Programa - Comunicação Oral - CO17.1 - Protagonismo dos povos tradicionais, seus saberes ancestrais no campo da educação popular e as contribuições na saúde coletiva nos territórios (1)
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ARSENAL TERAPÊUTICO MUNDURUKU EM ENVENENAMENTOS OFIDICOS NA AMAZÔNIA CENTRAL BRASILEIRA
Comunicação Oral
1 UEA/UFAM/ILMD
2 UFAM
3 UEA
4 FMTAM
Apresentação/Introdução
Embora o ofidismo possa vitimar qualquer individuo, trata-se de um agravo, majoritariamente interligado a populações consideradas vulneráveis e que vivem em contexto sociais precários e que apresentam experiências e limitações de acesso ao serviço de saúde e logo o tratamento antiofídico. Nesse contexto as populações com maiores probabilidades de vivenciarem este evento são os povos e populações
tradicionais que residem em áreas remotas, como os indígenas. O contexto da medicina indígena Munduruku abrange diferentes sistemas de saúde, os quais incluem uma diversidade de abordagens terapêuticas. Essa pluralidade médica perpassa itinerários de cura através do xamanismo, pajelança e saberes ancestrais existentes, além da associação ao modelo médico predominante.
Objetivos
Descrever as práticas de cura Munduruku prestados por cuidadores socialmente legitimados e procurados pelos indígenas em casos de envenenamentos ofídicos.
Metodologia
Estudo qualitativo, descritivo e explicativo realizado em um território indígena Munduruku por meio de entrevistas em profundidade realizados entre agosto de 2023 à março de 2025. Nossa orientação metodológica também abrange perspectivas ontológicas em antropologia, com foco no perspectivismo ameríndio e no multiculturalismo, apoiado por etnografias de povos indígenas da Amazônia.
O estudo foi realizado com populações indígenas Munduruku residentes nos municípios de Nova Olinda do Norte e Borba, no estado do Amazonas, na Amazônia Central brasileira, abrangendo trinta e quatro aldeias às margens dos rios Canumã e Mari-Mari. Destas, trinta e três são habitadas por povos Munduruku e uma por povos Sateré-Mawé. Vinte e duas aldeias são atendidas pelo polo de saúde Kwatá e doze pelo polo de saúde Laranjal.
Participaram deste estudo cuidadores indígenas Munduruku com mais de 18 anos seguindo a tipologia descrita por Scopel et al. que inclui pegadores de desmentidura/rasgadura, parteiras, rezadores, benzedores, curandeiros, pajés, espiritistas e sacaca.
A maior parte da coleta de dados foi realizada nas aldeias indígenas. Dois participantes residentes na aldeia de Makambira e um da aldeia de Parawá foram recrutados na Casa de Apoio à Saúde Indígena (CASAI), em Nova Olinda do Norte. As entrevistas foram conduzidas em um espaço tranquilo e confortável. O entrevistador se apresentou aos participantes no início da entrevista, compartilhando um breve histórico pessoal e explicando os objetivos do estudo. Todos os participantes falam português fluentemente e as entrevistas foram conduzidas nesse idioma. As entrevistas foram transcritas e anonimizadas. Os resultados obtidos a partir da análise de conteúdo dedutiva. Padrões foram identificados dentro das categorias, e comentários feitos pelos participantes foram selecionados para serem apresentados nos resultados. A análise foi concluída em abril de 2025. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Amazonas (CAAE: 17408719.2.0000.5016).
Resultados e Discussão
O presente estudo evidenciou que o tratamento de envenenamentos ofídicos entre os Munduruku é realizado por meio de redes de curadores que mobilizam recursos terapêuticos oriundos do xamanismo indígena, articulados a práticas religiosas vinculadas ao cristianismo, à Umbanda e ao espiritismo kardecista, além da interface com o setor biomédico. No repertório terapêutico Munduruku, observou-se a predominância de preparações tópicas, aplicadas diretamente sobre o local da picada com a finalidade de extrair ou neutralizar o veneno. Destacam-se, nesse contexto, cataplasmas elaborados a partir de gordura, pele e outros tecidos animais, sobretudo das próprias serpentes, enquanto preparações de origem vegetal ocupam papel secundário. Esses achados sugerem a centralidade da superfície corporal como via de interação e introdução de substâncias ativas no organismo.
A pele de cobra geralmente é seca e usada em defumações, ou seja, é queimada e a fumaça gerada é soprada sobre o paciente. Alguns sucos de plantas, produzidos pela prensagem das folhas, podem ser usados topicamente ou por via oral. Algumas infusões preparadas com folhas, cascas e raízes também são usadas por via oral.
Conclusões/Considerações Finais
Ainda que a medicina Munduruku tenha experimentado transformações significativas em seu repertório terapêutico, observa-se a preservação de seus fundamentos xamânicos. Tal permanência está intrinsecamente relacionada à forma singular com que esse povo compreende o processo saúde doença, concebido a partir de um modelo próprio de atenção à saúde, no qual dimensões físicas, espirituais, sociais e ambientais se articulam de maneira indissociável.
BIOECONOMIA CIRCULAR DA MANDIOCA EM COMUNIDADE QUILOMBOLA: EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA COMO CATALISADORA DE DESENVOLVIMENTO REGENERATIVO
Comunicação Oral
1 UFBA IMS
Contextualização
A persistência da insegurança alimentar em comunidades quilombolas brasileiras expressa desigualdades estruturais historicamente produzidas, que incidem diretamente sobre os determinantes sociais da saúde. Nesse cenário, estratégias que articulem extensão universitária, saberes tradicionais e desenvolvimento territorial ganham centralidade como práticas comprometidas com a promoção da equidade e justiça social, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidade social e histórica de populações tradicionais. Ao propor o reaproveitamento de recursos e redução das externalidades ambientais, a bioeconomia circular configura-se como abordagem promissora para integrar sustentabilidade, geração de renda e segurança alimentar, alinhando-se a perspectivas que compreendem a saúde como resultado de processos sociais, econômicos e ambientais interdependentes. Assim, experiências territoriais que operacionalizam esses princípios tornam-se relevantes como estratégias concretas de enfrentamento das desigualdades estruturais.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência fundamentado na abordagem da pesquisa-ação, desenvolvido em uma comunidade quilombola da Bahia, envolvendo 54 famílias em contexto de vulnerabilidade socioeconômica e insegurança alimentar. A intervenção foi estruturada a partir de diagnóstico participativo, que combinou aplicação da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), levantamento socioeconômico domiciliar e rodas de conversa com lideranças comunitárias, identificando fragilidades na cadeia produtiva da mandioca e no manejo de resíduos. Assim, adotou-se uma estratégia metodológica baseada na integração entre saberes acadêmicos e conhecimentos tradicionais, orientando a construção coletiva de um modelo de bioeconomia circular adaptado à realidade local. A intervenção incluiu reativação da casa de farinha, implementação de bioindústria artesanal e capacitação de 53 participantes — majoritariamente mulheres — em boas práticas de fabricação, gestão cooperativa e bioprocessamento. O modelo estruturou-se em três ciclos interconectados: processamento da mandioca, reaproveitamento de resíduos e governança comunitária participativa. Essa organização possibilitou a transição de uma lógica produtiva linear para um modelo circular de agregação de valor e fortalecimento comunitário.
Período de Realização
Agosto de 2024 e novembro de 2025,
Objetivo
O objetivo é sistematizar e analisar criticamente os processos, resultados e aprendizados de uma experiência de bioeconomia circular em comunidade quilombola, considerando seus impactos na segurança alimentar, geração de renda e organização comunitária no contexto da saúde coletiva.
Resultados
Observou-se aumento de 18,4% na renda média familiar, associado à agregação de valor por meio do processamento da mandioca, além da geração de 14 postos de trabalho, com predominância feminina. No campo da segurança alimentar, houve redução de 54% na insegurança alimentar grave, evidenciando melhoria no acesso e na disponibilidade de alimentos. Na questão ambiental, 44% dos resíduos foram reaproveitados, com transformação da manipueira em fertilizante orgânico e do bagaço em ração animal, reduzindo impactos associados ao descarte inadequado. Verificou-se, também, o fortalecimento do capital social, com ampliação da cooperação entre famílias, reorganização das práticas produtivas e maior participação em espaços coletivos de decisão. De forma integrada, os resultados demonstram que o modelo contribuiu para a articulação entre geração de renda, segurança alimentar e sustentabilidade no território.
Aprendizado e Análise Crítica
A construção de intervenções sustentáveis em contextos vulnerabilizados exige processos contínuos de vinculação, escuta qualificada e reconhecimento dos saberes locais, implicando a superação de abordagens verticalizadas. Destaca-se a centralidade de práticas extensionistas dialógicas, que favorecem o protagonismo comunitário e a construção compartilhada de soluções, contribuindo para o fortalecimento da autonomia e da capacidade organizativa no território. A atuação interdisciplinar mostrou-se fundamental para a compreensão ampliada das demandas locais e para a elaboração de respostas integradas, articulando dimensões sociais, econômicas, culturais e ambientais.
No plano analítico, o modelo de bioeconomia circular demonstrou potencial para incidir sobre determinantes sociais da saúde, ao integrar geração de renda, segurança alimentar e sustentabilidade ambiental em um mesmo arranjo produtivo. Entretanto, sua implementação evidencia limites estruturais, como a precariedade de infraestrutura, os desafios de escalabilidade e a dependência de condições socioterritoriais específicas, incluindo níveis de organização comunitária e acesso a recursos. Tais tensionamentos indicam que, embora promissoras, iniciativas dessa natureza não se sustentam isoladamente, demandando o fortalecimento de políticas públicas intersetoriais que ampliem sua viabilidade e evitem a reprodução de desigualdades estruturais nos territórios.
CADERNETA DA CRIANÇA EM CONTEXTOS INDÍGENAS: FORMAÇÃO PROFISSIONAL E DESAFIOS PARA O CUIDADO INTEGRAL NO SUBSISTEMA DE ATENÇÃO À SAÚDE INDÍGENA
Comunicação Oral
1 Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD / Fiocruz Amazônia)
2 Prefeitura de Fortaleza
3 Universidade Estadual do Ceará
4 Ministerio da Saúde/SESAI
5 Universidade Federal do Ceará/UFC
Apresentação/Introdução
A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) propõe um modelo de atenção diferenciado que reconheça as especificidades socioculturais e territoriais dos povos originários. No entanto, persistem desafios para a concretização da integralidade e da equidade, especialmente no que tange à continuidade do cuidado e ao fortalecimento de vínculos nos territórios. Nesse cenário, a Caderneta da Criança (CC) é um instrumento estratégico, servindo como um "passaporte da cidadania" que deve favorecer o diálogo intercultural entre saberes biomédicos e tradicionais. Apesar de sua importância normativa, evidências apontam fragilidades em sua utilização prática, com registros frequentemente parciais e uma formação profissional insuficiente para lidar com as dimensões simbólicas e comunitárias do cuidado à infância indígena.
Objetivos
Analisar, a partir do conhecimento prévio dos participantes, a utilização do conteúdo e o preenchimento da Caderneta da Criança (CC) durante a assistência prestada a crianças indígenas na faixa etária de 0 a 6 anos
Metodologia
O estudo constitui um recorte quantitativo do projeto “Estratégia de fortalecimento das ações de Desenvolvimento Infantil para a atenção integral”, realizado em parceria entre o Ministério da Saúde e a Universidade Federal do Ceará. A amostra foi composta por 95 profissionais de saúde atuantes em Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), Casas de Apoio à Saúde Indígena (CASAI) e instâncias da SESAI. A coleta de dados ocorreu entre junho de 2022 e agosto de 2025, utilizando um formulário eletrônico (Google Forms) com 66 questões sobre o perfil profissional e a rotina de uso da CC. Os dados foram analisados no software Jamovi, empregando estatística descritiva e testes binomiais com nível de significância de p < 0,05 . A pesquisa seguiu todos os preceitos éticos vigentes sendo aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAEE 15228319.6.0000.5054), em conformidade com as Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016.
Resultados e Discussão
O perfil da amostra revelou uma predominância feminina (74,7%), composta majoritariamente por enfermeiros (63,2%) e nutricionistas (29,5%), todos com nível superior e 86,7% com especialização. Identificou-se uma lacuna formativa crítica: embora 70,5% dos profissionais tivessem capacitação em saúde indígena, 69,5% nunca participaram de cursos específicos sobre a Caderneta da Criança. Essa disparidade reflete-se na prática, onde apenas 50,5% utilizam o instrumento frequentemente, enquanto 21,1% relataram não utilizá-lo.Quanto ao domínio técnico, os profissionais demonstraram alto reconhecimento de campos como vacinação (87,4%) e suplementação nutricional (93,7%), mas apresentaram confusão sobre registros de IMC e peso, com apenas 31,6% de acertos. Temas educativos contemporâneos, como o uso de eletrônicos, foram pouco Identificados (34,7%). Observou-se ainda que a atenção é mais intensa para crianças de 0 a 3 anos (65,3%), reduzindo-se na faixa de 4 a 6 anos, o que sugere uma organização do cuidado ainda centrada no risco biológico da primeiríssima infância. O protagonismo da enfermagem emergiu como um ponto central, sendo a categoria que mantém o contato constante nas aldeias e atua como mediadora intercultural. A discussão destaca que o cuidado efetivo deve ser "culturalmente congruente", alinhando protocolos técnicos aos modos de vida das comunidades.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados evidenciam uma dissociação entre o conhecimento teórico declarado e a aplicação prática sistemática da Caderneta da Criança no contexto indígena. As fragilidades identificadas reforçam a urgência de processos de educação permanente que não sejam apenas técnicos, mas que incorporem sensibilidade cultural e metodologias adaptadas às realidades territoriais. Conclui-se que a CC necessita de adequações para contemplar explicitamente as necessidades dos povos indígenas, funcionando como uma ferramenta de diálogo entre diferentes concepções de infância e cuidado no Sistema Único de Saúde.
CONCEPÇÕES DE SAÚDE, DOENÇA E CURA NA JUREMA SAGRADA: DIÁLOGOS ENTRE SABERES TRADICIONAIS E A SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral
1 Fiocruz Pernambuco
Apresentação/Introdução
A hegemonia do modelo biomédico na produção do cuidado em saúde tem historicamente invisibilizado outros sistemas de saber e práticas, especialmente aqueles oriundos de matrizes afro-indígenas. No campo da Saúde Coletiva, esse processo se expressa na dificuldade de reconhecimento das medicinas tradicionais como formas legítimas de produção de cuidado, reforçando dinâmicas de colonialidade do saber e do poder. Tal cenário evidencia a persistência de hierarquias epistemológicas que marginalizam conhecimentos fora da lógica científica moderna.
A Jurema Sagrada, enquanto tradição afro-indígena presente no Nordeste brasileiro, constitui um sistema complexo de cuidado que articula dimensões espirituais, corporais, territoriais e comunitárias, produzindo concepções próprias sobre saúde, doença, cura e morte. Este trabalho se insere em uma pesquisa de doutorado que busca analisar as interfaces entre a Medicina Tradicional da Jurema Sagrada e a Estratégia Saúde da Família, a partir de uma perspectiva decolonial, compreendendo tais interfaces como espaços de tensão, negociação e possibilidade de diálogo intercultural no SUS.
Objetivos
Compreender as concepções de saúde, doença e cura a partir dos saberes de lideranças da Jurema Sagrada, problematizando seus sentidos e suas potencialidades para o campo da Saúde Coletiva.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de abordagem interpretativa, orientada por referenciais decoloniais e pela valorização dos saberes tradicionais. Foram realizadas entrevistas em profundidade com lideranças de terreiros de Jurema Sagrada situados nos municípios de Recife e Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, buscando apreender os significados atribuídos ao processo saúde-doença-cura. A análise dos dados seguiu uma perspectiva temática, articulando as narrativas dos participantes com o referencial teórico da pesquisa, especialmente no que se refere às críticas à colonialidade e à ampliação das racionalidades em saúde.
Resultados e Discussão
Os achados evidenciam que a saúde, na Jurema Sagrada, é compreendida como equilíbrio entre corpo, espírito, relações sociais e forças da natureza, sendo constantemente construída nas relações entre sujeitos, território e espiritualidade. Essa compreensão desloca a centralidade do corpo biológico e insere o cuidado em uma rede ampliada de interdependências. A doença, por sua vez, é interpretada como expressão de desarmonias que podem envolver dimensões espirituais, energéticas, emocionais e relacionais, frequentemente associadas ao rompimento de vínculos, à desproteção espiritual ou ao desequilíbrio com o território.
A cura é concebida como um processo contínuo, as narrativas destacam práticas recorrentes de cuidado, como o uso de ervas medicinais, banhos, defumações, aconselhamento, rezas e rituais com os encantados, evidenciando uma clínica ampliada, relacional e territorializada. Tais práticas operam de forma integrada, não havendo separação rígida entre dimensões físicas, espirituais e emocionais do cuidado. Destaca-se a centralidade da coletividade e da espiritualidade como elementos constitutivos do cuidado, em contraste com a lógica individualizante predominante no modelo biomédico.
Observa-se que os terreiros operam como espaços de acolhimento contínuo, onde demandas de sofrimento psíquico, conflitos familiares e vulnerabilidades sociais são escutadas e cuidadas de forma integrada. A busca pelos terreiros ocorre, muitas vezes, em situações em que o cuidado biomédico não responde às necessidades dos sujeitos, revelando lacunas no modelo hegemônico e a centralidade das tecnologias leves, como escuta, vínculo e pertencimento, especialmente no enfrentamento de sofrimentos que extrapolam a dimensão estritamente clínica.
À luz do referencial decolonial, esses achados evidenciam a Jurema Sagrada como produtora de uma epistemologia do cuidado situada, que desloca o corpo biológico como centro exclusivo da atenção e afirma uma compreensão relacional da saúde. Trata-se de um saber insurgente que tensiona a universalidade biomédica e amplia as possibilidades de compreensão do processo saúde-doença-cura na Saúde Coletiva, reafirmando a necessidade de reconhecimento da pluralidade de racionalidades que coexistem nos territórios.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a Medicina Tradicional da Jurema Sagrada oferece contribuições relevantes para o campo da saúde, ao propor uma compreensão ampliada do cuidado, centrada na relação entre sujeitos, espiritualidade e território. Seus saberes e práticas evidenciam a potência de outras formas de produzir saúde, historicamente marginalizadas, mas amplamente presentes nos territórios. O reconhecimento dessas práticas e saberes se coloca como desafio e como possibilidade para a construção de um SUS mais equânime, plural e comprometido com a justiça cognitiva, implicando o fortalecimento de diálogos interculturais e o reconhecimento efetivo das medicinas tradicionais como parte do cuidado em saúde.
CONSTRUCCIÓN PARTICIPATIVA DE UN FLUJO INTERCULTURAL PARA LA ATENCIÓN DE LA ENFERMEDAD DE CHAGAS EN EL PUEBLO WIWA DE LA SIERRA NEVADA DE SANTA MARTA
Comunicação Oral
1 Proyecto CUIDA Chagas, Instituto Nacional de Salud de Colombia
2 Proyecto CUIDA Chagas, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), Fiocruz
3 Coordinador de Salud Pueblo Indígena Wiwa de la Sierra Nevada de Santa Marta
Contextualização
La enfermedad de Chagas representa un desafío de salud pública en comunidades indígenas de Colombia, donde las barreras culturales y estructurales limitan el acceso a las intervenciones biomédicas. El proyecto CUIDA Chagas (INS Colombia / INI-Fiocruz Brasil / Unitaid) abordó estas brechas mediante un enfoque intercultural participativo con el pueblo Wiwa de la Sierra Nevada de Santa Marta, comunidad indígena con un sistema de salud propio liderado por el Mamo y la Saga, que coexiste —no siempre en diálogo— con el sistema de salud colombiano.
Descrição
El acercamiento entre el INS y la comunidad Wiwa inició en 2023 con visitas de construcción de confianza, presentación del proyecto ante las autoridades tradicionales y la realización de un ritual de iniciación (pagamento) que marcó simbólica e institucionalmente el comienzo de las actividades. A partir de ahí, un equipo interdisciplinario sostuvo un proceso sistemático de participación comunitaria orientado a construir herramientas que articularan los dos sistemas de salud.
Período de Realização
El proceso de trabajo puede ser considerado desde 2023 hasta el momento (marzo de 2026). El flujo intercultural fue construido y validado entre septiembre de 2025 y marzo de 2026.
Objetivo
Construir participativamente un flujo intercultural de atención para la enfermedad de Chagas con el pueblo Wiwa, que integrara los saberes y autoridades tradicionales con los procedimientos del sistema biomédico, y validarlo como herramienta de comunicación comunitaria y de articulación entre sistemas de salud.
Resultados
El punto de inflexión ocurrió a través de la realización de un taller de comunicación y participación comunitaria (septiembre 2025), con participación de hombres y mujeres Wiwa y mediación de traductores comunitarios. Al presentar la ruta de atención desde la perspectiva biomédica, fue la propia comunidad quien solicitó construir un flujo con visión tradicional que pudiera colocarse en lugares visibles y permitiera que ambas medicinas se entendieran. Este giro —de la transferencia de información a la co-creación— fue determinante para el éxito del proceso.
Los equipos operativos se reunieron con Mamos y Sagas, líderes espirituales y de la salud tradicional, quienes construyeron el flujo con sus propias palabras, puntualizando los lugares sagrados: la consulta al Mamo y la Saga como primer punto de entrada, el promotor de salud como articulador, la consulta del Mamo con el padre y la madre del Chagas (entidades espirituales responsables de la enfermedad, desde la percepción Wiwa) en la laguna sagrada, y el trabajo espiritual paralelo al seguimiento biomédico. El equipo de comunicaciones diagramó estas definiciones y las sometió a revisión. Tras cuatro sesiones, el flujo fue aprobado por la comunidad. Del mismo taller surgieron otras solicitudes: una cartilla ilustrada para niños y niñas, un documental desde la cosmovisión Wiwa, y un material lúdico traducido al Damana, lengua propia del pueblo Wiwa.
Aprendizado e Análise Crítica
El mayor reto no fue la resistencia comunitaria a la medicina occidental, sino la asimetría de reconocimiento entre los dos sistemas (occidental y tradicional). La medicina tradicional Wiwa reconoce la ciencia biomédica como un instrumento válido; en contraste, el sistema de salud colombiano ha integrado muy marginalmente los saberes y autoridades tradicionales en sus rutas de atención. Esta asimetría, señalada por los participantes durante el proceso, generó una reflexión crítica sobre cómo su sistema valora nuestros conocimientos, mientras que nosotros poco valoramos los suyos.
El equipo de comunicaciones actuó no solo como productor de materiales, sino como facilitador del diálogo entre visiones de mundo. La participación de José Antonio Macagui Malo, coordinador de salud del pueblo Wiwa, como integrante del equipo garantizó legitimidad interna y fidelidad a la perspectiva comunitaria. La aprobación del flujo, además de ser un logro técnico para el equipo de investigadores, es la expresión de un modelo de gobernanza donde la autoridad tradicional tiene poder real sobre la ruta de atención, con implicaciones directas para la política de salud intercultural y para la implementación de intervenciones contra otras enfermedades desatendidas en territorios indígenas.
DIÁLOGO INTERCULTURAL EM SAÚDE: UMA EXPERIÊNCIA DO PET-SAÚDE EQUIDADE COM O POVO TUPINAMBÁ DE OLIVENÇA, ILHÉUS - BA
Comunicação Oral
1 PROFESSORA ASSISTENTE DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ
2 PROFESSORA ASSISTENTE DO DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ
3 PSICÓLOGA DO POLO BASE DE SAÚDE INDÍGENA - ILHÉUS - BA
4 DISCENTE DE MEDICINA UESC DISCENTE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ
5 DISCENTE DE ENFERMAGEM PELA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ
Contextualização
O Grupo de Estudos do PET-Saúde Equidade (GEPET) surge como estratégia para promover encontros formativos e reflexões coletivas sobre temáticas relacionadas à equidade em saúde. A proposta dialoga com referenciais da Saúde Coletiva e da antropologia da saúde, especialmente no que tange à crítica à colonialidade do saber e à valorização de epistemologias plurais no cuidado. O sexto encontro destacou a formação crítica com ênfase na equidade, interculturalidade e na valorização dos saberes tradicionais indígenas nas práticas de cuidado, destacando a necessidade de superação de práticas biomédicas hegemônicas, reconhecendo as dimensões socioculturais, históricas e territoriais no contexto do cuidado da saúde indígena.
Descrição
A atividade intitulada “Diálogos em saúde intercultural e equidade: perspectivas indígenas” foi implementada em formato de roda de conversa, com a participação de 60 pessoas (estudantes, docentes e profissionais de saúde). Contou com o protagonismo de representantes indígenas do Território Tupinambá de Olivença, distrito de Ilhéus-Ba. O encontro iniciou com um ritual tradicional - Porancy, reafirmando identidades e espiritualidades. Em seguida, foram compartilhadas práticas de cuidado, com ênfase no uso medicinal de plantas em chás, banhos, emplastros e defumadores articuladas às experiências no território. Essas práticas evidenciaram a inseparabilidade entre cuidado, território, espiritualidade e modos de vida, tensionando a fragmentação característica do modelo biomédico. Os profissionais de saúde destacaram os desafios e potencialidades do trabalho em saúde indígena no território, enfatizando a interculturalidade como princípio estruturante do cuidado e a necessidade de reconhecimento e legitimação dos saberes ancestrais, do diálogo entre biomedicina e saberes ancestrais, que por muito tempo, foram as únicas estratégias acessíveis de saúde à estas comunidades.
Período de Realização
O 6º encontro do GEPET foi realizado em 09 de dezembro de 2025, no Auditório do Pavilhão Max de Menezes, na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus-BA.
Objetivo
Relatar as experiências do 6º encontro do GEPET como um espaço de protagonismo indígena, diálogo horizontal, troca de saberes e reflexão crítica sobre a saúde intercultural, evidenciando perspectivas além do modelo biomédico e fortalecendo a equidade no cuidado e na formação em saúde.
Resultados
O encontro do GEPET foi um espaço coletivo potente de valorização da equidade e da cultura local, possibilitando a ampliação do entendimento sobre práticas de cuidado indígenas e fortalecendo o reconhecimento da interculturalidade como elemento essencial no cuidado integral à saúde, que não se limita apenas ao corpo físico, mas envolve espiritualidade, território e modos próprios de viver, curar e adoecer. Foi uma experiência marcante quanto à necessidade de práticas culturalmente competentes e integradas, à compreensão sobre os desafios e vulnerabilidades sociais e de saúde enfrentados nos territórios indígenas locais e a contribuição significativa para a formação acadêmica e profissional dos discentes e profissionais envolvidos. Os Tupinambás presentes relataram que o momento significou uma oportunidade de reconhecimento de sua cultura e de suas práticas, alimentando a esperança em futuros diálogos e trocas de saberes. Destacando-se, por exemplo, a possibilidade de publicação futura sobre inventários de plantas medicinais do território e seus usos cotidianos, envolvendo pesquisadores, profissionais de saúde, agente de saúde indígena e anciãos.
Aprendizado e Análise Crítica
Evidenciou-se que a interculturalidade exige diálogo horizontal, respeito aos saberes tradicionais e reconhecimento das desigualdades históricas. A valorização das práticas tradicionais revelou-se fundamental para a integralidade do cuidado e fortalecimento da equidade. A interculturalidade emerge como eixo estruturante para práticas mais inclusivas e resolutivas, especialmente em contextos marcados por desigualdades estruturais e colonialidade do saber. Ademais, o encontro contribuiu para o desenvolvimento de competências interculturais, ampliando a capacidade crítica e reflexiva de futuros (as) profissionais da saúde presentes.
A experiência demonstra que a educação popular em saúde é fundamental para qualificar práticas interculturais e promover cuidado integral. Além disso, a construção de uma bioética intercultural exige reconhecer a pluralidade de saberes e enfrentar o racismo estrutural e o etnocentrismo presente nas práticas de saúde. Nesse sentido, o GEPET consolidou-se como uma estratégia potente e viva para a construção coletiva do conhecimento, que contribui para a transformação social, formação de profissionais mais comprometidos com a equidade e a defesa da diversidade étnico-cultural.
Realização: