Programa - Comunicação Oral - CO8.3 - Doenças negligencidas: diagnóstico, tratamento e cuidado
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
CUIDADO MEDIADO POR MEDICAMENTOS: CONSTRUÇÃO DE UMA CATEGORIA ANALÍTICA PARA AS CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS EM SAÚDE.
Comunicação Oral
1 UFMT
Apresentação/Introdução
A assistência farmacêutica no Sistema Único de Saúde (SUS) tem sido historicamente abordada sob perspectivas gerenciais e logísticas, com ênfase na gestão de medicamentos. Tais abordagens frequentemente obscurecem a dimensão relacional e a micropolítica que atravessa o encontro entre profissionais, usuários e medicamentos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). A dispensação, quando reduzida a procedimento técnico-administrativo, silencia as negociações, tensões e produções de sentido que constituem o cuidado no cotidiano dos serviços. A categoria cuidado mediado por medicamentos emerge da necessidade de nomear e tornar visível uma dimensão do cuidado que, embora onipresente na atenção básica, permanece insuficientemente teorizada no campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde. Este trabalho apresenta a construção teórica dessa categoria, desenvolvida em pesquisa doutoral vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso.
Objetivos
Apresentar a construção teórica da categoria analítica cuidado mediado por medicamentos, explicitando as matrizes teóricas mobilizadas e as contribuições que a categoria oferece ao campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde para a análise das relações entre política de assistência farmacêutica, práticas de cuidado e produção de saúde na atenção básica do SUS.
Metodologia
A construção da categoria mobiliza três matrizes teóricas articuladas. A primeira é a teoria da atuação de políticas (policy enactment) de Stephen Ball, Richard Bowe e Anne Gold, que desloca a análise das políticas públicas da noção de implementação, linear, hierárquica e prescritiva, para a de atuação, compreendendo a política como processo traduzido e recriado pelos atores nos contextos locais. Esse deslocamento permite apreender como a política de assistência farmacêutica é efetivamente atuada nas UBS, produzindo efeitos que extrapolam o previsto nos documentos normativos. A segunda matriz é a analítica foucaultiana do biopoder e da governamentalidade, que fornece ferramentas para compreender como o medicamento opera como dispositivo de governo da vida, articulando tecnologias disciplinares sobre os corpos individuais e mecanismos regulamentadores sobre a população. O medicamento, nessa perspectiva, não é objeto neutro, mas vetor de relações de poder que atravessam prescrição, dispensação e uso. A terceira matriz é a micropolítica do trabalho vivo em ato, desenvolvida por Emerson Elias Merhy que propõe que o cuidado em saúde se constitui no encontro entre trabalhador e usuário mediante tecnologias leves, acolhimento, vínculo, responsabilização, tecnologias leve-duras como saberes estruturados e tecnologias duras que são equipamentos e insumos. O medicamento transita entre essas três categorias tecnológicas: é simultaneamente insumo material, objeto de saber técnico-científico e mediador de encontros que podem produzir ou obstruir cuidado.
Resultados e Discussão
A articulação dessas três matrizes permite inferir que o cuidado mediado por medicamentos designa o conjunto de práticas, relações e efeitos que se produzem quando o medicamento opera como mediador e não mero insumo nos encontros de cuidado em saúde. A categoria recusa a equivalência entre dispensação e cuidado, evidenciando que a presença do medicamento no encontro pode tanto potencializar vínculos, autonomia e integralidade quanto reproduzir lógicas prescritivas, burocráticas e medicalizantes. Trata-se, portanto, de uma categoria relacional e processual, que demanda análise situada nos contextos concretos onde a política é atuada. Como resultado teórico, a categoria oferece três contribuições ao campo. Desloca o medicamento da posição de objeto técnico para a de analisador das relações de cuidado, tornando visíveis as dimensões micropolíticas da assistência farmacêutica que permanecem opacas nas abordagens centradas em indicadores de acesso e disponibilidade. Articula tradições teóricas frequentemente mobilizadas de forma isolada análise de políticas, estudos foucaultianos e micropolítica do cuidado em um quadro analítico integrado capaz de apreender simultaneamente as dimensões macro e micropolíticas que atravessam o medicamento como objeto social. E oferece uma ferramenta conceitual operacionalizável para pesquisas qualitativas que investiguem como políticas farmacêuticas produzem efeitos concretos sobre o cuidado nos territórios da atenção básica, superando a dicotomia entre avaliações normativas e abordagens exclusivamente etnográficas.
Conclusões/Considerações Finais
Considera-se que a categoria proposta contribui para adensar o debate sobre gestão do cuidado no SUS, ao evidenciar que políticas de medicamentos são na sua base políticas de cuidado e que sua análise requer abordagens conceituais capazes de compreender a complexidade dos encontros que se produzem nos serviços de saúde.
DEL LABORATORIO AL TERRITORIO: VALIDACIÓN DE ALGORITMO DIAGNÓSTICO CON 2 PRUEBAS RÁPIDAS PARA CHAGAS EN CONTEXTOS EPIDEMIOLÓGICOS CONTRASTANTES DE BOLIVIA.
Comunicação Oral
1 CUIDA Chagas – INI – Fiocruz
2 CUIDA Chagas - INLASA
3 Cuida Chagas - Find
Contextualização
As barreiras de acesso a laboratórios especializados limitam significativamente o diagnóstico oportuno da doença de Chagas em áreas endêmicas, especialmente em países como Bolívia e Brasil, onde persistem desigualdades estruturais no acesso à saúde. Nesse contexto, os testes de diagnóstico rápido (TDRs) emergem como estratégia promissora para descentralizar o cuidado e ampliar o acesso na atenção primária, sobretudo em territórios remotos. No entanto, sua adoção em larga escala exige validação em condições reais, considerando as particularidades operacionais e epidemiológicas desses países. Mais do que alto desempenho diagnóstico, é fundamental avaliar aceitabilidade, facilidade de uso e integração aos fluxos locais. Assim, evidencia-se que a incorporação tecnológica precisa estar alinhada ao contexto para, de fato, promover equidade e ampliar o acesso ao diagnóstico da doença de Chagas, com impacto sustentável.
Descrição
Trata-se de um estudo de inovação diagnóstica binacional, conduzido na Bolívia e no Brasil, com foco na validação de um algoritmo para o diagnóstico da doença de Chagas crônica em áreas rurais e remotas. A proposta parte do reconhecimento das profundas desigualdades no acesso ao diagnóstico nesses territórios. Sob a ótica da saúde coletiva, a validação diagnóstica ultrapassa a análise de desempenho em ambiente controlado. Ela incorpora a avaliação em condições reais de uso, considerando as dinâmicas dos serviços de saúde. Isso implica analisar não apenas sensibilidade e especificidade, mas também acesso, aceitabilidade e factibilidade. Além disso, avalia-se a integração do algoritmo aos fluxos de trabalho existentes na atenção primária. O estudo também considera limitações logísticas, como transporte, armazenamento e capacitação das equipes. Ao incluir diferentes contextos epidemiológicos, amplia-se a robustez e a aplicabilidade dos achados. A abordagem adotada reconhece as especificidades territoriais e sociais das populações vulnerabilizadas. Dessa forma, a validação contribui para identificar soluções viáveis e sustentáveis no mundo real. Trata-se, portanto, de uma estratégia que articula evidência científica e necessidade social. Assim, configura-se como ferramenta essencial para subsidiar políticas públicas mais equitativas. Por fim, fortalece o enfrentamento da doença de Chagas a partir de uma perspectiva integral do cuidado.
Período de Realização
Outubro de 2023 a Dezembro de 2025.
Objetivo
Validação de um algoritmo com duas Provas Rapidas para detecção da infecção por Trypanosoma cruzi em municípios com ecótopos contrastantes na Bolívia: Padilla (Chuquisaca) e Villamontes (Tarija).
Resultados
325 participantes contaram com referência completa. As PDR mostraram alto desempenho: Stat-Pak Se>98%, Sp>95%; CTK Se>97% Sp>93%; Wiener Se>95% Sp>96%. As diferenças entre combinações foram mínimas; o algoritmo híbrido Stat-Pak+Wiener mostrou o maior desempenho global (exatidão ≈98,7%, menor erro tipo I), enquanto Stat-Pak+CTK apresentou resultados comparáveis. Inconclusivos como negativos otimizaram Se/Sp. A concordância interobservador foi alta (Kappa>0,95). Do ponto de vista operacional, o Stat-Pak mostrou maior aceitabilidade e facilidade de uso, seguido do CTK, enquanto o Wiener apresentou maiores desafios logísticos.As PDR demonstraram alto desempenho diagnóstico e viabilidade operacional em contextos rurais. A validação do algoritmo em diferentes ecótopos fortalece a descentralização do diagnóstico. Isso contribui para ampliar o acesso oportuno ao diagnóstico de Chagas em áreas endêmicas da Bolívia.
Aprendizado e Análise Crítica
A validação em condições reais demonstrou que algoritmos com duas PDR mantêm alta acurácia mesmo em contextos epidemiológicos distintos, incluindo diferentes ecotopos na Bolívia e no Brasil. Esses resultados reforçam a robustez da estratégia e sua aplicabilidade no primeiro nível de atenção, especialmente em áreas rurais e remotas. Além disso, evidenciam que é possível alcançar desempenho diagnóstico elevado fora de estruturas laboratoriais complexas. Como aprendizado crítico, destaca-se que a escolha do algoritmo não deve se basear exclusivamente em métricas estatísticas, como sensibilidade e especificidade. Aspectos como viabilidade operacional, logística, tempo de execução e aceitabilidade pelos profissionais de saúde são determinantes para o sucesso da implementação. Observou-se que diferenças entre testes podem impactar diretamente a adoção no cotidiano dos serviços. Nesse sentido, a validação em campo permite identificar barreiras e facilitadores reais à incorporação tecnológica. Os achados também revelam a importância de adaptar estratégias diagnósticas às especificidades territoriais. Ao tensionar o modelo tradicional centrado em laboratório, o estudo propõe uma abordagem mais descentralizada e resolutiva. Isso contribui para reduzir iniquidades no acesso ao diagnóstico. Por fim, sustenta-se que a integração entre inovação tecnológica e contexto local é essencial para ampliar o acesso oportuno ao diagnóstico da doença de Chagas.
ENTRE O ESTIGMA E A DESINFORMAÇÃO: IMPLICAÇÕES PARA A FORMAÇÃO EM SAÚDE NAS DIMENSÕES SOCIAIS DA HANSENÍASE
Comunicação Oral
1 UFAM
Apresentação/Introdução
A hanseníase permanece como importante problema de saúde pública no Brasil, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais, como o estado do Amazonas. Embora tenham ocorrido avanços no diagnóstico e no tratamento, a persistência da doença evidencia a influência de determinantes sociais, culturais e históricos. Nesse cenário, o estigma e a desinformação em saúde assumem papel estruturante, dificultando o enfrentamento da enfermidade e contribuindo para o atraso no diagnóstico e para a continuidade da transmissão (BRASIL, 2025; SANTOS et al., 2022). Além disso, as representações sociais da hanseníase extrapolam o campo biomédico, moldando percepções e relações sociais e evidenciando a produção social do adoecimento, o que reforça a necessidade de abordagens que considerem suas dimensões simbólicas (SOUZA, 2021; CARVALHO et al., 2016).
Objetivos
Analisar as implicações da desinformação e do estigma na hanseníase, com ênfase nas repercussões para a educação em saúde e para a formação em saúde.
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratório-descritivo, de abordagem qualitativa, fundamentado em revisão de literatura. O levantamento foi realizado nas bases SciELO, LILACS e Periódicos CAPES, a partir da combinação dos descritores “hanseníase AND desinformação”, “hanseníase AND estigma” e “hanseníase AND educação em saúde”. Foram identificados 678 estudos, dos quais 25 foram selecionados conforme critérios de relevância temática e atualidade. Predominaram produções nacionais, especialmente da Região Norte, além de contribuições internacionais. A análise seguiu uma perspectiva interpretativa, orientada pela abordagem das Ciências Sociais em Saúde, permitindo compreender a hanseníase a partir de categorias sociais, simbólicas e educacionais (GIL, 2008; MINAYO, 2015).
Resultados e Discussão
Os achados indicam que a hanseníase permanece associada a construções sociais que produzem e reproduzem exclusão, sustentando percepções marcadas por medo e distanciamento social (LAPCHENSK; HARDT, 2018; VALE et al., 2024). Tais representações não apenas afetam a forma como as pessoas acometidas se percebem, mas também condicionam suas trajetórias de cuidado, contribuindo para o adiamento da busca por diagnóstico e para dificuldades no vínculo com os serviços de saúde (CAMALIONTE et al., 2022; QUEIROZ et al., 2024). A desinformação, nesse contexto, não se limita à ausência de conhecimento adequado, mas atua como um dispositivo social que sustenta estigmas e naturaliza interpretações equivocadas sobre transmissão, cura e convivência social (ALVARENGA et al., 2023; ARAÚJO et al., 2025). No campo da formação em saúde, observam-se lacunas importantes, com estudantes apresentando compreensões parciais da doença, o que pode repercutir em práticas pouco sensíveis às dimensões sociais do adoecimento (TEIXEIRA et al., 2021). Esse cenário está relacionado ao predomínio de uma formação centrada no modelo biomédico, frequentemente insuficiente para lidar com a complexidade social da hanseníase (PALÁCIO et al., 2019; VITIRITTI et al., 2024). Dessa forma, os achados permitem compreender a desinformação como elemento que opera na reprodução de desigualdades e na limitação do acesso ao cuidado, especialmente em contextos vulnerabilizados como o amazônico. A educação em saúde, quando orientada por abordagens críticas e dialógicas, mostra-se estratégica para tensionar essas dinâmicas, sobretudo quando articulada às práticas da Atenção Primária e às realidades territoriais (DUTRA, 2017; FARIAS et al., 2020; SÁ; SIQUEIRA, 2013; LEVANTEZI et al., 2020).
Conclusões/Considerações Finais
A desinformação e o estigma configuram-se como elementos centrais na manutenção da hanseníase enquanto problema de saúde pública, influenciando experiências e práticas em saúde. Evidencia-se a necessidade de fortalecer estratégias de educação em saúde e de reformular a formação em saúde, incorporando dimensões sociais e humanísticas no cuidado (SILVA et al., 2024). Destaca-se, ainda, a importância de desenvolver intervenções contextualizadas que dialoguem com realidades locais, contribuindo para a redução do preconceito e para a construção de práticas mais equitativas no enfrentamento da doença.
ENTRE O ESTIGMA E O CUIDADO: EXPERIÊNCIA COM IDOSOS ACOMETIDOS POR HANSENÍASE
Comunicação Oral
1 Faculdade Metropolitana de Manaus - FAMETRO
Contextualização
A hanseníase é uma doença crônica e infectocontagiosa causada pelo Mycobacterium leprae, um bacilo que tem predileção pelos nervos periféricos. A doença atinge principalmente os nervos superficiais da pele e troncos nervosos, mas também pode comprometer olhos e alguns órgãos internos. Quando não tratada precocemente, evolui de forma lenta e progressiva, tornando-se transmissível e podendo causar incapacidades físicas (Brasil, 2017). A hanseníase é uma doença geralmente ligada a fatores sociais como moradia precária, baixa renda e acesso limitado à saúde, o que reforça seu caráter de problema social e dificulta seu controle (Santos et al., 2025).
Descrição
Este é um relato de experiência vivenciado por acadêmicos de enfermagem, em colaboração com um enfermeiro da instituição de ensino, por meio do desenvolvimento de uma oficina de atividades recreativas que utilizou o método de estimativa participativa. Tal ação teve como foco a promoção da saúde, a socialização e a estimulação da autonomia de um grupo de 20 idosos acometidos pela hanseníase em uma instituição de acolhimento localizada no bairro Colônia Antônio Aleixo, em Manaus/AM.
Período de Realização
A atividade ocorreu no período da manhã, em 2025, em uma instituição filantrópica mantida por doações. Essa instituição oferece assistência médica, social, psicológica, alojamento, cuidados de enfermagem, troca de curativos e consultas médicas a pessoas com hanseníase. O bairro Colônia Antônio Aleixo, onde a instituição está situada, foi criado em 1942 como leprosário para o isolamento compulsório de portadores da doença e, após a descoberta da cura, foi transformado em bairro.
Objetivo
o presente estudo visa compreender, por meio da estimativa participativa, as necessidades de saúde dos idosos com Hanseníase em uma instituição de acolhimento, articulando a experiência com os determinantes sociais do processo saúde-doença.
Resultados
A atividade teve início com uma palestra sobre a saúde na melhor idade, seguida de ações educativas abordando qualidade de vida, alimentação saudável, saúde mental, lazer e espiritualidade. As acadêmicas foram receptivamente acolhidas pela equipe e pelos residentes, o que favoreceu a criação de um clima de confiança. O contato com os idosos teve o impacto emocional de evidenciar as limitações físicas, consequências da hanseníase. Foram realizadas atividades em grupo, como dança e bingo, com o apoio das acadêmicas, que auxiliaram os participantes com limitações físicas e sensoriais. O compartilhamento do lanche fortaleceu os laços, permitindo a escuta ativa e a troca de experiências, o que proporcionou uma reflexão sobre o envelhecimento marcado pelo estigma social e a importância da atuação ética e empática da enfermagem.
Aprendizado e Análise Crítica
Essa experiência representou um ponto de inflexão no processo de construção acadêmica das estudantes de enfermagem, pois possibilitou o conhecimento de outras dimensões da realidade que transcendem a teoria e o ambiente clínico. A interação com os idosos afetados pela hanseníase revelou uma realidade muitas vezes invisibilizada no âmbito universitário: a face social, histórica e humana da doença que, embora tratável, apresenta um estigma profundo capaz de gerar situações de exclusão social. A experiência demonstrou claramente que a hanseníase não se trata apenas de uma patologia, mas do resultado de um processo social que se expressa pela negligência, pela desigualdade social e pela invisibilidade de certos segmentos sociais. A compreensão desse cenário foi fundamental para que os futuros profissionais de enfermagem se comprometessem não só com o fazer técnico, mas também com o fazer social, com a justiça social e o cuidar. A estimativa participativa revelou-se uma ferramenta potente para a escuta qualificada e para o reconhecimento do protagonismo dos idosos em seu processo de saúde, valorizando os princípios da integralidade, da equidade e da humanização do SUS. Nessa vivência, consolidou-se o conhecimento de que o cuidar transcende o fazer técnico e se configura como um compromisso ético, político e social com o indivíduo e a sociedade.
ESTUDO DO PADRÃO ESPACIAL DE NOTIFICAÇÃO DE CASOS DE LEPTOSPIROSE NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO NO PERÍODO DE 2020 - 2023
Comunicação Oral
1 UNISA
Apresentação/Introdução
A leptospirose é uma zoonose infecciosa febril de início abrupto que atinge todo território nacional, ocorrendo principalmente regiões metropolitanas durante período de enchentes ou alagamentos. Em 2024 foram confirmados 4141 casos no Brasil e 147 no município de São Paulo, com um coeficiente de mortalidade de 10,88 a cada 100 mil habitantes. Em 2024 a exposição de locais com sinais de roedores atribuiu o maior percentual de exposição e com relação ao perfil a maioria homens entre 20 a 49 anos.
Objetivos
Realizar uma análise espacial da diferença de distribuição das notificações de casos de leptospirose ao longo dos anos no município de São Paulo no período de 2020 a 2023.
Metodologia
O trabalho consiste em um estudo ecológico, com abordagem quantitativa e análise espacial, realizado no Município de São Paulo (MSP) no período de 2020-2023. Os dados de casos de leptospirose notificados foram coletados do Sistema de Informações de Notificação e Agravos (SINAN) e posteriormente processados no software Jamovi (v.2.7.6.0) a fim de identificar a frequência de notificação das unidades de saúde ao longo dos anos. As coordenadas geográficas utilizadas (latitude e longitude) das unidades de notificação dos casos foram extraídas do banco de dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e utilizadas para realizar o mapeamento dos pontos de notificação no software QGIS (v.3.44.8) permitindo a análise espacial da distribuição de casos no município, de maneira anual no período estudado.
Resultados e Discussão
Durante o período de quatro anos analisados, tivemos um total de 3181 casos notificados na cidade. A região Central do MSP manteve a maior concentração de casos em todos os anos analisados. Em 2020 temos uma distribuição de casos notificados de maneira mais difusa, com uma maior concentração na zona leste e maior distribuição na zona oeste e zona sul onde a área de divisa do distrito Jardim São Luiz com o distrito Capão Redondo e Campo Limpo também mostraram um acúmulo de notificação na unidade de Saúde. Na subprefeitura de Perus, no extremo Oeste, no distrito de Marsilac, no extremo Sul, e nos distritos de Moema, Campo Belo e Itaim Bibi. Em 2021 temos uma disposição das notificações semelhantes ao ano de 2020, porém com uma notável diminuição em todo território municipal. Apesar da redução, os distritos da zona Sul, Jardim São Luís, Jardim Ângela, Campo Limpo e Jabaquara, permanecem com alto número de casos notificados. O ano de 2022 apresenta um aumento do número de casos na Zona Leste, na zona Oeste, principalmente próximo a zona Norte e na zona Sul, em regiões como Grajaú, Jardim São Luís e Jardim Ângela. Já 2023, mostra uma continuação do aumento dos casos do ano anterior, principalmente na zona Leste, no extremo Oeste, região do Centro Sul e nos distritos do Sul, Grajaú e Parelheiros.
Nota-se 3181 números de casos na região central entre os anos de 2020 a 2024, na subprefeitura da Sé, local com grande histórico de alagamentos e alta densidade demográfica, além de uma grande circulação de pessoas, fatores que intensificam a ocorrência de casos da doença. Na zona Sul o aumento de casos pode ter como característica comum que todos esses locais com vários pontos de inundação e com altas taxas de vulnerabilidade segundo o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS).
Conclusões/Considerações Finais
Os casos de leptospirose no MSP incluem uma tríade complexa dos condicionantes climáticos, de urbanização e questões socioeconômicas. Os casos na região central do município podem sugerir uma destinação incorreta do lixo, gerando aparecimento de roedores, e a grande circulação de pessoas, além das inundações e enchentes que ocorrem no município.
As populações mais vulneráveis são empurradas para áreas de risco (beiras de córregos e zonas de inundação), sofrendo de forma desproporcional os impactos dos eventos climáticos extremos.
ENTRE O MEDO E A INVISIBILIDADE: DESIGUALDADES E PERCEPÇÕES SOCIAIS NO ACESSO AO DIAGNÓSTICO E AO TRATAMENTO DA DOENÇA DE CHAGAS
Comunicação Oral
1 CUIDA Chagas,INI, FIOCRUZ
2 CUIDA Chagas, INI, FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
A doença de Chagas (DC) permanece entre as principais doenças tropicais negligenciadas na América Latina, fortemente associada a desigualdades sociais, invisibilidade institucional e persistentes lacunas nos serviços de saúde quanto ao diagnóstico, tratamento e cuidado. A transmissão congênita da DC constitui um evento ainda mais silencioso, reforçando a importância do diagnóstico e tratamento de mulheres em idade fértil (MIF), bem como do seguimento de gestantes e de suas redes familiares para interrupção da transmissão vertical. Entretanto, além das barreiras estruturais de acesso, percepções sociais, experiências familiares e condições de vida influenciam a relação com o diagnóstico, o tratamento e o cuidado.
Objetivos
Analisar como percepções sociais, marcadores de vulnerabilização social e barreiras operacionais influenciam o acesso ao diagnóstico, ao cuidado e à investigação familiar da DC em municípios de atuação do Estudo de Implementação do Projeto CUIDA Chagas no Brasil.
Metodologia
Estudo de implementação de abordagem mista, realizado em Igarapé-Miri (PA), Janaúba (MG), Paraúna (GO), Riachão das Neves (BA) e Rosário do Sul (RS), no âmbito do Projeto CUIDA Chagas, que visa contribuir para a eliminação da transmissão congênita da DC mediante ampliação e qualificação do acesso ao diagnóstico, tratamento e atenção integral de MIF e sua rede familiar na Atenção Primária à Saúde. Na etapa qualitativa, desenvolvida na fase inicial, foram realizadas entrevistas semiestruturadas e grupos focais com MIF com e sem diagnóstico, contatos domiciliares, profissionais de saúde e membros da comunidade, com o objetivo de compreender conhecimentos, percepções e experiências sobre a doença, o diagnóstico, o tratamento e o cuidado. Na etapa quantitativa, aplicou-se instrumento padronizado para coleta de variáveis sociodemográficas e clínicas das pessoas triadas e dos casos confirmados entre 2023 e 2025. O itinerário de cuidado compreendeu triagem por teste rápido, confirmação sorológica, consulta para devolutiva diagnóstica, realização de exames complementares, início do tratamento etiológico, quando indicado, e investigação de filhos e contatos domiciliares.
Resultados e Discussão
A análise qualitativa evidenciou que, em todos os territórios, a DC segue associada ao medo, ao sofrimento e à incerteza quanto ao futuro. Entre mulheres diagnosticadas, destacaram-se relatos de intenso impacto emocional após a confirmação diagnóstica, frequentemente acompanhados de desconhecimento sobre a evolução da doença e sobre a possibilidade de transmissão para os filhos. Também emergiram experiências de silêncio no ambiente familiar, medo do estigma social e associação da doença à morte, especialmente entre aquelas com histórico familiar de adoecimento e óbito por DC. Esses elementos impactam não apenas na busca por diagnóstico e tratamento, mas também na mobilização da rede familiar para investigação. Após a implementação das ações de testar, tratar e cuidar na Atenção Primária à Saúde, observou-se a ampliação do diagnóstico nos municípios participantes. O número de mulheres triadas por teste rápido em 2023 foi de 3.108, alcançando 11.842 em 2024 e 9.260 em 2025, com identificação de 322 pessoas com diagnóstico confirmado. Apesar desse avanço, persistiram desafios importantes na continuidade do cuidado: 30,9% das mulheres diagnosticadas não receberam o resultado do exame, 36,2% não compareceram à primeira consulta clínica e 18,09% das pacientes com prescrição não iniciaram tratamento etiológico. Também foram identificadas desigualdades segundo território e raça/cor. Em áreas rurais, 71% dos pacientes com prescrição iniciaram tratamento, em comparação a 90% na zona urbana. Entre pessoas negras, 33% não receberam o diagnóstico após a sorologia, frente a 19% das brancas; no acesso à primeira consulta, 38,2% das pessoas negras não compareceram, perante 28,9% das brancas. Na investigação familiar, observou-se baixa testagem de filhos e contatos domiciliares: entre 676 familiares identificados, apenas 52,3% realizaram teste rápido; entre os filhos biológicos, 42,6% não foram testados.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência do Projeto CUIDA Chagas evidencia que a ampliação do diagnóstico, embora essencial, é insuficiente quando dissociada de estratégias voltadas à superação de barreiras sociais, simbólicas e operacionais que atravessam o cuidado. Medo, desconhecimento, silêncio familiar e desigualdades territoriais e raciais podem influenciar o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e à investigação familiar. Incorporar essas dimensões à organização da Atenção Primária à Saúde e melhorar os fluxos assistenciais existentes é fundamental para qualificar o cuidado, fortalecer a busca de familiares sob risco e avançar no enfrentamento da DC como problema de saúde pública.
Realização: