Programa - Comunicação Oral - CO10.1 - Emergências Climáticas e Racismo Ambiental em territórios Tradicionais
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ANÁLISE DA POSSÍVEL ASSOCIAÇÃO ENTRE QUEIMADAS E INTERNAÇÕES POR DOENÇAS RESPIRATÓRIAS E CARDIOVASCULARES NA REGIÃO GEOGRÁFICA IMEDIATA DE MIRADOR (MA)
Comunicação Oral
1 UFMA
Apresentação/Introdução
A relação entre queimadas e saúde pública tem despertado crescente interesse nos últimos anos, especialmente em regiões onde esses eventos ocorrem com maior frequência em determinados períodos do ano. Além dos impactos ambientais já conhecidos, as queimadas comprometem a qualidade do ar ao liberarem fumaça e material particulado, o que pode agravar diferentes problemas de saúde, com destaque para as doenças respiratórias e cardíacas.
No estado do Maranhão, esse cenário se torna ainda mais relevante devido à influência da sazonalidade climática sobre a ocorrência de queimadas. Durante os períodos de estiagem, a redução das chuvas, associada ao uso do fogo em determinadas práticas produtivas, favorece o aumento dos focos de calor. Nesse contexto, este estudo concentra-se na Região Geográfica Imediata de Mirador, composta por quatro municípios, no período de 2014 a 2024, buscando compreender como a ocorrência de queimadas pode estar associada aos agravos à saúde da população local.
Objetivos
Pretende-se por meio do presente trabalho analisar a possível relação entre a ocorrência de queimadas e as internações por doenças respiratórias e cardíacas na Região Geográfica Imediata do município de Mirador no estado do Maranhão, que abrange quatro municípios, no período de 2014 a 2024. Para isso, almeja-se identificar o comportamento temporal das queimadas ao longo do intervalo analisado, descrever a variação das internações hospitalares, investigar a existência de associação estatística entre essas variáveis e observar possíveis padrões sazonais que contribuam para uma melhor compreensão da dinâmica entre ambiente e saúde.
Metodologia
O estudo é do tipo ecológico, descritivo e indutivo, sendo desenvolvido na Região Geográfica Imediata de Mirador, no estado do Maranhão, abrangendo quatro municípios, no período de 2014 a 2024.
Foram utilizados dados de queimadas provenientes do BDQueimadas/INPE, considerando registros do satélite Aqua com potência radiativa do fogo (FRP ≥ 50 MW). As informações sobre internações hospitalares foram obtidas no SIH/DATASUS, contemplando internações por doenças respiratórias (CID-10: C34, J20, J40–J46) e por doenças cardiovasculares (CID-10: I01–I99).
A organização e análise dos dados envolveram a elaboração de mapas temáticos no software QGIS Desktop 3.40.7, também utilizou-se a linguagem de programação Python para o tratamento de dados e construção de gráficos. A partir desses procedimentos, buscou-se identificar padrões espaciais e temporais que contribuam para uma melhor compreensão sobre a presumível relação entre a ocorrência de queimadas e os agravos à saúde.
Resultados e Discussão
Os focos de queimadas apresentaram sazonalidade marcada ao longo do período analisado, com picos recorrentes nos meses de estiagem, sendo o mais expressivo registrado em torno de 2017–2018. As internações cardiovasculares mantiveram-se em patamares elevados e relativamente estáveis, enquanto as internações respiratórias exibiram oscilações maiores, com alguns períodos de elevação que coincidem temporalmente com os picos de queimadas, ainda que sem regularidade consistente ao longo de toda a série.
A correlação de Pearson não indicou associação estatisticamente significativa entre os focos de queimadas e as internações analisadas: r = −0,04 (p = 0,697) para doenças cardiovasculares e r = 0,06 (p = 0,572) para doenças respiratórias. Contudo, a ausência de correlação linear não implica necessariamente inexistência de relação entre as variáveis. Estudos indicam que os efeitos da exposição à fumaça de queimadas sobre internações hospitalares tendem a se manifestar com defasagem temporal em relação ao evento, o que limita a capacidade de métodos de correlação sincrônica em capturar essa associação. A escala de agregação mensal dos dados e possíveis subnotificações no sistema de internações também podem ter contribuído para atenuar eventuais relações existentes.
Conclusões/Considerações Finais
A análise dos dados aponta para a necessidade de maior integração entre as políticas de controle de queimadas, impulsionadas pelo governo federal, e as ações de saúde pública, considerando que as condições ambientais impactam diretamente o bem-estar da população. Mesmo que a correlação identificada não tenha sido forte, isso não reduz a responsabilidade do Estado em adotar medidas preventivas, a fim de evitar possíveis agravamentos desses indicadores no futuro. O aumento das queimadas implica maior emissão de poluentes na atmosfera, elevando a exposição da população à poluição do ar e, consequentemente, o risco de ampliação dos casos de doenças respiratórias. Assim, o estudo contribui para uma melhor compreensão da dinâmica das queimadas na região de Mirador, ao mesmo tempo em que ressalta a importância de iniciativas integradas que articulem conservação ambiental, ordenamento territorial e promoção da saúde coletiva.
EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS E RESILIÊNCIA DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE NA COMUNIDADE ILHA DE DEUS, RECIFE, PE.
Comunicação Oral
1 UFPE/FIOCRUZ
2 Fiocruz/ IAM
3 FIOCRUZ/IAM
Apresentação/Introdução
A cidade do Recife tem forte exposição a eventos climáticos extremos como enchentes e inundações, afetando diretamente a saúde da população. A Ilha de Deus representa uma comunidade de pescadores em meio a manguezais urbanos considerada como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), localizada na zona sul do Recife, enfrentando conflitos socioambientais e processos de vulnerabilização. Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, os profissionais que atuam na Unidade Básica de Saúde (UBS) da comunidade precisam utilizar estratégias de adaptação para promover continuidade no serviço, buscando superar as adversidades ambientais. A condição territorial marcada por inundações recorrentes, alagamentos nas proximidades da comunidade, calor intenso e dificuldades de locomoção impacta diretamente a rotina dos moradores e o funcionamento dos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS).
Objetivos
Analisar como os profissionais de uma unidade básica de saúde percebem e enfrentam a vulnerabilidade climática.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter descritivo e exploratório, realizado por meio de entrevistas semiestruturadas e grupos focais. O estudo foi realizado com profissionais de saúde, atuantes em uma UBS da comunidade, no período de setembro de 2025 à janeiro de 2026. Foi realizado uma análise temática do conteúdo das entrevistas e grupos focais, sistematizando categorias mistas que emergiram e foram pré determinadas pelos(as) pesquisadores(as). As categorias que subsidiaram as análises buscaram mapear as diferentes formas de resiliência dos profissionais, identificando estratégias desenvolvidas, com o objetivo de garantir seguimento do cuidado com a saúde da comunidade, mesmo diante dos impasses causados pelas alterações climáticas.
Resultados e Discussão
Como resultado, foram identificadas cinco categorias que estão inseridas em quatro temas: 1) Respostas adaptativas dos profissionais frente à inundação no território, marcada pela dificuldade do acesso a UBS e estratégias de reorganização do serviço; 2) Reorganização dos processos de trabalho em contextos extremos, evidenciada pela articulação da equipe com o território;3) Impactos na prática assistencial e na saúde dos profissionais, que inclui a perda da continuidade do cuidado e adoecimento dos profissionais ; 4) Educação em saúde e construção de saberes para o enfrentamento das mudanças climáticas, caracterizada pelas estratégias educativas e de orientação. Havendo um predomínio de temática relacionado ao acesso à unidade básica de saúde, dificuldades na comunicação, e continuidade do serviço. Diante dos relatos trazidos pelos profissionais, houve uma prevalência sobre dificuldade de acesso à unidade, caracterizando uma ausência de planejamento urbano eficaz, que deveria analisar as principais vias de acesso à comunidade e garantir que mesmo em cenários de crise climática, houvesse uma rota de chegada até a ilha. As estratégias utilizadas demonstram ausência de políticas que visem preparar os profissionais que atuam em territórios vulneráveis para esses acontecimentos, deixando de oferecer suporte na UBS para que os atendimentos não sejam interrompidos, isso afeta consequentemente a rotina da unidade, onde os profissionais precisam se desdobrar para atender a demanda de usuários, causando estresse e sobrecarga de trabalho, desorganização nos atendimentos e não sobra tempo para realizar ações e serviços de promoção à saúde essenciais na atenção primária.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo evidencia que a resiliência do serviço de saúde na Ilha de Deus se apresenta no esforço individual e coletivo dos profissionais para superar barreiras territoriais e climáticas. A dependência de estratégias informais e o risco à integridade física dos trabalhadores durante deslocamentos em áreas alagadas apontam para a necessidade urgente de implementação de planos de contingência climática na saúde. Destaca-se a necessidade de fortalecimento da Atenção Primária à Saúde visando fortalecer as equipes frente a esse cenário.
ANÁLISE GEOESPACIAL DAS ZONAS DE AMORTECIMENTO EM TERRITÓRIOS DOS POVOS INDÍGENAS NO ESTADO DO TOCANTINS
Comunicação Oral
1 UNAERP
2 SES-TO
Apresentação/Introdução
A Constituição Federal de 1988 estabelece a proteção territorial dos povos indígenas, atribuindo à União a competência de proteger, demarcar e fazer respeitar os bens dessas populações. Nesse contexto, o estado do Tocantins torna-se relevante para analisar em que medida as Terras Indígenas (TI) delimitadas nesta Unidade da Federação (UF), a qual consta como 2º maior percentual de população indígena (75,98%) dentro das TI; têm sido preservadas para proteção dos territórios tradicionalmente ocupados.
O Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), introduz o conceito de Zona de Amortecimento (ZA), definida como a área do entorno das unidades de conservação onde as atividades antrópicas estão sujeitas a normas e restrições específicas, com o objetivo de minimizar impactos ambientais negativos. As ZA assumem papel estratégico na interface com as TI, consideradas áreas sensíveis à pressão da expansão agropecuária, exploração de recursos naturais e urbanização. Esses impactos extrapolam a dimensão ambiental, repercutindo diretamente nas condições de bem viver e na reprodução sociocultural dessas comunidades. Dessa forma, as ZA podem ser compreendidas como instrumentos estratégicos de mitigação de impactos ambientais e climáticos, além de mecanismos indiretos de proteção territorial.
Objetivos
Avaliar os padrões de uso e ocupação do solo e identificar pressões ambientais que possam comprometer a integridade territorial e socioambiental das TI.
Metodologia
O estudo é baseado em técnicas de geoprocessamento e análise espacial para avaliação das ZA em TI no estado do Tocantins. Buscou-se analisar a distribuição espacial das habitações indígenas, avaliar os padrões de uso e ocupação do solo e identificar pressões ambientais que possam comprometer a integridade territorial e socioambiental dessas áreas.
Foram utilizadas bases de dados geoespaciais públicas provenientes da FUNAI (aldeias indígenas e terras indígenas), IBAMA (autorizações de exploração florestal), MapBiomas (alertas de desmatamento) e Cadastro Ambiental Rural (limites de propriedades, áreas consolidadas e áreas de uso restrito). Todas as bases foram padronizadas no sistema de referência SIRGAS 2000. O processamento dos dados foi realizado no software ArcGIS, incluindo a delimitação das ZA por meio da ferramenta buffer a partir dos limites das TI, com distância definida conforme critérios técnicos. Realizou-se análise de sobreposição espacial entre as ZA e as camadas de uso e cobertura da terra, desmatamento, exploração florestal e imóveis rurais. A análise contemplou o cálculo de áreas por classe de uso, quantificação de alertas de desmatamento e identificação de áreas antropizadas, permitindo a geração de indicadores espaciais, como densidade de desmatamento e percentual de área sob pressão antrópica.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que as ZA das TI no estado do Tocantins, que totalizam 1.191.417,59 hectares, desempenham papel estratégico na proteção indireta de uma área de 2.552.072,83 hectares, que se encontra sob significativa pressão antrópica. A predominância de 505.005,17 hectares de áreas consolidadas (42%) indica que quase metade das ZA já apresenta alteração estrutural da paisagem natural, comprometendo sua função ecológica de contenção de impactos.
A ocorrência de 50.329,24 hectares de alertas de desmatamento (4%) revela que os processos de supressão vegetal permanecem ativos no entorno das TI. A presença de 12.715,50 hectares de áreas embargadas (1%) evidencia a existência de passivos ambientais decorrentes de infrações à legislação, enquanto os 59.219,75 hectares (5%) sob autorização de exploração florestal indicam intervenções legalizadas que, cumulativamente, também contribuem para a pressão ambiental nas ZA.
A identificação de 5.873 propriedades rurais nessas áreas reforça o elevado grau de fragmentação territorial e intensificação do uso privado do solo, o que amplia o potencial de conflitos socioambientais. Esse quadro é ainda mais sensível considerando que 56% das aldeias indígenas encontram-se em contato direto com as ZA, aumentando a exposição dos povos originários aos impactos externos.
De forma integrada, os dados indicam que aproximadamente 52% das ZA apresentam algum nível de antropização, evidenciando um comprometimento significativo da funcionalidade dessas áreas como zonas de proteção. Adicionalmente, a presença de sedes municipais em áreas de influência das TI intensifica as pressões territoriais, sobretudo em função da expansão urbana e da demanda por recursos naturais.
Conclusões/Considerações Finais
A análise espacial demonstrou que, embora essas áreas abranjam 1,19 milhão de hectares, sua função de proteção encontra-se parcialmente comprometida devido à elevada presença de atividades antrópicas. Diante do exposto torna-se fundamental o fortalecimento de políticas públicas voltadas à regulamentação, monitoramento e gestão dos territórios, especialmente em áreas dos povos originários.
EVENTOS HIDROLÓGICOS E SUAS REPERCUSSÕES NA SAÚDE MATERNO-INFANTIL: ASPECTOS DE UMA REVISÃO DE ESCOPO
Comunicação Oral
1 IAM/Fiocruz
2 UFPE
3 UnB
Apresentação/Introdução
A exploração intensiva e predatória dos bens naturais tem intensificado transformações socioambientais, levando a extremos climáticos e gerando impactos na saúde. Estudos apontam que gestantes, puérperas, mães e cuidadores de crianças, sobretudo mulheres e crianças negras, estão entre os grupos mais vulnerabilizados frente a eventos climáticos extremos. Faz-se necessário compreender os danos para a saúde materno-infantil frente às emergências climáticas, à luz da interseccionalidade. Segundo o IPCC, a temperatura média global pode ultrapassar 1,5 °C até 2050, aumentando a frequência e a intensidade das ondas de calor, aumentando a probabilidade de alagamentos e enchentes, especialmente em territórios e populações marcadas historicamente por processos de vulnerabilização, como o público materno-infantil. Nesse contexto, formulou-se a seguinte pergunta: quais os efeitos dos eventos hidrológicos extremos na saúde materno-infantil?
Objetivos
Apresentar a sistematização dos efeitos de eventos hidrológicos na saúde materno-infantil no mundo.
Metodologia
Trata-se de uma revisão de escopo conduzida conforme as diretrizes do Joanna Briggs Institute e do PRISMA-ScR. A pergunta de pesquisa foi elaborada pela estratégia PCC (população, conceito e contexto), com definição prévia de critérios de inclusão e exclusão. A busca foi realizada nas bases PubMed, LILACS, SciELO, Web of Science e Scopus, utilizando descritores combinados por operadores booleanos. Para análise, considerou-se enchentes, alagamentos, cheias e inundações como categorias analíticas de eventos hidrológicos. A seleção dos estudos foi duplo-cega, considerando como critérios de inclusão estudos publicados de janeiro de 2015 a janeiro de 2026 e redigidos apenas em português, inglês ou espanhol. Excluíram-se literatura cinzenta, editoriais, cartas, notícias, protocolos, duplicatas e estudos sem resposta à pergunta central. O processo seguiu as etapas de identificação, triagem por títulos e resumos e leitura dos textos completos. Os estudos elegíveis compuseram o corpus da revisão. Os dados foram analisados qualitativamente, organizados em categorias teóricas previamente definidas, com apoio de tabelas e representações gráficas para melhor sistematização dos resultados. A busca inicial identificou 965 estudos; após remoção de duplicatas e triagem, 138 foram selecionados para leitura na íntegra, resultando em 63 artigos incluídos na análise qualitativa da revisão.
Resultados e Discussão
Resultados do mapeamento dos últimos dez anos apontam diversos impactos na saúde do público materno-infantil exposto a eventos hidrológicos, como presença de parasitoses intestinais em crianças menores de cinco anos, aumento de diarreia, desnutrição, prejuízos no aleitamento materno, complicações gestacionais, dificuldades de acesso aos serviços de saúde, redução da cobertura vacinal, adoecimentos diante da contaminação da água, sofrimento psíquico com manifestações de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, violências e violações de direitos em contextos de inundações e mortalidade infantil. Os estudos analisados foram realizados em diferentes países; todavia, evidencia-se que eventos hidrológicos e impactos ocorrem majoritariamente em territórios de baixa e média renda. Nota-se, também, a baixa incorporação da categoria raça e a limitada análise das dimensões sociais, com pouca articulação entre classe e gênero, e não aprofundamento sobre os impactos da crise climática nos aspectos socioambientais. No desenho, predominam delineamentos transversais, amostras restritas e ausência de grupos comparativos, o que limita inferências causais. Além disso, as pesquisas evidenciam que a literatura, dentro da temática, possui fragilidades como subnotificação, vieses, ausência de variáveis importantes e recortes temporais curtos. Persistem lacunas relacionadas à produção de evidências de longo prazo, ao uso de abordagens longitudinais, à incorporação de determinações sociais e ambientais e à análise da conjuntura política e econômica do território.
Conclusões/Considerações Finais
Os eventos hidrológicos impactam a saúde materno-infantil em diversas dimensões, incluindo desfechos negativos decorrentes da exposição, sofrimento psíquico, dificuldades de acesso aos direitos à alimentação e à moradia, prejuízos na qualidade da assistência e a intensificação das desigualdades sociais e violências. Considerando que pessoas negras, mulheres, crianças e comunidades tradicionais e periféricas são as principais impactadas, torna-se indispensável realizar pesquisas críticas que permitam analisar as especificidades de cada população, assim como a necessidade de articulação entre o Estado, as comunidades, instituições e organizações para construir coletivamente estratégias integradas de enfrentamento diante da emergência climática.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS E SAÚDE INDÍGENA NO CONTEXTO DO BIOMA PAMPAS
Comunicação Oral
1 UFRGS
2 UnB
3 UFJF
4 FURG
5 Aldeia Indígena Por Figãn
6 Aldeia Indígena Sede Atikum
Apresentação/Introdução
Esta é uma pesquisa-ação realizada junto a indígenas Kaingang do Rio Grande do Sul (RS) de comunidades afetadas pelas enchentes de 2024 que atingiram 2,1 milhões de pessoas, deixando 650 mil desalojadas e 71.500 desabrigadas. Os eventos climáticos extremos afetam desigualmente a população, piorando a situação de grupos já vulnerabilizados, como é o caso dos povos indígenas, que dependem cultural e historicamente de seus territórios para sobreviver. Conhecer o impacto desses eventos na perspectiva das comunidades afetadas favorece a elaboração de estratégias culturalmente sensíveis para minimizar danos ante situações similares no futuro.
Objetivos
Analisar o impacto das enchentes no RS em comunidades Kaingang para elaboração de estratégias culturalmente sensíveis ante eventos climáticos extremos.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa-ação que combina a Cartografia Social (Lobão et al., 2022), a História Oral (Castro et al. 2023) e a produção audiovisual com base no Método PVP - Projeto de Vidas Paralelas (Hoefel et al., 2023). A pesquisa envolveu 20 indígenas de 5 aldeias do Povo Kaingang: Guarita, Votoro, Serrinha, Nonoai, Por Figãn e Tâhnvē. Esta última sediou a oficina de 3 dias que incluiu cantos Kaingang, problematização e debate sobre as mudanças climáticas. Houve também a evocação de memórias, lutas e resistências; elaboração de cartografia coletiva sobre impactos das mudanças climáticas nos territórios; registro de imagens, áudios e vídeos. A oficina culminou com a elaboração de um plano de ação discutido com representantes de órgãos governamentais, sociedade civil, atores políticos locais, indígenas e pesquisadores, a fim de fortalecer uma Rede Local de Articulação de Políticas Públicas. As informações coletadas foram transcritas submetidas a Análise de Conteúdo (Bardin, 2011). As premissas éticas do estudo seguiram as Resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) 466/2012 (Brasil 2012) e 510/2016 (Brasil, 2016).
Resultados e Discussão
O RS tem cerca de 36 mil indígenas pertencentes a 4 povos: Kaingang, Guarani, Xokleng e Charrua, distribuídos em 72 municípios em todas as regiões do estado. A situação de emergência climática afetou mais de 80 comunidades indígenas desses diversos povos. As enchentes afetaram principalmente: (i) moradia – 80% das aldeias indígenas sofreram algum dano material em habitações e bens pessoais; (ii) produção de alimentos – 60% tiveram prejuízos em cultivos, criação de animais e infraestrutura rural; e (iii) renda – 100% das aldeias foram afetadas pela interrupção da comercialização do artesanato, sua principal fonte econômica (Governo do Estado do Rio Grande do Sul, 2024). Entre os depoimentos dos indígenas participantes deste estudo, se destacaram as seguintes temáticas: I - Segurança alimentar nas enchentes e o respeito aos aspectos culturais: escassez de alimentos e o desabastecimento de água potável foram críticos durante as enchentes, apesar dos esforços - insuficientes - do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) para a distribuição quinzenal de cestas básicas, água potável, agasalhos e kits de higiene para cerca de 9 mil famílias (Brasil, 2024). Redes de solidariedade locais e de apoiadores da causa indígena foram importantes para minimizar a insegurança alimentar e escassez de água nesse período. Entretanto, as cestas básicas tradicionais não contemplam produtos alimentares tradicionais, importantes nas culturas indígenas. Outra questão que piorou a segurança alimentar foi a impossibilidade de produção e venda de artesanato no período, sendo o artesanato não mera mercadoria, mas essencial na constituição da identidade Kaingang. II - Invisibilidade e impacto das enchentes para os indígenas: tratou dos alagamentos anuais recorrentes em comunidades indígenas de contextos urbanos, cuja situação é invisibilizada por governos, mídia e sociedade, o que reforça que comunidades vulneráveis sofrem desproporcionalmente os impactos dos desastres (Observatório de Clima e Saúde e Fundação Oswaldo Cruz, 2024). III - Cuidado com a Mãe-Terra como horizonte de futuro: é indispensável para a prevenção de futuros desastres e se apresenta como horizonte de sobrevivência coletiva. Os territórios indígenas resguardam dimensões sagradas da ancestralidade e são constituintes da identidade cultural. A reconstrução de um território afetado por eventos climáticos extremos precisa considerar o manejo ambiental pautado por saberes locais para além dos danos materiais (Noal et. al., 2024)
Conclusões/Considerações Finais
A adaptação às mudanças climáticas requer políticas públicas culturalmente sensíveis, baseadas em justiça socioambiental e participação ativa dos povos indígenas. A integração dos saberes tradicionais e das práticas de cuidado com a terra é essencial para construir estratégias resilientes de enfrentamento da crise climática.
VULNERABILIZAÇÃO SOCIOAMBIENTAL DE PESCADORES(AS) ARTESANAIS FRENTE AO DERRAMAMENTO DE PETRÓLEO DE 2019.
Comunicação Oral
1 Universidade Federal da Bahia, Programa de Pós-Graduação Saúde, Ambiente e Trabalho. Salvador, BA, Brasil.
2 Universidade Federal da Bahia, Programa de Pós-Graduação Saúde, Ambiente e Trabalho. Salvador, BA, Brasil.Fundação Oswaldo Cruz, Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde.
3 Universidade Federal de Sergipe, Programa de Pós-Graduação em Geografia. São Cristóvão, SE, Brasil.
4 Universidade Federal da Bahia, Programa de Pós-Graduação Saúde, Ambiente e Trabalho. Salvador, BA, Brasil. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Estudos em Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
5 University of North Carolina at Chapel Hill, Department of Epidemiology. Chapel Hill, Estados Unidos da América.
6 niversidade Federal da Bahia, Programa de Pós-Graduação Saúde, Ambiente e Trabalho. Salvador, BA, Brasil.schoolUniversidade Federal da Bahia, Instituto de Matemática e Estatística, Departamento de Estatística. Salvador, BA, Brasil.
Apresentação/Introdução
Populações tradicionais no litoral nordestino vivenciaram, em 2019/2020, o maior derramamento de petróleo no Atlântico Sul, gerando prejuízos socioeconômicos, ambientais e à saúde. A exposição a derivados do petróleo provoca efeitos agudos e crônicos, como danos psicológicos, físicos e genotóxicos, agravando desigualdades em territórios afetados. Pescadores(as) artesanais atuaram na proteção de ecossistemas costeiro-marinhos, apesar de vulnerabilidades preexistentes como negligência estatal, invisibilidade em políticas públicas e precarização de modos de vida. Adota-se o conceito de desastre socioambiental como fenômeno socialmente produzido, que intensifica desigualdades em territórios tradicionais, incluindo comunidades afro-brasileiras em Áreas de Proteção Ambiental (APAs) na Bahia e Sergipe.
Objetivos
Identificar vulnerabilidades socioambientais em pescadores(as) artesanais nos estados da Bahia e Sergipe decorrentes do derramamento de petróleo de 2019, considerando vias de exposição direta e condições de vida, saúde e trabalho.
Metodologia
Estudo transversal realizado entre 2021 e 2022 com 377 pescadores(as) artesanais residentes em APAs Sul de Sergipe e Norte da Bahia. Utilizou-se questionários para caracterizar exposições (inalatória, dérmica, gástrica), condições laborais e percepções de riscos. Parte-se da compreensão de processos estruturais de vulnerabilização, com análise qualitativa e quantitativa de dados para explicitar desigualdades raciais e ambientais.
Resultados e Discussão
Dos 377 participantes, 58,1% eram mulheres; 73,7% relataram exposição inalatória, 51,7% dérmica e 8,2% gástrica; 81,7% viviam exclusivamente da pesca; 59,7% trabalhavam 5-7 dias/semana; 56,0% não interromperam consumo de pescados/mariscos. Observou-se alta prevalência de exposições associada a percepção limitada de riscos ocupacionais e desconhecimento de vetores de adoecimento. Comunidades remanescentes de quilombos enfrentam racismo estrutural, expropriação territorial e impactos ambientais crônicos. O desastre intensificou aflições, medos e angústias à sobrevivência, sobrepondo-se a vulnerabilidades históricas. A mobilização comunitária destacou o papel do conhecimento tradicional na mitigação de danos e na conservação sustentável de recursos marinhos.
Conclusões/Considerações Finais
O derramamento de 2019 configurou episódio danoso em territórios tradicionais, ampliando desigualdades socioambientais e riscos à saúde de pescadores(as) artesanais. É imprescindível protocolos de enfrentamento, políticas públicas específicas para proteção social, acesso a serviços de saúde e validação de direitos coletivos. Integração de populações tradicionais em estratégias de preservação ambiental fortalece a sustentabilidade e o campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde.
Realização: