Programa - Comunicação Oral - CO2.2 - Saberes e práticas em Alimentação e Nutrição
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
A FESTA DOS ERÊS COMO TERRITÓRIO DE CUIDADO: ALIMENTAÇÃO, SAÚDE E EPISTEMOLOGIAS DE TERREIRO EM UMA EXPERIÊNCIA EXTENSIONISTA DO GPAC/USP
Comunicação Oral
1 FSP USP
2 FFLCH
Contextualização
Este trabalho apresenta a sistematização de uma atividade extensionista desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura “(GPAC)”, em parceria com o Terreiro Aruanda, localizado no município de São Paulo, no bairro do Ipiranga, liderado pelo Pai de Santo David Dias Delgado. A proposta parte da festa dos erês, que integra o calendário votivo da Umbanda e, para além da dimensão religiosa, reafirma a força das tradições afro-brasileiras recriadas em meio a condições adversas, como destaca Lélia Gonzalez (2024) em Festas Populares no Brasil. Ao ocupar as ruas, essas celebrações afirmam o direito à cidade em contextos marcados por políticas excludentes, que negam ao povo negro tanto o acesso à moradia quanto a possibilidade de consolidar seus terreiros. Assim, as festas públicas se tornam atos políticos e sociais, ao mesmo tempo em que garantem cultura, lazer e presença negra em espaços historicamente negados.
A comida, nesse cenário, é elemento central. A fartura alimentar não se resume ao gesto de partilha, mas representa uma linguagem simbólica que afirma a abundância como direito e contrapõe-se ao histórico de escassez e fome imposto ao povo negro. Ao oferecer pratos preparados coletivamente, o terreiro constrói uma comensalidade que preserva memórias, e ao mesmo tempo, fortalece sua identidade.
Descrição
A proposta metodológica envolveu imersão teórico-prática com estudantes do 1º e 2º ano da graduação dos curso de Nutrição, incluindo a observação da preparação e o consumo do Caruru, comida sagrada das religiões de matriz africana, elaborado a partir do quiabo e de outros elementos simbólicos, oferecido aos orixás e aos erês, articulando cuidado, ancestralidade, coletividade e produção de saúde no território, a participação na Festa dos Erês dentro do Terreiro e na rua, como a festa foi elaborada para ser cultuada, e, por fim, a roda de conversa. As atividades foram conduzidas por integrantes do GPAC e por lideranças do terreiro, com destaque para Ana Carolina Pallottini que abordou o tema “Saúde, segurança alimentar e nutricional e o cuidado da população negra de terreiro” e a historiadora e mestranda Camila Barraca, que abordou “Comida de terreiro como linguagem de memória, identidade e resistência frente ao racismo religioso”.
Período de Realização
A atividade foi realizada nos dias 26 e 27 de setembro de 2025 .
Objetivo
Vivenciar a Festa dos Erês como território de produção de cuidado alimentar e de saúde, fortalecendo a formação crítica de estudantes da área da saúde e ampliando o debate sobre segurança alimentar e nutricional e cuidado da população negra de terreiro, a partir de uma perspectiva decolonial.
Resultados
Como resultados, destaca-se a ampliação das concepções de saúde e alimentação entre os participantes, o reconhecimento do terreiro como território produtor de cuidado e a valorização de práticas alimentares e de saúde não hegemônicas. A experiência também evidenciou a centralidade da comida como prática ritual, coletiva e política, afirmando a abundância como direito e tensionando a lógica de escassez historicamente imposta à população negra.
Aprendizado e Análise Crítica
Como aprendizados, evidenciou-se a potência da extensão universitária na construção de diálogos horizontais entre universidade e saberes tradicionais, contribuindo para a formação em saúde pautada na integralidade, equidade e justiça social. Do ponto de vista analítico, a experiência permitiu problematizar os limites das abordagens biomédicas e individualizantes, evidenciando que, para povos tradicionais de matriz africana, a produção de saúde está intrinsecamente relacionada ao território, à ancestralidade, à coletividade e à alimentação. Ao tensionar o campo da alimentação e nutrição a partir de epistemologias de terreiro, a experiência problematiza modelos hegemônicos e contribui para a construção de agendas comprometidas com justiça alimentar, racial e epistêmica. Dessa forma, evidencia-se a necessidade de incorporação de epistemologias decoloniais na saúde coletiva, alimentação e nutrição, reconhecendo os terreiros como espaços legítimos de produção de conhecimento e cuidado.
A RECEITA ANCESTRAL EM CAMINHOS AFRO-DIASPÓRICOS: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM UM CENTRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL
Comunicação Oral
1 IF Goiano - Campus Urutaí
Contextualização
A culinária afro-brasileira pode ser compreendida como um conjunto de práticas e significados alimentares, derivados de vivências negras desde a diáspora africana. Dessa forma a utilização de ingredientes de origem africana, além do emprego de utensílios e técnicas de preparo que refletem a permanência e resiliência do povo negro no Brasil, representa uma reafirmação de epistemologias negras como prática antirracista no ensino da nutrição. A diversidade territorial do Brasil possibilita ainda o consumo de pratos de herança afro-brasileira constantemente moldados por fatores regionais e pelas vivências locais, o que confere a cada comunidade uma identidade singular e contextualizada ao seu território. Nesse sentido, a disseminação da culinária quilombola no ambiente escolar configura-se como um potente dispositivo de preservação cultural. A introdução de práticas e saberes afro-diaspóricos nos cardápios e cotidiano escolar dialoga com a alimentação saudável, além da formação antirracista promovidas desde os primeiros anos de vida. Assim, ao valorar as experiências passadas e presentes na cozinha, a alimentação escolar ultrapassa a função nutricional e torna-se um ato político e pedagógico. Esse resgate permite a continuidade de uma história de luta e pertencimento, fortalecendo a identidade de um povo, uma vez que, nesse contexto as receitas representam a memória e saber ancestral. Este trabalho relata uma ação extensionista em um Centro de Educação Infantil, utilizando a alimentação quilombola como dispositivo de formação antirracista.
Descrição
A experiência relatada ocorreu no âmbito do Programa de Extensão em Políticas Educacionais de Equidade Racial (AFROEXT), projeto que busca promover a educação das relações étnico-raciais e educação escolar quilombola em municípios do sudeste goiano. A atividade foi planejada e executada pela equipe do projeto, composta por docentes e discentes dos cursos de Nutrição e Educação Física do Instituto Federal Goiano Campus Urutaí. Teve como cenário de prática um Centro de Educação Infantil localizado no município de Santa Cruz (GO), e como público participante cerca de 30 crianças com idade entre quatro e cinco anos. A temática central da atividade: “comida e diversão no quilombo”. Os dispositivos de formação antirracista utilizados para atividade foram a realização de uma oficina culinária com a paçoca de gergelim e castanha de baru, receita do quilombo Kalunga localizado em território goiano e a prática de jogos e brincadeiras de origem africana. As etapas da oficina ocorreram de forma a promover o contato das crianças com os ingredientes e com a história da receita; ressalta-se que durante as brincadeiras e jogos, as cantigas e músicas incluíram termos chaves para a abordagem da temática central das atividades.
Período de Realização
A experiência relatada ocorreu no dia 27 de março de 2026.
Objetivo
O objetivo do trabalho é relatar a experiência de uma atividade de Educação Alimentar e Nutricional, a qual buscou apresentar às crianças elementos da cultura africana. Dessa forma, buscou-se promover atividades práticas referenciadas na cultura afro-brasileira, africana e indígena.
Resultados
Obteve-se como resultados as interações geradas a partir da prática, onde as crianças tiveram contato com o preparo da receita da paçoca e com os termos “quilombo” e “quilombola”, uma vez que, durante o preparo explicou-se as origens da receita. Durante os jogos o contato com as cantigas também favoreceu o aprendizado acerca dor termos pertinentes a temática central da ação. O momento de troca foi favoreceu a inserção do conhecimento da alimentação e história quilombola desde a infância, além das brincadeiras e jogos de origem africana.
Aprendizado e Análise Crítica
Foi possível compreender que a inserção de dispositivos de equidade racial em atividades escolares, é uma estratégia eficaz na luta por uma educação antirracista. Além disso, a faixa etária das crianças instigou o desafio da utilização de recursos adequados a compreensão e interação nessa fase da vida. Ressalta-se que as receitas e os jogos e brincadeiras, foram estratégias pertinentes e assertivas na construção de conceitos que as
crianças ainda não possuíam previamente, como o conceito de quilombo.
CAMINHOS PARA A SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL EM TERRITÓRIOS URBANOS: AVALIAÇÃO DO PAPEL PEDAGÓGICO DAS HORTAS ESCOLARES NA CIDADE DE SÃO PAULO
Comunicação Oral
1 FSP/USP
Contextualização
Com a maior rede municipal de ensino da América Latina, a cidade de São Paulo tem parcela significativa dos estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Nesse cenário, faz-se imperativo que o poder público atue de forma estratégica, intersetorial e dialógica aos territórios para redução dessas desigualdades.
As hortas escolares têm papel fundamental como ação pedagógica na promoção de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e no tensionamento de padrões alimentares hegemônicos. A gestão de políticas públicas informada pelo território é, portanto, crucial para o acompanhamento e o aprimoramento dessas ações, e para potencialização de seus resultados.
Nesse sentido, o Monitoramento de Hortas emerge como uma importante ferramenta de produção de dados quali-quantitativos que visibiliza práticas alimentares e sustentáveis no território escolar, contribuindo para o aumento da SAN por meio da qualificação de políticas públicas e articulação intersetorial.
Descrição
A Secretaria Municipal da Educação, por meio da Coordenadoria de Alimentação Escolar (SME/CODAE), realiza anualmente o Monitoramento de Hortas, um questionário direcionado às equipes gestoras das escolas de São Paulo com perguntas relevantes em relação às hortas escolares. A edição de 2024 foi elaborada em articulação com outras secretarias e núcleos internos à CODAE.
O Monitoramento configura-se como, simultaneamente, amplo e específico, abordando a existência e as características das hortas, pessoas envolvidas, participação estudantil, desafios de implementação e continuidade, e gestão de resíduos.
Os dados são sistematizados e compartilhados entre setores da CODAE e com secretarias, como com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho (SMDET) para levantamento de dados relevantes à continuidade do Programa Operação Trabalho Mães Guardiãs da Alimentação Escolar (POT-GAE). O programa objetiva a inserção de mulheres em situação de vulnerabilidade econômica no mercado de trabalho, por meio da realização de atividades em hortas escolares para fortalecimento da SAN no município.
Os resultados são também compartilhados com a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) para inserção nos dados abertos da plataforma Sampa+Rural, que mapeia os espaços de agricultura na cidade e promove seu fortalecimento.
Período de Realização
Novembro de 2024 a março de 2025, incluindo reestruturação do questionário anterior, divulgação, análise e divulgação dos resultados.
Objetivo
Analisar o Monitoramento como fonte relevante de informações territorializadas sobre as hortas nas escolas municipais, permitindo avaliação de iniciativas vigentes, planejamento e implementação de novas ações intersetoriais, e potencialização dos resultados positivos das políticas públicas relacionadas à SAN.
Resultados
Foram obtidas 3015 respostas (80% das escolas ativas no período) e mapeadas 1600 hortas. A principal motivação para sua implementação é pedagógica (83%), evidenciando o papel da horta como espaço de aprendizagem. Em 46% das escolas, a presença de beneficiárias do POT-GAE reafirma a centralidade dessas mulheres como promotoras de saúde e de educação alimentar e nutricional (EAN), articulando SAN e geração de renda.
Por outro lado, a baixa adesão de práticas de gestão de resíduos orgânicos e do uso incipiente de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC, 8%) apontam desafios da consolidação de projetos pedagógicos voltados à sustentabilidade socioambiental no ambiente escolar. Ainda, 48% das escolas apontam falta de pessoas para manutenção das hortas, reforçando a necessidade de políticas públicas que apoiem de modo mais sistemático sua implementação e continuidade.
Aprendizado e Análise Crítica
O Monitoramento de Hortas evidencia o potencial da produção de dados territorializados para qualificar a gestão de políticas públicas e fortalecer a intersetorialidade na promoção da SAN, articulada à sustentabilidade e redução das desigualdades.
Os dados reafirmam o valor das hortas escolares como espaços pedagógicos e de promoção de SAN, destacando a centralidade do trabalho da comunidade escolar, em especial das mulheres do POT-GAE, na sua continuidade. O programa demonstra como o espaço da horta pode ser potente para o trabalho dialógico entre políticas públicas e as dimensões de gênero, sustentabilidade e SAN, sobretudo em contextos marcados por desigualdades estruturais.
A baixa diversidade de práticas alimentares indica a persistência de modelos hegemônicos associados aos modos de produção coloniais, colocando em disputa a construção de abordagens que reconheçam a pluralidade de saberes, práticas e culturas alimentares nos territórios educacionais. Nesse sentido, o Monitoramento não apenas subsidia a gestão pública, mas também visibiliza disputas em torno dos modos de produzir, ensinar e viver a alimentação escolar, indicando a necessidade de políticas que reconheçam os territórios escolares como espaços de produção de vida, saberes e reexistências.
CONSUMO, ACESSO E DISPONIBILIDADE DE ALIMENTOS ATRAVÉS DAS LENTES DE RIBEIRINHOS DA AMAZÔNIA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA A PARTIR DA METODOLOGIA PHOTOVOICE.
Comunicação Oral
1 ILMD/Fiocruz Amazônia
2 UFSM
Contextualização
Este relato descreve a experiência em duas comunidades rurais ribeirinhas de Manaus, São Pedro e Bonsucesso, às margens do Rio Amazonas, durante o Projeto: Futuro das Populações Amazônicas: Segurança alimentar e saúde em um cenário de mudanças que impactam seus modos de vida e o ambiente em que vivem. A Amazônia, rica em sociodiversidade de alimentos da fauna e flora, é impactada pelo sistema alimentar atual, especialmente em populações ribeirinhas afetadas por eventos climáticos extremos como secas históricas, que reduzem a disponibilidade e estabilidade de acesso a alimentos, afetando a soberania alimentar. Além disso, processos de industrialização e urbanização estimulam o consumo de ultraprocessados, alterando hábitos alimentares e aumentando riscos de doenças crônicas não transmissíveis. Conhecer os modos de vida, aquisição e consumo de alimentos nessas comunidades é essencial para direcionar ações contextualizadas, contributivas à soberania e segurança alimentar e nutricional de comunidades ribeirinhas.
Descrição
Para compreender a realidade alimentar sob o olhar dos ribeirinhos, utilizou-se o Photovoice, metodologia de pesquisa-ação participativa que emprega fotografia para registro, compartilhamento de percepções, saberes e experiências, gerando discussões coletivas, escolhida por permitir construções a partir do conhecimento local. As oficinas com uso do Photovoice ocorreram em duas etapas por comunidade: primeiro, treinamento teórico-prático de fotografia com celulares para adolescentes, cobrindo luz, edição e ética. Depois, os adolescentes fotografaram alimentos consumidos em seu cotidiano por 20 dias, para uma mostra comunitária com moradores e pais. Na mostra, apresentaram fotos, explicando os alimentos, origem e o contexto em que as fotos foram tiradas, a partir das quais, um grupo focal, por comunidade, foi realizado, tendo com roteiro perguntas norteadoras sobre alimentos consumidos, dificuldades e facilidades de obtenção. Em Bonsucesso, envolveu adultos, professores e profissionais de saúde; em São Pedro, adolescentes estudantes.
Período de Realização
Oficinas foram realizadas nos dias 18 e 19 de julho de 2025; acompanhamento de fotos entre 20 de julho a 10 de agosto de 2025; e as mostras e grupos focais realizados de forma simultânea, em 24/09/2025, com as duas comunidades.
Objetivo
Relatar a experiência do Photovoice como metodologia sensível para dados exploratórios e reflexões sobre acesso, disponibilidade e tipos de alimentos em comunidades ribeirinhas de Manaus.
Resultados
O Photovoice facilitou a aproximação dos pesquisadores não somente com moradores, mas com suas prioridades, mostrando ser uma técnica de pesquisa baseada em conhecimentos vivos, relacionais, capaz de promover vínculo e escuta a essas comunidades. As fotos dispararam debates sobre determinantes da realidade alimentar, explorando influências ambientais e socioeconômicas que têm moldado seus hábitos. Revelou padrões semelhantes de consumo: transição de in natura para processados/ultraprocessados, influenciada por fatores ambientais, econômicos e tecnológicos. Quanto às singularidades na disponibilidade de alimentos: Bonsucesso apontou declínio de peixes e de frutos disponíveis (associados à seca), a redução da caça (desmatamento e descontinuidade geracional de caçadores), e diminuição da produção de farinha, embora uma das principais bases da dieta ribeirinha (por ser árduo o trabalho). Sobre a agricultura, é mais voltada à venda para supermercados da capital. Existe horta limitada (impacto do clima). Em São Pedro, referiram sobre a pesca (melhor na vazante dos rios - seca), hortas e pomares com presença de variados tipos de frutas e legumes, além de criação de galinha e confecção de farinha e goma de tapioca. Apesar disso, externaram menor abundância de peixes/caça/frutas por erosão e clima. Ambas sinalizaram dependência de tabernas locais para aquisição de arroz, feijão, macarrão, óleo, salsicha e calabresa, embora compras mensais permaneçam sendo realizadas em Manaus (melhores preços).
Aprendizado e Análise Crítica
Pesquisas com ribeirinhos devem priorizar co-construção horizontal, respeitando formas culturais de conversa, escuta e sentidos, identificando problemas, potências e resiliências. As Políticas públicas de Segurança Alimentar e Nutricional na Amazônia, por sua vez, devem considerar o protagonismo comunitário, as singularidades territoriais, a descolonização do olhar e a valorização de saberes locais ante aos desafios globais. Através da metodologia utilizada, participativa e reflexiva, protagonizada pelos comunitários, foi possível evidenciar hábitos e consumo alimentar, vulnerabilidade alimentar causada por emergência climática no acesso/disponibilidade de alimentos, percebidos pelos comunitários. Fortaleceu laços comunitários via trocas/narrativas, promovendo conscientização sobre impactos climáticos e mudanças alimentares. Desvelou sobreposição alimentar ribeirinha, além de métricas nutricionais, capturando dimensões subjetiva e ambiental do comer.
EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL E SABERES POPULARES: TERRITORIALIZANDO A ALIMENTAÇÃO EM UMA ESCOLA PÚBLICA DA CABANA DO PAI TOMÁS (BELO HORIZONTE/MG)
Comunicação Oral
1 IRR-FIOCRUZ-MG
2 CEFET-MG
Contextualização
A alimentação escolar, no âmbito das políticas públicas no Brasil, especialmente com o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), tem se configurado como um processo em construção, historicamente orientado por abordagens nutricionais, mas que também é tensionado pela incorporação das dimensões culturais, territoriais e simbólicas do comer. Dessa forma, é importante o diálogo com as Ciências Sociais e Humanas em Saúde e a Agroecologia, destacando a centralidade dos saberes populares, das práticas alimentares territorializadas e das experiências coletivas na produção da saúde.
Em territórios periféricos urbanos, marcados por desigualdades estruturais, coexistem processos de precarização dos ambientes alimentares e potentes formas de produção da vida, da cultura e da alimentação, que expressam memórias, pertencimentos e estratégias de reexistência, tensionando a lógica hegemônica dos sistemas alimentares.
Descrição
O relato refere-se a uma experiência em andamento desenvolvida na Escola Estadual Professora Nair de Oliveira Santana, localizada na comunidade Cabana do Pai Tomás, em Belo Horizonte (MG), no âmbito de ações articuladas entre pesquisa e extensão em educação popular. A experiência integra o Programa SoFiA, iniciativa de extensão popular e divulgação científica vinculada ao Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), que atua na escola desde 2023 com ações voltadas à agroecologia, saúde, meio ambiente e tecnologias sociais, na referida escola. Articula-se, também, a uma pesquisa de doutorado em Saúde Coletiva que investiga as relações entre alimentação escolar, território e práticas alimentares, desenvolvida no Instituto René Rachou (IRR/FIOCRUZ-MG).
A experiência envolve estudantes do ensino médio e estrutura-se em uma sequência didática, que se constitui em aulas e outras atividades pedagógicas que abordam alimentação, território, cultura alimentar e agroecologia, fundamentados na educação popular e na pedagogia histórico-crítica. Como desdobramento, serão construídos coletivamente um “livro de receitas afetivas” da comunidade escolar e a atividade denominada “cozinha das tradições”, que mobiliza o preparo e o compartilhamento de alimentos acompanhados de narrativas sobre suas origens e significados.
Período de Realização
Início em janeiro de 2026 e encerramento previsto para outubro de 2026.
Objetivo
Promover a reflexão crítica sobre alimentação escolar a partir da valorização de saberes populares e práticas alimentares territoriais, articulando educação alimentar e nutricional, cultura e território no contexto da Escola Estadual Professora Nair de Oliveira Santana, em Belo Horizonte/MG.
Resultados
A experiência tem propiciado que os estudantes mobilizem repertórios alimentares fortemente vinculados ao território, incluindo receitas familiares, práticas culinárias tradicionais e referências culturais locais. A construção do livro de receitas afetivas possibilita o resgate de memórias alimentares e o reconhecimento da comida como elemento de identidade, afeto e pertencimento ao território. A “cozinha das tradições” configura-se como espaço de troca de saberes, no qual estudantes, mestres e mestras de saberes populares da alimentação compartilham práticas culinárias e narrativas associadas às suas trajetórias familiares e comunitárias.
Em associação com outras atividades de educação popular e ambiental crítica desenvolvidas na escola, observa-se o interesse dos estudantes pelas discussões sobre plantio, produção de alimentos e alimentação, bem como maior engajamento nas atividades quando estas dialogam com suas experiências de vida. A experiência também evidencia tensões entre a alimentação escolar institucionalizada e as práticas alimentares do território, revelando distanciamentos, mas também possibilidades de aproximação.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência reforça que a educação alimentar e nutricional, quando orientada por perspectivas críticas e participativas, pode contribuir para a valorização de saberes populares e para a construção de práticas educativas mais significativas. A incorporação das dimensões culturais e territoriais da alimentação tensiona abordagens normativas e prescritivas, ampliando a compreensão do comer como prática social. Ao mesmo tempo, evidencia limites institucionais para a incorporação desses saberes nas políticas públicas, apontando para a necessidade de maior articulação entre escola, território e comunidade.
Destaca-se o potencial de metodologias inspiradas na educação popular, como a construção coletiva de saberes, materializada no “livro de receitas afetivas” e na “cozinha das tradições”, para promover processos de reterritorialização alimentar no espaço escolar, contribuindo para práticas alinhadas à agroecologia, à soberania alimentar e à promoção da saúde. A experiência aponta, ainda, para a escola como espaço de mediação entre diferentes racionalidades alimentares, no qual se disputam sentidos, valores e práticas relacionados à alimentação.
DIMENSÕES CONTEXTUAIS NA ATUAÇÃO DA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL: UM ESTUDO DE CASO EM TANGUÁ/RJ
Comunicação Oral
1 UFF
Apresentação/Introdução
A Educação Alimentar e Nutricional (EAN) é um dos pilares do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), configurando-se como uma estratégia transversal para a promoção da saúde e a garantia da Segurança Alimentar e Nutricional no ambiente escolar. Sua implementação é orientada por diretrizes nacionais, como o Marco de Referência de EAN para Políticas Públicas e as normas técnicas do PNAE, que estabelecem diretrizes para as ações nas redes de ensino. No entanto, a execução dessas diretrizes oficiais não ocorre de forma linear, pois a materialização da política depende da interpretação dos atores e das condições reais de cada unidade de ensino, que podem restringir ou potencializar as ações pedagógicas. Compreender esses condicionantes é fundamental para entender por que as diretrizes oficiais assumem contornos específicos em cada território.
Objetivos
Mapear as dimensões contextuais (materiais, situadas e profissionais) que condicionam a atuação da Educação Alimentar e Nutricional nas escolas públicas de Tanguá/RJ.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa fundamentada na Teoria da Atuação de Stephen Ball, a qual permitiu analisar a política como um processo de interpretação e tradução dos atores locais. Nesta perspectiva, o contexto é compreendido como um conjunto de dimensões dinâmicas que interagem com o texto da política, forçando os atores a realizarem ajustes e bricolagens para torná-la viável na prática. Os dados foram coletados no período de maio a agosto de 2025, por meio de entrevistas com gestores escolares e pedagógicos, sendo organizados em um livro de códigos (codebook) estruturado a priori com base no referencial teórico. Este instrumento permitiu a operacionalização da análise, categorizando os relatos dos gestores nos quatro eixos contextuais principais: externo (territorial), situado (escolar), material (infraestrutura e artefatos materiais/textuais) e de profissional (culturas e valores). A análise utilizou a técnica de análise temática para identificar a relevância de cada dimensão no cotidiano escolar.
Resultados e Discussão
O mapeamento das dimensões contextuais em Tanguá/RJ demonstra que a atuação da EAN é condicionada por fatores interdependentes. O contexto externo é marcado pela vulnerabilidade socioeconômica das famílias e pela insegurança alimentar. O custo elevado da alimentação saudável, somado à influência das mídias digitais e aos hábitos alimentares voltados ao consumo de ultraprocessados, constitui a pressão macro a qual a política de EAN tenta responder. Em contrapartida, a identidade agrícola territorial e os saberes comunitários locais resistem para a promoção da soberania alimentar. Já o contexto situado, é onde a escola precisa "concorrer" com o consumo de ultraprocessados, materializado pela entrada de lanches externos e doces entregues por pais na porta da escola. A aceitação à alimentação escolar varia conforme a etapa de ensino: observa-se uma maior resistência no Fundamental 1, onde o hábito doméstico é mais presente, em contraste com a maior adesão dos alunos do segundo segmento, que raramente levam lanche de casa e dependem mais da alimentação escolar.
Quanto ao contexto material e aos artefatos, destacam-se as hortas escolares, presentes no território como estrutura física disponível para as ações pedagógicas. Por outro lado, a limitação de espaço nos refeitórios das unidades e o horário das refeições desalinhado do hábito familiar reduzem o momento da alimentação a uma etapa operacional de saciedade, esvaziado-o dos aspectos simbólicos e relacionais da comensalidade. Como suporte à prática, a rede mobiliza artefatos textuais e materiais oficiais, como as cartilhas e guias de alimentação da Secretaria Municipal de Educação, que buscam orientar a atuação nas escolas.
Por fim, o contexto profissional revela uma rede municipal marcada pela falta de tempo devido ao acúmulo de tarefas dos gestores e coordenadores. Observou-se uma significativa dependência do saber técnico da nutricionista, que atua como autoridade central do tema. Na ausência de formação continuada sistemática, os atores recorrem a saberes prévios e recursos visuais consolidados, mas tecnicamenter ultrapassados, como a pirâmide alimentar, e à busca autônoma por informações na internet.
Conclusões/Considerações Finais
As dimensões contextuais em Tanguá/RJ revelam que a atuação da EAN é fragmentada e muitas vezes pautada em saberes individuais e informais, em vez de uma cultura pedagógica institucionalizada pela rede. A precariedade material e a vulnerabilidade territorial forçam os atores a uma atuação baseada na busca autônoma por soluções e em iniciativas isoladas, sem o suporte de uma rede institucionalizada. Sem o enfrentamento das limitações estruturais e a valorização da cultura profissional local, a EAN corre o risco de permanecer como uma prática episódica, descolada da realidade vivida pelos sujeitos.
Realização: