Programa - Comunicação Oral Curta - COC7.1 - Envelhecimento ativo e saudável: desafios regionais e contextos amazônicos
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
CUIDADO DOMICILIAR À PESSOA IDOSA DEPENDENTE: DESAFIOS PARA UM CUIDADO SEGURO E TRANSFORMADOR NA AMAZÔNIA
Comunicação Oral Curta
1 UEA
Apresentação/Introdução
O envelhecimento populacional constitui um fenômeno global acelerado, associado à transição demográfica e epidemiológica, com aumento da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis e da dependência funcional entre pessoas idosas. Esse cenário amplia a demanda por cuidados de longa duração e desloca, progressivamente, a centralidade do cuidado para o ambiente domiciliar. No Brasil, tal dinâmica atribui à família um papel central na assistência à pessoa idosa dependente, frequentemente sem o suporte necessário, o que evidencia desafios relacionados à segurança, qualidade e sustentabilidade do cuidado. No contexto amazônico, essas dificuldades são intensificadas por desigualdades territoriais, barreiras de acesso aos serviços de saúde e fragilidade das redes formais de apoio, configurando um cenário de maior vulnerabilidade para cuidadores e idosos.
Objetivos
Compreender as dificuldades vivenciadas por cuidadores familiares de pessoas idosas acamadas e dependentes, à luz das demandas para um cuidado seguro e transformador.
Metodologia
Estudo qualitativo, descritivo-analítico, ancorado na abordagem hermenêutico-dialética, desenvolvido em território urbano vulnerável de Manaus, Amazonas. Participaram 20 cuidadores familiares informais identificados por rede comunitária organizada. A produção dos dados ocorreu por entrevistas semiestruturadas, submetidas à análise por meio de três movimentos metodológicos da teoria hermenêutica-dialética: compreender,
interpretar e dialetizar. O estudo atendeu aos preceitos éticos vigentes (CAAE 04050818.5.0000.5016; Parecer 6.876.863).
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciaram que o cuidado domiciliar à pessoa idosa dependente é permeado por uma sobrecarga multidimensional, expressa por desgaste físico, sofrimento emocional e restrição da vida social dos cuidadores. Observou-se que a dedicação integral ao cuidado implica, frequentemente, a renúncia a atividades laborais e de lazer, contribuindo para o isolamento social e potencializando situações de adoecimento. Destacou-se, ainda, a fragilidade das redes de apoio, com centralização do cuidado em um único indivíduo e insuficiente suporte dos serviços de saúde, evidenciando a invisibilidade institucional do cuidador familiar. No âmbito das práticas de cuidado, emergiram dificuldades relacionadas à mobilização, higiene e alimentação, especialmente em situações em que o cuidador também apresenta limitações físicas ou comorbidades, o que pode comprometer a segurança do cuidado. Apesar disso, identificaram-se estratégias de enfrentamento pautadas no vínculo afetivo, na espiritualidade e no apoio comunitário, que contribuem para a resiliência diante das adversidades.
Conclusões/Considerações Finais
O cuidado domiciliar à pessoa idosa dependente configura-se como prática social complexa, sustentada por redes informais fragilizadas e atravessada por iniquidades estruturais, exigindo respostas organizadas do sistema de saúde. Os achados evidenciam a necessidade de fortalecimento de tecnologias sociais e educativas como dispositivos estratégicos para qualificação do cuidado domiciliar, ampliação do suporte ao cuidador e promoção de práticas seguras e sustentáveis. Reafirma-se o papel da Enfermagem como articuladora de redes de cuidado, produtora de inovação e agente político na construção de respostas intersetoriais no Sistema Único de Saúde.
DESIGUALDADES TERRITORIAIS NAS INTERNAÇÕES DE MULHERES LONGEVAS: ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE NORTE E SUDESTE DO BRASIL
Comunicação Oral Curta
1 UEA
2 FAMETRO
Apresentação/Introdução
O Brasil vivencia um acelerado processo de transição demográfica, com cerca de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo o Censo Demográfico de 2022 (IBGE, 2022). Nesse cenário, destaca-se o crescimento expressivo dos idosos longevos (≥80 anos), fenômeno que caracteriza a quarta idade e evidencia a feminização do envelhecimento. Contudo, embora as mulheres apresentem maior expectativa de vida, essa longevidade não implica, necessariamente, em melhores condições de saúde, sendo frequentemente acompanhada por maior carga de doenças crônicas, dependência funcional e vulnerabilidades socioeconômicas. Sob a perspectiva das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, a condição dessas mulheres é atravessada por invisibilidade social, relacionados tanto ao idadismo estrutural quanto à crise contemporânea do cuidado, marcada pela persistente sobrecarga feminina no trabalho reprodutivo, inclusive entre idosas longevas (TRONTO, 1993). Adicionalmente, as desigualdades territoriais entre as regiões Norte e Sudeste expressam distintas condições de acesso aos serviços, bem como diferenças na organização da rede assistencial e nas práticas de cuidado em saúde (WHO, 2010). Nesse contexto, este estudo concentra-se em mulheres com 80 anos ou mais residentes nessas regiões, adotando as internações hospitalares como um indicador central das condições de saúde e do acesso aos serviços.
Objetivos
Descrever as taxas de internação de mulheres com 80 anos ou mais nas regiões Norte e Sudeste do Brasil, analisando padrões de morbidade e explorando possíveis relações com fatores territoriais.
Metodologia
Estudo descritivo, ecológico, com dados secundários do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), referentes às internações de mulheres ≥80 anos (2015–2025). Foram analisadas as regiões Norte e Sudeste, selecionadas por seus contrastes socioeconômicos e de organização dos serviços. Utilizou-se o Censo Demográfico de 2022 como proxy populacional, reconhecendo-se limitações no período intercensitário. Calcularam-se frequências absolutas e taxas por 10.000 habitantes.
Resultados e Discussão
Foram registradas 2.376.788 internações, sendo 2.166.562 no Sudeste e 210.226 no Norte (BRASIL, 2025). As taxas foram de 16.021 e 16.426 por 10.000 habitantes, respectivamente, indicando maior ocorrência proporcional no Norte. Esse resultado evidencia invisibilidade estatística, na qual menores números absolutos ocultam maior vulnerabilidade proporcional. A maior taxa no Norte pode refletir acesso tardio, maior gravidade dos casos e limitações da atenção primária, favorecendo internações evitáveis (BRASIL, 2025). Os achados sugerem a articulação entre gênero e território na produção das desigualdades. No Norte, marcado por dispersão geográfica e menor densidade assistencial, o cuidado tende a se organizar em redes familiares e comunitárias, evidenciando limites do modelo biomédico e a necessidade de abordagens intersetoriais.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados evidenciam desigualdades regionais nas internações de mulheres com 80 anos ou mais, com taxas proporcionalmente mais elevadas na região Norte em comparação com a Sudeste. Apesar do menor número absoluto de internações, o Norte apresenta maior vulnerabilidade, sugerindo um padrão de invisibilidade estatística. Esse cenário pode refletir barreiras de acesso, uso tardio dos serviços e maior gravidade dos casos no momento da hospitalização. Assim, destaca-se a necessidade de fortalecimento da atenção primária e de políticas públicas que considerem as especificidades do envelhecimento feminino em contextos regionais distintos.
DISTRIBUIÇÃO REGIONAL E ETÁRIA DAS QUEDAS EM IDOSOS BRASILEIROS: ANÁLISE DOS DADOS DA PESQUISA NACIONAL DE SAÚDE (PNS) 2019
Comunicação Oral Curta
1 Médica, doutoranda em Ciências da Saúde – FMABC
2 Enfermeira, graduanda em medicina – Universidade Ceuma Imperatriz
3 Enfermeira, doutoranda em Saúde Coletiva – PPGSCOL/UFRN
4 Médica, professora titular da Faculdade de Medicina do ABC
Apresentação/Introdução
O envelhecimento populacional é um fenômeno demográfico marcante. De acordo com o IBGE (2022), o Brasil apresenta cerca de 32.113.490 idosos acima de 60 anos. Esse processo contínuo e natural resulta frequentemente na perda de reserva funcional e alterações físicas, sensoriais, cognitivas e osteoarticulares, as quais limitam a mobilidade, a independência e afetam a estabilidade do sujeito. Esse processo está associado a alterações epidemiológicas e sociais que impactam diretamente os sistemas de saúde, exigindo maior atenção às condições crônicas e às vulnerabilidades típicas dessa fase da vida.
Nesse cenário, entre os agravos mais relevantes à saúde da população idosa estão as quedas, que representam um problema de saúde pública mundial, com um impacto socioeconômico significativo. Definidas como eventos não intencionais que resultam no deslocamento do corpo para um nível inferior, frequentemente decorrentes de múltiplos fatores intrínsecos e extrínsecos que comprometem a estabilidade corporal. As consequências das quedas variam e representam uma das principais causas de internação em idosos no Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, cerca de 40% dos idosos com 80 anos ou mais sofrem quedas todos os anos (Cruz-jentoft et al., 2019).
Objetivos
Para tanto, o presente estudo tem como objetivo analisar a distribuição geográfica (regiões e estados) e etária das quedas em idosos brasileiros, identificando padrões e desigualdades a partir dos dados da Pesquisa Nacional de Saúde 2019.
Metodologia
Trata-se de um estudo descritivo de base populacional com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, inquérito domiciliar de abrangência nacional. Foram analisados os registros de idosos (≥60 anos) que referiram queda nos últimos 12 meses.
As variáveis de interesse foram: unidade da federação (UF), região geográfica (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul, Centro‑Oeste) e faixa etária (60‑64, 65‑74, ≥75 anos). Utilizaram‑se as estimativas expandidas (números absolutos) fornecidas pelo IBGE, resultantes da ponderação amostral.
A distribuição das quedas foi descrita por frequências absolutas e percentuais nas estratificações regionais e etárias. Para a análise por estado, os valores foram agrupados em quantis, gerando mapas temáticos por meio do software Geoda que classificou as UF segundo o volume de quedas em cada faixa etária. Não foram aplicados testes de hipótese, por tratar‑se de estudo descritivo.
Resultados e Discussão
Foram estimadas 8.313.962 quedas em idosos brasileiros nos 12 meses anteriores à entrevista da PNS 2019. A região Sudeste concentrou a maior parte dos eventos (45,2%), seguida pelo Nordeste (29,8%), Sul (11,8%), Centro-Oeste (6,9%) e Norte (6,3%) (Figura 1).
Figura 1. Proporção de quedas em idosos segundo região geográfica e faixa etária. Brasil, PNS 2019.
Em relação à distribuição etária, os dados evidenciam aumento progressivo da frequência de quedas com o avanço da idade, particularmente aqueles com 80 anos ou mais (Cruz-Jentoft et al., 2019). No entanto, o achado da região Sul destoa desse padrão: a elevada proporção de quedas na faixa etária mais jovem e a reduzida participação dos idosos longevos sugerem particularidades regionais que merecem investigação aprofundada.
A análise por UF revelou heterogeneidade na distribuição das quedas em todas as faixas etárias, com poucos estados concentrando os maiores volumes de eventos (Figura 2).
Figura 2. Análise espacial de proporção de quedas em idosos segundo UF e faixa etária. Brasil, PNS 2019.
A representação da distribuição espacial por estados aponta heterogeneidade interestadual na ocorrência de quedas, com poucos estados concentrando os maiores números em todas as faixas etárias, enquanto a maioria se distribui em níveis intermediários.
Esse padrão sugere que a influência de determinantes sociais e territoriais na ocorrência de quedas – como densidade populacional, cobertura de serviços de saúde e características socioeconômicas – pode influenciar a distribuição geográfica do evento, como também a implementação de políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável e à vigilância de agravos (Siqueira et al., 2007; Lana et al., 2022).
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados evidenciam que as quedas em idosos no Brasil apresentam distribuição desigual, influenciada por fatores etários e territoriais. Observa-se maior ocorrência em faixas etárias avançadas e em regiões mais vulneráveis, indicando a interação entre declínio funcional e desigualdades sociais. Tais achados reforçam a necessidade de intervenções voltadas à promoção da saúde, prevenção de quedas, adaptação do ambiente domiciliar e fortalecimento muscular que são essenciais para reduzir a ocorrência desse evento e suas consequências, por meio de políticas públicas regionalizadas e estratégias preventivas direcionadas ao envelhecimento saudável.
IMPLEMENTAÇÃO DA CADERNETA DE SAÚDE DA PESSOA IDOSA EM UMA EQUIPE DE SAÚDE DA FAMÍLIA EM REGIÃO DE FRONTEIRA
Comunicação Oral Curta
1 IFRO
2 UNIR
Apresentação/Introdução
O envelhecimento populacional constitui um fenômeno crescente no Brasil e no mundo, trazendo novos desafios para os sistemas de saúde, especialmente, no âmbito da Atenção Primária à Saúde. O aumento da expectativa de vida e a transição epidemiológica ampliam a prevalência de doenças crônicas e condições de vulnerabilidade entre idosos, demandando estratégias que promovam cuidado integral, longitudinal e centrado na pessoa. A Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa configura-se como importante instrumento de acompanhamento clínico e funcional, permitindo registrar informações sobre condições de saúde, fatores de risco, funcionalidade e uso de medicamentos, além de subsidiar ações de promoção, prevenção e monitoramento do cuidado. Entretanto, apesar de sua relevância, observa-se entre os profissionais da Estratégia Saúde da Família ainda dificuldades ou desconhecimento acerca de sua utilização na prática cotidiana. No município de Guajará-Mirim-RO, localizado na fronteira com a Bolívia, identificou-se elevada quantidade de idosos com hipertensão arterial, diabetes e vulnerabilidades pouco conhecidas, evidenciando a necessidade de qualificação das equipes de saúde para aprimorar o acompanhamento dessa população.
Objetivos
Capacitar uma equipe de Saúde da Família para a operacionalização da Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa em um município de fronteira, utilizando a metodologia da problematização como estratégia de educação permanente em saúde.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza interventiva, fundamentado na pedagogia da educação permanente em saúde e na metodologia da problematização, apoiada no Arco de Maguerez. Foi desenvolvido em uma Unidade Básica de Saúde do município de Guajará-Mirim-RO, no período de março a agosto de 2023. Participaram do estudo 13 profissionais de uma equipe de Saúde da Família, sendo onze agentes comunitários de saúde, uma enfermeira e uma médica. Foram realizadas nove oficinas educativas, incluindo uma etapa avaliativa, com utilização de materiais pedagógicos, recortes de artigos científicos, Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa (reimpressão 2020), seu manual de utilização e instrumentos para aferição de pressão arterial, glicemia capilar e medidas antropométricas. As narrativas foram gravadas, transcritas e registradas em diário de campo. No material empírico foi utilizada análise lexical com apoio do software IRAMUTEQ, possibilitando a organização e interpretação das narrativas produzidas pelos participantes durante as oficinas.
Resultados e Discussão
A caracterização dos participantes revelou predominância do sexo feminino (92,3%), com maior participação de agentes comunitários de saúde (84,6%) e faixa etária predominante entre 40 e 65 anos. Embora 61,5% dos profissionais possuíssem alguma formação relacionada à saúde da pessoa idosa, 84,6% relataram não ter recebido capacitação específica para utilização da Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. A análise das narrativas apresentou 75,97% de aproveitamento, formando cinco classes, que após análise compôs dois blocos temáticos. O primeiro, “Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa: um instrumento de atenção integral e longitudinalidade do cuidado”, formado pelas classes 1, 4 e 3, que explicam os aspectos que dificultam e que facilitam o uso da caderneta, bem como as contribuições das oficinas para a equipe. O segundo, “Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa e sua aplicação na prática”, é composto pelas classes 2 e 5, evidenciando as dificuldades da equipe no uso da caderneta e as sugestões para educação permanente sobre sua utilização que reuniu discussões à aplicação prática das estratégias propostas e à avaliação das oficinas. Os achados evidenciaram que a Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa é reconhecida pelos profissionais como ferramenta relevante para qualificação do cuidado, acompanhamento longitudinal e identificação de vulnerabilidades na população idosa. Entretanto, foram identificadas barreiras para sua implementação bem como ausência de capacitação prévia e fragilidades na organização do processo de trabalho. Como produto da intervenção, foi elaborado um roteiro técnico-educativo destinado a orientar gestores e profissionais da APS na implementação de processos de educação permanente voltados à utilização da caderneta.
Conclusões/Considerações Finais
A intervenção demonstrou que estratégias de educação permanente baseadas em metodologias ativas favorecem o desenvolvimento de competências profissionais e contribuem para a incorporação da Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa no processo de trabalho das equipes da Estratégia Saúde da Família. Observou-se o desconhecimento sobre o uso da caderneta, reforçando a necessidade de ações formativas contínuas. Após a intervenção, a caderneta passa a ser reconhecida como um instrumento que pode contribuir para qualificar o cuidado integral à pessoa idosa, fortalecer a organização da atenção na APS e ampliar a capacidade das equipes de identificar vulnerabilidades e planejar intervenções em saúde.
INFLUÊNCIA DO SUPORTE FAMILIAR NO ENVELHECIMENTO ATIVO E SAUDÁVEL DE PESSOAS IDOSAS NO CONTEXTO AMAZÔNICO
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ - INSTITUTO LEONIDAS E MARIA DEANE
Contextualização
A experiência foi desenvolvida no município de Lábrea, Amazonas, no Centro de Convivência da Família Dona Cesarina, no contexto do envelhecimento populacional e da necessidade de fortalecimento de estratégias que promovam o envelhecimento ativo, a autonomia e a participação familiar no cuidado à pessoa idosa. A iniciativa integra um estudo de mestrado voltado à compreensão dos determinantes sociais da saúde e à construção de um guia educativo que fortaleça redes de cuidado no contexto amazônico, marcado por especificidades territoriais, sociais e de acesso.
Descrição
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, descritiva, realizada com 20 pessoas idosas ativas em oficinas do centro de convivência. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas e Círculos de Cultura, permitindo apreender percepções e experiências sobre o papel da família no envelhecimento. As entrevistas foram realizadas individualmente, em ambiente reservado e confortável, com gravação autorizada e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Uma entrevista foi realizada em domicílio, respeitando o desejo do participante, evidenciando flexibilidade metodológica. Para viabilizar a coleta em curto período, foram promovidos momentos de acolhimento, como café da manhã e atividades físicas. O Círculo de Cultura utilizou recursos imagéticos para estimular reflexões críticas. A análise será conduzida por Análise de Conteúdo.
Destaca-se que a experiência também foi atravessada pela trajetória da pesquisadora, que já atuou na gestão local da saúde da pessoa idosa, favorecendo vínculo prévio com o território e compreensão ampliada do contexto.
Período de Realização
A coleta de dados foi realizada nos dias 22 e 23 de março de 2026, no período da manhã, em dois momentos distintos.
Objetivo
Analisar a influência do suporte familiar no envelhecimento ativo e saudável de pessoas idosas, considerando os determinantes sociais da saúde, e subsidiar a elaboração de um guia educativo voltado ao fortalecimento das redes de cuidado.
Resultados
Os resultados preliminares evidenciam que os participantes são majoritariamente aposentados ou pensionistas, oriundos do trabalho rural, permanecendo economicamente ativos e exercendo papel central na manutenção da renda familiar e no cuidado de netos. Observou-se que, frequentemente, são os principais provedores do domicílio. Apesar da prevalência de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, os idosos relatam percepção positiva de saúde, associada à prática de atividades físicas, convivência social e participação em ações do centro, incluindo atividades recreativas e culturais. As configurações familiares mostraram-se diversas, com idosos vivendo com familiares, cônjuges ou sozinhos, sendo a autonomia e a liberdade elementos
valorizados. Destaca-se a forte percepção de bem-estar, com relatos de vivência da “melhor fase da vida”, associada à independência e à participação social ativa.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a potência dos espaços coletivos na promoção do envelhecimento ativo e saudável, bem como a importância da escuta qualificada e do vínculo na produção do cuidado. Destaca-se também o papel estratégico de ações simples de acolhimento na adesão dos participantes. Outro aprendizado relevante refere-se à continuidade de políticas públicas ao longo do tempo, demonstrando que iniciativas implementadas anteriormente ainda produzem efeitos positivos no presente.
A experiência revelou importantes desafios logísticos, especialmente relacionados ao deslocamento entre Manaus e Lábrea pela BR-319, marcada por precariedade estrutural e agravada no período chuvoso, evidenciando desigualdades no acesso a territórios amazônicos. Aspectos pessoais, como a conciliação entre maternidade e atividade acadêmica, também impactaram o processo, reforçando a dimensão concreta da produção do conhecimento. No âmbito institucional, observou-se superação de expectativas quanto à receptividade da gestão local, evidenciando a importância do diálogo interinstitucional e da continuidade das ações públicas. Por outro lado, emergiram questões críticas, como a violência financeira contra a pessoa idosa e fragilidades no suporte familiar, expressas em relatos de sobrecarga e abandono, revelando contradições entre o papel central do idoso na família e o cuidado recebido. Compreende-se que o envelhecimento ativo ultrapassa o controle de doenças, envolvendo autonomia, participação social e fortalecimento de vínculos. Como desdobramento, será elaborado um guia educativo voltado às pessoas idosas e suas famílias, visando ao fortalecimento das redes de apoio e à promoção de práticas mais integradas e humanizadas. Espera-se que os achados contribuam para o desenvolvimento de políticas públicas sensíveis às especificidades do contexto amazônico.
DESIGUALDADES NA MORTALIDADE EVITÁVEL ENTRE HOMENS E MULHERES IDOSAS NO BRASIL: ANÁLISE COMPARATIVA 2014-2024
Comunicação Oral Curta
1 Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz)
Apresentação/Introdução
As desigualdades de saúde entre homens e mulheres constituem um fenômeno amplamente documentado, com os homens apresentando sistematicamente piores indicadores de morbimortalidade. Na população idosa, essas desigualdades assumem contornos específicos, pois se somam às vulnerabilidades decorrentes do envelhecimento e das condições crônicas prevalentes nessa faixa etária. A análise das causas de morte evitáveis permite identificar onde intervenções em saúde pública poderiam reduzir as desigualdades de gênero e melhorar os desfechos populacionais.
Objetivos
Estimar as taxas de mortalidade por causas evitáveis em pessoas idosas de 60 a 74 anos no Brasil, estratificadas por sexo, nos anos de 2014 e 2024, e calcular a razão de taxas entre homens e mulheres como medida de desigualdade de gênero. Busca-se identificar as causas com maiores disparidades masculinas e analisar a variação temporal dessas desigualdades no período.
Metodologia
Estudo epidemiológico descritivo com dados de mortalidade do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), para o Brasil nos anos de 2014 e 2024. A população de referência foi composta por idosos de 60 a 74 anos, com cálculo de taxas de mortalidade por causas evitáveis por 100.000 habitantes, estratificadas por sexo.
A análise foi conduzida em três etapas. Primeiro, identificaram-se os grupos de causas evitáveis mais frequentes entre homens e mulheres em 2024. Segundo, calculou-se a razão de taxas (homens/mulheres) para identificar as causas com maiores disparidades de gênero em 2024. Terceiro, para as causas com taxa de mortalidade masculina superior a 5 por 100.000 habitantes em 2024, analisou-se a variação temporal das desigualdades por meio da diferença entre as razões de taxas de 2024 e 2014 (razão 2024 − razão 2014), destacando-se as três causas com maior aumento e as três com maior diminuição da desigualdade no período.
Resultados e Discussão
Em 2024, a taxa de mortalidade evitável entre homens idosos foi de 1.548 por 100.000 habitantes, enquanto entre as mulheres foi de 927, resultando em uma razão de taxas de 1,7, razão semelhante à observada em 2014, de 1,6, o que indica uma manutenção das desvantagens masculinas.
As principais causas de mortalidade evitável em homens foram: doenças isquêmicas do coração (251,6), doenças cerebrovasculares (167,9), diabetes mellitus (118,1), infecções respiratórias incluindo pneumonia e influenza (117,3) e doenças crônicas das vias aéreas inferiores e edema pulmonar (91,6). Entre as mulheres, o padrão foi semelhante, porém com taxas menores: doenças isquêmicas do coração (119,8), doenças cerebrovasculares (102,1), diabetes mellitus (89,7), infecções respiratórias (72,0) e doenças crônicas das vias aéreas inferiores (68,6).
As maiores razões de taxas entre homens e mulheres em 2024 foram observadas em: psicose alcoólica e outros transtornos relacionados ao uso de álcool (10,7), agressões (7,8), neoplasia maligna da boca, faringe e laringe (6,6), neoplasia maligna do esôfago (5,1), lesões autoprovocadas intencionalmente (4,8), acidentes de transporte (4,8).
Entre 2014 e 2024, as maiores ampliações das desvantagens masculinas ocorreram em acidentes de transporte (variação de +1,2 na razão de taxas), neoplasia maligna do esôfago (+0,8) e tuberculose das vias respiratórias (+0,4). Importante destacar que esses aumentos se deram em um cenário de redução das taxas absolutas de mortalidade tanto em homens quanto em mulheres, mas com queda mais acentuada entre as mulheres, o que ampliou as disparidades relativas.
Por outro lado, as maiores reduções nas desvantagens masculinas ocorreram em agressões (-1,5), neoplasia maligna da traqueia, brônquios e pulmões (-0,6) e úlceras gástricas e duodenais (-0,4). Vale destacar, contudo, que a diminuição da desigualdade se deu em um contexto de piora das taxas femininas (com exceção das agressões). Isso significa que a redução dessas desigualdades não devem ser motivo de comemoração.
Conclusões/Considerações Finais
As desigualdades de mortalidade evitável entre homens e mulheres idosos no Brasil permanecem expressivas, com os homens apresentando taxas 70% superiores às das mulheres em 2024.
As causas com maiores disparidades de gênero refletem padrões de comportamento e exposição historicamente associados à masculinidade hegemônica, como o consumo de álcool, violências e tabagismo.
A interpretação das principais mudanças nos níveis de desigualdade entre 2014 e 2024 requer cautela: reduções na razão de taxas nem sempre indicam melhoras em termos de saúde pública, visto que, por vezes, são explicadas pela piora da saúde feminina.
Políticas intersetoriais direcionadas aos homens idosos, com foco especial na prevenção da mortalidade por causas externas, são fundamentais para a redução dessas iniquidades.
TECENDO SEGURANÇA NO ENVELHECER: O RASTREIO DE QUEDAS COMO FERRAMENTA DE CUIDADO INTEGRAL NO INTERIOR AMAZÔNICO
Comunicação Oral Curta
1 ISB/UFAM
Contextualização
O envelhecimento em territórios amazônicos de difícil acesso descortina desafios que transcendem a biologia e tocam a dignidade humana. No Amazonas, envelhecer significa habitar geografias e contextos sociais que, historicamente, acentuam vulnerabilidades. Sob a lente das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, o risco de queda deixa de ser um mero dado estatístico para se tornar uma construção que atravessa a corporeidade, o ambiente e as redes de afeto. Esta experiência emerge da necessidade ética de aproximar a academia de comunidades onde a distância dos centros urbanos demanda estratégias de cuidado profundamente territorializadas.
Descrição
O relato analisa as vivências da Liga de Estudos e Intervenção de Fisioterapia em Gerontologia (LEIFIG), vinculada à Universidade Federal do Amazonas, durante ações extensionistas em Coari, no interior do estado, realizadas no segundo semestre de 2025. A atividade consistiu na aplicação presencial da Ferramenta de Rastreio de Risco de Quedas (FRRISque) em espaços comunitários. Mais do que uma coleta técnica, a experiência configurou-se como um dispositivo de escuta ativa, permitindo uma imersão na realidade domiciliar e psicossocial de 14 pessoas idosas.
Período de Realização
Segundo semestre de 2025.
Objetivo
Analisar criticamente as reflexões e aprendizados obtidos durante o rastreio de riscos de quedas em pessoas idosas no interior amazônico, buscando compreender a intersecção entre a fragilidade física e os determinantes sociais locais.
Resultados
A vivência revelou um cenário de instabilidade multifatorial: 85,7% (n=12) das pessoas idosas apresentaram fraqueza em membros inferiores e dificuldades severas em vencer as ladeiras da região. O histórico de quedas atingiu 57,1% (n=8) da amostra, sendo que 21,4% (n=3) culminaram em fraturas. No campo subjetivo e cognitivo, 64,2% (n=9) relataram episódios de tristeza e declínio de memória, evidenciando que corpo e psiquismo são indissociáveis no processo de adoecimento. Quanto aos riscos ambientais, destacaram-se a presença de escadas e tapetes (n=10), contrastando com a quase inexistência de barras de apoio (n=1). Contudo, emergiu um dado de vigorosa relevância social: 100% (n=14) dos idosos podem contar com o suporte familiar. Identificou-se que, diante da fragilidade estrutural das políticas públicas, a família constitui a principal tecnologia de cuidado e resistência no território.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência ensinou que o rastreio de quedas, ao ser vivenciado na comunidade, transmuta-se de um protocolo frio em um encontro de acolhimento. A principal reflexão crítica recai sobre a necessidade de a universidade não apenas "levar" ciência, mas "aprender" com as potências locais. Percebeu-se que, se a funcionalidade física sustenta a autonomia, é a rede de proteção familiar que assegura a dignidade do envelhecer amazônida. O aprendizado central foi entender que a saúde gerontológica no interior exige um olhar que honre a cultura e a resiliência de quem habita o território. Ao ocupar esses espaços com empatia e escuta, a academia reafirma seu compromisso com uma saúde que é humana, compartilhada e sensível às marcas do tempo.
“VIVER BEM EM SANTA MARIA É VIVER EM SANTA MARIA”: PERCEPÇÃO DA SAÚDE BUCAL E QUALIDADE DE VIDA ENTRE PESSOAS IDOSAS EM UMA COMUNIDADE RURAL RIBEIRINHA DA AMAZÔNIA
Comunicação Oral Curta
1 ILMD/Fiocruz Amazônia
2 FAO/UFAM
3 UFPE
Contextualização
As populações rurais ribeirinhas representam um dos povos tradicionais, cujas dinâmicas sociais e atividades de subsistência guardam uma relação de simbiose com os territórios. A comunidade rural ribeirinha de Santa Maria, localizada a aproximadamente 5 horas de barco regional da sede do município de Manaus, Amazonas, com acesso exclusivo por via fluvial, tem constituído um campo de análise dos fenômenos sociais, a partir da realização de uma pesquisa-ação para promoção da saúde bucal, que busca fortalecer a coesão social e a autonomia dos comunitários como agentes promotores de saúde.
Descrição
Esta experiência foi descrita a partir de uma atividade de educação em saúde, realizada no âmbito da pesquisa, com os moradores idosos da comunidade. Inicialmente, disponibilizaram-se sementeira, terra composta e sementes de erva cidreira e pimenta, para os comunitários semearem. Durante a semeadura, iniciou-se uma discussão sobre o conceito de cuidado deflagrada com a ideia: “Assim como a nossa saúde, essas futuras plantas precisam ser regadas, de sol [...], de prevenção para não ficar doente, de cuidado e zelo”. Algumas falas surgiram a partir desta reflexão, como “Tem que cuidar todo dia, né?” e “Não ficamos bem do dia para noite”. Seguiu-se com o questionamento: Para vocês, o que é saúde, sendo uma pessoa idosa que vive em Santa Maria? O que é viver bem? De início, observou-se certo estranhamento diante da pergunta, quase uma cautela excessiva para não errar, e, após um silêncio prolongado, surgiram as primeiras respostas de senso comum: "É não ficar doente, não ter doenças", "É ir no médico", "Não fumar nem beber e fazer exercícios todo dia", "É não comer besteira". Não havendo mais manifestações, a mediadora propôs uma reflexão: “Agora é a minha vez. Para mim, ter saúde é... Brincar com meu filho no fim do dia e ter energia para acompanhá-lo e vê-lo crescer”. A fala da mediadora pareceu desconstruir o que a perspectiva biomédica tradicionalmente imposta trazia como expetativa de resposta e favoreceu discursos mais libertos: “Eu gosto de pescar de manhã sozinha pra [depois] almoçar com meu filho”, “Saúde é ter força pra mexer na minha horta, isso faz bem”, “Eu não gosto da cidade não, eu vivo bem aqui, que é calmo, tem um igarapé atrás de casa e faz friozinho de manhã, nem precisa de ar-condicionado”, ”Viver bem é comer bem, com as coisas da horta, os peixe, né?”. Ao fim, o líder comunitário concluiu: “Viver bem em Santa Maria é viver em Santa Maria”. “O que podemos fazer pela nossa saúde, incluindo a saúde da boca?”, foi questionado em seguida. “Acho que tem que sair mais, se cuidar mais, os jovens só querem saber de celular, não querem saber de mais nada”, “Muitos, os jovens não comem bem, só comem salsicha e industrializados, isso não deveria ser a nossa realidade, temos uma mesa tão rica, temos tanto. Por que comer essas coisas?”. Depois de outras reflexões, a última pergunta foi: “O que é saúde bucal?”. A primeira resposta foi “Sorrir, se o cara não for capaz de sorrir, então ele não pode nada”.
Período de Realização
A atividade foi realizada em março de 2026.
Objetivo
Descrever uma atividade de educação em saúde, do tipo roda de conversa, que envolveu a percepção sobre saúde bucal e qualidade de vida entre moradores da comunidade rural ribeirinha da Amazônia.
Resultados
Evidenciou-se a compreensão que o cuidado em saúde requer continuidade e longitudinalidade. As primeiras falas mostraram a hegemonia do conceito biomédico, reducionista e centralizado no saber médico, que faz embotar a análise crítica sobre a amplitude do termo viver bem. Entretanto, os comunitários, a partir de reflexões direcionadas, provocados pela dinâmica e fala desconstrutivas da mediadora, foram capazes de expressar um conceito de saúde que vai além de não estar doente. Relacionaram ao conceito de saúde o bem-estar físico, mental, emocional e social, que são dimensões que constituem a qualidade de vida, além de associá-lo a comportamentos e a ambientes saudáveis, além de terem expressado o forte senso de comunidade. Identificaram ainda as dimensões psicológicas e sociais que constituem o conceito contemporâneo da saúde bucal.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a percepção comunitária de saúde bucal e qualidade de vida superou o conceito biomédico ao ser relacionada aos conceitos estruturantes do modelo biopsicossocial e da promoção da saúde. Essa percepção da comunidade, que já vem participando e protagonizando ações promotoras de saúde, aponta, para os serviços e profissionais, a necessidade de que eles também tenham uma compreensão mais holística da saúde e a necessidade de reorganização de práticas efetivamente centradas no indivíduo, com valorização da experiência subjetiva do processo saúde-doença e dos saberes populares, reconhecendo o protagonismo dos sujeitos. A vivência enfatizou a potencialidade do reforço continuado em intervenções comunitárias promotoras de saúde vinculadas à autonomia das pessoas, às condições de vida e às estruturas sociais.
Realização: