Programa - Comunicação Oral Curta - COC28.1 - Agravos à Saúde Relacionados ao Trabalho
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
AÇÕES DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE MENTAL RELACIONADAS AO TRABALHO NA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE DO AMAZONAS: RELATO DE EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 UEA
Contextualização
A vigilância em saúde do trabalhador é campo estratégico para a promoção da saúde da população trabalhadora. No Amazonas, observa-se subnotificação dos Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho (TMRT), associada à dificuldade dos profissionais em reconhecer a relação entre sofrimento psíquico e trabalho e à insuficiência de capacitação técnica para o registro adequado nesses sistemas de informação.
Descrição
Relato de experiência vinculado ao projeto de extensão “Ações de Vigilância em Saúde Mental Relacionada ao Trabalho na Rede de Atenção em Saúde do Amazonas”, desenvolvido por meio de metodologia de pesquisa-ação, com participação de docentes e discentes dos cursos de Medicina e Enfermagem da Universidade do Estado do Amazonas, voluntários do CEREST e profissionais da rede pública de saúde. Destaca-se que este relato integra o projeto PNVS Comunidade, no âmbito das ações da Política Nacional de Vigilância em Saúde, com apoio da UEA e da FVS.As atividades foram estruturadas em três etapas: encontro virtual de sensibilização sobre a relação entre trabalho e sofrimento psíquico; oficinas pedagógicas, realizadas de forma virtual e presencial, para capacitação no preenchimento da ficha de notificação de TMRT; e avaliação por meio da escuta dos participantes. Para favorecer o engajamento, foram utilizadas ferramentas interativas, como Kahoot e Mentimeter.As oficinas presenciais ocorreram nos municípios de Iranduba, Manacapuru, Presidente Figueiredo e Rio Preto da Eva. Considerando a ampla extensão territorial do estado do Amazonas, as atividades foram organizadas por polos regionais, possibilitando a abrangência de nove regiões de saúde.
Período de Realização
De Fevereiro de 2024 a fevereiro de 2025.
Objetivo
Descrever a experiência de capacitação de profissionais da rede pública de saúde do Amazonas para o reconhecimento, manejo e notificação dos TMRT, no âmbito das ações da Política Nacional de Vigilância em Saúde (PNVS).
Resultados
Houve elevada adesão dos municípios, tanto nas modalidades online quanto presencial. Antes das ações, identificou-se que grande parte dos profissionais desconhecia a relação entre saúde mental e trabalho e apresentava dificuldades no preenchimento da ficha de notificação. As dúvidas mais recorrentes foram: como estabelecer a relação entre adoecimento psíquico e trabalho; quais situações notificar; como preencher campos específicos da ficha; e os fluxos de encaminhamento pós-notificação. Após as capacitações, observou-se ampliação do conhecimento sobre os TMRT e maior compreensão da importância da notificação para a qualificação dos dados em saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
apenas lacunas técnicas, mas fragilidades estruturais da rede e insuficiente integração entre serviços. A combinação de atividades presenciais e virtuais mostrou-se estratégia eficaz diante das desigualdades de conectividade e da barreira geográfica do Amazonas, embora o número de encontros presenciais tenha ficado restrito à região metropolitana de Manaus. As metodologias participativas promoveram protagonismo e construção coletiva do conhecimento (Bussato, 2003). A vivência contribuiu para a formação crítica dos bolsistas, aproximando teoria e prática. Investimentos estruturais e institucionais ainda são necessários para consolidar essas práticas no cotidiano dos serviços, mas a capacitação contínua dos profissionais da rede básica representa passo fundamental para a melhoria das notificações e para uma vigilância mais qualificada em saúde do trabalhador no Amazonas.
CUIDADO EM REDE E A PROTEÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM CONTEXTOS DE NEGLIGÊNCIA: UMA ABORDAGEM ETNOGRÁFICA
Comunicação Oral Curta
1 UFSCar
2 UPE
3 USP - EERP
Apresentação/Introdução
A negligência infantil resulta de falhas coletivas na garantia do cuidado e no atendimento às necessidades essenciais ao desenvolvimento de crianças e adolescentes. Fala-se em falhas coletivas porque é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar a proteção integral de seus direitos. Nesse sentido, a prevenção e o enfrentamento da negligência exigem atuação articulada em rede, envolvendo famílias, comunidades e serviços que funcionam a partir das políticas públicas que compõem o Sistema de Garantia de Direitos (saúde, assistência social, educação, segurança pública, sistema judiciário, organizações da sociedade civil, entre outros). Quando essa rede falha, o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê, como medida protetiva excepcional e provisória, o afastamento da criança com os direitos já violados do convívio familiar e o acolhimento institucional da mesma em Unidades de Acolhimento.
Objetivos
Este estudo teve como objetivo interpretar os significados do cuidado em rede a crianças e adolescentes acolhidos por situação de negligência, a partir da perspectiva de profissionais do Sistema de Garantia de Direitos.
Metodologia
Este estudo é um recorte de uma Tese de Doutorado. Trata-se de pesquisa qualitativa, com abordagem etnográfica, tendo como ponto de partida uma Unidade de Acolhimento em Recife-PE. Participaram seis profissionais da Unidade (coordenadora, pedagoga, assistente social, duas psicólogas e um educador social) e sete atores da rede de proteção vinculados às políticas de saúde, educação, assistência social e a uma organização da sociedade civil, indicados pela equipe da Unidade. A coleta de dados se deu de março a outubro de 2024. Iniciou-se com entrevistas individuais semiestruturadas com as profissionais da Unidade (apenas um encontro com cada profissional com duração entre 40 minutos a 2 horas), seguidas de dois grupos focais, dos quais participaram as profissionais da Unidade (tiveram duração aproximada de 2 horas). Posteriormente, foram realizadas entrevistas individuais com os profissionais da rede (um encontro com cada profissional com duração entre 30 minutos a 1 hora). Em três casos, foram feitas entrevistas livres registradas em caderno de campo, por questões logísticas e/ou burocráticas. Todos os participantes das entrevistas semiestruturadas responderam a questionário sociodemográfico. Os dados sociodemográficos foram dispostos em tabelas. As entrevistas semiestruturadas e grupos focais foram gravados e transcritos. Os dados das entrevistas semiestruturadas, grupos focais e das entrevistas livres foram analisados por meio da Análise Temática Reflexiva, ancorada na etnografia. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética (CAAE: 69881223.6.0000.5504).
Resultados e Discussão
A análise resultou em três temas: “Abandono no espaço familiar”, “A família não teve o apoio necessário” e “Rede – é o tipo de trabalho que é totalmente coletivo”, articulados no tema analítico “Cuidado em rede: família, comunidade e serviços”. No primeiro, destacam-se contextos de vulnerabilidade social, pobreza e ausência de direitos básicos, associados à falta de cuidado e acolhimento emocional das crianças em seu ambiente familiar. No segundo, evidencia-se que as famílias, majoritariamente representadas por mães com pouca ou nenhuma rede de apoio e ausência dos pais de seus filhos, vivenciam ciclos transgeracionais de violência, não tiveram acesso a direitos básicos ao longo de suas vidas e, hoje, reproduzem negligências consigo e com suas crianças. No terceiro, a rede é compreendida tanto como espaço de falhas na garantia de direitos, quando negligenciam, estigmatizam e sentenciam famílias, quanto como possibilidade de construção de sonhos e novas perspectivas de vida para crianças, adolescentes e suas famílias.
Conclusões/Considerações Finais
O enfrentamento da negligência infantil exige respostas coletivas voltadas à garantia de direitos básicos e ao fortalecimento de recursos comunitários. No contexto da institucionalização, evidenciam-se trajetórias marcadas por ciclos de violência e vulnerabilidade que poderiam ser interrompidos por uma atuação mais articulada entre políticas públicas, serviços e comunidades. Ainda assim, a construção de novas possibilidades de vida mostra-se viável a partir do fortalecimento das redes de cuidado nos territórios.
DESGASTES E FORTALECIMENTOS DO PROCESSO DE TRABALHO DE PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM NA SALA DE VACINA EM UM MUNICÍPIO DA GRANDE SÃO PAULO
Comunicação Oral Curta
1 USP
2 Secretaria da Saúde de Itapevi
Apresentação/Introdução
O processo de trabalho na sala de vacinação é organizado pela equipe de enfermagem nos territórios a partir da atuação da Atenção Primária à Saúde (APS). Nesse sentido, esses profissionais têm um papel central no controle dos materiais e imunobiológicos e na garantia da segurança do paciente em todas as etapas do processo de vacinação. Sua atuação é de suma importância para a organização, manutenção, acolhimento, promoção e educação em saúde. Esse contexto de trabalho, na perspectiva da Saúde Coletiva, é atravessada por potenciais de fortalecimento e desgaste, inerentes ao processo de trabalho em saúde. Estes se originam da relação dialética entre as formas de produzir cuidado e o processo saúde-doença destes trabalhadores, e contribuem diretamente para a qualidade da assistência em imunização. Faz-se, portanto, fundamental examinar a rotina e as complexas dinâmicas envolvidas neste processo.
Objetivos
Desta forma, o objetivo deste trabalho é analisar o processo de trabalho na sala de vacinação a partir de diários de campo produzidos durante visitas de observação em unidades de saúde de um município da grande São Paulo, identificando elementos de desgaste e de fortalecimento no trabalho em imunização.
Metodologia
As 15 Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município foram visitadas pelas pesquisadoras que observaram, utilizando como instrumento um diário de campo, o processo de trabalho das salas de vacinas no período de 09 de fevereiro de 2026 até 13 de março de 2026 no período das 7:30h às 11:30h. O modelo do diário de campo foi estruturado nos seguintes eixos: “Relação com a comunidade”, “Relações de trabalho”, “Cuidados na administração dos imunobiológicos”, “Atenção aos POP” e “ Sistemas de informação”. Para a análise dos dados, os conteúdos dos diários de campo foram organizados utilizando o software MAXQDA para análise e estruturação dos dados obtidos. A análise foi orientada pelos elementos do processo de trabalho em saúde — atividade humana, objeto de trabalho e instrumentos — e organizada em duas categorias analíticas: desgastes no trabalho na sala de vacinação e fortalecimento do trabalho na sala de vacinação.
Resultados e Discussão
O principal elemento de desgaste está relacionado à organização do trabalho e à insuficiência de recursos humanos, levando ao acúmulo de funções e à sobrecarga dos trabalhadores. Em diversas unidades, observou-se a falta de técnicos de enfermagem, em que embora na sala de vacinação estivessem presente sempre dois técnicos, os demais setores ficavam descobertos, com ausência de enfermeiro em alguns períodos, rotatividade de funções e necessidade de interromper atividades da sala de vacinação para atender outras demandas da unidade, o que gera desgaste e dificulta a organização do processo de trabalho. Em relação a estrutura, observam-se salas pequenas e problemas na rede de frio que impactam diretamente o trabalho cotidiano. Outro elemento importante de desgaste refere-se à relação com a população, especialmente em situações de hesitação vacinal e recusas, que geram desgaste emocional nos trabalhadores, que relatam evitar discussões por receio de sofrerem violência no local de trabalho. Além disso, a falta de capacitações periódicas e de reuniões de equipe foi relatada em várias unidades, contribuindo para a sensação de isolamento profissional e dificuldade de atualização técnica. Em relação aos fortalecimentos estão associados às relações sociais, tais como o vínculo com a comunidade e as trocas e saberes construídos no cotidiano do trabalho, uma vez que na falta de momentos de educação permanente referente a vacinação as dúvidas e dificuldades são sanadas junto com colegas com mais experiência no campo da imunização.
Conclusões/Considerações Finais
O presente estudo permite constatar que o fortalecimento das ações de imunização na APS não depende apenas de insumos e sistemas de informação, mas fundamentalmente da valorização dos trabalhadores, da organização do processo de trabalho, da educação permanente e do fortalecimento das equipes. A sala de vacinação se mostra como um espaço estratégico para o SUS, onde se expressam, simultaneamente, as contradições e as potências do trabalho em saúde.
EDUCAÇÃO INTERPROFISSIONAL E CUIDADO EM REDE NA SAÚDE MENTAL: RESULTADOS PRELIMINARES DE UMA PESQUISA-AÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 UFSC
2 UNESC
3 UFU-MG
Apresentação/Introdução
O cuidado em saúde mental no Sistema Único de Saúde desafia trabalhadoras, serviços e gestoras a construírem respostas que superem práticas fragmentadas, uniprofissionais e centradas no encaminhamento, especialmente diante da complexidade dos casos acompanhados na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Nesse contexto, fortalecer articulações colaborativas entre diferentes pontos da rede torna-se condição importante para a integralidade do cuidado. A educação interprofissional tem sido reconhecida como estratégia potente para qualificar o trabalho em saúde ao favorecer o desenvolvimento de competências colaborativas, a reflexão crítica sobre os processos de trabalho e o compartilhamento de responsabilidades no cuidado.
Objetivos
Este estudo objetiva analisar os efeitos preliminares de um dispositivo de educação interprofissional, desenvolvido no âmbito de uma pesquisa-ação, sobre o fortalecimento do trabalho colaborativo e do cuidado em rede na atenção à saúde mental.
Metodologia
Trata-se de pesquisa-ação, de abordagem mista, desenvolvida com trabalhadoras da rede municipal de saúde de Criciúma/SC. A ação educativa consistiu em um curso de educação permanente, intencionalmente interprofissional, voltado ao desenvolvimento de competências colaborativas para o cuidado em saúde mental em rede. O percurso formativo foi estruturado com base em Metodologias Ativas de Ensino-Aprendizagem (MAEAs). A produção dos dados envolveu diário de campo, portfólios reflexivos, formulário qualitativo e duas escalas — a Interprofessional Professionalism Assessment (IPA) e a Escala de Avaliação do trabalho de equipe e da prática interprofissional colaborativa na atenção à saúde mental. Os dados qualitativos foram examinados por Análise de Discurso, e os quantitativos por estatística descritiva.
Resultados e Discussão
Os resultados preliminares apontam, em primeiro lugar, ampliação da compreensão sobre interprofissionalidade, que passou a ser mais frequentemente reconhecida para além do trabalho multiprofissional, sendo associada à corresponsabilização, ao diálogo e à construção compartilhada do cuidado. Em segundo lugar, emergiu o reconhecimento das competências colaborativas, com destaque para o respeito, compreendido não apenas como valor interpessoal, mas como condição ética para escuta, negociação de saberes e reconhecimento dos limites e potências de cada profissão no trabalho em saúde mental. Também se evidenciaram indícios de fortalecimento da articulação entre pontos da rede, sobretudo quando as participantes refletiram sobre a complexidade e a singularidade dos casos, reconhecendo a insuficiência de respostas isoladas e a necessidade de maior compartilhamento entre serviços e profissionais. Outro aspecto relevante foi o reconhecimento da educação permanente como espaço de reflexão sobre o trabalho, especialmente quando conduzida por uma abordagem educativa sensível às desigualdades, à interseccionalidade do sofrimento e às dimensões ético-políticas do cuidado. Ancorado em Metodologias Ativas de Ensino-Aprendizagem e na educação problematizadora, o dispositivo formativo tomou os problemas concretos do trabalho como disparadores de reflexão crítica, articulando interprofissionalidade, intersetorialidade e integralidade do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados sugerem que o dispositivo de educação interprofissional analisado apresenta potencial para fortalecer o trabalho colaborativo e o cuidado em rede na saúde mental, ao favorecer deslocamentos na compreensão das participantes sobre interprofissionalidade, respeito, articulação em rede e reflexão crítica sobre a prática. Ao mesmo tempo, os resultados indicam que a consolidação dessas mudanças depende da sustentação institucional de processos formativos contínuos e do compromisso político com práticas de cuidado orientadas pela integralidade, pela atenção psicossocial e pela valorização da singularidade dos sujeitos e territórios.
ENTRE O CUIDAR E O MORRER: ANÁLISE ESPACIAL E TEMPORAL DO SUICÍDIO ENTRE TRABALHADORES E TRABALHADORAS DA SAÚDE DO BRASIL
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
2 UEFS
Apresentação/Introdução
O suicídio é primordialmente um fenômeno social. Durkheim1, ao estabelecer as bases da sociologia do suicídio, demonstrou que taxas de mortalidade autoprovocada variam conforme os níveis de coesão e regulação social - antecipando o que a epidemiologia crítica contemporânea reafirma: morrer é produto das condições de existência coletiva. No setor saúde, essa perspectiva adquire contornos críticos: quem cuida também adoece e morre. O sofrimento psíquico dos trabalhadores(as) da saúde (TS) não é fruto do acaso ou de fragilidades individuais, mas resulta de uma organização do trabalho cada vez mais precarizada por privatização, terceirização e flexibilização, que fragiliza o apoio social2. Dejours3 descreve esse processo: quando o trabalho deixa de ser espaço de reconhecimento e sentido, torna-se vetor de adoecimento e, nos limites mais extremos, de morte autoprovocada. No Brasil, Palma et al.4 evidenciaram que o suicídio entre trabalhadores aumentou 60,1% entre 2010 e 2019, configurando uma tendência estrutural invisibilizada por explicações restritas ao âmbito psicopatológico. A violência, o assédio e a insatisfação com a qualidade de vida associam-se à ideação suicida de maneira hierarquizada2, indicando que o fenômeno exige abordagens capazes de considerar tanto a experiência subjetiva quanto contextos sociais e estruturais que moldam a sua existência.
Objetivos
Descrever as taxas de mortalidade por suicídio entre TS no Brasil (2017-2022), estratificadas por características sociodemográficas e categorias ocupacionais; analisar tendências temporais; e identificar padrões espaciais de autocorrelação e clusters de alto risco, articulando os achados à determinação social do sofrimento no trabalho.
Metodologia
Estudo ecológico misto de finalidade analítica, com dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), utilizando os códigos X60–X84 da CID-10. Foram identificadas 478 ocupações do setor saúde em 13 categorias, a partir da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) e do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). Calcularam-se taxas de mortalidade por 100 mil TS e variação percentual proporcional (VPP). A tendência temporal foi analisada por regressão Joinpoint. Os dados quantitativos foram examinados em seu contexto por meio de uma análise qualitativa fundamentada nas ciências sociais em saúde.
Resultados e Discussão
No período, foram registrados 2.011 suicídios entre TS, com tendência crescente (y=0,3572x+6,3349) e pico em 2020. Embora esse pico tenha ocorrido durante a pandemia de Covid-19, à luz da epidemiologia crítica de Laurell e Noriega5, ele reflete, sobretudo, a organização do trabalho sob a lógica do capital, evidenciando como sobrecarga e precarização ampliam o adoecimento mental2. Predominaram registros entre as mulheres (51,86%), na faixa de 29-49 anos (54%) e solteira (51,62%) – padrão que remete ao grau de integração social discutida por Durkheim, cuja compreensão é aprofundada pela perspectiva interseccional de gênero, classe e trabalho. Auxiliares e técnicas(os) de enfermagem concentraram 28,9% dos casos. Agentes de Saúde Pública apresentaram a maior taxa (58,1/100 mil em 2022). As categorias de menor poder sofrem consequências mais graves - o que Dejours6 chama de banalização da injustiça social: a normalização que transforma a dor em invisibilidade organizacional, tornando problemas estruturais individuais e ignorados. A varredura espacial detectou quatro clusters: Cluster 1 (308 municípios, 8 estados); Cluster 2 (MG); Cluster 3 (Nordeste); Cluster 4 (litoral paulista). A territorialização do sofrimento confirma a tese da epidemiologia crítica: processos destrutivos do trabalho expressam-se desigualmente no espaço, reproduzindo assimetrias das relações de produção.
Conclusões/Considerações Finais
O suicídio de TS revela um sistema que precariza, isola e adoece quem cuida. Para enfrentar esse problema, é preciso deslocar o foco da culpa individual e intervir em toda a estrutura, da vigilância dos riscos psicossociais à atenção integral. Os serviços de saúde são nó estratégico: lócus de adoecimento e espaço de proteção. Sem condições dignas, vínculos estáveis e gestão humanizada, a rede que deveria cuidar continuará produzindo quem precisa de cuidado.
INCAPACIDADE PARA O TRABALHO ENTRE AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE: INTERFACE ENTRE O ADOECIMENTO E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Apresentação/Introdução
INTRODUÇÃO: A incapacidade para o trabalho (IT) é um fenômeno complexo e multifatorial, com crescente relevância na saúde do trabalhador, especialmente entre Agentes Comunitários de Saúde (ACS), que atuam como elo entre serviço e comunidade na Atenção Primária à Saúde (APS). Esses profissionais estão expostos a condições adversas, como sobrecarga, precarização dos vínculos, violência territorial e sofrimento psíquico, fatores que favorecem o adoecimento físico e mental, frequentemente invisibilizado no cotidiano de trabalho.
Objetivos
OBJETIVO: Analisar a produção científica sobre incapacidade para o trabalho entre ACS, destacando repercussões do adoecimento e implicações para a organização da APS.
Metodologia
METODOLOGIA: Revisão integrativa da literatura realizada entre março e julho de 2025 nas bases MEDLINE, SciELO, LILACS e BVS MS. Foram analisados 20 artigos científicos sobre adoecimento, incapacidade e capacidade para o trabalho entre ACS, à luz do referencial do processo de trabalho em saúde. Essa pesquisa teórica é parte do Projeto de Pesquisa “A experiência da incapacidade para o trabalho entre Agentes Comunitários de Saúde: um estudo qualitativo sobre o adoecimento na atenção primária de Salvador-BA” desenvolvido no Programa de Pós-graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho - PPGSAT/UFBA.
Resultados e Discussão
RESULTADOS E DISCUSSÃO: Os achados evidenciaram duas dimensões principais: adoecimento relacionado ao trabalho e alterações da capacidade / incapacidade para o trabalho. O adoecimento entre ACS é multifatorial, envolvendo problemas musculoesqueléticos, sofrimento psíquico (como ansiedade, estresse e burnout) e exposição a condições adversas, como sobrecarga, ampliação de territórios, falta de recursos e violência. A natureza do trabalho, marcada pelo vínculo direto com a comunidade, intensifica a exposição a riscos físicos e emocionais. Além disso, fatores organizacionais, como baixa valorização profissional e precarização dos vínculos, contribuem para o desgaste e o afastamento do trabalho. Observa-se ausência de medidas efetivas para mitigação desses agravos. O tempo de atuação agrava esse cenário, evidenciando desgaste cumulativo e maior sofrimento, ainda pouco explorado na literatura. Quanto à capacidade para o trabalho, estudos apontam alta prevalência de capacidade reduzida, associada a sintomas depressivos, distúrbios vocais, percepção negativa de saúde e condições precárias de trabalho. Fatores como falta de reconhecimento e dificuldades nas relações profissionais também impactam negativamente. A incapacidade repercute na vida pessoal dos ACS, afetando saúde mental, estabilidade financeira e identidade profissional, além de comprometer a APS, com prejuízos na continuidade do cuidado e no vínculo com a comunidade. Os resultados reforçam que a IT deve ser compreendida de forma ampliada, para além do modelo biomédico, considerando determinantes sociais, organizacionais e subjetivos. Destaca-se a necessidade de fortalecimento das políticas de saúde do trabalhador e de estratégias institucionais voltadas à melhoria das condições de trabalho.
Conclusões/Considerações Finais
CONCLUSÕES: A invisibilidade do sofrimento dos ACS e a fragilidade das ações de vigilância em saúde do trabalhador evidenciam a necessidade de mudanças na gestão do trabalho em saúde. Há lacunas na produção científica, especialmente em abordagens qualitativas que explorem a experiência da incapacidade. Torna-se fundamental ampliar estudos e fortalecer políticas públicas que garantam suporte institucional, reabilitação e condições dignas de trabalho, contribuindo para a valorização desses profissionais e para a sustentabilidade da APS.
LIÇÕES DA PANDEMIA DE COVID-19 PARA A SAÚDE DO TRABALHADOR EM TEMPOS DE CRISE: UMA ANÁLISE A PARTIR DA ATUAÇÃO DOS FISIOTERAPEUTAS DE FORTALEZA , CEARÁ
Comunicação Oral Curta
1 INI/FIOCRUZ - RJ
2 Prefeitura Municipal de Fortaleza - CE
3 IFRJ - Campus Volta Redonda - RJ
4 EBSERH/UFC
5 IOC/FIOCRUZ - RJ
Apresentação/Introdução
Diante do contexto de crise global provocado pela pandemia de covid-19, em que pouco se conhecia sobre os mecanismos fisiopatológicos da doença, ou mesmo, sobre estratégias efetivas para sua prevenção e/ou tratamento, os trabalhadores da saúde assumiram o protagonismo no enfrentamento à doença em diversos cenários de atuação, diante do desconhecido. Frente a um cenário de caos, em condições de trabalho adversas e com mudanças constantes na organização e gestão do trabalho, acredita-se que esse contexto adverso possa ter influenciado de forma significativa as relações trabalho e saúde, sofrimento e prazer dos fisioterapeutas no enfrentamento à pandemia. Essa compreensão é possível, principalmente, partindo da perspectiva apresentada por Dejours (2007), para quem o trabalho pode ser tanto patogênico, quanto estruturante na vida do trabalhador, a depender de uma dinâmica extremamente complexa, cujas principais etapas são identificadas e analisadas a partir do que ele nomeia como Psicodinâmica do Trabalho (PDT).
Objetivos
O presente estudo teve como objetivo analisar os efeitos da pandemia de covid-19 na organização do trabalho e na relação trabalho e saúde dos fisioterapeutas que atuaram no enfrentamento à doença.
Metodologia
O estudo contou com duas etapas empíricas, realizadas entre outubro de 2023 e fevereiro de 2025, tendo como cenário o município de Fortaleza, capital do Ceará, nordeste do Brasil. A primeira contou com um questionário digital autoaplicável, respondido por 364 fisioterapeutas selecionados por amostragem aleatória simples. Os dados foram organizados em planilhas e gráficos gerados no software Microsoft Office Excel®, sendo analisados após o tratamento por meio de estatística descritiva. A segunda etapa baseou-se em entrevistas semiestruturadas em profundidade junto a vinte fisioterapeutas, de diferentes cenários de atuação, obedecendo ao critério de saturação dos dados. Para a codificação e o tratamento do material qualitativo, nos beneficiamos do software MAXQDA 2024, a partir de uma matriz de análise com base nos conceitos da psicodinâmica do trabalho e de categorias empíricas derivadas das entrevistas. A coleta de dados teve início após obtenção da aprovação do projeto junto Comitê de Ética em Pesquisa.
Resultados e Discussão
O transcorrer da pandemia de covid-19 oportunizou aos fisioterapeutas da capital cearense experenciar situações de muito sofrimento, tais como o contato mais íntimo com a fragilidade dos indivíduos adoecidos e seus familiares, o número elevado de óbitos, assim como o desafio para o cuidado de si, frente a uma conjuntura de incertezas e novos desafios que iam se sobrepondo. Além disso, observou-se o protagonismo da categoria em diversos cenários de atuação, em todos os níveis de atenção à saúde.
Foi em meio uma múltipla catástrofe, não apenas sanitária, que esses profissionais se depararam com uma conjuntura bastante adversa, enfrentando desafios de diversas ordens para efetivação do cuidado fisioterapêutico dada a conjuntura adversa de acentuação da precarização, não só do trabalho em saúde, mas da vida de toda a sociedade. Observou-se jornadas de trabalho cada vez maiores e extenuantes, escassez de insumos e equipamentos, redução das equipes, flexibilização dos vínculos de trabalho e, até mesmo, de direitos trabalhistas constituídos. Essas questões geraram sobrecarga física e emocional, mas ainda assim, foi possível observar a manifestação do prazer entre os participantes, ao poder contribuir por meio do seu trabalho, para salvar vidas em meio a um contexto complexo e desafiador.
Conclusões/Considerações Finais
Apesar do protagonismo da categoria em todos os níveis de atenção à saúde, cabe destacar a relevância de se pensar a luta pela garantia da saúde e vida desses profissionais enquanto um dever do Estado, para que o trabalho em saúde não seja, necessariamente, o caminho para o adoecimento e a morte. Assim, destaca-se a importância de se priorizar ações voltadas para a atenuação do sofrimento mental e físico dos trabalhadores, inevitável em razão das características da doença e das relações do profissional da saúde com o seu trabalho. Igualmente importante, é o respeito às peculiaridades do cotidiano do trabalho em saúde, por vezes, desconsideradas ao se planejar as recomendações para o enfrentamento da pandemia (Rotenberg et al., 2022), conforme observado também no contexto analisado.
POR QUE AS AGENTES COMUNITÁRIAS/OS DE SAÚDE DO MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO ESTÃO ADOECENDO E MORRENDO? UMA ALIANÇA ENTRE INVESTIGAÇÃO E MOVIMENTO SINDICAL
Comunicação Oral Curta
1 EPSJV/Fiocruz
2 SINDACS/Fiocruz
Apresentação/Introdução
Este trabalho dissemina parte dos resultados da pesquisa “Agentes comunitárias/os de Saúde no município do Rio de Janeiro: um olhar sobre o acesso à atenção à saúde e as condições de trabalho”, desenvolvida pela EPSJV/Fiocruz e o Sindicato de Agentes Comunitários de Saúde do município do Rio de Janeiro (Sindacs/RJ). A motivação surgiu da observação do sindicato sobre o aumento de mortes e de relatos de barreiras no acesso aos cuidados em saúde. Pautada na parceria entre o Sindacs/RJ e pesquisadoras/es, a pesquisa se tornou estratégia para luta sindical baseada em evidências científicas.
Objetivos
O objetivo foi investigar as condições de trabalho das/os ACS cariocas e seu acesso ao atendimento nas UBS onde atuam.
Metodologia
A metodologia incluiu análise comparada do perfil de mortalidade via Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), grupos focais com ACS e inquérito por “bola de neve”, com questionário online sobre perfil sociodemográfico, condições de saúde, acesso aos serviços e relações de e no trabalho.
Resultados e Discussão
A participação ativa do movimento sindical ampliou a adesão em todas as Áreas Programáticas do município, superando a amostra prevista (861) e alcançando 2147 respondentes de um total de 7637 ACS, na primeira semana de dezembro de 2024.
Sobre o perfil, as ACS cariocas são na maioria mulheres (85,8%) e negras (75%), reafirmando a origem histórica e social da categoria, marcada por gênero, raça e classe, tensionada pela visão patriarcal que situa o cuidado como função feminina, cujas habilidades desenvolvidas no âmbito doméstico se ampliam para o trabalho em saúde. As relações de trabalho e o papel de cuidado destas mulheres negras na família e no território torna-se um desafio que reflete nas trajetórias educacionais e nas condições de saúde e de trabalho.
O ensino médio é nível de escolarização que predomina entre as ACS (52,7%), enquanto a escolarização em ensino superior (incompleto ou completo) e em pós-graduação é mais frequente entre os ACS, evidenciando as desigualdades na progressão educacional das ACS. A busca pelo ensino superior expressa o desejo de mobilidade social, mas, a permanência como ACS revela as barreiras sociais e econômicas que estas mulheres enfrentam para melhorar suas condições de vida.
Sobre a mortalidade, entre 2010 e outubro de 2024 houve registro de 216 óbitos de ACS (42% do total de óbitos do estado do RJ). Estes foram mais expressivos a partir de 2020. Neoplasias e doenças do aparelho circulatório predominaram, além disso, alguns óbitos foram por doenças que possuem linha de cuidado na APS (gripe, pneumonia, doenças hipertensivas, HIV e tuberculose). Entre 2020 e 2024, os valores dos Anos Potenciais de Vida Perdidos foram 3,3 vezes maiores entre as ACS quando comparado aos ACS homens. Esse período coincide com a pandemia de Covid 19 e seus efeitos nas condições de vida e de trabalho dessas mulheres que mantiveram sua atuação no território.
Quanto ao cuidado de quem cuida da população na APS, 87,3% das/os ACS não referem não ter plano de saúde, dependendo exclusivamente do SUS, 97,8% têm cadastro em sua UBS. Hipertensão, agravos de saúde mental e diabetes são as principais demandas. Contudo, apenas metade consegue realizar acompanhamento em suas próprias UBS e, entre estas/es, somente 25% têm retorno agendado.
Mais de 65% das/os ACS relatam que o acesso aos serviços na sua UBS é tão ou mais difícil que o das/os usuárias/os, desconsiderando-as como moradoras/es e trabalhadoras/es em seus territórios.
"Eu marquei uma consulta agora, esse mês, [...], e eu falei para o meu médico assim, eu vou em casa, vou bater meu ponto, [...] e eu vou voltar sem o uniforme para você me atender. Porque eu com o uniforme, você quer me atender de uma forma. Então, eu sem o uniforme, eu quero ser atendida igual os cadastrados são atendidos" (ACS Alice).
Sobre as condições de trabalho, as/os ACS relatam estresse cotidiano, mas contraditoriamente também satisfação pelo trabalho na comunidade.
"Por mais que ela tenha suas questões, se sinta insegura, tenha dificuldade do atendimento, o espírito da pessoa, do trabalho da pessoa de estar ali, a utilidade por enxergar a importância do trabalho, do ACS, ela se sente satisfeita porque sabe que está fazendo um bem na população" (ACS Pedro).
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados evidenciam algumas razões para a situação experimentada no cuidado e nas relações de trabalho das/os ACS em seus territórios de vida e trabalho. Mas, a potencialidade da construção entre pesquisa e movimento sindical fortalece a mobilização da categoria em busca do diálogo com a gestão municipal para encontrar caminhos que possam melhoras o acesso e as condições de saúde e de trabalho das/os ACS cariocas.
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E O PROCESSO DE MORTE E MORRER NOS CUIDADOS PALIATIVOS ONCOLÓGICOS
Comunicação Oral Curta
1 HOSPITAL OPHR LOYOLA
Apresentação/Introdução
O tema da morte suscita questionamentos, sentimentos e fantasias. Em uma sociedade volátil, que incessantemente busca por prazer, qualquer ameaça a fantasia de felicidade plena e imortalidade é sentida como aniquiladora. Com advento dos cuidados paliativos, há uma mudança de paradigma no campo da saúde, o foco do cuidado deixa de ser a doença e dá lugar ao sujeito e o que o constitui enquanto ser desejante e total.
Objetivos
Descrever como os profissionais de saúde compreendem o processo de morte e morrer dos pacientes em cuidados paliativos oncológicos e analisar quais estratégias esses profissionais utilizam para lidar com os sentimentos e racionalidades envolvidas no atendimento em cuidados paliativos.
Metodologia
Foi realizada uma pesquisa qualitativa, aprovada pelo comitê de ética do Hospital Ophir Loyola (HOL) instituição de referência no tratamento oncológico no Estado do Pará, participaram do estudo 10 profissionais: 1 Psicólogo, 1 Assistente Social, 1 Terapeuta Ocupacional, 1 Enfermeiro, 3 Técnicos de Enfermagem, 1 Médico, 1 Fonoaudiólogo, 1 Fisioterapeuta. Para análise utilizou-se a metodologia de análise de conteúdo de Bardin, que se constitui em técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição
Resultados e Discussão
A partir dos dados obtidos observou-se a dissonância na formação em saúde, no que tange os cuidados paliativos, os profissionais continuam sendo preparados para curar doenças, salvar vidas e a relação com a morte tem como único objetivo evitá-la a qualquer custo. É evidente a dificuldade de internalizar a mudança de papel necessária em cuidados paliativos, em deixar de ser aquele que cura para ser aquele que cuida. A partir dessa perspectiva o convívio diário com a dor, perda e morte, traz a esses profissionais a vivência de seus próprios processos internos, de sua fragilidade, inseguranças e medos. E em decorrência da quebra/ perda da relação vincular que se estabelece no cuidado, vivem o processo de luto. Um luto não reconhecido, invisíveis, sofrem pelo que é imposto socialmente e internamente. Como se profissional e pessoal não pudessem coabitar em um único sujeito, ou ainda, não fizesse parte de um todo, sendo necessário se despir de sua individualidade e sensibilidade para serem considerados “bons” profissionais.
Conclusões/Considerações Finais
Percebe-se que há um longo percurso para que o saber técnico- científico e o saber das relações humanas (empatia e disponibilidade autêntica para acompanhar o sofrimento humano) caminhem em consonância e em prol da dignidade humana sem a primazia de um ou outro. Diante dessa constatação se faz mister a ampliação do conhecimento acerca dos cuidados paliativos na academia, bem como as possibilidades de atuação nos diversos níveis de atenção à saúde, desconstruindo assim barreiras externas e internas frente ao cuidado a vida e a morte digna. A continua educação para a morte reconhecendo-a como realidade inerente a condição humana, bem como um processo que precisa ser experienciado sem reservas. Assim se oportunizará um espaço para comunicação do sofrimento profissional frente o acompanhamento do paciente em seus momentos finais de vida. Pois é notório o sofrimento e luto decorrentes do rompimento do vínculo, contudo o luto é experimentado de forma velada e quando comunicado não é reconhecido, até mesmo entre os membros da própria equipe. Não havendo reconhecimento, não há suporte social para elaboração do luto, contribuindo para a sua complicação, bem como o desinvestimento das relações no trabalho e perda de sentido das atividades laborais, podendo ocasionar o adoecimento psíquico. Um lugar onde haja escuta acolhedora e troca de experiências, fortalece a equipe e oferece suporte para o enfretamento diário das perdas em cuidados paliativos. É importante que haja o reconhecimento dos recursos de enfrentamento utilizado pelos profissionais diante do sofrimento do outro, pois eles ditam a forma como será construída a relação de cuidado. Portanto é essencial que haja espaços de discussão cientifica e comunitária a cerca dessa temática, pois instrumentalizando e validando o sofrimento do outro e possível se ter adaptações mais saudáveis e criativas diante de eventos mobilizadores como a morte.
TECENDO A REDE INTERSETORIAL DE CUIDADO PARA O ENFRENTAMENTO DO TRABALHO INFANTIL NA BAHIA
Comunicação Oral Curta
1 Sesab/Suvisa/Divast/Cesat
Contextualização
O trabalho infantil expressa a persistência das desigualdades estruturais e das formas históricas de exploração do trabalho no capitalismo periférico, articulando-se à determinação social do processo saúde-doença e à reprodução das iniquidades em saúde. No Brasil, sua ocorrência incide de maneira mais intensa sobre populações marcadas por vulnerabilidades sociais, raciais e territoriais, evidenciando a intersecção entre pobreza, racismo estrutural e desigualdade regional. Tal fenômeno revela os limites das políticas públicas na garantia de direitos e na efetivação da proteção integral de crianças e adolescentes. Ademais, configura-se como relevante problema de saúde pública, ao expor esse grupo a situações de risco, acidentes, adoecimento e violências, com repercussões no desenvolvimento biopsicossocial e na trajetória de vida. Nesse contexto, o enfrentamento do trabalho infantil exige ações intersetoriais e de vigilância articuladas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), integradas às políticas de assistência social, educação e justiça (OIT, 2021; BAHIA, 2025; BRASIL, 2023). Mais do que diretriz normativa, a intersetorialidade constitui prática em construção, que tensiona a fragmentação institucional e demanda corresponsabilização entre os diferentes setores.
Descrição
A experiência foi desenvolvida a partir da realização de encontros interinstitucionais que reuniram representantes dos setores de saúde, assistência social, educação, segurança pública e sistema de justiça, compondo a rede de garantia de direitos. Esses espaços configuraram-se como arenas de negociação, diálogo e pactuação, nas quais foram discutidos fluxos de cuidado, responsabilidades institucionais e estratégias de intervenção frente a situações de violação de direitos relacionadas ao trabalho infantil. As discussões buscaram qualificar a resposta do Estado, fortalecendo a articulação entre vigilância em saúde do trabalhador e proteção social, com foco na integralidade do cuidado e na atuação territorializada.
Período de Realização
Trata-se de um relato de experiência ocorrido no período de 01 a 10 de junho de 2025.
Objetivo
Descrever os esforços de articulação intersetorial entre órgãos públicos envolvidos no enfrentamento do trabalho infantil no estado da Bahia, com ênfase na construção de planos individualizados de assistência e vigilância em saúde do trabalhador para casos identificados no território.
Resultados
Como desdobramentos, destacam-se a identificação de crianças e adolescentes em situação de evasão escolar, com mobilização da rede educacional para reinserção; o fortalecimento da atuação do Conselho Tutelar como instância estratégica de proteção, atuando nos casos de violação de direitos; a articulação com a assistência social para inclusão em programas e acesso a benefícios socioassistenciais; e a ativação da vigilância em saúde para investigação de acidentes e agravos relacionados ao trabalho, incluindo ações em serviços de saúde e nos territórios de ocorrência. Observou-se, ainda, o aprimoramento dos fluxos interinstitucionais, maior integração entre os serviços e ampliação da capacidade de resposta frente às situações identificadas.
Aprendizado e Análise Crítica
A construção da rede de enfrentamento ao trabalho infantil demanda ações intersetoriais e intrasetoriais articuladas, envolvendo toda a rede de garantia de direitos e reconhecendo a complexidade dos determinantes sociais que sustentam esse fenômeno. A experiência evidenciou que a intersetorialidade se materializa como prática atravessada por desafios operacionais, disputas institucionais e diferentes racionalidades técnico-políticas, exigindo negociação contínua e construção de consensos. Ainda assim, a elaboração compartilhada de planos de intervenção potencializa a integralidade do cuidado e fortalece a atuação do SUS na proteção de crianças e adolescentes. Destaca-se a importância da vigilância em saúde do trabalhador como estratégia para identificação, monitoramento e prevenção de agravos relacionados ao trabalho infantil, articulando-se às demais políticas públicas.
Ainda, recomenda-se a institucionalização de espaços permanentes de articulação intersetorial, com reuniões sistemáticas, definição de fluxos e corresponsabilização entre os atores envolvidos, como estratégia para consolidar a rede de enfrentamento do trabalho infantil como problema de saúde pública na Bahia. Reforça-se, ainda, a necessidade de fortalecimento das políticas públicas orientadas pela equidade, garantindo o direito a uma infância plena, saudável e livre de exploração.
TÉCNICOS QUE ATUAM NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE RURAL NA AMÉRICA LATINA: PRÁTICAS E CONDIÇÕES DE TRABALHO EM REVISÃO DE LITERATURA
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
2 EPSJV/FIOCRUZ
3 UERJ
4 OPAS
5 ME/Argentina
Apresentação/Introdução
A Atenção Primária à Saúde (APS) em áreas rurais da América Latina se desenvolve em contextos marcados pela dispersão populacional em regiões remotas e de difícil acesso, pela escassez de serviços de saúde e de profissionais de nível superior. Nesse cenário, trabalhadores técnicos e auxiliares assumem papel central na organização e oferta de cuidados.
Objetivos
Analisar as práticas desenvolvidas e as condições de trabalho de técnicos em saúde que atuam na APS em áreas rurais na América Latina, descritas na literatura.
Metodologia
Trata-se de um recorte de uma revisão de literatura sobre técnicos da APS na América Latina. Foram selecionados textos que abordavam a atuação específica desses trabalhadores em contextos rurais, considerando os países contemplados na literatura incluída. A análise priorizou a identificação dos técnicos e auxiliares, das práticas desenvolvidas junto à população e das condições de trabalho descritas.
Resultados e Discussão
Foram selecionados 19 estudos que abordavam a atuação de técnicos em saúde na Atenção Primária em áreas rurais da América Latina. A pesquisa abrangeu os países de El Salvador, Bolívia, Chile, Colômbia, Guatemala, México, Peru e Venezuela. Em relação às categorias profissionais, cita-se o agente comunitário, a auxiliar e o promotor de saúde; a auxiliar e o técnico de enfermagem, e a matrona.
Os estudos evidenciam que os técnicos representam, em muitos contextos rurais, o principal ou único ponto de contato longitudinal entre a população e os serviços de saúde. Suas práticas articulam ações preventivas, curativas, educativas e de promoção da saúde, com forte presença no domicílio e na comunidade. Destacam-se visitas domiciliares regulares, acompanhamento de gestantes, puérperas e crianças, vacinação, atendimento de agravos comuns, primeiros socorros, educação em saúde, ações de saneamento e organização comunitária.
O trabalho é fortemente territorializado, com profissionais frequentemente residentes na própria comunidade, e pode ser voluntário ou remunerado. As auxiliares e os promotores de saúde comumente são escolhidos pela população para assumir o cargo, enquanto profissionais de outras categorias, como auxiliar de enfermagem, são geralmente recrutados pelo sistema de saúde através de processos seletivos. Os trabalhadores são responsáveis por áreas definidas, realizando censos, acompanhamento contínuo de famílias e articulação com serviços formais. Em diferentes experiências, esses técnicos também atuam como mediadores entre os saberes locais e o sistema de saúde.
As condições de trabalho no meio rural são marcadas por desafios logísticos e estruturais, como longas distâncias entre as residências, com difíceis condições de acesso e meios de deslocamento precários; necessidade de apoio local para transporte e moradia e, em alguns casos, responsabilidade por múltiplas comunidades e unidades. Também foram identificadas oportunidades formativas limitadas, sensação de despreparo para lidar com determinadas demandas clínicas e insuficiência de supervisão de outros profissionais.
A análise temporal dos estudos, que se concentram principalmente entre as décadas de 1950 e 1980, com menor número de produções recentes, revela a prevalência de um conjunto de práticas centradas no cuidado materno-infantil, na educação em saúde e na atenção a doenças comuns para o território. Ao mesmo tempo, estudos mais recentes, entre os anos 2000 e 2025, indicam mudanças no papel desses trabalhadores, como redução de atribuições em determinados contextos e maior ênfase em práticas de referência e contra-referência, cumprimento de metas de atendimento ou ações específicas, além de experiências que buscam fortalecer a participação comunitária.
Conclusões/Considerações Finais
Os técnicos da APS desempenham papel estruturante na atenção à saúde em áreas rurais da América Latina, garantindo acesso a cuidados básicos em contextos de vulnerabilidade. Suas práticas atuam pela longitudinalidade do cuidado, mas suas condições de trabalho evidenciam desafios persistentes relacionados à formação, ao suporte institucional e à organização dos serviços.
Realização: