Programa - Comunicação Oral - CO11.1 - Epistemologias de conexão para o cuidado dos territórios e a defesa da vida
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
EPISTEMOLOGIAS DE CONEXÃO, PROMOÇÃO EMANCIPATÓRIA DA SAÚDE E JUSTIÇA COGNITIVA PARA FORTALECER OS TERRITÓRIOS
Comunicação Oral
1 Neepes/Fiocruz
2 Neepes/Fiocruz e UFAM
3 Ensp/Fiocruz
4 UFF e Neepes/Fiocruz
Apresentação/Introdução
Este trabalho faz parte de um programa de pesquisa intercultural e interdisciplinar da saúde coletiva que busca compreender a relação entre saúde, sociedade e natureza a partir da proposição de uma promoção emancipatória da saúde nos campos e cidades em torno de lutas por saúde, dignidade, bem viver e direitos territoriais. Busca-se refletir sobre os princípios e bases epistemológicas e metodológicas que avancem em pesquisas, definição de problemas e construção de soluções alternativas junto com territórios, povos, movimentos sociais e organizações comunitárias.
Objetivos
Um objetivo central das epistemologias de conexão é avançar na interculturalidade a partir de diálogos respeitosos entre a ciência moderna e seus vários paradigmas, em especial na saúde coletiva, com outros sistemas de conhecimentos tradicionais/cosmológicos e situados. Busca-se compreender problemas e propor alternativas promovendo decisões sábias junto com a comunidades que vivem ou buscam viver na natureza, seja nos campos, florestas e águas, ou mesmo quando promovem a ecologização das cidades. Para isso é necessária a construção de outros critérios de qualidade para o conhecimento produzido que permita avançar no atual modelo de soberania epistêmica restrito às comunidades acadêmicas especializadas, ainda que interdisciplinares.
Metodologia
As epistemologias de conexão têm se apoiam em metodologias sensíveis co-labor-ativas que articulam qualidade e objetividade do conhecimento da ciência moderna com dimensões éticas, políticas, comunitárias, estéticas e espirituais inerentes às cosmologias e práticas que marcam povos que vivem em comunidade e na natureza, como os originários, quilombolas e camponeses. As metodologias sensíveis buscam superar os limites logocêntricos da ciência moderna e suas tendências de praticar epistemicídios promovendo co-presença e co-participação com apoio das linguagens da vida, como poético-musicais, gráfico-imagéticas, audiovisuais e performáticas como danças e cantos, e também a contação de histórias tradicionais. O pesquisar junto com implica tecer laços de sincronicidade, proximidade e confiança que possibilitem construir conjuntamente a compreensão dos problemas e propor soluções alternativas num dado contexto de lutas por sobrevivência e (re)existência.
Resultados e Discussão
O Núcleo de pesquisa ao qual pertencem os autores tem construído Encontros de Saberes, projetos de pesquisa e disciplinas na pós-graduação nos últimos oito anos envolvendo movimentos sociais e organizações comunitárias em diferentes territórios nos campos e cidade. Os projetos são construídos junto com povos originários, afrodiaspóricos, bem como movimentos de luta por moradia (Sem Teto) e organizações que atuam em favelas. Temas transversais em todos os projetos são o cultivo agroecológico de alimentos, a preservação ou regeneração dos ecossistemas e as múltiplas ameaças territoriais.
As epistemologias de conexão e as metodologias sensíveis envolvem tanto diálogos interdisciplinares, em que diferentes disciplinas e paradigmas se articulam, como interculturais, ampliando possíveis conexões entre a ciência moderna ocidental com os conhecimentos tradicionais, cosmológicos e situados envolvendo lutas por sobrevivência e reexistência dos povos do Sul Global. Ambas apontam para uma ciência sensível co-labor-ativa que permita as transições paradigmáticas necessárias para superas as várias crises contemporâneas. Um papel estratégico envolve intelectuais orgânicas/os no sentido dado por Nego Bispo, pois são sujeitos que cresceram nos territórios e dominam sistemas de conhecimentos tanto cosmológicos e situados, como os acadêmicos, já que passam por processos de formação em diferentes áreas, como saúde, educação, antropologia, ciências agrárias e ambientais. Na apresentação pretendemos ilustrar com alguns exemplos como essa proposta tem sido aplicada, principalmente com territórios indígenas.
Conclusões/Considerações Finais
A promoção emancipatória da saúde possui um desafio estratégico do conhecimento na atualidade: como descolonizar e coracionar o ambiente acadêmico, e isso significa superar a tendência fragmentada, controladora, exploradora e logocêntrica da ciência ocidental a serviço do capitalismo. Para isso, é necessário, entre outros elementos: (1) analisar o papel estratégico dos saberes holísticos indígenas e tradicionais na defesa dos ecossistemas e no enfrentamento das mudanças climáticas; (2) Debater os avanços e obstáculos para uma saúde intercultural nos processos de cura e cuidado que integram ou afastam medicinas tradicionais e a biomedicina, incluindo práticas do SUS; (3) construir universidades e instituições pluriepistêmicas que incluam, além da ciência moderna ocidental, sistemas de conhecimentos e cosmologias indígenas, afro-diaspóricas e de outros continentes, fomentando revisões curriculares e políticas públicas interculturalmente orientadas.
A (IN)SUSTENTABILIDADE DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA. GEOPOLÍTICA DA PRODUÇÃO DA SAÚDE E DA DOENÇA NA MINERAÇÃO DO LÍTIO.
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
Este trabalho de caráter teórico-conceitual, busca explorar no contexto da transição energética e a exploração de minerais críticos, a geopolítica dos processos de produção da saúde (bem-estar) e da doença (mal-estar) associados à mineração do lítio. O estudo se insere no cenário do Antropoceno e da crise climática irreversível, compreendidos como o pano de fundo das atuais discussões globais sobre transição energética, nas quais a descarbonização é apresentada como uma necessidade urgente diante a crise planetária, mas frequentemente desprovida de reflexões sobre a necessidade de impulsionar uma transição energética justa (Bringel & Svampa, 2023).
Objetivos
Busca-se examinar criticamente os alcances e limites das narrativas hegemônicas sobre a transição energética, bem como seus impactos a partir da perspectiva da Saúde Coletiva. Com frequência, a transição energética é apresentada como um consenso de descarbonização, orientada por lógicas de ecoeficiência e economia verde. No entanto, tais narrativas tendem a evitar um questionamento mais profundo sobre o modelo de acumulação capitalista que sustenta a crise socioecológica em curso, deslocando os custos ambientais, sanitários e territoriais para espaços historicamente subordinados (Fornillo, 2019).
Metodologia
Do ponto de vista metodológico, propõe-se uma escrita ensaística de carácter teórico-conceitual, baseada no levantamento, sistematização e análise crítica da literatura sobre transição energética e mineração do lítio em diálogo com a Saúde Coletiva, a Ecologia Política e as Epistemologias do Sul. A seleção de fontes secundárias, incluindo livros e artigos científicos, será orientada por sua relevância para o debate das quatro justiças: social, sanitária, ambiental e histórico-cognitiva (Porto, 2019), a determinação social da saúde ancorada em um enfoque socioambiental crítico (Porto, 2016; Porto et al., 2022) e os conflitos ambientais diante o extrativismo mineral (Gonçalves & Milanez, 2019).
Resultados e Discussão
O lítio apresenta-se como um recurso estratégico fundamental para a transição energética, especialmente pela expansão da eletromobilidade e de outras tecnologias consideradas “limpas”. Contudo, os impactos ambientais, hídricos, sanitários e socioculturais decorrentes dessa atividade extrativa, localizada majoritariamente em territórios do Sul Global, tem sido minimizado por interesses geopolíticos que operam sob o chamado “consenso da descarbonização” (Nacif, 2019). Tal processo, ancorado no capitalismo verde (Lang, 2023), tem aprofundado paradoxos e fraturas metabólicas, gerando dinâmicas de destruição conjunta possíveis de serem analisadas à luz do ecocídio, ao etnocídio e ao epistemicídio, ao promover um suposto bem-estar global às custas da degradação de territórios e dos modos de vida historicamente sustentados nesses espaços.
Desde as perspectivas críticas da Saúde Coletiva em diálogo com as Ecologia Política e das Epistemologias do Sul, esta proposta de artigo busca refletir de que maneira a transição energética reorganiza a determinação social da saúde em escala global, gerando a nível local impactos e injustiças produzidas pelos processos extrativos, especialmente nos territórios do Sul Global. Nesse sentido, analisa-se a produção de riscos, danos, sofrimentos e injustiças que recaem sobre os territórios situados do outro lado da linha abissal (Santos, 2019), evidenciando os custos sociais, ambientais, sanitários e cognitivos implicados nesse processo. A noção de geopolítica da produção de bem-estar e do mal-estar constitui, assim, um eixo que articula a análise, permitindo compreender como as novas tecnologias chamadas sustentáveis paradoxalmente intensificam as desigualdades estruturais de territórios que possuem grandes reservas de lítio.
Conclusões/Considerações Finais
A transição energética não pode ser entendida apenas como uma resposta técnica à crise climática, mas sim como um processo que reconfigura, em escala global, a produção e a distribuição do processo saúde-doença. A especificidade desse processo reside no fato de que a expansão das fronteiras extrativistas, particularmente em torno do lítio e de outros minerais críticos, é legitimada por discursos de sustentabilidade e pelo imperativo moral da descarbonização, transformando o extrativismo em uma espécie de condição de possibilidade para implementar soluções climáticas. Por meio de mecanismos como as cadeias globais de valor, assimetrias tecnológicas e formas de governança ambiental orientadas pelo mercado, os custos ambientais, sanitários e territoriais são deslocados para territórios do Sul Global, onde se concentram processos de destruição das condições de reprodução da vida, expressos na perda de modos de vida e na erosão de sistemas de conhecimento. Dessa forma, a promessa de bem-estar associada à descarbonização da matriz energética global sustenta-se na produção de zonas de sacrifício, evidenciando uma geopolítica desigual da saúde e da doença que permanecem, em grande medida, invisibilizadas no debate sobre a transição energética.
DESAFIOS DO CUIDADO INTERCULTURAL: ACESSO DE ESTUDANTES INDÍGENAS AO APOIO PSICOLÓGICO E AO SUS NO ENSINO SUPERIOR
Comunicação Oral
1 UEFS
2 UFRB
Apresentação/Introdução
O ingresso de populações indígenas no ensino superior, impulsionado pelas políticas de ações afirmativas, constitui um marco na reparação histórica de exclusão. Esse avanço, no entanto, não se limita ao acesso burocrático à universidade, revelando desafios que se estendem à experiência cotidiana nos espaços acadêmicos e urbanos. As estruturas universitárias e os serviços de saúde ainda operam sob matrizes eurocêntricas que invisibilizam e muitas vezes invalidam os saberes tradicionais. Ao deixarem suas aldeias, os estudantes vivenciam uma condição de afastamento comunitário, marcada pelo distanciamento físico e afetivo de suas famílias e dos recursos para seu cuidado. Essa separação territorial impõe a necessidade constante de conciliar a identidade acadêmica e a étnico-comunitária, que sustenta seu pertencimento cultural e espiritual. Nesse contexto, os discentes enfrentam o racismo estrutural e institucional de forma explícita e sutil, gerando impactos profundos em seu bem-estar emocional e saúde mental, o que compromete a permanência qualificada no curso superior.
Objetivos
O presente estudo é um recorte de uma pesquisa de mestrado concluída e tem como objetivo central investigar e compreender os desafios enfrentados por estudantes indígenas no acesso e na utilização do apoio psicológico institucional e dos serviços oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Metodologia
Trata-se de um relato de pesquisa de natureza qualitativa e exploratória, ancorado na perspectiva decolonial, que valoriza os saberes originários como conhecimentos legítimos e centrais para a análise. O estudo foi realizado com oito estudantes indígenas de diferentes etnias, todos regularmente matriculados na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A coleta de dados ocorreu entre agosto e outubro de 2022, por meio de entrevistas virtuais semiestruturadas, orientadas pela técnica de narrativas de história de vida. Essa abordagem dialógica permitiu aos participantes reconstruírem suas trajetórias de forma contextualizada, revelando sentidos e emoções associados ao cuidado em saúde. O material empírico foi analisado pelo método do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), que sintetiza falas individuais em um discurso representativo. A partir da extração de Ideias Centrais e Expressões-Chave, construiu-se discursos-síntese que expressam as experiências do grupo. Todo o procedimento foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), garantindo o rigor ético e o respeito às especificidades culturais.
Resultados e Discussão
A análise dos Discursos do Sujeito Coletivo revelou desafios severos tanto no apoio psicológico da universidade quanto no SUS. Ao buscarem atendimento psicológico institucional, os estudantes relataram não se sentirem acolhidos. As abordagens clínicas adotadas prescindiam de escuta ativa e de espaços seguros para a discussão de questões identitárias, frustrando a expectativa de compreensão da realidade indígena. Essa lacuna gerava desamparo e culminava, frequentemente, no afastamento precoce do serviço. Nos serviços do SUS, o despreparo intercultural manifestou-se de forma evidente: mesmo ao se identificarem como indígenas, os estudantes não eram questionados sobre necessidades específicas, recebendo tratamento homogeneizador, idêntico ao do público não indígena. A situação era agravada por estereótipos preconceituosos e desconfiança quanto à autenticidade étnica. Tais experiências refletem uma formação profissional que pouco incorpora as particularidades dos povos originários, dominada pela hegemonia do modelo biomédico. Essa lógica desvaloriza saberes tradicionais e dificulta o diálogo intercultural genuíno, essencial para a efetividade do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo evidencia que a permanência de estudantes indígenas no ensino superior não se restringe ao provimento de recursos materiais ou financeiros. Ela exige, sobretudo, a construção de redes de suporte biopsicossocial sensíveis às especificidades culturais, tomadas como princípio epistêmico fundamental do cuidado. Os achados apontam a urgência de implementar serviços de saúde e apoio psicológico culturalmente apropriados, capazes de reconhecer e dialogar com as múltiplas dimensões do bem viver indígena. As fragilidades identificadas refletem um cenário amplo de barreiras de acesso, despreparo profissional e práticas discriminatórias. Conclui-se que o avanço das políticas afirmativas no ensino superior está intrinsecamente vinculado à promoção de um diálogo intercultural autêntico, ao enfrentamento do racismo institucional e à descolonização dos saberes de cuidado. Somente pela incorporação da justiça cognitiva e pelo pleno reconhecimento das medicinas tradicionais e territorialidades originárias será possível garantir a permanência qualificada. A pesquisa reforça a necessidade de transformações que coloquem os saberes originários no centro das políticas públicas e institucionais.
DESAFIOS E PROBLEMÁTICAS DA INTERCULTURALIDADE NA SAÚDE INDÍGENA NO CONTEXTO DO DSEI- YANOMAMI E YE‘KWANA
Comunicação Oral
1 UFAM
2 DSEI-YY
Contextualização
A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas- PNASPI representa um marco para o Brasil em termos de avanços significativos da política indigenista do Estado e da garantia dos direitos dos povos indígenas no país. Contudo, ao pautar-se no conceito genérico e amplo de atenção diferenciada e não delinear os traços do que é a interculturalidade e de como se daria a sua aplicabilidade no cotidiano na atenção primária a legislação permite que tais conceitos sejam utilizados de forma funcional e pouco construtiva, inibindo muitas vezes processos de diálogo entre a medicina ocidental e os diversos e refinados sistemas de cuidado, saúde e doença dos povos indígenas.
Descrição
O povo Yanomami é considerado como um povo de recente contato, neste contexto, a adequação dos serviços de saúde deve ser pensado a partir das particularidades de um povo que é diverso, plural e ao mesmo tempo específico, começando pela transposição da barreira linguística. No território Yanomami atualmente se falam 6 línguas e 16 dialetos, além da língua Y'ekwana (Ferreira et al. 2019) indicando, portanto, a necessidade de se pensar em materiais bilíngues que auxiliem os profissionais napë (não-Yanomami) nos atendimentos, nas orientações sobre tratamentos e medicamentos, nas consultas e investigações de sinais e sintomas de pacientes. Além disso, o povo Yanomami possui uma cosmologia própria que organiza o modo de vida, ou seja, a forma de se alimentar, o período de trabalho na roça, o tempo de caça, pesca e coleta onde se deslocam para acampamentos temporários na floresta, bem como, orienta os cuidados com o corpo, as formas de compreender os processos de adoecimento e cura apontando para a importância de preparar os profissionais napë para um diálogo respeitoso e intercultural entre saberes, conhecimentos e cuidados em saúde.
Período de Realização
10 a 26 de janeiro de 2026
Objetivo
O presente trabalho tem como objetivo pensar a interculturalidade na prática de atenção à saúde dos povos Yanomami e Ye'kwana, onde as autoras atuam como antropóloga e psicóloga, a partir na necessidade de delinear caminhos concretos para a efetivação de uma saúde indígena intercultural através de exemplos práticos do cotidiano que conduzam ao respeito pelas particularidades do povo Yanomami.
Resultados
No texto da PNASPI a interculturalidade é citada em um único ponto que versa sobre a “preparação de recursos humanos para atuação em contexto intercultural” (FUNASA, 2002, p. 13) direcionado apenas para os profissionais indígenas que atuam como Agentes Indígenas de Saúde- AIS, desconsiderando a necessidade de capacitação e formação de profissionais não-indígenas ou de diferentes grupos étnicos para atuar no contexto intercultural com diferentes etnias. Portanto, é correto afirmar que os problemas enfrentados para que interculturalidade se materialize no cotidiano da atenção primária remontam desde à sua formulação e concepção dentro da própria legislação que se baseia muito mais na ideia de atenção diferenciada, tratando o conceito como algo amplo, abrangente e homogeneizador. Assim, é necessário especificar e destrinchar o que se tem chamado de interculturalidade na PNASPI e, a partir disso, engendrar processos de aprimoramento na formação dos profissionais de saúde pautados nas práticas do cotidiano para que possam lidar com situações diversas que necessitam de especificidades, como a compreensão do xamanismo enquanto orientador da visão de mundo, de cuidado, de relações de afeto e não como uma religião e incentivar uma conduta profissional pautada em “conhecer o outro para respeitar a diferença” focalizando na troca de saberes: você aprende comigo e eu aprendo com você, de modo que, o diálogo intercultural se realize no cotidiano e na relação afetiva e respeitosa entre profissionais e população assistida.
Aprendizado e Análise Crítica
O conceito de ineterculturalidade vem sendo utilizado de forma funcional, de modo que, a operacionalização da PNASPI não tem favorecido a produção de ações em saúde afinadas com as lógicas culturais e as demandas efetivas das comunidades indígenas como demonstram estudos realizados nas últimas décadas. Por isso, este trabalho parte do relato de experiência das autoras para pensar e propor práticas de interculturalidade que se aproximem de um princípio ideológico orientado para a descolonização e a transformação das relações humanas onde os conhecimentos se relacionem de forma horizontal em prol da defesa da vida nos territórios indígenas do Brasil.
DESCOLONIZACIÓN DE LAS POLÍTICAS DEL VIVIR CON VIH/SIDA: PRINCIPIOS DEL PUEBLO INDÍGENA MAYA ACHI PARA LA PLENITUD DE LA VIDA.
Comunicação Oral
1 Pueblo Maya Achi
2 ISC-UFBA; MSPAS
3 ISC-UFBA
Apresentação/Introdução
Las políticas de prevención de la transmisión del vih reproducen la colonialidad del saber y el ser. En Guatemala, las políticas de prevención de la transmisión del vih parten de una perspectiva biologicista y epidemiológica tradicional. Esto se traduce en lógicas deterministas, modelos fisiológicos unicausales y la reproducción de la visión colonial sobre los cuerpos y las vidas. Resultando en el diseño de tecnologías para la prevención que priorizan la salud de la dimensión corporal y que sostienen interlocución únicamente con lógicas occidentales del ser, saber y hacer. Estudios previos han demostrado que, en comunidades indígenas, las tecnologías de prevención de la transmisión del vih propuestas por los Sistemas de Salud occidentalizados son poco aceptadas y utilizadas. Sin embargo, poco ha sido estudiada la forma de transformar las narrativas biologicistas y coloniales en las políticas y programas de salud relacionadas con la vivencia con el vih, de modo que se construyan puentes epistémicos entre las políticas y los saberes y prácticas indígenas.
Objetivos
Reflexionar sobre los principios científicos, filosóficos y tecnológicos del Pueblo Maya Achi sobre el cuidado y la plenitud de las vidas para orientarnos a descolonizar las políticas de salud; partiendo de la construcción de diálogos entre matrices epistémicas occidentales e indígenas para garantizar la justicia epistémica en las políticas.
Metodologia
Se trata de un estudio utilizando un protocolo de investigación indígena, del pueblo Maya Achi de Guatemala. Este protocolo fue co-construído junto con Ajq’iijaab’, Ilonelaab’ y Ajkuunaab’ del pueblo Maya Achi.
El protocolo de investigación contempló cuatro momentos recursivos: 1) Ofrendas al Sagrado Fuego para pedir permiso a las energías ancestrales para discutir los temas de la investigación, 2) ruedas de conversación, 3) participación en actividades y fiestas comunales, y 4) oficinas de reflexividad con el equipo de investigación sobre lo vivido y conversado durante los tres primeros momentos. El ciclo se repitió cuatro veces.
Todas las actividades fueron registradas con grabación de audio y video. Estas grabaciones fueron transcritas en su totalidad y traducidas del Maya Achi al castellano. Las transcripciones traducidas fueron codificadas para identificar las acciones que promovían el equilibrio y la curación. Estas acciones fueron revisadas desde los principios cosmogónicos y epistemológicos del pueblo Maya Achi para identificar relaciones en las intenciones detrás de estas acciones.
Resultados e Discussão
En este estudio exploramos las claves presentes en los conocimientos y prácticas de promoción del equilibrio de Ajq’iijaab’, Iloneelaab’ y Ajkunaab’ del pueblo Maya Achi relacionadas con el tratamiento y prevención de la vivencia con el vih, para identificar aquellos principios epistémicos que orienten la formulación de las políticas y programas en clave contracolonial. Fueron identificados 4 principios sanadores o promotores del equilibrio y la prosperidad de la vida: Cuidado Comunal, Respeto a Leyes Cósmicas, Vinculación territorios-cuerpo-Tierra, y la Multidimensionalidad del Ser.
El cuidado comunal nos ofrece como foco principal el bienestar de la persona, familia y comunidad. El interés del cuidado comunal no se orienta a la presencia o ausencia del virus. Sino a la plenitud de la vida comunal, familiar e individual. El cuidado comunal se interesa por asegurar la continuidad de los bienes comunes y la autonomía de la comunidad. Partiendo del principio filosófico Maya de la dualidad inherente e indivisible entre comunidad-individuo.
El Respeto de las Leyes Cósmicas enfatiza la necesidad de trascender la mirada preventivista y aspirar a transformar las condiciones estructurales que reproducen las inequidades, la distribución desigual del poder, y nos alejan de los vínculos comunales y cósmicos inherentes a nuestra existencia Maya. Todas esto nos acercará a mantener el equilibrio en nuestras vidas y alcanzar nuestra plenitud o el Raxnaq’il Qakaslemaal.
El vínculo territorios-cuerpo-Tierra nos orienta a comprender que lo que sucede en el territorio cuerpo es un reflejo de lo que sucede en el territorio Tierra. Por lo que resulta imperante cuidar de ambos territorios para garantizar la salud de todas las formas de vida.
La Multidimensionalidad del Ser nos permite comprender que la salud trasciende la realidad material, implicando también movimientos espirituales, energéticos, emocionales y ancestrales. Por lo que las políticas de salud deben considerar estas y otras dimensiones para garantizar el bienestar.
Conclusões/Considerações Finais
La incorporación de estos principios en la formulación de políticas públicas nos permite develar caminos posibles para descolonizar las políticas del vivir con o sin el vih y garantizar la justicia epistémica en estas políticas. Solo así podremos avanzar a políticas de plenitud de las vidas.
FORTALECER O CULTIVO TRADICIONAL DE ALIMENTOS COMO ESTRATÉGIA DE PROMOÇÃO EMANCIPATÓRIA DA SAÚDE: POVOS INDÍGENAS DA AMAZÔNIA E A “FAMILIARIZAÇÃO” COM PLANTAS E ANIMAIS
Comunicação Oral
1 Núcleo Ecologias e Encontro de Saberes para a Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes/Ensp/Fiocruz)
2 Liderança tradicional Munduruku
Apresentação/Introdução
O presente trabalho busca refletir acerca de estratégias para fortalecer o cultivo de alimentos e alimentação tradicional em territórios indígenas, especialmente no contexto territorial da Amazônia, como estratégia de promoção da saúde, a partir de diálogos interculturais respeitosos entre conhecimentos científicos e de povos originários. Neste processo trabalhamos com a noção de Promoção Emancipatória da Saúde (PES), que envolve lutas por justiça em quatro dimensões: social, sanitária, ambiental/territorial e cognitiva. As reflexões se baseiam na pesquisa que o Núcleo Ecologias e Encontros de Saberes para a Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes/Ensp/Fiocruz) tem realizado nos últimos anos com o povo Munduruku.
Objetivos
Propomos aprofundar a reflexão acerca da questão: como fortalecer o cultivo de alimentos em territórios de povos originários sem comprometer suas culturas alimentares e suas práticas tradicionais e, ao mesmo tempo, como dinamizar estes processos a partir de diálogos interculturais capazes de interagir não somente com o conjunto de práticas e conhecimentos em cultivo de alimentos, mas também com suas cosmologias, que dão sustentação a estas práticas e conhecimentos?
Metodologia
O território do povo Munduruku do Médio Tapajós/PA é marcado pela conjunção de processos econômicos e políticos que geram ameaças e conflitos socioambientais, que incluem madeireiras, hidrelétricas, rodovias, ferrovias, hidrovias e terminais de escoamento de soja, agropecuária e o garimpo de ouro, com a contaminação por mercúrio. A pesquisa do Neepes com o povo Munduruku teve início ainda em 2017. O trabalho se baseia nas metodologias sensíveis co-labor-ativas, envolvendo vários ciclos de aproximação para sistematizar e operacionalizar as ações acordadas com os sujeitos dos territórios com os quais trabalhamos.
A partir de 2022 se consolidou a proposta de fortalecer o cultivo tradicional de alimentos como estratégia de Promoção Emancipatória da Saúde no território. Assim, passamos a construir, com o povo Munduruku, planos agroecológicos e ações-piloto para as aldeias do Médio Tapajós, em processos sinérgicos com os desafios e potencialidades que se expressam no território. Merece destaque, nesta trajetória, o trabalho com diferentes linguagens para viabilizar os diálogos interculturais, principalmente com as histórias tradicionais, de fundamental importância nas interações com a cosmologia Munduruku em relação ao cultivo de alimentos.
Resultados e Discussão
No campo da saúde coletiva, a questão central da pesquisa remete as discussões em relação as possibilidades de se fortalecer o cultivo de alimentos como estratégia de promoção da saúde em territórios indígenas. Ao mesmo tempo, no campo agroecológico, nos coloca frente a uma problemática estratégica nas discussões em relação aos processos de construção do conhecimento, mais especificamente acerca de como incorporar a dimensão cosmológica na interação com povos e comunidades tradicionais, para além das considerações mais diretas em relação a saberes e práticas específicos.
Em nosso trabalho buscamos destacar que, juntamente com a importância estratégica das práticas, já fortemente salientadas em estudos sobre as possibilidades de promoção da sustentabilidade a partir de práticas agrícolas indígenas, também é importante incorporar sua dimensão cosmológica. Pois, como tem se destacado em nosso processo de pesquisa, esta compreensão holística acerca da perspectiva dos povos originários pode contribuir para enfatizar uma compreensão em relação ao cultivo de alimentos e alimentação bastante diferenciada daquela que embasa a noção mais clássica de agricultura no ocidente, reforçada com a modernidade, apontando para instigantes possibilidades em relação às alternativas acerca do cultivo de alimentos em uma perspectiva sustentável e saudável.
Conclusões/Considerações Finais
A partir do trabalho com o povo Munduruku temos observado que a ideia de “domesticação” de plantas e animais, fundamental para se compreender a noção de agricultura desde o neolítico e que foi se constituindo na base da compreensão hegemônica do termo no ocidente, parece não fazer sentido para o cultivo de alimentos na concepção de muitos povos originários, especialmente no contexto amazônico. Para muitos destes povos o cultivo de alimentos é marcado centralmente pela diversidade, realizando complexos processos de combinação de plantas domesticadas com não domesticadas, que parecem ser melhor compreendidos a partir da perspectiva de em um amplo processo de “familiarização”, ao invés das tentativas de sua classificação em múltiplos graus e intensidades de processos de “domesticação”.
Consideramos, assim, que as diferenças e especificidades acima apontadas ressaltam a importância de se mobilizar a noção de cultivo tradicional de alimentos ao invés da ideia de agricultura indígena, para refletir acerca das formas que os povos originários do contexto amazônico interagem com plantas e animais e a possibilidade de se fortalecer estes processos como estratégia de PES.
Realização: