Programa - Comunicação Oral Curta - COC21.2 - Racismo estrutural, dados epidemiológicos e saúde reprodutiva
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
DESIGUALDADES RACIAIS EM SAÚDE: ANÁLISE INTERSECCIONAL DO PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA HANSENÍASE E TUBERCULOSE EM ARARUAMA (RJ) NOS ANOS DE 2015 A 2024
Comunicação Oral Curta
1 Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro (IMS/UERJ)
Apresentação/Introdução
A hanseníase e a tuberculose são doenças infecciosas que apresentam alto índice em pessoas vulnerabilizadas e devem ser priorizadas entre as estratégias de gestão da Política Nacional da Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), pela relação significativa com o quesito raça/cor e incidência desproporcional sobre a população negra. O município de Araruama, localizado no interior do Estado do Rio de Janeiro (ERJ), possui uma população estimada, em 2025, de 137.906 habitantes. O Estatuto de Igualdade Racial (Brasil, 2010), considera a População Negra sendo o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas, sendo a população de Araruama constituída por 60,91% negros, 45,09% brancos, 0,07% amarelos e 0,12% indígenas (IBGE, 2022).
Objetivos
Esta pesquisa tem como objetivo geral analisar o perfil epidemiológico racial dos casos de hanseníase e tuberculose no município de Araruama localizado no ERJ nos anos de 2015 a 2024, a partir da perspectiva analítica interseccional.
Metodologia
Trata-se de um estudo de método misto (quali-quantitativo) que analisa dados secundários provenientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) a partir de uma abordagem interseccional e socioantropológica. Foram analisados os casos de tuberculose e hanseníase notificados no município de Araruama (RJ), no período de 2015 a 2024, a partir de dados de domínio público disponibilizados pela base do ERJ, bem como a experiência da primeira autora deste trabalho como enfermeira gestora em Programas Municipais de Controle da Hanseníase e da Tuberculose há 6 anos.
Resultados e Discussão
RESULTADOS
Ao analisar o Número de Casos Totais de Hanseníase no município de Araruama pelo recorte raça/cor, através de uma série histórica entre os anos de 2015 e 2024, obtivemos um total de 130 casos, sendo o percentual de raça/cor ignorada de 8,46%, a branca com 26,9%, indígena com 0,8% e a negra com 63,8% dos casos totais. Ao detalharmos os dados evidenciamos, visualizamos alguns anos com aumento desigual na população negra. No ano de 2018 a população negra atingiu 90,0% e a branca 10%, em 2019 a população negra obteve 100% dos casos. Em 2023, 76,0% dos casos em pessoas negras, 12% em brancas e 12% tiveram a raça/cor ignorada.
Ao analisarmos os dados da tuberculose foram encontrados os seguintes resultados, nos Casos Totais de Tuberculose notificados entre os anos de análise, obteve-se 552 casos totais de tuberculose no agrupado do período analisado, sendo 69,6% na população negra, 18,7% na população branca, 0,7% na amarela, 0,2% indígena e 10,9% tiveram a raça/cor ignorada.
Na análise do total de cura dos casos novos pulmonares com confirmação laboratorial, obtivemos os seguintes dados: 133 casos apresentaram cura, no qual, na proporção dos casos na população negra tivemos um percentual de cura de 66,9%, na população branca de 78,4%. Tendo alguns anos como 2016, 2017, 2020 e 2022, essa proporção chegou à 100% de cura na população branca, tendo uma média nos demais anos acima de 65%. Já a população negra apresentou índices instáveis, onde no ano de 2023 apresentou uma proporção de 37,5% de cura.
Nesse contexto, ao avaliarmos o retratamento dos casos totais, visualizamos que entre os anos de 2015 e 2024, 83,1% dos casos de retratamento ocorreram na população negra, e 13,5% dos casos na população branca e 3,4% tiveram a raça/cor ignorada. Nos anos de 2016, 2020 e 2023, 100% dos retratamentos ocorreram na população negra.
DISCUSSÃO
Ao analisarmos os dados descritos acima e vivenciados na prática, vemos que os quantitativos de casos totais, assim como os casos de retratamento, são maiores na população negra, entretanto, a proporção de cura é maior na população branca. A análise interseccional nos permite compreender que raça também nos informa classe, gênero e território. Logo, são os homens negros, pobre e moradores de territórios periféricos os mais afetados por esse cenário.
A interseccionalidade contribui para complexificar a aproximação com esses dados por permitir compreender como marcadores sociais interagem na produção de experiências diferentes na produção social da saúde de certas populações. Nesse sentido, o perfil epidemiológico apresentado, em diálogo com a experiência da pesquisadora, nos faz questionar: como a iniquidade em saúde demonstrada foi produzida? Quais os desafios colocados para a gestão municipal da PNSIPN? Até quando tal perfil epidemiológico seguirá se repetindo?
Conclusões/Considerações Finais
Diante do cenário apresentado, se torna evidente o quadro de iniquidade presente no município de Araruama, um reflexo do contexto brasileiro apontando para um problema de longa duração histórica. Como estratégias de enfrentamento, se faz necessário o reconhecimento das iniquidades, assim como os seus desencadeadores. E a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra como estratégia para transversalizar o debate sobre racismo e saúde, afinal, como nos inspira Conceição Evaristo: “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”.
INIQUIDADES RACIAIS E A INVISIBILIDADE DE DADOS: IMPACTOS DA PANDEMIA DE COVID-19 NOS CASOS PROVÁVEIS DE DENGUE NO BRASIL (2016-2025)
Comunicação Oral Curta
1 UFU
2 SES-MS
Apresentação/Introdução
A Dengue é considerada uma das arboviroses mais importantes no mundo. Cerca de 2, 5 bilhões de pessoas já encontraram-se sob risco de se infectarem, principalmente em países tropicais, como o Brasil, cuja temperatura e umidade favorecem a proliferação do Aedes aegypti, mosquito vetor da doença. A transmissão da doença também está arduamente intrínseca a fatores, como carência de saneamento básico e moradia em condições precárias, que expõem a vertente dos determinantes sociais sobre a incidência dos casos. No Brasil, país cujo histórico colonial ainda imprime persistente quadro de desigualdades raciais, cabe analisar a reverberação desse cenário discriminatório sobre a prevalência de doenças infecciosas associadas à estigmas sociais. Sobretudo, diante à pandemia do COVID-19 tem sido discutido os efeitos da sobrecarga do sistema público de saúde e da dificuldade diagnóstica sobre a apuração de notificações de dengue e sua distribuição na população, a fim de compreender a relação das disparidades de raça/cor e os índices de registros de casos em períodos de difícil controle sanitário.
Objetivos
Analisar o perfil epidemiológico associado à desigualdade racial nos casos de Dengue no Brasil, sob comparação o período da pandemia do COVID-19.
Metodologia
Trata-se de um estudo ecológico descritivo que analisou o perfil epidemiológico dos casos de dengue no Brasil entre 2016 e 2025. O recorte temporal abrange os períodos anterior, concomitante e posterior à pandemia de COVID-19, cujo estado de emergência em saúde pública no Brasil compreendeu o intervalo de março de 2020 a maio de 2022 (conforme a Portaria GM/MS nº 913/2022).
Os períodos foram categorizados em: pré-pandemia (2016-2019), pandemia (2020-2022) e pós-pandemia (2023-2025). Os dados secundários foram extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Foram incluídos no estudo os casos prováveis de dengue de todo o território nacional. As variáveis analisadas compreenderam: raça/cor, faixa etária, escolaridade, sexo e evolução do caso.
Inicialmente, realizou-se a análise descritiva das variáveis mencionadas e em seguida, calculou-se a distribuição percentual dos casos comparando-se os três períodos estabelecidos. Por se tratar de dados públicos, não foi necessária a avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa.
Resultados e Discussão
No período de 2016 a 2025, o Brasil registrou cerca de 16.333.287 casos prováveis de dengue. Em 3.327.289 dessas notificações (20,4%), a variável raça/cor foi classificada como "ignorado". A maior incidência de casos ocorreu na faixa etária de 20 a 39 anos, com 5.863.524 ocorrências (35,9%), e no sexo feminino, com 8.938.256 casos (54,7%).
Quanto à escolaridade e à evolução do caso, observou-se uma lacuna significativa de dados: um grande número de registros consta como "ignorado" ou "em branco", totalizando 8.679.361 (53,1%) e 3.412.079 (20,9%), respectivamente.
Houve uma redução no volume de notificações durante a pandemia, caindo de 3.581.184 (21,9%) no período pré-pandemia para 2.898.125 (17,7%) no período pandêmico. Analisando o recorte por raça/cor durante a pandemia, a maioria dos grupos apresentou aumento nos casos prováveis. As exceções foram as populações preta e indígena. A população preta registrou redução de 128.618 (3,5%) para 97.241 (3,3%), enquanto a população indígena passou de 9.786 (0,27%) para 7.511 (0,25%). Por fim, todos os grupos populacionais registraram aumento no número de casos no período pós-pandemia.
Os resultados confirmam a magnitude da dengue e sua sensibilidade ao contexto da COVID-19. A redução de registros durante a pandemia não aponta para um controle real da doença, mas sim para a fragilização da capacidade operacional de vigilância e o redirecionamento de insumos laboratoriais, resultando em subnotificações massivas entre 2020 e 2022. Esse fenômeno afetou desproporcionalmente as populações negra e indígena, evidenciando barreiras históricas de acesso ao diagnóstico e assistência médica efetiva.
A persistência de altos índices de dados "ignorados" ou "em branco", especialmente em variáveis socioeconômicas e raciais, não é uma mera falha administrativa, mas um indicador de desigualdade estrutural que invisibiliza as populações mais vulneráveis. A ausência de informações qualificadas compromete diretamente a gestão pública e a formulação de políticas de equidade. A partir de 2024, a aceleração dos índices reflete o represamento da vigilância e a necessidade urgente de mobilização social.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que é preciso fortalecer a vigilância epidemiológica e implementar estratégias intersetoriais que enfrentem o racismo institucional e as desigualdades sociais, visando um controle sanitário mais equitativo no Brasil.
INTERNAÇÕES POR ABORTAMENTO NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO: DETERMINANTES SOCIAIS DA SAÚDE, TRAJETÓRIAS REPRODUTIVAS E EQUIDADE EM SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 ENSP - Fiocruz
Apresentação/Introdução
O abortamento é um importante problema de saúde pública, com repercussões na morbimortalidade materna, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais e restrições ao acesso a serviços de saúde. No Brasil, sua ocorrência está associada a iniquidades estruturais, incluindo desigualdades de renda e território, que afetam de forma desproporcional mulheres negras. No marco dos Determinantes Sociais da Saúde (DSS), o abortamento e suas complicações devem ser compreendidos como desfechos inseridos em trajetórias sociais e reprodutivas marcadas por vulnerabilidades acumuladas ao longo do curso de vida. Embora não seja classificado como doença negligenciada, pode ser compreendido como agravo socialmente negligenciado, cuja ocorrência se dá em contextos de desigualdade e de barreiras no acesso ao cuidado, afetando de forma desproporcional mulheres em situação de vulnerabilidade.
Objetivos
Analisar os fatores sociodemográficos, reprodutivos, clínicos e comportamentais associados às internações por abortamento no estado do Rio de Janeiro, a partir de um modelo hierarquizado dos DSS.
Metodologia
Estudo transversal analítico, com dados do estudo “Nascer no Brasil 2”, coletados entre 2021 e 2023. Foram analisadas internações para abortamento e parto em 28 hospitais do estado. As variáveis independentes foram organizadas segundo modelo hierarquizado dos DSS, em níveis distal, intermediário e proximal. As associações foram estimadas por regressão logística múltipla para amostra complexa, com cálculo de razões de chances e intervalos de confiança de 95%.
Resultados e Discussão
As internações por abortamento mostraram-se associadas a fatores que expressam desigualdades sociais e trajetórias reprodutivas. Mulheres com 35 anos ou mais, sem companheiro e internadas em regiões metropolitanas apresentaram maior chance de internação. No nível intermediário, destacaram-se a história de abortamento prévio e já ter alcançado o número pretendido de filhos. Entre as variáveis proximais, o diabetes pré-gestacional associou-se a menor chance do desfecho. Embora a variável raça/cor não tenha apresentado associação estatisticamente significativa após ajuste, mulheres negras apresentaram maior chance de internação por abortamento, com significância limítrofe, o que pode refletir limitações de poder estatístico ou seu efeito capturado no modelo pela atuação de outros determinantes sociais. Esse resultado deve ser interpretado considerando evidências que demonstram que mulheres negras, no Brasil, estão mais expostas a contextos de vulnerabilidade social, barreiras no acesso aos serviços de saúde e piores desfechos maternos. Os resultados reforçam que o abortamento não pode ser compreendido apenas como evento clínico, mas como expressão de processos sociais, nos quais desigualdades estruturais e iniquidades no acesso e na qualidade da atenção à saúde moldam sua ocorrência e seus desfechos. Nesse sentido, as internações por abortamento evidenciam desafios persistentes para a promoção da equidade em saúde, especialmente no contexto da saúde sexual e reprodutiva.
Conclusões/Considerações Finais
A ocorrência de internações por abortamento no estado do Rio de Janeiro está associada a determinantes sociais e trajetórias reprodutivas, evidenciando a centralidade das desigualdades estruturais na produção desse desfecho. Os resultados reforçam a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à equidade em saúde, com ampliação do acesso ao planejamento reprodutivo, qualificação da atenção ao abortamento e enfrentamento das iniquidades. A incorporação de abordagens baseadas nos DSS contribui para compreender o abortamento como fenômeno socialmente determinado e para orientar estratégias que reduzam desigualdades e promovam justiça social em saúde.
MEMÓRIAS, CORPOS E VIOLÊNCIAS: RECONSTRUÇÕES NARRATIVAS DE MULHERES COM CÂNCER EM SALVADOR NO PÓS-PANDEMIA, EM PERSPECTIVA INTERSECCIONAL E DECOLONIAL.
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Apresentação/Introdução
Os itinerários terapêuticos de mulheres negras em tratamento oncológico durante a pandemia de Covid-19 revelam trajetórias de cuidado atravessadas pela necropolítica sanitária e por violências estruturais de gênero, com interrupções em diagnósticos e tratamentos no SUS, agravadas por desigualdades interseccionais de gênero, raça e classe. No Nordeste brasileiro, onde o câncer de mama e colo do útero predominam entre mulheres acima de 40 anos, a crise intensificou fragmentações institucionais e sobrecargas familiares, evidenciando as violências vivenciadas nos territórios de cuidado. A memória não é mero registro factual, mas narrativa social (Halbwachs, 2008), marcada por disputas individuais e silenciamentos (Pollak, 1989), reelaborando experiências cinco anos após 2020-2021. Este estudo adota perspectivas feministas interseccionais (Crenshaw, 1991) e decoloniais para compreender afetos, corporeidades e redes femininas no entrelaçamento entre individual e coletivo, e aprofundar a crítica às violências de gênero na saúde coletiva.
Objetivos
Compreender como mulheres pardas (45-66 anos), em tratamento oncológico no SUS baiano, reconstróem narrativamente seus itinerários terapêuticos vividos na pandemia de Covid-19, cinco anos depois, sob a ótica das violências de gênero e da interseccionalidade. Mapear categorias como "Cuidado entre mulheres: redes nos itinerários terapêuticos", "Corporeidade e cuidado" e "Memórias sociais", analisando resistência, agência e paradoxos do autocuidado em necropolítica racializada, e propondo abordagens decoloniais para o enfrentamento das violências no território da saúde.
Metodologia
Estudo qualitativo de abordagem narrativa, realizado em uma Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (UNACON) pública na Bahia, especializada em cânceres prevalentes (mama, colo do útero). Participaram seis mulheres, de 45 a 66 anos, autodeclaradas pardas —exceto uma que se apresenta como "de todas as cores"—, residentes na capital e interior baiano, em qualquer etapa de tratamento oncológico durante a pandemia (cirurgia, quimioterapia oral/venosa, radioterapia, seguimento). Entrevistas narrativas semiestruturadas acolheram deslocamentos para sentimentos, emoções, não-ditos, lágrimas e sorrisos. Análise de narrativa focada em temporalidades, silêncios, afetos e reconstruções memoriais, sob perspectiva interseccional, buscando desvelar as violências de gênero e as iniquidades presentes nos territórios de cuidado. Aprovada pelos Comitês de Ética do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA (Parecer nº 123356) e da SESAB (Parecer nº 498796), conforme Resolução CNS 466/2012, com TCLE em duas vias e direito de desistência.
Resultados e Discussão
As narrativas revelam itinerários terapêuticos interrompidos por medo contagioso e reorganizações sanitárias, evidenciando fragmentação do cuidado oncológico. A categoria "Cuidado entre mulheres: redes nos itinerários terapêuticos" posiciona redes femininas e comunitárias como sustentação central dos percursos, contrastando com conjugalidade masculina que assume três posições distintas: ausência normalizada, presença substituída por outras redes ou apoio tensionado pela escolha feminina de autonomia e autocuidado. "Corporeidade e cuidado" expõe perdas na autoestima e sentimentos de culpa por priorizar o corpo próprio, especialmente entre participantes historicamente cuidadoras de familiares e idosos que vivenciam o paradoxo de se perceberem descuidadas ao adoecerem. "Memórias sociais" articula quadros coletivos pandêmicos (Halbwachs) —lockdowns, overload sanitário— às disputas individuais de lembrança (Pollak), integrando afetos, silêncios e reconstruções temporais que denunciam a divisão social e sexual do trabalho de cuidado. Essa tríade analítica, sob perspectiva interseccional (Crenshaw), critica os modos como a necropolítica sanitária atravessou experiências de adoecimento feminino, propondo leitura feminista das reelaborações memoriais no SUS baiano.
Conclusões/Considerações Finais
Este estudo oferece leitura crítica dos itinerários terapêuticos como narrativas memória-afetivas atravessadas por relações de cuidado entre mulheres, corporeidades tensionadas e memórias socialmente construídas. Contribui para políticas oncológicas humanizadas no SUS pós-pandemia, sugerindo fortalecimento de redes comunitárias femininas, formação interseccional de profissionais de UNACONs e acolhimento narrativo na alta complexidade.
Palavras-chave: Itinerários terapêuticos; Análise narrativa; Feminismo interseccional; Cuidado entre mulheres; Memórias sociais.
MULHERES COM DOENÇA FALCIFORME NO PUERPÉRIO: EXPERIÊNCIAS, VULNERABILIDADES E IMPACTOS NO CUIDADO
Comunicação Oral Curta
1 UEFS
2 UNEB, Campus 7
Apresentação/Introdução
Para compreender as vulnerabilidades da mulher com doença falciforme no puerpério, é fundamental ultrapassar perspectivas estritamente biologicistas e individualizantes (VILELA et al., 2021). Isso implica considerar as experiências de exclusão produzidas por preconceitos historicamente enraizados, bem como a necessidade de um cuidado em saúde orientado pela interseccionalidade, articulando dimensões como raça, gênero e condição socioeconômica. Nesse cenário, ser mulher e viver com doença falciforme repercute diretamente no processo saúde-doença, uma vez que o limitado conhecimento sobre a patologia pode resultar em menor preparo para o cuidado e o autocuidado (FERREIRA et al., 2013). Diante disso, torna-se imprescindível compreender as experiências de cuidado no puerpério dessas mulheres, a fim de subsidiar uma assistência mais qualificada, equitativa e sensível às suas especificidades, além de promover maior visibilidade às suas demandas.
Objetivos
Compreender as experiências de cuidado no puerpério das mulheres com doença falciforme.
Metodologia
Trata-se de relato de pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, com triangulação de métodos. Utilizou-se a entrevista semiestruturada e a história de vida, que auxiliou na compreensão do significado das ações e relações humanas de maneira subjetiva. Foi realizado em município do interior da Bahia, com 5 mulheres com DF que vivenciaram o puerpério entre 2018 e 2023, selecionadas pela técnica snowball. Os dados foram analisados segundo a análise de conteúdo de Bardin, em que emergiram 3 categorias: “Experiências do cuidado no puerpério para mulheres com Doença Falciforme”; “Cuidado de si no puerpério: baixa autoestima versus acompanhamento para doença falciforme”; “Experiência das redes do cuidado no puerpério”. A pesquisa foi aprovada por Comitê de Ética em Pesquisa, sob parecer nº 5.935.995, respeitando as Resoluções CNS nº 466/12, 510/16 e 580/2018.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam múltiplas vulnerabilidades vivenciadas por essas mulheres, que têm seus direitos cotidianamente cerceados no âmbito da atenção à saúde. Compreendendo o cuidado como uma prática pautada na atenção, responsabilidade e zelo, observa-se que essas mulheres experienciam o descuidado em diversas formas, expresso na ausência de acolhimento, no manejo insensível das intercorrências, na deslegitimação do desejo de gestar e na ocorrência de violência obstétrica.
As evidências revelam que os sentimentos de medo, insegurança e sofrimento emocional vivenciados no puerpério estão diretamente relacionados às múltiplas vulnerabilidades que atravessam a vida dessas mulheres e à fragilidade dos serviços de saúde na oferta de uma assistência integral. A presença marcante do medo reflete não apenas as condições clínicas impostas pela DF, mas também a insuficiência de suporte institucional, marcada por falhas no acolhimento, descontinuidade do cuidado e práticas assistenciais pouco sensíveis às suas especificidades. Nesse contexto, as vulnerabilidades sociais, raciais e de gênero se articulam, ampliando as iniquidades e impactando negativamente as experiências no puerpério, o cuidado e o autocuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Por fim, a análise das experiências do puerpério de mulheres com DF evidenciou que o autocuidado está diretamente relacionado às dimensões psicológicas, revelando fragilidades que demandam apoio contínuo. Trata-se de um período complexo, atravessado por múltiplas vulnerabilidades, que requer cuidado integral, individualizado e sensível às especificidades dessas mulheres. Destaca-se a importância de uma assistência equitativa e humanizada, orientada pela perspectiva interseccional, nas práticas de cuidado, reconhecendo os impactos das desigualdades de raça, gênero e condição socioeconômica, de modo a assegurar o direito à saúde e promover experiências puerperais mais seguras e qualificadas.
O IMPACTO DO RACISMO ESTRUTURAL NO ACESSO AOS CUIDADOS DE SAÚDE: PERCEPÇÕES DE PESSOAS NEGRAS QUE VIVEM COM HIV/AIDS.
Comunicação Oral Curta
1 UEFS
Apresentação/Introdução
No período de 2000 a 2025, 955.946 casos de AIDS foram notificados e, especificamente em 2024, foram registrados 39.216 casos de infecção por HIV no Brasil, sendo que 59,7% das notificações foram de pessoas autodeclaradas negras.
Desse modo, é crucial considerar os múltiplos determinantes da epidemia da AIDS, como: condição de vida, raça/cor, acesso à informação e escolaridade. Estes aspectos permitem discernir sobre o grau de vulnerabilidade, as condições para o acesso aos serviços de saúde, o potencial de exposição à infecção pelo HIV e os riscos de cronificação das ISTs.
O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza os serviços de tratamento e prevenção do HIV/AIDS. Entretanto, o acesso à saúde não se restringe somente à obtenção do tratamento, mas deve-se considerar a garantia de direitos humanos e a superação de iniquidades sociais de saúde.
Destarte, a saúde da população negra é, historicamente, vulnerabilizada, na medida em que o Racismo Estrutural (RE) é um determinante social de saúde responsável pela (re)produção de desigualdades sociais, que culminam em negligência do direito à cidadania e em barreiras para o acesso aos cuidados de saúde.
Frente ao exposto, percebe-se que o RE impacta negativamente no acesso ao Tratamento Antirretroviral para pessoas que vivem com HIV/AIDS, especialmente às pessoas negras, devido às práticas discriminatórias que impõem estigmas, silenciamento e invisibilidade das demandas de saúde desse segmento social.
Objetivos
Conhecer as percepções de pessoas negras que vivem com HIV/AIDS sobre o impacto do Racismo Estrutural no acesso aos cuidados de saúde.
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratório, descritivo e de caráter qualitativo. Este estudo faz parte do projeto de pesquisa intitulado “PRODUÇÃO DO CUIDADO ÀS PESSOAS QUE VIVEM COM HIV/AIDS: CAMINHOS, TRILHAS E AFECÇÕES”, o qual é aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o CAAE 54898221.4.0000.0057. Utilizou-se como técnica de coleta de dados a entrevista semi-estruturada. Os participantes do estudo foram 7 pessoas que vivem com HIV/AIDS (PVHA), cuja faixa etária variou de 26 a 66 anos. Além disso, cinco são do sexo masculino e dois do feminino, e todas são usuárias de um Centro de Saúde Especializado em um município no interior da Bahia. Utilizou-se para a análise de dados a Análise de Conteúdo proposta por Minayo (2016).
Resultados e Discussão
Com relação ao impacto do RE no acesso aos cuidados de saúde, quatro dos entrevistados convergem ao afirmarem que o RE impacta no acesso aos cuidados de saúde por pessoas negras que vivem com HIV/AIDS, pois agrava-se a discriminação e a exclusão dos serviços de saúde e dos círculos sociais. De forma complementar, um dos entrevistados relaciona o RE ao baixo nível de escolaridade das pessoas negras, afirmando ser uma barreira que também dificulta o acesso aos cuidados de saúde. Paralelamente, dois entrevistados complementam ao relacionarem a classe social com o acesso aos serviços de saúde, afirmando que quanto menor o poder aquisitivo, maiores as dificuldades para o acesso. Em contraponto, três entrevistados divergem ao negarem o impacto do RE no acesso aos cuidados de saúde. Nessa perspectiva, considera-se que as barreiras sócio-econômicas resultantes do contexto de vulnerabilidade monetária, escassas condições de moradia, baixos níveis de escolaridade, aos quais a população negra está submetida, também são determinantes sociais que enfatizam os riscos de morte e morbidades a esse segmento social. Importante destacar que é muito comum, mediante a forma estruturada do Racismo, a invisibilidade desta realidade, inclusive entre as pessoas pretas e pardas.
Conclusões/Considerações Finais
Alguns entrevistados concordaram que o RE impacta no acesso aos cuidados de saúde, e outros trouxeram outros aspectos que influenciam nesse acesso, como: a baixa escolaridade e as condições financeiras/classe social. Por outro lado, alguns entrevistados negam esse impacto, afirmando não concordar com essa perspectiva. Portanto, o presente estudo buscou fomentar discussões sobre os desafios atuais relacionados à saúde da população negra, sobretudo no enfrentamento da epidemia do HIV/AIDS.
O PARADOXO DA PROTEÇÃO SOCIAL E O RACISMO ESTRUTURAL NO CONTROLE DA TUBERCULOSE: ANÁLISE REGIONAL SOB A LENTE DA POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE INTEGRAL DA POPULAÇÃO NEGRA
Comunicação Oral Curta
1 UFPE
2 UFRN
3 UFES
Apresentação/Introdução
A tuberculose (TB), é uma doença infecciosa e transmissível, causada pelo Mycobacterium tuberculosis, que afeta principalmente os pulmões, embora, possa manifestar-se em outros órgãos e sistemas. Apesar de prevenível e curável, ainda é um problema de saúde pública no Brasil, sendo uma doença que atinge desproporcionalmente populações vulneráveis. A distribuição da tuberculose no país está diretamente associada aos determinantes sociais da saúde, como renda, escolaridade, condições de moradia, raça, emprego e acesso aos serviços de saúde. São esses aspectos, que contribuem para maior concentração da doença na população negra, evidenciando que a produção e manutenção do adoecimento são frutos do racismo estrutural e das iniquidades sociais. Embora políticas como a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) e programas de transferência de renda como o Bolsa Família, tente reduzir essas tendências, sua operabilidade ainda é limitada diante dos enfrentamentos institucionais, sociais e territoriais, revelando a necessidade de fortalecimento de políticas públicas e ações estratégicas e intersetoriais que promovam equidade e o cuidado à saúde.
Objetivos
Analisar as disparidades raciais nos desfechos clínicos de tuberculose no Brasil e a correlação entre a ocorrência da doença na população negra e a cobertura de políticas de proteção social nas cinco regiões do país.
Metodologia
Trata-se de um relato de pesquisa com abordagem epidemiológica e descritiva. Foram utilizados dados secundários de casos confirmados de tuberculose notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), no período de 2020 a 2024. A população do estudo foi composta por todos os casos registrados nas cinco macrorregiões brasileiras (N = 503.444). As variáveis de interesse incluíram: raça/cor (agregada em "negra" [pretos e pardos] e "branca"), situação de encerramento (cura, abandono e óbito por TB) e a condição de beneficiário de programas de transferência de renda do governo. A análise foi realizada por meio do cálculo de frequências absolutas e proporções relativas. A qualidade do preenchimento dos sistemas foi avaliada através da proporção de dados "Ignorados" nas variáveis raça/cor e condição de beneficiário, interpretada como um indicador de racismo institucional e invisibilização da identidade étnico-racial na gestão do cuidado.
Resultados e Discussão
No período analisado (2020-2024), observou-se uma distribuição profundamente desigual da carga de tuberculose. A população negra (preta e parda) representou a ampla maioria dos casos nas regiões Norte (85,25%) e Nordeste (80,12%), seguidas pelo Centro-Oeste (69,06%) e Sudeste (59,65%). Em contraste, na região Sul, a população negra representou apenas 31,70% das notificações. Quanto aos desfechos clínicos, as taxas de cura revelaram uma iniquidade territorial: o Sudeste apresentou a maior eficácia (63,81%), enquanto o Sul (52,94%) e o Centro-Oeste (55,25%) registraram os índices mais baixos. No Nordeste, a taxa de cura foi de 56,83%, com um índice de abandono de 13,19% e a maior taxa de óbito por TB entre todas as regiões (4,62%). A análise da proteção social mostrou que o Norte (13,24%) e o Nordeste (11,58%) possuem as maiores proporções de beneficiários de programas governamentais entre os doentes. Contudo, essa cobertura não se traduziu proporcionalmente em melhores taxas de cura no Nordeste, sugerindo que vulnerabilidades ambientais e institucionais superam o efeito protetor da transferência de renda. Um achado crítico foi a fragilidade da vigilância de dados: a região Sudeste apresentou a maior proporção de raça/cor "Ignorada" (8,70%), indicando um silenciamento institucional da variável racial. Além disso, o preenchimento da condição de beneficiário apresentou altos índices de "Ignorado", chegando a 62,27% no Sudeste e 27,97% no Nordeste, o que evidencia uma lacuna na gestão intersetorial e na implementação da PNSIPN, dificultando o planejamento de ações equânimes no SUS.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados revelam que a carga da tuberculose no Brasil possui cor e território definidos, sendo predominantemente negra e concentrada nas regiões de maior vulnerabilidade socioambiental. Conclui-se que, embora a transferência de renda seja um pilar de proteção social, ela se mostra insuficiente para romper, isoladamente, as barreiras impostas pelo racismo institucional que precariza o cuidado à saúde da população negra. A persistência de dados "ignorados" configura-se como uma tecnologia de invisibilização que compromete a execução da PNSIPN, a qual preconiza o desenvolvimento de ações específicas para a redução das disparidades étnico-raciais em agravos prioritários, como a tuberculose. Portanto, a eliminação da TB depende do fortalecimento da intersetorialidade e da educação permanente, tornando o quesito raça/cor um instrumento ético-político de justiça social e afirmação do direito à saúde no SUS.
RACISMO E DETERMINAÇÃO SOCIAL NO CONTEXTO DAS INTERNAÇÕES POR SÍFILIS E HIV/AIDS NO BRASIL
Comunicação Oral Curta
1 UEFS
Apresentação/Introdução
A sífilis e o HIV/aids são infecções que configuram importantes problemas de saúde pública no Brasil, associados a elevados índices de morbimortalidade e hospitalizações por causas evitáveis. Para além de sua dimensão biomédica, tais agravos estão profundamente imbricados nas desigualdades sociais e raciais que estruturam a sociedade, bem como a efetivação do direito equitativo à saúde e qualidade de vida. A população negra, historicamente exposta a condições desiguais de acesso a bens e serviços, vivencia uma maior vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis, refletindo o impacto do racismo estrutural como determinante social da saúde.
Objetivos
Analisar o perfil epidemiológico das internações por sífilis e HIV/aids nas regiões do Brasil, no período de 2008 a 2023, destacando as desigualdades raciais e territoriais considerando o modelo da determinação social da saúde.
Metodologia
Estudo ecológico com dados de internações por sífilis e HIV/aids, segundo região de residência, no período de 2008 a 2023, para adultos de ambos os sexos. Os dados foram obtidos do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/DATASUS). Informações populacionais e de raça/cor foram extraídas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Realizou-se análise descritiva, modelagem temporal com estimador de Newey-West e análise espacial em ambiente de Sistema de Informações Geográficas (SIG).
Resultados e Discussão
Entre 2008 e 2023 registraram-se 18.835 internações por complicações da sífilis, com predominância entre mulheres (62,2%), jovens de 18 a 29 anos (42,7%) e pessoas negras (46,3%). As maiores taxas ocorreram nas regiões Sudeste (0,72), Sul (0,66) e Centro-Oeste (0,62), com tendência crescente significativa em todas as regiões. Para o HIV/aids, foram contabilizadas 496.060 hospitalizações, com maior frequência entre homens (64,5%), indivíduos de 30 a 39 anos (32,2%) e população negra (41,5%). As maiores taxas concentraram-se no Sul (22,39), Norte (15,97) e Centro-Oeste (15,67), com tendência crescente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Os expressivos percentuais de negros internados por sífilis e HIV/aids evidenciam a centralidade do racismo institucional na produção das iniquidades em saúde, em consonância com os pressupostos elencados pela Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN). Barreiras no acesso oportuno ao diagnóstico, ao tratamento e às ações de prevenção, somadas a condições socioeconômicas desiguais, contribuem para a maior gravidade dos casos e necessidade de hospitalização. Logo, esses pacientes compõem uma população predominantemente jovem, que reside nas regiões periféricas, comumente com baixo nível de escolaridade, que (supõe-se) adota práticas sexuais de risco e/ou não adere efetivamente ao tratamento, situações que repercutem sobre o crescimento das taxas de internação. Tais achados reforçam que as diferenças observadas não são simplesmente biológicas ou comportamentais, mas socialmente determinadas, atravessadas por processos históricos de exclusão que impactam diretamente a saúde sexual e reprodutiva.
Conclusões/Considerações Finais
Observa-se uma maior suscetibilidade de pessoas jovens e negras às internações por sífilis e HIV/aids em grande parte das regiões federativas do Brasil, sob um contexto marcado por vulnerabilidades e violação dos direitos fundamentais. Este cenário demanda ações de vigilância ativa e o fortalecimento das políticas públicas com estratégias específicas voltadas para a população negra, a fim de reduzir a cadeia de transmissão, reduzir iniquidades e evitar reinternações, com incentivo à educação em saúde e ações de enfrentamento a partir da Atenção Primária.
RACISMO OBSTÉTRICO NA SAÚDE BRASILEIRA E MUNDIAL: UMA ANÁLISE CIENCIOMÉTRICA DA ATUALIDADE.
Comunicação Oral Curta
1 UEPB
Apresentação/Introdução
INTRODUÇÃO: mulheres negras formam o grupo mais oprimido da nossa sociedade, por consequência das discriminações por gênero e por raça que as atinge. No âmbito da saúde essas desigualdades podem se manifestar por meio do racismo obstétrico, uma forma de violência direcionada à mulher negra durante o ciclo gravídico-puerperal. Essa violência resulta, principalmente, na qualidade inferior da assistência obstétrica, na provocação de sentimentos negativos nas vítimas e nas maiores taxas de mortalidade materna de mulheres pretas, que chega a ser de duas a três vezes maior em comparação às de mulheres de outras raças no Brasil e nos Estados Unidos da América. Mesmo com a relevância social e de saúde pública da temática, a produção acadêmica acerca do tema ainda é recente e pouco disseminada.
Objetivos
OBJETIVO: analisar a produção e o impacto científico de autores, periódicos e instituições que estudam o racismo obstétrico no cenário mundial, observar as tendências de pesquisa nos estudos sobre racismo obstétrico e identificar lacunas que precisam ser preenchidas com novas pesquisas da área.
Metodologia
Estudo do tipo cienciométrico, definido como a mensuração e quantificação do progresso científico, que tem como principal finalidade acompanhar evolução e declínio de produções em determinados campos científicos. Utilizando-se da base de dados PubMed, a partir da chave de busca “(Obstetric Racism OR Racism OR Systemic Racism OR Ethnic Inequalities OR Health Inequalities) AND (Obstetrics OR Gender-Based Violence) AND (Sexual and Reproductive Rights OR Obstetrics OR Pregnancy)”, foram coletados 86 artigos sobre a temática “racismo obstétrico” produzidos mundialmente entre 2008 e 2025, aos quais, foram realizadas análises cienciométricas em redes de coocorrência de palavras-chave e produção científica, principais autores, revistas, instituições e tendências através dos softwares VOSviewer e RStudio com extensão Bibliometrix.
Resultados e Discussão
RESULTADOS E DISCUSSÕES: É evidente que o racismo obstétrico é um tópico recente na literatura, crescendo gradativamente, juntamente com estudos sobre a saúde da população negra e ao aumento do número de pessoas pretas nos campos científicos. Esse crescimento também advém do cunho do termo “racismo obstétrico” por Dána-Ain Davis em 2018 e dos movimentos antirracistas, que ganharam força mundialmente nos últimos anos. Outra característica dessa literatura é a sua concentração em poucos autores, revistas e centralização nos Estados Unidos, no qual relaciona com o contexto histórico segregacionista do país e sua posição no segundo lugar mundial entre os países que mais publicam artigos. Acerca das palavras-chave, percebe-se a ausência do termo “racismo obstétrico/obstetric racism” como um descritor oficial nos sistemas da literatura científica, sendo sua adoção essencial para uma melhor precisão e consistência aos estudos da temática. Os desfechos de pré-eclâmpsia e hipertensão na gravidez se relacionam com as maiores taxas de hipertensão arterial na população negra no geral, causada por fatores sociais e econômicos, e o desfecho de parto induzido ressalta como os médicos dão mais suporte ao parto de mulheres brancas, pois, consideram a indução como uma prática positiva e a aplicam menos às mulheres negras, que acreditam equivocadamente serem mais resistentes e tolerantes à dor. Os periódicos de maior impacto na amostra são American Journal of Obstetrics and Gynecology, Obstetrics and Gynecology, Obstetrics and Gynecology Clinics of North America e Seminars in Perinatology e as autoras com maior impacto são Allison S. Bryant (médica especialista em medicina materno-fetal), Elizabeth A. Howell (médica obstetra e ginecologista, especialista em saúde pública materna) e Dána-Ain Davis (antropóloga e psicóloga), as três autoras são mulheres não-brancas norte-americanas e seus estudos têm foco nas disparidades da assistência obstétrica à mulher negra. Como sugestões para estudos futuros, recomenda-se ampliação geográfica dos cenários de pesquisa, aprofundamento nos desfechos do racismo obstétrico, percepção multiprofissional da temática, investigação da contribuição da formação acadêmica e continuada e análises para a implementação de estratégias antirracistas nos serviços de saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Por fim, se reconhece que o fortalecimento da produção científica é essencial para subsidiar políticas públicas e estratégias assistenciais que contribuam para o enfrentamento das desigualdades raciais claramente presentes no atendimento obstetrício que faz parte da saúde da mulher.
ENCRUZILHADAS DO VIVER COM HIV/AIDS: UMA ANÁLISE INTERSECCIONAL DE RAÇA, GÊNERO, CLASSE E TERRITÓRIO.
Comunicação Oral Curta
1 UFPE
Apresentação/Introdução
Santos1, ao estudar a vulnerabilidade das mulheres negras às DST/HIV/aids, reflete que a diferença entre as mulheres e homens, quando analisada a mortalidade e o risco relativo de adoecimento por aids, é muito maior entre as mulheres pretas com relação às brancas, do que entre os homens pretos e brancos.
No caso da vulnerabilidade de mulheres negras ao HIV, Jurema Werneck2 resgata o início da epidemia no Brasil e a invisibilidade dada às mulheres nesse cenário, trazendo a discussão sobre as desigualdades que atingem as mulheres negras no Brasil e demonstrando a presença de um tríplice discriminação: o fato de ser mulher, negra e pobre.
Silva³ insere a sorologia reagente ao HIV como fator de vulnerabilidade também a determinados corpos, para além da discriminação pela ótica de gênero, raça e classe. Encontrando-se os corpos femininos negros em desvantagens sistemáticas no acesso à prevenção, diagnóstico e tratamento ao HIV.
Nesse contexto, a proposta desta pesquisa foi realizada a partir de experiências profissionais no Serviços de Atendimento Especializado no município de Recife. Os dados são o resultado da primeira aproximação com o objeto de dissertação de mestrado em Saúde Coletiva que busca compreender a influência do racismo na infecção pelo HIV em mulheres negras na cidade do Recife.
Objetivos
Analisar os casos novos e internações por HIV em mulheres residentes na cidade do Recife-Pernambuco.
Metodologia
Trata-se de um estudo transversal, que analisou os casos de HIV/Aids notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), declarados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e registrados no Sistema de Controle de Exames Laboratoriais de CD4+/CD8+ e Carga Viral do HIV/Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (Siscel/Siclom) e as internações por HIV (B20-B24) registradas no Sistema de Informações Hospitalares (SIH), disponibilizados pelo Departamento de Informática do Ministério da Saúde (DATASUS).
Os dados foram analisados segundo ano de diagnóstico e internação, sexo, faixa etária e raça/cor de residentes da cidade do Recife, capital do Estado de Pernambuco. O estudo teve como período de referência os anos de 2010 a 2024.
O estudo foi realizado em conformidade com a Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012 e a Resolução nº 674, de 6 de maio de 2022, ambas do Conselho Nacional de Saúde. Por utilizar exclusivamente dados secundários de domínio público, com informações agregadas e sem identificação individual, não houve necessidade de apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa, resguardando-se o dever de divulgação da fonte de dados.
Resultados e Discussão
Entre 2010 e 2024, foram registrados 11.030 casos novos de infecção por HIV em residentes da cidade do Recife, sendo 32,7% em mulheres, 72,6% entre a população parda e 5,0% na população preta. Na população feminina, 30,8% dos casos ocorreram em mulheres com idade entre 30 e 39 anos e 81,0% entre as negras, sendo 76,0% nas pardas e 5,0% nas mulheres pretas.
Entre as internações, ocorreram 18.826 registros no período, sendo 34,5% (6.502) no sexo feminino. Entre as mulheres, observou-se maior proporção na faixa etária de 30 a 39 anos (28,5%). Com relação à raça/cor, verificou-se um elevado percentual de internações com informação ignorada (49,1%). A melhoria da informação ocorreu a partir de 2023. Em 2023 e 2024, das 895 internações registradas no sexo feminino, 93,0% ocorreram em mulheres negras, sendo 81,9% entre as pardas e 11,1% na população feminina preta.
A análise da vulnerabilidade de mulheres à infecção por HIV tem apresentado diferenças significativas entre as mulheres negras e não-negras. Trata-se de uma diferença que expõe a marginalização e exclusão social demarcada historicamente e que influencia ao agravamento das condições de saúde e de uma maior susceptibilidade para doenças infecciosas4.
Conclusões/Considerações Finais
É fundamental refletir à luz da perspectiva interseccional no sentido de compreender que as desigualdades vivenciadas pelas mulheres que vivem com HIV e estão atravessadas por marcadores de poder de raça, gênero e classe e que resultam em injustas formas de viver, adoecer e morrer nos territórios.
Nesse sentido, compreender como as mulheres negras têm suas vidas atravessadas pela vulnerabilidade à epidemia de HIV/AIDS é fundamental para orientação de uma política que assegura uma vida de reparação e bem viver.
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