Programa - Comunicação Oral - CO16.2 - Mudanças climáticas: evidências qualitativas, enfrentamentos, educação
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
A CORPORIFICAÇÃO DO CAPITALOCENO NA VIDA DE MULHERES PROFISSIONAIS DE SAÚDE
Comunicação Oral
1 USP
Apresentação/Introdução
Esta proposição se inscreve a partir de discussões que visam questionar o que o “Antropoceno” - enquanto estreia de um outro tempo no mundo (Castro; Saldanha; Danowski, 2022), significa em um contexto de dinâmica laboral cotidiana, e, como esta nova experiência de temporalidade se faz visível na vida e no corpo de mulheres trabalhadoras da área da saúde em contextos urbanos. Para aproximar ao contexto da pesquisa, a opção pelo termo capitaloceno, se dá, pela nossa concordância e aderência cotidiana e ininterrupta na prática do capitalismo; devido aos dados produzidos em 12 meses de campo etnográfico com profissionais liberais (pessoas jurídicas) em uma sociedade saturada de receituários neoliberais; e, a partir do legado teórico de Donna Haraway, o emprego de capitaloceno permite pensar que esta é uma época feita de maneira relacional, com mais braços e patas e conexões do que costuma ser visto. Esse trabalho é um experimento que busca refletir a partir de chaves analíticas (a corporificação, o cotidiano, o trabalho, as redes mais-que-humanas) como dispositivos de sobrevivência – ou destruição, nessa nova era geossocial nomeada Capitaloceno.
Objetivos
Compreender como o capitaloceno se corporifica na vida de três mulheres, profissionais de educação física (PEFs).
Metodologia
Este é um estudo etnográfico realizado com três mulheres cisgêneras PEFs no período de 12 meses, entre 2022 e 2023 em São Paulo (SP). O campo foi realizado em espaços de trabalho e lazer.
Participaram desta pesquisa Fusa, Colcheia e Semibreve. Semibreve, 31 anos, uma mulher preta, professora de beach tennis e personal trainer, trabalha de segunda à domingo, pessoa jurídica (PJ). Colcheia, 38 anos, branca, personal em uma instituição esportiva, trabalha com carteira assinada e encaixa alunas de personal e aulas de tênis de quadra (PJ). A terceira profissional, Fusa, é uma mulher amarela, produz conteúdos audiovisuais relacionados ao tema “saúde e qualidade de vida” em uma startup.
Resultados e Discussão
8 cenas etnográficas foram selecionadas, analisadas e detalhadas. Neste trabalho de síntese, as duas primeiras cenas: “O gato morto e a motivação” e “O energético, a anfetamina e a alimentação (ou a falta de-)” utilizo para tecer discussões com Tim Ingold (2012), Nancy Krieger (2021), Csordas (1990; 2013), Donna Haraway (2009; 2023) e Tsing (2019) sobre corpo, redes mais-que-humanas e corporificação.
Outras 6 cenas, foram divididas em 2 sessões. A primeira sessão “Alianças possíveis e Felicidade obrigatória”, descrevo detalhadamente: Cena 1 - “As pessoas não tão pagando pra me ver triste”; 2: “Nossa profissão (você) precisa ser feliz”; 3: A aula de canto lírico; 4: “Fingir felicidade todos os dias, cansa”. Na sessão 2, nomeada “Tornar tudo recurso-retorno-consumo”, foram selecionadas: Cena 1: “Esse povo não sabe ganhar dinheiro” e 2: O carro e o leite das tetas.
Dois elementos permitem visualizar a corporificação do capitaloceno e atravessam, quase na mesma medida, todas as interlocutoras: 1) as formas contemporâneas de trabalho e a superidentificação com o sistema capitalista e 2) a produção de emoções e sentimentos como “felicidade” no contexto de cansaço e exaustão.
O capitaloceno se faz visível quando notamos e unimos modos de produção econômica com modos de produção de corpos e subjetividades, aparelhos de produção de riqueza, consumo e distribuição (de renda, de acesso, de possibilidades) e colocamos substâncias, coisas, pessoas, ficções políticas tecnossomáticas (Preciado, 2023), para existir em conjunto, ainda que as condições sejam de evidente exaustão. Palpavelmente, nota-se a corporificação do capitaloceno na lida cotidiana dessas mulheres: na administração de químico-fármacos, exaustão laboral, supressão de emoções e sentimentos, hiperprodutividade e hiper-disciplinarização dos próprios corpos para responder e, ao mesmo tempo, ser efeito deste contexto de precarização do trabalho e empresarização de si.
Conclusões/Considerações Finais
Refletimos sobre o fato de que o Capitaloceno não é uma questão distante (geológica ou catastrófica). Ele se faz visível, se inscreve e se corporifica no dia-a-dia na fabricação e destruição de organismos humanos e não humanos - inseridos em uma megalópole, submersos em rotinas que consomem energias e que permitem a extração, domesticação, morte, transformação, destruição, recuperação (nunca total).
Podemos concluir que não se trata de um devir-com multiespécie que permite o desenrolar de arranjos que podem contribuir para “salvar o planeta”, ou que as redes-mais-que humanas procuram contribuir para a habitabilidade da terra. Em realidade, observamos uma sequência de cenas que condensam ideias eventualmente contrastantes com o “adiar o fim do mundo”. Mergulhar no cotidiano destas mulheres ajuda a ver, de um lado, os efeitos multiplicados da era que vivemos, de seus regimes de trabalho e precariedade; do outro, as malhas ambíguas de viver nas ruínas sendo, como muitos de nós, profissionais “de luxo”, bem sucedides, no cotidiano do processo chamado aqui de capitaloceno.
AS INUNDAÇÕES DO VALE DO TAQUARI/RS: CONSIDERAÇÕES PARCIAIS DE UMA PESQUISA SOBRE O DIREITO À MORADIA E MORADIAS PROVISÓRIAS
Comunicação Oral
1 Universidade do Vale do Taquari - Univates
Apresentação/Introdução
Os eventos climáticos extremos afetam em diferentes escalas as cidades, com maiores consequências nas comunidades de áreas periféricas e de maior vulnerabilidade social. O sul do Brasil tem vivenciado sucessivos desastres nos últimos anos, principalmente com inundações e movimentos de massa. Em 2023 e 2024, o Vale do Taquari (VT/RS), que engloba 36 municípios na região central do Estado do Rio Grande do Sul, também registrou tais eventos, que afetaram diretamente inúmeras famílias, gerando cerca de 5 mil unidades inabitáveis no VT/RS. As famílias atingidas alojaram-se tanto em casas de familiares e amigos/as quanto em alojamentos organizados pelos municípios. A habitação pressupõe tanto um condicionante como um determinante de saúde, isto é, as condições de moradia operam como um espaço de reprodução social que, dependendo da sua qualidade e contexto, determina a possibilidade de saúde ou condiciona o adoecimento. A partir dessa perspectiva, o projeto de pesquisa “Da cidade à moradia - resiliência urbana frente à crise climática”, com fomento externo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), objetiva estabelecer diretrizes no tema da moradia no contexto de enfrentamento dos desastres climáticos na região do Vale do Taquari, com foco nos municípios mais atingidos na região: Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Lajeado, Muçum e Roca Sales. A pesquisa busca resgatar o tema do Direito à Cidade e à Moradia Digna, com objetivo de promover cidades resilientes, em direção aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas, sobretudo os objetivos 3 (Saúde e Bem-Estar), 11 (Cidades e comunidades sustentáveis) e 13 (Ação contra mudança climática e seus impactos).
Objetivos
Este trabalho busca apresentar os resultados parciais da segunda etapa da proposta.
Metodologia
A metodologia de trabalho é dividida em três etapas: (1) revisão integrativa na área de habitação e apoio psicossocial; (2) abordagem das estratégias utilizadas pelos municípios em relação ao enfrentamento dos desastres climáticos de 2023 e 2024, sob o aspecto habitacional nas comunidades periféricas e lindeiras ao rio. Para tanto, foram entrevistados gestores/as e/ou técnicos/as dos municípios para reconhecer essas estratégias, bem como compreender a organização dos alojamentos provisórios. Além disso, foi realizada a análise dos mapeamentos e dados produzidos pelo Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Vale do Taquari - Univates, em parceria com o Governo do Estado do Rio Grande do Sul; (3) elaboração das diretrizes para abrigos provisórios e novas implementações de conjuntos habitacionais, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento urbano sustentável. O trabalho encontra-se na finalização da etapa 1 e na estruturação dos dados das etapas 2 e 3. Foram realizadas até o momento seis entrevistas com gestores dos municípios e doze com profissionais psicólogos e assistentes sociais que atuaram nos alojamentos durante as inundações de 2023 e/ou 2024.
Resultados e Discussão
Alguns pontos que chamam atenção: (1) Identifica-se uma discordância entre o olhar dos gestores e dos/as profissionais técnicos/as quanto à organização dos alojamentos e critérios para defini-los, podendo-se inferir que a organização/plano de ação do plano de contingência está muitas vezes restrito às gestões, não estando claro para os/as trabalhadores/as quais suas atribuições; (2) Embora seja uma estratégia de operacionalização do princípio da integralidade, a intersetorialidade é apontada enquanto uma fragilidade pelos/as profissionais entrevistados/as. Os resultados apontam para uma necessidade ainda maior de articulação intersetorial durante um desastre, o que não foi vivenciado pelos/as participantes da pesquisa; (3) O vínculo das famílias com o território de risco opera enquanto um dificultador para uma educação de prevenção, produzindo, em alguns casos, agravos nas condições de saúde das pessoas atingidas. A pesquisa se revela com uma abordagem inovadora na temática, ao articular as áreas da Arquitetura e Urbanismo e da Psicologia, permitindo pensar a cidade para as pessoas num contexto pós-desastre.
Conclusões/Considerações Finais
Espera-se provocar transformações no modo que atualmente é enfrentada a problemática da Habitação de Interesse Social, a partir do entendimento e reconhecimento das áreas suscetíveis à ocorrência de desastres na região foco, associada aos impactos das mudanças climáticas e a necessidade da promoção de adaptação e cidades resilientes. Ao refletir essa problemática, é papel da Universidade estar atenta às transformações sociais e às questões que impactam no Planejamento e Gestão das Cidades. Os profissionais da Saúde, em interface com profissionais da Arquitetura e Urbanismo e do Direito, são imprescindíveis para pensar soluções e políticas públicas que possam mudar o quadro atual da qualidade de vida da população suscetível a inundações e com a infraestrutura urbana necessária a uma condição digna de vida.
CISTERNAS E SAÚDE: COMUNICAÇÃO, CIÊNCIA E PARTICIPAÇÃO SOCIAL DA JUVENTUDE NO FORTALECIMENTO DA CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO
Comunicação Oral
1 Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) e Universidade Federal da Bahia (UFBA)
2 Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia)
3 Articulação Semiárido Brasileiro - ASA
Contextualização
A região semiárida brasileira ocupa cerca de 15,5% do território nacional, com cerca de 1.427 municípios e 30 milhões de habitantes. Marcada pela escassez de água, secas prolongadas e intensificação das mudanças climáticas, enfrenta altos níveis de pobreza e insegurança alimentar.
Ao mesmo tempo, o Semiárido é um território diverso e rico culturalmente, com populações negras, indígenas e quilombolas, baseadas em modos de vida estreitos com a terra e a agricultura, embora expostas a significativa vulnerabilidade e estigmas.
Nesse cenário, destacam-se estratégias de convivência com o Semiárido, como o Programa Cisternas, coordenado pelo Governo Federal em parceria a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e outras organizações, que popularizou a cisterna de captação e armazenamento de água de chuva. O programa consolidou-se como estratégia de adaptação às mudanças climáticas, ampliando o acesso à água potável, fortalecendo a organização comunitária e contribuindo para a segurança alimentar.
Estudos indicam que o uso das cisternas está associado a melhorias nas condições de vida e saúde, com redução de doenças de veiculação hídrica, avanços na saúde materno-infantil e maior disponibilidade de alimentos, mesmo em períodos de seca (Filho et. al., 2025).
Descrição
O projeto “Água, saúde e tecnologias sociais: Programa Cisternas”, conduzido pelo Cidacs/Fiocruz Bahia, centro focado no estudo da saúde da população brasileira com bases em dados de registros administrativos, em parceria com a ASA e cinco organizações do Semiárido baiano (COFASPI, CEDASB, FATRES, IRPAA e MOC), busca produzir materiais de divulgação científica (DC) sobre os impactos das cisternas, feitos por jovens da região, para divulgação em suas comunidades e fortalecimento da política.
O trabalho está ancorado no engajamento público da ciência, uma abordagem inclusiva que promove o diálogo entre pesquisadores e comunidades em todas as etapas da pesquisa (Dos Anjos Fonseca et al., 2025). Esse modelo vai além dos dados em saúde, incorporando a experiência, narrativas e saberes locais como uma camada extra de conhecimentos que orienta políticas públicas mais sensíveis aos contextos do Semiárido. O modelo dialogou com Comunicação & Saúde, Estudos Decoloniais e a pedagogia libertadora de Paulo Freire.
Período de Realização
O projeto foi submetido em 2023 ao NIH, selecionado em 2024 e desenvolveu‑se em etapas de pesquisa, coconstrução e envolvimento de cinco jovens de comunidades do sertão baiano, entre 2024 e junho 2026. O engajamento público da ciência atravessa desde a formulação do projeto até o desdobramento com a ASA e organizações parceiras, apoiando‑se no estudo de caso publicado na revista Annals of Global Health.
Objetivo
Relatar a experiência do projeto “Água, saúde e tecnologias sociais: Programa Cisternas” na produção de DC por jovens do Semiárido baiano sobre os impactos das cisternas como estratégia de adaptação climática, na saúde, bem-estar e na convivência com o Semiárido.
Resultados
O projeto foi desenvolvido em etapas sequenciais e complementares. Inicialmente, realizou-se o diálogo com as organizações, mapeamento e seleção de jovens comunicadores populares do Semiárido baiano. Em seguida, promoveu-se uma oficina imersiva de comunicação em Feira de Santana, planejada de forma dialógica entre pesquisadores do Cidacs, integrantes da ASA, das cinco organizações e das(os) jovens, voltada à troca de conhecimentos sobre cisternas, convivência com o Semiárido e DC para o planejamento coletivo dos materiais.
Realizam-se mentorias contínuas em que comunicadores de cada instituição participante auxiliam os jovens na produção dos materiais em seus territórios. Entre os produtos em desenvolvimento estão entrevistas, vídeos, episódio de podcast que serão divulgados em plataformas digitais e rádio, ampliando o acesso à informação. Está previsto um evento virtual no 2º semestre de troca dos resultados entre jovens comunicadores, comunidades e gestores.
Aprendizado e Análise Crítica
Tecnologias sociais como as cisternas desempenham papel fundamental na promoção de direitos, na redução de vulnerabilidades e na construção de futuros mais sustentáveis no Semiárido. Capacitar agentes, como os jovens comunicadores, para divulgar esses conhecimentos não só amplia o acesso a informações qualificadas e culturalmente contextualizadas, mas também fortalece a visibilidade do Programa e de seus impactos na saúde, bem-estar e na adaptação às mudanças climáticas.
Ao mesmo tempo, ao reconhecer o Semiárido como território de vida e não apenas de risco, o projeto assume que as cisternas não são apenas tecnologia de água, mas de cuidado, de fortalecimento de vínculos comunitários e de reparação de histórias prolongadas de vulnerabilidade, dialogando com temas de mudanças climáticas, modos de vida e bem-estar.
Nesse sentido, o projeto, ao aproximar ciência, comunidade e política pública para as novas gerações, reforça o protagonismo juvenil na DC como ferramenta para fortalecer políticas públicas no Semiárido.
FORMANDO PROFISSIONAIS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO: MÓDULO TEÓRICO DE SAÚDE PLANETÁRIA EM RESIDÊNCIA DE MEDICINA DE FAMÍLIA COMUNIDADE
Comunicação Oral
1 ESAP/SEMSA
Contextualização
A Saúde Planetária emerge como um campo essencial para a Saúde Pública, caracterizando-se como um movimento global e interdisciplinar que investiga as complexas relações entre a saúde dos sistemas naturais do nosso planeta e a saúde da civilização humana, pois tem como premissa a ideia de que uma está intrinsecamente ligada à outra, e que a degradação ambiental pode desencadear doenças e problemas de saúde (Moraes Filho; Tavares, 2023). Nesse contexto, onde temos populações em maior estado de vulnerabilidade, seja em áreas urbanas ou rurais, Zandavalli, Floss e Barros (2020) refletem que a equidade e a saúde planetária estão interligadas, uma vez que as populações mais vulneráveis são as mais afetadas pelas mudanças climáticas.
O Médico de Família e Comunidade, especialista que aborda as pessoas e suas famílias em toda sua integralidade (Gusso, 2019), desempenha um papel central no cuidado dessas populações em tempos de crise climática. Sua atuação transcende a clínica, configurando-se como um ato de justiça social e ambiental. Assim, é necessário que sua formação abarque esse campo ainda pouco comentado no meio médico.
Descrição
O módulo foi estruturado em duas aulas principais: a primeira focada em compreender os principais conceitos da Saúde Planetária e suas implicações para a saúde humana e para a prática da Medicina de Família e Comunidade; a segunda, direcionada para discutir a saúde planetária no contexto da Medicina de Família e Comunidade amazonense, pensando em estratégias práticas, advocacy em saúde e construção de planos de contingência territorial para a realidade amazônica.
Período de Realização
As atividades foram desenvolvidas durante o módulo teórico de Saúde Planetária realizado na residência de Medicina de Família e Comunidade (ESAP/SEMSA) em Manaus, em 2025.
Objetivo
O presente relato tem como objetivo apresentar a experiência de formação teórica em Saúde Planetária, visando capacitar residentes para identificar e manejar agravos decorrentes do estresse climático e desenvolver planos de ação nos territórios de atuação da Atenção Primária à Saúde (APS).
Resultados
Dentre as atividades propostas, temos algumas, como: os residentes elaboraram mapas de seus Distritos de Saúde, sinalizando ameaças, como deslizamentos e ondas de calor; houve discussão sobre o manejo do estresse térmico na APS, incluindo critérios de suspeição e medidas imediatas para evitar a evolução para insolação; além disso também foi elaborado um plano de contingência, pelos residentes, para situações hipotéticas, estruturando planos de abordagem de 72 horas até 8 semanas pós-evento.
A partir da aula, foi possível identificar demandas epidemiológicas que podem emergir devido aos extremos climáticos, como o aumento de internações por doenças respiratórias, devido a queimadas, surtos de leptospirose após-enchente e a desidratação em pacientes crônicos sob calor extremo.
Aprendizado e Análise Crítica
O módulo evidenciou que o Médico de Família e Comunidade é um "ser político", importante ator na mitigação e adaptação climática. Aprendeu-se que a crise climática não é apenas um problema ambiental, mas um determinante social que exacerba iniquidades no acesso a moradias e segurança hídrica e alimentar. Embora a Atenção Primária à Saúde seja a linha de frente, há uma pressão sobre equipes que ainda carecem de infraestrutura adaptada para eventos extremos. Promover hábitos de vida mais sustentáveis surge como estratégia que beneficia simultaneamente o paciente e o planeta.
SISTEMA ALIMENTAR EM CRISE: USO DE JOGO COMO MÉTODO PEDAGÓGICO PARA DISCUTIR MUDANÇAS CLIMÁTICAS E ALIMENTAÇÃO.
Comunicação Oral
1 UFBA/IMS
Contextualização
O Brasil é o 4° maior produtor de alimentos no mundo, com métodos de produção atual ligados à grande demanda de commodities e exportação. Por se utilizar de grandes latifúndios, este método proporciona grandes áreas de desmatamento e redução da biodiversidade, sendo assim um causador do aumento de mudanças climáticas, que afetam diretamente o cotidiano. Fazendo com que, os sistemas alimentares sejam causadores e consequência das mudanças climáticas.
Descrição
A atividade foi conduzida em sala de aula no componente curricular Nutrição e Saúde Coletiva do curso de Nutrição na UFBA/IMS. A aula foi dividida em dois momentos, inicialmente a parte teórica em que foi abordado as temáticas Sistemas Alimentares e Mudanças Climáticas. No segundo momento foi dividida a turma em quatro grupos e foi conduzido um jogo pedagógico intitulado Sistema Alimentar em Crise. O jogo consistia em um deque de cartas de situação (processo do sistema alimentar, evento climático, impacto e resposta) além da carta missão que estavam divididas em 6 temáticas . Cada grupo deveria sortear algumas cartas de cada grupo situação e uma de missão, e a partir dessas cartas descrever a problemática interligando as situações sorteadas e a partir dessa análise responder o questionamento central da carta missão.
Período de Realização
30 de Março 2026
Objetivo
Provocar que os alunos identifiquem relações entre clima, produção e consumo, analisando de forma crítica, como os sistemas se relacionam com as mudanças climáticas e os impactos em diferentes atores, além de propostas de soluções.
Resultados
As cartas missões que foram sorteadas eram das seguintes temáticas: proposição de solução, desigualdade e justiça climática, atuação do nutricionista, políticas públicas e governança. O grupo que discutiu a proposição de soluções discutiu como a escassez de água causado principalmente pela contaminação por agrotóxicos e dejetos, esse problema interfere na produção de alimentos, reverberando no aumento do consumo de ultraprocessados e na redução da produção de alimentos, como estratégia o fortalecimento de estratégias de abastecimento como a confecção de cisternas, além do fortalecimento de culturas e sementes nativas que são mais adeptas a região além de fortalecer a biodiversidade. O grupo que trabalhou a temática de desigualdade e justiça climática trabalhou com o impacto das secas na produção e está ligada com o aumento dos preços e fortalece a insegurança alimentar, esse fatores se ligam diretamente ao processo de desigualdade, pois quem mais sofre com as crises climáticas diretas e indiretamente são as populações em vulnerabilidade. O grupo que trabalhou a atuação do nutricionista, desenvolveu a atividade de forma diferente, criou uma história ao literal de como se visualiza as mudanças climáticas no dia a dia, e como os nutricionistas devem se posicionar sendo agentes climáticos e agentes políticos dentro da sociedade. Por fim, o grupo de políticas públicas e governança, desenvolveu sobre o aumento das enchentes e como isso afeta reduzindo a produção de alimentos e a perda de alimentos in natura, nesse momento o sistemas alimentar é causa e consequência das mudanças climáticas, como alternativa os alunos discutem a importância do investimento maior na agricultura familiar, ou agricultura que busque proteger a terra.
Aprendizado e Análise Crítica
O sistema alimentar é vítima, mas também é causador das mudanças climáticas, no entanto, ficou nítido com o que foi trabalhado que nesse paradoxo, quem sofre mais são as pessoas em vulnerabilidade e pequenos produtores. Os grandes latifundiários detém poder político e financeiro que os fortalece em momentos de crise, diferente dos pequenos produtores que possuem pouco apoio e um investimento menor se comparado. Um ponto que foi bastante discutido, foi como os ultraprocessados se tornam a única alternativa para o aumento do preço dos alimentos e outras consequências das mudanças climáticas favorecendo o impacto da sindemia global, esse ponto atrelado a desigualdade fortalece a injustiça climática. Além disso, a utilização do jogo para a discussão da temática potencializa o senso crítico dos alunos, além de enriquecer a discussão. Por fim, os alunos demonstraram que compreenderam que a produção de alimentos está conectada ao desmatamento na Amazônia, ao aquecimento global, à economia de mercado e às desigualdades históricas do Brasil. A proposta de solução deles foca na soberania alimentar através do fortalecimento do local contra as pressões da indústria global de ultraprocessados.
TERRITÓRIO, SAÚDE E CRISE CLIMÁTICA EM UNIDADE DE CONSERVAÇÃO NA AMAZÔNIA
Comunicação Oral
1 UEA
Apresentação/Introdução
As Unidades de Conservação (UC) ocupam posição estratégica na Amazônia ao articular conservação ambiental, ordenamento territorial e mitigação das mudanças climáticas. Contudo, constituem também territórios marcados por profundas desigualdades socioambientais, vulnerabilidades estruturais e tensões na governança.
Objetivos
Este artigo analisa criticamente essas contradições a partir do estudo da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro, situada na região metropolitana de Manaus, evidenciando como os efeitos das mudanças climáticas se entrelaçam a processos históricos de desigualdade, precarização do acesso a direitos e fragilidade institucional.
Metodologia
A pesquisa adota abordagem qualitativa, baseada em trabalho de campo realizado desde 2021 na comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, envolvendo entrevistas com moradores, lideranças e profissionais de saúde, além de análise documental e dados secundários sobre clima, saúde e condições socioeconômicas. A investigação articula referenciais da justiça ambiental, das desigualdades territoriais e da abordagem das capacidades, permitindo compreender como riscos climáticos são socialmente produzidos e distribuídos de forma desigual.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que, embora as UC sejam frequentemente apresentadas como instrumentos de sustentabilidade, sua implementação não rompe com estruturas históricas de concentração fundiária, cidadania precária e dependência institucional. No Amazonas, existem 42 UC estaduais, mas apenas 15 possuem Contrato de Concessão de Direito Real de Uso, revelando a instabilidade jurídica que marca a relação das populações tradicionais com seus territórios. Na RDS do Rio Negro, a presença de cerca de 900 moradias irregulares, impulsionadas pela expansão urbana e pela especulação imobiliária após a construção da ponte sobre o Rio Negro, expõe a fragilidade da governança e a insuficiência das políticas de fiscalização e ordenamento territorial. Paralelamente, os dados demonstram a persistência de desigualdades estruturais: menos de 5% dos domicílios rurais possuem acesso a esgotamento sanitário adequado, e o rendimento domiciliar per capita médio no Amazonas gira em torno de R$ 965,00. A insegurança alimentar atinge 38,9% dos domicílios no estado, com maior incidência nas áreas rurais, evidenciando a precariedade das condições de vida em territórios protegidos. Tais vulnerabilidades são agravadas pela intensificação dos eventos climáticos extremos. A seca histórica de 2023, que levou o Rio Negro ao menor nível já registrado, comprometeu o transporte fluvial e o acesso a alimentos, água e serviços de saúde. No mesmo período, o aumento de queimadas, com cerca de 4 mil focos de calor em outubro, colocou Manaus entre as cidades com pior qualidade do ar no mundo, afetando diretamente a saúde das populações. Esses processos impactam profundamente os modos de vida ribeirinhos, alterando ciclos produtivos, reduzindo a pesca e a agricultura de subsistência e ampliando riscos sanitários relacionados à qualidade da água, doenças infecciosas e sofrimento psicossocial. No campo da saúde, observa-se a limitação da Atenção Primária em responder a esse cenário: a concentração dos serviços em uma única Unidade Básica de Saúde e a insuficiência de estratégias como unidades fluviais revelam um modelo inadequado às especificidades territoriais amazônicas. Argumenta-se que as UC configuram territórios paradoxais: ao mesmo tempo em que são fundamentais para a conservação ambiental, reproduzem desigualdades ao operar sob uma racionalidade que prioriza a regulação ambiental sem enfrentar as estruturas sociais que produzem vulnerabilidade. A governança dessas áreas permanece marcada por baixa participação efetiva das populações locais e por processos decisórios que frequentemente desconsideram saberes e práticas tradicionais.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a efetividade das UC depende da superação de uma abordagem estritamente conservacionista, demandando políticas intersetoriais que integrem saúde, ambiente e justiça social. É necessário reconhecer esses territórios como espaços vivos de disputa por direitos, nos quais a justiça climática e sanitária só pode ser alcançada mediante o fortalecimento da participação social, da autonomia territorial e da ampliação das capacidades das populações amazônicas. Sem enfrentar as bases estruturais da desigualdade, as UC tendem a reproduzir, sob novas formas, antigas assimetrias, limitando seu potencial como territórios de sustentabilidade e equidade.
Realização: