Programa - Comunicação Oral - CO16.1 - Mudanças climáticas e saúde mental: sentidos, cuidados, reparações e territórios
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
COLETIVAMENTE – UM ESTUDO SOBRE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E A INTERFACE COM A SAÚDE MENTAL
Comunicação Oral
1 USP – Universidade de São Paulo Instituto Leonidas e Maria Deane - Fundação Oswaldo Cruz
2 Instituto Leonidas e Maria Deane - Fundação Oswaldo Cruz
3 Instituto Leonidas e Maria Deane - Fundação Oswaldo Cruz michele.kadri@fiocruz.br
4 Universidade do Estado do Amazonas
5 Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo
Apresentação/Introdução
Neste relato apresentamos os resultados parciais de uma pesquisa em andamento que vem estudando a relação entre as mudanças climáticas e a saúde mental de duas comunidades ribeirinhas localizadas na região norte do país. Ambas trabalham com o manejo e a preservação ambiental, localizadas uma na região de Tefé no estado do Amazonas e outra na cidade de Santarém no estado do Pará. Uma pesquisa com parcerias interinstitucionais que buscam compreender os modos de vida e as estratégias de enfrentamento frente aos impactos das mudanças climáticas e suas percepções sobre as afetações tanto na saúde, como na saúde mental.
Objetivos
Os objetivos consistem em explorar a complexidade de fatores associados à saúde mental em contextos amazônicos de múltiplas vulnerabilidades e extremos climáticos, buscando identificar as estratégias de bem-viver, políticas de cuidado e a resiliência/capacidade de adaptação das populações em distintos territórios amazônicos. De modo específico busca-se descrever a rede de cuidado em saúde mental nas cidades de Tefé (AM) e Santarém (PA); Identificar os atributos de resiliência, capacidade de adaptação e promoção da saúde mental adotadas pelas comunidades frente aos extremos climáticos nos territórios amazônicos. Propor estratégias de complementariedade no cuidado entre as capacidades existentes nas comunidades e a rede de serviços de saúde.
Metodologia
A metodologia aplicada é a pesquisa ação participante de caráter qualitativo e participativo organizada em etapas, nesta destacamos a oferta do curso “Aspectos psicossociais em emergências e desastres”, seguido de oficinas aplicadas em campo intituladas “cuidar e viver nos territórios da Amazônia: construindo estratégias coletivas”, cujo objetivo parte da construção coletiva sobre a compreensão de território e suas emoções implicadas nele, além de entrevistas com as lideranças locais e profissionais que atuam tanto na rede psicossocial como na atenção básica, o PERÍODO DE COLETA ocorreu entre abril de 2025 a março de 2026, nos Territórios localizados nas comunidades com as associações, uma a ASSOCIAÇÃO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS RURAIS DA AGRICULTURA E DA PESCA DE TEFÉ (AM) e em SANTARÉM (PA) COM A Z-20 ASSOCIAÇÃO DE PESCADORES MAIS ESPECIFICAMENTE NA COMUNIDADE DO TAPARÁ.
Resultados e Discussão
Até o momento foram realizados o curso “Aspectos psicossociais em emergências e desastres” entre os pesquisadores do projeto um momento necessário para a organização e debate principalmente sobre a compreensão do tema aplicado a emergências e desastres com a realidade local, como ainda, as visitas realizadas em ambas as associações, nestas observou-se a urgência de construir estratégias que potencializem ações de cuidado em saúde mental, questões estas que envolvem investimento na política pública na segurança como nas linhas de cuidado desde a atenção primária até a especializada, seguido da reflexão sobre os eventos climáticos que ocorrem na região. A mudança sazonal entre os períodos da seca e a cheia e todo o impacto que afeta na rotina diária das pessoas, compreende-se que a realidade dos modos de vida estão entrelaçados a sazonalidade do clima entretanto a complexidade sobre os desafios da saúde em especial a saúde mental, remontam a uma discussão sobre a construção de estratégias a serem articuladas mediante a construção de políticas públicas.
Conclusões/Considerações Finais
Mediante os dados acima apresentados observa-se a imponência do saber popular, refletido nos modos de vida da população ribeirinha, que diante de severas lacunas envolvendo o poder público e considerando as afetações ocasionadas pelas mudanças climáticas, enredam a complexidade dos sistemas sociais e suas vulnerabilidades, dentre as quais, apresentam notoriamente divergências intensificadas entre os períodos da seca e da cheia, impondo desafios que demandam respostas intersetoriais e territorializadas, que desafiam os cuidados e o modo de vida e deste modo, destacamos a potência da articulação entre o saber comunitário e a ciência como parceiros nesta caminhada.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS E SAÚDE MENTAL E A PERSPECTIVA DA JUSTIÇA REPRODUTIVA
Comunicação Oral
1 UEA
2 UFAM
Apresentação/Introdução
As mudanças climáticas já são reconhecidas como uma das ameaças mais graves à saúde pública. Entre os seus efeitos, destacam-se os impactos à saúde mental, os quais variam entre os gêneros, a depender de fatores socioeconômicos, culturais e geográficos, sendo as mulheres as mais afetadas, especialmente as pertencentes a grupos marginalizados. Nesse cenário emerge a Justiça Reprodutiva, orientada por uma perspectiva interseccional e concebida como um projeto político de justiça social, fundamentada nos direitos humanos, entre os quais destacam-se os direitos sexuais e ambientais. Estrutura-se em três princípios basilares: o direito de ter filhos, de não ter filhos, e o de criá-los em ambientes seguros e saudáveis. Dessa forma, torna-se necessário investigar a conexão entre mudanças climáticas, saúde mental e justiça reprodutiva.
Objetivos
Analisar a produção científica recente, acerca da conexão entre mudanças climáticas e saúde mental na perspectiva da justiça reprodutiva.
Metodologia
Trata-se do recorte de uma revisão integrativa de literatura, que integra uma pesquisa mais abrangente desenvolvida no âmbito de uma tese de doutorado sobre “Eventos climáticos extremos e os efeitos na saúde das mulheres da Amazônia: análise na perspectiva da justiça reprodutiva”. A referida revisão, de abordagem qualitativa, foi realizada em julho de 2025 considerando o que propõe Mendes, Silveira e Galvão. O recorte temporal considerou artigos publicados entre 2020 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol em três bases de dados: Scopus, Medline e LILACS.
Resultados e Discussão
Com base nos critérios de elegibilidade, foram selecionadas 37 publicações, todas em inglês. Após a triagem, foram incluídos 20 artigos, dos quais 11 evidenciaram a relação entre impactos das mudanças climáticas na saúde mental e os princípios da justiça reprodutiva, principalmente no que se refere à decisão de ter ou não ter filhos e ao direito de criá-los em ambientes seguros e saudáveis. Entre os achados destaca-se: a ambivalência reprodutiva motivada pelo temor da iminente deterioração das condições ambientais, às dificuldades econômicas, aos danos à saúde reprodutiva e às inúmeras tensões vivenciadas por mulheres vulnerabilizadas em situações de eventos climáticos extremos.
No bojo das mudanças climáticas, observa-se um crescente movimento global de mulheres jovens que optam por não ter filhos diante do temor da iminente deterioração das condições ambientais, fenômeno associado à ecoansiedade, ou ansiedade climática, que pode se desdobrar em ansiedade reprodutiva. A ecoansiedade manifesta-se por sentimentos como medo, raiva, impotência e desamparo, além de traumas decorrentes de eventos climáticos extremos. Na perspectiva de algumas, a possibilidade de que crianças nascidas em contextos de crise ambiental sejam futuramente afetadas pelas mudanças do clima tem motivado a escolha pela não maternidade. Paralelamente, aquelas em situação de vulnerabilidade, após desastres ambientais, apresentam maior risco de sofrer violência de gênero. Ademais, o estresse decorrente de deslocamentos, da perda de renda, da insegurança alimentar e hídrica e da sobrecarga nas tarefas de cuidar também pode gerar impactos significativos na saúde mental dessas mulheres. Assim, considerando a perspectiva interseccional da justiça reprodutiva, categorias sociais, como raça, classe social e território estruturam desigualdades fazendo com que as mulheres experimentem de maneira mais, ou menos intensa os impactos das mudanças climáticas na saúde mental, o que pode ou não tensionar o exercício de seu direito à saúde e aos direitos reprodutivos.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados evidenciaram a existência de uma conexão entre mudanças climáticas e saúde mental das mulheres, sob a perspectiva da justiça reprodutiva. Nesse sentido, os sofrimentos psíquicos e as incertezas quanto ao futuro, incidem diretamente sobre os seus fundamentos. Observou-se, ainda que a decisão de ter ou não ter filhos, bem como a possibilidade de criá-los em ambientes seguros e saudáveis se mostrou condicionada ao atravessamento de fatores interseccionais de raça, classe e território. Assim, não se pode ignorar que os impactos causados pelas mudanças climáticas vêm moldando dimensões mais amplos da vida social, tensionando saúde mental e os princípios da justiça, e indicando a necessidade de investigar o papel da ambivalência reprodutiva nos futuros reprodutivos.
O SIMBÓLICO E AS "TERRAS CAÍDAS"
Comunicação Oral
1 UEA
Apresentação/Introdução
O fenômeno regionalmente conhecido como “terras caídas” refere-se ao processo natural de erosão responsável pelo solapamento, desmoronamentos ou escorregamento das margens fluviais do rio Amazonas. Entre os seus principais agentes está a dinâmica das águas, cuja força é agravada diante de eventos climáticos extremos, especialmente na época das cheias. Para as comunidades ribeirinhas, com modos de vida e habitação margeados pelos rios amazônicos, a impermanência constitui um risco permanente. Não é apenas um pedaço de terra que cede e desaparece; com ela, somem também espaços sociais que compõem a vida ribeirinha, o que desencadeia um processo de desterritorialização e a consequente migração forçada.
Objetivos
Compreender a dimensão simbólica do território perdido no contexto das “terras caídas”
Metodologia
Trata-se de uma revisão bibliográfica com abordagem qualitativa e de natureza exploratória-descritiva. Foi realizada uma busca eletrônica nas bases de dados SciELO e BVS, com associação dos descritores “Erosão fluvial”; “População Ribeirinha” e “Territorialidade”.
Resultados e Discussão
O conceito de território passa pela lógica da apropriação, que pressupõe a ação de inscrever um espaço, inerte e estritamente material, no campo do simbólico, afetivo. Desse modo, entende-se que o território compreende um espaço no qual se produz, com o qual se relaciona e do qual os agentes sociais se apoderam à medida em que o investem de significados, sendo vivido e dotado de sentido (Raffestin, 1993; Corrêa, 1998). Para compreender a magnitude simbólica da desterritorialização provocada pelas “terras caídas”, é preciso redimensionar o olhar para o que se perdeu e a rede de significações implicadas. Nessa direção, Vale et al. (2019) e Silva et al. (2023) convergem para a noção de território ao aprofundarem o entendimento sobre os impactos das “terras caídas”. Um elemento comum aos achados desses estudos indica a função de subsistência inerente ao modo de vida e à posição geográfica das comunidades ribeirinhas analisadas. Essas comunidades estabeleceram-se ao longo das margens dos rios da Amazônia, onde a territorialidade ribeirinha constitui-se em estreita relação com a tríade água–floresta–terra, razão pela qual os modos de vida são organizados a partir de uma relação de interdependência entre pessoa-ambiente (Kadri; Schweickardt; Freitas, 2022). Percebe-se, portanto, a transição entre espaço e território quando imputam àquele um valor simbólico, ao passo que se produz saberes e condições de subsistência com os recursos deste recorte espacial. Nessa confluência entre a população ribeirinha e o território por ela habitado, articula-se a dimensão afetiva. Araújo (2023) ressalta que o relacionamento com o rio, inicialmente mediado pelas atividades de subsistência, conduz à afetividade conforme as práticas ribeirinhas conferem sentido e propósito ao espaço. Nessa perspectiva, Fernandes e Moser (2021) complementam que essa afinidade e interação com o rio constituem o ponto de partida para a formação de uma identidade nativa. Com isso, percebe-se que a relação inicialmente utilitária com a natureza desloca-se para um senso de identidade, de modo que o ribeirinho passa a pertencer ao lugar que lhe pertence. Guimarães et al. (2019) vai ao encontro dessa visão ao retratar o cenário de resistência na Costa do Catalão diante da necessidade de realocação da comunidade para uma área de terra firme, longe dos riscos erosivos. Alguns moradores justificam a recusa em deixar a comunidade de origem a partir do sentimento de dor e apego que nutrem por ela. Assim, os estudos de Araújo (2023), Fernandes e Moser (2021) e Guimarães et al. (2019) sugerem que o território ribeirinho não se reduz à lógica da subsistência e da economia local, já que se insere também no imaginário comunitário e ganha sentido pela via do afeto e da pertença.
Conclusões/Considerações Finais
Refletir sobre os danos provocados pelas “terras caídas” para a população ribeirinha, em decorrência do imperativo da realocação de território, implica reconhecer o valor da terra para além de sua utilidade material e distinguir espaço de território. A literatura revela que o espaço constitutivo da várzea adquire existência simbólica e transmuta-se em território, pois, além de conferir uma terra fértil e favorável à subsistência, é na relação diária com ele que a dimensão afetiva marca presença. A percepção do território pela comunidade ribeirinha é, portanto, subjetiva: o rio converte-se em fonte de renda, meio de transporte e lazer, enquanto o solo à sua margem abriga as habitações e representa a morada. Esse entendimento permite reconhecer que a erosão fluvial não incide apenas sobre um espaço físico, mas ameaça a permanência de um território, no qual se estrutura a identidade da população ribeirinha, costumes e uma territorialidade entrelaçada com a tríade água–floresta–terra.
RETOMADAS PARA DEIXAR A MATA E O POVO DE PÉ: ADAPTAÇÃO ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E SAÚDE MENTAL EM COMUNIDADE TUPINAMBÁ
Comunicação Oral
1 NISAM/ISC/UFBA
2 Harvard Medical School
3 AITSP
4 ISC/UFBA
Apresentação/Introdução
Este trabalho apresenta uma análise de um dos três trabalhos de campo realizados na Bahia por uma pesquisa multicêntrica denominada “Fronteiras de Adaptação em Sistemas Socioecológicos Vulneráveis”, ligada à Medical School da Universidade de Harvard e ao Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Dentre um dos campos escolhidos encontra-se, no sul do Estado da Bahia e em bioma de Mata Atlântica, a comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro localizada na Terra Indígena Tupinambá de Olivença. O andamento do processo de demarcação territorial para os Tupinambá ocorreu junto ao processo de resgate étnico. Insatisfeitos com o processo demarcatório, iniciaram em 2004 a retomada de terras, iniciativas para recuperar áreas tradicionalmente ocupadas por indígenas que estavam sob posse de não-indígenas. Apenas em 2025, durante a COP da Amazônia, o território Tupinambá foi homologado, cujo processo de formalização ainda em andamento.
Objetivos
Busca-se analisar as mudanças decorrentes das retomadas de terras, compreendendo as relações entre ocupação territorial, medidas de adaptação às mudanças climáticas e ambientais e a saúde mental comunitária.
Metodologia
Foram entrevistadas 11 pessoas, abrangendo moradores da comunidade e do seu entorno. O diário de campo e a observação participante foram outras ferramentas de produção de dados. Os primeiros resultados de análise são aqui apresentados.
Resultados e Discussão
As retomadas Tupinambá vêm permitindo a recuperação territorial. O combate ao desmatamento, à prática da caça esportiva e à captura ilegal de animais, ao longo das três últimas décadas, vem devolvendo a recuperação da fauna e da flora. Nascentes foram recobradas com a interrupção do desmatamento e do uso de produtos químicos para pesca, beneficiando o abastecimento de água potável e a recuperação da vazante dos rios. Um corredor ecológico foi criado, estabelecendo áreas permanentes de não cultivo agrícola nem de caça. O avanço agropecuário que vem substituindo a cabruca (sistema agroflorestal) foi contido, tal como a expansão da monocultura de eucalipto ao longo do sudoeste e do extremo sul do estado.
Com as retomadas cresce a ocupação pelos indígenas na região. O modo de organização aplicado, onde desmatamento se tornou proibido e outras medidas de preservação e manejo da terra repercutem na recomposição ambiental local. As áreas verdes estão recobertas e se regenerando, influenciando na questão climática e principalmente no retorno de animais.
Além da demarcação do território e sua ocupação, o cultivo do cacau ocupa grande parte das ocupações e preocupações locais quanto à subsistência. O aumento da demanda e as variações no preço do cacau tem mudado o cenário atual quanto ao cultivo. Esta realidade contrasta com a queda da produtividade do cacau, tendo nas mudanças climáticas importante causa, com as intempéries e as variações do clima, ou mesmo com a chegada de novas pragas. Diferentes técnicas de cultivo são utilizadas, dos modos tradicionais ao manejo químico, incluindo a inovação por meio da clonagem de plantas para aumentar a produção. No balanço dos Tupinambás, as variações de preço, da produção, das condições da terra e da quantidade de força produtiva, ainda apresentam vantagens, com retorno financeiro favorável, mesmo com menor produção e trabalho.
A maior presença de animais no território em busca de alimentação nos cultivos locais, principalmente nas roças de cacau, é um efeito atribuído ao desmatamento de árvores frutíferas nas matas, forçando-os a mudar de ambiente à procura de comida. As mudanças na fauna e na flora, seja por intervenção natural ou programada, tem avançado sobre a ocupação humana na Serra do Padeiro, demandando novas adaptações em seus modos de vida, ressoando diretamente na saúde mental comunitária.
Conclusões/Considerações Finais
A redistribuição de terras entre as famílias tem fomentado oportunidade de cultivo e subsistência, com melhorias na saúde mental diante da possibilidade de resgate da dignidade de habitar, trabalhar e construir modos de vida melhor adaptados. A organização por meio de associações e cooperativas permitem alcançar políticas públicas para escoamento e comercialização da produção. A coesão social obtida a partir da luta favorece a reorganização social, política e espiritual da comunidade, influenciando diretamente no pertencimento e na saúde mental comunitária.
Quanto ao diálogo interétnico, o termo mais apropriado para abordar o tema das mudanças climáticas foi “mudanças no tempo” e “mudanças no clima”. Ao falar em meio ambiente, são os elementos da natureza (Sol, chuva, vento, terra) quem mais permeiam o pensamento e a realidade local. A mudança climática muitas vezes é vista a partir da alteração nesses elementos ou mesmo de sua combinação, outras vezes é identificada sob aspectos espirituais ligado ao fim dos tempos. Outras fontes de energia ditas “sustentáveis” ainda pouco se aplicam na realidade local, mas tem ganho interesse, se tornando possibilidade futura e próxima.
SAÚDE MENTAL EM CONTEXTO DE ESTIAGEM EXTREMA NA AMAZÔNIA: WEBINÁRIOS COMO FERRAMENTA DE CUIDADOS
Comunicação Oral
1 Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas
Contextualização
A estiagem que atingiu o Amazonas entre 2024 e 2025, uma das mais severas da série histórica, ultrapassa a condição de evento climático extremo, configurando-se como expressão de processos socioambientais que operam de forma desigual nos territórios. A redução dos níveis dos rios comprometeu a mobilidade fluvial, isolou comunidades e tensionou as condições de vida. Esses efeitos atingiram mais intensamente populações ribeirinhas, indígenas, quilombolas e outras coletividades vulnerabilizadas, evidenciando o racismo ambiental como operador das desigualdades em saúde. Nesse contexto, o sofrimento psíquico se configura como produção situada, atravessada pela desestruturação dos modos de vida, restrição de acesso a bens essenciais e fragilização das redes de cuidado.
Descrição
Relato de experiência qualitativo, desenvolvido a partir de 04 encontros no modelo de webinários como ação de Educação Permanente em Saúde (EPS), envolvendo trabalhadores da RAPS no Amazonas, entre os meses de junho e agosto de 2024. A estratégia foi mobilizada diante de condições territoriais que restringiram o acesso e a organização do cuidado durante a estiagem, impactando deslocamentos, intensificando o isolamento de comunidades e tensionando o cuidado. Os encontros reuniram em torno de 50 trabalhadores por encontro, onde abordaram primeiros cuidados psicológicos, articulação entre serviços da RAPS, tecnologias leves e estratégias intersetoriais, buscando sustentar espaços de reflexão sobre o trabalho, a partir de respostas ancoradas nas experiências e nas condições concretas dos territórios.
Período de Realização
Foram realizados 04 webinários entre os meses de Junho a Agosto de 2024.
Objetivo
Analisar a realização de um ciclo de webinários como estratégia de Educação Permanente em Saúde (EPS) para o cuidado na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), mobilizada em resposta às condições socioambientais impostas pela estiagem extrema na Amazônia.
Resultados
Os webinários configuraram-se como dispositivo capaz de sustentar a qualificação do cuidado em saúde mental em cenário de condições territoriais adversas. A participação de trabalhadores de diferentes municípios, viabilizada por plataforma digital de universidade estadual parceira, ampliou o alcance da estratégia ao possibilitar presença simultânea de profissionais de distintos territórios. No entanto, a interação mediada predominantemente pelo chat limitou a troca direta entre participantes, restringindo a circulação de experiências e a construção dialógica do conhecimento. Embora amplie o acesso, essa mediação reproduz e reconfigura desigualdades nas formas de participação, marcadas por diferentes condições de conectividade e engajamento.
Dificuldades como interrupção de fluxos assistenciais e limitação de acesso aos cuidados em saúde não se configuram como eventos isolados, mas como efeitos de determinações estruturais que organizam o acesso, a conectividade e a própria produção do cuidado nos territórios amazônicos, incidindo na organização dos serviços e nas possibilidades concretas de participação. Como resultado principal, observou-se aproximação entre dispositivos da RAPS com o fortalecimento das tecnologias leves como mediações do cuidado.
Aprendizado e Análise Crítica
A EPS opera como dispositivo de sustentação do trabalho em contextos adversos e como produção coletiva de sentidos sobre o cuidado. Ao reconhecer que os desafios são estruturalmente produzidos, desloca a responsabilização individual e fortalece a construção coletiva e a qualificação do cuidado a partir das condições concretas do território, sustentando o trabalho vivo em ato.
Embora potentes, os webinários incidem predominantemente sobre a organização do trabalho, sem alterar as determinações estruturais que produzem o sofrimento. O cuidado se produz sob condicionantes territoriais marcados por desigualdades e precarização das condições de vida, configurando a estratégia como resposta situada em campo tensionado pela gestão da escassez. Nesse contexto, a EPS assume caráter político ao constituir-se como espaço de produção coletiva de sentidos e prática de resistência. Assim, a qualificação do cuidado não se apresenta como superação das limitações estruturais, mas como produção situada e contingente de possibilidades no tensionamento entre limites territoriais e a invenção cotidiana das práticas.
SOLASTALGIA, ECO-ANSIEDADE,...: UM VOCABULÁRIO NOVO PARA EMOÇÕES NOVAS?
Comunicação Oral
1 NISAM / ISC / UFBA
2 Harvard Medical School
Apresentação/Introdução
Apresentaremos uma reflexão teórica e crítica em relação a inovações conceituais emergidas recentemente na literatura internacional em resposta aos desafios postos pelo trabalho empírico na interface das problemáticas da saúde mental e das mudanças climáticas.
Objetivos
Alvejamos avaliar a adequação destes quadros teóricos aos propósitos da saúde (mental) coletiva e às realidades sociais, culturais, econômicas e políticas do Sul Global - e, em particular, do Brasil.
Metodologia
Partindo de uma leitura crítica de alguns dos principais textos teóricos que tratam dos conceitos de "solastalgia", "eco-ansiedade" e outros afins, assim como de umas poucas matérias significativas disponíveis online sobre essas temáticas, confrontaremos nossas análises com resultados de uma pesquisa qualitativa exploratória realizada em três localidades baianas, representativas de 3 biomas/ambientes diferentes (caatinga, mata atlântica, reserva florestal urbana).
Resultados e Discussão
"Solastalgia" é um conceito cunhado em 2007 pelo filósofo australiano Glenn Albrecht. Faz referência à angústia emocional experimentada por indivíduos que presenciam transformações no ambiente do lugar onde vivem, ao sentimento de impotência a respeito das mudanças climáticas globais e regionais, ou ainda a respostas psicológicas disruptivas em pessoas expostas à degradação ambiental. O termo é uma declinação de "nostalgia", no sentido que o lugar ou tempo de que se sente falta ainda está presente, embora esteja em curso de destruição.
Alguns estudos relacionam a solastalgia ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático, na medida em que ambos sofrimentos seriam consecutivos a desastres (físicos ou subjetivos) e se concentrariam em locais de maior exposição à degradação ambiental; o conceito seria vizinho do de “estresse pré-traumático”, proposto pelo psiquiatra francês Antoine Pelissolo.
A expressão "eco-ansiedade" é mais antiga, parecendo ter originado da jornalista Lisa Leff que, em artigo de 1990 no Washington Post, reportou as preocupações da população de uma região de litoral atlântico em relação à gestão da água, especialmente em termos de poluição e riscos de inundação. Segundo a matéria, "a eco-ansiedade tornou-se um mal nacional naquele ano".
Desde então - e especialmente na última década - a eco-ansiedade, enquanto expressão do senso comum, mas também como vocábulo especializado das disciplinas psi, tem se inserido no imaginário coletivo do Norte Global como expressão guarda-chuva em decorrência da frequência crescente de eventos climáticos extremos. Sofre de subteorização, não por acaso entrando em competição com diversos termos mais ou menos sinônimos: "luto ecológico", "esgotamento ecológico", "ansiedade climática", "melancolia do futuro", além da já citada "solastalgia". Já foi qualificada na mídia de “doença do século”, por remeter a patologias como depressão, ansiedade ou transtornos de humor vivenciados diante da consciência do colapso mundial em curso.
Infelizmente, face à profusão das definições, constata-se uma falta de trabalhos científicos que permitiriam de definir claramente a eco-ansiedade (ou seus quase-sinônimos) como conceitos operacionais. Isso, sem dúvida, ajuda a explicar o ceticismo que a menção de problemas de saúde mental ligados ao meio ambiente tem provocado em outros círculos, notadamente nas ciências sociais e, até mesmo, na clínica psi, campo do qual a maioria destas propostas conceituais tem emergido.
Conclusões/Considerações Finais
Da literatura acadêmica existente, pode-se concluir que a eco-ansiedade remete sem precisão a "uma ampla gama de emoções desafiadoras", como "medo crônico de desastres ambientais", "angústia ou ansiedade associada à degradação das condições de vida" ou "ansiedade diante da crise ecológica" (Coffey et al., 2021). O escopo dos estudos é geralmente bastante estreito, focando na população jovem e em países da Europa Ocidental ou da América do Norte. Raramente foram contempladas populações socioeconomicamente vulneráveis e/ou vítimas de injustiça/racismo ambiental. Há, porém, na literatura, pistas indicando quem seriam alguns dos grupos mais vulneráveis: jovens; pessoas diretamente atingidas na sua saúde física; desalojadas ou em risco de o ser; pesquisadores e ativistas das questões ecológicas; mas também mulheres e idosos interseccionalmente vulnerabilizados.
No entanto, a nosso ver, as principais críticas a serem feitas em relação às propostas teóricas examinadas vão em direção da individualização e psicologização do sofrimento. De fato, pensam a saúde mental essencialmente em termos de bem-estar psíquico, função de determinantes e competências individuais. Dificilmente permitem operacionalizar análises das condições sociais em transformação ou basear o planejamento de intervenções no nível comunitário ou de saúde pública.
Em conclusão, traremos extratos de dados empíricos brasileiros que vão no sentido destas conclusões por enfatizarem as dimensões políticas e econômicas do sofrimento social associado às mudanças climáticas.
Realização: