Programa - Comunicação Oral Curta - COC11.1 - Epistemologias de conexão para o cuidado dos territórios e a defesa da vida
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
DETERMINAÇÃO SOCIAL DA SAÚDE: UM PARADIGMA EPISTEMOLÓGICO CRÍTICO ÀS INEQUIDADES EM SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 Instituto René Rachou - Fiocruz Minas
Apresentação/Introdução
Fraser (2024) adjetiva de “capitalismo canibal” a fase hodierna de uma capitalismo marcado pela hiperexploração do ambiente e do ser humano. Não respeita os limites de todo o planeta, nosso contexto é de colapso ecológico de uma crise sinérgica de saúde, biodiversidade e clima (Artaxo, 2020). E que neste momento, avança sobre os Estados Nacionais, um dos últimos recursos de capital acumulado a ser ainda explorado (Neves-Silva; Aires Gomes; Heller, 2024).
Na América Latina, marcada pelas estruturas iníquas muitas vezes sustentas por práticas imperialistas, a Saúde Coletiva/Medicina Social desenvolveu um paradigma epistemológico crítico: a Determinação Social da Saúde (DSS). Trata-se de um paradigma ontologicamente crítico, por compreender a saúde para além da dimensão biomédica. Sua epistemologia permite compreender a magnitude dos processos ambientais, ampliando a dimensão individual dos problemas, para abordá-los de maneira sistemática na dimensão econômica, social e política. Portanto, possui potencial crítico transformador (Breilh, 2013).
Este resumo é um trabalho teórico conceitual que apresenta a importância da Determinação Social da Saúde como um paradigma da Saúde Coletiva na sustentação da luta pela soberania, justiça social, equidade no acesso à saúde com respeito às particularidades territoriais, levando em consideração a interdisciplinaridade e interculturalidade, numa ecologia de saberes (Breilh, 2006; Fasanello; Porto, 2024), em contexto de crise socioambiental.
Objetivos
Demonstrar que a Determinação Social da Saúde, um paradigma do campo da Saúde Coletiva, é importante para se pensar criticamente saúde como uma construção social a integrar harmonicamente a saúde humana, animal e ambiental.
Metodologia
Para se compreender a DSS frente ao colapso ecológico com soberania e justiça, foram consultados os bancos de dados Pubmed, o Portal Scielo e o Google, tendo como descritores “Determinação Social, ambiente e saúde”, suas variantes, “Determinação Social e ambiente e saúde” e “Determinação socioambiental e saúde”. Foram selecionados 12 artigos tendo por referência o período de 2022 a 2026. Desses 12 artigos, 2 não tinham por base de análise a DSS. Eles foram, no entanto, úteis, para contrastar com os outros 10 artigos cuja base epistemológica é a DSS. Foram também selecionadas 6 publicações do campo da Saúde Coletiva crítica à implementação da One Health no Brasil.
Resultados e Discussão
A DSS é um paradigma epistemológico que entende saúde/doença/cuidado como um processo histórico, ancorado em autores como Marx, Breilh, Samaja, Paim, Ayres, Garbois, Borghi. As condições de vida saudável ou insalubre não são compreendias somente pela exposição de indivíduos à fatores de risco. Mas por processos dialéticos complexos de inter-relação sujeito e sociedade. Nestas, estão inter-relacionadas dialeticamente as dimensões biológica, psicológica, mas também econômica, social e, até mesmo, política e cultural. Sendo que as dimensões mais amplas determinam por subsunção as dimensões mais estritas, na dialética universal, particular e singular (Breilh, 2023).
Os artigos analisados mostraram que a análise baseada no paradigma da Determinação Social da Saúde permite compreender os processos de saúde/doença/cuidado indo além da identificação da exposição de indivíduos aos fatores de risco. A exposição está determinada por processos sociais amplos e complexos. E que a exposição segundo o paradigma da tríade agente – hospedeiro – ambiente, sem considerar como se dá a produção social, não é suficiente para se superar os problemas que inter-relacionam o ser humano e o meio ambiente. Pois, a forma como a acumulação capitalista determina a relação com o ambiente é que cria as condições de exposição e não os indivíduos, no exercício de sua livre vontade, que estão expostos na ponta de todo o processo acumulativo.
A Determinação Social da Saúde é um paradigma que faz frente ao modo de acumulação capitalista que tem levado adiante uma forma de produção que gera desigualdades e negligências e incentiva uma compreensão de saúde que não altera a hiperexploração humana e ambiental.
Conclusões/Considerações Finais
A Determinação Social da Saúde é uma epistemologia crítica que permite analisar e pensar a saúde de modo a inter-relacionar ser humano e ecossistema de maneira soberana, em busca de superar as inequidades, respeitando as particularidades territoriais e os saberes dos povos. E assim, manter vivo o ideal de luta por uma sociedade mais justa, democrática e saudável.
O QUE NÃO ENTRA NO INDICADOR NÃO EXISTE? GOVERNAR PELOS NÚMEROS E INVISIBILIZAR PELOS CRITÉRIOS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 USP e Ministério da Saúde
2 Ministério da Saúde
Contextualização
A crescente centralidade dos indicadores na gestão da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil tem reposicionado os sistemas de informação como elementos estruturantes do cuidado, do financiamento e da avaliação das equipes. A partir das fichas técnicas da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) e das diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), consolida-se um modelo de monitoramento orientado por métricas padronizadas que definem parâmetros de acesso, qualidade e desempenho. Mais do que instrumentos técnicos, esses indicadores operam como dispositivos que classificam, hierarquizam e orientam práticas, produzindo regimes de visibilidade e estabelecendo quais formas de conhecimento são reconhecidas como evidência legítima.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido no âmbito da Coordenação-Geral de Acesso e Equidade (CGAEQ), do Departamento de Saúde da Família (DESF/SAPS), do Ministério da Saúde do Brasil. A experiência envolve a análise de normativas, fichas técnicas e sistemas de informação da APS, como SISAB e e-SUS APS, articulada ao diálogo com diferentes realidades territoriais. Inclui também a aproximação com iniciativas territoriais, como a atuação da Redes da Maré, evidenciando tensões entre dados institucionais e saberes produzidos nos territórios.
Período de Realização
A experiência teve início em 2025, no contexto de integração e análise de dados na APS, e segue em desenvolvimento até o presente momento, com aprofundamento das reflexões a partir de 2026.
Objetivo
Problematizar o papel dos indicadores da Atenção Primária à Saúde na produção de visibilidades e invisibilidades, especialmente no campo da equidade em saúde, tomando como eixo a disputa entre diferentes formas de produção de conhecimento e suas implicações para a gestão do cuidado.
Resultados
Observa-se que territórios como favelas apresentam desafios estruturais que extrapolam a capacidade dos sistemas tradicionais de informação em saúde. A experiência junto a iniciativas territoriais, como a atuação da Redes da Maré, evidencia que, diante de fragilidades na organização da Atenção Primária à Saúde, organizações comunitárias acabam assumindo funções de suporte ao cuidado que deveriam ser garantidas pelo Estado.
Nesse contexto, problemas como alta rotatividade de profissionais, dificuldades na criação de vínculo e insegurança nos territórios impactam diretamente a continuidade do cuidado e a qualidade dos registros. Profissionais de nível superior, como médicos e enfermeiros, frequentemente não permanecem no território, enquanto agentes comunitários de saúde tendem a sustentar os vínculos locais, evidenciando assimetrias na produção e na continuidade das informações.
Além disso, dinâmicas marcadas por violência armada, conflitos territoriais, insegurança cotidiana e sofrimento psíquico não são devidamente capturadas pelos sistemas oficiais, o que limita a compreensão das necessidades de saúde. Como consequência, os dados disponíveis tendem a sub-representar situações críticas e a orientar respostas que não dão conta da complexidade desses territórios.
Aprendizado e Análise Crítica
A análise evidencia que os sistemas de informação e os indicadores em saúde operam a partir de recortes que privilegiam dimensões mensuráveis e estabilizadas da realidade, deixando à margem experiências marcadas por instabilidade, violência e vulnerabilidade extrema. Em diálogo com A Miséria do Mundo, observa-se que dimensões do sofrimento social permanecem invisibilizadas quando não encontram formas de inscrição nos instrumentos institucionais.
Ao mesmo tempo, conforme discutido em Reagregando o Social e Jamais Fomos Modernos, os dados devem ser compreendidos como efeitos de redes que articulam práticas, instrumentos e atores, e não como representações neutras da realidade. Nessa perspectiva, os sistemas como SISAB e e-SUS APS não apenas registram o cuidado, mas participam da sua configuração, ao definir o que pode ser visto, medido e priorizado.
As contribuições da Epidemiologia no Pós-Pandemia reforçam a necessidade de integrar abordagens qualitativas na produção do conhecimento em saúde, ampliando a capacidade de apreensão das desigualdades. No caso dos territórios de favela, torna-se evidente que indicadores tradicionais e bases como as do IBGE não são suficientes para capturar as múltiplas dimensões da vulnerabilidade, incluindo violência, medo, instabilidade territorial e impactos sobre o cuidado.
Dessa forma, evidencia-se que a produção de dados em saúde, quando restrita a indicadores padronizados, pode reforçar processos de invisibilização e deslocar a responsabilidade do cuidado para atores locais, como organizações comunitárias. A equidade em saúde, nesse sentido, exige não apenas ampliar o acesso, mas tensionar as hierarquias de saber que definem o que conta como evidência, incorporando novas formas de produção de dados capazes de refletir a complexidade dos territórios.
APESAR DE TUDO E DE TODOS: DESAFIOS DA GESTÃO DE SERVIÇOS MULTIPROFISSIONAIS NA RAPS
Comunicação Oral Curta
1 Fundação Estatal de Saúde
Contextualização
Nos dias atuais, sustentar o funcionamento, a direção e os princípios da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no Brasil tem se tornado uma tarefa complexa. A onda de conservadorismo que atravessa a sociedade se mostra particularmente cruel com a diferença, empurrando aqueles que não são reconhecidos como “normais” para diagnósticos que os tornem toleráveis ou para a invisibilidade e exclusão social. O próprio conceito de “normalidade”, muitas vezes tomado como neutro, pode operar de forma violenta, especialmente quando a diferença não pode ser ocultada.
Esse contexto produz efeitos sobre a RAPS, especialmente na sustentação de seus princípios ético-políticos, vinculados à Reforma Psiquiátrica, ao cuidado em liberdade, à valorização da singularidade e à defesa dos direitos humanos. No cotidiano institucional, observa-se o tensionamento entre a lógica da atenção psicossocial e a tendência à normatização dos comportamentos e ao endurecimento das relações de cuidado.
Nesse cenário, o trabalho da gestão mostra-se desafiador, exigindo não apenas respostas organizacionais, mas a sustentação de uma direção ética, clínica e política comprometida com o cuidado em liberdade e com a defesa da diferença.
Descrição
Ao longo de 2025, a Gerência de Atenção Psicossocial (GEAP) da FESAÚDE acompanhou, apoiou e monitorou o funcionamento dos dispositivos serviços da RAPS com equipes multiprofissionais voltadas ao cuidado em saúde mental, álcool e outras drogas.
No exercício desse acompanhamento, foram identificados movimentos importantes no cotidiano dos serviços, entre eles: dificuldades na sustentação de práticas coerentes com a lógica da atenção psicossocial; presença crescente de recursos normativos voltados à regulação da conduta dos usuários; fragilização de estratégias de acolhimento à diferença; além de desafios relacionados à formação. Em alguns contextos, a multiplicação de “regras de conduta” afixadas nos espaços institucionais, bem como a adoção de respostas organizacionais que, embora frequentemente justificadas como estratégias de ordenamento do cotidiano, acabavam por produzir endurecimento relacional, restrição de circulação, aumento de conflitos e enfraquecimento da função acolhedora dos serviços. Diante disso, a atuação da gestão esteve voltada para a produção de espaços de discussão, apoio institucional e reafirmação dos princípios que orientam a atenção psicossocial no SUS.
Período de Realização
A experiência refere-se ao trabalho desenvolvido pela GEAP da Fundação Estatal de Saúde de Niterói (FESAÚDE) ao longo do ano de 2025, no âmbito da gestão dos serviços da Rede de Atenção Psicossocial sob sua responsabilidade.
Objetivo
Refletir sobre os desafios da gestão de serviços multiprofissionais da Rede de Atenção Psicossocial no contexto contemporâneo, a partir da experiência da GEAP /FESAÚDE no ano de 2025, com destaque para a tensão entre a lógica da atenção psicossocial e o avanço de práticas normativas, moralizantes e pouco acolhedoras da diferença.
Resultados
Ao longo do período, foi possível identificar e analisar elementos centrais que atravessam o trabalho de gestão na RAPS, entre os quais se destacam:
a persistência e, em alguns casos, o recrudescimento de práticas institucionais baseadas na normatização do comportamento dos usuários;
a fragilização, em parte das equipes, de referenciais ético-clínicos historicamente vinculados à Reforma Psiquiátrica Brasileira;
a presença de dificuldades formativas relacionadas à inserção de profissionais com pouca aproximação prévia com a lógica territorial, interprofissional e psicossocial do cuidado; a importância da atuação da gestão como instância de sustentação de direção clínica, institucional e política nos serviços.
Também evidenciou-se que medidas organizacionais centradas exclusivamente na criação de regras e restrições, quando desarticuladas de processos de análise institucional e construção coletiva, tendem a produzir desarticulação da rede e barreiras de acesso ao cuidado.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência desenvolvida reafirmou aprendizados importantes para a gestão da RAPS: a atenção psicossocial não se sustenta automaticamente pela existência formal dos serviços ou equipes multiprofissionais, sendo uma construção cotidiana que exige formação, análise das práticas, discussão de casos, apoio institucional e produção coletiva de sentidos sobre o cuidado. Evidenciou-se que o cuidado em saúde mental implica acolher a diferença, o conflito e a singularidade, sem reduzi-los a desvios. Mais do que funções administrativas, a gestão assume papel ético-político de condução e proteção da direção psicossocial. A experiência da GEAP/FESAÚDE mostra que gerir a RAPS hoje é altamente complexo, exigindo capacidade técnica, relacional e posicionamento ético diante do avanço do conservadorismo. É preciso resistir ao esvaziamento de seu projeto clínico, político e civilizatório através da valorização da diferença e da construção de serviços públicos capazes de acolher a complexidade da vida real.
UMA SAÚDE PLURAL NA PANDEMIA: REFLEXÕES A PARTIR DA ANÁLISE DE CONTEÚDO DA REVISTA CIÊNCIA HOJE (2020–2022)
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz
Apresentação/Introdução
A pandemia de COVID-19 evidenciou não apenas uma crise sanitária, mas uma crise epistemológica profunda, ao expor os limites de um modelo de saúde fundado na centralidade da biomedicina e na promessa tecnocientífica de controle da vida. Esse modelo, historicamente constituído sob a lógica da colonialidade do saber, operou por meio da deslegitimação de outras formas de conhecimento, contribuindo para processos de epistemicídio e para a invisibilização de práticas de cuidado territorializadas. Em contraposição, emergem, no campo da comunicação científica, discursos que apontam para uma “saúde plural” com epistemologias de conexão, nas quais saúde, território, natureza e cultura se articulam de forma indissociável.
Objetivos
Analisar como os discursos sobre saúde na revista Ciência Hoje durante a pandemia tensionam a hegemonia epistemológica da biomedicina e compreender como outras perspectivas de saúde podem contribuir para a construção de outros horizontes.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa baseada em análise de conteúdo (Laurence Bardin), aplicada a 131 matérias sobre saúde das 22 edições da revista Ciência Hoje (2020–2022). O corpus foi analisado por meio de categorias temáticas, ideológicas e simbólicas, articuladas à hermenêutica do imaginário (Gilbert Durand) e a referenciais das epistemologias do Sul e da justiça cognitiva. A análise privilegiou a identificação de deslocamentos discursivos que tensionam a universalidade da ciência moderna e abrem espaço para a co-presença de múltiplos regimes de conhecimento.
Resultados e Discussão
A análise das 131 matérias da revista Ciência Hoje (2020–2022) evidenciou a emergência de uma inflexão epistemológica no campo da saúde, expressa em recorrências discursivas, escolhas temáticas e deslocamentos simbólicos. A tecnociência situada e crítica revela a ciência como prática localizada e relacional, abrindo possibilidades para sua rearticulação com contextos territoriais e saberes não hegemônicos. A justiça epistêmica e o pluralismo de saberes aparecem como eixo estruturante, ao reconhecer práticas de cuidado indígenas, afro-diaspóricas e comunitárias como epistemologias legítimas. Esse movimento se materializa, por exemplo, em matérias que reconhecem a arte e outras expressões culturais como formas legítimas de produção de conhecimento. A saúde como bem comum e direito coletivo desloca o cuidado para redes públicas e comunitárias, evidenciando o SUS como espaço de articulação intercultural. A saúde ecossistêmica aproxima-se de cosmologias que integram corpo, território e natureza. Por fim, a interdependência e a vulnerabilidade reconfiguram o cuidado como prática relacional. Esses eixos, identificados de forma recorrente no corpus analisado, indicam a emergência de uma “saúde plural” baseada em epistemologias de conexão.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a pandemia operou como um momento de fissura no regime epistemológico dominante da saúde, abrindo espaço para disputas em torno da legitimidade dos saberes e das formas de cuidado. A comunicação científica, ao incorporar narrativas mais situadas e plurais, pode desempenhar papel estratégico na construção da justiça cognitiva, ao favorecer o diálogo intercultural e a valorização de epistemologias historicamente marginalizadas. Nesse horizonte, a saúde pode ser compreendida como um campo pluriepistêmico de produção de sentido e cuidado, no qual diferentes sistemas de conhecimento não se subordinam, mas se relacionam, tensionam e co-produzem modos de viver, resistir e sustentar a vida nos territórios.
Nesse sentido, apontam-se como caminhos concretos: a criação de dispositivos de co-produção do conhecimento baseados em pesquisas co-labor-ativas com comunidades; a inclusão de mestres de saberes tradicionais, artistas e lideranças territoriais como agentes formadores nos cursos da saúde; e a institucionalização de práticas interculturais no SUS que integrem, de forma horizontal, diferentes racionalidades de cuidado.
Destaca-se, ainda, a necessidade de reconhecer linguagens expressivas como o rap, a poesia, a música e outras formas artístico-culturais como práticas legítimas de produção e circulação de conhecimento em saúde, capazes de traduzir experiências territoriais, elaborar sofrimento coletivo e produzir cuidado simbólico e político. Tais práticas não operam apenas como estratégias de comunicação, mas como epistemologias situadas que emergem dos territórios e tensionam as fronteiras entre ciência, arte e vida.
Mais do que um atributo biológico ou um desempenho individual, a saúde se revela como uma condição de existência: um efeito das relações entre corpos, ecologias e saberes, continuamente disputada, produzida e sustentada nos territórios onde a vida se faz possível.
CORPOS COBERTOS, SOFRIMENTOS SILENCIADOS? A INVISIBILIDADE DAS EXPERIÊNCIAS DE MULHERES MUÇULMANAS NO CAMPO DA SAÚDE COLETIVA BRASILEIRA
Comunicação Oral Curta
1 USP
Apresentação/Introdução
A presença social do religioso é um fato que não pode ser ignorado, mas a autoafirmação de minorias a partir da cidadania e dos direitos humanos é recente. Embora a saúde seja direito de todos, parcelas significativas da população, sobretudo grupos minorizados como, por exemplo, muçulmanos-as, ainda estão um tanto quanto distantes dessa efetivação.
Objetivos
Parte-se da pesquisa de doutoramento da autora sobre saúde mental de mulheres muçulmanas para problematizar o distanciamento do campo da saúde coletiva em relação ao entendimento e ao atendimento das demandas de saúde desses religiosos.
Metodologia
A pesquisa participante priorizou o envolvimento das interlocutoras. Foram realizadas entrevistas abertas e em profundidade com mulheres muçulmanas de diferentes regiões do Brasil, buscando compreender suas experiências de saúde, cuidado e sofrimento, em seus próprios termos.
Resultados e Discussão
Na pesquisa em questão, mulheres muçulmanas apontaram as falhas de profissionais no fornecimento de uma escuta culturalmente sensível aos temas que as norteiam, informando a predominância da perspectiva de que a religião constituiria um empecilho para a saúde. A interseccionalidade entre religião, raça, gênero e classe revela as múltiplas formas de discriminação que vulnerabilizam as pessoas muçulmanas, sendo particularmente afetadas aquelas que usam o hijab, o véu islâmico. A persistência da lógica colonial na saúde tende a excluir a religião como dimensão legítima do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
A colonialidade reforça a marginalização desse grupo, que vivencia dificuldades no acesso a um cuidado em saúde que respeite as suas especificidades culturais-religiosas. Como consequência, a invisibilidade das suas experiências dificulta a formulação de políticas inclusivas e o exercício pleno de seus direitos. Dado o exposto, é feita a defesa da religião como um marcador da diferença relevante para a saúde coletiva.
PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA, INTERDISCIPLINARIDADE E DESCOLONIZAÇÃO DA SAÚDE: UMA ETNOGRAFIA PARTICIPATIVA EM TERRITÓRIO URBANO PERIFÉRICO
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
2 SLU
3 FIOCRUZ
4 UFOB
Apresentação/Introdução
A pesquisa insere-se no campo crítico da saúde coletiva, tensionando a persistência de práticas assistencialistas, extrativistas e epistemicamente coloniais na produção do conhecimento em saúde. Em territórios urbanos vulnerabilizados, historicamente marcados por negligência estatal, racismo estrutural e precarização das políticas públicas, a promoção da saúde exige mais do que intervenções técnicas: requer a problematização das relações de poder que sustentam a produção de iniquidades e a deslegitimação dos saberes locais. Desenvolvida no âmbito da pesquisa “Construindo Comunidades Saudáveis em favelas urbanas brasileiras” (2021–2024), esta investigação analisa a implementação de um Grupo Comunitário em Salvador (BA), articulando moradores e pesquisadores de distintas áreas. Parte-se de uma ética colaborativa que desloca a pesquisa do “para” ao “com”, reconhecendo a centralidade dos territórios como produtores de conhecimento.
Objetivos
Compreender como a participação comunitária, em perspectiva crítica, contribui para tensionar hierarquias, epistemologias e produzir práticas e saberes em saúde. Especificamente: (i) analisar estratégias de mobilização da participação; (ii) discutir limites, tensões e contradições do processo participativo; e (iii) examinar como tais processos contribuem para a co-produção de práticas de saúde situadas.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa de inspiração etnográfica, orientada por uma abordagem participativa e implicada. A investigação acompanhou o processo de construção de um Grupo Comunitário em um bairro da periferia de Salvador- Bahia por meio de observação participante, com imersão no território e participação nas atividades de planejamento, execução e avaliação, além de entrevistas semiestruturadas com moradores. A análise privilegia a dimensão processual, relacional e política da participação, compreendida como prática em disputa e não como técnica neutra.
Resultados e Discussão
O processo participativo revelou-se atravessado por tensões entre lógicas institucionais e dinâmicas territoriais, evidenciando os limites de modelos participativos que não enfrentam as assimetrias de poder. Ainda assim, a construção do Grupo Comunitário possibilitou a emergência de espaços de maior horizontalidade, nos quais moradores passaram a incidir na definição dos rumos da pesquisa e das ações no território.
Foram co-produzidos um memorial comunitário, uma feira de saúde e ações que articulam memória, arte, ecologia e saúde, evidenciando a ampliação do conceito de saúde para além da dimensão biomédica. A valorização da memória e das práticas locais tencionou processos de invisibilização e epistemicídio, afirmando os saberes territoriais como fundamentais para a produção de estratégias de bem viver.
As ações coletivas evidenciaram que a participação, quando não reduzida a instrumento, pode operar como prática de redistribuição de poder. Ao deslocar a centralidade da universidade e reconhecer a legitimidade das experiências locais, produziram-se conhecimentos mais situados e implicados, com continuidade das ações no território mesmo na ausência institucional, indicando maior sustentabilidade e autonomia.
Nesse sentido, a experiência analisada permite compreender a promoção da saúde não como um conjunto de ações normativas ou prescritivas, mas como um processo político e situado, produzido nas relações entre sujeitos, territórios e instituições. Tal perspectiva desloca o foco da intervenção para a co-construção de condições de vida, evidenciando que promover saúde implica reconhecer conflitos, disputar sentidos e afirmar a legitimidade dos saberes e práticas que emergem dos territórios.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência aponta que a promoção da saúde, em contextos de desigualdade estrutural, não pode ser dissociada da crítica às formas hegemônicas de produção do conhecimento. A pesquisa participativa, quando assumida em sua radicalidade, não apenas amplia o conceito de saúde, mas tensiona as bases epistemológicas e políticas que sustentam as iniquidades.
Conclui-se que promover saúde implica deslocar a centralidade das instituições, reconhecer a potência dos territórios e enfrentar as relações de poder que historicamente produziram silenciamento e exclusão. As experiências analisadas reforçam a necessidade de uma promoção da saúde comprometida com a justiça social e cognitiva, ancorada na memória, na arte, no cuidado ambiental e na autonomia coletiva.
Realização: