Programa - Comunicação Oral Curta - COC28.2 - Saúde do trabalhador no SUS: trabalho, gestão e formação
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
APOIO MATRICIAL, INTERDISCIPLINARIDADE E CONDIÇÕES DE TRABALHO NO NASF: TENSÕES E POTENCIALIDADES EM 15 ANOS DE IMPLEMENTAÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Apresentação/Introdução
Ao longo do período entre 2008 e 2023, o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) consolidou-se como uma estratégia central na reorientação do modelo assistencial na Atenção Primária à Saúde (APS), ao instituir o apoio matricial e o trabalho interdisciplinar como dispositivos para ampliação da resolutividade e qualificação do cuidado. Entretanto, sua implementação ocorreu em um contexto marcado por profundas transformações no mundo do trabalho em saúde, caracterizadas pela intensificação das demandas assistenciais, sobrecarga dos profissionais, fragilização das condições de trabalho e precarização dos vínculos. Nesse cenário, a operacionalização do apoio matricial passou a ser tensionada por limites estruturais que incidem diretamente sobre o cotidiano das equipes, produzindo um descompasso entre a proposta interdisciplinar e a persistência de práticas fragmentadas e centradas em núcleos profissionais. Assim, mais do que um arranjo técnico-organizacional, a experiência do NASF expressou as contradições do trabalho em saúde no SUS contemporâneo. Considerando, ainda, o recente processo de reconfiguração dessa política no âmbito das Equipes Multiprofissionais (eMulti) na APS, torna-se fundamental analisar como a produção científica tem abordado essas tensões, articulando potencialidades do apoio matricial às condições concretas de sua realização.
Objetivos
Analisar como o apoio matricial e o trabalho interdisciplinar no âmbito do NASF são abordados na produção científica brasileira, considerando suas potencialidades e limites em articulação com as condições de trabalho e as transformações recentes na política de Atenção Primária à Saúde.
Metodologia
Trata-se de um estudo de revisão de literatura, de natureza qualitativa, realizado na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), a partir das bases LILACS e MEDLINE. Foram considerados artigos publicados no período de 2008 a 2024, disponíveis em texto completo. Inicialmente, foram identificados 851 estudos. Após leitura de títulos e resumos, 492 artigos foram selecionados para análise preliminar. Em seguida, procedeu-se à categorização temática, sendo incluídos 118 artigos com relação direta à temática “apoio matricial e trabalho interdisciplinar no NASF”, que compuseram o corpus analítico deste estudo.
Resultados e Discussão
A análise dos 118 artigos evidenciou o apoio matricial como estratégia potente para promover a integração entre equipes, a troca de saberes e a construção compartilhada do cuidado, tendo a interdisciplinaridade como eixo estruturante dessas práticas. Observa-se recorrência de discussões que associam o matriciamento à ampliação da resolutividade dos serviços e à qualificação da assistência, especialmente por meio da elaboração conjunta de projetos terapêuticos e do fortalecimento do trabalho coletivo. A articulação com práticas educativas também se destacou como elemento estratégico para sua consolidação. Por outro lado, emergiram limites importantes para a efetivação dessas práticas, como sobrecarga de trabalho, insuficiência de tempo para espaços coletivos, fragilidade do apoio institucional e dificuldades na organização do processo de trabalho. Evidenciam-se, ainda, tensões entre diferentes núcleos profissionais e a persistência de modelos assistenciais fragmentados. Parte significativa das produções relaciona tais desafios às condições estruturais do trabalho em saúde, marcadas pela intensificação das demandas, precarização dos vínculos e responsabilização individual dos trabalhadores, configurando um cenário que tensionou a operacionalização do apoio matricial.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados evidenciam que o apoio matricial no âmbito do NASF constituiu uma estratégia potente para a reorganização do trabalho na APS, ao favorecer práticas interdisciplinares, colaborativas e centradas no cuidado compartilhado. No entanto, sua efetivação ocorreu em meio a limites estruturais significativos, diretamente relacionados às condições de trabalho no setor saúde. Assim, ao mesmo tempo em que se afirmou como dispositivo de inovação e fortalecimento do trabalho coletivo, o apoio matricial no NASF também explicitou as contradições de sua implementação em contextos de precarização, indicando a necessidade de investimentos institucionais e políticos que sustentem sua consolidação, especialmente no cenário contemporâneo de reconfiguração das equipes multiprofissionais na APS.
ATUAÇÃO DA VIGILÂNCIA ESTADUAL EM SAÚDE DO TRABALHADOR - VISAT EM EVENTOS DE MASSA: RELATO DE EXPERIÊNCIA DA DIVAST/CESAT NO CARNAVAL DE SALVADOR, 2026.
Comunicação Oral Curta
1 Divast/Cesat/Suvisa/SESAB.
Contextualização
A Bahia tem sediado grandes eventos de massa e seus participantes estão sujeitos a riscos à saúde, principalmente os que trabalham direta ou indiretamente com o público. A Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde (Suvisa) da Bahia, vinculada à Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), coordenou, no ano de 2026, as ações integradas das equipes de vigilância em saúde (Visau) durante um dos maiores eventos de massa do país. Nesse contexto, destaca-se a primeira participação da Diretoria de Vigilância e Atenção à Saúde do Trabalhador/Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador (Divast/Cesat) em ações estruturadas de educação e vigilância no Carnaval de Salvador, especialmente voltadas à prevenção e mitigação dos riscos à saúde aos quais está exposta a população trabalhadora. A iniciativa buscou ampliar a visibilidade da Saúde do Trabalhador (ST), além de fortalecer a articulação intra e intersetorial no âmbito da Rede Estadual de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (Renastt-BA).
Descrição
O presente relato refere-se à atuação da Divast/Cesat nas ações de educação e vigilância em saúde do trabalhador durante o Carnaval de Salvador, em 2026, com foco na prevenção e mitigação dos riscos à saúde da população trabalhadora envolvida no evento que podem resultar em Doenças e Agravos Relacionados ao Trabalho (DART). Esse público inclui profissionais de saúde, segurança, limpeza, transporte, turismo, comércio e serviços, ambulantes, catadores de materiais recicláveis, etc. As ações foram organizadas em quatro eixos: Vigilância Epidemiológica em Saúde do Trabalhador, Vigilância de Ambientes e Processos de Trabalho, Educação e Articulação. As atividades envolveram monitoramento de sistemas e captação de rumores de DART, visitas técnicas, ações educativas, inspeções sanitárias em ST, apoio às instâncias da Renastt-BA e articulação com representantes de trabalhadores e instituições parceiras, com destaque para o enfrentamento do trabalho infantil.
Período de Realização
As atividades foram realizadas durante o período do Carnaval de 2026, entre os dias 13 e 17 de fevereiro, no município de Salvador, Bahia.
Objetivo
As ações tiveram como objetivos promover a redução dos riscos à saúde da população trabalhadora neste evento, de forma integrada aos demais componentes da Visau e complementar às ações das instâncias da Renastt-BA; atuar em plantões integrados com secretarias, órgãos e parceiros estratégicos na identificação e enfrentamento do trabalho infantil; e realizar atividades de mobilização e educação em ST, com foco na prevenção de DART, especialmente entre catadores de materiais recicláveis e motociclistas, grupos mais vulnerabilizados.
Resultados
A experiência possibilitou a consolidação no estado de diversas ações estratégicas, entre elas: articulação com representantes de mototaxistas e cooperativas de catadores, ações intersetoriais com a SETRE e participação no Plantão Integrado da SJDH; 11 inspeções sanitárias em saúde do trabalhador, com 2.962 trabalhadores beneficiados; 21 ações de educação em saude, com 686 trabalhadores orientados; 20 ações de combate ao trabalho infantil; 254 casos suspeitos de DART captados, monitorados e investigados pela Renastt-BA; 1.087 trabalhadores do evento testados nos módulos do Fique Sabendo. As atividades de vigilância permitiram identificar trabalhadores submetidos a condições precárias de trabalho, com jornadas prolongadas, ausência de descanso adequado, além da exposição prolongada a fatores ambientais adversos.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a importância da incorporação da saúde do trabalhador nas ações de vigilância nos grandes eventos no estado, nas etapas pré-evento, durante e pós-evento. Outro aprendizado refere-se à necessidade de qualificação dos profissionais da RAS, principalmente dos casos de Trabalho infantil nos sistemas do SUS. Evidenciou-se ainda a necessidade de realização de reuniões de articulação pré-evento e avaliação pós-evento com instituições parceiras, como Secretarias, Ministério Público do Trabalho, sindicatos e serviços de urgência e emergência. Espera-se que essa ação gere resultados positivos na proteção à saúde da população trabalhadora, diminuição do sub registro/subnotificação de casos de DART nos sistemas de informação e dos elevados índices de acidentes e violências no trabalho.
CONDIÇÕES DE TRABALHO E PRECARIZAÇÃO NA EXPERIÊNCIA DE 15 ANOS DO NASF NO BRASIL: UMA REVISÃO DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA (2010–2024)
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Apresentação/Introdução
Os Núcleos de Apoio ou Ampliados de Saúde da Família (NASF), hoje integrados às equipes eMulti, foram concebidos como dispositivos estratégicos para ampliar a resolutividade e a abrangência da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil. Fundamentados no apoio matricial e na interdisciplinaridade, buscavam fortalecer a Estratégia Saúde da Família. Contudo, sua implementação foi atravessada por tensões estruturais e agendas neoliberais que impactaram a organização do trabalho. A literatura recente aponta que o descompasso entre diretrizes e condições reais de execução gerou processos de precarização, comprometendo a sustentabilidade do cuidado compartilhado e sua continuidade na política.
Objetivos
Analisar as condições de trabalho e a precarização vivenciadas por profissionais do NASF no Brasil, identificando entraves estruturais, organizacionais e subjetivos na produção científica (2010-2024).
Metodologia
Trata-se de uma revisão de literatura sobre o NASF, realizada nas bases LILACS e MEDLINE, por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando os descritores “NASF” OR “Núcleo Ampliado de Saúde da Família” OR “Núcleo de Apoio à Saúde da Família”. Foram considerados artigos publicados no período de 2008 a 2024. A busca resultou em 877 artigos, dos quais 26 foram excluídos por duplicidade. Após a leitura de títulos e resumos, 492 estudos foram incluídos, com base na pertinência temática e na disponibilidade do texto completo. Dentre esses, 365 artigos relacionados ao processo de trabalho foram selecionados para análise temática. Posteriormente, os estudos foram organizados em 7 subcategorias analíticas que refletem diferentes aspectos do processo de trabalho das equipes do NASF, sendo essas: atribuições e funções dos profissionais (6); apoio matricial e trabalho interdisciplinar (118); planejamento e organização do processo de trabalho (12); articulação intersetorial e com a rede de atenção (49); práticas educativas e promoção da saúde (119); desafios e limites do processo de trabalho (38); e avaliação e monitoramento das ações desenvolvidas (255). Para este estudo, priorizou-se a categoria “desafios e limites do processo de trabalho”, por evidenciar fatores que fragilizam a atuação das equipes, como precarização dos vínculos, sobrecarga, rotatividade, fragilidades na gestão, escassez de recursos e descontinuidade de políticas, com impactos na organização do trabalho, na integralidade do cuidado e na efetividade das ações na APS.
Resultados e Discussão
A análise dos dados revela uma trajetória de precarização que se acentua na última década. No início do período (2010-2015), os estudos identificam que, embora o NASF tenha potencializado práticas inovadoras como a Acupuntura, a Puericultura e a Saúde Mental, já emergiam entraves como a falta de espaço físico, escassez de materiais e a predominância do modelo biomédico que isolava o especialista em atendimentos clínicos individuais. Entre 2016 e 2019, a literatura destaca a fragilidade dos vínculos empregatícios, com relatos frequentes de contratos informais, baixos salários e alta rotatividade, especialmente em municípios de menor porte e contextos rurais. A interdisciplinaridade é descrita como ainda pouco consolidada, travada pela pressão por produtividade e ausência de educação permanente. A partir de 2020, os estudos evidenciam um cenário crítico exacerbado pela pandemia de COVID-19 e pelas mudanças no financiamento federal. Os artigos publicados em 2022 apontam a redução expressiva de equipes após o Previne Brasil. Em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, o desmantelamento do NASF foi associado a gestões autoritárias, burocratização e modelos de gestão que privilegiam metas quantitativas em detrimento da clínica ampliada. Os achados mais recentes (2023-2024) sinalizam um profundo sofrimento ético-político dos profissionais, gerado pelo choque entre o "trabalho prescrito" e o "trabalho real". A sobrecarga, a invisibilidade de grupos vulneráveis (como a criança e o idoso dependente) e a insegurança laboral são apontadas como fatores que corroem a qualidade de vida no trabalho e a própria identidade profissional dos matriciadores.
Conclusões/Considerações Finais
A produção científica demonstra que o NASF apresentou um potencial latente para qualificar a APS, mas este foi sistematicamente obstruído por condições de trabalho precárias. A precarização não se limitou à instabilidade contratual, mas estendeu-se à insuficiência de infraestrutura e ao esvaziamento das funções técnico-pedagógicas do matriciamento. Estes elementos precisam ser enfrentados na atual conjuntura de implantação e desenvolvimento das eMulti, equipes que carregam características históricas do trabalho do NASF. Conclui-se que o fortalecimento da Atenção Primária no Brasil exige, obrigatoriamente, a superação do modelo neoliberal de gestão, garantindo vínculos estáveis, suporte institucional e condições materiais que permitam aos profissionais exercerem uma prática interdisciplinar, territorializada e comprometida com a integralidade do SUS.
CUIDADO INTEGRAL EM TRANSPLANTE CARDÍACO: O TRABALHO INTERDISCIPLINAR E A CENTRALIDADE DO USUÁRIO
Comunicação Oral Curta
1 IMS/UERJ
2 UERJ
Apresentação/Introdução
O transplante cardíaco (TxC) configura-se como uma intervenção médica complexa e avançada, apresentada como uma solução viável para pessoas com doenças cardíacas graves e irreversíveis. Ressalta-se que este procedimento é indicado aos usuários como a melhor alternativa de tratamento diante de sua condição cardíaca, depois de esgotadas todas as possibilidades conservadoras. Candidatos a um TxC deverão ser acompanhados por uma equipe interdisciplinar, durante todo o processo, de forma sistemática e rigorosa.
Ao superar a atuação isolada e segmentada dos profissionais, a interdisciplinaridade favorece a construção de linhas de cuidado compartilhadas, com ênfase em um conceito ampliado de saúde. Nesse sentido, o trabalho interdisciplinar se alinha às diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao valorizar a integralidade do cuidado, a atuação em equipe e o protagonismo dos diversos agentes envolvidos no processo de atenção.
Sob a perspectiva do cuidado integral, parte-se do pressuposto de que a conduta do trabalho interdisciplinar não pode restringir-se aos aspectos biomédicos. Logo, exige-se o reconhecimento da ótica do usuário sobre o seu adoecimento, por meio de sua identificação como um sujeito único, portador de direitos, com necessidades de saúde específicas e intersubjetividades que tensionam o seu processo saúde-doença.
Objetivos
O objetivo principal da pesquisa foi analisar as evidências científicas acerca da temática do trabalho interdisciplinar e da noção de centralidade do usuário, quando discutido o cuidado integral prestado aos candidatos a um TxC.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica e documental, de caráter qualitativo, obtido por meio de fontes primárias e secundárias de informações datadas entre os anos de 2010 e 2024. Compreende-se o potencial deste método na elucidação do estado da arte do objeto estudado, bem como a realização de uma leitura crítica da realidade vivenciada.
Resultados e Discussão
Os resultados científicos demonstram que, embora reconhecida a importância do trabalho em equipe, são escassas as produções que adotam uma abordagem explicitamente interdisciplinar, sendo pontual o uso desse conceito. Evidencia-se uma polissemia de termos utilizados para a representação do que se considera um trabalho em equipe, o que demonstra a frágil consistência acerca de estudos sobre o trabalho em equipe e colaboração interprofissional, devido à falta de uma clara terminologia. Ademais, observa-se um número reduzido de estudos que desenvolvam as suas análises a partir das perspectivas dos profissionais e usuários diretamente envolvidos no processo de cuidado.
Em relação à noção de centralidade do usuário no cuidado, revelou-se uma preocupação em compreendê-la para além de seus desdobramentos operacionais, buscando resgatar seus fundamentos éticos, subjetivos e relacionais no contexto do cuidado em saúde.
No que se refere ao tecnicismo predominante nas práticas profissionais em saúde, afirma-se que a sua superação se constitui como um desafio para a consolidação da integralidade do cuidado. Em contraponto, os achados indicam uma ampliação do debate, na qual as necessidades em saúde e as particularidades de cada sujeito passam a ser reconhecidas como parte constitutiva do processo terapêutico.
Não foram identificados apontamentos desfavoráveis quanto ao potencial do trabalho em equipe, sendo as críticas concentradas nos desafios enfrentados para a sua implementação. Neste sentido, os dados analisados reforçam o pressuposto inicial de que o trabalho em equipe, quando orientado por uma abordagem interdisciplinar, e a centralidade do usuário no cuidado constituem atributos indispensáveis para o cuidado integral aos usuários com indicação de TxC.
Neste contexto, ressalta-se a necessidade de investimento na regulamentação destas práticas e a ampliação do debate acerca da formação crítica dos profissionais de saúde, na educação permanente e continuada e na criação de espaços institucionais que estimulem a reflexão sobre ações, a comunicação entre os diferentes membros da equipe e a participação ativa dos usuários.
Conclusões/Considerações Finais
Acredita-se que os achados desta pesquisa contribuirão para o fortalecimento das práticas de cuidado integral, sobretudo no acompanhamento de cuidados candidatos ao TxC. Da mesma forma, espera-se que esta pesquisa estimule novas reflexões, com ênfase nas percepções dos diferentes sujeitos envolvidos, acerca dos modos de organização do trabalho em saúde, favorecendo avanços na direção de práticas mais integradas, éticas e centradas no usuário.
CURSO DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS DAS POPULAÇÕES VULNERABILIZADAS E A SAÚDE DO(A) TRABALHADOR (A) DA SEGURANÇA PÚBLICA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Contextualização
As atuais crises da segurança pública provocaram a morte de quase 1 milhão de pessoas em duas décadas e o suicídio de mais de 800 profissionais que atuam no setor entre 2018 e 2023 no Brasil (Geledés, 2025; IPPES, 2024). Tais aspectos explicitam a intensificação de processos de vulnerabilidades sociais. Cotidianos de vida e trabalho são marcados por violência, criminalidade e incapacidade das instituições estatais em assegurar a proteção do direito à segurança em contexto democrático. Bem como, revelam-se condições de trabalho precárias dos agentes da segurança pública em termos de agravamento de riscos, de adoecimentos e desgastes físicos, estresse e sofrimento mental (Futino, Delduque, 2020). A proposta em tela visou acompanhar as ações de uma política pública de formação através de um curso de pós-graduação, na modalidade educação à distância, proporcionou reflexões e ações com base em concepções de vulnerabilidades, direitos humanos, saúde e trabalho.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência com abordagem qualitativa do tipo emancipatória, com metodologia horizontal, baseada em reflexões coproduzidas com interlocutores do estudo, análises documentais e na literatura. A construção se deu a partir do planejamento e da avaliação de um curso de espacialização, caracterizado como atividade de extensão, ao nível de pós-graduação, em uma universidade pública em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. A formação se deu de forma on line, com aulas síncronas e com design de aprendizagem desenvolvido para estimular intercâmbios de saberes e de experiências, que proporcionam a construção de conhecimentos baseados em contextos nos quais os alunos, profissionais de diferentes corporações do Brasil, estão inseridos.
Período de Realização
O estudo se realizou no período de maio de 2025 a maio de 2026.
Objetivo
Relatar a experiência de implantação do curso de Especialização em Proteção de Pessoas Vulnerabilizadas, com formação continuada ao nível de pós-graduação, voltado a agentes da segurança pública, oferecido pela Universidade Federal da Bahia, em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, com destaque para concepções como vulnerabilidade, direitos humanos, saúde e trabalho que se constituiram como bases para o desenvolvimento da proposta.
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Resultados
Constata-se que a cultura corporativa da violência, truculência e do extermínio oferece riscos à saúde mental de trabalhadores (as) do setor. Seguindo Minayo (2003), o trabalho na segurança pública é caracterizado por: falta reconhecimento social e descaso com o sofrimento dos (as) trabalhadores (as) da categoria diante da precarização das condições cotidianas de atuação, por um lado, e da vitimização dos (as) policiais, por outro. O curso de especialização em proteção às pessoas vulnerabilizadas atraiu, em sua maioria, profissionais da segurança pública de diversos estados brasileiros, com destaque para Bahia (19,4%), Rio de Janeiro (9%), Minas Gerais (9%) e o Distrito Federal (8,2%). Essas inscrições representam instituições como as Polícias Militares, Polícias Civis, Corpos de Bombeiros Militares, Guardas Civis Municipais e órgãos vinculados ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. A maior parte dos inscritos se autodeclara negra (64,9%), com registros de 0,7% de pessoas quilombolas e 1,5% de pessoas com deficiência, refletimos sobre a presença significativa de trabalhadores(as) que, em diferentes graus, enfrentam situações de vulnerabilidade e adoecimentos a partir de suas funções, apontam para a necessidade de ampliar os debates pós-curso. O itinerário formativo e as abordagens pedagógica foram constantemente redesenhadas na busca de um modelo que contribuisse com ideias renovadas e bem estar em ambientes institucionais, consideramos tensões cotidianas do trabalho. O curso revelou a necessidade de cuidados prioritários com a saúde mental desses trabalhadores, tornando-se uma preocupação para o modelo pedagógico.
Aprendizado e Análise Crítica
O Governo Federal promulgou a Lei nº 14.531/23 voltada para a proteção da saúde mental e dos direitos humanos dos profissionais de segurança pública e defesa social no Brasil, em seguida consolidou-se a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS) e a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, entretanto a promoção da saúde desses trabalhadores e a prevenção do suicídio ainda é um desafio (Andreucci, 2023). Trata-se de profissionais expostos à violência na rotina de trabalho e acidentes graves, traumas psicológicos e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), além de acontecimentos que revelam o adoecer a partir de um contexto de vulnerabilidade que provoca, ainda mais, ansiedade, depressão e transtornos relacionados ao estresse. Sem contar a sobrecarga de trabalho, estigmas e falta de apoio emocional.
DISTRIBUIÇÃO DE PROFISSIONAIS DO PROGRAMA MAIS MÉDICOS QUE ATUAM NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE NOS MUNICÍPIOS EM SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA E CALAMIDADE PÚBLICA NO BRASIL
Comunicação Oral Curta
1 Ministério da Saúde
Apresentação/Introdução
Eventos extremos e desastres socioambientais têm se intensificado no Brasil, ampliando vulnerabilidades territoriais e pressionando a Atenção Primária à Saúde (APS), principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e fundamental na resposta a crises. Este estudo insere-se na estratégia AdaptaSUS, desdobramento da COP 30 Brasil, que busca fortalecer a adaptação do sistema de saúde às mudanças climáticas. Nesse contexto, o Programa Mais Médicos(PMM) destaca-se como política estruturante de provimento e fixação de profissionais na APS, contribuindo para a ampliação do acesso, continuidade do cuidado e redução de desigualdades, especialmente em territórios mais vulneráveis e expostos a situações de emergência e calamidade pública.
Objetivos
Descrever a distribuição de profissionais ativos do PMM em municípios brasileiros classificados em situação de emergência ou calamidade pública.
Metodologia
Estudo quantitativo, transversal e descritivo, realizado a partir do cruzamento dos dados abertos do Painel do PMM, do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e registros de municípios com reconhecimento de situação de emergência ou calamidade pública disponibilizados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN). A classificação dos desastres seguiu a Codificação Brasileira de Desastres (COBRADE), sistema que padroniza os tipos de eventos adversos no país. Os dados são referentes ao mês de fevereiro de 2026.
Os dados foram estruturados e tratados em banco relacional PostgreSQL, possibilitando integração, limpeza e organização das bases. Para a análise espacial e produção cartográfica, utilizou-se o software QGIS, permitindo a visualização da distribuição territorial dos profissionais e dos municípios afetados. A partir das variáveis selecionadas, os municípios foram estratificados em quintis de vulnerabilidade, considerando os valores definidos no Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), sendo o 1º quintil o de vulnerabilidade mais intensa e o 5º quintil de vulnerabilidade menos acentuada. Essa divisão permitiu comparar a proporção de médicos do PMM na APS entre os diferentes quintis de vulnerabilidade.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam diferenças importantes na distribuição dos profissionais do PMM entre os quintis de vulnerabilidade dos municípios em situação de emergência ou calamidade pública. Observa-se que os municípios classificados no 1º quintil (maior vulnerabilidade) apresentam a maior proporção de médicos do PMM, com 57,58% dos municípios atingindo proporção ≥ 50% do total de médicos na APS. Esse percentual decresce progressivamente nos quintis seguintes: 42,42% no 2º quintil, 21,21% no 3º, 12,12% no 4º e apenas 3,23% no 5º quintil (menor vulnerabilidade). Além disso, nota-se que os maiores percentuais de proporção de médicos do PMM (>95% e ≥75% e <95%) concentram-se predominantemente nos quintis mais vulneráveis, especialmente no 1º e 2º quintis. Por outro lado, nos quintis de menor vulnerabilidade (4º e 5º), há predominância de municípios com proporção inferior a 50%, evidenciando menor presença relativa do programa nesses territórios.
Esses achados reforçam a importância da atuação do PMM em territórios de maior vulnerabilidade, com sua estratégia de priorização de áreas com maiores necessidades sociais e sanitárias. Tal padrão é coerente com os objetivos do programa de reduzir desigualdades no acesso aos serviços da APS, e, em contextos marcados por maior exposição a desastres socioambientais e fragilidades estruturais, o PMM se demonstra fundamental para o acesso à saúde dessas populações.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados reforçam a importância do PMM como estratégia de mitigação das desigualdades em saúde, incorporando de forma mais robusta indicadores de vulnerabilidade e risco socioambiental.
A análise da distribuição dos profissionais do Programa Mais Médicos em municípios em situação de emergência ou calamidade pública evidencia que a política tem contribuído para direcionar recursos humanos em saúde para áreas de maior vulnerabilidade. Observa-se um gradiente claro, no qual os municípios mais vulneráveis apresentam maior proporção de médicos do PMM entre o total de médicos da APS.
Recomenda-se que políticas públicas como o PMM incorporem de forma sistemática indicadores de vulnerabilidade territorial, risco climático e capacidade instalada dos serviços de saúde, visando ampliar a efetividade da resposta do SUS. Ademais, a integração entre políticas de saúde e gestão de desastres mostra-se fundamental para enfrentar os desafios contemporâneos relacionados às mudanças climáticas e seus impactos sobre a saúde da população.
MANEJO SUSTENTÁVEL DE RESÍDUOS ORGÂNICOS EM UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE INDÍGENA: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM TERRITÓRIO INDÍGENA YANOMAMI EM SANTA ISABEL DO RIO NEGRO-AM
Comunicação Oral Curta
1 DSEI Yanomami
Contextualização
A gestão de resíduos sólidos em territórios indígenas, especialmente em áreas remotas,
é um desafio para os serviços de saúde. Relata-se experiência em UBSI no território Yanomami,
em Santa Isabel do Rio Negro-AM, realizada em dois períodos: 01 a 15/02/2026, com
levantamento situacional diante de casos de diarreia aguda, e 27/02 a 16/03/2026, com
continuidade das ações. Observou-se redução de resíduos, melhora sanitária e fortalecimento do
protagonismo local.
Descrição
A gestão de resíduos sólidos em territórios indígenas insere-se em um contexto de
múltiplos desafios, envolvendo questões logísticas, ambientais, culturais e estruturais. Em áreas de
difícil acesso, a ausência de sistemas convencionais de coleta demanda soluções locais
sustentáveis. A Política Nacional de Resíduos Sólidos e a PNGATI orientam práticas adequadas,
embora haja limitações estruturais nesses territórios.
Período de Realização
realizada em dois períodos: 01 a 15/02/2026, com
levantamento situacional diante de casos de diarreia aguda, e 27/02 a 16/03/2026, com
continuidade das ações. Observou-se redução de resíduos, melhora sanitária e fortalecimento do
protagonismo local.
Objetivo
Provar que estratégias simples e adaptadas contribuem para melhoria sanitária dentro das comunidades indígenas.
Resultados
Houve redução do acúmulo de resíduos, melhoria das condições sanitárias e
diminuição da presença de vetores. Observou-se protagonismo do AISAN e potencial para
implantação futura de segregação entre resíduos orgânicos e recicláveis.
Aprendizado e Análise Crítica
O manejo de resíduos em territórios indígenas evidencia desigualdades estruturais e
limitações na implementação de políticas públicas. A experiência demonstra que soluções locais
são eficazes, mas não substituem a responsabilidade estatal. Destaca-se a articulação entre
saberes técnicos e tradicionais.
Recomenda-se ampliação com segregação de resíduos e fortalecimento de políticas públicas.
OFICINAS DE ESTRATÉGIAS PARA O AUMENTO DE COBERTURAS VACINAIS NO ESTADO DE MINAS GERAIS, BRASIL: RELATO DE EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 OPESV/EEUFMG
2 OPESV/EEUSP
3 SES/MG
Contextualização
Observa-se no território brasileiro uma redução acentuada na cobertura vacinal a partir do ano de 2016, potencializada pela pandemia de Covid-19. Este cenário evidencia um grave problema para a imunidade coletiva e coloca a população em risco de transmissão de doenças preveníveis por ação de vacinação. Em Minas Gerais – o quarto estado com a maior área territorial e o segundo em quantidade de habitantes, localizado na Região Sudeste do país –, a queda da cobertura vacinal e aumento da quantidade de municípios em alto risco para transmissão de doenças imunopreveníveis aumentou, no período de 2015 a 2020. Considerando que a queda da cobertura vacinal é multifatorial e, para além do diagnóstico situacional, percebeu-se necessária a integração das diversas áreas dos setores saúde, sociais e da educação, bem como a identificação de bolsões de indivíduos susceptíveis e o desenvolvimento de estratégias para garantir a manutenção de elevadas coberturas vacinais.
Descrição
A pesquisa-ação (PA) é amplamente utilizada na área da saúde por articular a compreensão do objeto de estudo à transformação da prática, permitindo a participação ativa dos sujeitos na intervenção da realidade. Influenciada por uma vertente crítica, especialmente na América Latina, busca responder a problemas socialmente relevantes, sobretudo em contextos educativos e de mobilização social. Essa abordagem pode assumir diferentes modalidades conforme o nível de participação, mas mantém princípios comuns, como a colaboração entre os envolvidos, o desenvolvimento em ciclos reflexivos, a produção de conhecimento e a transformação das práticas. Nesse contexto, diante da vulnerabilidade das coberturas vacinais em Minas Gerais, o Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação (OPESV-EEUFMG), em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde (SES-MG) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), desenvolveu um projeto voltado ao aumento das coberturas vacinais, por meio da realização de oficinas e da elaboração de planos de ação adaptados à realidade dos municípios.
Período de Realização
A realização das oficinas ocorre desde o ano de 2022, até os dias atuais.
Objetivo
Relatar a experiência de um projeto de pesquisa-ação que visa à melhoria da cobertura vacinal por meio da construção de planos de ação direcionados para a realidade de cada município. Diante do exposto, esse relato justifica-se pela necessidade de novas abordagens para enfrentar a situação decrescente das coberturas vacinais e do aumento do risco de epidemias por doenças imunopreveníveis por vacinas.
Resultados
Implementou-se um projeto de pesquisa-ação em 212 municípios e oito GRS/SRS de Minas Gerais, com elaboração de planos de ação específicos à realidade de cada município para reorganização dos processos de trabalho em imunização e consequente aumento das coberturas vacinais. De modo geral, houve melhora nos indicadores de imunização, com aumento estatisticamente significativo na maioria das vacinas após a realização de oficinas. A experiência também revelou desafios para a manutenção das coberturas, como falhas na comunicação entre sistemas de informação, dificuldades de articulação com escolas, limitações estruturais e de recursos humanos, além da disseminação de fake news e do baixo domínio sobre indicação vacinal. Apesar desses pontos encontrados, observou-se redução das áreas de alto risco para transmissão de doenças preveníveis por vacina entre 2022 e 2025 e aumento das áreas de baixo risco, indicando melhoria no cenário das coberturas vacinais, homogeneidade e menor taxa de abandono.
Aprendizado e Análise Crítica
A construção conjunta dos planos de ação para melhoria da cobertura vacinal valorizou a corresponsabilidade e estimulou reflexões para a tomada de decisão. Esse processo possibilitou a identificação de questões centrais relacionadas ao trabalho das equipes de imunização, como a complexidade das atividades, a sobrecarga decorrente da escassez de recursos humanos e o afastamento do enfermeiro da rotina da sala de vacinação. Além disso, a classificação de risco para transmissão de doenças imunopreveníveis mostrou-se uma ferramenta relevante para subsidiar a priorização de intervenções pelos gestores. Nesse contexto, os planos de ação elaborados contemplaram tanto aspectos internos das equipes quanto a organização mais ampla dos processos de trabalho, refletindo as especificidades e realidades locais dos municípios. Destaca-se, ainda, a importância de estratégias voltadas à capacitação e atualização dos profissionais de saúde, bem como à reorganização dos indicadores de processo, considerando as particularidades municipais. Por fim, a utilização da pesquisa-ação favoreceu a aproximação entre teoria e prática e promoveu a inserção do pesquisador na realidade da saúde pública, fortalecendo relações mais horizontais entre os participantes. Assim, essa abordagem permitiu identificar necessidades de saúde e compreender determinações sociais à tendência de queda das coberturas vacinais no estado de Minas Gerais, com repercussão para o Brasil.
PROCESSO DE TRABALHO NO CONTEXTO HOSPITALAR PEDIÁTRICO COM VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL: SENTIMENTOS DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 UFC
2 ESF Mossoró
3 TRIVIUM
Apresentação/Introdução
A violência sexual contra crianças e adolescentes se apresenta enquanto um fenômeno multidimensional e de impacto à saúde por consequências físicas, psicológicas e sociais que podem perdurar da infância à vida adulta, e na maioria dos casos pode ser marcada pelo silenciamento desse público que tem uma vulnerabilidade maior, dada sua condição de desenvolvimento, o que torna a área de saúde, em especial hospitais, serviços de referência para o atendimento integral em casos suspeitos e confirmados, por meio de equipe multiprofissional. Entretanto, se faz necessário compreender como o processo de trabalho dessa equipe ocorre e a percepção dos profissionais acerca dos sentimentos experienciados no atendimento, para se pensar a saúde do trabalhador e da trabalhadora no ambiente de trabalho.
Objetivos
Descrever a percepção de profissionais de saúde de um programa cearense de atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual acerca dos sentimentos experienciados no processo de trabalho
Metodologia
Estudo qualitativo, descritivo, com entrevista semiestruturada e análise de conteúdo. Essa contribuição faz parte de uma pesquisa maior de uma dissertação de Mestrado acadêmico em Saúde Pública, que visou avaliar o programa na perspectiva da equipe multiprofissional, aprovada sob o parecer número 7.500.752 do comitê de ética em pesquisa da Universidade Federal do Ceará. Foram entrevistadas 18 profissionais que atuam na equipe hospitalar (áreas- Medicina 5, Serviço Social 6, Psicologia 2, Farmácia 2, Enfermagem 3). É importante destacar que o programa compõe Rede de Atenção à Saúde das Pessoas em Situação de Violência Sexual e Doméstica (Rede Pontos de Luz), da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, com serviços e programas especializados e integrados para acolhimento, cuidado e orientação).
Resultados e Discussão
A abordagem aos profissionais demonstrou que nos atendimentos são mobilizados sentimentos de afetação e angústia que levam a necessidade de suporte emocional. Nas falas, foi possível identificar palavras ou frases como: sensação de impotência; tema complexo; impossível de não se afetar; embrulhamento no estômago; algo incompreensível, sentir-se mal quando recebe casos; ficar temeroso no que falar ou fazer no atendimento; gera angústia; depois você tem que se trabalhar na terapia, e é algo que você fica pensando e remoendo.
Ao refletir sobre estes dados, evidenciou-se que o contato contínuo com situações de violência sexual infantojuvenil produz repercussões significativas na saúde mental dos/as trabalhadores/as, e como isso se torna ainda mais complexo quando analisamos as dimensões do trabalho na saúde, pois os/as profissionais desse serviço específico, em sua maioria (15 de 18) não trabalham exclusivamente com demandas de violência sexual, mas são do cenário de emergência com demandas muito além dessa, então precisam lidar com os casos, com a necessidade de celeridade para outros atendimentos, ainda nos dados da pesquisa observou-se vinculos contratuais e salários fragilizados, levando a necessidade de mais de um trabalho ou plantões (o que aumenta as possibilidades de estresse e cansaço, afetando também a presença em momentos de capacitação).
Vê-se uma ausência de dispositivos institucionais de cuidado ao cuidador a partir deste lócus das dificuldades, já que diante do recorte das falas dos/as participantes, ao serem questionados sobre as principais estratégias institucionais de melhoria das condições de trabalho, foram identificadas apenas ações técnico-formativas, do plano do aprofundamento em sinais, sintomas, o próprio fluxo operacional e articulação em rede.
Assim, os dados da presente pesquisa corroboram com a análise crítica do cenário em que o/a trabalhador/a está inserido, na dinâmica complexa das demandas relacionas a violência sexual infantojuvenil e na necessidade do desenvolvimento de ações institucionais de cuidado que ultrapassem o lastro apenas de preenchimento de uma lacuna técnico-formativa.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo evidencia que o processo de trabalho no atendimento hospitalar a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual é permeado por sentimentos de angústia, impotência e forte afetação emocional, revelando que a complexidade do tema transcende a dimensão técnica e impacta diretamente a saúde mental dos/as profissionais. A coexistência de vínculos laborais fragilizados com a inexistência de dispositivos institucionais de "cuidado ao cuidador" demonstra que as estratégias de gestão atuais, focadas prioritariamente no fluxo operacional e na formação teórica, são insuficientes para lidar com o desgaste subjetivo da equipe.
Portanto, torna-se condição precípua à melhoria do trabalho a implementação de ações sistemáticas de suporte psicossocial e espaços de escuta para esses/as trabalhadores/as, garantindo que o fortalecimento do atendimento em saúde infantojuvenil não ocorra à custa do adoecimento daqueles que operam o cuidado na ponta.
PROTAGONISMO DO AGENTE DE PESQUISA E MAPEAMENTO DO IBGE: RELATO DE EXPERIÊNCIA DAS CONTRIBUIÇÕES E DESAFIOS VIVENCIADOS EM CONTEXTO AMAZÔNICO.
Comunicação Oral Curta
1 FAMETRO
Contextualização
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desempenha papel fundamental na produção de informações estatísticas que subsidiam a formulação, implementação e avaliação de políticas públicas no Brasil. Nesse contexto, o trabalho do Agente de Pesquisa e Mapeamento (APM) se apresenta como essencial, especialmente em regiões de grande complexidade territorial e social, como a Amazônia. A atuação desse profissional vai além da coleta de dados, envolvendo interação direta com a população, compreensão das dinâmicas locais e enfrentamento de desafios diversos que impactam diretamente a qualidade das informações produzidas
Descrição
Trata-se de um relato de experiência descritivo, fundamentado na vivência como Agente de Pesquisa e Mapeamento no IBGE, com foco na execução da coleta de dados em domicílios na região amazônica. A experiência contempla atividades como visitas domiciliares, aplicação de questionários, atualização cadastral e orientação à população acerca da importância das pesquisas realizadas pelo órgão. O trabalho exige organização, planejamento e, sobretudo, habilidades comunicacionais para estabelecer vínculo com os informantes
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida durante o período de atuação profissional no IBGE, de 2023 até o presente momento, em atividades contínuas de coleta de dados em campo, ao longo de diferentes ciclos de pesquisas realizados na região amazônica
Objetivo
Apresentar de forma detalhada a experiência vivenciada como APM, destacando os desafios enfrentados no trabalho de campo, as estratégias utilizadas para superação das dificuldades e as contribuições dessa atuação para a sociedade, especialmente no que diz respeito a produção de dados confiáveis e representativos da realidade amazônica
Resultados
No decorrer da atuação em campo, diversos desafios foram identificados. Entre os principais, destaca-se a resistência de parte da população em receber o agente e fornecer informações, frequentemente associada ao desconhecimento sobre o IBGE e a desconfiança em relação a abordagem, muitas vezes confundida com tentativas de golpe. Essa realidade exigiu do profissional uma postura ética, transparente e acolhedora, reforçando constantemente a legitimidade do trabalho realizado. Outro aspecto relevante. refere-se às dificuldades de acesso em determinadas localidades, especialmente durante o período de seca na Amazônia, quando a navegabilidade dos rios é comprometida, dificultando o deslocamento até as comunidades mais isoladas. Soma-se a isso a ocorrência de recusas, ausência de moradores no momento das visitas e situações de risco em áreas com vulnerabilidade social, demandando do agente capacidade de adaptação, resiliência e tomada de decisão em contextos adversos. Apesar desses entraves, a atuação possibilitou a coleta de dados relevantes e contribuiu significativamente para a construção de indicadores que refletem a realidade socioeconômica da população
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência proporcionou o desenvolvimento de competências fundamentais, como empatia, responsabilidade, escuta ativa e respeito à confidencialidade das informações. O contato direto com diferentes realidades sociais ampliou a compreensão sobre as desigualdades presentes na Amazônia, fortalecendo o senso crítico e o compromisso com a função social do trabalho desempenhado. Além disso, a vivência em campo estimulou a capacidade de resolução de problemas, a adaptabilidade frente a situações imprevistas e o aprimoramento da comunicação interpessoal, aspectos essenciais para o desempenho eficaz das atividades
DISCUSSÕES SOBRE O TRABALHO NO SUS: PERCEPÇÕES DE ALUNAS E ALUNOS DO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM SAÚDE PÚBLICA DA ESP-MG
Comunicação Oral Curta
1 ESP-MG
Contextualização
O Curso de Especialização lato sensu em Saúde Pública é ofertado pela Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG) desde 1947 e atualmente está em sua 42ª turma. Composta por trabalhadoras e trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS) do âmbito municipal e estadual, a turma em andamento possui 35 discentes. O curso apresenta como base teórico-metodológica e político-pedagógica a Educação Permanente em Saúde (EPS). A matriz curricular envolve seis módulos, entre os quais se destaca, neste relato de experiência, o de Cuidado, Comunicação e Educação em Saúde no SUS. Uma das disciplinas que o compõe é a de Educação, Trabalho e Saúde, durante a qual as docentes realizaram discussões e atividades que fomentaram a problematização do trabalho no SUS, a reflexão sobre o que é ser trabalhadora/r do SUS e a análise sobre a oferta do cuidado.
Descrição
A disciplina de Educação, Trabalho e Saúde do Curso de Especialização em Saúde Pública teve como ementa analisar o trabalho na saúde, a formação de trabalhadoras e trabalhadores no e para o SUS, tendo a EPS como ponto de partida para a problematização e a transformação da organização do trabalho e das práticas profissionais, bem como discutir sobre as especificidades e os desafios do trabalho em saúde no SUS. Foram realizadas várias atividades, das quais duas tiveram como produto nuvens de palavras. Na primeira, realizada antes de as/os discentes terem contato com as discussões da disciplina, solicitou-se a produção de um texto respondendo à questão “Para você, o que é ser um trabalhador/trabalhadora do SUS?”. Na segunda, realizada ao final da disciplina, as/os alunos foram orientadas/os a realizarem a leitura do texto “Cartografias do Trabalho e Cuidado em Saúde”, de Túlio Batista Franco e Emerson Elias Merhy, e a produzirem um texto descrevendo quais desafios e estratégias são observados na própria prática de produção do cuidado em saúde. As docentes realizaram as leituras das produções e selecionaram palavras que, mais organicamente, respondiam às atividades propostas e elaboraram duas nuvens de palavras, uma para cada atividade.
Período de Realização
A disciplina teve carga horária de 12 horas, divididas em três dias, com quatro horas cada, realizados nos meses de setembro, outubro e dezembro de 2025.
Objetivo
Discutir as percepções de alunas e alunos sobre o trabalho em saúde no SUS e a produção de cuidado identificadas durante atividades realizadas na disciplina de Educação, Trabalho e Saúde do Curso de Especialização em Saúde Pública da ESP-MG.
Resultados
As nuvens de palavras foram elaboradas por meio do assistente de inteligência artificial Microsoft Copilot, que considerou a repetição de palavras citadas proporcionalmente a sua representação na nuvem. Na primeira atividade, sobre o que as/os discentes pensavam sobre ser trabalhadora/r do SUS, foram selecionadas 71 palavras, sendo que as mais citadas foram “Desafio” e “Orgulho” (4 vezes cada), seguidas de “Promotor da Saúde”, “Escuta”, “Olhar”, “Resistência” (3 vezes cada). Na segunda nuvem, que envolvia os desafios e as estratégias que as/os alunas/os observam na sua prática de produção do cuidado em saúde, foram selecionadas 403 palavras, sendo que as mais citadas foram “Escuta” (25); “Diálogo” (15); “Acolhimento” e “Encontro” (12 cada); “Criatividade” e “Redes” (11 cada); “Afetivo” e “Coletivo” (9 cada); “Desafio” e “Integralidade” (6 cada). Reconhecimento e desvalorização também foram citados (5 vezes cada) e “Resistência” não apareceu nenhuma vez.
Aprendizado e Análise Crítica
A discussão sobre Educação, Trabalho e Saúde a partir dos pressupostos da EPS possibilitou que as/os alunas/os trabalhadoras/res voltassem seu olhar para o cotidiano de trabalho, analisassem, problematizassem e refletissem no coletivo sobre as diversas possibilidades de oferta do cuidado no SUS. Ao discutir sobre como as/os discentes se veem como trabalhadoras/res do SUS, sem contato com o conteúdo da disciplina, observamos que o quantitativo e os tipos de palavras que apareceram referiram-se mais a críticas ao trabalho (desafio, resistência), mas, também, denotaram uma conscientização da importância do trabalho no SUS para os usuários (orgulho, escuta, olhar, promotor da saúde). Já na segunda atividade, realizada depois das discussões sobre o trabalho e sobre quem são as/os trabalhadoras/trabalhadores do SUS, o olhar para o próprio cotidiano de trabalho apareceu traduzido nas palavras “escuta, encontro, redes, afeto, coletivo”, fortalecendo a ideia de um trabalhador coletivo, que atua com diversos profissionais, em territórios e com usuários que apresentam diferentes necessidades de saúde. A ideia de um trabalho individualizado e burocrático, praticamente, não apareceu. No entanto, a palavra “desafio” ainda se mostrou bem presente, assim como a falta de reconhecimento e a desvalorização, denotando que os problemas institucionais do SUS interferem diretamente na oferta do cuidado pelas trabalhadoras e trabalhadores e, muitas vezes, não favorecem a permanência de profissionais nos serviços.
Realização: