE SAUDE
Apresentação/Introdução
O cuidado em saúde infantil, especialmente na oncopediatria, ultrapassa a dimensão biomédica e se configura como prática social, relacional e politicamente situada. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), a gestão do cuidado demanda o reconhecimento dos sujeitos que sustentam cotidianamente a assistência, suas identidades e as desigualdades que atravessam suas experiências.
Estudos feministas apontam que o cuidado familiar é majoritariamente realizado por mulheres, permanecendo invisibilizado como trabalho social indispensável à reprodução da vida (FEDERICI, 2019). Este estudo analisa as experiências de mulheres acompanhantes de crianças em tratamento oncológico em um hospital de referência do SUS, articulando cuidado, gênero e território.
Objetivos
Compreender como mulheres acompanhantes vivenciam o cuidado no contexto da oncopediatria e produzem sentidos sobre essa experiência, analisando suas implicações para a gestão do cuidado e para a integralidade no SUS.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, exploratória, fundamentada na epistemologia da subjetividade (REY, 2023). Foram realizadas entrevistas narrativas com quatro mães acompanhantes de crianças em tratamento oncológico em hospital público de referência. As narrativas foram analisadas por meio da Análise de Discurso de orientação francesa, permitindo identificar sentidos, formações discursivas e relações de poder que atravessam o cuidado. A definição das participantes ocorreu por indicação institucional, e a saturação dos sentidos orientou o número de entrevistas.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam o diagnóstico oncológico infantil como uma “fratura biográfica”, que reorganiza profundamente a vida familiar, produzindo rupturas, deslocamentos territoriais e redefinições identitárias. O cuidado materno emerge como eixo estruturante da experiência terapêutica, envolvendo não apenas atenção direta à criança, mas a gestão emocional, logística e institucional do tratamento.
As narrativas revelam sobrecarga física, emocional e econômica, intensificada por desigualdades territoriais, exigindo deslocamentos contínuos e reorganização da vida em múltiplos espaços. Observa-se ainda a centralidade de redes informais de apoio, especialmente entre mulheres, diante da fragilidade do suporte institucional e da ausência paterna recorrente.
A dimensão de gênero aparece de forma marcante, com a responsabilização quase exclusiva das mulheres pelo cuidado, naturalizada como obrigação moral. Como argumenta Tronto (2015), o cuidado constitui uma prática política fundamental à sustentação da vida coletiva, embora historicamente desvalorizada e relegada ao espaço privado. Nessa direção, a ética do cuidado, tal como formulada por Gilligan (2021), evidencia a centralidade das relações, da responsabilidade e da interdependência na experiência moral, tensionando modelos centrados na autonomia abstrata.
Os achados, portanto, evidenciam o cuidado como trabalho social não remunerado e estruturante do sistema de saúde, ao mesmo tempo em que tensionam a individualização das responsabilidades no SUS, indicando que o cuidado, embora vivido no plano singular, é sustentado por estruturas sociais desiguais.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo demonstra que o cuidado exercido por mulheres acompanhantes constitui um trabalho social essencial e invisibilizado nas políticas públicas de saúde. Reconhecer essas mulheres como sujeitas de direitos é condição fundamental para avançar na equidade, integralidade e continuidade da atenção no SUS.
Os resultados apontam para a necessidade de uma gestão do cuidado que incorpore dimensões interseccionais, de gênero, território e classe, e fortaleça redes institucionais e comunitárias de apoio. Ao deslocar o cuidado da esfera privada para o campo político, o estudo contribui para o debate na Saúde Coletiva, reforçando a importância de abordagens críticas e interdisciplinares na formulação de políticas públicas mais justas e inclusivas.
TRAJETÓRIAS ASSISTENCIAIS DE MULHERES COM CÂNCER DE MAMA NO SUS: CENTRALIDADE DO USUÁRIO, INTEGRALIDADE DO CUIDADO E DESAFIOS DA REDE DE ATENÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ)
Apresentação/Introdução
Este estudo emerge de inquietações produzidas na prática profissional no Sistema Único de Saúde (SUS), a partir de uma trajetória de 22 anos como enfermeira, com atuação na Atenção Primária e, atualmente, na Atenção Terciária, em hospital público do município do Rio de Janeiro habilitado como Unidade de Alta Complexidade Oncológica (UNACON). A experiência em distintos níveis assistenciais evidencia tensões entre a racionalidade normativa das políticas públicas e a produção concreta do cuidado, especialmente nas trajetórias assistenciais de mulheres com câncer de mama, marcadas por descontinuidades, temporalidades alargadas e múltiplos deslocamentos na rede. Tais trajetórias expressam desigualdades de acesso atravessadas por marcadores sociais como gênero, classe e território, tensionando a integralidade do cuidado no SUS e evidenciando limites na materialização do direito à saúde em contextos urbanos desiguais.
Objetivos
O estudo tem como objetivo analisar, à luz da produção científica, como se configuram essas trajetórias no município do Rio de Janeiro, considerando percursos, tempos de acesso ao diagnóstico e ao tratamento e estratégias mobilizadas pelas usuárias, à luz das desigualdades e dimensões interseccionais. Parte-se do entendimento de que o cuidado em saúde não se restringe à oferta institucional de serviços, sendo produzido nas interações entre sujeitos, práticas e saberes, em contextos marcados por relações de poder e por assimetrias sociais.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, vinculada a projeto de mestrado em desenvolvimento no Instituto de Medicina Social da UERJ (2026). A estratégia metodológica fundamenta-se em revisão bibliográfica e documental, articulada à revisão integrativa da literatura, com busca nas bases BVS, Oasisbr, PubMed, Scopus, Web of Science e SciELO, contemplando produções sobre trajetórias assistenciais, acesso ao cuidado e integralidade no contexto do câncer de mama, com critérios de inclusão baseados na pertinência temática e no recorte nacional. A análise orienta-se por abordagem crítica no campo da Saúde Coletiva, dialogando com perspectivas que articulam integralidade, produção do cuidado, micropolítica do trabalho em saúde e interseccionalidade, permitindo compreender o cuidado como prática social situada.
Resultados e Discussão
Os resultados iniciais evidenciam que as trajetórias assistenciais se estruturam sob fragmentação do cuidado, com múltiplos encaminhamentos, descontinuidades e intervalos prolongados entre a suspeita diagnóstica e o início do tratamento, revelando falhas na coordenação do cuidado e na integração entre os níveis assistenciais. Persistem entraves na regulação do acesso e na organização das redes de atenção à saúde, o que compromete a continuidade e a resolutividade do cuidado. Destaca-se a atuação das usuárias, que mobilizam estratégias próprias — formais e informais — para viabilizar o acesso, acionando redes sociais, institucionais e territoriais, evidenciando sua centralidade na produção do cuidado e, simultaneamente, as fragilidades do sistema em garantir acesso equânime. Essas trajetórias são atravessadas por desigualdades sociais, territoriais e de gênero, produzindo experiências distintas e frequentemente desiguais no acesso, no tempo de resposta do sistema e na qualidade do cuidado ofertado. No município do Rio de Janeiro, a concentração de serviços de alta complexidade intensifica fluxos assistenciais, sobrecarrega pontos da rede e explicita limites à regionalização e à equidade no acesso, reforçando dinâmicas excludentes e seletivas.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que, embora o SUS disponha de arcabouço normativo orientado pela integralidade, sua efetivação permanece como desafio diante de desigualdades estruturais que atravessam as trajetórias assistenciais e condicionam o acesso aos serviços. Evidencia-se a necessidade de fortalecer a coordenação do cuidado, a regulação assistencial e a integração em rede, bem como de incorporar as experiências das usuárias como elemento central na formulação, gestão e avaliação das políticas públicas. A análise reforça que o cuidado em saúde é uma prática ético-política, que exige enfrentar desigualdades de gênero, classe e território, evitando tanto a fragmentação das políticas quanto a invisibilização das diferenças e das necessidades específicas dos sujeitos. Ao articular trajetórias assistenciais, produção do cuidado e marcadores sociais, o estudo contribui para o debate crítico sobre gestão do cuidado e identidades no SUS, apontando caminhos para a construção de práticas mais equitativas, integrais e sensíveis às diversidades, em consonância com os princípios da Saúde Coletiva e os desafios contemporâneos do sistema, especialmente no enfrentamento das iniquidades em saúde, na promoção da justiça social e na garantia do direito universal à saúde, reafirmando o SUS como política pública essencial, comprometida com a equidade, a integralidade e o reconhecimento das diferenças no cuidado em saúde.
COBERTURA VACINAL INFANTIL NA REGIÃO NORTE: UMA ANÁLISE DOS DETERMINANTES SOCIAIS E AMBIENTAIS DA HESITAÇÃO VACINAL EM CONTEXTOS DE VULNERABILIDADE
Comunicação Oral Curta
1 UFAM
Apresentação/Introdução
A vacinação infantil é uma das estratégias mais eficazes na prevenção de doenças e na redução da mortalidade infantil, sendo fundamental para a saúde pública. No Brasil, apesar da robustez do Programa Nacional de Imunizações (PNI), observa-se queda nas coberturas vacinais, com maior impacto na Região Norte. Populações vulneráveis, como famílias em situação de pobreza, comunidades indígenas, ribeirinhas e áreas de difícil acesso, enfrentam determinantes sociais e ambientais que dificultam o acesso aos serviços de saúde. Nesse contexto, a hesitação vacinal configura-se como fenômeno multifatorial, influenciado não apenas por desinformação e baixa percepção de risco, mas também por condições estruturais e socioeconômicas. Analisar a cobertura vacinal infantil em contextos de vulnerabilidade na Região Norte é essencial para compreender essas iniquidades e subsidiar estratégias de fortalecimento das políticas de imunização.
Objetivos
Analisar a cobertura vacinal infantil em contextos de vulnerabilidade, à luz dos determinantes sociais e ambientais da saúde, buscando compreender como esses fatores influenciam a hesitação vacinal e contribuem para a persistência e reemergência de doenças imunopreveníveis na Região Norte.
Metodologia
Trata-se de uma revisão de literatura de caráter descritivo, realizada por meio de busca sistematizada nas bases PubMed, Google Acadêmico e SciELO. Foram utilizados descritores relacionados a “vacinação infantil”, “determinantes sociais”, “vulnerabilidade” e “hesitação vacinal”, combinados por operadores booleanos (AND e OR). Incluíram-se estudos em inglês, português e espanhol que abordassem a relação entre cobertura vacinal infantil e contextos sociais e ambientais de vulnerabilidade. Excluíram-se relatos de caso e estudos sem dados consistentes. A seleção ocorreu por leitura de títulos, resumos e textos completos. A análise foi conduzida à luz dos determinantes sociais e ambientais da saúde, com enfoque nas desigualdades territoriais.
Resultados e Discussão
Os dados analisados de 10 estudos publicados entre 2013 e 2026 mostram que, mesmo com um programa nacional robusto, a cobertura vacinal infantil na região Norte permanece desigual, refletindo o impacto das condições de vulnerabilidade. Barreiras estruturais, como longas distâncias até unidades de saúde, transporte limitado, horários restritos, falta de profissionais e distribuição desigual de serviços, dificultam o acesso físico às vacinas, especialmente para famílias em áreas rurais, comunidades indígenas e ribeirinhas. Determinantes sociais, incluindo baixa escolaridade parental, vulnerabilidade socioeconômica, moradias precárias e desemprego, associam-se fortemente à não adesão ao calendário vacinal. Além disso, fatores culturais e comportamentais, como desinformação, influência de redes sociais e percepção reduzida de risco, afetam de maneira diferenciada essas populações. Crianças de famílias mais vulneráveis são particularmente impactadas, pois o acesso limitado a informações confiáveis amplifica a hesitação vacinal. A interação entre barreiras estruturais, sociais e comportamentais resulta em menores índices de cobertura vacinal na Região Norte, frequentemente inferiores à meta de 95% preconizada pelo Ministério da Saúde, aumentando o risco de reemergência de doenças imunopreveníveis. Assim, estratégias baseadas apenas em informação ou conscientização são insuficientes. É necessário implementar ações que enfrentem barreiras estruturais e sociais, como longas distâncias até unidades de saúde, baixa escolaridade parental, vulnerabilidade socioeconômica e condições de moradia precárias, além de fortalecer a confiança das comunidades nos serviços de imunização e priorizar grupos populacionais mais vulneráveis, promovendo equidade e ampliando a efetividade do PNI na região Norte.
Conclusões/Considerações Finais
A hesitação vacinal infantil na Região Norte é um fenômeno complexo, profundamente influenciado por determinantes sociais e ambientais que afetam populações vulneráveis. Baixa escolaridade parental, vulnerabilidade socioeconômica, condições precárias de moradia, dificuldades de transporte e acesso limitado a serviços de saúde condicionam o acesso, a confiança e a adesão às vacinas. Reconhecer essas condições é essencial para desenvolver estratégias integradas que reduzam desigualdades, promovam equidade e fortaleçam a cobertura vacinal, garantindo proteção efetiva às crianças em contextos de maior vulnerabilidade e prevenindo a reemergência de doenças imunopreveníveis. Nesse contexto, a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas apresenta fragilidades na sua implementação, especialmente diante de limitações na gestão e na organização dos serviços de imunização nesses territórios. A baixa efetividade dessa política na ampliação da cobertura vacinal evidencia desafios na atuação dos gestores, relacionados ao planejamento, à alocação de recursos e à garantia de acesso equitativo às ações de vacinação.
DISCUTINDO A INTEGRALIDADE DO CUIDADO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE EM UM MUNICÍPIO DO ALTO VALE DO ITAJAÍ, SANTA CATARINA
Comunicação Oral Curta
1 UNIDAVI
Apresentação/Introdução
O cuidado integral da saúde mental constitui um dos principais desafios das políticas públicas contemporâneas. No contexto da Atenção Primária à Saúde, esse cuidado deve ser proposto em uma perspectiva integral, favorecendo a promoção da saúde a partir de uma escuta qualificada e do fortalecimento das redes intersetoriais e comunitárias. Nesse cenário, o(a) psicólogo(a) assume papel central, atuando de modo interdisciplinar e contribuindo para a integralidade do cuidado. A Atenção Primária à Saúde configura-se como porta de entrada preferencial do sistema de saúde e como espaço privilegiado para o desenvolvimento de ações de promoção, prevenção e cuidado em saúde mental, considerando o contexto municipal no qual esta pesquisa foi desenvolvida. Nesse contexto, o trabalho das equipes multiprofissionais torna-se fundamental para a construção de práticas que considerem a complexidade das demandas apresentadas pela população, exigindo articulação entre diferentes saberes e práticas no cotidiano dos serviços. Assim, discutir a integralidade do cuidado em saúde mental na atenção primária implica refletir sobre as condições de trabalho das equipes, os processos de cuidado construídos no território e os desafios enfrentados pelos profissionais na organização das práticas de saúde.
Objetivos
Analisar o manejo clínico da saúde mental no campo da Atenção Primária à Saúde em um município do Alto Vale do Itajaí, considerando o papel do(a) psicólogo(a).
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de entrevistas semiestruturadas com sete participantes e um grupo focal com sete participantes, todos profissionais atuantes na rede de atenção primária. Participaram do estudo profissionais de diferentes categorias das equipes de saúde, possibilitando uma compreensão ampliada acerca das percepções sobre o manejo das demandas de saúde mental no cotidiano dos serviços. A escolha pela abordagem qualitativa possibilitou acessar experiências, percepções e significados atribuídos pelos participantes às práticas de cuidado em saúde mental. A análise dos dados foi conduzida a partir da análise temática, permitindo a organização e interpretação dos relatos dos participantes.
Resultados e Discussão
A análise dos dados permitiu a construção de três temas centrais: integralidade do cuidado e do trabalho em saúde; saúde mental dos trabalhadores da atenção primária; e contexto municipal e organização da rede de cuidado.
No primeiro tema, observou-se que a integralidade do cuidado é construída a partir da articulação entre os profissionais das equipes e da organização do trabalho no território. O município conta com psicólogos inseridos nas unidades de saúde da atenção primária, ampliando as possibilidades de acolhimento das demandas relacionadas ao sofrimento psíquico. Os relatos indicam que o cuidado ocorre por meio de acolhimento, escuta qualificada, discussão compartilhada de casos e reuniões periódicas entre os psicólogos da rede, realizadas em um serviço especializado, espaço utilizado para troca de experiências e construção de estratégias de cuidado posteriormente mobilizadas nas unidades de saúde. O segundo tema evidenciou a percepção de sobrecarga entre os trabalhadores envolvidos no manejo das demandas de saúde mental. Os participantes relataram que muitas situações associadas ao sofrimento psíquico acabam sendo direcionadas principalmente aos profissionais da área, especialmente psicólogos, indicando fragilidades na corresponsabilização das equipes e concentração de demandas em determinados trabalhadores. No terceiro tema, relacionado ao contexto municipal e à organização da rede de cuidado, destaca-se que a pesquisa foi realizada em um município do Alto Vale do Itajaí com aproximadamente 26.525 habitantes. Os participantes apontaram limitações no acesso a serviços especializados, fazendo com que grande parte das demandas permaneça sob responsabilidade das equipes da atenção primária, enquanto a proximidade com a comunidade favorece a construção de vínculos e o acompanhamento das situações de sofrimento no território.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicaram que o município vem avançando na construção de práticas voltadas à integralidade do cuidado em saúde mental, embora persistam desafios relacionados à sobrecarga de trabalho, à escassez de recursos e à centralização das decisões clínicas. Conclui-se que o cuidado em saúde mental é sustentado pelo acolhimento, pela escuta e pela corresponsabilidade entre profissionais, mas também atravessado por fragilidades estruturais e emocionais. Nesse sentido, destaca-se a importância de fortalecer estratégias institucionais de apoio às equipes de saúde e ampliar a articulação entre os diferentes pontos da rede de atenção à saúde mental, favorecendo a consolidação de práticas de cuidado mais integrais no âmbito da atenção primária.
ITINERÁRIO ACADÊMICO EM MEDICINA E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE PROFISSIONAL: DESAFIOS PARA A GESTÃO DO CUIDADO NO SUS
Comunicação Oral Curta
1 ESPFOR/SMS FORTALEZA
2 UECE
3 SMS Fortaleza
4 UFC
5 SEDUC
Apresentação/Introdução
A formação médica é um espaço privilegiado de construção de identidades profissionais e de reprodução de práticas de cuidado em saúde. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), marcado pela defesa da integralidade, equidade e reconhecimento das diversidades sociais, compreender como se formam os médicos torna-se fundamental para a gestão do cuidado. Esta pesquisa analisa o itinerário acadêmico de estudantes de medicina, evidenciando como suas experiências formativas produzem sentidos e significados que impactam a constituição da identidade profissional e, consequentemente, as práticas de cuidado. Parte-se do pressuposto de que a formação médica ainda se estrutura sob forte influência do modelo biomédico, hospitalocêntrico e tecnicista, tensionando as demandas contemporâneas por um cuidado integral e sensível às dimensões sociais, culturais e identitárias dos sujeitos.
Objetivos
Investigar como a formação em medicina, mediada pelo currículo, pelas experiências acadêmicas e pelos itinerários pessoais, contribui para a construção da identidade profissional, analisando suas implicações para a gestão do cuidado no SUS.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, de inspiração fenomenológica, que buscou compreender os sentidos atribuídos pelos estudantes às suas vivências formativas. Foram realizadas entrevistas narrativas semiestruturadas com 16 acadêmicos de medicina de quatro instituições de ensino de Fortaleza (CE). O material foi submetido à análise de conteúdo temática, permitindo a identificação de categorias analíticas relacionadas ao itinerário formativo e à construção identitária.
Resultados e Discussão
Os achados evidenciam a centralidade do hospital como espaço hegemônico de formação, em detrimento de cenários como a Atenção Primária à Saúde, revelando um descompasso entre o modelo formativo e as necessidades do SUS. O chamado “currículo oculto” emerge como elemento estruturante da identidade profissional, transmitindo valores, hierarquias e práticas que reforçam a centralidade da doença, da tecnologia e da especialização precoce. As narrativas indicam cinco eixos principais: escolha pela medicina, vivências na graduação, sentidos atribuídos à formação, influências e expectativas sociais. Observa-se que a identidade médica é atravessada por pressões sociais, idealizações da profissão e experiências de sofrimento, como exaustão e ansiedade, relacionadas à sobrecarga e à ausência de orientação sobre carreira. Do ponto de vista das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, tais resultados revelam que a formação médica ainda reproduz um habitus profissional pouco alinhado às demandas de cuidado integral e à valorização das diferenças de classe, gênero e raça. Isso tensiona a gestão do cuidado no SUS, que exige práticas intersetoriais, reconhecimento das identidades e construção de vínculos. Assim, a formação contribui tanto para a reprodução de desigualdades quanto para a possibilidade de sua superação, a depender das experiências vivenciadas.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a construção da identidade profissional médica é um processo social complexo, atravessado por dimensões institucionais, culturais e subjetivas. A permanência de um modelo formativo centrado na doença e na tecnologia dificulta a consolidação de práticas de cuidado alinhadas à integralidade e à diversidade no SUS. Destaca-se a necessidade de fortalecer mudanças curriculares e pedagógicas que integrem ensino-serviço-comunidade, valorizem as dimensões sociais do cuidado e promovam a formação de profissionais comprometidos com a equidade e o reconhecimento das identidades. A pesquisa contribui para o debate sobre gestão do cuidado ao evidenciar que transformar práticas assistenciais requer, necessariamente, transformar os processos formativos e os modos de produzir subjetividades no campo da saúde.
ITINERÁRIOS TERAPÊUTICOS COMO PROPOSTA METODOLÓGICA NO CUIDADO DE PESSOAS COM OBESIDADE QUE PASSAM OU NÃO PELA CIRURGIA BARIÁTRICA E METABÓLICA
Comunicação Oral Curta
1 UERJ
Apresentação/Introdução
Segue em voga o caráter epidêmico da obesidade, com agravamentos. No Brasil, o tratamento de pessoas com obesidade ocorre via SUS, Saúde Suplementar (SS) ou ambos, incluindo cirurgia bariátrica, recomendável quando esgotadas outras abordagens. Apesar de marcos regulatórios, são diversos os percursos dos sujeitos que buscam por cuidado, passando pela cirurgia bariátrica e metabólica (CBM) ou não. Trajetórias que refletem limites institucionais e a complexidade do cuidado. Por outro lado, o Itinerário Terapêutico (IT) emerge como ferramenta teórico-metodológica destacando o sujeito como protagonista do seu cuidado, e permite o reconhecimento de deficiências estruturais nos sistemas de saúde, colaborando assim para avanços na realização da integralidade e na promoção da justiça epistêmica.
Objetivos
Apresentar o conceito de IT como ferramenta teórico metodológica, a partir de referenciais da Saúde Coletiva e Antropologia Médica, articulando com a produção da pós-graduação brasileira e a normativa da Linha de Cuidado.
Metodologia
A percepção sobre a fragmentação do cuidado na Atenção Primária à Saúde (APS), em viés multiprofissional, motivou pesquisa de doutorado sobre o cuidado de pessoas com obesidade, incluindo aquelas com CBM. Após a CBM, recomenda-se seguimento na Atenção Especializada por 18 meses com seguimento na APS, há lacunas sobre o estado de saúde em longo prazo e as estratégias de cuidado mobilizadas. A revisão, março/2026, na Plataforma Sucupira e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, sem recorte temporal. Além do IT, foram empregados: “Trajetória de Cuidado”, “Trajetória de Tratamento” e “Trajetória do Paciente” (plural e singular), associados a “obesidade” e “cirurgia bariátrica”. Foram identificados 69 estudos; aplicaram-se critérios de exclusão por título (49), duplicidade (1), indisponibilidade (4) e resumo (5), inclusão por conveniência (1). Foram analisados 13 trabalhos, 10 dissertações e 3 teses.
Resultados e Discussão
Observa-se, com frequência, o IT utilizado como categoria analítica, e não como eixo central. Em outros estudos, o IT emerge das narrativas, mesmo quando não pontuado como objetivo, evidenciando a complexidade da obesidade. As mulheres são maioria nos estudos. Apenas 5 trabalhos incluíram homens, ainda com predominância feminina. Tal cenário reflete inequidades de saúde e gênero. Os homens buscam menos os serviços, devido ao protótipo de masculinidade vigente, e as mulheres sofrem mais estigmatização. Sobre os serviços de saúde, usuários referem despreparo profissional, gerando afastamento do cuidado. Dietas e medicamentos se destacam entre as ofertas, seguidas por reganho de peso e responsabilização individual. Aspectos sociais e subjetivos, como influência familiar e uso da comida como recurso terapêutico, são relevantes. Grupos de pares se destacam como apoio, favorecendo continuidade do cuidado. Também a presença de profissional de referência e acompanhamento multiprofissional são valorizados. O acolhimento atua como fator protetivo, enquanto o desamparo associa-se ao agravamento. Em contrapartida, rotatividade de profissionais, fragilidade de vínculos e limitações estruturais evidenciam desafios do SUS na integralidade. Ainda, os estudos com pessoas pós-CBM focam períodos curtos, com pessoas acompanhadas na Atenção Especializada ou Secundária. O trabalho com maior tempo foi 5 anos pós-CBM, ainda na Atenção Secundária, e não APS, como recomendado. Exceto um trabalho, as instituições públicas foram os cenários. Considerando que a maioria das CBM ocorre na SS, ou com apoio desse setor, evidencia-se fragilidade na longitudinalidade do cuidado, já que a maioria da população utiliza exclusivamente o SUS.
Conclusões/Considerações Finais
Desde a definição da obesidade e a sua determinação como epidemia, a obesidade acomete majoritariamente mulheres. Tal ocorrido pode ser justificado a partir de diferenças biológicas, como os hormônios, como também é passível de ser interpretado, a partir de uma leitura social que considere as complexificações enfrentadas pelas mulheres, a obesidade surgindo como uma resposta as inequidades vivenciadas. Não obstante, se repete a maioria feminina entre o público que realiza CBM.
Portanto, o IT apesar de singular acaba por revelar elementos estruturais que colaboram para a consolidação da realização do acesso à saúde como um direito. Tangenciando as abordagens biomédicas o IT ilumina por meio da experiência dos sujeitos a valoração das tecnologias leves no cuidado, como o vínculo e o cuidado coletivo entre pares, e que as estratégias classicamente atreladas ao prisma biomédico, como dieta e medicações, são insuficientes para abordar um fenômeno tão complexo como a vivência de pessoas com obesidade. Ao mesmo tempo o IT direciona pontos insuficientes de cuidado, também emerge pontos que merecem investimentos assistenciais, como também por parte da gestão. Por outro lado, a revisão reforça a necessidade de maiores investimentos sobre a compreensão sobre o cuidado de pessoas com CBM a longo prazo.
(DES)CONSTRUÇÃO DA INTEGRALIDADE EM SAÚDE MENTAL: O SABER E O AGIR DOS PROFISSIONAIS DA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA
Comunicação Oral Curta
1 UECE
2 SMS - Fortaleza
3 SMS-Fortaleza
4 ESp-CE
Apresentação/Introdução
A reorientação das práticas de cuidado em saúde mental no Brasil é fruto de um processo histórico de transformação paradigmática impulsionado pelo Movimento Brasileiro de Reforma Psiquiátrica (MBRP). Este movimento visa substituir o modelo asilar por uma Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de base territorial, onde a Atenção Primária à Saúde (APS) assume papel estratégico como ordenadora do cuidado. Nesse cenário, a construção da integralidade constitui uma diretriz do SUS, materializando-se pela implementação de dispositivos reorientadores das práticas, que possibilitem a valorização do sujeito com centro processo de cuidar, reconhecendo sua subjetividade e suas necessidades de saúde. Todavia, a persistência de uma herança manicomial e o avanço de lógicas gerencialistas neoliberais impõem barreiras à consolidação do modelo de atenção psicossocial, por vezes, comprometendo a integralidade, a humanização, a resolubilidade, além de desconsiderar o território como espaço das intervenções psicossociais.
Objetivos
Compreender os saberes e os desafios à construção da integralidade do cuidado em saúde mental nos serviços de atenção primária à saúde do municipio de Fortaleza, Ceará.
Metodologia
Trata-se de pesquisa avaliativa, de natureza qualitativa e caráter multidimensional. O cenário do estudo foi o município de Fortaleza-CE, abrangendo 12 Unidades de Atenção Primária à Saúde (UAPS) distribuídas nas seis Secretarias Executivas Regionais de Saúde. Os participantes foram 15 profissionais das equipes de Estratégia Saúde da Família (ESF), representados por médicos e enfermeiros. A coleta de informações foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, além de observação de práticas de apoio matricial em saúde, por se considerar este um momento estratégico de organização das práticas de cuidado em rede na APT. A análise das informações foi empreendida com base nos pressupostos da hermenêutica-dialética, conforme proposto por Minayo (2025). Foram respeitados todos os requisitos éticos da pesquisa com seres humanos, com protoco aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará, sob nº 3.912.097.
Resultados e Discussão
No plano discursivo, os profissionais expressam uma compreensão da integralidade relacionada à produção do cuidado centrado na pessoa, considerando suas necessidades de saúde, além da articulação da rede de atenção à saúde (RAS), com vistas a garantir o acesso e a resolubilidade. Reconhecem o acolhimento, a escuta qualificada e o vínculo como dispositivos para a construção da integralidade. Não obstante, a materialidade das práticas denota uma fragmentação das práticas de cuidado e da própria RAS. Identificou-se que o acolhimento é frequentemente reduzido a uma burocracia tecnocrática ou a um ato administrativo assistencial, fenômeno aqui denominado como medicamentalização do sofrimento. Essa centralidade no saber médico e na prescrição química esvazia o potencial terapêutico da consulta e substitui o vínculo pela "cegueira clínica". Esta cegueira é agravada pela incomunicabilidade dos sistemas de informação e pela ausência de fluxos formais de contrarreferência, o que gera um movimento de "ping pong" do usuário entre a atenção primária e os centros de atenção psicossocial (CAPS), gerando desassistência.
Acresscnete-se que a gestão do trabalho emergiu como um nó crítico: a transferência da gestão para organizações sociais (OS) e a precarização dos vínculos laborais impõem uma lógica produtivista que prioriza o número de atendimentos em detrimento do trabalho comunitário e territorial. A rotatividade de profissionais gera ruptura de vínculos, elemento essencial para a clínica ampliada. Além disso, a ausência de um Apoio Matricial sistemático em certas áreas resulta em insegurança técnica das equipes, que passam a enxergar o sofrimento psíquico como algo "especializado", fomentando o encaminhamento excessivo aos CAPS e a sobrecarga do nível secundário. Paradoxalmente, o hospital psiquiátrico, embora formalmente fora da RAPS, ainda é referenciado como "solução" para casos graves, evidenciando o que a literatura chama de "saudosismo do manicômio". Em contrapartida, onde há apoio da gestão e espaços de educação permanente, observa-se a construção ativa de redes de suporte, demonstrando que a integralidade depende da capacidade de sustentar uma escuta porosa e de desatar os "nós" institucionais através da corresponsabilização.
Conclusões/Considerações Finais
A construção da integralidade do cuidado em saúde mental no âmbito da APS ainda se revela como um desafio, onde permanecem barreiras estruturais e organizacionais que limitam o agir das equipes de saúde da família. Parece necessário qualificar o acesso, além de ampliar a articular dos serviços que compõe a rede de atenção, estabalecendo fluxos efetivos e fortalecendo arranjos institucionais como o apoio matricial. É imperativo que a gestão do trabalho supere a precarização do vínculos profissionais, além do reducionismo biomédico e a lógica privatista de produção do cuidado.
INTEGRALIDADE DO CUIDADO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: PERCEPÇÕES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE, SOBRE A SAÚDE DOS POVOS DAS ÁGUAS
Comunicação Oral Curta
1 Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz Pernambuco (IAM/Fiocruz-PE)
Apresentação/Introdução
O cuidado em saúde, orientado pelo princípio da integralidade, é uma prática complexa e relacional que ultrapassa a dimensão técnico-assistencial. Portanto, a integralidade no SUS vai além da oferta de serviços, envolvendo uma compreensão ampliada do processo saúde-doença-cuidado e considerando dimensões subjetivas e socioculturais. Isso exige reconhecer o usuário em sua totalidade, com seus valores, crenças e contexto de vida, promovendo práticas mais humanizadas, intersetoriais e sensíveis às realidades locais.
Objetivos
O presente trabalho tem como objetivo, analisar as percepções dos profissionais da APS sobre a integralidade do cuidado para à saúde dos povos das águas, considerando sua articulação com a intersetorialidade
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, ancorada na determinação social da saúde, entendida, no campo da epidemiologia crítica, como ferramenta de superação do causalismo na relação saúde-doença, reconhecendo a saúde em um processo dialético da reprodução social nas dimensões geral, particular e singular, bem como a concepção da relação social-natureza-biológico(Breilh, 2013). O estudo foi realizado durante o processo formativo do Curso de Aperfeiçoamento para Profissionais de Saúde nos Territórios da Pesca Artesanal de Pernambuco, que ocorreu entre abril e dezembro de 2025. Participaram um total de 41 profissionais, que assinaram o TCLE, entre eles 27 profissionais da Estratégia de Saúde da Família, profissionais do CEREST, sendo 9, e da gestão estadual/municipal, totalizando 6. Os dados foram extraídos dos registros dos diários de campo e relatórios do curso supracitado. Foram utilizados os dados do primeiro encontro do curso, que aconteceu em 3 dias, onde realizamos/utilizamos várias metodologias ativas. Os participantes aprofundaram o (re)conhecimento sobre a Política Nacional de Saúde Integral dos Povos do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA), seus eixos e a integração de ações entre setores, propondo estratégias para melhoria e sua implementação. Esse processo ampliou a compreensão sobre os povos das águas, seus territórios bem como a partir de metodologias da estruturação da matriz de processo críticos (Breilh, 2013), foi possível analisar a complexidade do processo saúde-doença e identificar fatores de adoecimento e produção da saúde.
Resultados e Discussão
Possibilitou-se a identificação de demandas latentes no cotidiano dos profissionais da APS que atuam nesses territórios, bem como das dificuldades enfrentadas na oferta de um cuidado integral alinhado às necessidades locais. Isso ocorre mesmo quando os profissionais possuem conhecimento teórico sobre as especificidades dessa população. Para os profissionais de saúde, implica a superação do modelo biomédico tradicional e a adoção de práticas mais integradas, críticas e voltadas ao território. Isso significa reconhecer a determinação social da saúde, presentes nas situações de adoecimento, atuar em redes intersetoriais e desenvolver ações que articulem cuidado individual e intervenções coletivas. Dessa forma, a prática em saúde passa a contribuir não apenas para o tratamento de doenças, mas para a transformação das condições de vida e a redução das iniquidades sociais.
Conclusões/Considerações Finais
Diante desse cenário, torna-se essencial reforçar a necessidade de atualização da PNSIPCFA), instituída em 2014, assim como a importância de sua implementação descentralizada, territorializada e efetiva nos territórios contemplados pelos investimentos do Estado.
Realização: