Programa - Comunicação Oral Curta - COC16.1 - Sofrer com a natureza: o desequilíbrio socioecológico e seus efeitos na saúde mental
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
A LIBERDADE DO PARQUE CONTRA O INFERNO DA CIDADE: RELACIONAR-SE COM A NATUREZA COMO EXERCÍCIO DE UMA SAÚDE BIOPSICOSSOCIAL
Comunicação Oral Curta
1 NISAM / ISC / UFBA
2 Harvard Medical School
3 AITSP
Apresentação/Introdução
A presente apresentação é fruto da análise de um dos três trabalhos de campo desenvolvidos na Bahia a partir de uma pesquisa multicêntrica denominada “Fronteiras de Adaptação em Sistemas Socioecológicos Vulneráveis”, dirigida por Eugene Richardson, da Medical School da Universidade de Harvard e sob a co-direção, no Brasil, de Mônica Nunes de Torrenté. Na Bahia, escolhemos os biomas da Caatinga e da Mata Atlântica, o primeiro estudado em uma pequena cidade do sertão, e o último observado a partir de uma reserva indígena e de um bairro periférico de uma metrópole, onde se situa um parque de preservação ambiental, que tem sofrido muitos processos de devastação ao longo de décadas. Esse texto fala desse último território e buscou analisar como a população que aí reside tem experienciado e significado as mudanças climáticas; como elas têm afetado a saúde das pessoas; como o parque, mas também as atividades da vida cotidiana, incluindo as atividades produtivas, ganham relevância nesta experiência; e quais formas de enfrentamento têm sido colocadas em ação de forma individual ou coletiva. Nesta apresentação, aprofundaremos em particular as questões que envolvem a saúde mental na sua relação com as mudanças climáticas e ambientais, contextualizando o que tem sido descrito como efeitos biopsicossociais destas mudanças.
Objetivos
A pesquisa tem como objetivo geral: “gerar e testar teorias sobre como os fatores políticos, econômicos, sociais e ecológicos moldam a compreensão das e as respostas às alterações climáticas em comunidades vulneráveis em diversos países”, incluindo Brasil, Estados Unidos e Sierra Leone.
Metodologia
A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética e foi realizada como um primeiro estudo exploratório com a realização de entrevistas com 20 sujeitos distintos pela raça/cor, gênero, idade, nível educacional, profissão e pelo fato de serem ou não ambientalistas. Esses indivíduos residem em diversas áreas do bairro, escolhidas pela diversidade sociogeográfica e produtiva – área de mariscagem, área de preservação do parque, área de implantação de reciclagem, área industrial, entre outras - com o objetivo de relacionar o conhecimento e a experiência das mudanças climáticas com características pessoais, mas, também, com as condições de habitabilidade com as quais essas pessoas se deparam.
Os dados obtidos foram analisados por meio da análise temática de conteúdo de Bardin, aprofundada por uma hermenêutica dialética crítica de Ricoeur e Minayo.
Resultados e Discussão
No que diz respeito à relação entre mudanças climáticas vividas e saúde mental, foram evidenciadas variações nas percepções, desde aquele/as que não viam nenhuma relação entre esses dois fenômenos e até recebiam essa questão com um certo estranhamento até aquele/as que estabeleciam uma relação clara e imediata entre ambos. Dentre esse/as último/as, as respostas são diversas e, muitas vezes, complementares. Sendo um território onde o parque ocupa um lugar identitário central, inclusive em termos de práticas culturais e religiosas de matriz afro-brasileira, mas também de seu usufruto como área de lazer, de geração de renda, de lutas, inclusive decoloniais de afirmação dos saberes do povo negro, além de ser reconhecido por muitos como fonte de equilíbrio socioambiental local, o adoecimento psíquico é visto quando as pessoas se encontram isoladas em suas casas, ou em espaços degradados e hostis da cidade (“Eu não me dou bem nesse inferno, desculpa o termo, que tá virando essa cidade assim. É totalmente fora de tudo que é natural, sabe?”) e são impedidas de terem contato com o parque. A natureza é vista como “um exercício mental muito bom”. Há também percepções biofísicas do adoecimento psíquico, provocado pelo consumo de alimentos com agrotóxicos, ou consequência do vírus da Covid-19, ele mesmo reconhecido como efeito de desequilíbrio ambiental. Existe uma visão ampliada do mal, através da ideia do “envenenamento da mãe Terra” que afeta até os “inquices” (divindades do Candomblé). Outros expressam efeitos do calor sobre os humores, provocando desconforto, mal de pânico, comportamentos grosseiros e outros ainda reconhecem efeitos de ansiedade e depressão pela redução dos meios de sobrevivência com a contaminação dos peixes e dos mariscos.
Conclusões/Considerações Finais
Compreende-se que, para atingir um estado de maior adaptação socioecológica, analisada a partir do conceito de fronteiras adaptativas, as pessoas entrevistadas reconhecem que é necessário reduzir vulnerabilidades e explorar oportunidades para que um sistema – social, econômico e natural – possa atingir um estado mais desejável diante das mudanças climáticas. Isso é visto através de ideias como “seguir as regras da natureza”, combater os interesses financeiros que secundarizam o valor da vida em prol do lucro e do mercado, impedir a especulação imobiliária na cidade e a poluição industrial no território e fortalecer os movimentos sociais em torno e em prol do Parque.
ANÁLISE ESPACIAL DA RESILIÊNCIA, DESFECHOS EM SAÚDE MENTAL E AUTOAVALIAÇÃO DA SAÚDE EM ADOLESCENTES E ADULTOS EMERGENTES EM BRUMADINHO APÓS O ROMPIMENTO DE BARRAGEM
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ MINAS
2 FIOCRUZ MINAS; UFMG
Apresentação/Introdução
Os níveis de saúde mental das populações podem ser influenciados por fatores de risco e de proteção presentes nos territórios, os quais condicionam a saúde das populações que neles vivem. A ocorrência de desastres socioambientais pode resultar em riscos e efeitos adversos à saúde dos residentes nos territórios atingidos. A resiliência é um processo dinâmico que envolve recursos psicológicos, biológicos, sociais, culturais e do ambiente natural que asseguram o bem-estar. Entender a dinâmica da resiliência pode contribuir para a prevenção e promoção da saúde mental de populações expostas a desastres.
Objetivos
Analisar a distribuição e as associações espaciais entre os níveis de resiliência, de sintomas de depressão e de ansiedade e da autoavaliação da saúde em adolescentes e adultos emergentes residentes no município de Brumadinho (MG), em 2021, após o rompimento da barragem de rejeitos de mineração.
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratório transversal, conduzido na linha de base da coorte prospectiva do Projeto Saúde Brumadinho, com residentes no município de Brumadinho (MG), em 2021. Foram utilizadas as escalas Brief Resilience Scale (BRS), para mensurar os níveis de resiliência; a Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7), para o rastreio dos sintomas de ansiedade; e a Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9), para o rastreio dos sintomas de depressão. A autoavaliação da saúde foi analisada por meio do autorrelato dos participantes, com base em inquérito domiciliar. A amostra incluiu 852 adolescentes e adultos emergentes, de 12 a 29 anos de idade, residentes no território. Os escores contínuos das escalas foram utilizados, sendo mapeados os escores medianos. Para a autoavaliação da saúde, foram calculadas as prevalências de respostas Boa/Muito Boa e Regular/Ruim/Muito Ruim. As estimativas foram feitas ao nível dos setores censitários no município, e todas as análises consideraram os pesos amostrais e o efeito de desenho do estudo. As estimativas foram realizadas no software estatístico R. Os mapas temáticos do tipo coroplético foram construídos utilizando o software QGIS (Quantum Geographic Information System). Os índices de Moran univariado e bivariado foram calculados no software GeoDa.
Resultados e Discussão
Houve correlação espacial fraca para cada variável de análise, com destaque para alguns setores censitários no município. A análise espacial bivariada indicou associação global fraca entre resiliência e sintomas depressivos (I = 0,041) e praticamente nula com sintomas de ansiedade (I = 0,003). Apesar disso, foram identificados setores com índices significativos do tipo alto-alto (maior resiliência associada a maiores níveis de sintomas) e baixo-baixo, além de locais de transição (alto-baixo e baixo-alto). A maioria dos setores não apresentou associação espacial significativa, sugerindo ausência de clusters espaciais dos desfechos analisados nos setores censitários. A análise bivariada evidenciou associação espacial global fraca entre resiliência e autoavaliação de saúde, tanto para saúde boa/muito boa (I = -0,034) quanto para regular/ruim/muito ruim (I = 0,034). Foram identificados alguns setores com discreta presença de associação alto-alto e baixo-baixo. A maioria dos setores não apresentou padrão espacial significativo, sugerindo ausência de clusters espaciais de associação consistente entre resiliência e autoavaliação de saúde. De modo geral, as análises bivariadas evidenciaram autocorrelação espacial global fraca ou praticamente inexistente entre resiliência e os desfechos em saúde mental e autoavaliação de saúde. Embora tenham sido identificados setores pontuais com associações significativas, não houve evidências de padrões consistentes ou bolsões espaciais no território. Esses achados sugerem que a relação entre resiliência e os desfechos investigados não se distribui de forma espacialmente consistente, indicando a possível influência de fatores contextuais e individuais não captados ao nível de setor censitário.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que, mesmo que a resiliência seja um fator relevante para a saúde mental, sua relação com sintomas e autoavaliação de saúde não apresenta padrão espacial consistente no território analisado. A ausência de clusters espaciais, aliada à presença de setores isolados significativos, sugere que essa associação é complexa e possivelmente influenciada por fatores individuais e/ou contextuais no nível intra-setores censitários. Assim, as investigações devem considerar as especificidades locais, em vez de pressupor uma distribuição espacial homogênea desses fenômenos.
DESENCONTROS E DISPUTAS ENTRE MODELOS DE CUIDADO: SAÚDE MENTAL, TERRITÓRIO E ATENÇÃO BÁSICA EM COMUNIDADES TRADICIONAIS.
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Contextualização
Este trabalho sistematiza a experiência desenvolvida em um território pesqueiro no litoral de Sergipe, no âmbito das ações do Observatório Popular das Violências e pela Vida de Mulheres de Comunidades Tradicionais (OPopVida). A iniciativa articula oficinas de saúde com mulheres de comunidades tradicionais e a análise das tensões entre essas mulheres e a Unidade Básica de Saúde (UBS) local. Interessa compreender como modos de vida, transformações socioambientais e sofrimento psíquico se cruzam e produzem afastamentos em relação ao cuidado ofertado.
Descrição
Neste texto, analisam-se os desencontros entre os modos de cuidado produzidos no território e o modelo institucional da Atenção Primária, especialmente no que diz respeito à saúde mental das mulheres. A visita à UBS incluiu diálogo com a coordenadora da equipe de Saúde da Família e permitiu acompanhar, de forma situada, fluxos de atendimento, demandas frequentes e limites do serviço. Para as mulheres da pesca, o cuidado se organiza, em grande parte, em torno da consulta médica. A equipe da UBS aponta baixa adesão a ações preventivas, como o exame citopatológico. Embora isso seja associado à falta de informação, as falas das mulheres indicam desconfiança e experiências anteriores pouco acolhedoras, além de uma busca pelo serviço quando o sofrimento já está intensificado. Demandas relacionadas à saúde mental e à violência contra a mulher aparecem de forma indireta, marcadas pelo receio de exposição. Em um território pequeno, a proximidade entre profissionais e usuárias é ambígua: facilita o reconhecimento, mas pode dificultar a fala. Em situações mais graves, o cuidado frequentemente não passa pela UBS e segue direto para a urgência. O acesso também é atravessado por dinâmicas políticas locais, que interferem na relação com o serviço.
Período de Realização
Tratou-se de uma pesquisa-intervenção orientada pela educação popular em saúde, com nove encontros realizados na comunidade entre novembro de 2024 e novembro de 2025, incluindo visita à UBS e momentos de interlocução com os serviços.
Objetivo
As Oficinas de Saúde Popular tiveram como objetivo fortalecer a autonomia das mulheres no cuidado em saúde, a partir da valorização dos saberes locais, da qualificação de práticas já existentes e da ampliação do conhecimento sobre o SUS. Também buscaram identificar fragilidades no acesso à rede, visando a construção de estratégias coletivas de aproximação.
Resultados
O trabalho das pescadoras artesanais, filetadeiras de camarão e marisqueiras aparece, nas falas institucionais, associado ao adoecimento ou à necessidade de substituição dessa atividade, sem considerar sua centralidade econômica, cultural e identitária. Ao mesmo tempo, a organização do trabalho na Atenção Primária, orientada por metas e indicadores, reduz o tempo para ações coletivas, educação em saúde e presença no território. Nas Oficinas de Saúde Popular, o sofrimento psíquico aparece fortemente ligado às condições de vida, ao trabalho e às mudanças ambientais que afetam o território. A degradação das áreas de pesca e mariscagem, a instabilidade do trabalho e as desigualdades de gênero estão no centro dessas experiências. A noção de corpo-território ajuda a sustentar essa compreensão, indicando que não há separação entre saúde mental e condições de existência.
Aprendizado e Análise Crítica
Como aprendizado, a experiência indica que os desencontros entre serviço e comunidade expressam disputas sobre o cuidado e a própria sustentação da vida. O modelo biomédico, centrado na resposta individual, mostra limites frente a essas realidades. Mais do que ampliar o acesso, trata-se de produzir vínculo e abrir espaços de diálogo. A experiência aponta para a importância de articular clínica ampliada, determinação social da saúde e justiça ambiental como caminhos para o cuidado em territórios tradicionais.
DO MASSACRE DO VERDE AO “VERDE” COMO INVASÃO: O TRAUMA ECOPSICOPOLÍTICO E A FUGA DOS BICHOS
Comunicação Oral Curta
1 ISC / UFBA
2 NISAM / ISC / UFBA
3 Harvard Medical School
Apresentação/Introdução
O presente trabalho inscreve-se na pesquisa intitulada “Fronteiras de Adaptação em Sistemas Socioecológicos Vulneráveis”, dirigida por Eugene Richardson, da Medical School da Universidade de Harvard e sob a co-direção, no Brasil, da primeira autora., No Brasil, estudamos biomas da caatinga e da mata atlântica, situados em três áreas da Bahia: uma urbana periférica, uma reserva indígena e uma área rural. Essa apresentação quis analisar um paradoxo anunciado já no momento de pré-campo referido a um dos três casos que estudamos. Definimo-lo como um caso sociopolíticoecológico: ele ocorre no sertão brasileiro, em uma pequena cidade que tem a caatinga como bioma e que, há décadas, convive com o fenômeno da seca climática, mas que, recentemente, foi palco da implantação de inovações tecnológicas - hélices eólicas e placas fotovoltaicas- visando à geração de energia a partir de fontes renováveis naturais -a chamada "energia verde", de propriedade de uma empresa estrangeira. Sabendo-se que a cidade tem sofrido recorrentes queimadas da mata, agravadas pelas mudanças climáticas, imaginava-se que a energia limpa recém-implantada na sua circunscrição geográfica viesse aportar benefícios ambientais e nas condições de vida das pessoas. Curiosamente, os relatos descrevem efeitos adversos e paradoxais que refreiam o frisson inaugural. Bichos nervosos e pessoas insones pelo barulho invisível das hélices são narrativas que contrastam com e comprometem as promessas feitas. Meninas com bebês sem pai no ventre são a dívida deixada por operários que passaram pela cidade nas temporadas de instalação dos equipamentos, levando consigo paixões adolescentes por forasteiros e o desejo de uma vida melhor em meio à aridez daquelas terras.
Objetivos
Gerar e testar teorias sobre como os fatores políticos, econômicos, sociais e ecológicos moldam a compreensão das e as respostas às alterações climáticas em comunidades vulneráveis em diversos países
Metodologia
Foi realizado um estudo de caso exploratório para investigar a questão socioambiental que se delineava no paradoxo que expusemos. Para isso, percorremos diversas regiões da cidade (centro e zona rural) e realizamos entrevistas em profundidade com 15 moradore/as, escolhido/as por amostra intencional, observando diversidade de gênero, raça, idade, profissão, classe social e residência em área urbana e rural. As entrevistas realizadas denotaram um grau de saturação das informações com relação às temáticas que investigávamos em torno das mudanças climáticas (MC): 1) Saber e experiência acerca de MC (incluindo o valor atribuído à natureza); 2) Causas das MC (incluindo questões sobre atividades extrativistas, racismo ambiental e injustiça social); 3) Impactos gerais e na saúde das MC; 4) Adaptação (enfrentamentos concretos e possíveis, adaptações pessoais e nos métodos de produção, ativismo e participação social, medidas de proteção do meio ambiente).
As entrevistas foram gravadas e transcritas, após leitura e assinatura dos termos de consentimento informado, ratificados por parecer do CEP, e os dados obtidos foram codificados no software Dedoose por dois pesquisadores e analisados por meio da análise temática de conteúdo, aprofundada por uma hermenêutica dialética crítica.
Resultados e Discussão
Nesta análise, adotamos o conceito de “fronteira adaptativa” (Preston; Dow; Berkhout, 2013) para precisar que existem possibilidades, mas também limites, quando se buscam reduzir vulnerabilidades e explorar oportunidades para que um sistema – social, econômico, natural e outros – possa atingir um estado mais desejável diante das mudanças climáticas, ou seja, para atingir o estado de adaptação. No caso em análise, essa fronteira adaptativa era desafiada pelos conflitos de interesse que evidenciaram tramas políticas, relações de poder, negociatas econômicas, grilagem de terra e devastação ambiental que denunciavam o caráter neocolonial manifestado pelo capitalismo da energia verde na região.
Dessa análise, apresentamos a relação entre os efeitos ecossociopolíticos dessa mercantilização sobre a experiência vivida dos moradores em torno da invasão da terra e da fuga dos bichos. Propomos o conceito de trauma ecopsicopolítico que revela as fraturas ambiental e colonial encarnadas em corpos ecoorgânicos, provocadas por sequências de perdas materiais e simbólicas associadas ao sentimento de impotência diante de lutas travadas em um campo desequilibrado de forças. Como antídoto, movimentos de resistência foram organizados com propostas socioecológicas alternativas, recurso ao Ministério Público e manifestações populares.
Conclusões/Considerações Finais
Saberes locais, populares, advogam o respeito aos moradores e à natureza do lugar, àqueles que defendiam a preservação da riqueza da serra e dos seus habitantes como uma defesa do bem-viver, do convívio harmonioso com águas, frutos, árvores, bichos, garantindo condições de saúde e de mitigação do processo de aquecimento climático local. O conceito fronteiras adaptativas é analisado à luz da relação fronteiras/limites de Nego Bispo.
EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS NO AMAZONAS E OS IMPACTOS NA SAÚDE MENTAL DAS MULHERES: O QUE REVELAM OS PORTAIS DE NOTÍCIAS LOCAIS?
Comunicação Oral Curta
1 Ana Cecília Dolzany Araújo (ARAÚJO, Ana Cecília Dolzany); UEA
2 Munique Therense Costa de Morais Pontes (PONTES, Munique Therense Costa de Morais);UEA
Apresentação/Introdução
A literatura evidencia que a crise climática atinge mulheres e meninas de forma desproporcional e injusta, sobretudo às pertencentes a grupos marginalizados. Na Amazônia, mulheres ribeirinhas, indígenas e as que vivem em periferias urbanas fazem parte desse grupo. Para elas, a existência e a identidade estão intrinsecamente ligadas ao ambiente em que vivem, tornando a relação entre o corpo e o território inseparável para imaginar formas para viver em estado de proteção de direitos humanos. Além disso, evidencia-se que mulheres e meninas estão em maior vulnerabilidade a serem expostas a violências de gênero e violências sexuais durante emergências climáticas. Assim, os eventos climáticos extremos no Amazonas não representam apenas crises ambientais, mas cenários de vulnerabilidade a violações no corpo-território, desafiando as práticas de saúde mental para exercer cuidados em liberdade social, espiritual, econômica, reprodutiva, aprofundando desigualdades de gênero, raça, classe social, etnia, território, entre outras variáveis interseccionais que influenciam na experiência de ser mulher durante crises climáticas.
Objetivos
Este estudo buscou compreender como os eventos climáticos extremos ocorridos no Amazonas impactam na saúde mental das mulheres, a partir dos registros de portais de notícias amazonenses.
Metodologia
Trata-se de um estudo documental de abordagem qualitativa, tendo como local de pesquisa portais de notícias sediados no estado do Amazonas. Utilizou-se como técnica de coleta a análise documental, tendo como corpus os textos publicados nos referidos portais. Levou-se em consideração notícias publicadas no período entre 2020 e 2024, sendo a coleta de dados realizada entre outubro de 2025 e janeiro de 2026. A organização das publicações por portal de notícias considerou os seguintes itens: autor(a), ano de publicação, município onde ocorreu o evento extremo, o tipo de evento extremo, descrição dos impactos à saúde mental. Por utilizar dados de domínio público, dispensou-se a necessidade de submissão ao CEP.
Resultados e Discussão
Após a leitura integral de 19 publicações, apenas dez atenderam aos critérios estabelecidos na pesquisa e compuseram o corpus de análise. Embora as matérias selecionadas não mencionassem os impactos diretos das cheias e secas extremas na saúde mental das mulheres amazonenses, a análise do corpus permitiu identificar riscos recorrentes que podem comprometer o bem-estar psicossocial delas, a saber: o isolamento territorial, as restrições de mobilidade, os riscos de insegurança alimentar e hídrica, os deslocamentos forçados para o acesso a alimento, água e serviços de saúde. Estudos apontam que a ocorrência de cheias e secas extremas impactam desproporcionalmente na saúde mental das mulheres da Amazônia, com desfechos que se manifestam na forma de ansiedade e depressão, tristeza, medo e impotência, principalmente diante da impossibilidade de oferecer segurança alimentar, econômica e habitacional para si e para seus filhos, somado aos riscos de violências doméstica e sexual.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo revelou uma fissura entre a gravidade dos impactos descritos pela literatura e a invisibilização dessas subjetividades nas narrativas midiáticas locais. Torna-se urgente que a Saúde Coletiva, como campo científico e espaço de mobilização política, adote um olhar sensível às opressões que apagam modos de existência e ampliam o risco às vidas de mulheres na Região Norte. Reconhecer o colapso dos territórios é o primeiro passo para que as políticas públicas alcancem a realidade de quem enfrenta a fome, a perda da moradia, o isolamento e a exposição a riscos de violência impostos pelas cheias e secas extremas. É preciso assegurar que o direito à saúde integral (o que inclui, a saúde mental) das mulheres amazonenses não seja arrastado pelas águas do rio, ou seja sufocada pelas terras caídas, sem que todas o usufruam. Em tempos de crise climática, é imperativo que as mulheres sejam protagonistas de políticas que lhes dizem respeito. Para tanto, é preciso considerar as singularidades regionais, assegurando condições para o fortalecimento da resiliência e da capacidade de adaptação diante dos impactos dos eventos climáticos extremos.
EXTREMOS CLIMÁTICOS E IMPACTOS NA SAÚDE MENTAL : ENTRE O URBANO E O RURAL, AS CHAMADAS POLICRISES NA SAÚDE PÚBLICA.
Comunicação Oral Curta
1 USP
Apresentação/Introdução
A emergência climática global e a intensificação de eventos extremos têm evidenciado profundas iniquidades em saúde, afetando desproporcionalmente populações historicamente vulnerabilizadas. Nesse cenário, o conceito de "policrises" permite compreender fenômenos como o calor extremo e as inundações como indissociáveis dos determinantes sociais de saúde. Este trabalho deriva do projeto "Nexos urbanos de clima e saúde" e busca investigar a interface entre as crises ambientais e a saúde mental de jovens e lideranças em territórios populares, especificamente na comunidade do Jardim Pantanal, São Paulo, e na comunidade indígena Parque das Tribos, Manaus. Partindo da premissa de que a resposta a esses desafios exige o fortalecimento da participação social, este estudo problematiza a sobrecarga física e psíquica causada pelos eventos climáticos recentes nos territórios de estudo.
Objetivos
O objetivo geral é contribuir para o estudo integrado dos extremos climáticos (calor e água) e seus impactos na saúde mental de jovens em territórios vulneráveis. Especificamente, busca-se:
Investigar a prevalência de sofrimento psicossocial e transtornos mentais associados a eventos climáticos extremos em jovens
Analisar como jovens lideranças e ativistas elaboram suas práticas de resistência e enfrentamento diante da ausência de políticas públicas eficazes.
Analisar como a literatura acadêmica e organizações de saúde abordam a crise climática em territórios vulneráveis
Criar um mapa de vulnerabilidade social nos territórios e a partir disso, investigar também o território como vertente interseccional e como a localidade do urbano para o rural é atingido pelos eventos climáticos e os distintos (ou não distintos) impactos atingem a população local
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de abordagem mista e participativa, fundamentada nos princípios da Ciência Cidadã e da História Oral.
Serão realizadas entrevistas abertas e oficinas de história oral com moradores, lideranças comunitárias, ativistas locais O roteiro de entrevistas foca nas percepções socioterritoriais, na análise dos impactos climáticos sob a saúde física e mental da população e na relação estabelecida entre a comunidade e o Estado em contextos de crise. Também será utilizado a metodologia de pesquisa Ciência Cidadã para o engajamento e analise conjunta da comunidade durante todo o processo da pesquisa. Os dados serão analisados sob a luz de referenciais teóricos críticos como a interseccionalidade (Crenshaw; Collins), a necropolítica (Mbembe) e a decolonialidade da saúde planetária (Nego Bispo; Fanon).
Resultados e Discussão
Espera-se evidenciar que a exposição contínua a extremos hídricos e térmicos atua como um potente estressor psicossocial, gerando quadros de ansiedade e estresse pós-traumático agravados pela injustiça climática. Além disso, pretende-se mapear como o ativismo juvenil, embora fundamental para a resiliência comunitária, gera desgastes na saúde mental desses sujeitos devido à responsabilização por problemas estruturais. Por fim, o projeto visa consolidar um repositório virtual compartilhado entre a academia e as comunidades para salvaguardar esses saberes e memórias.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo reforça a necessidade de descolonizar as práticas de saúde pública e planetária, reconhecendo o saber ancestral e a agência das periferias. Conclui-se que o cuidado em saúde mental para jovens ativistas deve ser pautado pela garantia de direitos e dignidade humana, superando a lógica neoliberal que romantiza a sobrevivência comunitária em detrimento do dever estatal de proteção social. Também contribuir para o avanço de estudos sobre os extremos climáticos e a efetivação da justiça climática em territórios vulneráveis.
Realização: