Programa - Comunicação Oral Curta - COC7.2 - Tecnologia, inovação e fronteiras assistenciais no cuidado à pessoa idosa
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
AUTOPERCEPÇÃO DE SAÚDE DE PESSOAS IDOSAS NO CONTEXTO DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 UNICENTRO
Apresentação/Introdução
O envelhecimento populacional no Brasil e no mundo é uma realidade. Para acompanhamento do processo de envelhecimento saudável, além da avaliação das questões fisiológicas, pode-se utilizar os indicadores da autopercepção de saúde (Gomes et. al.,2021; Cetolin et. al.,2025 e Possmoser et. al.,2026). Estes indicadores abordam o estado do indivíduo, comtemplando questões comportamentais, emocionais, relacionadas a percepção do bem-estar, realização e contentamento com sua vida e aspectos físicos (Gomes et al.,2021).
Ao utilizar estes indicadores, identifica-se que os dados poderão subsidiar ações nas políticas de saúde da Atenção Primária a Saúde (APS) e reflexões para reformulação de ações que favoreçam a promoção de um envelhecimento ativo.
Objetivos
Identificar a autopercepção de saúde de pessoas idosas da Atenção Primária a Saúde em uma cidade do interior do Paraná.
Metodologia
Trata-se de um estudo quantitativo transversal descritivo, derivado do estudo intitulado ‘Acesso de pessoas idosas aos serviços de saúde na Atenção Primária’, realizado no município de Guarapuava-PR. A amostra, tipo probabilística, foi composta por 360 pessoas idosas, selecionadas aleatoriamente e cadastradas em cinco Unidades Básicas de Saúde (UBS).
Os critérios de inclusão foram: pessoas idosas residentes e cadastradas nas UBS’s sorteadas; e os critérios de exclusão: participantes não localizados no endereço, após três tentativas de retorno, e que por limitações cognitivas apresentaram inconsistências nas respostas.
Os dados foram coletados de novembro de 2022 a maio de 2023 por meio de questionário em forma de entrevista, no domicílio. Estudo aprovado pelo Comitê de Ética institucional, sob parecer número 5.593.896. Os dados foram analisados mediante estatística descritiva.
Resultados e Discussão
Ao se referir a autopercepção de saúde, 73% (n=289) dos participantes relataram estar em estado bom/ótimo de saúde. Quando perguntado se possuíam algum problema de saúde atual, 80,6% (n=319) responderam afirmativamente. Considerando o decorrer dos últimos cinco anos, 41,7% (n=165) dos participantes declaram que sua saúde piorou, enquanto 18,9% (n=75) referiram ter observado melhoria.
Dentre os 319 participantes que relataram estar com problema de saúde atual, 59,6% (n=190) registraram dificuldades que interferem nas atividades diárias, 81,2% (n=259) afirmaram que já receberam tratamento, ajuda ou terapia, e 18,8% (n=60) relataram que não receberam nenhum tipo de ajuda, tratamento ou terapia.
O reconhecimento, por parte da maioria das pessoas idosas entrevistadas, de possuir um problema de saúde atual, indica uma vulnerabilidade e necessidade de um acompanhamento pela UBS, com buscas ativas. O fato de relatarem uma predominante piora de saúde nos últimos cinco anos nos faz refletir sobre a importância de uma assistência longitudinal, reforçando vínculos e facilitando que informações de saúde cheguem até a pessoa idosa para reconhecimento de necessidades de saúde.
Paskulin, Valer e Vianna (2011) inferiram que perceber-se doente ou relatar condição crônica de saúde resultou em maior utilização do serviço de APS entre as pessoas idosas entrevistadas, com isso os autores afirmam que há influências de determinantes sociais, tanto na saúde como no acesso aos serviços de saúde neste grupo etário. Quanto maior a informação sobre a saúde, maior adesão ao tratamento e às estratégias de prevenção e promoção.
Identificou-se também que mesmo com uma predominante autopercepção de saúde boa/ótima, 59,6% (n=190) participantes registraram dificuldades na execução das atividades diárias. O acompanhamento da UBS com a população idosa deve ser ativo, e não depender apenas da procura espontânea por serviços. Conforme Ferreira et al. (2020), a existência de uma Estratégia de Saúde da Família (ESF) não garante o acesso aos serviços de saúde. Em seu estudo sobre um território com 100% de cobertura pela ESF, identificaram-se limitações no acesso à APS relacionadas a autopercepção de saúde comprometida, que levou pessoas idosas a não reconhecer a necessidade de atendimento, ou a buscar serviços mais que a UBS.
Entre os participantes que referiram problemas de saúde, houve uma parcela que relatou não ter recebido ajuda ou terapia. Schenker e Costa (2019), afirmam que o adoecimento é vivido de forma singular e reconhecido apenas após dor ou incapacidade, evidenciando a importância da educação em saúde e do engajamento do usuário no tratamento.
Conclusões/Considerações Finais
A autopercepção de saúde de grande parte das pessoas idosas foi de um estado bom/ótimo de saúde, apesar da maioria relatar possuir problema de saúde. Aqueles que relataram terem problemas de saúde, a maioria afirmou receber tratamento, ajuda ou terapia e possuir dificuldades na execução das atividades diárias.
Esses achados reforçam a importância do acompanhamento desta população e do papel da UBS, enquanto porta de entrada para os serviços de prevenção, promoção, tratamento ou reabilitação das pessoas idosas.
DESAFIOS ASSISTENCIAIS NO CUIDADO DE ENFERMAGEM À PESSOA IDOSA COM DOR MUSCULOESQUELÉTICA EM AMBULATÓRIO ESPECIALIZADO
Comunicação Oral Curta
1 UNIFOR
Contextualização
A dor musculoesquelética persistente afeta entre 40% e 60% das pessoas idosas, configurando-se como uma ameaça à saúde, sobretudo pelo seu impacto econômico e social. Essa condição compromete a funcionalidade, a mobilidade e o bem-estar, estando associada a quedas, fragilidade e declínio cognitivo. De natureza multifatorial e subjetiva, envolve dimensões biológicas, psicológicas e familiares. Por afetar a qualidade de vida, requer uma assistência integral, baseada em abordagens biopsicossociais e interdisciplinares (Welsh et al., 2020; Paludo et al., 2024).
No campo da enfermagem, o cuidado à pessoa idosa com dor musculoesquelética e vulnerabilidade clínico-funcional exige abordagem humanizada e multiprofissional, considerando riscos da polifarmácia, ocorrência de quedas e declínio da autonomia. A coexistência de doenças crônicas e o uso de medicamentos potencialmente inapropriados tornam o manejo mais complexo, demandando reconciliação medicamentosa e educação em saúde contínua (Melo et al., 2025; Andrade et al., 2024).
Nesse contexto, o ambulatório especializado configura-se como espaço estratégico para o cuidado integral.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido a partir da atuação de enfermagem em um ambulatório especializado no atendimento de pacientes com dores crônicas, cuja maioria é composta por pessoas com 60 anos ou mais, com ênfase em condições de origem musculoesquelética.
As atividades foram realizadas por meio da consulta de enfermagem, a qual abrange o acolhimento, escuta qualificada, identificação de fatores agravantes da dor e orientações quanto ao manejo não farmacológico.
Observou-se elevada complexidade dos casos, com multimorbidades, polifarmácia e limitações funcionais que causam impacto nas atividades de vida diária. Foram frequentes manifestações de sofrimento emocional, como ansiedade, tristeza e sensação de incapacidade. A enfermagem destacou-se na construção de vínculo terapêutico, educação em saúde e atuação com a equipe multiprofissional.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida no período de agosto a dezembro de 2025, no contexto das atividades assistenciais do Ambulatório da Dor, localizado no Núcleo de Atenção Médica Integrada (NAMI), em Fortaleza.
Objetivo
Relatar a experiência do cuidado de enfermagem à pessoa idosa com dor crônica em um ambulatório especializado, destacando desafios relacionados à complexidade clínica, polifarmácia, limitações funcionais e aspectos emocionais.
Resultados
A experiência evidenciou que o cuidado à pessoa idosa com dor crônica envolve desafios significativos, sobretudo pela complexidade clínica dos casos, marcada por múltiplas comorbidades e uso concomitante de medicamentos
A polifarmácia revelou-se fator crítico na saúde da pessoa idosa, associada a interações medicamentosas e eventos adversos, como quedas e declínio cognitivo. Exige vigilância contínua da enfermagem, com monitoramento e orientação para uso seguro de fármacos. O conhecimento técnico do enfermeiro é essencial para análise das prescrições e redução de riscos (Lago et al., 2025)
A incapacidade funcional compromete autonomia e qualidade de vida dos idosos. A dor crônica associa-se à depressão, evidenciando a relação entre sofrimento físico e emocional. Isso reforça a necessidade de cuidado integral e abordagem multidisciplinar (Völz et al., 2020)
Nesse cenário, a enfermagem assumiu papel central na avaliação contínua, monitoramento dos sintomas e implementação de estratégias educativas voltadas ao autocuidado.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência possibilitou compreender que o cuidado à pessoa idosa com dor musculoesquelética demanda uma abordagem holística e interdisciplinar, que ultrapasse o modelo biomédico centrado exclusivamente no sintoma. Evidenciou-se a relevância da escuta qualificada, da educação em saúde e da valorização da subjetividade no processo de cuidado.
Destacou-se, ainda, o papel da enfermagem como agente articulador do cuidado, contribuindo para o fortalecimento da autonomia, maior adesão ao tratamento e melhoria da qualidade de vida dos usuários. Apesar do aumento da longevidade, a saúde da pessoa idosa ainda enfrenta fragmentação da assistência e foco em emergências e hospitais. O modelo biomédico estimula medicalização excessiva, elevando custos e comprometendo a sustentabilidade. Essa abordagem negligencia a integralidade do cuidado e dimensões essenciais para a qualidade de vida (Veras, 2024).
Faz-se necessária a ampliação do espaço destinado às consultas de enfermagem no sistema de saúde, reconhecendo sua relevância para a qualificação do cuidado, promoção da integralidade e fortalecimento da assistência centrada no usuário. A experiência evidencia a necessidade de reorganização dos serviços de saúde, visando um cuidado mais integral, resolutivo e humanizado à população idosa.
DESAFIOS DO IDADISMO: ALIANÇA TERAPÊUTICA E ENGAJAMENTO EM UM PROGRAMA INTEIRAMENTE DIGITAL PARA PESSOAS IDOSAS COM DEPRESSÃO (VIVA VIDA)
Comunicação Oral Curta
1 USP
Apresentação/Introdução
A população de pessoas idosas com 60 anos ou mais está crescendo cada vez mais no Brasil e a depressão nessa fase da vida tem se tornado um foco de atenção na saúde pública pela sua alta prevalência e enorme impacto na qualidade de vida dos indivíduos, famílias e sociedade. Os programas de autoajuda inteiramente digitais são inovações que demonstraram ser efetivos para a melhora de sintomas de depressão em pessoas idosas. No entanto, existem algumas barreiras para o desenvolvimento dos programas digitais para este público, como o idadismo associado à noção de engajamento digital e a lacuna no conhecimento sobre estabelecimento da aliança terapêutica entre as pessoas idosas e estes programas.
Objetivos
Examinar como se constituíram o engajamento e a aliança terapêutica entre os participantes e o programa de autoajuda inteiramente digital, baseado em psicoeducação, ativação comportamental e prevenção de recaídas, para idosos com depressão (Viva Vida) e refletir sobre os impactos do idadismo no desenvolvimento deste tipo de programa a partir de dados relevantes gerados durante o Ensaio Clínico Randomizado e da literatura existente.
Metodologia
O programa Viva Vida foi testado em um ensaio clínico com 603 indivíduos (60 anos ou mais) registrados em 24 Unidades Básicas de Saúde em Guarulhos, Brasil. A experiência dos participantes com o programa foi compreendida por meio de entrevistas em profundidade com 24 participantes que receberam a intervenção. Analisamos o conteúdo das entrevistas tematicamente a partir de desfechos para pesquisa de implementação (aceitabilidade, adequação, viabilidade e fidelidade) e engajamento pré-estabelecidos e de temas e subtemas indutivos. Em um segundo momento da análise, os temas e subtemas foram refinados e analisados com base nos componentes teóricos de Aliança Terapêutica (Digital).
Resultados e Discussão
Os resultados do estudo mostraram que os participantes aderiram ao programa Viva Vida (considerando o número de mensagens registradas eletronicamente como ‘abertas’ no sistema), sendo que 226 (75,8%) dos participantes abriram a dose terapêutica pré-estabelecida (ao menos 75% de todas as mensagens recebidas). Os participantes se engajaram com o programa (isto é, se sentiram motivados a abrir e ouvir as mensagens do programa e a escolher e realizar as tarefas sugeridas pelo programa), além disso, estabeleceram vínculo com o programa (relatando apego e ter sentido falta das mensagens). As motivações para o engajamento estavam relacionadas às características do programa Viva Vida (por exemplo, a aceitabilidade e utilidade das mensagens, confiança nos profissionais) e às características dos participantes (por exemplo, a curiosidade, identificação com a experiência dos personagens das histórias narradas nas mensagens e vontade de melhorar os sintomas de depressão). Barreiras para escutar as mensagens estavam conectadas às caraterísticas dos participantes (por exemplo, falta de tempo, saúde e comportamento do participante) e ao contexto digital de uso do programa (por exemplo, uso raro e baixo armazenamento do celular). As barreiras para o engajamento dos participantes com as dicas do programa estavam relacionadas à falta de tempo, motivação, persistência ou autoconhecimento, à concepção de não ter depressão e à saúde do participante. O suporte das pessoas próximas aos participantes, como familiares e amigos, foi um facilitador para o engajamento (o apoio foi oferecido de diversas formas, como ao verificar a confiabilidade do programa, ouvir as mensagens com o participante e notificar o recebimento das mensagens). A ausência de suporte não impediu a participação das pessoas idosas.
Conclusões/Considerações Finais
Este estudo contribui com a literatura incipiente sobre a formação da aliança terapêutica e engajamento em intervenções de autoajuda inteiramente digitais para pessoas idosas com depressão no Brasil, podendo colaborar com o desenvolvimento de programas de baixo custo e escalonáveis na área da saúde mental no país. Diferentemente da visão homogênea do idadismo que generaliza o uso precário da tecnologia pelas pessoas idosas, os resultados mostraram que as pessoas idosas aderiram, se engajaram e criaram vínculo com o programa Viva Vida, ainda que um participante tenha buscado o suporte dos filhos para verificação da confiabilidade do programa. Ademais, acentuou a importância de combater o idadismo no desenvolvimento de programas digitais para promoção de saúde de pessoas idosas, considerando as variações individuais no uso da tecnologia e a possibilidade das pessoas desenvolverem habilidades ao longo da vida. Este projeto analisou os dados coletados para o projeto “Intervenção psicossocial digital para idosos com depressão” aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa HCFMUSP em 25/04/2022 (CAAE 43158321.5.0000.0068).
EDUCAÇÃO EM SAÚDE ATRAVÉS DA TECNOLOGIA DIGITAL PARA ANALISAR A QUALIDADE DE VIDA DE IDOSOS
Comunicação Oral Curta
1 UFRN
2 UFPB
Contextualização
A crescente transição demográfica no Brasil, marcada pelo aumento da população idosa, tem desafiado os sistemas de saúde a desenvolver estratégias inovadoras que promovam não apenas a longevidade, mas também a qualidade de vida. Nesse contexto, a educação em saúde assume papel central, sobretudo quando articulada às Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação, que ampliam o acesso ao conhecimento e favorecem práticas de cuidado mais participativas e inclusivas. Entretanto, ainda persistem barreiras relacionadas ao acesso, letramento digital e ao idadismo, que podem limitar a inserção dos idosos nesses processos.
Diante desse cenário, emergem iniciativas que buscam integrar o uso de tecnologias digitais ao cuidado em saúde, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde, como forma de fortalecer vínculos, promover autonomia e estimular o autocuidado. Assim, este relato de experiência insere-se na perspectiva de inovação em práticas educativas em saúde, ao explorar o uso de ferramentas digitais como mediadoras de processos dialógicos e coletivos com pessoas idosas, visando compreender seus impactos na qualidade de vida e no engajamento em práticas de saúde.
Descrição
O rastreio dos idosos se deu em uma Estratégia Saúde da Família no município de João Pessoa Paraíba. A experiência foi realizada por meio do smartphone, sendo criado dois grupos de WhatsApp, visto que a chamada é limitada a oito pessoas. Participaram 16 idosas. Foram realizados oito encontros na perspectiva de roda de conversa, considerando e valorizando as falas das idosas e dialogando sobre temas transversais. Para avaliar a qualidade de vida foi utilizado o Short Form Health Survey 36 (SF-36).
Período de Realização
Foi realizada no período de Janeiro a Maio de 2023.
Objetivo
Avaliar a utilização de mídias digitais no processo de educação em saúde visando à melhoria da qualidade de vida de idosos.
Resultados
O processo educativo através da roda de conversa virtual apresentou uma percepção positiva a partir das vozes das idosas, influenciando sua qualidade de vida (QV). Evidenciou melhoria em cinco dos oito domínios (QV), sendo: Limitação por aspectos físicos, Estado geral de saúde, Vitalidade, Aspectos sociais e Saúde mental. A iniciativa conseguiu alterar aspectos importantes da realidade dos participantes, proporcionando maior engajamento em práticas de autocuidado e facilitando o acesso a informações relevantes sobre saúde, fortalecendo vínculos, ampliando o conhecimento e proporcionando um maior bem-estar emocional.
Aprendizado e Análise Crítica
Por meio da interação virtual, as idosas tiveram a oportunidade de participar de um processo educativo que superou barreiras físicas e geográficas, permitindo um aprendizado contínuo e adaptado às suas necessidades. Os participantes avaliaram positivamente os encontros realizados, destacando a acessibilidade, a clareza das informações e o apoio emocional promovido pelas atividades, evidenciando que a educação em saúde mediada por tecnologias digitais pode ser uma alternativa viável e eficaz para alcançar idosos, promovendo a inclusão digital nas políticas públicas para essa fase da vida que muitas vezes é vista com Idadismo e ampliando a percepção de qualidade de vida, transformando significativamente a forma como o conhecimento é transmitido e tornando-o mais dinâmico.
ENTRE O ACESSO E A EXCLUSÃO: TRANSFORMAÇÃO DIGITAL DA SAÚDE E LETRAMENTO DIGITAL EM SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ DE BRASÍLIA
2 Secretaria Executiva da UNASUS
3 Fiocruz do Ceará
Apresentação/Introdução
A crescente digitalização dos serviços de saúde tem reconfigurado as formas de acesso, comunicação e cuidado, impondo novos desafios para trabalhadores e usuários, especialmente no que se refere às pessoas idosas. O letramento digital em saúde emerge como elemento central para a garantia do acesso equitativo, ao mesmo tempo em que pode aprofundar desigualdades já existentes. Compreender a percepção dos trabalhadores da saúde sobre esse fenômeno torna-se estratégico para orientar políticas públicas e práticas assistenciais mais inclusivas.
Objetivos
Analisar a percepção de trabalhadores da saúde sobre o letramento digital em saúde, com ênfase no cuidado à pessoa idosa, identificando potencialidades, limites e implicações para o acesso aos serviços.
Metodologia
Estudo quantitativo, descritivo e exploratório, baseado na aplicação de questionário estruturado a trabalhadores da saúde. O instrumento contemplou dimensões relacionadas ao uso da internet para busca de informações em saúde, percepção sobre competências digitais e avaliação das capacidades das pessoas idosas no uso de tecnologias digitais. Para mensuração do letramento digital em saúde, foi utilizado o instrumento eHealth Literacy Scale (eHEALS), previamente traduzido e adaptado para o português. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva, permitindo a identificação de padrões de resposta e tendências gerais.
Resultados e Discussão
Participaram do estudo mais de seis mil trabalhadores da saúde, com elevada adesão ao termo de consentimento. Observou-se forte presença de mulheres entre os respondentes, além de diversidade racial, com predominância de pessoas pardas e brancas, refletindo, em parte, o perfil da força de trabalho em saúde no Brasil.
Destaca-se a centralidade do cuidado à pessoa idosa no cotidiano desses profissionais, sendo que a maioria relatou realizar atendimentos frequentemente ou sempre. Esse dado evidencia que a temática do letramento digital não é periférica, mas atravessa diretamente a prática assistencial.
No que se refere às competências digitais, os trabalhadores demonstraram elevada autopercepção de capacidade no uso da internet para buscar informações em saúde, com predomínio de concordância quanto ao conhecimento, localização e uso de recursos digitais. Entretanto, essa percepção contrasta fortemente com a avaliação feita sobre as pessoas idosas. A maioria dos respondentes discorda que esse público saiba identificar, acessar ou utilizar recursos digitais em saúde, evidenciando uma percepção de limitação significativa nesse grupo.
Essa discrepância revela uma percepção de desigualdade digital relevante, que pode impactar diretamente o acesso aos serviços de saúde em um contexto de crescente digitalização. Ao mesmo tempo, indica que, embora os trabalhadores reconheçam tais limitações, ainda há lacunas na incorporação de estratégias que promovam inclusão digital no cotidiano do cuidado.
Outro aspecto relevante refere-se à diversidade de contextos sociais e territoriais dos trabalhadores, incluindo a presença de profissionais vinculados a diferentes comunidades, o que reforça a necessidade de abordagens sensíveis às desigualdades socioterritoriais.
De forma geral, os resultados indicam que, embora haja domínio técnico por parte dos profissionais, persistem desafios importantes na mediação do uso das tecnologias junto às pessoas idosas. A digitalização dos serviços, quando não acompanhada de estratégias de inclusão digital e apoio ao usuário, pode produzir novas formas de exclusão, tensionando os princípios de equidade e universalidade do sistema de saúde.
Conclusões/Considerações Finais
O letramento digital em saúde constitui um desafio relevante para a qualificação do cuidado à pessoa idosa. Os resultados indicam a necessidade de políticas e estratégias que promovam inclusão digital, formação profissional e adequação dos serviços, de modo a garantir acesso equitativo e cuidado integral. Destaca-se a importância de incorporar o letramento digital como componente das práticas em saúde, especialmente na Atenção Primária.
IDENTIDADE COLETIVA E TERRITÓRIOS DE CUIDADO: PRÁTICAS FONOAUDIOLÓGICAS GRUPAIS COM MULHERES CUIDADORAS DE PESSOAS IDOSAS COM ALTERAÇÕES DE LINGUAGEM
Comunicação Oral Curta
1 UNICAMP
Apresentação/Introdução
Cuidadores de idosos com alterações de linguagem comumente são familiares da pessoa assistida, sendo a grande maioria mulheres¹ em processo de envelhecimento. Observa-se, portanto, a realidade de mulheres idosas no papel de cuidadoras, uma condição que impõe sobreposições de demandas físicas e emocionais decorrentes da própria idade e do ato de cuidar. Estudos apontam graves indícios de sobrecarga, como estresse, depressão e adoecimento físico e mental,¹-². Trata-se de uma população exposta a vulnerabilidades clínicas, financeiras e a um profundo isolamento social. Para promover saúde, as práticas grupais em Fonoaudiologia oferecem um ambiente acolhedor para a troca de vivências, fortalecimento da identidade e enfrentamento coletivo de aflições³. Apesar de sua relevância, a literatura científica com foco nessa população e intervenção permanece escassa.
Objetivos
Analisar o impacto das práticas fonoaudiológicas grupais na promoção do cuidado e no fortalecimento das redes de apoio social de mulheres cuidadoras de pessoas idosas com alterações de linguagem.
Metodologia
Pesquisa documental, retrospectiva e transversal, de análise qualitativa, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa o parecer 6.643.220. Foi realizada a análise de doze encontros mensais de grupo de familiares mediados por estagiários e residentes de Fonoaudiologia, sendo oito feitos de forma online pela plataforma Google Meet, e quatro de modo presencial, com duração de uma hora cada encontro. Os dados foram registrados e analisados em um protocolo de coleta de dados e relatório de grupo, com informações dos participantes, temas e objetivos dos encontros, atividades propostas, participação dos familiares e avaliação do encontro. A análise qualitativa foi realizada através da análise de conteúdo.
Resultados e Discussão
Participaram oito mulheres (esposas das pessoas cuidads, média de 56 anos, com escolaridade de ensino médio incompleto, sem trabalho externo à casa). As pessoas cuidadas eram idosos com alterações de linguagem (afasia e Doença de Parkinson). Relataram dedicar a maior parte do dia cuidando do indivíduo com alteração de linguagem, o impacto na saúde e a falta de rede apoio: “no momento eu me sinto muito desamparada, não sei o que sou, às vezes tenho a impressão que não sou nada.”, relatam também situações de isolamento social e falta de acesso ao território em situações de vivências de que deixaram de fazer: "(...) tem pouca convivência com família, amigos né, é muito difícil”; “sinto falta de ir ao shopping, fazer compras e viajar, assistir a filmes e escrever”. Ao longo dos encontros, tornaram-se mais próximas e se propuseram a realizar atividades que envolvessem o próprio bem-estar e saúde, como realizar “sudoku” ou uma confecção de receita. Nos encontros, foram realizadas atividades como alongamento cervical, exercícios de respiração, bingo, dança, colagem e outras atividades de interesse, com o objetivo de promover o autocuidado e momentos de saúde. Segundo as participantes, os encontros se tornaram um espaço em que sentiam-se confortáveis para compartilhar histórias: “(..) vamos pegar a experiência de outras pessoas e aprender com outras pessoas (...) e aí tem seu tempo de falar porque às vezes cê fica com muita coisa guardada pra você mesmo (...) eu nunca senti essa segurança de falar para outras pessoas o que eu to sentindo e passando (...) esse grupo com familiares eu aprendi demais e eu melhorei muito em relação a esse problema de saúde dele”, “gosto bastante porque essa interação e essa troca de experiência é muito importante, pra mim é mais importante ainda ter outras pessoas (...)”. Os grupos atuaram como um dispositivo potente de saúde, rompendo o isolamento ao configurar-se como um novo "território existencial" e seguro. Os relatos demonstraram que a troca de vivências entre pares permitiu o resgate da identidade coletiva e o alívio da sobrecarga emocional4.
Conclusões/Considerações Finais
As práticas fonoaudiológicas grupais revelaram-se uma estratégia fundamental de cuidado para mulheres cuidadoras em processo de envelhecimento. Ao proporcionar um ambiente seguro para o acolhimento de angústias e a partilha de vivências entre pares, o grupo transcendeu o aspecto clínico, consolidando-se como um novo território de conexões. A criação de vínculos permitiu o resgate da identidade coletiva e a reestruturação de redes de apoio essenciais. Diante dos desafios do século XXI, fomentar esses espaços terapêuticos é uma ação urgente para mitigar o isolamento social, reduzir as vulnerabilidades impostas pelo cuidado ininterrupto e promover a saúde integral dessas mulheres.
REFLEXÕES DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA SOBRE O CUIDADO INSTITUCIONAL À PESSOA IDOSA NO BRASIL CONTEMPORÂNEO
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz - PE
Contextualização
O envelhecimento populacional brasileiro, marcado por profundas e históricas desigualdades sociais, territoriais e de acesso a direitos, desafia o campo da saúde coletiva a construir respostas intersetoriais e equitativas. No contexto das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), essas desigualdades se materializam de forma expressiva, evidenciando limites das políticas públicas, fragilidades normativas e a persistência do idadismo estrutural, que contribui para a invisibilidade das demandas desse segmento populacional.
Descrição
O presente relato integra uma pesquisa de doutorado em andamento e foi desenvolvido a partir de uma abordagem qualitativa de caráter reflexivo, ancorada na sistematização da experiência profissional no campo da vigilância sanitária. Nesse período, foram realizadas inspeções sanitárias em ILPIs situadas em um distrito sanitário de uma capital do Nordeste brasileiro e a vivência cotidiana nesses espaços possibilitou a compreensão de aspectos relacionados à organização do cuidado institucional, às condições sanitárias e estruturais das ILPIs, bem como às relações de trabalho estabelecidas, com especial atenção aos cuidadores de pessoas idosas residentes. Como estratégia metodológica complementar, realizou-se revisão crítica da literatura, com ênfase nos temas envelhecimento crítico, instituição de longa permanência e cuidados de longa duração. A análise da experiência foi orientada por referenciais das ciências sociais em saúde, permitindo uma interpretação ampliada dos achados empíricos.
Período de Realização
Embora a atuação profissional em ILPIs tenha ocorrido desde 2012, o recorte analítico deste estudo concentra-se nos últimos cinco anos.
Objetivo
Refletir criticamente sobre o cuidado institucional à pessoa idosa no Brasil, a partir da interface entre vigilância sanitária, normas vigentes, condições de funcionamento das ILPIs e o trabalho dos cuidadores, problematizando as desigualdades e os desafios impostos pelo envelhecimento populacional no século XXI.
Resultados
Observou-se uma heterogeneidade significativa entre ILPIs públicas/filantrópicas e privadas, evidenciando desigualdades na infraestrutura, nos recursos disponíveis e na qualidade do cuidado ofertado. As ILPIs privadas se sobressaíram melhores em termos de infraestrutura em detrimento às públicas/filantrópicas. O profissional “cuidador de idosos”, cuja atuação é fundamental para a manutenção da assistência no cotidiano, ocorre em condições frequentemente precárias, marcadas por ausência de regulamentação profissional, sobrecarga de trabalho e baixa valorização. Verificou-se também que, a institucionalização em muitos casos, decorre da insuficiência de suporte familiar e da ausência de políticas públicas estruturadas de cuidado de longa duração.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou ampliação do olhar técnico-normativo da vigilância sanitária, incorporando dimensões sociais, culturais e laborais na análise das ILPIs. Compreender essas instituições como espaços de vida, e não apenas de regulação, permite reconhecer a complexidade do cuidado e a importância de valorizar tanto as pessoas idosas quanto os trabalhadores. Há uma urgência de fortalecer a formação e a regulamentação destes profissionais, assim como avançar na construção de políticas públicas integradas de cuidado, e esse movimento torna-se ainda mais necessário diante do acelerado processo de envelhecimento populacional no Brasil, que ampliará a demanda por cuidados de longa duração, exigindo respostas institucionais capazes de garantir atenção com qualidade, dignidade e respeito aos direitos das pessoas idosas. À luz das ciências sociais em saúde e da determinação social do processo saúde-doença, o envelhecimento deve ser compreendido como fenômeno atravessado por desigualdades de classe, raça, gênero e território. O modelo vigente, que ainda responsabiliza sobretudo as famílias — especialmente as mulheres — pelo cuidado, mostra-se insuficiente diante das transformações demográficas e sociais, como a redução do tamanho das famílias e a maior inserção feminina no mercado de trabalho. A recente discussão sobre a Política Nacional de Cuidados no Brasil evidencia avanços, mas também o atraso histórico na incorporação dessa agenda. Nesse cenário, as ILPIs ocupam um lugar ambíguo, entre proteção e precarização, exigindo maior atenção do Estado e da sociedade. Assim, a vigilância sanitária pode exercer papel estratégico não apenas como instância normativa e fiscalizatória, mas como indutora da qualidade do cuidado, ao incorporar uma perspectiva ampliada que considere as condições de trabalho dos cuidadores, a organização institucional e as múltiplas dimensões do cotidiano das ILPIs. Essa integração é essencial para responder, de forma ética e sustentável, à crescente demanda por cuidados de longa duração no contexto do envelhecimento populacional brasileiro.
Realização: