Programa - Comunicação Oral - CO7.3 - Identidade, (pré)conceitos e direitos da pessoa idosa
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
QUANDO A MÉDIA OCULTA: DESIGUALDADES RACIAIS NA MORTALIDADE EVITÁVEL POR CAUSAS EXTERNAS EM PESSOAS IDOSAS SEGUNDO UNIDADES FEDERATIVAS
Comunicação Oral
1 Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz)
Apresentação/Introdução
A mortalidade evitável constitui indicador sensível da capacidade do sistema de saúde em responder às necessidades da população e tem sido utilizado na análise de desigualdades raciais em saúde no Brasil. Contudo, sua aplicação à população idosa permanece incipiente, ainda que estudos recentes evidenciem que o pressuposto da evitabilidade se mantém válido até os 74 anos de idade.
Essa lacuna é particularmente relevante diante do envelhecimento populacional acelerado e das persistentes iniquidades raciais que marcam a trajetória de vida da população negra no país.
As desvantagens da população negra em relação a mortalidade evitável se expressam especialmente nos óbitos relacionados a causas externas (acidentes e violências). Nesse contexto, a disponibilização das estimativas populacionais por raça/cor pelo Censo de 2022 torna oportuna a mensuração das taxas de mortalidade evitável por causas externas com recorte racial para a população idosa.
Objetivos
Analisar a desigualdade racial na mortalidade evitável por causas externas entre negros e brancos de 60 a 74 anos no Brasil, segundo grupos de causas e Unidades Federativas.
Metodologia
gia: Estudo ecológico de base populacional com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Censo Demográfico de 2022. Foram calculadas taxas de mortalidade por 100 mil habitantes para a população idosa de 60 a 74 anos, estratificadas por raça/cor (negros e brancos) e unidade federativa. Pretos e pardos foram considerados para a categoria negra. A razão de taxas (negros/brancos) foi utilizada como medida de desigualdade racial.
Foram selecionadas as causas evitáveis classificadas no grupo 1.5 da Lista Brasileira: reduzíveis por ações de promoção à saúde, prevenção e atenção adequada às causas externas - incluindo acidentes de transporte, quedas, afogamentos, lesões autoprovocadas, agressões, causas iatrogênicas, entre outras.
Para compreender os padrões de desigualdade racial segundo causa no território brasileiro, realizou-se uma análise aprofundada em dois grupos de unidades federativas: i) as 5 UFs com maior razão de taxas desfavorável à população negra; ii) as 5 UFs com maior razão de taxas desfavorável à população branca.
Resultados e Discussão
Em nível nacional, as taxas de mortalidade por causas externas evitáveis foram muito semelhantes entre brancos (76,8 por 100.000 habitantes) e negros (76,2 por 100.000 habitantes). Contudo, essa aparente equivalência esconde importantes particularidades territoriais, evidenciadas pela ampla variação das razões de taxas entre as Unidades Federativas.
Estados como Alagoas (razão: 4,1) e Amapá (3,7) apresentaram as maiores desvantagens para negros, seguidos por Ceará (2,4), Rio Grande do Norte (2,2) e Paraíba (2,0).
Em contraste, todos os estados da região Sul - Santa Catarina (0,3), Rio Grande do Sul (0,4) e Paraná (0,5) - apresentaram razões inferiores a 1, indicando desvantagem para a população branca. O Distrito Federal (0,7) e o Acre (0,7) completam o grupo das cinco UFs com maiores desvantagens para brancos.
A análise por grupos de causas revela que os padrões de desigualdade racial diferem entre o grupo dos 5 estados com maiores desvantagens para a população negra e o grupo de 5 estados com maiores desvantagens para a população branca. No primeiro grupo, as maiores contribuições para a desigualdade estiveram associadas aos óbitos por acidentes de transporte (razão: 3,2), por agressões (3,1), por afogamentos e submersões acidentais (3,1) e por quedas (2,5).
Por outro lado, nas cinco UFs com maior desvantagem para a população branca, destacam-se como principais causas para a maior mortalidade de brancos em relação aos negros: o suicídio (razão brancos/negros = 3,7), seguido pelas quedas (2,1) e pelos acidentes que resultam em comprometimento respiratório (1,9).
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados revelam que a aparente equivalência nas taxas nacionais de mortalidade evitável por causas externas entre pessoas idosas negras e brancas, na verdade, ocultam desigualdades em outros níveis territoriais, expressas tanto em magnitude quanto em perfil de causas.
Nas UFs com maior desvantagem para pessoas idosas negras, concentradas no Norte e Nordeste, predominam mortes por acidentes de transporte, agressões e afogamentos, causas fortemente associadas à exposição à violência e à precariedade das condições de vida e mobilidade.
Já nas UFs com maior desvantagem para pessoas idosas brancas, sobretudo da região Sul, destacam-se o suicídio e as quedas, sugerindo um perfil de vulnerabilidade distinto, possivelmente relacionado a fatores como isolamento social e acesso inadequado a serviços de suporte em saúde mental.
O presente estudo evidencia que o uso agregado do indicador de mortalidade evitável e a análise restrita ao nível nacional tende a ocultar desigualdades raciais relevantes.
Essa heterogeneidade reforça que políticas universais de redução da mortalidade evitável são insuficientes sem estratégias sensíveis à cada território.
UMA PANDEMIA DEMOCRÁTICA? DESIGUALDADES RACIAIS, TERRITORIAIS E DE GÊNERO NA PERSPECTIVA DA PESSOA IDOSA DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19.
Comunicação Oral
1 FMUSP
Apresentação/Introdução
Muito se escutou sobre a democratização da pandemia de COVID-19 no Brasil, que atingia a todos de forma igual. No entanto, os dados de contaminação e mortalidade mostraram que a doença tinha seus escolhidos, sobretudo em relação à cor da pele, gênero, classe social e território.
O contexto político do país e uma falta de coordenação nacional, além do alto índice de desemprego com parte expressiva da população em situação de insegurança alimentar, formaram um caldo nefasto para a crise sanitária.
Os maiores de 70 anos apresentaram maior mortalidade e a medida de isolamento foi adotada para evitar sobrecarga do sistema de saúde. A faixa etária entre 70 e 79 anos teve maior mortalidade.
Objetivos
Pretende-se refletir sobre as desigualdades raciais, territoriais e de gênero, na adoção do Isolamento Social pela pessoa idosa durante a pandemia de Covid-19. Os dados se apoiam na tese de doutorado “Fique em casa: uma perspectiva interseccional do isolamento social da pessoa idosa durante a pandemia de COVID-19”.
Metodologia
Foram feitas 16 entrevistas semiestruturadas com pessoas a partir de 60 anos em 4 regiões de uma metrópole: Zona Oeste, Zona Central, Zona Oeste/Periférica e Núcleo de Convivência do Idoso.
A ferramenta de análise foi a interseccionalidade, de forma a alcançar as experiências de opressão, bem como as possibilidades de abordar e resolver as injustiças sofridas (Crenshaw, 1989, Crenshaw, 1994).
O critério de inclusão para as entrevistas foi idade igual ou maior do que 60 anos durante o período dos dois primeiros surtos pandêmicos, em 2020 e 2021. O critério de exclusão foi declínio cognitivo em função de doenças neurológicas, psiquiátricas e demências que impossibilitassem a realização da entrevista.
A análise foi feita através de temas que surgiram no conjunto de entrevistas e que informaram as categorias encontradas. Eles foram separados através de trechos da entrevista inicialmente relacionados ao entrevistado e posteriormente divididos também de acordo com cada região de moradia.
Os sujeitos foram em sua maioria compostos por mulheres, em uma perspectiva da feminização da velhice.
Resultados e Discussão
As quatro regiões em que ocorreram a pesquisa mostraram diferenças significativas quanto à raça/cor da pele, renda, equipamentos de saúde, idade média ao morrer e mortalidade por COVID-19. Tais diferenças tiveram impacto quer seja na percepção da doença, quer seja na adoção do isolamento social.
Na região de mais alta renda, de maioria de pessoas brancas com idade média ao morrer de 80 anos e maior taxa de mortalidade por COVID-19, a doença foi percebida como um evento extraordinário que influenciou na adoção do isolamento social e resultou na percepção de uma mudança de vida permanente na sociedade. A postura crítica de condenação àqueles que não puderam fazer o isolamento também foi maior nesse grupo, composto só por mulheres.
Na região central e nas outras duas regiões mais periféricas, a grande maioria não fez o isolamento social em função da moradia e do trabalho precários. No entanto, elas se cuidavam usando máscara, luva, álcool em gel e evitando o transporte público lotado.
Conclusões/Considerações Finais
A articulação entre raça/cor da pele e classe social, com uma ênfase sobre esta última, expressou-se de forma evidente na maneira como o isolamento social foi encarado e executado.
A segregação espacial se desenha na forma de estrutura sanitária deficiente, moradias inadequadas, altos índices de violência, pouco acesso à cultura, uma rede de transporte insuficiente, mas, sobretudo, na exclusão dos mais pobres às periferias das cidades.
Isso transparece de forma evidente na descrição das regiões com sua população em termos de renda, raça/cor da pele e idade média ao morrer.
A região em que cada entrevistado mora é uma espécie de contexto subjacente que informa sobre privilégios e opressões, mas também as resistências nascidas na intersecção dos marcadores. Nas periferias apareceram mais relatos de solidariedade entre as pessoas quando houve a necessidade de se fazer o isolamento social.
PROJETO PILOTO DO PROGRAMA MAIOR CUIDADO NA BAHIA SOB PERSPECTIVA DA INTERSECCIONALIDADE E DA FEMINIZAÇÃO DO ENVELHECIMENTO
Comunicação Oral
1 ISC UFBA
Apresentação/Introdução
O envelhecimento populacional brasileiro tem sido marcado por profundas desigualdades de gênero, raça e condições socioeconômicas, repercutindo de forma particular sobre a saúde e a funcionalidade da população idosa, sobretudo das mulheres. O Projeto Piloto do Programa Maior Cuidado (PP-PMC) oferta cuidados de saúde e socioassistenciais a idosos dependentes e semi-dependentes em condição de vulnerabilidade econômica e social, constituindo-se como uma estratégia intersetorial de cuidado continuado domiciliar.
Objetivos
Analisar o perfil sociodemográfico, as condições de saúde e a capacidade funcional das pessoas idosas acompanhadas pelo Projeto Piloto Programa Maior Cuidado no município de Salvador, à luz dos referenciais teóricos da feminização da velhice e da interseccionalidade.
Metodologia
Trata-se de um estudo transversal, de abordagem quantitativa e caráter descritivo, realizado com 47 pessoas idosas assistidas pelo projeto piloto do PMC, residentes nos distritos sanitários de Cajazeiras e Cabula, em Salvador, Bahia. A coleta de dados foi realizada em dezembro de 2024, por meio da aplicação de questionário semiestruturado, contendo informações socioeconômicas, demográficas e de saúde. A capacidade funcional foi avaliada por meio do Índice de Katz e da Escala de Lawton-Brody, e os dados foram analisados por estatística descritiva no programa STATA, versão 15. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do ISC/UFBA, com parecer nº 6.806.776 e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Resultados e Discussão
A maioria das pessoas idosas acompanhadas pelo Programa era do sexo feminino (72,3%), com predominância da faixa etária igual ou superior a 80 anos (58,8%). Observou-se elevada frequência de pessoas pretas e pardas, especialmente entre as mulheres (88,2%), além de maior proporção de viuvez (58,8%) e baixa escolaridade, com mais da metade apresentando escolaridade inferior ao ensino médio (52,9%). Em relação às condições de saúde, destacou-se a elevada prevalência de polifarmácia, mais frequente entre os homens (84,6%) e também expressiva entre as mulheres (58,8%). Quanto à capacidade funcional, verificou-se importante comprometimento nas atividades instrumentais da vida diária, observando-se maior dificuldade entre as mulheres para cozinhar e cuidar da casa, realizar compras e controlar o dinheiro, utilizar o telefone e manejar medicamentos, indicando maior dependência funcional e necessidade de suporte contínuo. No que se refere às atividades básicas da vida diária, as maiores dificuldades foram observadas em tarefas como tomar banho, vestir-se, deitar e levantar da cama, locomover-se entre os cômodos da casa e alimentar-se de forma independente, com menor comprometimento relativo para a alimentação. Em relação à utilização dos serviços de saúde, 47,1% das mulheres relataram acesso nos últimos seis meses, enquanto entre os homens não houve registro de utilização nesse período, sendo que 100% referiram o último acesso há mais de seis meses. Os resultados preliminares reforçam que o envelhecimento feminino, especialmente entre mulheres negras e de baixa renda, é atravessado por desigualdades acumuladas ao longo do curso de vida, expressas em maior vulnerabilidade funcional e maior necessidade de cuidado domiciliar. Sob a perspectiva da interseccionalidade, proposta por Kimberlé Crenshaw (1989), compreende-se que as desigualdades observadas não decorrem de um único marcador social, mas do entrecruzamento de múltiplos sistemas de dominação, como gênero, raça/cor e classe social, que impactam negativamente o estado de saúde do indivíduo. Complementarmente, o fenômeno da feminização do envelhecimento, marcado pelo fato de as mulheres viverem mais que os homens, porém frequentemente em piores condições de saúde, financeiras e sociais, evidencia a experiência feminina da velhice como atravessada por maior probabilidade de viuvez, solidão, menor escolaridade, menores recursos econômicos e maior exposição a condições crônicas que demandam cuidado prolongado. Nesse sentido, a elevada frequência de mulheres com 80 anos ou mais, viúvas, pretas e pardas, com baixa escolaridade e importante comprometimento funcional, observada neste estudo, reforça a necessidade de políticas públicas sensíveis às desigualdades de gênero, raça e renda no cuidado à população idosa.
Conclusões/Considerações Finais
Não obstante, o PMC se apresenta como uma estratégia intersetorial indispensável para mitigar as iniquidades em saúde e socioassistenciais nos territórios de Cajazeiras e Cabula. No entanto, para que o cuidado seja efetivo, as políticas públicas devem transcender a assistência técnica e incorporar uma perspectiva sensível às relações de gênero e raça. Este estudo reforça a necessidade de fortalecer o apoio domiciliar e o suporte aos cuidadores, garantindo que o direito ao envelhecer com dignidade não seja restringido por determinantes sociais historicamente excludentes.
SAÚDE, ENVELHECIMENTO E INTERSECCIONALIDADE NO CÁRCERE: DESAFIOS NO CUIDADO A MULHERES IDOSAS NO SISTEMA PRISIONAL
Comunicação Oral
1 UESB
2 UFS
Apresentação/Introdução
As discussões sobre encarceramento, historicamente centradas na juventude e na masculinidade, tendem a invisibilizar outros grupos que compõem a população privada de liberdade. Entre esses, destacam-se as mulheres idosas, cuja experiência no sistema prisional é marcada pela sobreposição de desigualdades relacionadas à idade, gênero, raça e classe social. A perspectiva interseccional permite compreender que o envelhecimento no cárcere não se reduz a um processo biológico, mas está profundamente relacionado às condições sociais, institucionais e estruturais que produzem vulnerabilidades e agravos à saúde. No contexto prisional brasileiro, caracterizado por superlotação, precariedade estrutural e insuficiência de políticas públicas, o cuidado em saúde para pessoas idosas torna-se ainda mais limitado, afetando de forma particular as mulheres. Nesse sentido, torna-se necessário ampliar o debate sobre saúde no sistema prisional, considerando as especificidades do envelhecimento feminino e as implicações das desigualdades sociais na produção de adoecimento e sofrimento.
Objetivos
Analisar, a partir da literatura científica, os principais desafios relacionados à saúde e ao cuidado de mulheres idosas no sistema prisional, discutindo como a interseccionalidade entre idade, gênero, raça e classe contribui para a produção de vulnerabilidades e para a insuficiência de políticas públicas voltadas a essa população.
Metodologia
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de caráter qualitativo e exploratório, que realizou levantamento e análise crítica de estudos sobre envelhecimento, saúde e encarceramento feminino. Os trabalhos selecionados foram examinados à luz da perspectiva interseccional, buscando compreender como diferentes marcadores sociais se articulam na produção das condições de vida e saúde de mulheres idosas privadas de liberdade. A análise privilegiou estudos que abordam políticas públicas, condições institucionais, acesso à saúde e impactos psicossociais do encarceramento na velhice.
Resultados e Discussão
A literatura evidencia que mulheres idosas encarceradas constituem um grupo pouco visibilizado nas pesquisas e nas políticas públicas, apesar de apresentarem demandas específicas de saúde. Entre os principais desafios identificados estão o acesso insuficiente a serviços de saúde, a inadequação das unidades prisionais às necessidades do envelhecimento, a presença de doenças crônicas sem acompanhamento adequado, limitações de mobilidade, sofrimento psíquico e isolamento social. As condições estruturais do sistema prisional, marcadas por superlotação, precariedade sanitária e escassez de profissionais, agravam o quadro de adoecimento. Além disso, a maioria dessas mulheres é negra e proveniente de contextos socioeconômicos vulnerabilizados, evidenciando a sobreposição de desigualdades que impactam diretamente o processo de envelhecer no cárcere. A ausência de políticas específicas para o cuidado à pessoa idosa privada de liberdade contribui para a produção de sofrimento físico e mental, podendo configurar situações de negligência institucional. Nesse contexto, a saúde deve ser compreendida como direito humano fundamental, o que exige a implementação de estratégias que considerem as especificidades do envelhecimento e as condições particulares das mulheres no sistema prisional.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados indicam que o envelhecimento de mulheres no cárcere constitui um importante problema de saúde pública e de direitos humanos, ainda pouco explorado na produção científica. A interseccionalidade entre idade, gênero, raça e classe evidencia que essas mulheres vivenciam formas específicas de vulnerabilidade, que exigem políticas de cuidado diferenciadas. Torna-se necessário fortalecer a implementação de ações de saúde no sistema prisional, garantindo acesso a acompanhamento médico, condições adequadas de vida e atenção às demandas psicossociais relacionadas ao envelhecimento. Ampliar a produção de estudos sobre o tema é fundamental para dar visibilidade a essa população e subsidiar a formulação de políticas públicas que assegurem o direito à saúde e à dignidade das mulheres idosas privadas de liberdade. Ignorar essas condições significa aprofundar desigualdades e produzir formas de exclusão que ultrapassam a pena jurídica, atingindo a própria possibilidade de envelhecer com cuidado e dignidade.
O IDADISMO E A PROMOÇÃO DA SAÚDE DO TRABALHADOR E DA TRABALHADORA COM 60 ANOS OU MAIS: DESAFIOS PARA A ASSISTÊNCIA EM SAÚDE NO SUS
Comunicação Oral
1 Ensp/Fiocruz
2 EPSJV/Fiocruz
Apresentação/Introdução
As múltiplas velhices, aliadas a seus contextos de vulnerabilidades sociais e às incertezas do sistema previdenciário brasileiro, impulsionam a permanência de pessoas idosas em atividades de trabalho para a complementação da renda. Contudo, um mundo do trabalho pautado no discurso idadista, que rotula esses trabalhadores como menos produtivos, obsoletos quando comparados aos trabalhadores mais jovens, favorece situações de conflitos nos ambientes de trabalho, violência e violação dos direitos humanos das pessoas idosas. Associada a essas situações, a exclusão social impacta as condições econômicas, de vida e a precariedade do trabalho, prejudicando a saúde dos trabalhadores mais velhos (Pazos e Ferreira, 2024; Velhices cidadãs, 2025). Diante disso, é fundamental que trabalhadores com 60 anos ou mais e os profissionais da assistência à saúde do trabalhador saibam reconhecer situações idadistas e os desfechos negativos para a saúde física e mental dos trabalhadores.
Objetivos
Compreender como pessoas idosas e trabalhadores da saúde percebem a relação entre a saúde, envelhecimento e o idadismo.
Metodologia
Entrevista semiestruturada e grupo focal com 18 trabalhadores entre 60 e 82 anos, ativos no mercado de trabalho formal e informal, e 10 trabalhadores da saúde que atuam como multiplicadores de vigilância em saúde do trabalhador no SUS. Os dados foram submetidos à análise temática de conteúdo.
Resultados e Discussão
A análise das categorias temáticas foram divididas por grupos: 1) Trabalhadores mais velhos – Categorias: O sentido do trabalho na velhice; o preconceito etário (idadismo) no mundo do trabalho e a saúde do trabalhador mais velho. O trabalho é posto como uma forma de inserção social e autonomia. Ademais, representa uma importante fonte de renda, pois cerca de 50% dos participantes são os principais responsáveis pela renda familiar. Para este grupo, o idadismo é presente na vida laboral em situações principalmente de aposentadoria e de retorno ao mercado de trabalho. Essa condição ficou mais evidente nas falas de trabalhadores com menor escolaridade, mulheres e aqueles em vínculos de trabalho formais. A maioria das pessoas idosas permanece no mercado de trabalho, mas na informalidade e em condições de precariedade de direitos. Essa situação de empregabilidade esteve atrelada à desvalorização do trabalhador, menores remunerações e à dificuldade de inserção no trabalho, por serem trabalhadores discriminados já no processo de seleção. De modo geral, essas condições são colocadas como um agravante para a saúde mental e física. Todos os participantes indicaram que já sofreram algum tipo de negligência em atendimentos de saúde, em que a situação de doença foi associada ao fato de serem pessoas idosas. Por fim, apresentaram pouco conhecimento sobre o idadismo e o impacto na saúde do trabalhador, desconhecendo a existência de uma política pública voltada para o campo. 2) Trabalhadores da ST – Categorias: Desafios para a permanência de pessoas idosas no mundo do trabalho; Desconhecimento dos aspectos gerontológicos do envelhecimento: Os profissionais da saúde consideraram complexo realizar o nexo entre a doença e a atividade de trabalho com pessoas idosas em situações em que o trabalhador já apresenta alguma doença crônica. A falta de conhecimento sobre o envelhecimento natural e patológico é um agravante. A invisibilidade da pessoa idosa como um trabalhador em atividade de trabalho e o desconhecimento das políticas públicas voltadas para pessoas idosas são tidos como questões em que se precisa avançar no campo do reconhecimento dessa população. A pesquisa revelou também que 70% dos profissionais da saúde, em algum momento de atuação no campo, presenciaram situações de riscos à saúde com trabalhadores mais velhos. Entre as quais, a exposição ao uso de agrotóxicos no meio ambiente rural e ao ruído das máquinas e situações de insegurança com risco iminente de morte na construção civil, além de idadismo no trabalho e do agravamento de doenças osteoarticulares. Contudo, os trabalhadores indicam a carência de abordagens que incorporem a vulnerabilidade de pessoas trabalhadoras idosas, evidenciando uma lacuna a partir dessa experiência.
Conclusões/Considerações Finais
Evidencia-se a necessidade de estratégias em educação permanente sobre o envelhecimento no contexto do trabalho, visando a saúde de trabalhadores mais velhos e o combate ao idadismo no mundo do trabalho. Assim, há a necessidade de desenvolvimento de políticas públicas que protejam a saúde destes trabalhadores.
SEXUALIDADE NA VELHICE: REFLEXÕES SOBRE AUTOESTIMA, AFETO E DESCONSTRUÇÃO DE ESTIGMAS
Comunicação Oral
1 UFBA
Contextualização
A sexualidade na velhice ainda é atravessada por estigmas sociais que limitam sua expressão e reforçam a ideia de que o envelhecimento está associado à perda do desejo e da vida afetiva. Esses estereótipos, somados a fatores culturais, religiosos e de gênero, contribuem para o silenciamento dessa temática, dificultando o acesso à informação e à vivência plena da sexualidade. Nesse contexto, ações educativas voltadas à pessoa idosa tornam-se fundamentais para ampliar o entendimento sobre a sexualidade como dimensão integrante da saúde e da qualidade de vida, envolvendo aspectos emocionais, socias e subjetivos.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência baseado nos encontros do projeto de Educação Sexual no Envelhecimento - Programa Permanecer UFBA/2025 na UNAPI. A atividade foi conduzida por estudantes de graduação vinculados ao projeto e contou com a participação de 22 pessoas idosas em cada encontro, conduzidos por meio de metodologias ativas e participativas. No primeiro momento, foi realizada a dinâmica “mitos e verdades”, em que os participantes refletiram sobre afirmativas relacionadas à sexualidade na velhice, discutindo questões como alterações fisiológicas, uso de medicamentos, doenças crônicas, preconceitos sociais e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. No segundo encontro, foram desenvolvidas dinâmicas de acolhimento e atividades com imagens que abordavam autoestima, afeto, convivência social e autocuidado, além de perguntas reflexivas que estimularam a expressão de sentimentos e percepções individuais.
Período de Realização
Realizado em 31 de outubro de 2025 e 25 de março de 2026 na UFBA.
Objetivo
Descrever a experiência dos encontros educativos realizados com pessoas idosas vinculadas à UNAPI (Universidade Aberta à Pessoa Idosa).
Resultados
Observou-se que a sexualidade na velhice é compreendida de forma ampla, sendo influenciada por fatores físicos, emocionais e socioculturais. Aspectos relacionados à menopausa, uso de medicamentos e condições crônicas foram citados como elementos que podem impactar o desejo e o conforto nas relações íntimas. No entanto, fatores psicológicos, como autoestima, segurança emocional e bem-estar, mostraram-se centrais na forma como a sexualidade é vivenciada. O preconceito social emergiu como uma barreira significativa, evidenciando a persistência de estigmas que deslegitimam o desejo na velhice. Ao mesmo tempo, os relatos das participantes demonstraram resistência a essas imposições, reafirmando a autonomia e o direito de viver a sexualidade de forma livre. A influência religiosa e cultural foi identificada como elemento ambivalente, podendo tanto oferecer suporte emocional quanto impor limites à expressão do desejo. As discussões também evidenciaram desigualdades de gênero, com destaque para a repressão histórica da sexualidade feminina, cujos efeitos ainda repercutem na vivência atual das mulheres idosas. No segundo encontro, destacou-se a valorização do afeto, do companheirismo e das relações interpessoais, sendo a sexualidade associada ao cuidado, ao respeito e à conexão emocional, mais do que ao ato sexual em si. As atividades revelaram que o autocuidado e a autoimagem estão diretamente ligados à autoestima, influenciando a forma como os participantes se percebem e se relacionam. Também foram identificadas dificuldades relacionadas à falta de diálogo com profissionais de saúde e ao conhecimento limitado sobre prevenção de ISTs, indicando a necessidade de ampliação das ações educativas nesse campo.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a sexualidade na velhice é uma dimensão viva, plural e significativa, ainda que atravessada por preconceitos e limitações socioculturais. As estratégias utilizadas possibilitaram a construção de um espaço de escuta e reflexão, favorecendo a troca de experiências, o fortalecimento da autoestima e a ressignificação de conceitos sobre envelhecimento e sexualidade. Os encontros reforçam a importância de ações educativas contínuas que promovam informação, autonomia e valorização da pessoa idosa, contribuindo para uma abordagem integral da saúde e para a melhoria da qualidade de vida.
Realização: