Programa - Comunicação Oral - CO13.6 - Hesitação vacinal, PreP, rotas críticas mulheres LGBTQ+ na APS
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
IDENTIDADES POLÍTICAS E HESITAÇÃO VACINAL INFANTIL: A POLITIZAÇÃO DA VACINAÇÃO NO CONTEXTO PÓS-COVID-19
Comunicação Oral
1 USP
2 PUC/SP
Apresentação/Introdução
A vacinação constitui uma tecnologia em saúde que transcende o âmbito biomédico, articulando cuidado individual, políticas públicas e dinâmicas globais. No contexto da Covid-19, intensificaram-se disputas políticas, morais e epistemológicas em torno da vacinação, com destaque para hesitação vacinal infantil. Nesse cenário, identidades políticas se consolidaram como um marcador relacional e performativo frente à vacinação. Tais posicionamentos não se constituem de forma isolada, mas são produzidos no interior de disputas sociais e políticas amplas, que reconfiguram as formas de produção de confiança, autoridade e decisão em saúde.
Objetivos
Analisar como identidades políticas de pais e cuidadores atravessam as decisões sobre a vacinação infantil, influenciando a produção do cuidado, a construção de confiança nas instituições e as relações com as políticas públicas de imunização no SUS, em um contexto de polarização e reconfiguração das responsabilidades em saúde.
Metodologia
Pesquisa qualitativa baseada na realização de 12 grupos focais, conduzidos em novembro de 2025, com média de 9 participantes, incluindo pais e mães de crianças de até 6 anos na cidade de São Paulo e região. A amostra foi composta a partir de recorte interseccional, considerando estrato socioeconômico, escolaridade, raça/cor (autorreferida) e orientação política (votantes de Lula e Bolsonaro nas eleições de 2022). Os grupos abordaram experiências com vacinação, percepções de risco, fontes de informação, estratégias comunicacionais e avaliação da atuação estatal. O material empírico foi submetido à análise temática, orientada por categorias analíticas construídas a partir da literatura e dos dados, com apoio do software WebQDA para organização, codificação e sistematização das informações. A análise buscou identificar padrões discursivos, relações entre categorias e suas articulações com processos de polarização política, produção de confiança e decisões em saúde.
Resultados e Discussão
Resultados indicam diferenças entre os grupos, atravessadas por identidades políticas. Entre participantes que se declaram votantes de Jair Bolsonaro, observa-se uma afirmação inicial de confiança nas vacinas; contudo, ao longo da discussão, emergem elementos característicos da hesitação vacinal, como desconfianças quanto à rapidez do desenvolvimento, à origem dos imunizantes e aos possíveis efeitos adversos. Nesse grupo, identifica-se ainda uma percepção ambivalente em relação à atuação do então presidente, com divergências internas que incluem relatos de vacinação por obrigatoriedade e de não vacinação de crianças. Entre participantes que se declaram votantes de Lula, predomina a compreensão da vacinação como política eficaz condicionada à adesão coletiva. Embora haja relatos de medo no início da campanha, não foram identificadas declarações de recusa vacinal. Esses achados sugerem que identidades políticas operam como mediadoras das percepções de risco, confiança e responsabilidade, articulando-se à polarização e à reconfiguração das decisões em saúde no contexto pós-Covid-19.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados indicam que a hesitação vacinal infantil, no contexto pós-Covid-19, não pode ser compreendida apenas por fatores informacionais ou individuais, sendo atravessada por identidades políticas, polarização e transformações na produção de confiança em saúde. As decisões de pais e cuidadores são mediadas por disputas em torno da ciência, do Estado e da responsabilidade. Nesse cenário, a politização da vacinação reconfigura práticas e saberes em saúde, impondo desafios ao SUS, especialmente na construção de estratégias comunicacionais sensíveis às desigualdades sociais. Essas dinâmicas podem intensificar a fragmentação do cuidado ao deslocar a vacinação de política coletiva para escolha individual. O enfrentamento desse fenômeno requer abordagens ético-políticas e interseccionais que fortaleçam práticas de cuidado integradas e a continuidade da atenção no SUS.
ROTAS CRÍTICAS DE MULHERES CIS HETEROSSEXUAIS NO USO DA PREP: INVISIBILIDADE E PRÁTICAS DE CUIDADO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA EM MANAUS (AM)
Comunicação Oral
1 UEA - Universidade Estadual do Amazonas
2 Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
3 UFAM - Universidade Federal do Amazonas
Apresentação/Introdução
A Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP), incorporada ao Sistema Único de Saúde, ampliou as estratégias de prevenção ao HIV. No entanto, sua presença no cotidiano dos serviços não se distribui de forma homogênea entre os diferentes sujeitos. No Amazonas, mulheres cis representam cerca de 7% das pessoas em uso da PrEP, evidenciando desigualdades na incorporação dessa tecnologia.
Na Atenção Primária à Saúde, onde mulheres acessam o sistema por múltiplas demandas, a PrEP raramente se constitui como possibilidade de cuidado para esse público. Esse cenário suscita compreender como essa invisibilidade se produz no cotidiano, nas práticas assistenciais, nas relações e nos sentidos que orientam o reconhecimento ou não dessas mulheres como sujeitos da prevenção.
O estudo mobiliza o referencial das rotas críticas, a partir de um deslocamento conceitual que permite compreender os percursos construídos pelas mulheres no acesso, uso e descontinuidade da PrEP. Esse referencial opera como lente analítica para interpretar percursos, desvios e interrupções, bem como as percepções e sentidos atribuídos à tecnologia. Tais percursos resultam do entrelaçamento entre decisões e ações das mulheres e as respostas encontradas nos serviços e nas relações sociais, configurando trajetórias não lineares, marcadas por negociações e reconfigurações contínuas. Consideram-se, nesse processo, as relações afetivo-sexuais, os medos, as preocupações e os modos pelos quais o risco é vivido, negociado e significado no cotidiano.
Objetivos
Analisar as rotas críticas de mulheres cis heterossexuais no uso da PrEP no SUS, na cidade de Manaus, com foco nos modos pelos quais o uso dessa tecnologia se produz, se negocia e se interrompe nas relações, nas condições de vida e nas práticas de cuidado.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, de natureza interpretativa, inspirada na perspectiva de Clifford Geertz, desenvolvida em uma Unidade Básica de Saúde em Manaus (AM), tendo como interlocutoras mulheres cis heterossexuais em uso da PrEP.
A produção dos dados ocorre por meio de observação participante, diário de campo e entrevistas semiestruturadas, acompanhando o cotidiano do cuidado e as interações entre usuárias e trabalhadores.
A análise, orientada pelo referencial das rotas críticas, focaliza os percursos, negociações e interrupções no uso da PrEP, buscando interpretar os sentidos produzidos nas relações afetivo-sexuais, percepções de risco, moralidades e dinâmicas institucionais.
Os resultados são preliminares e derivam de campo em curso, iniciado em fevereiro de 2026, estando sujeitos a aprofundamentos analíticos ao longo do desenvolvimento da pesquisa.
Resultados e Discussão
No cotidiano do serviço, marcado por demandas múltiplas e por uma organização centrada em queixas imediatas, a prevenção ao HIV tende a não se constituir como parte do cuidado, aparecendo de forma pontual e frequentemente deslocada das práticas que orientam o atendimento.
Essa não incorporação não se expressa apenas como ausência de oferta, mas como efeito de processos discursivos, institucionais e morais que produzem diferencialmente o risco e os sujeitos da prevenção, associando o risco a determinados perfis e invisibilizando outras experiências que não são reconhecidas como passíveis de intervenção preventiva. Esses processos se materializam nas rotinas do serviço, como na não tematização do risco, na condução protocolar dos atendimentos e na ausência de acionamento da prevenção nas interações, configurando rotas críticas marcadas por restrições no reconhecimento da PrEP como cuidado.
Entre as mulheres em uso da PrEP, o início está relacionado a percepções de risco construídas nas relações afetivo-sexuais. A continuidade do uso, por sua vez, se modifica ao longo das rotas críticas, sendo influenciada por expectativas de fidelidade e confiança, inscritas em normas morais que regulam a legitimidade do uso da prevenção.
Os achados indicam que o uso da PrEP não se organiza de forma linear, mas por processos contínuos de negociação e ajustes ao longo das trajetórias. Observam-se, ainda, rotas críticas nas quais a PrEP sequer é nomeada como possibilidade de cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
As rotas críticas evidenciam que o uso da PrEP é produzido na articulação entre práticas institucionais, relações, moralidades e condições de vida. A invisibilização não decorre somente pela ausência da tecnologia, mas de processos que delimitam quem é reconhecido como sujeito da prevenção.
Esses achados tensionam a centralidade dos modelos biomédicos e indicam a necessidade de reconfiguração das práticas na Atenção Primária, incorporando as mulheres como sujeitos legítimos da prevenção.
SUPORTE SOCIAL DE PESSOAS LGBTQIA+ VIVENDO COM SARCOMA DE KAPOSI
Comunicação Oral
1 UFPA
2 USP
Apresentação/Introdução
A infecção pelo HIV é uma condição que historicamente foi associada a determinados grupos sociais, dentre os quais, as pessoas homossexuais. Atualmente, compreende-se que esta condição não é restrita a estes grupos, contudo nota-se a persistência da discriminação e estigmatização de pessoas vivendo com HIV, além da própria comunidade LGBTQIA+. O estigma é especialmente presente em estágios mais avançados da infecção, quando há o surgimento de doenças oportunistas. Dentre essas doenças, o sarcoma de Kaposi destaca-se como a neoplasia mais frequente, sendo caracterizado como um câncer de tecidos moles e ocasionado pela infecção do vírus herpes humano 8 e correlacionado com a imunossupressão gerada pelo HIV. Os efeitos da estigmatização podem abranger a redução do suporte social, seja no manejo de questões práticas cotidianas ou emocionais. Deste modo, é relevante investigar o papel das redes de suporte social, em especial das pessoas LGBTQIA+, diante de um adoecimento que ainda desperta estigmatização.
Objetivos
Este trabalho visou compreender a perspectiva de suporte social de pessoas LGBTQIA+ com o diagnóstico de sarcoma de Kaposi associado ao HIV.
Metodologia
Esta pesquisa teve uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório-descritivo, orientada pelo construcionismo social. A pesquisa foi realizada em um ambulatório de quimioterapia de um hospital universitário no município de Belém – Pará. Os participantes incluídos foram pacientes do serviço com idade igual ou superior a 18 anos, e máximo de 60 anos, com diagnóstico de HIV/aids e sarcoma de Kaposi, e estar em tratamento quimioterápico. Excluíram-se os participantes que tivessem algum comprometimento neurológico ou condição clínica que impossibilitasse a fala. Para produção dos dados, foram realizadas quatro entrevistas semiestruturadas que ocorreram ao longo dos meses de agosto a setembro de 2023. Participaram da pesquisa 4 pessoas, sendo 2 se autodeclararam pretas e 2 se declararam pardas. Todos se identificavam como pertencentes a comunidade LGBTQIA+, sendo 1 mulher trans heterossexual e 3 homens cis que se identificavam como homossexuais. A idade variou entre 26 e 55 anos. As entrevistas foram transcritas integralmente e submetidas a análise discursiva. Ressalta-se que esta pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética em Pesquisa, CAEE 69871223.4.0000.5634.
Resultados e Discussão
As narrativas indicaram que a principal rede de suporte social para todos foi a família. No entanto, o nível de envolvimento das pessoas das redes sociais dos participantes no tratamento foi baseado no grau e qualidade das informações compartilhadas sobre o diagnóstico. Em seus discursos, os participantes enfatizaram o compartilhamento diagnóstico de HIV e, especificamente, do diagnóstico de sarcoma de Kaposi, apenas para o núcleo familiar mais íntimo (companheiros, pais, amigos íntimos e, em um caso, uma tia materna). Nota-se que o compartilhamento com esse núcleo mais restrito carrega o sentido de busca por um suporte social instrumental, como apoio e acompanhamento para realização do tratamento quimioterápico, mas também emocional, relacionado com motivação para o seguimento da vida e tratamento. Ao passo que para a rede social ampla, o diagnóstico era nomeado como um câncer de pele ou um tipo de linfoma. A omissão dos diagnósticos, de sarcoma de Kaposi e HIV, é relacionada ao medo do preconceito, vergonha, além de uma preocupação de revitimização do preconceito contra a comunidade LGBTQIA+. Este fenômeno, revela o caráter estigmatizante do sarcoma de Kaposi e a manutenção da percepção de violências contra sexualidades dissidentes. Possivelmente, a comunicação mais restrita representa uma redução da rede de suporte social para além do núcleo familiar. Portanto, os sentidos construídos pelos participantes revelam que, embora o núcleo familiar seja importante, a rede de suporte social ampla permanece fragilizada, uma vez que o estigma associado ao HIV e a comunidade LGBTQIA+ impõem o silenciamento como estratégia de preservação da identidade social.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que o suporte social na díade diagnóstica do HIV e do sarcoma de Kaposi é marcado por uma seletividade estratégica de comunicação a fim de evitar o estigma da doença e a revitimização devido a preconceitos contra a comunidade LGBTQIA+. Nota-se que algumas pessoas da família desempenham o principal papel de suporte, seja instrumental ou emocional. Deste modo, políticas públicas, como campanhas de conscientização, organização dos serviços e atuação de profissionais devem ser voltar não apenas para redução da estigmatização do HIV e da aids, mas também do preconceito direcionado a pessoas LGBTQIA+.
A DEMANDA POR INSUMOS DE PREVENÇÃO COMO ESTRATÉGIA POLÍTICA PARA RECONHECIMENTO DOS CUIDADOS EM SAÚDE DE PESSOAS QUE MANTÊM PRÁTICAS SEXUAIS ENTRE VULVAS
Comunicação Oral
1 USP
Apresentação/Introdução
Embora existam marcos na atenção à saúde da população LGBTQIA+, como a Política Nacional de Saúde Integral (2013), pessoas com vulva que se relacionam sexualmente com outras pessoas com vulvas (PvSPv) permanecem em situação de vulnerabilidade quanto à exposição a Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e à baixa adesão a medidas preventivas. Em partes, isso se deve ao fato de que os métodos ou cuidados de prevenção disponíveis não são pensados para as práticas sexuais destas pessoas, consistindo em adaptações de estratégias já existentes ou materiais destinados a outras finalidades.
Entretanto, o desenvolvimento de um preservativo inclusivo, isoladamente, não é suficiente para enfrentar essas problemáticas. Portanto, é fundamental compreender as experiências, percepções e demandas destas pessoas por um método preventivo, suas identidades e as interações com outros aspectos sociais que compõem esta vulnerabilidade, bem como analisar o contexto cisheteronormativo que estrutura as práticas de cuidado em saúde, junto à formulação e execução de políticas públicas.
Objetivos
Investigar as percepções, experiências e demandas de pessoas com vulva que se relacionam sexualmente com outras pessoas com vulva em relação à sexualidade, à prevenção de ISTs e ao cuidado com a saúde sexual, com atenção às lacunas nos métodos preventivos existentes e às dificuldades de conciliar prevenção e prazer, avaliando a pertinência e a viabilidade do desenvolvimento de um preservativo específico.
Metodologia
A metodologia é composta por quatro etapas: 1) levantamento bibliográfico; 2) painel de especialistas com pesquisadoras, ativistas e profissionais de saúde historicamente dedicadas à pesquisas e intervenções voltados à prevenção de ISTs e HIV/Aids entre mulheres lésbicas; 3) aplicação de questionário online para o público estudado; 4) condução de grupos focais. As etapas 1 e 2 já foram realizadas, enquanto as etapas 3 e 4 estão em desenvolvimento.
Resultados e Discussão
A partir do levantamento bibliográfico, observamos a persistência de desinformação acerca das formas de transmissão de ISTs e a crença equivocada de que relações sexuais entre pessoas com vulva não implicam risco de infecções. Estas lacunas informacionais estão articuladas a processos mais amplos de invisibilização do grupo nos serviços de saúde, inclusive no Sistema Único de Saúde (SUS), o que se traduz em falhas no acolhimento, na escuta qualificada e na oferta de orientações ou métodos preventivos.
O debate empreendido no painel de especialistas permitiu compreender que, em um contexto marcado por perspectivas biomédicas dos processos saúde-doença-cuidado, PvSPv referem a demanda por insumos para prevenção como estratégia política de reconhecimento da legitimidade de seus cuidados em saúde.
Cabe destacar que PvSPv não constituem uma categoria identitária, mas um grupo com práticas sexuais e demandas de saúde em comum, diversificado entre identidades de gênero e orientações sexuais. Evidenciamos as dimensões subjetivas e socioculturais expressas em saberes, significados, estigmas e mitos que estruturam suas percepções sobre a prevenção de ISTs.
Desta forma, a invisibilização desses segmentos populacionais configura-se como um desafio central na garantia de seu cuidado, na medida em que contribui para o aumento da vulnerabilidade frente às ISTs e a outros agravos de saúde, refletindo a negligência nas políticas públicas de saúde para além da ausência de insumos específicos.
Conclusões/Considerações Finais
As complexidades envolvidas na temática indicam que respostas isoladas são insuficientes, sendo cruciais articulações sistemáticas entre ações educativas, qualificação profissional e fortalecimento das políticas públicas. Com base nos princípios do SUS – universalidade, integralidade e equidade –, destaca-se a necessidade de uma abordagem mais consistente e fundamentada, que promova a compreensão, a visibilização e o reconhecimento das diversas experiências de PvSPv, sejam mulheres lésbicas, bissexuais, homens trans, pessoas transmasculinas e outras categorias contempladas, atravessadas por distintos marcadores sociais, em sua diversidade de corpos, experiências e percepções. Tal iniciativa representa um passo essencial para a promoção da saúde sexual, do prazer e da equidade de gênero e sexualidade, contribuindo para a superação da fragmentação do direito à saúde, orientada pelo reconhecimento da diversidade de corpos, gênero, orientação e práticas sexuais.
É PRECISO SE ORGANIZAR: SAÚDE MENTAL, RAÇA E REGIMES DE INTERDIÇÃO DA MATERNIDADE DE MULHERES “LOUCAS”.
Comunicação Oral
1 IMS/UERJ
Apresentação/Introdução
O presente trabalho decorre de uma pesquisa de mestrado que buscou compreender de que modo os diagnósticos psiquiátricos impactam a possibilidade de mulheres usuárias da saúde mental exercerem a maternidade. A investigação tomou como base narrativas de profissionais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) sobre mulheres usuárias de saúde mental que tiveram seus filhos institucionalizados e/ou foram destituídas do poder familiar. A pesquisa situa-se no campo da justiça reprodutiva e integra os produtos da Rede Transnacional de Pesquisas sobre Maternidades Destituídas, Violadas e Violentadas (REMA), cuja problemática central envolve os direitos sexuais e reprodutivos, com atenção às desigualdades de classe e raça. A rede se dedica a pesquisas empíricas que refletem sobre as violências praticadas contra mulheres em suas distintas experiências de maternidade, sejam sociais ou biológicas. Considerando que a pesquisa se insere no campo da saúde mental no Brasil, a Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB) foi fundamental para a reconfiguração do estatuto social de pessoas com diagnósticos psiquiátricos. No entanto, embora haja dados que indiquem que a população negra foi a principal vítima de violências em espaços manicomiais, as relações raciais ainda são pouco debatidas no âmbito da reforma psiquiátrica brasileira (Passos, 2018; Lima, 2019; David, 2024). Nesse sentido, o trabalho buscou evidenciar como práticas manicoloniais (David, 2024) persistem mesmo em serviços substitutivos aos manicômios, especialmente no caso de mulheres negras que tiveram seus filhos afastados por determinação legal. Isso revela como práticas de (des)cuidado operam como mecanismos de controle sobre suas experiências maternas.
Objetivos
O objetivo foi analisar como profissionais produzem (i)legitimidades da maternidade de mulheres usuárias da saúde mental, com ênfase nas interseccionalidades entre diagnóstico, raça, classe e território na deslegitimação materna e na possível Destituição do Poder Familiar (DPF).
Metodologia
O material empírico foi construído a partir de minha inserção prolongada em serviços que compõem a RAPS de um município do interior do Rio de Janeiro, articulando trajetória profissional, observação dos cotidianos institucionais e entrevistas com trabalhadoras da rede que aconteceram no segundo semestre do ano de 2024.
Resultados e Discussão
Uma narrativa comum sobre as mulheres negras que tiveram suas maternidades destituídas era que a desorganização era um causador dessas separações. A “desordem” aparecia como critério central na classificação dessas maternidades. Ao longo do trabalho de campo, tornou-se evidente que a oposição “organização/desorganização” ultrapassa uma avaliação estritamente individual, inscrevendo-se em um campo coletivo de expectativas sociais e morais sobre o que é ser mãe e mulher. No caso das mulheres usuárias da saúde mental, essa categoria assume múltiplos sentidos, oscilando entre estabilidade emocional e psíquica, gestão financeira e até regulação da sexualidade. Trata-se, portanto, de uma categoria relacional que funciona como um parâmetro para avaliar como essas mulheres lidam com as vulnerabilidades que atravessam suas vidas.
Em síntese, os resultados demonstram que a noção de “organização” mobiliza regimes morais que funcionam como padrões privilegiados de julgamento, orientando práticas institucionais e decisões no âmbito da governança reprodutiva (Morgan; Roberts, 2012). Esses regimes não apenas prescrevem o que é moralmente aceitável na maternidade, mas também legitimam determinadas intervenções estatais, ao mesmo tempo em que deslegitimam outras. Nesse contexto, o corpo assume centralidade como signo moral e político. Conforme Douglas (2010), os sistemas classificatórios de higiene não são neutros, eles organizam a sociedade e definem o que é aceitável ou perigoso. Assim, a categoria “organizada”, presente nas narrativas das profissionais, opera como uma ferramenta de controle social destas maternidades. Limpeza e “organização” não são apenas aspectos práticos, mas categorias que regulam processos de inclusão e exclusão. Observa-se, desse modo, a produção de formas de controle reprodutivo que atravessam o cotidiano dos serviços, mesmo quando estes se apresentam como espaços de cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Os dados etnográficos deste trabalho colaboram com um debate mais amplo sobre a reprodução de desigualdades interseccionais no Sistema Único de Saúde (SUS) e permitem reflexões sobre a separação compulsória e a institucionalização de crianças negras. A pesquisa destaca como se produzem e se mantêm hierarquias reprodutivas racializadas (Matar; Diniz, 2012), demonstrando a reprodução de desigualdades nas políticas de saúde mental, que se manifestam de forma simbólica, na moralização de suas maternidades, e pelo acesso diferencial a tecnologias de cuidado, pela interdição dos corpos e das maternidades dessas mulheres, através do afastamento e institucionalização de seus filhos.
VULNERABILIDADE E INVISIBILIDADE DE MULHERES QUE FAZEM SEXO COM MULHERES NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE NO CONTEXTO DO HIV/AIDS
Comunicação Oral
1 USP
Apresentação/Introdução
As práticas de prevenção ao HIV e à Aids foram historicamente marcadas pelos conceitos de “grupos de risco” e “comportamentos de risco”, contribuindo, respectivamente, para a estigmatização de determinados grupos e a responsabilização e culpabilização de indivíduos. Embora o Brasil possua políticas públicas de combate à epidemia reconhecidas internacionalmente (UNAIDS, 2016), mulheres que fazem sexo com mulheres (MSM) têm suas práticas afetivo-sexuais marginalizadas e invisibilizadas nos dados epidemiológicos, nas políticas públicas e nas práticas clínicas, traduzidas na ausência de protocolos específicos, escassez de materiais e métodos de prevenção, e na negligência médica em relação à solicitação de exames e orientações de cuidados (Lima e Saldanha, 2020; Facchini e Barbosa, 2006). Essas lacunas são expressões de uma lógica heteronormativa que estrutura o cuidado em saúde (Facchini, 2005). Nesse contexto, o conceito de vulnerabilidade (Ayres et al., 2003) amplia a compreensão dos processos saúde-doença-cuidado, incorporando as dimensões individuais, sociais e programáticas na garantia de acesso aos serviços de saúde. Assim, este estudo parte da problematização das ausências produzidas e produtoras de invisibilidade de MSM, buscando compreender como se constroem — ou se desfazem — as possibilidades de cuidado, promoção e prevenção em relação ao HIV/Aids.
Objetivos
O estudo tem como objetivo analisar como mulheres cisgênero que fazem sexo com mulheres cisgênero são representadas, ou não, nos discursos institucionais e na produção acadêmica sobre HIV/Aids.
Metodologia
Neste estudo foram identificados documentos relevantes de políticas em saúde, relacionados ao HIV e a Aids, e dossiês que abordam o tema, além de produções acadêmicas que versam sobre vulnerabilidade e saúde sexual e reprodutiva. Os materiais incluíram boletins epidemiológicos sobre HIV/Aids, a ficha de notificação do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), materiais institucionais voltados à saúde e às políticas públicas para a população LGBTQIAPN+, além de dossiês específicos sobre a saúde de mulheres lésbicas e bissexuais. A análise fundamentou-se em articulação entre o referencial teórico, com ênfase no conceito de vulnerabilidade, e os conteúdos presentes nos materiais. Buscou identificar assimetrias, lacunas e formas de invisibilização na produção institucional sobre HIV/Aids, bem como compreender os efeitos desses discursos na construção das noções de risco e cuidado em saúde.
Resultados e Discussão
A literatura aponta que práticas em saúde frequentemente são orientadas por uma lógica heteronormativa, reduzindo a sexualidade de mulheres à reprodução, resultando em práticas que vulnerabilizam MSM. Além disso, a análise dos materiais institucionais evidenciou a ausência de campos relativos à autodeclaração da orientação sexual e identidade de gênero na ficha de notificação e investigação de Aids e no boletim epidemiológico sobre HIV/Aids, em contraste com outros dispositivos, como a ficha de notificação de violência interpessoal/autoprovocada, que contempla tais marcadores. Essa lacuna pode ser compreendida como uma tentativa de evitar a estigmatização de grupos populacionais, no entanto, produz efeitos significativos na produção de dados epidemiológicos, comprometendo a identificação de vulnerabilidades específicas.
A presunção da heterossexualidade em mulheres, decorrente do viés heteronormativo nas condutas dos profissionais, pode resultar em subnotificação de práticas sexuais entre mulheres, impactando diretamente a formulação de políticas públicas e estratégias de prevenção mais adequadas. Tal lacuna produz um efeito de invisibilização que não indica ausência de risco, mas sim ausência de registro e reconhecimento. Estes elementos evidenciam que a vulnerabilidade das MSM ao HIV/Aids é ocasionada não apenas por fatores individuais, mas por processos sociais e programáticos que limitam o acesso à informação, ao cuidado e ao reconhecimento.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a invisibilidade das mulheres que fazem sexo com mulheres no campo da saúde constitui um elemento central na produção de vulnerabilidades relacionadas ao HIV/Aids. A ausência de dados, a negligência nas práticas clínicas e a limitação das políticas públicas configuram um cenário que compromete o acesso ao cuidado integral. O estudo contribui ao evidenciar que essas ausências não são acidentais, mas resultam de processos históricos e sociais atravessados por normas de gênero e sexualidade. Dessa forma, os achados apresentados apontam a necessidade de continuidade do estudo, por meio da realização de um levantamento sistemático que possibilite aprofundar e confirmar as percepções iniciais.
Realização: