Programa - Comunicação Oral - CO12.6 - Formação para a equidade, cuidado e contextos específicos de atuação
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
EQUIDADE, DIVERSIDADE E INTERSECCIONALIDADE NO TRABALHO E CUIDADO EM SAÚDE: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral
1 UEL
Contextualização
No âmbito das Ciências Sociais em Saúde, as desigualdades que atravessam o trabalho e o cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS) expressam-se por meio de violências de gênero, racismo estrutural e outras formas de opressão que operam de maneira interseccional nos territórios. Tais processos demandam abordagens críticas e decoloniais que problematizem práticas naturalizadas e promovam transformações nos modos de produzir cuidado.
Descrição
Trata-se de um ciclo de oficinas formativas intitulado “Equidade, Diversidade e Interseccionalidade no Trabalho e Cuidado em Saúde”, desenvolvido como estratégia de Educação Permanente em Saúde na Atenção Primária à Saúde do município de Londrina (PR). Foram realizadas dez oficinas presenciais, com carga horária de quatro horas cada, destinadas a trabalhadores e futuros trabalhadores da saúde, com oferta média de 20 vagas por edição. A metodologia foi participativa, dialógica e flexível, estruturada em três momentos: acolhimento e construção de identidade; problematização de gênero, papéis sociais, linguagem discriminatória e práticas institucionais; e síntese com avaliação participativa, utilizando dinâmicas interativas.
Período de Realização
Período de julho de 2025 a março de 2026.
Objetivo
Promover reflexões críticas sobre equidade, diversidade e interseccionalidade nos processos de trabalho e cuidado em saúde, com ênfase no enfrentamento das violências de gênero e de outras desigualdades estruturais, visando qualificar o acesso e a assistência no SUS.
Resultados
Participaram 224 trabalhadores e futuros trabalhadores da saúde, com diversidade de categorias profissionais, níveis de formação, gêneros, idades e pertencimentos étnico-raciais. Essa heterogeneidade favoreceu a ampliação do debate e a emergência de múltiplas perspectivas sobre as desigualdades nos serviços e territórios. Observou-se elevado engajamento nas atividades, especialmente nas metodologias interativas, que estimularam reflexões sobre temas frequentemente naturalizados, como papéis de gênero, racismo e práticas institucionais excludentes. As discussões evidenciaram como marcadores sociais da diferença operam de forma interseccional, produzindo iniquidades no cuidado.
Aprendizado e Análise Crítica
Destaca-se como principal aprendizado a potência da criação de espaços seguros de escuta e fala, que possibilitaram a explicitação de experiências de violência e discriminação frequentemente silenciadas no cotidiano dos serviços. Esses espaços favoreceram o deslocamento de discursos normativos para análises mais críticas, situadas e sensíveis às dimensões territoriais e culturais. A troca entre participantes ampliou a compreensão das interseccionalidades no cuidado e na gestão. Contudo, emergiram resistências às temáticas abordadas, revelando tensões institucionais e limites na incorporação dessas discussões no cotidiano do trabalho, o que aponta para a necessidade de continuidade e sustentação institucional dessas ações formativas. A experiência evidencia o potencial das oficinas como dispositivo de Educação Permanente em Saúde comprometido com abordagens interseccionais e decoloniais, contribuindo para a desnaturalização das violências e a qualificação do cuidado. Recomenda-se sua institucionalização como prática contínua, com manutenção da flexibilidade metodológica e valorização dos territórios, visando fortalecer práticas mais equitativas e socialmente comprometidas no SUS.
FORTALECENDO A COMPETÊNCIA CULTURAL NA FORMAÇÃO PARA A ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: A EXPERIÊNCIA DE UM PROGRAMA DE RESIDÊNCIA MULTIPROFISSIONAL
Comunicação Oral
1 Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família/Prefeitura Municipal de Campinas
Contextualização
Na Atenção Primária à Saúde (APS), onde o cuidado é realizado com base em um território definido e a partir do vínculo estabelecido com sua respectiva comunidade, a competência cultural desponta como um atributo característico. Cabe ao profissional de saúde, especialmente na APS, reconhecer as diferentes necessidades em saúde dos grupos populacionais, a partir de suas características sociais, étnicas, culturais, raciais etc1, e é possível identificar autores que advogam para que o tema se consolide nas formações de profissionais de saúde.2
Na pós-graduação, as residências em saúde se mostram como uma modalidade estratégica para este fim, pois são caracterizadas por educação pelo trabalho e preconizam articulação entre ensino, serviço e comunidade. Soma-se a isto a ampla adesão de programas ao Exame Nacional de Residências (ENARE), favorecendo a mobilidade de profissionais pelo país a fim de realizar esta formação, aumentando a diversidade cultural dentro dos próprios programas.
O Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Básica/Saúde da Família3 estudado opera com 60 vagas anuais, seu ingresso é através do ENARE desde 2022, e contempla 10 profissões da saúde. A rotina do residente abrange 60 horas semanais de atividades, sendo 80% destinadas às atividades práticas e atividades teórico-práticas (ATP - que podem incluir discussões, exercícios individuais etc) e 20% às atividades teóricas. Diante deste panorama, o presente relato de experiência visa apresentar uma reformulação no módulo técnico-teórico transversal de uma residência multiprofissional em APS/Saúde da Família, a fim de favorecer a reflexão e fortalecimento das competências culturais necessárias para o cuidado.
Descrição
O Tema foi trabalhado em 4 semanas, entre janeiro e fevereiro de 2026. Na primeira semana, a ATP solicitada foi a leitura de artigo disparador sobre o tema. Na segunda semana, a ATP solicitada foi uma narrativa pessoal sobre as matrizes socioculturais de cada residente e como elas se manifestavam no cuidado realizado. Na terceira semana, foi ministrada uma aula contendo tópicos teóricos e práticos relativos à competência cultural, com participação de convidados, e solicitado enquanto ATP uma proposta de intervenção que promovesse o diálogo da interculturalidade. Na 4a semana, foi realizado um encontro, composto por dois momentos: no primeiro, ocorreu uma tenda dos contos - onde cada participante levou algo (objeto, foto, música, outros) que remetesse à sua matriz sociocultural, e através dele, houve diálogo sobre as diferentes matrizes, em interface também ao seu modo de cuidar. No segundo momento, uma residente realizou uma oficina de dança de carimbó, explicando também sobre como a atividade estava sendo usada como recurso terapêutico na APS em sua experiência no programa.
Período de Realização
Janeiro e fevereiro de 2026
Objetivo
O objetivo da experiência foi o fortalecimento da competência cultural dos profissionais de saúde residentes.
Resultados
Foi observado e também verbalizado por alguns residentes o quanto este conjunto de atividades contribuiu para uma maior consciência da própria matriz sociocultural. Pôde gerar identificação, pertencimento e apoio mútuo para aqueles que se consideravam longe da sua cidade natal/origens desvelou situações sensíveis de xenofobia e trouxe reflexões sobre a potencialidade da dimensão cultural agregada ao cuidado em saúde, Para alguns tutores e residentes, a experiência fomentou a criação de um grupo de estudos e pesquisa para aprimorar a temática no programa e na instituição.
Aprendizado e Análise Crítica
Refletimos que conteúdos ligados à competência cultural, ainda que de extrema relevância para a prática do cuidado, estão incipientemente inseridos nos currículos do campo da formação em saúde. Os programas de residência, pelo compromisso ético-político com o SUS, devem aproveitar a janela de oportunidades vivida pela diversidade cultural promovida pelo ENARE. Ademais, torna-se fundamental favorecer o potencial de construção do ensino e do trabalho voltados à cultura em sua abrangência Entendemos ainda, que na presente experiência, houve êxito na inserção da temática, frente ao simbólico do pertencimento dos participantes e à aproximação de um universo significativo de saberes e partilhas em saúde nesta interface.
SENSIBILIZAÇÃO DE PROFISSIONAIS DA APS SOBRE A IDENTIDADE DE GÊNERO DE PESSOAS TRANSGÊNERO: UMA EXPERIÊNCIA EDUCATIVA
Comunicação Oral
1 UFMS
Contextualização
Pessoas transgênero ainda enfrentam barreiras relacionadas ao preconceito, à exclusão, à desinformação, à invisibilidade e à violação de direitos no acesso aos serviços de saúde. A Política Nacional de Saúde Integral LGBT (Portaria nº 2.836/2011) estabelece diretrizes para um atendimento humanizado, porém, sua efetivação demanda processos formativos que promovam sensibilização e mudança de práticas na Atenção Primária à Saúde (APS). Nesse contexto, a formação de profissionais de saúde é necessária para superar as barreiras relacionadas ao cuidado em saúde dessa população. A formação do cuidado à população trans demanda não apenas conhecimento técnico, mas também mudanças nas dimensões éticas, relacionais e institucionais do trabalho em saúde e o fortalecimento dos atributos da APS, como o acolhimento e a coordenação do cuidado.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência de uma atividade realizada na disciplina de Promoção e Educação em Saúde, do Mestrado Profissional em Saúde da Família da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil, sobre o uso dos princípios da andragogia (como ciência que orienta a aprendizagem de adultos, focando na autonomia, experiências prévias e aplicabilidade prática do conhecimento) e de metodologias ativas de aprendizagem para alunos/profissionais de saúde que cursavam a disciplina. Inicialmente, foi disponibilizada para leitura dos profissionais a cartilha educativa, construída pelos autores, “Acolher para Cuidar: Direitos e Saúde da Pessoa Trans na Atenção Primária”, abordando conceitos de identidade de gênero, nome social, direitos e boas práticas. Posteriormente, realizou-se uma atividade em grupo com uso de gamificação, por meio de um “Escape Room” (jogo de resolução de problemas) adaptado à atividade, estruturado em seis situações-problema baseadas em vivências reais na APS. O objetivo desta atividade foi promover a sensibilização e reflexão crítica dos profissionais quanto ao acolhimento da pessoa trans na APS, a fim de estimular a empatia e discutir barreiras e preconceitos que interferem na atenção à saúde da pessoa trans, além da necessidade de conscientização sobre temas sensíveis e populações vulneráveis. Ao fim, foi disponibilizado um espaço para discussão e compartilhamento de experiências vivenciadas com essa temática.
Período de Realização
A preparação da ação foi realizada nos meses de setembro a outubro de 2025. A ação educativa ocorreu em sala de aula, em encontro único, com duração de 2 horas, no mês de outubro de 2025.
Objetivo
O objetivo deste estudo foi construir uma ação educativa de sensibilização sobre a identidade de gênero de pessoas transgênero para os profissionais da APS.
Resultados
A utilização dos princípios da andragogia e de metodologias ativas de aprendizagem, como a gamificação, mostrou-se eficaz na sensibilização dos alunos/profissionais de saúde. A dinâmica do "Escape Room" permitiu uma imersão nas situações-problema, facilitando a compreensão das barreiras enfrentadas pela população trans e estimulando a empatia. O espaço de discussão ao final da atividade propiciou troca de experiências, evidenciando a necessidade contínua de espaços formativos que abordem a temática de forma prática e reflexiva. Os participantes demonstraram maior clareza sobre a importância do uso do nome social e do respeito à identidade de gênero como elementos centrais para um cuidado humanizado e efetivo.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a transformação das práticas de saúde na APS requer abordagens pedagógicas inovadoras que ultrapassem a transmissão de informações. A combinação de material educativo (cartilha) com metodologias ativas (gamificação) e o respeito ao princípio da Andragogia, potencializou o engajamento e a reflexão crítica dos profissionais. A estratégia contribuiu para o reconhecimento da identidade de gênero como elemento central do cuidado e se apresenta como importante ferramenta no campo da educação em saúde no SUS, com potencial para fortalecer práticas mais inclusivas e humanizadas no cuidado à população trans. A superação das barreiras de acesso exige um compromisso ético-político contínuo com a formação em saúde, alinhado às diretrizes da Política Nacional de Saúde Integral LGBT.
VIOLÊNCIA NA UNIVERSIDADE: UM OLHAR INTERSECCIONAL PARA A USP
Comunicação Oral
1 USP
Apresentação/Introdução
No século XXI, a violência é compreendida como um importante tema global que transcende lesões físicas, alcançando danos psíquicos e privações que podem comprometer consideravelmente a qualidade de vida e a saúde coletiva. O fenômeno pode ser analisado ao se investigar as fragilidades dos vínculos e a solidão institucional, em diálogo com a teoria da interseccionalidade (Collins,2021), que compreende raça, classe, gênero e sexualidade como sistemas de poder que se constroem mutuamente.No cenário das universidades públicas, embora sejam espaços de diversidade, a formação é frequentemente atravessada por silenciamentos e pela reprodução de desigualdades sociais que podem naturalizar ou ignorar atos violentos. Sob a ótica da Saúde Coletiva, a violência no ambiente acadêmico não é um fenômeno isolado, mas um reflexo de dinâmicas orientadas pelo colonialismo e pelo produtivismo, que impõem barreiras à permanência e ao "bem-viver" de estudantes e docentes. Assim, o enfrentamento dessas situações exige uma atuação interdisciplinar e socialmente engajada, voltada para a reparação histórica e a justiça social.
Objetivos
Buscando-se subsidiar o debate sobre políticas afirmativas e estratégias de acolhimento na formação em saúde, o estudo objetiva investigar a prevalência e as manifestações da violência entre estudantes da Faculdade de Saúde Pública da USP, analisando, à luz da interseccionalidade, como marcadores sociodemográficos e acadêmicos funcionam como fatores de vulnerabilização
Metodologia
Trata-se de um estudo transversal e quantitativo, fundamentado na análise objetiva de dados para apresentar um panorama situacional, que é discutido criticamente a partir do referencial teórico da interseccionalidade. Foram integradas duas fontes: um questionário aplicado a estudantes de graduação, pós-graduação e pós-doutorado, em 2025 na FSP/USP (n=99) e dados da 2ª edição do Questionário da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP/USP), aplicado em 2024. A análise empregou estatística descritiva e inferencial (qui-quadrado e exato de Fisher), com nível de significância p<0,05. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa (Parecer 7.596.479).
Resultados e Discussão
A investigação revelou uma prevalência de violência de 22% na amostra da FSP e variando entre 35% e 41% nos dados da PRIP, aproximadamente um em cada quatro a cinco estudantes universitários vivenciou alguma forma de violência no ambiente acadêmico nos últimos 12 meses, evidenciando se tratar de um componente relevante no cotidiano formativo. Os achados corroboram a literatura ao demonstrar que a violência não se distribui de forma homogênea, mas concentra-se em grupos historicamente marginalizados. Através dos domínios de poder de Collins, observa-se que a violência não é homogênea: no domínio estrutural, a baixa renda (p=0,004) e a deficiência (risco 3,7 vezes maior; p=0,003) operam como barreiras de acesso e permanência. No domínio cultural e disciplinar, o habitus heterossexual (p=0,031) e o não reconhecimento de identidades não binárias (p=0,011) configuram uma violência simbólica que invisibiliza corpos dissidentes. A vulnerabilização de pessoas não binárias e com variabilidade de gênero (p=0,011) remete à ausência de reconhecimento institucional, configurando uma violência simbólica que invisibiliza corpos dissidentes no cotidiano acadêmico. No campo da orientação sexual (p=0,031), os resultados sugerem que o habitus heterossexual opera como mecanismo de exclusão contra pessoas LGBTQIAPN+. A associação mais robusta foi verificada na presença de deficiência (risco 3,7 vezes maior; p=0,003), refletindo barreiras estruturais ainda persistentes. Tais dados revelam manifestações dessa violência, como: subnotificação crônica (71% das pessoas sobreviventes não denunciaram), o que silencia a magnitude do problema e perpetua ciclos de desamparo, remetendo à fragilidade dos vínculos sociais de Bauman; e também num elevado sofrimento psíquico, com 87,5% dos graduandos da FSP relatando problemas de saúde mental, segundo o questionário da PRIP.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados demonstram que a violência na FSP/USP é friccionada por desigualdades que demandam elaboração coletiva e institucional e que as opressões interseccionais e a solidão institucional comprometem o compromisso ético-político da universidade. A criação e o fortalecimento de canais de denúncia seguros e do suporte psicossocial contínuo pode contribuir para transformar os espaços formativos em territórios de emancipação e cuidado contra as violências sistêmicas da modernidade.
FORMAÇÃO DE SANITARISTAS NO CONTEXTO DO SISTEMA PRISIONAL: RELATO DE EXPERIÊNCIA INOVADORA NA ESCOLA DE SAÚDE PÚBLICA DE MINAS GERAIS (ESP-MG)
Comunicação Oral
1 Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais
2 Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública
Contextualização
O Curso de Especialização em Saúde Pública (CESP) é a oferta mais tradicional da Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG) e historicamente destinada a trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS) que atuam no território estadual. Em 2023–2024, como resultado de uma parceria entre ESP-MG e Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (SEJUSP-MG), iniciada em 2018 e instituída por Acordo de Cooperação Técnica, foi construída uma versão do CESP com ênfase na Saúde no Sistema Prisional, voltada a trabalhadores das carreiras da área da saúde vinculados à SEJUSP-MG e profissionais das equipes de Atenção Primária Prisional (eAPP), credenciadas via Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade (PNAISP). Considerando o ineditismo da proposta e a complexidade das discussões que envolvem a Saúde no Sistema Prisional, este relato de experiência traz reflexões sobre os desafios e as potencialidades da formação de sanitaristas que atuam nesse Sistema.
Descrição
Entre 2023 e 2024, a elaboração da proposta do CESP – Saúde no Sistema Prisional envolveu amplas discussões entre atores das instituições parceiras (ESP-MG e SEJUSP-MG) e colaboradores de outras instituições com experiência na temática. A construção coletiva da matriz curricular contou com duas oficinas presenciais e foi orientada pelo currículo já praticado no CESP, pelo Curso de Qualificação em Saúde para o Sistema Prisional (2019–2021) e pelo livro Saúde e Trabalho no Sistema Prisional (2022). A matriz definida totalizou 400 horas/aula, com disciplinas voltadas a temas centrais da Saúde Coletiva e sua interface com o Sistema Prisional, como Direitos Humanos, Gestão do Trabalho em Saúde, Sociologia das Prisões, Saúde Mental e Diversidade, entre outros. O objetivo do curso foi possibilitar formação crítico-reflexiva dos trabalhadores de saúde do Sistema Prisional, na perspectiva da Educação Permanente em Saúde (EPS), a fim de contribuir para a implementação da PNAISP e o fortalecimento do SUS em Minas Gerais. Foram ofertadas 40 vagas, destinadas principalmente a profissionais efetivos da SEJUSP-MG e cinco trabalhadores das eAPP. O curso foi presencial, com 24 horas mensais, realizadas na ESP-MG, em Belo Horizonte.
Período de Realização
A elaboração e o planejamento do CESP – Saúde no Sistema Prisional aconteceram entre outubro de 2023 e julho de 2024. As aulas presenciais desenvolveram-se de agosto de 2024 a dezembro de 2025. Atualmente, os alunos estão em fase de finalização e apresentação dos Trabalhos de Conclusão de Curso.
Objetivo
Relatar a experiência de oferta do CESP – Saúde no Sistema Prisional, com destaque para os desafios e as potencialidades da formação de sanitaristas que atuam no Sistema Prisional de Minas Gerais.
Resultados
A turma do CESP – Saúde no Sistema Prisional foi inicialmente composta por 40 alunos, de 26 municípios de Minas Gerais, sendo que seis desistiram ao longo da formação, por diferentes motivos. A faixa etária predominante foi de 40 a 49 anos (52%), seguida de 30 a 39 anos (30%), 20 a 29 anos (5%) e acima de 60 anos (3%). Quanto ao perfil racial, 65% se autodeclararam negros e 35% brancos. A participação nas atividades letivas foi permeada por dificuldades relacionadas à liberação para frequência ao curso, apesar da previsão constar no Acordo de Cooperação Técnica e no edital de seleção, exigindo negociações da coordenação junto à SEJUSP-MG. Para docentes da ESP-MG, o encontro com profissionais na Saúde no Sistema Prisional, foi uma novidade, exigiu novos estudos, deslocamentos e abertura ao diálogo para viabilizar aproximações e reflexões com e sobre as experiências trazidas pelos alunos. Para os alunos, observou-se, por meio das avaliações das disciplinas, que o espaço formativo do curso representou um espaço de acolhida, cuidado e reflexão sobre a assistência à saúde e os desafios enfrentados no contexto prisional.
Aprendizado e Análise Crítica
Essa iniciativa representou uma inovação institucional para a ESP-MG, ao acolher trabalhadores inseridos em uma realidade de trabalho marcada por desigualdades e frequentes violações de direitos, distinta daquela historicamente vivenciada pelos demais estudantes da instituição. Os desafios do cuidado no ambiente prisional foram amplamente compartilhados e discutidos, a partir de relatos de violência institucional contra as pessoas privadas de liberdade e contra os próprios trabalhadores. Destacaram-se situações vivenciadas por trabalhadoras mulheres e pelo público LGBTQIAPN+ encarcerado, bem como os obstáculos à implementação das equipes da PNAISP, evidenciando barreiras e impasses para a oferta do cuidado integral. A proposta pedagógica, sustentada nos princípios da Educação Permanente em Saúde, possibilitou a docentes e discentes aprofundarem reflexões críticas sobre as interfaces entre a Saúde no Sistema Prisional e os princípios do SUS.
FORMAÇÃO DE PESQUISADORES DE CAMPO EM SAÚDE FLUVIAL: DESAFIOS METODOLÓGICOS E OPERACIONAIS NA AMAZÔNIA
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ
Contextualização
Passadas mais de três décadas da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), persistem desafios para a produção de conhecimento em saúde em territórios marcados por desigualdades e barreiras de acesso, como a Amazônia. A organização da atenção à saúde em comunidades ribeirinhas exige estratégias que considerem a dimensão territorial, a dispersão populacional e a centralidade dos rios como vias de circulação. Nesse cenário, as Unidades Básicas de Saúde Fluviais (UBSF) ampliam o acesso ao cuidado, mas também impõem desafios metodológicos relevantes para a coleta de dados primários, exigindo preparo técnico, logístico e sensibilidade às dinâmicas socioculturais locais.
Descrição
A experiência refere-se à formação técnica de pesquisadores e assistentes de campo vinculados a um projeto denominado Diagnóstico Situacional das UBSF na Amazônia. A qualificação foi estruturada em cinco dias, articulando conteúdos teóricos e práticos sobre contexto amazônico, organização do SUS em territórios ribeirinhos, conduta ética, metodologia científica e aplicação de instrumentos de coleta. Foram realizadas simulações de entrevistas com gestores, profissionais, agentes comunitários de saúde e usuários, oficinas práticas com uso do sistema REDCap, além de atividades voltadas à ambiência das UBSF e à logística das expedições fluviais.
Período de Realização
A formação ocorreu entre os dias 23 e 27 de março de 2026, no Instituto Leônidas & Maria Deane (Fiocruz Amazônia), em Manaus (AM).
Objetivo
Relatar os processos de qualificação de pesquisadores de campo para a aplicação padronizada dos instrumentos de coleta, integrando rigor metodológico, conduta ética e prontidão operacional no contexto rural ribeirinho amazônico.
Resultados
A formação possibilitou o desenvolvimento de competências essenciais à atuação em campo, incluindo a condução padronizada de entrevistas, o uso de instrumentos digitais em contextos de baixa conectividade e a mediação com diferentes atores locais. O uso do REDCap com funcionalidade offline mostrou-se estratégico para garantir a integridade dos dados. As simulações favoreceram a antecipação de situações críticas e o aprimoramento da tomada de decisão em campo, especialmente frente a desafios logísticos e ambientais.
Aprendizado e Análise Crítica
Destaca-se que a formação de pesquisadores para atuação em saúde fluvial demanda a integração entre conhecimento técnico, preparo logístico e sensibilidade territorial. A valorização do papel dos agentes comunitários de saúde como mediadores culturais mostrou-se central para o acesso às comunidades. Evidenciou-se, ainda, a importância de processos formativos que articulem teoria e prática, preparando as equipes para contextos de incerteza e variabilidade. Como desdobramentos esperados, prevê-se que a pesquisa de campo, aliada à análise sistemática dos diários de campo, à produção de um acervo fotográfico e ao lançamento de uma obra que expresse o olhar do pesquisador no encontro com o território amazônico, bem como à organização de um número temático sobre saúde fluvial no contexto da APS na Amazônia. Embora a padronização metodológica seja fundamental para a qualidade e comparabilidade dos dados, sua aplicação em territórios amazônicos revela limites frente à diversidade e dinâmica sócio territorial. Observa-se a necessidade de tensionar modelos normativos de pesquisa, incorporando maior flexibilidade e reconhecimento dos saberes locais. A experiência indica que a produção de evidências no SUS em contextos de difícil acesso exige abordagens mais situadas, capazes de dialogar com as especificidades do território. Assim, a formação analisada configura-se como estratégia relevante, mas que demanda contínuo aprimoramento para responder às complexidades da saúde fluvial.
Realização: