Programa - Comunicação Oral - CO6.1 - Equidade, acessibilidade e reconhecimento das diferenças
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
INTERSECCIONALIDADE E POLÍTICAS DE EQUIDADE: UMA ANÁLISE DOS INDICADORES DE DEFICIÊNCIA DO CENSO DO IBGE DE 2022 NA BAHIA
Comunicação Oral
1 UFBA/SESAB
2 SESAB
Apresentação/Introdução
A compreensão da deficiência no Brasil tem atravessado momentos de transição paradigmática, migrando de um modelo biomédico para o modelo social e a perspectiva biopsicossocial (Diniz, 2009). Este relato de pesquisa surgiu da necessidade de instrumentalizar a gestão pública da saúde na Bahia com análises que transcendam o dado bruto, incorporando as contribuições dos Estudos Críticos da Deficiência. A deficiência é aqui compreendida não como um impedimento orgânico isolado, mas como uma produção social resultante da interação entre corpos e ambientes marcados pelo capacitismo. No contexto baiano, essa análise exige uma lente interseccional (Collins, 2020) que considere como gênero, raça e idade moldam a produção de desigualdades no acesso ao cuidado da população baiana.
Objetivos
Analisar os indicadores sociodemográficos da população com deficiência no estado da Bahia, a partir dos dados do Censo Demográfico de 2022 promovido pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), visando subsidiar a formulação de políticas públicas de equidade e fortalecer a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência (RCPD) sob uma perspectiva anticapacitista e interseccional.
Metodologia
Trata-se de um relato de pesquisa documental e descritiva, realizada no âmbito da Área Técnica de Saúde da Pessoa com Deficiência da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (SESAB). A fonte primária de dados foi o Censo Demográfico 2022 (IBGE), que incorporou a metodologia do Grupo de Washington, fundamentada nos parâmetros da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF/OMS). Tal abordagem permitiu traçar um panorama das limitações funcionais enfrentadas pela população baiana em seus contextos cotidianos, abrangendo os domínios visual, auditivo e motor (membros inferiores e superiores), além do Transtorno do Espectro Autista (TEA). A análise integrou variáveis de gênero, raça/cor, idade e escolaridade, estabelecendo um diálogo teórico com os Estudos da Deficiência e a perspectiva interseccional, à luz de autores como Mello e Nuernberg (2012), Diniz (2009), Gesser et al. (2024), Garcia (2025) e Lopes e Fietz (2025).
Resultados e Discussão
Os dados do Censo 2022 revelam que a deficiência na Bahia é atravessada por marcadores profundos de gênero e raça e idade. 57,24% são mulheres e 79% são pretas ou pardas. Esta predominância exige uma análise interseccional obrigatória na gestão, evidenciando que o cuidado deve ser politizado para garantir a superação de desigualdades históricas.
No recorte raça/cor, a população indígena apresenta a maior prevalência proporcional de deficiência (10,5%), o que denuncia a urgência de uma saúde intercultural que considere o capacitismo e as barreiras geográficas em territórios tradicionais.
Quanto ao ciclo de vida e inserção social, observa-se uma confluência entre envelhecimento e deficiência (43,69% têm mais de 60 anos), enquanto a população em fase de inserção laboral entre 20 e 59 anos (47,29%) enfrenta uma severa exclusão educacional: 70,12% dos adultos com deficiência não possuem instrução básica. Tais achados demonstram como o capacitismo se funde ao sexismo e ao racismo criando barreiras que se atravessam e restringem a participação social das pessoas com deficiência.
Conclusões/Considerações Finais
A análise fundamentada no Censo 2022 do IBGE endossa que a deficiência na Bahia não pode ser gerida como um dado isolado ou meramente clínico, devendo servir de bússola para a superação de desigualdades históricas. A intersecção entre raça, gênero e deficiência configura um cenário onde as categorias de identidade se cruzam produzindo experiências de opressão.
Para os serviços e equipes de assistência, A compreensão da perspectiva biopsicossocial impõe que a gestão da saúde na Bahia não pode ser neutra e deve adotar estratégias intencionalmente antirracistas e anticapacitistas no planejamento de políticas públicas de saúde na Bahia não se baseando em doenças, mas nas barreiras que o ambiente impõe aos corpos. Isso significa que a elaboração dos Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) deixa de ser uma atividade técnica para se tornar um caminho para a remoção dessas dificuldades e para uma construção de Projetos de Vida dos usuários e familiares.
ACESSIBILIDADE E CAPACITISMO INTERSECCIONAL: O TRABALHO EM SAÚDE DE MULHERES NEGRAS COM DEFICIÊNCIA
Comunicação Oral
1 UFBA
2 SESAB/BA
Apresentação/Introdução
Lutar pelo direito de ser e de trabalhar constitui um desafio permanente para mulheres negras com deficiência em uma sociedade estruturada pela normatividade corporal, pelo racismo e pelo sexismo. No campo da saúde, esse desafio é intensificado por modelos de formação e de atuação profissional historicamente ancorados em ideais de produtividade, eficiência e capacidade física, que hierarquizam corpos e produzem exclusões sistemáticas.
Neste trabalho,como conceito inédito, compreende-se o capacitismo interseccional como o processo de opressão vivenciado por pessoas com deficiência em todas as dimensões da participação social e que, quando articulado às intersecções de raça, gênero, classe e território, produz apagamento sistêmico, perspectiva que dialoga com Crenshaw (1989), Akotirene (2019), ao reconhecerem que a opressão opera de forma simultânea e relacional.
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Objetivos
Analisar como a falta de acessibilidade produz capacitismo interseccional na trajetória profissional de mulheres negras com deficiência trabalhadoras da saúde.
Metodologia
Estudo qualitativo de natureza compreensiva e crítica, fundamentado nas ciências sociais e humanas em saúde, nos estudos críticos da deficiência e nos feminismos negros. Foram realizadas cinco entrevistas individuais e semiestruturadas com trabalhadoras da saúde, todas negras, com deficiência e atuantes no estado da Bahia. As entrevistas foram gravadas e realizadas no ano de 2026, mediante apresentação do termo de consentimento livre e esclarecido e em ambiente virtual.
O roteiro abordou aspectos das experiências de formação, atuação profissional, acessibilidade no trabalho, saúde mental e estratégias de enfrentamento ao capacitismo. Os dados foram analisados segundo a Análise Temática (Braun & Clarke, 2006). As narrativas foram tratadas como escrevivências, no sentido proposto por Conceição Evaristo, assumindo que as experiências vividas por mulheres negras com deficiência produzem conhecimento situado sobre trabalho, cuidado e resistência.
O trabalho foi aprovado pelo CEP do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia com número de parecer 8.330.986.
Resultados e Discussão
As narrativas analisadas evidenciam que a falta de acessibilidade no campo do trabalho da saúde opera como violência estrutural que impacta diretamente a saúde mental das trabalhadoras com deficiência.
A participante C afirma que os estabelecimentos de saúde “não são construídos para que a gente trabalhe neles”, evidenciando que a inacessibilidade não é um acidente, mas parte da própria organização institucional do trabalho em saúde. Tal relato explicita como a exigência de adaptação individual substitui a responsabilidade institucional, característica central do capacitismo estrutural (Mello, 2016).
Esses achados dialogam com estudos que apontam o trabalho em saúde como campo historicamente adoecedor, marcado por sobrecarga, exigências normativas e naturalização do sofrimento (Merhy, 2002; Campos, 2007).
As falas das participantes revelam ainda que a inacessibilidade se articula ao racismo e ao sexismo, produzindo desconfiança sistemática sobre a competência das mulheres negras com deficiência em seus trabalhos. A participante B relata tentativas institucionais de desviá-la de sua função profissional. Tal prática evidencia a atuação do capacitismo interseccional, que antecipa a deficiência como limite absoluto e desconsidera saberes, formação e experiência profissional.
Já a participante F, explicita os efeitos subjetivos dessa deslegitimação ao relatar a internalização do discurso de incapacidade, questionando constantemente seu próprio mérito. Tal processo evidencia o impacto do capacitismo interseccional na constituição da subjetividade e da autoestima profissional, produzindo sofrimento ético-político (Santos & Lima, 2020).
Conclusões/Considerações Finais
Este trabalho evidencia que a falta de acessibilidade constitui um determinante interseccional da saúde mental no trabalho em saúde, operando como mecanismo central de produção do capacitismo interseccional na trajetória de mulheres negras com deficiência trabalhadoras da saúde. A inacessibilidade não apenas limita o exercício profissional, mas produz sofrimento ético-político, desgaste físico e adoecimento mental, contrariando os princípios do SUS.
Defender a acessibilidade como direito indivisível implica retirá-la do campo da concessão técnica para o campo da responsabilidade social. Para as mulheres negras com deficiência, existir e trabalhar na área da saúde é um ato político que revela o avesso da estrutura capacitista, racista e sexista que organiza o trabalho em saúde. Corpos que insistem e resistem produzem rupturas nas normas sociais e afirmam a possibilidade de outros modos de ser, cuidar, trabalhar e existir.
ASSISTÊNCIA À SAÚDE MATERNA EM MULHERES COM DEFICIÊNCIA VISUAL: EXCLUSÃO ESTRUTURAL EM FUNÇÃO DA RIGIDEZ E DA NEGAÇÃO DA DIVERSIDADE HUMANA.
Comunicação Oral
1 UFC
2 Fiocruz
Apresentação/Introdução
A deficiência é condição que afeta pessoas de todas as nações, raças, sexos e classes sociais. Pessoas com deficiência enfrentam violações de direitos humanos, incluindo a negação de seus direitos sexuais e reprodutivos. Nesse contexto, a sociedade não está preparada para fornecer atenção materna adequada a mulheres com deficiência. Este relato apresenta os resultados de uma revisão documental sobre percepções dos cuidados em saúde materna de mulheres com deficiência visual.
Objetivos
Identificar as concepções que orientam as formas de aproximação no cuidado da saúde materna de mulheres com deficiência visual.
Metodologia
Realizou-se uma busca bibliográfica em bases de dados Scopus, Web of Science e PubMed, incluindo artigos sobre cuidados específicos para mulheres com deficiência visual durante a gravidez, o parto e o pós-parto. Excluíram-se estudos centrados no feto ou no recém-nascido, além daqueles sem foco no cuidado materno nesses períodos. Os textos selecionados foram lidos na íntegra e suas referências analisadas para ampliar a revisão documental. Por fim, procedeu-se ao fichamento sistemático dos artigos incluídos.
Resultados e Discussão
A análise dos materiais identificou quatro eixos analíticos sobre percepções do atendimento em saúde materna para esse grupo populacional:
A Produção do Corpo Materno ‘Capaz’: Normalização e Exclusão no Cuidado Pré-natal; Uma Crítica à Acessibilidade Simbólica na Saúde; A Experiência Materna na Ausência da Visão e Cuidado, Dependência e Autonomia.
No presente manuscrito, serão apresentados apenas os resultados e a discussão do primeiro eixo, o qual se organiza em quatro categorias:
1. A construção do corpo materno normal: padrão idealizado de gestante — funcional, autônoma, informada e capaz de seguir orientações médicas sem mediação. Esse dispositivo simbólico de normalização, presente na sociedade e no sistema de saúde, cria um imaginário universal do corpo materno. Assim, mulheres com deficiência visual não se enquadram nesse ideal, sendo consideradas desvios.
2. A visão como base do cuidado: paradigma oculocêntrico que associa o ato de ver à melhor preparação para a maternidade. Esse pressuposto transfere expectativas de autonomia e capacidade de cuidar e ignora a diversidade humana. A visão é considerada quase indispensável ao cuidado, evidenciando exclusão estrutural, v que limita as possibilidades concretas de cuidar e nega simbolicamente a viabilidade do cuidado sem visão.
3. Protocolos padronizados e o apagamento da singularidade; O modelo biomédico, fundamentado em uma tradição classificatória positivista, organiza os corpos a partir de dicotomias como saúde/doença e normalidade/anormalidade. No campo da atenção à saúde, os protocolos padronizados estruturam a organização dos serviços e orientam as respostas às demandas populacionais. Contudo, esse processo tende à homogeneização das experiências, produzindo práticas que excluem corpos que escapam à “normalidade” esperada. Nesse contexto, a diferença é frequentemente interpretada como obstáculo ao cuidado, reforçando, ainda que de modo indireto, a noção de anormalidade. Assim, os protocolos operam como mecanismos que sustentam a exclusão daqueles que não se ajustam aos parâmetros estabelecidos.
4. Produção de dependência e questionamento da autonomia: A atenção à saúde de mulheres com deficiência visual revela uma contradição, enquanto valoriza a autonomia, reproduz práticas que incentivam a dependência de cuidadores e do próprio sistema. Isso se expressa em barreiras de acesso à informação, na comunicação direcionada ao acompanhante e na desvalorização das capacidades dessas mulheres para o autocuidado e o cuidado de outros. Como resultado, são posicionadas como dependentes e passivas, reduzidas a objetos de cuidado e sujeitas de assistência.
Conclusões/Considerações Finais
O sistema de saúde, compreendido como um dispositivo de poder e normalização, opera como uma estrutura não neutra que produz sujeitos, capacidades e limitações. Por meio da definição de um corpo “normal”, da organização de práticas protocolizadas e da regulação entre autonomia e dependência, são constituídas subjetividades identidades e estratificações sociais como o “corpo desviado” e o “sujeito dependente”.
No campo da saúde materna, esse modelo sustenta um ideal normativo de corpo capaz de maternar, baseado na centralidade da visão, na padronização dos corpos e na valorização de uma autonomia regulada.
Como resultado, a diferença é frequentemente interpretada como desvio, produzindo exclusão estrutural. Nesse contexto, a diversidade corporal não é reconhecida como legítima (as diferenças entre os corpos não são integradas ao cuidado), sendo subordinada a normas que orientam práticas e significados. Propõe-se, portanto, deslocar a deficiência do plano individual para uma perspectiva sistêmica, questionando a universalidade do modelo biomédico e defendendo um cuidado situado, flexível e sensível à diversidade humana.
LETRAMENTO EM SAÚDE E ACESSIBILIDADE LINGUÍSTICA: PERSPECTIVAS NO ATENDIMENTO À POPULAÇÃO SURDA
Comunicação Oral
1 UNL
2 UEA
3 FAMETRO
Contextualização
No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde (2019) aponta que cerca de 2,3 milhões de pessoas possuem deficiência auditiva, com destaque para a Região Norte, onde 7,7% da população apresenta algum tipo de deficiência. Para essa comunidade de pessoas surdas ou com deficiência auditiva (DHH), o acesso à saúde não se resume à disponibilidade de serviços, mas à qualidade da interação clínica. A Organização Mundial da Saúde define a perda auditiva a partir de limiares superiores a 20 DB, condição que impõe desafios severos à comunicação orais e à compreensão da fala, exigindo do sistema de saúde estratégias adaptativas que vão desde o uso de próteses até a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Entretanto, a experiência prática da assistência revela barreiras sistêmicas críticas. A dependência de protocolos baseados em áudio e a persistente discordância linguística entre profissionais e pacientes tornam os espaços de saúde — especialmente os de urgência e emergência — ambientes de exclusão (Gotowiec et al., 2022). A leitura labial e a escrita mostram-se insuficientes para uma comunicação médica segura e ágil, aumentando exponencialmente o risco de erros assistenciais. Nesse cenário, o Letramento em Saúde (LS) surge como um divisor de águas: quando fragilizado por profissionais despreparados, o LS torna-se um problema de saúde pública negligenciado, resultando em diagnósticos imprecisos e na violação da autonomia do paciente (Cangussú et al., 2021). A exclusão é acentuada pela escassez de intérpretes no Sistema Único de Saúde (SUS) e pela inadequação de recursos de acessibilidade em momentos de crise, como o atendimento pré-hospitalar. Diante dessa realidade, a integração da língua de sinais e a simplificação dos processos de navegação clínica tornam-se urgentes. Ao promover o protagonismo comunicativo, é possível romper o ciclo de invisibilidade, garantindo que a assistência resulte, efetivamente, em segurança, dignidade e qualidade de vida.
Descrição
Trata-se de um estudo descritivo, com abordagem qualitativa, do tipo relato de experiência. Para fundamentar a análise crítica desta experiência, Para fundamentar a análise, realizou-se um levantamento bibliográfico na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando descritores controlados extraídos do vocabulário DeCS/MeSH.
Período de Realização
A vivência ocorreu em abril de 2026, a um Atendimento Pré-Hospitalar (APH) móvel, em uma capital da Região Norte do Brasil. O cenário envolveu o socorro imediato a uma vítima de acidente de trânsito, apresentando quadro de surdez e dificuldades acentuadas de comunicação com a equipe de emergência. A coleta de dados para este relato deu-se por meio da observação participante envolvidos na assistência. O foco da análise concentrou-se nas barreiras comunicacionais identificadas, no nível de letramento em saúde demonstrado pela equipe e nas estratégias de mediação linguística (Libras) utilizadas para viabilizar o atendimento.
Objetivo
Relatar a experiência da assistência em saúde à pessoa surda em um contexto de urgência, destacando os desafios comunicacionais e as estratégias de Letramento em Saúde aplicadas.
Resultados
Observou-se um evidente despreparo da equipe profissional no manejo do paciente surdo. A barreira linguística resultou em um atraso crítico na assistência, pois os profissionais não estabeleceram um canal efetivo de comunicação. A intervenção viabilizou-se por meio dos estudantes, que utilizaram a Língua Brasileira de Sinais (Libras) para mediar à interação, garantindo a coleta de informações vitais (como alergias e nível de dor) enquanto a equipe técnica executava os procedimentos clínicos. O aprendizado central foi que o letramento em saúde é uma responsabilidade institucional: no APH, o tempo é determinante e a ausência de competência em Libras transforma o sistema em uma barreira de risco acarretando vulnerabilidade ao paciente.
Aprendizado e Análise Crítica
O episódio evidencia o despreparo sistêmico no atendimento à pessoa com surdez. A jornada da saúde auditiva exige que o sistema mude o foco: não basta a oferta do serviço; é preciso garantir que o paciente tenha capacidade de engajar-se no tratamento (demanda). Superar barreiras de acessibilidade de populações marginalizadas é o único caminho para a autonomia. Conclui-se, portanto, que a vivência relatada transcende o aspecto técnico da emergência, evidenciando a urgência da institucionalização da Libras como disciplina obrigatória nas matrizes curriculares de graduação e nos programas de educação permanente. A atuação dos discentes como mediadores linguísticos demonstra que a competência em Libras e o domínio das estratégias de letramento em saúde não devem ser habilidades acessórias, mas pilares fundamentais para uma assistência equânime. Embora tenha se observado uma escassez de estudos sobre o tema, é urgente que novas pesquisas integrem o letramento em saúde à prática assistencial garantindo os direitos humanos e o anticapacitismo no SUS.
CORNORMATIVIDADE COMPULSÓRIA COMO BARREIRA NA SAÚDE SEXUAL: UMA REVISÃO DA LITERATURA SOB AS LENTES QUEER E CRIP
Comunicação Oral
1 FSP/USP
2 USP
Apresentação/Introdução
A saúde sexual, historicamente ancorada em modelos biomédicos e normativos, estabelece padrões rígidos de funcionalidade, desejo e performance. Este padrão, denominado corponormatividade, opera como um dispositivo biopolítico que hierarquiza corpos aptos, produtivos e sexualmente “funcionais” em detrimento daqueles que fogem à regra, como corpos com deficiência, doenças crônicas ou não normativos em sua expressão.
Objetivos
Esta pesquisa de revisão da literatura teve como objetivo analisar como a produção acadêmica recente no campo da saúde sexual aborda (ou silencia) as experiências de pessoas com deficiência e corpos dissidentes, utilizando o referencial teórico dos estudos Queer e Crip como ferramenta de desconstrução da corponormatividade.
Metodologia
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de caráter crítico e interpretativo. A busca foi realizada nas bases SciELO, PubMed e Periódicos CAPES, abrangendo o período de 2018 a 2025. Utilizaram-se os descritores: “saúde sexual”, “sexualidade”, “pessoas com deficiência”, “corponormatividade”, “queer” e “crip theory”. Foram selecionados 8 artigos, livros e capítulos que dialogavam diretamente com a crítica ao modelo capacitista na saúde. A análise foi conduzida sob a perspectiva dos estudos críticos da Teoria Crip e da Teoria Queer, focando na identificação de discursos normativos e nas propostas de subversão dessas lógicas.
Resultados e Discussão
Grande parte da literatura médica tradicional ainda trata a sexualidade da pessoa com deficiência sob um viés ‘assexuado’ ou infantilizado. Observou-se que, quando abordada, a saúde sexual é reduzida à “função reprodutiva” ou à “capacidade de performance”, ignorando o prazer, o desejo e as formas alternativas de expressão sexual que não se centram na genitalidade normativa; além disso, os artigos alinhados à perspectiva teórica escolhida demonstram que a aliança entre os estudos Queer e Crip oferece um potente contraponto. A noção de “cripagem” do sexo (cripping sex) surge como uma prática de despatologização, onde adaptações, tecnologias assistivas e novas formas de intimidade são vistas não como faltas, mas como inovações. Essa literatura crítica a medicalização excessiva, propondo que o acesso à saúde sexual deve ser pautado pela autonomia e pela acessibilidade atitudinal e arquitetônica, indo além da mera prescrição farmacológica; no mais, um achado significativo foi a constatação de que a perpetuação da corponormatividade ocorre majoritariamente na formação em saúde. Os currículos hegemônicos reproduzem a noção de um “corpo padrão”, formando profissionais que, mesmo bem intencionados, frequentemente excluem ou traumatizam pacientes com deficiência ao tratá-los como “casos” a serem “consertados” para se encaixarem no modelo de sexualidade vigente.
Conclusões/Considerações Finais
A revisão evidencia que a corponormatividade atua como uma barreira epistemológica e prática na promoção da saúde sexual. A invisibilidade das corporalidades dissidentes nos protocolos de atendimento e a patologização das diferenças funcionais constituem violações de direitos humanos fundamentais. A adoção de uma perspectiva anticapacitista, aliada aos saberes Queer e Crip, é essencial para deslocar o foco da “função” para o “acesso” e o “prazer”. Conclui-se que a despatologização da sexualidade da pessoa com deficiência e a luta por ambientes de saúde acessíveis e afirmativos são urgentes para a garantia da cidadania íntima e da justiça social.
OS DOIS LADOS DA ESCUTA: RELATO DE EXPERIÊNCIA(S) DE PRÁTICAS INCLUSIVAS EM UM CURSO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA
Comunicação Oral
1 SMS/RJ
2 CCS/UFRJ
3 IESC/UFRJ
Contextualização
Este relato analisa a inclusão de uma profissional da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS-RJ), com surdez severa oralizada, em um curso de extensão da UFRJ. A experiência transcendeu o conteúdo técnico ao demandar, às vésperas do início, adaptações para a participação efetiva da cursista. O desconhecimento inicial da equipe sobre a infraestrutura necessária para incluí-la foi superado por uma construção dialógica. Ao refutar soluções padronizadas que tendem reduzir a surdez a uma condição única sem considerar seus múltiplos atravessamentos, o processo seguido foi o da alteridade como caminho. Neste sentido, buscou-se uma interlocução entre os princípios da Extensão Universitária e os da Saúde Coletiva para superação do determinismo tecnológico e da lógica capacitista.
Descrição
O curso de extensão sobre Pesquisa Documental em Saúde foi divulgado para programas de pós-graduação e órgãos públicos. A turma foi composta por um coletivo heterogêneo de alunos de diferentes instituições e níveis de formação. Parte do desafio da edição de 2025 foi a inclusão de uma aluna com surdez severa oralizada sem fluência no uso de sinais. Ao lugar da busca convencional por intérpretes de libras, a equipe adotou a escuta sensível e o dialogismo freiriano para compreender suas necessidades. A equipe organizadora se pautou pelo Pensamento Complexo de Edgar Morin, transformando o evento inesperado em solução inventiva através de pesquisas em legislações, artigos, cartilhas técnicas e relatos compartilhados em redes sociais que, por sua vez, fundamentaram as práticas inclusivas adotadas. Seis medidas baseadas em tecnologias leves foram pactuadas com a aluna: (1) legendagem em tempo real conectada ao aparelho telefônico da participante, (2) suporte contínuo de monitoria por aplicativo de mensagens, (3) controle rígido de ruídos e conversas paralelas durante a ministração das aulas, (4) uso do mural virtual Padlet como ferramenta complementar, (5) relatoria sistemática dos encontros e (6) sensibilização da turma para a adoção conjunta das propostas. As abordagens, ao longo dos cinco dias de curso, seguiram o modelo acordado. O encerramento contou com uma roda de conversa entre os participantes. O processo avaliativo foi concluído nos meses seguintes com oficinas de produção textual entre a equipe organizadora e a aluna. Estas oficinas geraram um relato de experiência colaborativo.
Período de Realização
O evento relatado transcorreu entre março de 2025 e março de 2026. A fase de planejamento didático iniciou-se em março/2025, seguida pela divulgação do curso e seleção de 18 cursistas durante o mês de junho. Em julho/2025, o contato com a aluna foi iniciado através de uma reunião remota para alinhamento de demandas e busca conjunta por soluções de acessibilidade e inclusão. O curso ocorreu presencialmente, entre 28 de julho e 1º de agosto de 2025, nos turnos da manhã. A fase de sistematização da experiência estendeu-se de outubro a dezembro/2025, contemplando cinco oficinas quinzenais de produção textual. Em março/2026, o grupo consolidou o material das oficinas para o relato de experiência na ABRASCO.
Objetivo
Analisar e discutir o processo de inclusão de uma profissional com surdez severa que não faz uso fluente de Libras em um curso de extensão em saúde, destacando como o diálogo e as tecnologias leves permitiram superar o determinismo tecnológico e ações capacitistas.
Resultados
O processo de inclusão foi consolidado através das tecnologias leves em um ambiente marcado pela predominância da cultura ouvinte. O destaque foi o encerramento dos encontros, momento em que houve a transição da arquitetura convencional da sala de aula para uma roda de conversa com o grupo dos alunos participantes. Diante do desafio acústico, o grupo co-criou o ‘Círculo de Legendas‘, onde um celular circulava entre os falantes como microfone remoto para o sistema de legendagem conectado ao telefone da aluna. Contudo, a avaliação dialógica revelou limites: a discente pontuou que o uso de telas individuais fragmenta a atenção, sugerindo que projeções centralizadas na lousa da sala favoreceriam uma percepção integral (visual e gestual). Além disso, a persistência de falas em ritmo acelerado foi identificada como barreira adicional. Por outro lado, estudantes ouvintes relataram que o rigor nos turnos de fala e a disponibilização de materiais informativos de apoio qualificaram o aprendizado de toda a turma.
Aprendizado e Análise Crítica
O ‘Círculo de Legendas‘ ilustrou a potência da extensão universitária vinculada à perspectiva freiriana, onde a comunicação horizontal se opõe às hierarquias rígidas e descontextualizadas. A escuta sensível, o afeto e o cuidado foram fundamentais para a apropriação e ressignificação dos recursos tecnológicos na socialização dos conteúdos. A experiência demonstrou que a acessibilidade, quando despida de lógicas capacitistas e soluções padronizadas, deixa de ser um ‘ajuste para um‘ e torna-se um ganho pedagógico para todo o coletivo envolvido.
Realização: