Programa - Comunicação Oral - CO17.2 - Protagonismo dos povos tradicionais, seus saberes ancestrais no campo da educação popular e as contribuições na saúde coletiva nos territórios (2)
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ENVELHECER EM COLETIVO E NO TERRITÓRIO: SENTIDOS, AUTONOMIA E CUIDADO ENTRE MULHERES IDOSAS EM UMA EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO POPULAR E SAÚDE
Comunicação Oral
1 UFPB
Contextualização
O envelhecimento é frequentemente associado a perdas e limitações, porém, nas vivências cotidianas de mulheres idosas inseridas em espaços coletivos de socialização e convivência comunitária, esse processo pode assumir outros significados, atravessados por histórias de vida, relações sociais e novas possibilidades de existência. As percepções aqui apresentadas foram registradas a partir do Grupo de Relaxamento e Bem viver, uma experiência de Educação Popular desenvolvido no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), onde, por meio de encontros semanais, emergem narrativas que revelam o envelhecer como um tempo de ressignificação, e ao mesmo tempo de luta por direitos e resistência ante as iniquidades sociais e em Saúde.
Descrição
O presente relato foi construído a partir de percepções colhidas ao longo dos encontros do Grupo, realizados semanalmente em uma comunidade urbana vinculada à APS, com a participação de mulheres idosas que, em sua maioria, vivem sozinhas. Os encontros ocorrem de forma dialogada, articulando momentos de convivência, práticas de cuidado e rodas de conversa sobre temas do cotidiano. O grupo é promovido de forma articulada pelo Programa de Extensão “Práticas Integrais de Promoção da Saúde e Nutrição na Atenção Básica (PINAB)”, vinculado ao Departamento de Promoção da Saúde da Universidade Federal da Paraíba, em parceria com lideranças e educadoras populares locais e com o apoio da equipe da Unidade de Saúde da Família Vila Saúde. As percepções sobre o envelhecimento emergiram a partir das falas e trocas de experiências entre as participantes, sem abordagem temática direta. As discussões envolveram aspectos do cotidiano, como relações familiares, condições de saúde e trajetórias de vida, possibilitando a expressão dos sentidos atribuídos ao envelhecer.
Período de Realização
As anotações foram registradas entre junho de 2025 e fevereiro de 2026, a partir da participação nos encontros semanais do Grupo realizados na comunidade.
Objetivo
Compreender as percepções de mulheres idosas sobre o processo de envelhecimento, a partir de experiências e narrativas registradas, em anotações dos pesquisadores, ao longo dos encontros do Grupo, destacando como constroem sentidos para essa etapa da vida.
Resultados
Ao longo das discussões, ainda que não centradas diretamente nessa temática, evidenciam-se trajetórias marcadas por casamentos precoces, dedicação ao cuidado da família e poucas oportunidades de investimento pessoal. No momento atual, muitas dessas mulheres, vivendo sozinhas, passam a atribuir novos sentidos à própria vida, reconhecendo essa fase como um período de maior liberdade, maior controle sobre a própria vida e possibilidade de escolha. As trocas estabelecidas entre elas, marcadas pela escuta, pela partilha e pelo apoio mútuo, evidenciam a construção de vínculos que sustentam formas mais positivas e potentes de vivenciar o envelhecimento. As narrativas indicam que o envelhecimento tem sido percebido como um período de transformação, marcado por maior possibilidade de conduzir a própria rotina. Após trajetórias centradas no cuidado da família, muitas participantes associam o momento atual a uma sensação de liberdade e redescoberta de si. Destaca-se a valorização de experiências antes inacessíveis, como a participação na Educação de Jovens e Adultos, compreendida como um marco de independência e fortalecimento da autoestima. Observa-se ainda a construção de vínculos baseados na partilha de experiências, no apoio em situações de adoecimento e no compartilhamento de práticas de cuidado. De forma pontual, aparecem dificuldades no acesso aos atendimentos em saúde, que são frequentemente enfrentadas com o apoio entre as próprias participantes, reforçando a importância dessas relações no cotidiano.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que a construção do coletivo se apresenta como um elemento fundamental no modo como essas mulheres enfrentam os desafios do cotidiano. O cuidado entre elas se materializa em gestos concretos de apoio, seja em momentos de solidão, de adoecimento ou diante de dificuldades práticas do dia a dia, revelando que as relações estabelecidas funcionam como uma importante rede de sustentação. A convivência favorece não apenas a partilha de experiências, mas também a construção de vínculos que fortalecem a confiança, o pertencimento e a segurança entre as participantes. Cabe destacar que se percebem conflitos também entre as mulheres idosas participantes do grupo, seja por questões de dinâmica familiar daquelas que provém do mesmo núcleo, seja por discordâncias acerca de questões e debates internos e próprios da própria dinâmica comunitária. No entanto, percebe-se que a perspectiva da Educação Popular consegue colocar em mediação tais conflitos na medida em que o diálogo é pautado como mediador das diferenças de relação, e também considerando a ênfase em uma abordagem e sociabilidade orientada pelo vínculo e pelo respeito humanista entre as participantes.
ESTRATÉGIAS INSTITUCIONAIS PARA O FOMENTO À PESQUISA APLICADA CONTRA AS OPRESSÕES QUE ESTRUTURAM INIQUIDADES EM SAÚDE: DESAFIOS HISTÓRICOS E APRENDIZADOS RECENTES
Comunicação Oral
1 ENSP/Fiocruz
2 VPPCB/Fiocruz
Contextualização
Considerando os efeitos nocivos das desigualdades e estruturas de opressão da sociedade brasileira, assim como da pesquisa em saúde coletiva, o Programa de fomento à pesquisa na área de políticas públicas e humanidades da Fiocruz (VPPCB/PMA), propõe estratégias de enfrentamento à manutenção dos poderes que sustentam as iniquidades.
Em 2023 publica edital de fomento à pesquisa cujos pressupostos e temática vinculam a produção científica a ser fomentada ao trabalho em redes colaborativas e interdisciplinares, pesquisa de intervenção com soluções ao SUS, condicionando que as pesquisas adotem perspectiva alternativas aos efeitos danosos do patriarcalismo, do capacitismo, do racismo, da hipervalorização da epistemologia euronortecentrada e da atuação da branquitude estrutural e estruturante da sociedade brasileira que, pela interseccionalidade, atuam de forma desproporcionalmente mais opressora sobre os mais oprimidos.
Descrição
Para a formulação deste edital foram identificados os aprendizados do Programa com fomentos desde 2010, foram sistematizadas as referências de editais nacionais e internacionais com objetivos e/ou estratégias semelhantes, inclusive de ações afirmativas e proposições para indução a este tipo de produção de conhecimento que valorize todos os saberes, inclusive os das populações brasileiras tradicionalmente apagadas pela branquitude. Foram descritos os grupos populacionais vulnerabilizados e vocalizados como prioritários, tanto como sujeitos portadores e produtores de saberes e conhecimentos a serem usados na produção científica, como para comporem as equipes de pesquisa. Foram valorizadas as equipes e propostas temáticas a partir da diversidade racial, de gênero, de pessoas com deficiência, por local de moradia e socioeconômica. A diversidade foi apresentada como condicionada à equidade e à necessidade de estratégias de decolonização do conhecimento científico, bem como o enfrentamento dos efeitos nocivos que os marcadores de desigualdade têm sobre o SUS e o direito universal à saúde.
As estratégias de enfrentamento às desigualdades históricas na produção científica e no campo da pesquisa em saúde no Brasil ainda são contrahegemônicas, o que traz um grande desafio institucional de correlação de forças, até mesmo para manutenção dos propósitos do Programa.
Período de Realização
2010-26
Objetivo
O objetivo é apresentar os resultados e desafios da indução a esse tipo de indução de conhecimento científico e o conjunto de reflexões suscitadas que levaram ao desenvolvimento de um edital diferenciado para produzir ciência transdisciplinar, aplicada e de intervenção no campo da saúde coletiva.
Resultados
Foram selecionadas 30 pesquisas para fomento, que compõem a Rede Equidade com Diversidade, atuando com populações moradoras em territórios historicamente vulnerabilizados. Este edital também levou à proposição de outro Edital (2026) de contribuições do papel da Saúde Coletiva no enfrentamento ao Feminicídio e no fortalecimento da Política Nacional de Cuidado (2024). É um fomento peculiar no Brasil, inovador na gestão do PMA e no conhecimento científico contrahegemonico que incentiva ser produzido com fundos públicos, o qual incide sobre a realidade, sobre qual ciência é produzida e o que é inovação.
Para tanto, a institucionalidade do Programa se referencia à epistemologias do sul necessariamente produzidas pelo sul, com o sul e para o sul global, em busca de induzir uma ciência feminista e decolonial que incida sobre o SUS, seja pelo sistema de saúde, seja pelas estruturas da sociedade brasileira observadas em usuáries do SUS, trabalhadores e pessoas que atuam em movimentos sociais.
Aprendizado e Análise Crítica
Fortalecer campos de pesquisa que dialoguem com todos esses saberes e reverberem nas políticas públicas, sem ser reducionista, traz como perspectiva um longo caminho de trabalho a ser percorrido, com recuos estratégicos para seguir e avanços processuais, observados ao longo dos anos, em busca da transformação dos dispositivos institucionais de fomento em pesquisa e de ética da produção do conhecimento científico de saúde pública no país.
Requer romper a lógica da reprodução das estratégias de manutenção de privilégios da branquitude, valorizar como protagonistas no desenvolvimento dos projetos de pesquisa os segmentos da população que foram historicamente desvalorizados, desqualificados e excluídos, tratados como objetos de estudo – o que move estruturas de poder do saber. É um desafio imenso.
Outro desafio é promover uma cultura institucional em uma comunidade de pesquisadoras e pesquisadores que é composta, na sua grande maioria, por pessoas de raça branca e de formação na área biomédica, cuja produção científica pouco dialoga com o enfrentamento radical das estruturas de poder no país, ao contrário. E isso reflete também no financiamento e na visibilidade dados ao Programa.
GRUPO DE RELAXAMENTO E BEM VIVER: UMA EXPERIÊNCIA DE CUIDADO, PARTICIPAÇÃO E EDUCAÇÃO POPULAR NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral
1 UFPB
2 Comunidade Boa Esperança
Contextualização
O Grupo de Relaxamento e Bem Viver é uma iniciativa de Educação Popular pautada pelo encontro comunitário na perspectiva da promoção da saúde, partilha de experiências e discussão crítica da realidade no contexto da Atenção Primária à Saúde na comunidade Boa Esperança, bairro Cristo em João Pessoa, Paraíba, Brasil. É orientado pela perspectiva teórico-metodológica da Educação Popular em Saúde (EPS) para construção do diálogo e da problematização da realidade no contexto da saúde e do enfrentamento às iniquidades sociais. Tal grupo é promovido de forma articulada a uma ação do Programa de Pesquisa, Ensino e Extensão “Práticas Integrais de Promoção da Saúde e Nutrição na Atenção Básica” (PINAB), ancorado institucionalmente no Departamento de Promoção da Saúde do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Descrição
O grupo é integrado por moradoras da comunidade, lideranças comunitárias e educadoras populares locais, extensionistas do Programa, docentes orientadores do Programa e convidados, trabalhadores da Unidade Básica de Saúde (UBS) Vila Saúde. Os encontros do grupo ocorrem de forma semanal na comunidade, construídos horizontalmente, de modo dialogado com os interesses da comunidade, assim qualquer participante pode sugerir temáticas para os encontros e/ou mediá-los. A dinâmica dos encontros inicia com a escuta atenta dos relatos das participantes sobre os acontecimentos do cotidiano que foram mais significativos durante a semana e uma prática voltada para o relaxamento, como meditação, alongamentos e massagens. Em seguida, ocorre a roda de conversa em torno de alguma temática - previamente definida ou sugerida no dia do encontro - que gira em torno dos mais diversos assuntos, como memórias da infância, o acesso à água e o atendimento em saúde na UBS; invariavelmente, questões oriundas de propostas, demandas e necessidades dos próprios participantes da comunidade. Depois da discussão, são realizadas Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) e Práticas Populares de Saúde, tais como escalda pés, massoterapia e ventosaterapia, entre outras. O encerramento ocorre com a partilha de alimentos em um lanche coletivo. Ao longo da semana a comunicação com a comunidade se dá por meio da troca de áudios, fotos e vídeos em um grupo virtual no WhatsApp.
Período de Realização
O grupo iniciou em 2019 e continua até os dias atuais.
Objetivo
Promover a construção de saberes compartilhados e o fortalecimento do protagonismo comunitário, por meio de discussões acerca das iniquidades em saúde. Busca-se, assim, fomentar estratégias que contribuam para a melhoria das condições de vida, bem como ampliar a concepção de saúde no território, valorizando práticas populares e ancestrais de cuidado.
Resultados
Temas como as memórias da infância, os hábitos alimentares, os enfrentamentos vivenciados ao longo da vida, o convívio solidário com vizinhos e as dificuldades de acesso a serviços de saúde são frequentemente abordados pelo grupo. Ao longo das rodas de conversa, observa-se que questões inicialmente percebidas como individuais revelam-se coletivas, favorecendo a união das participantes em um movimento de compartilhamento de expectativas, sentimentos, estratégias e formas de cuidado para o enfrentamento conjunto das adversidades. Nesse processo, destaca-se a promoção do bem-estar geral das participantes, mediada pela escuta ativa, pelas práticas integrativas e pela troca de saberes, fortalecendo vínculos sociais, ampliando a autonomia das mulheres envolvidas e contribuindo para a construção de uma rede de apoio mais sensível às necessidades locais. Além disso, esse espaço coletivo possibilita o reconhecimento das próprias vivências como fonte legítima de conhecimento, incentivando a valorização das experiências individuais no contexto comunitário e promovendo maior engajamento nas ações de cuidado em saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
No grupo, o protagonismo comunitário possibilita a construção de um espaço dialógico, respeitoso e propositivo, no qual as participantes, de forma coletiva, tecem compreensões, elaboram problematizações e constroem estratégias para manejo das adversidades, a partir do exercício contínuo da escuta, do cuidado e da partilha de experiências, fortalecendo a autonomia, a consciência crítica e o reconhecimento das participantes como sujeitos ativos no processo de produção do cuidado. Por outro lado, a experiência também aponta desafios, como a necessidade de garantir a continuidade das ações, ampliar o diálogo com os serviços de saúde e fortalecer o reconhecimento dessas práticas no âmbito institucional. Nesse contexto, ressalta-se a importância da manutenção de metodologias participativas, que respeitem os saberes e os tempos da comunidade, reforçando o grupo como um espaço de construção coletiva, promoção do cuidado e fortalecimento de vínculos no âmbito da Atenção Primária à Saúde.
MÃOS QUE RECEBEM, CORAGEM QUE SUSTENTA: PRÁTICAS DE CUIDADO E PAPEL SOCIAL DE PARTEIRAS TRADICIONAIS EM COMUNIDADES RIBEIRINHAS DO PARÁ.
Comunicação Oral
1 FSP USP
Apresentação/Introdução
No começo do século XIX, os partos no Brasil eram quase exclusivamente domiciliares, com auxílio de parteiras. Contudo, com a hegemonia do modelo biomédico nos serviços e nas políticas de saúde, a assistência ao parto tornou-se mais medicalizada e hospitalar. Desde então, o processo gravídico-puerperal foi submetido à institucionalização e intervenções, por vezes desnecessárias, que desnaturalizam o gestar e parir.
Entretanto, em territórios com barreiras de acesso aos serviços de saúde, de natureza geográfica, econômica e cultural, a atuação de parteiras tradicionais permanece valorizada, sobretudo por comunidades tradicionais e rurais. Nesse contexto, constituem uma possível referência no cuidado materno-infantil. Apesar do respaldo de políticas públicas, como o Programa Trabalhando com parteiras tradicionais, sua integração ao SUS ainda enfrenta desafios.
Objetivos
Analisar o significado de “ser parteira”, seu papel social, processos formativos e desafios, bem como documentar os saberes e práticas tradicionais voltados às mulheres ribeirinhas no ciclo gravídico-puerperal.
Metodologia
Estudo exploratório, de abordagem qualitativa, derivado de dissertação em Saúde Pública. A coleta de dados ocorreu em julho de 2025, de forma remota (Comunidade do Guajará, Santarém-PA) e presencial (Prainha-PA e seu distrito, Santa Maria do Uruará). Foram realizadas 22 entrevistas semiestruturadas com três grupos: 9 parteiras, 6 profissionais de saúde e 7 usuárias (5 gestantes e 2 puérperas), todas gravadas mediante consentimento.
A análise seguiu a Análise de Conteúdo de Bardin. As entrevistas foram transcritas e revisadas. O processo analítico compreendeu três etapas: pré-análise (organização e leitura flutuante do material), exploração do material (codificação) e tratamento e interpretação dos resultados. Realizou-se ainda triangulação entre os grupos.
Resultados e Discussão
O "ser parteira" emerge como identidade marcada pela coragem diante da ausência institucional e pela fé como dom espiritual, sustentada pela experiência empírica, transmissão intergeracional e forte vínculo comunitário. As trajetórias formativas permitiram categorizar as parteiras em: técnicas, com formação secundária em técnico de enfermagem; e tradicionais, subdivididas em empíricas, de aprendizado intergeracional, e certificadas, capacitadas por organização não governamental. Essa configuração articula três dimensões indissociáveis: vocação, experiência e formação técnica.
Evidencia-se a fragilidade na implementação de políticas públicas, com ausência de capacitação e reconhecimento formal, parteiras inseridas no SUS são registradas em funções distintas à sua prática, como serviços gerais. Além disso, a ausência de organização social fragiliza a atuação dessas profissionais, o que limita o fortalecimento político e coletivo da profissão. Apesar disso, mantêm atuação contínua do pré-natal ao puerpério, sustentada por vínculos, confiança e reconhecimento comunitário, com articulações informais e fragmentadas com profissionais de saúde.
No que se refere às práticas, destaca-se um sistema de cuidado integral, envolvendo dimensões corporais, espirituais e emocionais, com ênfase em: puxação, utilizada para alívio de dores, avaliação da posição fetal e, em alguns casos, reposicionamento do bebê; plantas medicinais, chás e garrafadas, empregados para tratar desconfortos, promover saúde e, por vezes, estimular o trabalho de parto; e banhos de asseio e escalda-pés, voltados à cicatrização, alívio de sintomas, e bem-estar. Também são frequentes práticas de cunho espiritual, como rezas, por exemplo a Oração da Santa Margarida para auxílio no parto.
Outras práticas incluem soprar uma garrafa para auxiliar na dequitação placentária, clampeamento tardio do cordão umbilical, enterramento da placenta, manobras corporais e estratégias de reanimação neonatal com recursos disponíveis. No pós-parto, destacam-se orientações como resguardo, restrições alimentares (evitar alimentos remosos), e acompanhamento da puérpera de 3 a 7 dias, configurando uma rede de apoio contínua. Evidenciando, um modo de cuidar que articula corpo, espiritualidade e comunidade, reafirmando o papel de agente de saúde integral das parteiras nos territórios ribeirinhos.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados revelam que o cuidado das parteiras constitui um sistema complexo, intergeracional e culturalmente legitimado, que articula corpo, espiritualidade e território, mostrando-se fundamental em contextos de vulnerabilidade e difícil acesso aos serviços. Contudo, há uma invisibilidade institucional marcada pelo não reconhecimento formal dessas profissionais. O fortalecimento e a integração desses saberes ao SUS, por meio da efetivação de políticas podem ser estratégicos para a construção de um modelo híbrido de cuidado mais integral, equânime e culturalmente sensível. Assim, ampliando sua visibilidade e revalorização social, e favorecendo o diálogo contínuo entre conhecimentos tradicionais e científicos.
O PAPEL DAS COMUNIDADES TRADICIONAIS E DOS SABERES ANCESTRAIS NA PROMOÇÃO DA SAÚDE
Comunicação Oral
1 Universidade Federal da Bahia
2 Núcleo de Estudos e Pesquisa em Gênero, Raça e Saúde
3 Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública
4 Universidade do Estado da Bahia
5 Centro de Pesquisa, Aprendizagem e Inovação da Fundação José Silveira
Apresentação/Introdução
Os Povos e Comunidades Tradicionais são grupos culturalmente diferenciados e que possuem formas próprias de organização social, estabelecem uma relação com o território de respeito, na qual os elementos da natureza se constituem como integrantes da sua construção identitária. Possuem uma cosmovisão própria, chave para pensar e organizar os modos de vida, as relações coletivas e como se estabelece a interação com o meio ambiente. Esta interação deveria direcionar as formas de compreensão e promoção de cuidados em saúde. No entanto, o que se observa na prática é uma negligência na assistência à saúde desses grupos, principalmente por desconsiderar as peculiaridades na sua forma de existir e de pensar a saúde. Em paralelo, as comunidades tradicionais vivenciam uma construção de ideário de saúde, na qual a religiosidade, a fé, o acesso à terra, os elementos da natureza e seus produtos são basilares. A pandemia de Covid-19 acentuou as desigualdades sociais vivenciadas por essas populações, o que culminou com o aumento das iniquidades em saúde. Nesse contexto, os seus saberes ancestrais se configuraram como uma estratégia de sobrevivência e garantia da saúde mental e física.
Objetivos
Refletir o papel dos saberes ancestrais de comunidades tradicionais na promoção e assistência à saúde em momentos de crise sanitária.
Metodologia
Pesquisa “Enfrentamento das Iniquidades em Saúde, no contexto da Pandemia de COVID-19, a partir das Vivências e dos Saberes Produzidos pelas Comunidades Tradicionais em Salvador e Região Metropolitana”, financiada pelo CNPq e desenvolvida pelo NEGRAS/UFBA. Através da pesquisa foram realizadas entrevistas, grupos focais, rodas de conversa e oficinas com representantes de três comunidades tradicionais, o Centro de Caboclo Sultão das Matas, a comunidade de pescadores de Jiribatuba e a comunidade quilombola de Tereré/Maragogipinho, de 2022 a 2025. O contato com essas comunidades foi facilitado por suas lideranças. As informações obtidas foram analisadas através da análise de conteúdo.
Resultados e Discussão
No período pandêmico várias foram as estratégias utilizadas pelas comunidades quando houve ausência ou fragilidade da ação dos profissionais de saúde. Destacamos a iniciativa de uma moradora de Jiribatuba confeccionando máscaras e orientando a população quanto a sua necessidade. Além disso, o uso de frutas, ervas e da alimentação marinha foram essenciais para os cuidados e prevenção contra a contaminação. A fé foi um elemento importante em todas as comunidades, promovendo equilíbrio e saúde mental. Na Comunidade de Terreiro, a fé nos caboclos foi utilizada como importante instrumento de união e fortalecimento comunitário, proporcionando orientação para o cuidado promovido pela líder religiosa. Ela realizou lives para as pessoas que estavam hospitalizadas, com o propósito de levar conforto e cuidado. Em Tereré/Maragojipinho, o fortalecimento da identidade quilombola foi um ponto importante. O reconhecimento da sua ancestralidade contrapôs-se aos manejos políticos e foi essencial para este território, que sofre com a ausência do acesso aos bens e serviços. Além disso, esta comunidade demonstrou a força das folhas e ervas na alimentação e cuidado em saúde, evidenciando o uso do saber ancestral para fortalecimento da coletividade. O racismo institucional exerce influência na implementação das políticas voltadas ao cuidado das comunidades tradicionais. Apesar da existência no âmbito do SUS de políticas que considerem as suas especificidades culturais, regionais, religiosas, o cotidiano demonstra que sua existência é negada. Os achados destacam e reiteram como a relação entre indivíduo e território, junto ao pertencimento comunitário, agem como fatores de proteção contra violências sistêmicas, ao mesmo tempo em que se configuram como ambiente promotor da saúde através do fortalecimento e emancipação comunitária, manutenção e resgate dos saberes tradicionais, estes reforçados pela fé e religiosidade como fios condutores para a cura física e mental, a partir do conhecimento ancestral e do uso de recursos naturais.
Conclusões/Considerações Finais
Apesar das diversas barreiras geradas pelo racismo na sociedade brasileira, culminando na desconsideração das especificidades das comunidades tradicionais, foi a potencialidade destes grupos no que se refere a perpetuação dos conhecimentos ancestrais que garantiram para estas os cuidados necessários em saúde nos momentos de crise sanitária como foi o caso da Covid-19. Estas comunidades se organizaram coletivamente para a garantia do bem estar de seus membros, seja por meio do remédio ou da palavra que cura de um Caboclo, seja pela produção de alimento na própria comunidade, o que se nota é a força ancestral que pulsa nesses territórios, ressaltando identidades e cultura. Fica evidente que para elas a promoção da saúde é vista muito além da dimensão biomédica, ganhando a dimensão de coletividade.
O SUS QUE NAVEGA: PARA ALÉM DOS DESAFIOS, O FAZER SAÚDE NO TERRITÓRIO LÍQUIDO AMAZÔNICO
Comunicação Oral
1 ENSP/Fiocruz
2 IESC/UFRJ
3 SEMSA/Manicoré
Contextualização
O debate em saúde coletiva tem destacado a importância da articulação entre interculturalidade, ambiente e território na produção do cuidado, especialmente em contextos amazônicos. Nesses territórios, a atenção à saúde é profundamente atravessada pelas dinâmicas ambientais, especialmente pelo regime dos rios, que reconfiguram modos de vida, circulação e acesso aos serviços. Nesse contexto, populações ribeirinhas constroem práticas de cuidado articuladas ao ambiente, evidenciando a indissociabilidade entre saúde, território e cultura. Tais especificidades tensionam modelos tradicionais de organização da atenção primária e demandam abordagens sensíveis às realidades locais.
Descrição
Trata-se de um relato de uma residente em Saúde Coletiva do Rio de Janeiro que atuou com uma equipe de saúde da família ribeirinha, por 25 comunidades rurais, no interior do Amazonas, durante o período da cheia dos rios, usando embarcação simples. A cheia impôs mudanças significativas no território: deslocamento de famílias, escolas fechadas, alteração de rotas, intensificação de doenças relacionadas à água e ausência de infraestrutura básica, como energia elétrica. Ao mesmo tempo, possibilitou o acesso a localidades antes isoladas na seca, adaptação do cuidado itinerante, fortalecimento de vínculos no “território de vida das pessoas”, com valorização da escuta, das práticas locais e da organização comunitária.
Período de Realização
02 de maio a 21 de maio de 2025, durante o período de cheia dos rios amazônicos.
Objetivo
Evidenciar como as dinâmicas ambientais da cheia reconfiguram o processo de trabalho em saúde, evidenciando desafios, estratégias de adaptação e, sobretudo, as potências produzidas na articulação entre território, modos de vida e práticas de cuidado.
Resultados
A experiência evidenciou que a cheia, embora amplifique desafios logísticos e sanitários, também produz condições singulares de acesso e cuidado. A necessidade de apoio fluvial implicou aumento de custos e reorganização do trabalho, enquanto a ausência de energia demandou soluções improvisadas para assistência. Em contrapartida, o período favoreceu a ampliação do acesso a comunidades antes remotas, favorecendo uma atuação mais integrada e o fortalecimento de vínculos. Ademais, a equipe adaptou os atendimentos ao território, com escuta ativa e práticas tradicionais, valorizando o protagonismo ribeirinho e revelando que, mesmo em meio à instabilidade geográfica, é possível promover um cuidado contextualizado.
Aprendizado e Análise Crítica
A vivência, além dos desafios, revela potências do cuidado em saúde no território líquido, evidenciando que o mesmo exige flexibilidade, criatividade e humildade cultural. A experiência ampliou a visão da residente sobre a potência do SUS em contextos geográficos adversos, a importância da valorização dos saberes locais e da construção compartilhada do cuidado, reconhecendo as populações ribeirinhas como protagonistas, e revelando que o cuidado pode (e deve) se moldar às águas, às pessoas e aos caminhos possíveis. Ademais, como aprendizado também, surge a reflexão da necessidade de uma transformação epistemológica nas práticas em saúde, deslocando o modelo centrado exclusivamente no saber biomédico para uma abordagem que incorpore conhecimentos territoriais, ambientais e culturais. Assim, o território deixa de ser apenas cenário e passa a ser elemento ativo na produção do cuidado.
Realização: