Programa - Comunicação Oral - CO13.5 - Gênero, raça e cuidado no território: a centralidade das mulheres na saúde sexual e reprodutiva
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ACESSO E INTEGRALIDADE NA LINHA DE CUIDADO DO CÂNCER DO COLO DO ÚTERO EM TERRITÓRIOS RIBEIRINHOS AMAZÔNICOS
Comunicação Oral
1 ILMD/FIOCRUZ Amazônia
2 ILMD/FOOCRUZ Amazônia
Apresentação/Introdução
Áreas ribeirinhas da Amazônia configuram territórios marcados por barreiras geográficas, desigualdades estruturais e limitações na oferta de serviços de saúde, que impactam diretamente o acesso e a integralidade do cuidado. No contexto do câncer do colo do útero (CCU), tais desafios se intensificam, uma vez que o percurso assistencial depende de fluxos organizados entre diferentes níveis de atenção. Nesse cenário, torna-se fundamental compreender como se estrutura a linha de cuidado em territórios fluviais, considerando as especificidades da Atenção Primária itinerante e sua articulação com a rede especializada.
Objetivos
Analisar a organização da linha de cuidado do câncer do colo do útero em comunidades ribeirinhas do Amazonas, com ênfase na articulação entre a Unidade Básica de Saúde Fluvial, os serviços especializados e as instâncias de gestão, à luz das condições territoriais que influenciam o acesso e a continuidade do cuidado.
Metodologia
Trata-se de estudo de caso com método misto sequencial explanatório, realizado em comunidades da margem esquerda do Rio Negro (Manaus–Novo Airão/AM). A etapa quantitativa descreveu casos de CCU em mulheres de 25 a 64 anos a partir do Painel de Oncologia e do Sistema de Informação sobre Mortalidade (DATASUS), estimando intervalos entre diagnóstico e início do tratamento e a concentração territorial da oferta de serviços. A etapa qualitativa incluiu entrevistas com usuárias, profissionais da atenção básica fluvial, da média e alta complexidade e gestores municipais e estaduais, além de análise documental de Relatórios Anuais de Gestão (2019–2024) e observação sistemática em campo. Os dados qualitativos foram analisados por meio de análise temática.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que, embora as Unidades Básicas de Saúde Fluviais ampliem o acesso ao rastreamento e ao encaminhamento inicial, a continuidade do cuidado permanece fragilizada. Observam-se fluxos assistenciais desorganizados, dependência de mediações informais, entraves regulatórios, demora na realização de biópsias e ausência de contrarreferência. A centralização do tratamento em um único serviço oncológico e a desarticulação entre os diferentes níveis de atenção intensificam atrasos terapêuticos e expõem a fragilidade da coordenação do cuidado. Nesse contexto, as mulheres assumem, de forma solitária, a condução de suas trajetórias assistenciais, evidenciando a transferência da responsabilidade do sistema para o indivíduo e a persistência de iniquidades no acesso em territórios amazônicos.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que o enfrentamento do câncer do colo do útero em contextos ribeirinhos exige o fortalecimento da coordenação da rede de atenção à saúde, com implementação efetiva de mecanismos de referência e contrarreferência, regionalização do tratamento e ampliação do apoio logístico, incluindo transporte e suporte à permanência em centros especializados. Destaca-se a necessidade de uma gestão estável e territorialmente sensível, orientada à integralidade do cuidado, capaz de responder às especificidades dos territórios amazônicos e reduzir as desigualdades no acesso aos serviços de saúde.
BUSCA POR CUIDADOS EM MULHERES COM DIAGNÓSTICO DE CÂNCER DO COLO DO ÚTERO
Comunicação Oral
1 UFBA
Apresentação/Introdução
O câncer do colo do útero é uma doença potencialmente evitável por meio da vacinação contra o HPV, preferencialmente realizada antes do início da vida sexual, e pelos testes de rastreamento como o exame Papanicolau e o teste de DNA-HPV. Com o rastreamento adequado, é possível identificar lesões precursoras que, se tratadas precocemente, impedem a progressão para neoplasia maligna. Muitas mulheres só procuram atendimento após o surgimento de sintomas indicativos de alterações ginecológicas. Esse comportamento é comum e expressa concepções de cuidado à saúde pautadas na doença. Os aspectos culturais estão diretamente relacionados com a decisão para a realização ou não dos exames preventivos.
Objetivos
Identificar as práticas de cuidado em saúde e os desafios enfrentados por mulheres com diagnóstico de câncer de colo do útero.
Metodologia
Este é um recorte da pesquisa “Itinerários Terapêuticos de mulheres com diagnóstico de Câncer de Colo Uterino em um município de pequeno porte do Nordeste brasileiro”, fruto do Mestrado Profisisonal em Saúde da Família (Profsaúde). Trata-se de uma socping review seguindo as recomendações do Instituto Joanna Briggs e Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR). A produção dos dados ocorreu em maio de 2025. Para identificação dos estudos utilizou-se como estratégia de busca os termos e palavras-chave dos Descritores em Ciências da Saúde (DECS) e do Medical Subject Headings (MESH), combinados com os operadores booleanos AND e OR. Foram identificadas inicialmente 1510 artigos que foram analisadas com o auxílio do Intelligent Systematic Review (RAYYAN), seguindo as recomendações do PRISMA. Após exclusão das duplicatas e aplicados os critérios de inclusão selecionou-se para analise 06 publicações.
Resultados e Discussão
A análise da literatura sobre práticas de cuidado por mulheres com diagnóstico de câncer do colo do útero identificou que elas recorrem a distintas formas de cuidado. Essas práticas vão desde o atendimento biomédico moderno, como exames e tratamento oncológico, até o uso de estratégias alternativas, como a espiritualidade, o apoio familiar e os saberes populares. Os tipos de cuidados variam conforme o contexto cultural e as condições de acesso. Os estudos analisados foram realizados em diferentes países e demostraram que os desafios enfrentados pelas mulheres são influenciados pelos contextos locais, com destaque para a sobrecarga dos serviços públicos de saúde, estigma e desinformação quanto a doença.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados desta revisão evidenciam a importância de considerar as dimensões culturais, emocionais e espirituais no cuidado às mulheres com diagnóstico de câncer do colo do útero. Nesse sentido, é fundamental que os profissionais de saúde atuem de forma acolhedora, oferecendo escuta qualificada e respeitando as crenças e práticas de cuidado das usuárias.
GÊNERO E A VACINAÇÃO CONTRA O HPV: UMA ANÁLISE SOBRE A GESTÃO DO CUIDADO DE ADOLESCENTES NO SUS
Comunicação Oral
1 FCMSCSP
2
Apresentação/Introdução
A vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) no Sistema Único de Saúde (SUS) representa uma tecnologia biomédica central na prevenção de cânceres e outras doenças. Introduzida em 2014 com foco inicial em meninas e posteriormente ampliada para meninos em 2017, sua trajetória política e assistencial está profundamente imbricada em normas de gênero. A construção histórica da política reforça a medicalização do corpo feminino e, simultaneamente, distancia os meninos do cuidado em saúde sexual e reprodutiva. Este cenário impõe desafios à gestão do cuidado e à integralidade, uma vez que a hesitação vacinal e as baixas coberturas vêm sendo desenhadas também pelas formas como gênero e sexualidade orientam noções e decisões, e não somente pelo acesso à vacinação.
Objetivos
Analisar as relações de gênero, sexualidade e a aceitação ou hesitação em relação à vacina contra o HPV entre adolescentes, responsáveis e gestores escolares em São Paulo, buscando identificar como essas construções influenciam noções de cuidado em saúde e imunização.
Metodologia
A etapa qualitativa consistiu na realização de 16 grupos focais com adolescentes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, organizados por faixa etária e gênero, totalizando cerca de 128 participantes em quatro escolas públicas de São Paulo. Com duração média de 1h30, os GFs abordaram temas como conhecimentos sobre HPV e infecções sexualmente transmissíveis, percepções sobre vacinas, influências familiares, fontes de informação em saúde e o papel da escola na educação afetiva-sexual. Foram feitas entrevistas semiestruturadas com gestores escolares e responsáveis. Os GFs e entrevistas foram gravadas, transcritas e submetidas à análise de conteúdo.
Resultados e Discussão
Nos GFs indentificou-se que a responsabilização sobre cuidados tanto para prevenção de ISTs quanto para prevenção a gravidez, recaem para meninas desde muito cedo. Signos de masculinidade como afastador do cuidado em saúde e feminilidade como aproximação ao mesmo já são incorporados por adolescentes antes mesmo da iniciação na vida sexual e mesmo antes de um pleno conhecimento biológico sobre a reprodução humana. Adolescentes apresentam dúvidas diversas sobre a temática e fica evidente que a ausência de espaços de escuta e diálogo afeta os adolescentes escolares evidenciando a necessidade de ações de promoção sem saúde que oportunizem espaços que potencializem conhecimentos e decisões em saúde. A gestão escolar aponta que barreiras religiosas promovem a interdição ao debate sobre vacinação para o HPV por associá-la à atividade sexual, afetando de forma distinta meninos e meninas conforme os valores familiares. A maioria dos responsáveis entrevistados apresentam sólida crença em vacinas, mas muitos admitem que surgiram dúvidas principalmente durante a pandemia de SARS-COV2, motivadas por rumores. A maioria atrasa a vacinação dos filhos por esquecimento e não devido descrença nas vacinas. Apontam que a fiscalização da escola ajuda neste acompanhamento, como a apresentação de Declaração de Vacinação Atualizada (DVA). Os responsáveis consideram que escola e família têm papel na abordagem das temáticas de gênero e sexualidade e consideram que a maior cobertura vacinal em meninas tem sido uma reprodução da associação do cuidado ao feminino, o que, de forma abrangente, tem desprotegido a saúde dos adolescentes e reforçado assimetria de gênero.
Conclusões/Considerações Finais
A gestão da vacinação contra o HPV deve considerar como noções de gênero e sexualidade atravessam a promoção da integralidade moldando noções sobre corpo, cuidado e saúde e orientando tomadas de decisão. Assim, fortalecer a articulação entre educação e saúde parece oportuno para promover diálogos sensíveis ao contexto da adolescência, para abordar criticamente as temáticas de gênero e sexualidade,
possibilitando tomadas de decisão conscientes e protetivas à saúde e fortalecendo a integralidade.
GÊNERO, CUIDADO E ACESSO: BARREIRAS AO PLANEJAMENTO REPRODUTIVO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral
1 Universidade de Brasília- UnB
Apresentação/Introdução
O acesso ao planejamento reprodutivo constitui um elemento essencial da saúde pública e dos direitos humanos de mulheres e homens. Possibilita às pessoas em idade fértil exercerem uma vida sexual satisfatória e consciente sobre a regulação da fecundidade, o momento de sua vida reprodutiva e o próprio corpo, de maneira segura e informada¹. Apesar dos avanços na formulação e implementação de políticas públicas que indicam maior disponibilidade de métodos contraceptivos nos diversos sistemas de saúde, persistem barreiras de natureza estrutural, institucional, cultural e comunicacional que influenciam o acesso e a continuidade do uso dos serviços de saúde reprodutiva². Ademais, as relações de gênero assimétricas configuram um sistema de opressão que permeia as decisões reprodutivas femininas e sua autonomia de escolha³.
Objetivos
Mapear as barreiras de acesso aos serviços de planejamento reprodutivo percebidas por mulheres e por profissionais de saúde no contexto da Atenção Primária à Saúde.
Metodologia
Trata-se de uma revisão de escopo segundo o Joanna Briggs Institute, protocolada no OSF (DOI: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/FPE8Q), realizada em maio de 2025 nas bases PubMed, Web of Science, LILACS, EMBASE e Google Acadêmico, com descritores DeCS/MeSH. Foram incluídos estudos originais publicados entre 2015 e 2025, revisados por pares, sem restrição de idioma. Estudos sobre atenção de média e alta complexidade, contracepção pós-aborto, pré-natal, parto, infertilidade e IST foram excluídos. Foram recuperados 5.296 registros, restando 4.068 após a remoção de duplicatas. Depois da triagem do título e do resumo, 201 artigos foram considerados relevantes. Realizou busca reversa, identificando-se 19 estudos. Ao final, 40 artigos compuseram a revisão. Utilizou-se o IRaMuTeQ® para a análise de padrões lexicais.
Resultados e Discussão
Como achado relevante, identificou-se uma lacuna recorrente na caracterização das populações estudadas, caracterizada pela ausência de informações sobre etnia e raça, o que limita análises mais aprofundadas das desigualdades estruturais. Entre os termos de maior frequência destacaram-se “mulher”, “profissionais de saúde”, “planejamento familiar”, “métodos contraceptivos”, “acesso” e “barreira”. A centralidade da palavra “mulher” reafirma achados da literatura que exemplificam as relações de gênero que permeiam a experiência feminina na saúde reprodutiva, ao refletir a atribuição social da responsabilidade pela contracepção às mulheres. Embora o planejamento reprodutivo envolva decisões compartilhadas entre parceiros [casais?], os resultados sugerem que as interações com os serviços de saúde são predominantemente realizadas por mulheres, reforçando a feminização do cuidado contraceptivo4. Outro eixo importante refere-se à mediação institucional do acesso aos serviços. A presença recorrente de termos como “profissionais de saúde”, “serviços”, “unidades de saúde”, “atendimento”, “informações” e “aconselhamento” evidencia que o planejamento reprodutivo depende da qualidade das interações entre mulheres e profissionais de saúde. Nesse contexto, o acesso efetivo aos métodos contraceptivos não se restringe à disponibilidade de insumos, mas também envolve a oferta de informações adequadas, aconselhamento qualificado e práticas de cuidado centradas nas necessidades das usuárias5. A análise também revelou a presença de barreiras estruturais relacionadas à organização dos serviços de saúde, à disponibilidade limitada de métodos contraceptivos e às dificuldades de acesso às unidades de saúde. Barreiras socioculturais também foram identificadas, associadas às normas de gênero, à influência de parceiros e a valores culturais que podem limitar a autonomia das mulheres nas decisões reprodutivas. Além disso, foram observadas barreiras comunicacionais, caracterizadas por dificuldades na expressão das demandas das mulheres, medo de julgamento e lacunas na comunicação entre profissionais e mulheres durante o aconselhamento contraceptivo. Outro aspecto relevante refere-se às desigualdades de acesso entre diferentes grupos populacionais. A presença de termos como “adolescente”, “jovem”, “comunidade” e “refugiado” sugere que determinados segmentos sociais enfrentam obstáculos adicionais para acessar serviços de planejamento reprodutivo, o que evidencia a necessidade de estratégias de cuidado sensíveis às especificidades sociais e culturais desses grupos.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados desta revisão sinalizam para o fortalecimento de políticas e práticas de cuidado que ampliem a autonomia reprodutiva e promovam maior equidade no acesso aos métodos contraceptivos. Estratégias voltadas à qualificação do aconselhamento, à ampliação da oferta de métodos, ao fortalecimento da comunicação entre profissionais e usuárias e à redução das desigualdades sociais podem contribuir significativamente para a melhoria da qualidade da atenção no planejamento reprodutivo no âmbito da Atenção Primária à Saúde. O autor e a autora declaram não possuir conflito de interesses.
MATERNAGEM, REPRODUÇÃO SOCIAL E DESIGUALDADES DE GÊNERO E RAÇA NO TRABALHO DO CUIDADO NO SUS
Comunicação Oral
1 Universidade Católica de Santos
2 Universidade Federal de São Paulo - Campus Baixada Santista
3 Secretaria Estadual de Saúde - São Vicente.
Contextualização
Este estudo apresenta a experiência do PET-Saúde: Equidade, articulando ensino-serviço-comunidade para enfrentar desigualdades de gênero e raça no SUS, com foco na maternagem e no trabalho em saúde.
Descrição
Utiliza abordagem quanti-qualitativa para analisar necessidades dos trabalhadores, evidenciando sobrecarga na conciliação entre trabalho e vida familiar, fragilidade das redes de apoio e insuficiência de políticas institucionais.
Período de Realização
Desenvolvido entre 2024 e 2026, na 11ª edição do programa, envolve a UNIFESP, a Universidade Católica de Santos e a Secretaria Municipal de Saúde de Santos, no eixo Maternagem e Paternagem, em São Vicente (SP).
Objetivo
Discutir o trabalho do cuidado no SUS, com ênfase na maternagem, articulando a teoria da reprodução social à perspectiva da interseccionalidade para analisar como raça, gênero e posição hierárquica nas instituições estruturam desigualdades no trabalho em saúde, compreendendo a interseccionalidade como um constructo teórico-metodológico potente para interpretar essas dinâmicas.
Resultados
O cenário do PET-Saúde: Equidade evidencia o tensionamento entre a oferta de cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS) e a sustentabilidade da vida privada de suas trabalhadoras. A integração ensino-serviço-comunidade revela que, embora a valorização da força de trabalho ocupe lugar central na agenda do Ministério da Saúde, persistem barreiras estruturais ancoradas na crise da reprodução social. À luz da formulação teórica de Nancy Fraser, a crise do cuidado se expressa como uma crise estrutural, marcada pela falha sistêmica e pela exaustão das capacidades sociais de sustentar a vida, tanto na esfera pública quanto na privada.
Nesse contexto, a análise das experiências no PET-Saúde: Equidade identificou eixos centrais relacionados às necessidades de saúde dos trabalhadores do SUS. Os dados quantitativos indicam que 58,1% dos profissionais residem em São Vicente e 63,1% utilizam o SUS como principal forma de acesso à saúde. Evidencia-se significativa sobrecarga associada ao cuidado doméstico e familiar: 62,1% possuem dependentes, majoritariamente filhos (74,1%), e 18,1% se autodeclaram mães ou pais solo, revelando fragilidade das redes de apoio.
Os achados dialogam com evidências qualitativas que apontam dificuldades na conciliação entre trabalho e responsabilidades familiares, especialmente entre mulheres, reforçando a persistência da divisão sexual do trabalho. No SUS, majoritariamente feminino, o trabalho em saúde extrapola as dimensões técnico-assistenciais, incorporando trabalho afetivo e gestão emocional, frequentemente naturalizados como atributos femininos, ainda invisibilizados institucionalmente.
As condições de trabalho são marcadas por demandas intensas, jornadas extensas e vínculos precarizados, resultando em sobrecarga física e emocional. A maternagem e a paternagem são vivenciadas de forma desigual, com maior responsabilização das mulheres, agravada por marcadores de raça e classe. A ausência de políticas de suporte e a fragilidade das redes de apoio intensificam a sobrecarga.
Nesse cenário, o neoliberalismo reforça a responsabilização individual pela sustentação da vida, aprofundando a desproteção social. Como resultado, observa-se desgaste, adoecimento e comprometimento da qualidade do cuidado, evidenciando os limites das políticas públicas frente às desigualdades de gênero e raça.
Aprendizado e Análise Crítica
A análise dos resultados evidenciou as tensões entre trabalho produtivo e trabalho reprodutivo, contribuindo para ampliar o debate sobre a valorização das trabalhadoras do Sistema Único de Saúde (SUS). Tal discussão desloca-se de uma abordagem restrita às condições contratuais e salariais para uma compreensão ampliada das condições sociais que sustentam o cuidado. Nesse sentido, o reconhecimento institucional da maternagem e do trabalho reprodutivo implica repensar as políticas de gestão do trabalho em saúde, incorporando a reprodução social como dimensão constitutiva da organização do trabalho. Ademais, a perspectiva interseccional mostrou-se fundamental para compreender que as desigualdades não operam de forma isolada ou aditiva, mas estrutural, produzindo vulnerabilidades específicas, especialmente para mulheres negras em posições hierárquicas inferiores no sistema de saúde. Assim, políticas universalistas que desconsideram tais intersecções tendem a reproduzir desigualdades, reforçando a invisibilidade das distintas formas de sobrecarga que atravessam o trabalho do cuidado.
O CUIDADO NA SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA NA CENTRALIDADE DA MULHER: UMA REVISÃO INTEGRATIVA
Comunicação Oral
1 Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ)
2 Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS/RJ)
3 Programa de Residência de Enfermagem em Saúde da Família e Comunidade (PREFC/RJ)
Apresentação/Introdução
O planejamento reprodutivo tem emergido como tema central na agenda pública internacional, consolidando-se progressivamente como um direito fundamental. Ele nasce como um instrumento capitalista de controle populacional e a partir dos movimentos sociais, das conferências internacionais sobre população e mulheres, aproxima-se da perspectiva do direito (Menandro, 2022; Ventura, 2010). Embora esses direitos tenham sido reconhecidos como parte dos direitos humanos, algumas barreiras ainda podem surgir para sua efetivação, impactando diretamente na autonomia das mulheres e as práticas de cuidado a elas direcionadas. Nesse sentido, torna-se necessário que as políticas públicas destinadas à essa temática sejam fundamentadas nos princípios da humanização e da integralidade do cuidado, a fim de contribuir para o exercício de atitudes emancipatórias e centrada nas mulheres.
Objetivos
Sintetizar as principais barreiras e facilitadores para a efetivação do cuidado reprodutivo na centralidade da mulher, conforme apontado pelos estudos.
Metodologia
Tratou-se de uma Revisão Integrativa da Literatura, realizada nas bases Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS Plus); Scientific Electronic Library Online (SciELO); Portal Brasileiro de Publicações e Dados Científicos em Acesso Aberto (Oasisbr); Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) da CAPES; e Rede Sirius/UERJ, contemplando documentos publicados entre 2015 e 2025, em inglês e português. Após aplicação dos critérios de elegibilidade, 33 publicações foram selecionadas para análise de conteúdo à luz dos referencias teóricos.
Resultados e Discussão
Os resultados apontam que a cultura do patriarcado e a própria organização social podem influenciar as escolhas reprodutivas, atribuindo às mulheres a responsabilidade sobre a decisão de ter ou não filhos. A construção histórica da ginecologia e o desenvolvimento de políticas de regulação de fecundidade, articulados à biopolítica, revelam o papel dos Estados e das instituições na regulação e controle desses corpos (Foucault, 1999; Rodríguez, 2022). Na mesma direção, o desenvolvimento de tecnologias contraceptivas, reduz o corpo para sua dimensão biológica e os métodos contraceptivos passam a atuar como mecanismos de patologização dos eventos naturais que são exclusivos aos corpos femininos, demonstrando que as decisões reprodutivas são atravessadas por condicionantes simbólicos e morais (Gontijo, 2023). Nos serviços de saúde, essas dimensões morais e institucionais se entrelaçam, produzindo práticas que podem promover ou restringir a autonomia. A Atenção Primária à Saúde (APS) configura-se como um espaço estratégico para realizar desenvolvimento de ações educativas, coletivas e individuais, para orientar sobre os meios, métodos e técnicas de controle da fecundidade disponíveis. Nesse sentido, os grupos de planejamento reprodutivo podem favorecer o aumento do conhecimento sobre a temática, apoiar no exercício dos direitos sexuais e reprodutivos e reduzir as iniquidades de gênero (Gontijo, 2023). Entretanto, observa-se um distanciamento entre o que é preconizado pelas políticas públicas com o que é identificado nas práticas profissionais com o predomínio de ações centrada na lógica biomédica e fragmentada com foco das atividades é o controle da fecundidade e a medicalização das mulheres reforçando a dimensão prescritiva das práticas de cuidado (Gontijo, 2023; Paiva, 2015). Como forma de resistir aos modelos tradicionais, novas formas de práticas de cuidado relacionadas ao ambiente digital surgem como fonte de informação possibilitando a criação de novos grupos criativos de discussão e espaços de troca sobre a saúde sexual e reprodutiva (Leal; Bakker,2017; Rodríguez, 2022).
Conclusões/Considerações Finais
Com a análise, pudemos compreender que as práticas na saúde sexual e reprodutiva ainda permanece fundamentado por uma racionalidade biopolítica e hierarquizada de poder. Apesar dos avanços nas políticas públicas, a literatura revela o predomínio de ações centradas em abordagens biomédicas e normativas, que desconsideram a subjetividade das mulheres. Trata-se de mais uma lacuna que reduz a nossa capacidade de repensar o cuidado reprodutivo e suas múltiplas dimensões para reconhecer as mulheres na sua integralidade. Neste sentido, propomos retomar a perspectiva de justiça e autonomia reprodutiva no debate da gestão do cuidado, para considerar uma condição mais ampla que sustenta as múltiplas desigualdades e que sejam comprometidas com os princípios do SUS.
Realização: