Programa - Comunicação Oral - CO8.2 - Doenças negligenciadas, povos tradicionais e determinantes ambientais
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
REFLEXÕES SOBRE O PUXIRUM D’ÁGUA COMO TECNOLOGIA SOCIAL PARA GARANTIA DO DIREITO HUMANO À ÁGUA SEGURA EM COMUNIDADES DE POVOS TRADICIONAIS DA RDS DO TUPÉ
Comunicação Oral
1 Instituto Puxirum
Contextualização
As doenças negligenciadas, especialmente as doenças diarreicas agudas, permanecem como importantes problemas de saúde pública em territórios marcados por desigualdades sociais e ambientais. Em comunidades tradicionais amazônicas, o acesso à água segura é condicionado por fatores como isolamento geográfico, precariedade de infraestrutura e instabilidade no fornecimento de energia, evidenciando a centralidade dos determinantes sociais e ambientais da saúde na produção do adoecimento. O direito humano à água estabelece que toda pessoa deve ter acesso (físico e financeiro), suficiente, seguro e de qualidade à água para uso pessoal e doméstico (ONU, 2010); contudo, sua efetivação ainda é limitada em territórios habitados por populações tradicionais. A noção de água segura envolve não apenas a ausência de contaminantes microbiológicos, mas também o acesso contínuo, em quantidade suficiente e com formas adequadas de uso e armazenamento (WHO; UNICEF, 2022).
Descrição
O Puxirum d’Água é uma iniciativa do Instituto Puxirum de Inovação Social voltado ao acesso à água segura para consumo humano em comunidades de povos tradicionais amazônicos, configurando-se como tecnologia social ao articular soluções técnicas, participação comunitária e governança local. Sua construção resulta de um percurso iniciado em 2019, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, com o projeto Escola Ribeirinha Ecoeficiente, que integrou energia, água, saneamento e educação ambiental, evidenciando a necessidade de adequação das soluções ao contexto local. Posteriormente, o Puxirum da Energia aprofundou o diagnóstico participativo das condições de acesso à eletricidade e demonstrou a interdependência entre energia e abastecimento de água. Paralelamente, o Puxirum do Saneamento ampliou a compreensão sistêmica do território ao identificar fragilidades na infraestrutura, na gestão e na governança comunitária. A partir da integração dessas experiências, consolidou-se o Puxirum d’Água como uma metodologia baseada no nexo água–energia–governança, estruturada por princípios de adequação ao contexto amazônico, fortalecimento da gestão comunitária, capacitação local, articulação com o poder público e abordagem participativa.
Período de Realização
Em 2025 o Puxirum d’Água foi consolidado como abordagem metodológica e segue sendo executado como projeto em comunidades da RDS do Tupé.
Objetivo
Refletir sobre o Puxirum d’Água como tecnologia social voltada à garantia do direito humano à água segura, analisando suas contribuições para o enfrentamento de riscos sanitários e doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado em comunidades de povos tradicionais da RDS do Tupé.
Resultados
A experiência evidencia que o acesso à água segura não se restringe à dimensão técnica, estando diretamente relacionado à organização comunitária, à autonomia local, à capacidade de gestão dos sistemas e ao apoio técnico de atores externos. Observa-se que a interrupção do abastecimento leva ao uso de fontes alternativas inseguras, ampliando a exposição a riscos sanitários e contribuindo para a ocorrência de diversas doenças de veiculação hídrica. A leitura participativa do território permitiu identificar pontos críticos de contaminação ao longo do caminho da água, frequentemente invisibilizados em abordagens convencionais. A integração entre água e energia, por meio do uso de sistemas solares, mostrou-se fundamental para aumentar a resiliência dos sistemas frente a eventos climáticos. A participação comunitária, com destaque para o protagonismo de mulheres, contribui para a sustentabilidade das ações e fortalecimento da gestão local. O projeto está em fase de execução, porém pudemos constatar também a necessidade do apoio técnico por parte do poder público local para um pleno funcionamento dos sistemas de abastecimento, assim como realização do controle da qualidade da água.
Aprendizado e Análise Crítica
O Puxirum d’Água demonstra que intervenções centradas exclusivamente em infraestrutura são insuficientes quando desarticuladas dos determinantes sociais e ambientais da saúde. Como tecnologia social, evidencia potencial transformador ao integrar soluções técnicas e sociais adaptadas ao território, promovendo autonomia e corresponsabilidade. A experiência reforça a necessidade de abordagens interdisciplinares, participativas, equânimes e sensíveis às especificidades locais, reconhecendo as potencialidades do território como espaço de troca de conhecimentos. Ao articular o nexo água-energia-governança, o projeto contribui para a efetivação do direito humano à água e para o enfrentamento das doenças negligenciadas, especialmente em contextos amazônicos marcados por desigualdades sociais e estruturais.
PERCEPÇÕES E EXPERIÊNCIAS SOBRE A TUBERCULOSE EM COMUNIDADES INDÍGENAS URBANAS NA AMAZÔNIA
Comunicação Oral
1 FVS-RCP
2 IRPP
3 FMT-HVD
4 UEA
5 FIOCRUZ-BA
Apresentação/Introdução
A tuberculose (TB) permanece como um importante problema de saúde pública, fortemente associado a desigualdades sociais e barreiras de acesso aos serviços de saúde1,2. Entre populações indígenas, especialmente em contextos urbanos, essas vulnerabilidades se expressam de forma complexa, exigindo a compreensão das dimensões socioculturais que permeiam o processo saúde-doença-cuidado. Embora estudos abordem a percepção da TB em populações tribais e rurais 3,4, a particularidade das comunidades indígenas que residem em ambientes urbanos permanece pouco explorada, em suas próprias dinâmicas socioculturais e desafios, principalmente no contexto amazônico. A compreensão da TB em suas perspectivas culturais, práticas de saúde tradicionais e formas de articulação com os sistemas de saúde biomédicos são fundamentais para o desenvolvimento de intervenções adaptadas ao contexto sociocultural e eficientes5.
Objetivos
Analisar as percepções, conhecimentos e experiências relacionadas à TB de membros de comunidades indígenas urbanas no município de Manaus, Amazonas.
Metodologia
Estudo qualitativo, orientado pela análise temática reflexiva de Braun e Clarke6, realizado em comunidades indígenas urbanas de Manaus, Amazonas. A seleção dos participantes foi intencional, respeitando a diversidade e experiências relacionadas à TB. Os dados foram produzidos em janeiro de 2026, por meio de entrevistas semiestruturadas presenciais em contexto de inquéritos de saúde no território, gravadas em áudio e transcritas na íntegra. A análise ocorreu de forma indutiva, com apoio do software ATLAS.ti Web, a partir das etapas de familiarização com os dados, codificação inicial e construção dos temas. A saturação qualitativa dos dados foi confirmada pela recorrência dos conteúdos e alcance de magnitude dos códigos, entendida como a densidade e recorrência interpretativa dos significados nos dados, sem finalidade quantitativa.O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE 80170324.4.0000.0040).
Resultados e Discussão
Participaram 15 indígenas residentes em comunidades indígenas urbanas de Manaus, Amazonas, sendo 10 mulheres e 5 homens, com idades entre 30 e 63 anos, pertencentes às etnias Kokama, Tikuna, Tucano, Mura, Munduruku, Sateré-Mawé e Apurinã. A análise resultou em 59 citações, organizadas em cinco temas interpretativos. O tema de maior magnitude foi: 1) Experiências familiares no itinerário do cuidado (m=18), que reuniu vivências familiares com a doença, transmissão intradomiciliar, uso da medicina tradicional, busca tardia por serviços de saúde e associação com álcool, tabaco e outras drogas. Em seguida, emergiram: 2) Gravidade da doença (m=12), na qual a tuberculose foi percebida como silenciosa, progressiva, potencialmente fatal e reconhecida a partir de sinais e sintomas; e 3) Crenças e informações sobre a transmissão (m=12), caracterizadas por saberes frágeis, informações fragmentadas e baixa compreensão sobre as formas de transmissão. O tema 4) Tratamento e cura (m=11) evidenciou que a experiência com o tratamento sustenta a compreensão da tuberculose como doença curável, especialmente quando há busca precoce e acesso aos serviços de saúde. Por fim, o tema 5) Medo e estigma da doença (m=6) revelou práticas de isolamento social e medo da contaminação no ambiente.
Conclusões/Considerações Finais
Evidenciou-se que as percepções sobre a TB, em contextos indígenas urbanos, são construídas na articulação entre experiências de adoecimento, saberes cotidianos, relações sociais e condições de vulnerabilidade. Ao revelar que a doença é significada para além de sua dimensão biomédica, o estudo reforça a necessidade de abordagens em saúde culturalmente sensíveis, ancoradas no reconhecimento das especificidades territoriais, sociais e simbólicas que atravessam o viver indígena em contexto urbano. Destaca-se a importância do fortalecimento da Atenção Primária à Saúde como eixo estruturante do cuidado, bem como a implementação de estratégias comunitárias que promovam o diálogo intercultural, a redução do estigma e a ampliação do acesso oportuno ao diagnóstico, tratamento adequado e prevenção da doença.
GESTÃO TERRITORIAL INDÍGENA E QUILOMBOLA E A PRODUÇÃO SOCIAL DA SAÚDE NO PARÁ
Comunicação Oral
1 UFOPA
Apresentação/Introdução
Este estudo parte da experiência de duas estudantes uma indígena Munduruku da Aldeia Takuara (Belterra, PA) e outra quilombola da Comunidade Boa Vista (Oriximiná, PA), cujas trajetórias confluem no compromisso com a defesa do território e da floresta. Ancorado na Determinação Social da Saúde e em diálogo com Ailton Krenak, Davi Kopenawa e Nego Bispo, o estudo reconhece as cosmopolíticas indígenas e quilombolas como tecnologias sociais e ancestrais de produção social da saúde, partindo do entendimento de que a saúde não pode ser dissociada do território, bem como, das formas coletivas e comunitárias do uso da terra e das disputas em torno da reprodução da vida.
Objetivos
Analisar a gestão territorial indígena e quilombola e a sua relação com a produção social da saúde no estado do Pará. Especificamente, examinaram-se as mudanças no uso do território (2004, 2014 e 2024) e o papel de terras indígenas e quilombolas na contenção do desmatamento, com implicações para a saúde e na crise climática.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de métodos mistos, articulando revisão narrativa da literatura, análise documental e análise geoespacial. Os dados secundários foram coletados em plataformas como o MapBiomas, com apoio do Google Earth Engine, a FUNAI, o INCRA e o IBGE e posteriormente processados no software QGIS. A análise dos dados e dos mapas temáticos foram interpretados a partir do referencial da Determinação Social da Saúde, em diálogo com os conceitos de território e cosmopolítica. Também foram considerados documentos e posicionamentos de movimentos socioterritoriais indígenas e quilombolas, especialmente APIB e CONAQ, como fontes para a interpretação crítica das dinâmicas espaciais observadas. O recorte espacial corresponde ao estado do Pará, com atenção ao interior e aos entornos de Terras Indígenas e Territórios Quilombolas; o recorte temporal abrange os anos de 2004, 2014 e 2024.
Resultados e Discussão
Os resultados indicaram redução da cobertura florestal no Pará de 81,8% para 74,9% entre 2004 e 2024, correspondendo à perda aproximada de 8,5 milhões de hectares de floresta. No mesmo período, a agropecuária ampliou sua participação de 11,5% para 18,4% da área estadual, com avanço mais intenso em porções do sudeste paraense e em áreas situadas fora desses territórios. Em contraste, territórios indígenas e quilombolas apresentaram maior estabilidade da cobertura florestal e menor conversão para usos agropecuários do que seus entornos, evidenciando efeito barreira frente ao desmatamento. Esses achados dialogam com a literatura recente que relaciona conservação da biodiversidade, proteção territorial e redução de vulnerabilidades socioambientais e sociossanitárias, inclusive diante de agravos associados ao fogo, à degradação da paisagem e à emergência climática. A análise evidencia, ainda, que a defesa territorial empreendida por povos indígenas e quilombolas não se restringe à dimensão fundiária, constituindo prática coletivas de cuidado, manejo ambiental e produção social da saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que Terras Indígenas e Territórios Quilombolas são infraestruturas socioecológicas fundamentais para a proteção da biodiversidade e a produção social da saúde. A demarcação e a titulação desses territórios, assim como o fortalecimento de formas próprias de gestão territorial e ambiental, do monitoramento comunitário e da fiscalização ambiental, configuram medidas estratégicas para enfrentar desigualdades, conter a degradação e promover políticas intersetoriais comprometidas com justiça socioambiental. No âmbito das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, o estudo reforça a necessidade de reconhecer os direitos territoriais como dimensão constitutiva da Saúde Coletiva e como resposta concreta à crise ecológica e climática.
MALÁRIA EM POVOS INDÍGENAS: UM ESTUDO TEMPORAL NA AMAZÔNIA BRASILEIRA, PERÍODO DE 2010 A 2024
Comunicação Oral
1 ESCOLA NACIONAL DE SAÚDE PÚBLICA- ENSP/PROGRAMA EPIDEMIOLOGIA/ VIGIFRONTEIRAS
2 ESCOLA NACIONAL DE SAÚDE PÚBLICA- ENSP/PROGRAMA EPIDEMIOLOGIA
Apresentação/Introdução
A malária é uma doença comumente associada à pobreza e considerada negligenciada, assim como a dengue, a esquistossomose, a chikungunya, a zika e a doença de Chagas. Em populações indígenas da Amazônia, a malária é endêmica, apresentando alta carga parasitária nos últimos anos. A transmissão tem sido influenciada por diversos fatores, incluindo condições socioeconômicas, desmatamento, mineração ilegal e falta de acesso aos serviços de saúde.
Objetivos
Nesse contexto, este trabalho buscou caracterizar o perfil epidemiológico da malária em populações indígenas da Amazônia brasileira. A análise abrangeu os Índices Parasitários Anuais (IPA) de estados e municípios entre 2022 e 2024, além dos dados de 25 DSEI no período de 2010 a 2024, descrevendo a distribuição da doença por espécie parasitária, sexo, faixa etária, polos-base e municípios
Metodologia
Trata-se de um estudo ecológico, observacional e transversal, de série temporal, com análise dos índices parasitários anuais (IPA) dos estados e municípios da Amazônia brasileira, com ênfase na população indígena, no período de 2010 a 2024.
Resultados e Discussão
Verificou-se que 80% dos casos de malária em povos indígenas nos municípios da Amazônia concentraram-se em apenas dez localidades: Alto Alegre-RR (23,2%), São Gabriel da Cachoeira-AM (17,1%), Amajari-RR (12,6%), Barcelos-AM (10%), Jacareacanga-PA (6,6%), Santa Isabel do Rio Negro-AM (4,9%), Atalaia do Norte-AM (3,9%), Iracema-RR (2,6%), Jutaí-AM (1,7%) e Caracaraí-RR (1,3%) em 2024. Cenários de garimpo e expansão periurbana foram apontados como fatores de risco e, consequentemente, de vulnerabilização nessas localidades.As análises nos DSEI indicaram um total de 533.050 casos autóctones. Desse montante, mais de 60% das ocorrências concentraram-se em apenas quatro distritos: Yanomami (34,5%), Alto Rio Negro (15,0%), Médio Rio Solimões e Afluentes (8,1%) e Rio Tapajós (8,1%). Quanto à análise das medianas, identificaram-se seis DSEI com Índice Parasitário Anual (IPA) superior a 100,0 /1.000 habitantes (IPA Alto Risco): Vale do Javari (277,0), Rio Tapajós (267,6), Yanomami (249,6), Alto Rio Negro (181,2), Médio Rio Purus (163,8) e Médio Rio Solimões e Afluentes (125,8).Quanto às espécies patogênicas, o P. vivax apresentou o maior registro de casos em todos os anos analisados, seguido pelo P. falciparum. Verificam-se, ainda, altos índices de P. falciparum na população Yanomami, no estado de Roraima. Em crianças de 0 a 9 anos de idade, o estudo evidencia índices elevados, com percentuais acima de 50% dos casos totais nos DSEI.No período de 2010 a 2024, a malária registrou seu menor índice em 2011. A partir de 2016, houve um crescimento acentuado que se estendeu até 2020, coincidindo com o início da pandemia de Covid-19. Apesar da redução entre 2021 e 2023, as notificações superaram 30 mil casos anuais, atingindo o pico de 41.911 casos em 2024, dos quais 13.663 foram da espécie P. falciparum. De forma gradual, a malária apresentou aumento nos índices parasitários, com destaque para o período de 2020 em diante. A análise destaca, ainda, o impacto do garimpo ilegal, da mobilidade rural-urbana precária e do crescimento de P. falciparum no pós-pandemia, com alta incidência em crianças de 0 a 9 anos, configurando um dos maiores riscos de mortalidade indígena na região.
Conclusões/Considerações Finais
A malária continua sendo um agravo com altos índices em populações indígenas. Isso pode ser um indicativo de que o programa nacional de malária deve englobar metodologias e estratégias diferenciadas para o controle da doença em terras indígenas e áreas de grande concentração populacional indígena. Apesar de o Brasil ter apresentado reduções nos casos de malária nos últimos anos, o cenário entre os povos indígenas demonstrou o oposto: a doença continua sendo gravíssima, exigindo que as autoridades sanitárias construam planos de contingência específicos para o território. Tais planos devem destacar a vigilância do desenvolvimento infantil e da saúde da mulher como estratégias, potencializando, ainda, o foco nas infecções por P. falciparum, espécie mais grave da doença.O estudo permitiu comparar a incidência de malária por tempo e espaço, inclusive em momentos críticos como a pandemia e em uma região pouco estudada, como o território Yanomami. Por fim, entendendo que os povos indígenas passam por diversas situações disruptivas, como a invasão de não indígenas e o garimpo ilegal, reforçamos a importância de intensificar a vigilância em saúde e ambiental na região. É fundamental ampliar estudos sobre a atenção à saúde, pautados por indicadores de assistência e associados ao monitoramento dos impactos ambientais do garimpo. Igualmente, fazem-se necessários estudos sobre os padrões socioculturais e de deslocamento vigentes no cotidiano desses povos, visando aprimorar os planos de controle de endemias e promover a participação da sociedade indígena e de setores governamentais de forma intersetorial.
SANEAMENTO, DESIGUALDADE E SAÚDE EM TERRITÓRIOS PATAXÓ NA BAHIA: ANÁLISE DO CENSO 2022
Comunicação Oral
1 Fiocruz Minas
2 DSEI - Bahia
Apresentação/Introdução
O acesso a serviços básicos de saneamento e abastecimento de água constitui um indicador central de desigualdade social e vulnerabilidade, sendo amplamente discutido na literatura de saúde pública e desenvolvimento social. Estudos anteriores demonstram que populações indígenas enfrentam barreiras históricas e estruturais ao acesso à água potável, esgotamento sanitário adequado e manejo seguro de resíduos, refletindo desigualdades socioeconômicas e espaciais mais amplas.
Além disso, o acesso a esses serviços é central para a saúde, especialmente em contextos de vulnerabilidade socioeconômica e histórica. Apesar de não dispormos de dados diretos sobre doenças negligenciadas (DN) nos municípios estudados — Alcobaça, Itamaraju, Porto Seguro e Prado —, a literatura demonstra que condições inadequadas de saneamento e abastecimento hídrico estão fortemente associadas à ocorrência de DN, como doenças diarréicas, parasitoses intestinais e verminoses, que afetam desproporcionalmente populações indígenas e comunidades historicamente marginalizadas.
Este estudo justifica-se, portanto, pela relevância de investigar as determinações sociais e ambientais da saúde a partir de indicadores indiretos, como a qualidade e o acesso a água, esgotamento sanitário e manejo de resíduos, utilizando o território e a etnia como eixos analíticos. A análise das desigualdades entre a população indígena e a população total nos municípios permite compreender como processos históricos de exclusão, racismo ambiental e desigualdade social se refletem em condições materiais que impactam a saúde, ainda que indiretamente.
Neste contexto, analisar as diferenças entre a população geral e indígena nos municípios de Alcobaça, Itamaraju, Porto Seguro e Prado, em relação a abastecimento de água, esgotamento sanitário e destino do lixo, permite investigar empiricamente padrões de desigualdade e estratégias de adaptação local, contribuindo para a compreensão das condições materiais e sociais dessas comunidades. Além disso, o estudo dialoga com debates sobre justiça ambiental e direitos à água, reforçando a necessidade de políticas públicas inclusivas e culturalmente apropriadas.
Objetivos
Analisar as condições de saneamento em municípios com presença Pataxó na Bahia, considerando a população residente em terras indígenas, a partir dos dados do Censo Demográfico de 2022, visando compreender suas implicações para a saúde coletiva. O municípios com presença Pataxó são: Alcobaça, Itamaraju, Porto Seguro e Prado.
Metodologia
Trata-se de um estudo quantitativo, de caráter exploratório e descritivo-comparativo, baseado em dados secundários do Censo 2022 disponibilizados pelo SIDRA/IBGE. Foram selecionados municípios com presença do povo Pataxó, considerando a população residente em terras indígenas e a população total do município. A análise contemplou indicadores relacionados ao acesso à água, esgotamento sanitário e manejo de resíduos, articulados a uma abordagem territorial. Além disso, a análise considerou a população residente em terras indígenas e a população total dos municípios selecionados. Realizou-se análise descritiva e comparativa entre população indígena residente em terras indígenas e população total dos municípios, considerando variáveis como forma de abastecimento de água, tipo de esgotamento sanitário e destino de resíduos sólidos.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam desigualdades significativas no acesso aos serviços de saneamento entre a população indígena e a população total dos municípios analisados. A população indígena apresenta menor acesso à rede de água canalizada e maior dependência de fontes alternativas, como poços e nascentes, além de acesso reduzido à rede de esgotamento sanitário e maior utilização de práticas como a queima de resíduos sólidos. As disparidades são mais acentuadas nos municípios de Alcobaça e Prado, sendo este último aquele com piores condições gerais de esgotamento sanitário, inclusive para a população não indígena. Tais condições configuram cenários de vulnerabilidade socioambiental, associados à maior exposição a doenças de veiculação hídrica e parasitoses intestinais, ainda que não diretamente mensuradas neste estudo. Os achados reforçam a centralidade do território como categoria analítica, evidenciando a inadequação de políticas universalistas de saneamento frente às especificidades socioculturais dos povos indígenas, e apontam para a persistência de desigualdades estruturais que impactam a saúde dessas populações.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo evidencia que as desigualdades no acesso ao saneamento básico permanecem como um fator estruturante das iniquidades em saúde em territórios indígenas. Destaca-se a necessidade de políticas públicas territorializadas, interculturais e participativas, que considerem os modos de vida e saberes dos povos indígenas, visando à promoção da equidade e à redução dos riscos associados às doenças negligenciadas.
Realização: