Programa - Comunicação Oral Curta - COC11.2 - Justiça Cognitiva a partir dos diálogos interculturais
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
INCLUSÃO PEDAGÓGICA DA SAÚDE INDÍGENA NO ENSINO SUPERIOR: PERCEPÇÕES DE ESTUDANTES DE AÇÕES AFIRMATIVAS E DESAFIOS PARA A EQUIDADE
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Federal do Pará
2 DSEI GUATOC
Apresentação/Introdução
A ampliação das políticas de ações afirmativas no ensino superior brasileiro tem tensionado os modos tradicionais de produção e circulação do conhecimento, especialmente no campo da saúde. Nesse cenário, a inserção da saúde indígena nos currículos emerge como um campo estratégico, porém ainda atravessado por desigualdades estruturais e pelo racismo institucional. Apesar de avanços no acesso de estudantes indígenas e de outros grupos historicamente excluídos, persistem lacunas no reconhecimento de epistemologias não hegemônicas e na incorporação de práticas pedagógicas interculturais.
Objetivos
Analisar as percepções de estudantes ingressantes por ações afirmativas acerca da inclusão da saúde indígena na formação em saúde, identificando barreiras, potencialidades e demandas para a construção de práticas formativas orientadas pela equidade e pela valorização de saberes pluriepistêmicos.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza descritivo-analítica, desenvolvido no contexto de uma instituição pública de ensino superior na região Norte do Brasil entre janeiro e fevereiro de 2026. Os dados foram produzidos por meio de instrumentos abertos aplicados a estudantes ingressantes por políticas de ações afirmativas que participam de um projeto do Ministério da Saúde: o AfirmaSUS. Participaram 13 estudantes de diferente área de formação em saúde, direito e ciências sociais. O material empírico foi submetido à análise de conteúdo temática, permitindo a identificação de núcleos de sentido relacionados à experiência formativa, às percepções sobre o currículo e às relações entre território, cultura e cuidado.
Resultados e Discussão
Os achados evidenciam que, embora os estudantes reconheçam avanços no acesso ao ensino superior, a inclusão da saúde indígena ainda ocorre de forma incipiente, fragmentada e, em muitos casos, desvinculada das realidades territoriais. Destacam-se barreiras como a ausência de conteúdos sistematizados, a limitada abordagem intercultural e a reprodução de perspectivas biomédicas hegemônicas. Por outro lado, emergem demandas por práticas pedagógicas críticas, que articulem saberes acadêmicos e conhecimentos tradicionais, valorizem a relação entre corpo, território e cultura, e promovam o diálogo horizontal entre diferentes racionalidades em saúde. A permanência estudantil também aparece como dimensão central, atravessada por desafios institucionais e experiências de discriminação. Nesse contexto, a interculturalidade crítica se apresenta como eixo estruturante para a reconfiguração curricular e para o enfrentamento das desigualdades no campo da formação em saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a inclusão efetiva da saúde indígena no ensino superior exige mais do que sua inserção temática nos currículos, demandando transformações estruturais nas práticas pedagógicas, na organização institucional e nas concepções de conhecimento. A valorização das epistemologias indígenas, associada à construção de processos formativos territorializados e dialógicos, configura-se como estratégia fundamental para a promoção da equidade e para o fortalecimento de uma saúde coletiva comprometida com a justiça social.
AS RAÍZES DO CUIDADO: SABERES E PRÁTICAS TRADICIONAIS E POPULARES DAS ERVEIRAS DA REDE FITOVIDA
Comunicação Oral Curta
1 EPSJV/FIOCRUZ
2 EPSJV/ FIOCRUZ
3 VPAAPS/ FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
Este trabalho faz parte da pesquisa de Mestrado do Programa de Pós- Graduação em Educação Profissional da EPSJV/FIOCRUZ, que investiga o cuidado promovido pelas mulheres erveiras da Rede Fitovida como prática de promoção da saúde que se articula aos saberes da agroecologia, da economia solidária e da educação popular. A Rede é um movimento social que nasceu em 2000 no Estado do Rio de Janeiro, com a missão de articular, unir e proporcionar partilhas de saberes de diversos grupos comunitários para garantir identidade e autonomia para as mulheres e manter vivo o conhecimento tradicional e popular associado às plantas medicinais.
Objetivos
Compreender como o cuidado se expressa nos saberes e práticas das mulheres erveiras da Rede Fitovida e apoia caminhos na construção do Bem Viver.
Metodologia
Abordagem qualitativa, de natureza sensível e participativa, orientada à tradição da pesquisa participante e à perspectiva da educação popular, buscando produzir escutas e construir conhecimentos compartilhados sobre o cuidado junto às mulheres erveiras. A pesquisa busca contribuir com a valorização dos saberes tradicionais e populares e das práticas cotidianas de cuidado protagonizadas pelas mulheres erveiras, compreendidas como parte de um processo histórico de resistência, territorialidade e bem viver. Envolve revisão bibliográfica e documental sobre a trajetória da Rede, e duas rodas de conversa com as erveiras: a primeira para promover o diálogo em torno das práticas de cuidado e a segunda para validar as sínteses das principais ideias, reforçando o lugar delas como produtoras de saber. A roda de conversa é um método investigativo dialógico, baseado nos princípios da educação popular, da pesquisa participante e da sistematização crítica de experiências, que busca ativar memórias, provocar reflexões coletivas e criar sentidos compartilhados.
Resultados e Discussão
Do campo à cidade, a Rede é composta majoritariamente por mulheres, vindas de várias regiões do estado do Rio de Janeiro. Elas são erveiras, mas também benzedeiras, parteiras, raizeiras, agricultoras, detentoras do saber tradicional do cultivo e da cura pelas plantas medicinais, herdadas de suas ancestrais, que promovem o cuidado por meio da manutenção e perpetuação das diversas manifestações da vida no planeta Terra. A Rede se organiza em encontros regionais e estaduais, onde trocam experiências, fortalecem sua atuação em rede e constroem caminhos coletivos. Também participa de espaços públicos, escolas e iniciativas culturais, ampliando o alcance de seus saberes e reafirmando, na prática, o cuidado, a solidariedade e a defesa da vida. No campo da saúde, o cuidado institucionalizado é ordenado principalmente pela lógica biomédica que, embora tenha proporcionado avanços importantes, também promoveu um apagamento sistemático dos saberes ancestrais, populares e tradicionais – muitos dos quais são historicamente cultivados por mulheres curadoras das comunidades. A hegemonia biomédica, ao padronizar procedimentos e desconsiderar outras epistemologias, torna-se um mecanismo de silenciamento das práticas de cuidado ligadas à oralidade, ao território e à ancestralidade. Esse processo está profundamente ligado à organização social estabelecida por estruturas patriarcais, racistas e de classe. Nesse cenário de múltiplas camadas de opressão, o cuidado também emerge como potência de resistência. As erveiras, agarradas à terra, que cultivam o cuidado como parte de sua vida cotidiana, materializam um outro modo de existência, baseado na reciprocidade com a natureza e na coletividade. O cuidado territorializado não apenas resiste à lógica neoliberal e produtivista, mas também preserva modos de vida que priorizam o bem viver, a interdependência e a dignidade das relações humanas e não humanas. O cuidado, nesse contexto, é uma forma de luta, memória e futuro.
Conclusões/Considerações Finais
As práticas de cuidado das erveiras se constituem nos contextos do cultivo agroecológico, da economia solidária e da educação popular, rompendo com a lógica instrumental e capitalista da exploração da vida, da natureza e dos seres humanos. Na agroecologia, o cuidado está intrinsecamente ligado à preservação da vida e dos ciclos naturais, promovendo relações sustentáveis nos territórios. Assim, o cuidado se manifesta na valorização dos saberes tradicionais, na reciprocidade com a terra, e no respeito à diversidade. Na economia solidária, o cuidado aparece como prática coletiva de autogestão, apoio mútuo e valorização da vida digna, contrastando com a lógica de exploração do trabalho. A dimensão do cuidado se realiza, portanto, na construção de redes de confiança, na valorização do trabalho coletivo e na autonomia econômica das mulheres da Rede. Na educação popular, por fim, o cuidado é fundado no diálogo, no reconhecimento dos saberes da outra e nos processos de construção compartilhada do conhecimento. O cuidado é prática pedagógica, relacional, que se constrói nas trocas e no reconhecimento mútuo de pessoas que aprendem juntas.
ENTRE TERRITÓRIOS, SABERES E AFETOS: COOPERAÇÃO SUL–SUL E JUSTIÇA COGNITIVA NA REDE RISOFLORAS DEL SUR
Comunicação Oral Curta
1 Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia. ISC/UFBA
2 Instituto de Estudos Regionais - INER, Universidad de Antioquia (UdeA), Medellín- Colombia.
3 Facultad Nacional de Salud Pública Héctor Abad Gómez - Universidad de Antioquia (UdeA), Medellín- Colombia
4 Universidad de La Havana, Cuba
5 Universidade Federal de Pernambuco. PPGSC - PE
6 Instituto Aggeu Magalhães – Fiocruz PE
7 Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS
8 Universidade Estadual de Feira de Santana - PPGSC/UEFS.
9 Instituto de Saúde Coletiva ISC UFBA.
Contextualização
A persistência de desigualdades socioambientais e iniquidades raciais em saúde na América Latina evidencia os limites dos modelos hegemônicos de produção do conhecimento e de cooperação internacional, historicamente orientados por uma lógica centro-periferia. Nesse cenário, torna-se estratégico investir em redes de cooperação Sul–Sul orientadas pela pluralidade epistêmica e pela justiça cognitiva, capazes de articular saberes científicos e conhecimentos situados na produção de respostas aos desafios contemporâneos da Saúde Coletiva.
Descrição
A Rede Risofloras del Sur articula instituições do Brasil, Colômbia e Cuba, reunindo um conjunto de projetos voltados às temáticas da vulnerabilidade socioambiental, iniquidades raciais em saúde e processos de cuidado em diferentes territórios. A rede integra iniciativas que abordam, entre outros aspectos, saúde de populações negras e quilombolas, itinerários de cuidado de mulheridades em contextos de vulnerabilidade, dinâmicas territoriais urbanas e rurais e relações entre arte, ecologia e saúde. As atividades desenvolvidas incluem reuniões frequentes de articulação, oficinas, mapeamento de projetos, diálogos teórico-metodológicos e missões acadêmicas realizadas em Recife (Brasil), Havana (Cuba) e Medellín (Colômbia), com participação de docentes, estudantes de pós-graduação e lideranças comunitárias. Destaca-se também a realização de um encontro de integração em outubro de 2025, voltado à construção de agenda comum entre os projetos. As ações foram orientadas por metodologias participativas, como pesquisa-ação, cartografia social e afetiva, etnografia colaborativa e diálogos de saberes, articulando dimensões corporais, territoriais e socioemocionais na produção do conhecimento.
Período de Realização
2024 até o momento (com ênfase nas atividades desenvolvidas entre 2025 e início de 2026).
Objetivo
Relatar e refletir sobre a experiência da Rede Internacional/Regional de Pesquisa Risofloras del Sur, destacando suas contribuições para a construção de cooperação Sul–Sul, metodologias participativas e promoção da justiça cognitiva no campo da Saúde Coletiva.
Resultados
Os intercâmbios realizados possibilitaram o desenvolvimento de oficinas formativas com estudantes de pós-graduação sobre vulnerabilidade socioambiental, território e pesquisa participativa, bem como oficinas de cartografia afetiva com lideranças afrodescendentes. Essas experiências evidenciaram a relação entre corpo, território e desigualdades estruturais, além da coexistência de territórios marcados por vulnerabilidade e redes de cuidado. As reuniões entre pesquisador@s da rede contribuíram para a sistematização das experiências e para o avanço na construção de uma agenda conjunta, com destaque para o aprofundamento das discussões sobre racismo e iniquidades raciais em saúde nos três países
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência analisada evidencia que a cooperação estabelecida tensiona modelos tradicionais de internacionalização ao promover intercâmbios horizontais, valorização de saberes locais, construção colaborativa do conhecimento e o questionamento das agências de financiamento que acabam reproduzindo dinâmicas coloniais de apoio a este tipo de colaborações. As metodologias adotadas demonstram potencial para a leitura crítica dos territórios, a visibilização de desigualdades e a construção de práticas de cuidado que integram dimensões culturais, políticas e afetivas.
Conclui-se que a Rede Risofloras del Sur contribui para a construção de caminhos de internacionalização crítica e justiça cognitiva, ao articular cooperação acadêmica, diálogo intercultural e produção de conhecimento comprometido com a defesa da vida nos territórios, em consonância com os desafios contemporâneos da Saúde Coletiva.
INTERCULTURALIDADE E GESTÃO DE SEGURANÇA DO PACIENTE: UMA ANÁLISE REFLEXIVA ENTRE CONTEXTOS BRASILIRO E AFRICANOS.
Comunicação Oral Curta
1 UECE
Apresentação/Introdução
A segurança do paciente constitui um componente essencial na qualidade da assistência em saúde, sendo reconhecida globalmente como prioridade. Nesse cenário, a interculturalidade surge como dimensão fundamental para a compreensão das práticas de cuidado, sobretudo na diversidade cultural, social e histórica.
No contexto brasileiro, destaca-se a institucionalização do Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), que representa um marco na incorporação de práticas voltadas à redução de riscos e à qualificação da assistência. Em contraste, em diversos países africanos, os sistemas de saúde ainda enfrentam limitações estruturais e organizacionais, agravadas por desigualdades sociais que dificultam a implementação efetiva de estratégias de segurança do paciente. Observa-se, nesses contextos, a construção de iniciativas ainda em consolidação, fortemente influenciadas por saberes tradicionais e pelas especificidades socioculturais.
Dessa forma, a análise intercultural da segurança do paciente evidencia a necessidade de superar modelos homogêneos de gestão baseados em referenciais biomédicos. Torna-se essencial considerar as singularidades dos territórios, valorizar práticas locais e promover o diálogo entre diferentes saberes, garantindo intervenções mais sensíveis, eficazes e culturalmente adequadas.
Objetivos
Refletir sobre a organização das políticas e estratégias da gestão de segurança do paciente no Brasil e em países africanos à luz da interculturalidade.
Metodologia
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, exploratória e reflexiva, fundamentado a partir da revisão de literatura. A coleta de dados ocorreu no período de fevereiro a março de 2026, realizada em repositórios institucionais da Organização Mundial da Saúde (OMS), Ministério da Saúde (MS) do Brasil e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), na biblioteca eletrônica Scielo, e nas bases de dados LILACS, AJOL (African Journals OnLine) e Pubmed. A seleção dos materiais consultados levou em consideração sua pertinência, atualidade e relevância para o objeto de estudo. Por se tratar de um estudo baseado em dados secundários de acesso público, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme preconizado pelas normas vigentes.
Resultados e Discussão
A análise dos documentos evidenciou desafios e potencialidades na construção das práticas do cuidado seguro nos contextos interculturais.
No Brasil, mesmo com avanços significativos no campo da segurança do paciente, a incorporação da interculturalidade nas práticas de gestão e cuidado ainda ocorre de forma limitada e não sistematizada. Para além disso, observa-se que a segurança do paciente ainda é predominantemente orientada por uma perspectiva técnico-normativa, com menor ênfase nas dimensões socioculturais do cuidado.
Essa lacuna torna-se especialmente relevante ao considerar que os aspectos culturais influenciam diretamente a comunicação em saúde, a compreensão das orientações terapêuticas e a adesão às práticas seguras. Assim, a noção de cultura de segurança emerge como um componente indispensável, ao propor que o cuidado em saúde seja simultaneamente tecnicamente seguro e culturalmente sensível.
Já no contexto africano, especialmente em África do Sul, Quênia, Angola e Moçambique, fatores culturais assumem centralidades mais expressivas na organização do cuidado, com forte presença de práticas tradicionais e sistemas informais de saúde. Esses elementos influenciam a forma como os sujeitos percebem o risco, acessam os serviços formais e aderem aos tratamentos propostos. A coexistência entre saberes biomédicos e tradicionais, embora represente uma riqueza sociocultural, também evidencia desafios para a implementação de práticas seguras, especialmente diante da ausência de estratégias que promovam a integração entre esses sistemas de conhecimento.
Por fim, observam-se especificidades entre os cenários analisados. No Brasil, persistem desafios ligados à consolidação da cultura de segurança, à interculturalidade, à equidade e à gestão de riscos. Nos contextos africanos, apontam as limitações estruturais, dificuldades de acesso, influência da diáspora e necessidade de maior valorização da diversidade cultural. Apesar das diferenças, ambos convergem na urgência de integrar cultura e segurança como dimensões indissociáveis da assistência em saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Assim, os achados reforçam a necessidade de reconhecer a interculturalidade como eixo transversal na formulação de políticas públicas e na organização dos serviços de saúde, sobretudo relacionado com a segurança do paciente. A cooperação internacional e a valorização das medicinas tradicionais aliada ao intercâmbio de experiências entre países, apontam-se como estratégias promissoras para o fortalecimento da segurança do paciente em diferentes contextos.
INVISIBILIZAÇÃO DO ADOECIMENTO E INJUSTIÇA EPISTÊMICA NA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO SOBRE A SÍNDROME DE DRESS NO BRASIL
Comunicação Oral Curta
1 UFMT
2 UNIR
Apresentação/Introdução
No campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, o adoecimento é compreendido como processo vivido, relacional e situado. Em um contexto historicamente marcado pela centralidade do saber biomédico, essa perspectiva implica uma inflexão ontoepistemológica que tensiona a redução do fenômeno à sua objetivação clínica, inscrevendo a análise nas condições de existência nas quais a vida se produz e se sustenta. A Síndrome de Reação Medicamentosa com Eosinofilia e Sintomas Sistêmicos (Síndrome de DRESS) já situa, em sua própria nomenclatura, o fenômeno como uma condição produzida no interior de estratégias terapêuticas orientadas à preservação da vida. Trata-se, assim, de uma condição atravessada pela medicalização, não como excesso individual, mas como efeito estrutural de um modelo de cuidado centrado na intervenção farmacológica. A DRESS pode, portanto, ser compreendida como uma doença da modernidade, na medida em que emerge do avanço das tecnologias terapêuticas e das estratégias de enfrentamento da doença, inscrevendo-se nas próprias práticas de cuidado. Esse cuidado, historicamente concebido como benéfico, revela-se, em determinadas circunstâncias, portador de potenciais de dano, tensionando os limites entre tratar e adoecer. A centralidade dos sinais e sintomas, manifesta na nomenclatura como critério de reconhecimento, tende a reduzir o adoecimento à presença ou ausência de manifestações clínicas previamente definidas. Esse movimento não é neutro: ao privilegiar modos de conhecer centrados na objetividade clínica, produz-se a deslegitimação de outras formas de apreensão do fenômeno. É nesse ponto que o conceito de injustiça epistêmica, proposto por Fricker (2007), torna-se analiticamente central, ao permitir compreender como certos grupos, territórios e experiências são sistematicamente excluídos dos regimes de produção e validação do conhecimento. A análise da produção científica constitui, assim, um campo privilegiado para observar como essas dinâmicas se materializam.
Objetivos
Este estudo teve por objetivo analisar a produção científica brasileira sobre a Síndrome de DRESS, buscando compreender como se configuram a produção, a circulação e a legitimação do conhecimento sobre essa condição no País, a partir de seus delineamentos metodológicos e dos pressupostos epistemológicos.
Metodologia
. Para tanto, realizou-se busca no Portal de Periódicos CAPES utilizando os termos (“DRESS syndrome” OR “síndrome de DRESS” OR “Drug Reaction with Eosinophilia and Systemic Symptoms” OR DIHS), com aplicação de filtro para produção nacional, incluindo publicações até fevereiro de 2026.
Resultados e Discussão
A busca resultou em 65 estudos, dos quais 35 foram incluídos após leitura de títulos e resumos. Observou-se predominância de estudos descritivos, especialmente relatos de caso (17) e séries de casos (7). Estudos analíticos (6) foram menos frequentes e não foram identificados estudos de abordagem qualitativa. A distribuição temporal indicou aumento das publicações a partir de 2020. Em relação à distribuição institucional, identificou-se forte concentração nas regiões Sudeste (21) e Sul (7), especialmente em centros universitários e hospitais terciários, sem registros de estudos conduzidos por instituições da região Norte. Esses achados evidenciam crescimento recente da produção científica sobre a Síndrome de DRESS no Brasil, ainda predominantemente centrada em descrições clínicas, com baixa diversidade metodológica e acentuada concentração regional. Tais características configuram o que Dusenbery (2018) denomina lacunas de conhecimento, produzidas estruturalmente a partir de decisões sobre o que é investigado, quais métodos são considerados legítimos e como se distribuem as condições de produção científica. A ausência de estudos provenientes de determinadas regiões, como o Norte, não indica inexistência do adoecimento, mas limitações nas condições de produção do conhecimento, que repercutem tanto na compreensão da DRESS em suas especificidades territoriais quanto nas possibilidades de seu reconhecimento e diagnóstico, restringindo a construção de respostas de cuidado sensíveis às realidades locais. A predominância de abordagens clínicas, associada à ausência de estudos qualitativos, contribui para a manutenção de um campo de conhecimento que não incorpora o adoecimento em sua dimensão experiencial e situada. O resultado é um circuito de produção que tende a reforçar suas próprias condições de existência: o que não é investigado permanece invisível e fora das possibilidades de reconhecimento.
Conclusões/Considerações Finais
Considerando que a DRESS emerge no interior de práticas de cuidado, essa limitação torna-se ainda mais crítica, pois impede a apreensão de suas implicações para o próprio cuidado que a produz. Assim, a invisibilização do adoecimento não constitui apenas um problema de conhecimento, mas um limite para o próprio cuidado, indicando a necessidade de ampliar metodologias e diversificar os espaços de produção científica no país.
DESAFIOS PARA A INSERÇÃO DOS PSICODÉLICOS NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz Minas - Instituto René Rachou
Apresentação/Introdução
Nas últimas décadas, observa-se uma reconfiguração no modo como as substâncias psicodélicas são compreendidas no campo da saúde, tensionando fronteiras históricas entre ciência, cultura e política. Inserido em um contexto de crise dos modelos biomédicos centrados na medicalização e no controle do sofrimento, o interesse renovado por essas substâncias recoloca em debate não apenas seus potenciais terapêuticos, mas também os regimes de saber-poder que historicamente produziram sua marginalização. Nesse cenário, os psicodélicos emergem como um campo controverso e promissor, atravessado por disputas epistemológicas, éticas e regulatórias, que convocam a Saúde Coletiva a problematizar seus próprios referenciais e a dialogar com saberes plurais, incluindo aqueles oriundos de povos originários e comunidades tradicionais.
Objetivos
Na perspectiva dos estudos decoloniais e suas interfaces com a Saúde Coletiva, este estudo teve como objetivo analisar os desafios para a inserção dos psicodélicos nas políticas públicas de saúde.
Metodologia
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada entre maio e julho de 2025, a partir de buscas nas bases Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), PubMed e Google Acadêmico. Após a exclusão de duplicatas, foram identificados 709 estudos, dos quais 11 compuseram o corpus final, conforme critérios de inclusão relacionados à pertinência temática, disponibilidade do texto completo e idioma. A análise foi conduzida de forma crítica, buscando identificar os principais desafios apontados pelos estudos selecionados.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que a produção científica sobre psicodélicos ainda é limitada no campo das políticas públicas de saúde, com predominância de estudos voltados para aspectos clínicos e terapêuticos. A análise permitiu a identificação de quatro eixos principais de discussão. O primeiro refere-se ao proibicionismo, entendido como um dos principais entraves à inserção dessas substâncias nas políticas públicas, ao produzir estigmatização, restringir pesquisas e dificultar o acesso a práticas terapêuticas. Observa-se, no entanto, a existência de movimentos de flexibilização regulatória, que coexistem com o risco de mercantilização dessas substâncias. O segundo eixo diz respeito à equidade no acesso. Apesar do potencial terapêutico dos psicodélicos, sua utilização ainda se encontra restrita a contextos específicos, o que pode limitar o acesso de diferentes grupos populacionais. Os estudos analisados apontam para a necessidade de considerar a distribuição dessas terapias de forma mais ampla, evitando a reprodução de desigualdades no campo da saúde. O terceiro eixo aborda a relação com saberes ancestrais, destacando que o uso de substâncias psicodélicas não é recente, estando presente em práticas de povos originários e comunidades tradicionais. Nesse sentido, os estudos discutem a importância de reconhecer esses saberes e problematizam processos de apropriação sem a devida valorização das populações envolvidas. Por fim, o quarto eixo refere-se à construção de modelos de intervenção em saúde pública. Observa-se que ainda há poucos referenciais consolidados para a incorporação dos psicodélicos nos sistemas públicos de saúde, sendo necessário avançar na formulação de estratégias que considerem as especificidades desses contextos.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a inserção dos psicodélicos nas políticas públicas de saúde envolve múltiplos desafios, relacionados a aspectos regulatórios, sociais e institucionais. Destaca-se a necessidade de ampliar o debate no campo da Saúde Coletiva, de modo a contribuir para a construção de políticas que considerem tanto o potencial terapêutico dessas substâncias quanto as condições de sua implementação nos sistemas de saúde.
Realização: