Programa - Comunicação Oral - CO25.1 - Interculturalidade na prática da pesquisa e do cuidado
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
CONVERSAS DE VARANDA: ENTRELAÇAMENTOS DE CUIDADO E MEMÓRIA COM A MÃE DO CORPO
Comunicação Oral
1 UFAM
Apresentação/Introdução
Apresento reflexões etnográficas e escrevivências ancoradas nas “conversas de varanda” no Purupuru, território ribeirinho do Amazonas onde vivo, e que há pouco tempo comecei a descrever a partir do que a academia me atribuiu com as formações: o lugar de pesquisadora, atualmente doutoranda em Antropologia Social, mulher negra em escrevivência com minhas semelhantes. A varanda espaço de escuta, afeto e memória é aqui proposta como metáfora e método etnográfico.
Já alguns dias ouvia mãinha reclamando de dores na região pélvica, tomava chás de quebra-pedra, marcela, cidreira e outras ervas medicinais que temos no quintal e a dor “desviada” como ela falava não passava. Incomodada com a dor decide ir à casa da Vovozona para ela “puxar a barriga”.
É nesta narrativa a qual vivenciei que irei apresentar as potencialidades que se tem nas práticas tradicionais de cura em comunidades do Amazonas, especificadamente na comunidade Purupuru.
Purupuru é uma comunidade típica do Norte do Brasil, se tem uma multiplicidade de identidades as ancestralidades indígenas e negras são latentes em nossas práticas sociais.
Objetivos
Não farei paralelismo com o conhecimento cartesiano focarei na prática de “puxação” de barriga, a noção de mãe de corpo para a dona Vovozona e a eficácia dos procedimentos realizados.
Parto do pressuposto que esta prática também tem racionalidade um método para ser realizado, ou seja, usarei a noção de conhecimento tradicional, mas me posiciono que esta prática também é ciência.
Para corresponder a eficácia dos procedimentos realizados por Vovozona usarei aspectos do argumento de Lévi-Strauss O feiticeiro e sua magia e a eficácia simbólica.
Metodologia
É nesta narrativa a qual vivenciei que irei apresentar as potencialidades que se tem nas práticas tradicionais de cura em comunidades do Amazonas, aqui seguirei com a etnografia do dia que a minha mãe vai até a casa de Vovozona para que ela “puxasse” a sua barriga. Trata-se de uma etnografia situada, implicada e encarnada, na qual não há separação rígida entre pesquisadora e campo, mas uma continuidade entre experiência vivida, memória e escrita.
A análise se constrói a partir da interlocução entre o conhecimento tradicional e referenciais teóricos da antropologia, especialmente a noção de eficácia simbólica, sem, contudo, reduzir a prática observada a explicações exclusivamente psicossociológicas. Trata-se de reconhecer a racionalidade própria desses saberes, considerando-os como sistemas de conhecimento que articulam corpo, ambiente e espiritualidade.
Desse modo, a metodologia articula etnografia, escrevivência e conversas de varanda como formas de produzir conhecimento situado, comprometido com os saberes locais e com as experiências de mulheres que sustentam práticas de cuidado em seus territórios.
As “conversas de varanda” constituem o eixo metodológico central desta investigação, sendo compreendidas como espaço de escuta, partilha e produção de conhecimento. A varanda, enquanto espaço social, não é apenas cenário, mas dispositivo metodológico que possibilita a circulação de narrativas, afetos e saberes entre mulheres, operando como lugar de construção coletiva de sentidos sobre o corpo, a dor e a cura.
A narrativa etnográfica emerge, assim, da articulação entre o vivido e o narrado, entre o corpo que observa e o corpo que sente, incorporando dimensões sensoriais, emocionais e relacionais do campo.
Resultados e Discussão
Quando descentralizada, a "mãe do corpo" indica desajustes que atravessam tanto o organismo quanto o ambiente e a espiritualidade, anuncia desajustes que afeta o corpo com dores e desconfortos.
Segundo a Vovozona as queixas de minha mãe era queixas de alguém que estava com a mãe do corpo descentralizada e vagando pelo seu corpo.
Vovozona de imediato dá o diagnóstico do relato da minha mãe: “isso é típico de mãe do corpo fora do umbigo, vou coloca-la de volta!”.
Os efeitos dos procedimentos feitos por Vovozona, a massagem, uma reza silenciosa, as movimentações das mãos empurrando algo para direção do umbigo demonstram uma técnica que segue um método.
Após os procedimentos mamãe já relata melhora e que se sente bem, não ouvi mais queixas de dores “desviadas”.
Conclusões/Considerações Finais
A “puxação” de barriga assim como as rezas, banhos de ervas, chás, benzimento foi por muito tempo a única forma de busca por cura de doenças para comunidades tradicionais.
A mãe do corpo não é uma doença, é um elemento importante na saúde da mulher e proporciona um bem viver e quando o corpo está adoecido ela dar sinais de descentralizada.
O objetivo da “puxação” de barriga é trazer a mãe do corpo para seu local de centralização a região umbilical e assim reestabelecer a saúde da pessoa.
Escrevivo a partir das mãos que me moldaram e das várias conversas de varanda, minha escrita é encarnada, este texto é um gesto de reconexão entre corpo, território e memória.
CORAZÓN DE AJÍ: CUIDADOS TRADICIONAIS DA PRIMEIRA INFÂNCIA NO VAUPÉS
Comunicação Oral
1 Sinergias - Alianzas Estratégicas para la Salud y el Desarrollo Social
Apresentação/Introdução
O departamento de Vaupés (Colômbia) abriga diversos povos indígenas cujos saberes ancestrais, transmitidos oralmente, garantem bem-estar coletivo. A fertilidade de humanos, animais e plantas é responsabilidade compartilhida. Práticas como preparo de alimentos, restrições alimentares e cuidado corporal orientam esse fim. No entanto, esses saberes enfraquecem: jovens estudam longe e instituições de saúde os desconhecem, gerando choques e perda de confiança. Há dez anos, a Sinergias acompanha processos de saúde intercultural no Vaupés. Entre 2022 e 2024, a iniciativa “Coração de pimenta” trabalhou com 20 comunidades de Mitú, fortalecendo protagonismo feminino, soberania alimentar e cuidados na primeira infância, resultando em materiais educomunicativos.
Objetivos
Fortalecer o cuidado infantil em comunidades indígenas do Vaupés por meio da co-construção de materiais educomunicativos que integrem saberes tradicionais e técnicos. Especificamente: recopilar práticas e receitas para crianças menores de cinco anos; promover diálogo intercultural; e desenvolver recursos educativos (recetário, cartilha, plegável) para uso comunitário e institucional, contribuindo para revitalização cultural e sensibilização de profissionais de saúde.
Metodologia
Adotou-se uma pesquisa colaborativa com enfoque formativo e experiencial. O trabalho foi realizado em 20 comunidades indígenas de Mitú. Participaram profissionais de saúde, cientistas sociais, especialistas indígenas e oito lideranças mulheres. O desenvolvimento ocorreu em ciclos iterativos de diálogo intercultural: 1) Recolha de informações por meio de oficinas comunitárias e familiares, entrevistas, registros orais e exercícios práticos, além de dados secundários de processos anteriores da Sinergias. 2) Análise e validação: receitas padronizadas com nutricionista e lideranças; práticas organizadas por etapas da vida. 3) Produção de materiais educativos: construção coletiva de mensagens-chave, ilustradas pelo coletivo indígena de comunicadores Takaka, respeitando símbolos significativos e favorecendo a transmissão oral e visual em múltiplas línguas. O processo foi sustentado por mais de uma década de construção de confiança entre a equipe técnica e as comunidades
Resultados e Discussão
Os principais resultados incluem: o recetário “Receitas da selva para o cuidado da infância”, com preparações à base de ingredientes locais para episódios de doença ou recuperação nutricional, padronizado com nutricionista e mulheres líderes; um plegável com recomendações de cuidado por etapa de vida; e uma Cartilha de cuidados tradicionais ilustrada pelo coletivo Takaka. Esses materiais foram utilizados em processos de educação em saúde comunitária e compartilhados com instituições de saúde locais, sensibilizando profissionais para a interculturalidade. Foram integrados aos cursos de preparação para a maternidade/paternidade do hospital local, e o recetário passou a ser usado pela equipe de nutrição para adaptar menus tradicionais no parto e puerpério. Paralelamente, realizou-se acompanhamento antropométrico de crianças menores de cinco anos, detectando casos com necessidades nutricionais especiais.
A discussão aponta que a co-construção de materiais educomunicativos é essencial para reconhecer a diversidade epistemológica e evitar homogeneização cultural. O bem-estar infantil, para os povos indígenas, começa com o cuidado integral das mulheres, especialmente nos rituais de puberdade. Os materiais produzidos contribuem para a Rota Própria de Atenção Integral e para a construção do Sistema Indígena de Saúde Próprio e Intercultural (SISPI), mas requerem articulação com as rotas materno-perinatais e de manutenção da saúde do sistema nacional. A metodologia promoveu relações horizontais, posicionando as comunidades como criadoras ativas, com destaque para as mulheres como guardiãs dos saberes. O corpo é entendido como território de conhecimento, e a alimentação como veículo de memória e reciprocidade. A implementação efetiva dessas rotas exige vontade política, recursos adequados e formação de profissionais que valorizem os saberes indígenas
Conclusões/Considerações Finais
A saúde materno-infantil em comunidades indígenas demanda enfoques interculturais que integrem saberes tradicionais e técnicos. As práticas ancestrais de cuidado, alimentação e saúde são essenciais para o bem-estar dessas populações. A co-construção de materiais educomunicativos com a participação de mulheres, sábios e famílias indígenas fortalece a transmissão intergeracional e promove o reconhecimento institucional das práticas próprias. O protagonismo feminino foi chave na recuperação e difusão desses saberes por meio de recetários, cartilhas e mensagens ilustradas. Para avançar rumo a um modelo de saúde intercultural, é fundamental reconhecer e articular as rotas próprias de cuidado com o sistema de saúde oficial, o que requer vontade política, financiamento adequado e formação de talento humano que valorize os saberes indígenas
FORMAÇÃO EM SAÚDE E CUIDADO EM TERRITÓRIO RIBEIRINHO: EXPERIÊNCIA NA VILA DE URUCURITUBA, AMAZONAS
Comunicação Oral
1 UEA
Contextualização
A contextualização fundamenta-se no reconhecimento das populações ribeirinhas como sujeitos historicamente invisibilizados nas políticas públicas, sendo incorporadas de forma tardia à Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA). Nesse sentido, o território não se limita a um espaço geográfico, mas configura-se como produtor de vida, saúde e conhecimento, sustentado por saberes construídos na relação entre corpo, rio, terra e modos de viver, revelando que o cuidado também se constitui a partir de experiências compartilhadas. As dificuldades vivenciadas nesse território refletem um cenário estrutural mais amplo. O Brasil é marcado por desigualdades socioeconômicas entre indivíduos e regiões e, no meio rural, persistem limitações de acesso aos serviços de saúde e à utilização de cuidados ambulatoriais, configurando um desafio histórico para o Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 2015).
Descrição
A experiência ocorreu a partir da vivência como profissional da Atenção Básica e mestranda do PROFSAÚDE, evidenciando a articulação entre prática profissional, formação acadêmica e vínculo com o território. Foi desenvolvida na UBS Santa Verônica, referência para a população da Vila de Urucurituba e comunidades adjacentes, com acesso predominantemente fluvial, marcado por longos deslocamentos e limitações logísticas. Durante a disciplina, foram intensificadas ações no território, incluindo visitas domiciliares, atendimentos em áreas de várzea e acompanhamento de usuários em locais de difícil acesso, indicando que o cuidado em saúde se constrói para além do espaço institucional.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida no período de agosto a dezembro de 2025.
Objetivo
Este relato de experiência tem como objetivo destacar a importância de disciplinas voltadas às Populações do Campo, Florestas e Águas para profissionais que atuam em territórios ribeirinhos, enfatizando a necessidade de maior divulgação e incorporação dessa abordagem nos processos formativos, de modo a qualificar o cuidado e promover maior equidade em saúde.
Resultados
Os resultados demonstram que barreiras geográficas, sociais e econômicas impactam diretamente o acesso e a continuidade da atenção, especialmente em situações que demandam encaminhamento para serviços especializados. Ao mesmo tempo, o território revela potências, como práticas tradicionais de cuidado, uso de plantas medicinais e saberes transmitidos entre gerações, que contribuem para a produção do cuidado de forma coletiva.
Aprendizado e Análise Crítica
Entre os aprendizados, destaca-se a importância de reconhecer os saberes populares dos povos da floresta e das águas como elementos centrais no cuidado, exigindo uma relação mais horizontal entre profissionais e comunidade. A experiência demonstrou que o diálogo entre diferentes formas de conhecimento fortalece práticas mais sensíveis e culturalmente adequadas, ampliando a capacidade de resposta do cuidado.
A análise crítica aponta que a efetividade da PNSIPCFA depende de sua materialização em práticas orientadas pelo território, o que implica financiamento adequado e direcionado, bem como a organização dos serviços conforme o contexto e formação profissional alinhada as particularidades desses territórios. Persistem desafios relacionados à invisibilidade desses saberes e à predominância de modelos biomédicos que não contemplam a complexidade das populações ribeirinhas. Conclui-se que o cuidado em saúde nesses territórios exige a articulação entre conhecimento técnico-científico e saberes tradicionais, reconhecendo a riqueza do modo de cuidar dos povos da floresta e das águas, reforçando a necessidade de ampliar iniciativas formativas capazes de qualificar profissionais e promover práticas mais justas, sensíveis e comprometidas com a realidade dos territórios.
MISSÃO BRASIL-COLÔMBIA: UM DIÁLOGO ENTRE INTERCULTURALDADE, SAÚDE MENTAL E TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATICA NA APS
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ
Contextualização
A Terapia Comunitária Integrativa (TCI) é uma metodologia de cuidado coletiva utilizada em diversos territórios brasileiros e em alguns países das Américas, Europa e África para acolher sofrimentos e fortalecer redes de apoio. Considerando o aumento de casos de sofrimento psíquico, suicídio e uso abusivo de álcool entre jovens indígenas na Colômbia, foi realizada uma missão técnica científica Brasil–Colômbia, em 2025, envolvendo atividades em Bogotá e Mitú. A iniciativa buscou trocar experiências entre pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Ong Sinergias, Universidades Nacional da Colômbia, lideranças indígenas e profissionais da saúde sobre práticas participativas de cuidado, apresentar a TCI como estratégia potencial de promoção da saúde mental e compreender o contexto intercultural que caracteriza a região amazônica colombiana. A missão também se justificou pela necessidade de fortalecer diálogos entre instituições dos dois países, ampliando possibilidades de cooperação internacional.
Descrição
A experiência ocorreu em Bogotá e Mitú, departamento de Vaupés, em novembro de 2025 entre a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, a Ong Sinergias e a Universidade Nacional da Colômbia. Foram realizadas reuniões técnicas, rodas de conversa, visitas institucionais e encontros com profissionais de saúde, lideranças indígenas, jovens e membros da ONG Sinergias e Universidade Nacional da Colômbia. Entre os desafios enfrentados estiveram as diferenças linguísticas, especificidades culturais e limitações estruturais locais. Os recursos empregados envolveram equipes brasileiras e colombianas, materiais simples de facilitação e apoio institucional. A TCI foi adaptada para dialogar com práticas tradicionais e modos locais de cuidado, respeitando a diversidade cultural.
Período de Realização
12 a 26 de Novembro de 2025
Objetivo
Promover intercâmbio técnico sobre TCI com instituições colombianas; dialogar sobre práticas de saúde mental comunitária em territórios indígenas; identificar desafios e convergências entre a TCI e saberes tradicionais; e explorar oportunidades de colaboração futura na área de cuidado comunitário.
Resultados
: A missão possibilitou ampliar o diálogo sobre saúde mental comunitária em perspectiva intercultural, bem como fortalecer os vínculos entre as instituições envolvidas. A adaptação da Terapia Comunitária Integrativa (TCI) ao contexto da população em questão, pessoas com deficiência na região amazônica colombiana, favoreceu a criação de um espaço de fala acolhedor, estimulando a expressão de sentimentos, a partilha de histórias de vida e a valorização dos saberes locais. Além disso, abriu caminho para futuras formações em TCI, o desenvolvimento de projetos bilaterais e a consolidação de estratégias de cuidado compartilhado. A Atenção Primária à Saúde (APS) configura-se como um espaço estratégico para a integração de saberes científicos e práticas tradicionais, sobretudo em territórios marcados pela diversidade cultural e pela presença de múltiplas cosmologias. Nesse sentido, o intercâmbio entre Brasil e Colômbia pode contribuir de forma significativa para o avanço de práticas interculturais de cuidado no âmbito da APS. Como proposta decorrente da missão, foi pensado um encontro que envolva pajés, lideranças indígenas, coletivos juvenis, bem como profissionais da saúde e da educação, com vistas à construção coletiva de ações interculturais capazes de responder a desafios comuns, tais como a violência de gênero, o suicídio e o uso abusivo de álcool em comunidades amazônicas. O compartilhamento de vivências propiciará a aprendizagem mútua acerca das práticas de cuidado na APS, articulando saberes indígenas, como rezas e o uso de plantas medicinais com conhecimentos biomédicos e tecnologias sociais. Ao valorizar a espiritualidade, o território e os modos de vida, fortalecem-se estratégias de bem-viver e amplia-se a compreensão sobre saúde mental em contextos interculturais. Assim, ratifica-se a necessidade de fortalecer redes interculturais de cuidado e de desenvolver ações colaborativas entre países amazônicos, promovendo o encontro entre ciência, tradição, arte e políticas públicas.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a TCI é uma ferramenta potente para o cuidado comunitário em contextos interculturais, especialmente em territórios de grande vulnerabilidade. A missão reforçou a importância da escuta sensível, do respeito às tradições e da construção conjunta de práticas de cuidado. Recomenda-se a continuidade da cooperação entre Brasil e Colômbia, ampliando ações de formação, pesquisa e promoção da saúde mental comunitária.
VIGILÂNCIA EM SAÚDE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA COMO DISPOSITIVO COMUNICACIONAL INTERCULTURAL: CONTRIBUIÇÕES DA COMUNICAÇÃO DE RISCO E DA SAÚDE INDÍGENA
Comunicação Oral
1 UFRR
2 UFS
3 UNIR
Apresentação/Introdução
A vigilância em saúde constitui função essencial do Sistema Único de Saúde (SUS) e, nas formulações recentes do campo, tem sido progressivamente compreendida para além de seu escopo técnico-epidemiológico. Na Atenção Primária à Saúde (APS), a centralidade do território, do vínculo e da orientação comunitária reposiciona a vigilância como prática integrada ao cuidado, à promoção da saúde e à gestão local. Entretanto, no cotidiano dos serviços, a vigilância ainda se apresenta frequentemente restrita à produção e ao monitoramento de dados epidemiológicos, com limitações para responder a contextos marcados por desigualdades sociais, diversidade cultural e disputas de sentido sobre saúde e cuidado. Em cenários contemporâneos caracterizados pela circulação intensificada de informações e desinformação, a efetividade da vigilância depende não apenas da produção de dados, mas também da construção de confiança, da comunicação pública e do engajamento comunitário. Nesse contexto, a comunicação de risco e a interculturalidade emergem como dimensões centrais para compreender a vigilância como prática territorial relacional. Este estudo insere-se no campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde e dialoga com o tema do congresso ao discutir a produção social de sentidos sobre saúde, risco e cuidado em territórios socialmente diversos.
Objetivos
Analisar a vigilância em saúde na Atenção Primária à Saúde como dispositivo comunicacional intercultural, articulando contribuições da comunicação de risco e da saúde indígena para a compreensão da vigilância como prática territorial relacional e como estratégia de fortalecimento da integralidade no SUS.
Metodologia
Trata-se de um ensaio teórico-analítico, de natureza qualitativa, fundamentado na análise interpretativa de marcos normativos do Sistema Único de Saúde e de literatura científica da saúde coletiva, da comunicação em saúde, da comunicação de risco e da saúde indígena. O corpus analítico incluiu políticas públicas, diretrizes institucionais e estudos empíricos que abordam vigilância em saúde, Atenção Primária à Saúde e organização da atenção à saúde indígena. Foram mobilizadas referências que discutem vigilância territorial, comunicação de risco, participação social e interculturalidade, articulando diferentes campos disciplinares. A análise foi desenvolvida de forma interpretativa, buscando identificar convergências, tensões e deslocamentos conceituais relacionados à vigilância em saúde como prática territorial e comunicacional.
Resultados e Discussão
A análise indica que a vigilância em saúde, quando restrita à função técnico-epidemiológica, apresenta limitações para responder a contextos marcados por diversidade cultural e desigualdades sociais. Evidências oriundas de emergências sanitárias recentes demonstram que a efetividade das ações de vigilância depende também da construção de confiança, da comunicação pública e do engajamento comunitário. A experiência da saúde indígena no Brasil evidencia a centralidade da mediação cultural, da participação social e da produção compartilhada de sentidos sobre risco e cuidado. A atuação de mediadores locais, como agentes indígenas de saúde e lideranças comunitárias, contribui para a tradução de orientações biomédicas e para a construção de estratégias territorializadas de cuidado. Esses processos revelam que a vigilância em saúde se constitui como prática relacional, articulando informação, comunicação e governança territorial. A partir dessa análise, propõe-se compreender a vigilância como dispositivo comunicacional intercultural estruturado em três dimensões: inteligibilidade pública, mediação e participação social e governança territorial, que permitem ampliar a capacidade de resposta dos serviços de saúde em contextos socialmente diversos.
Conclusões/Considerações Finais
Compreender a vigilância em saúde como dispositivo comunicacional intercultural amplia sua capacidade de produzir adesão, legitimidade e corresponsabilização territorial. A articulação entre vigilância, comunicação e interculturalidade contribui para o fortalecimento da integralidade e da responsividade do SUS, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde. O estudo contribui para o debate contemporâneo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde ao evidenciar que a vigilância em saúde envolve processos comunicacionais e relacionais que ultrapassam a dimensão técnico-informacional, dialogando com os desafios contemporâneos da saúde coletiva e com a necessidade de fortalecer práticas territorializadas e interculturais.
RUMO A UMA COMPREENSÃO INTERCULTURAL DO CONSUMO DE ÁLCOOL EM VAUPÉS, COLÔMBIA
Comunicação Oral
1 Sinergias Alianzas Estratégicas para la Salud y el Desarrollo Social
2 Sinergias Ong e Universidad Nacional de Colombia
Apresentação/Introdução
O consumo problemático de álcool em comunidades indígenas da área suburbana de Mitú, Vaupés, na Amazônia colombiana, reflete transformações históricas e processos de aculturação. Tradicionalmente, a chicha era consumida dentro de rituais com regras comunitárias. Com a introdução de bebidas industrializadas e a perda do controle social, instalaram-se padrões de consumo excessivo associados à violência intrafamiliar, ao suicídio e ao enfraquecimento do tecido comunitário. Este cenário exige abordagens que transcendam o modelo biomédico e incorporem dimensões socioculturais e históricas.
Objetivos
O estudo teve como objetivo analisar o consumo problemático de álcool em comunidades indígenas de Mitú, identificando padrões de consumo, consequências percebidas e possíveis estratégias de regulação, por meio de metodologias participativas e interculturais. Buscou-se, ainda, compreender as tensões entre práticas ancestrais e transformações recentes, além de subsidiar ações de saúde pública culturalmente pertinentes.
Metodologia
Entre abril e novembro de 2025, foi conduzida uma pesquisa financiada pela Coalición América Saludable. Empregaram-se metodologias participativas: grupos focais e diálogos de saberes com comunidades e organizações indígenas para priorizar problemas e coconstruir soluções. Aplicou-se um questionário anônimo com dados demográficos, perguntas do teste AUDIT, conhecimento sobre danos do álcool e apoio à regulação. O instrumento foi aplicado a 62 adultos indígenas com apoio de materiais visuais elaborados coletivamente. Dados qualitativos foram coletados via KoboToolbox®; análise quantitativa descritiva foi feita com Stata 15. Grupos focais foram gravados, transcritos e submetidos à análise de conteúdo para identificar temas, variantes e significados. O projeto foi aprovado pelo comitê de ética da Universidad Externado de Colombia.
Resultados e Discussão
Os materiais visuais foram decisivos para a aplicação do questionário. Constatou-se que 7% dos participantes estavam na zona de risco IV do AUDIT, com prevalência três vezes maior entre homens. A maioria reconhece consequências negativas: 85,5% para a saúde individual e 87,1% para a comunidade. Esse alto reconhecimento contrasta com a prevalência de consumo de risco, indicando que o conhecimento não se traduz automaticamente em mudança de comportamento. Nos grupos focais, o álcool foi descrito como o "pai de todos os problemas", associado à maioria dos casos de violência de gênero e comportamento suicida. A perda de mecanismos tradicionais de contenção emocional e a descontextualização do consumo emergiram como fatores centrais. Embora haja apoio generalizado a ações de regulação, nenhuma medida concreta foi definida durante o processo.
A discussão aponta que a problemática do álcool requer interpretação que vá além do enfoque biomédico, incorporando dimensões socioculturais, históricas e estruturais. Os níveis de risco refletem transformações sociais enraizadas em desigualdades persistentes e no legado colonial.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa confirma que o consumo problemático de álcool representa um nó crítico de tensões socioculturais. Práticas ancestrais com funções integradoras colidem com bebidas industrializadas, desigualdades históricas e mudanças sociais que enfraquecem a autoridade tradicional. Identifica-se um paradoxo central: alta consciência comunitária sobre os danos coexiste com percepção majoritariamente neutra ou positiva do consumo, revelando profunda ambivalência cultural. O álcool, que historicamente mediou a construção do social, passou a atuar contra a própria coesão. Os achados evidenciam a insuficiência de intervenções convencionais baseadas exclusivamente em proibição, fiscalização ou educação sanitária descontextualizada. A transformação real reside em estratégias de tradução intercultural que articulem saúde pública e redução de danos em uma linguagem culturalmente significativa e legítima.
“OS DOIS TÊM QUE CAMINHAR JUNTOS”: INTERMEDICALIDADE NO CUIDADO AO CÂNCER DO COLO DO ÚTERO ENTRE MULHERES INDÍGENAS EM SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA (AM)
Comunicação Oral
1 Fiocruz/Brasília
Apresentação/Introdução
No Brasil, o câncer do colo do útero (CCU) é o terceiro mais incidente entre mulheres, com taxas mais elevadas na região Norte e impacto desproporcional sobre populações indígenas, marcadas por diagnóstico tardio, menor sobrevida e barreiras de acesso ao cuidado. Apesar dos avanços nas diretrizes de rastreamento, como a incorporação dos testes de DNA-HPV, persistem desafios no acesso à prevenção e ao tratamento oportuno, bem como na compreensão de sua implementação em diferentes contextos territoriais. Nesse cenário, destaca-se o conceito de intermedicalidade (Fóller, 2004), entendido como zona de contato na qual sistemas biomédicos e saberes tradicionais interagem e produzem formas dialogadas de cuidado. Considerando que a efetividade das intervenções depende também de sua aderência às dinâmicas socioculturais, este estudo analisa como mulheres indígenas de São Gabriel da Cachoeira (AM) experienciam o cuidado relacionado ao CCU.
Objetivos
Analisar, à luz da intermedicalidade, como mulheres indígenas de São Gabriel da Cachoeira (AM) experienciam os processos de cuidado relacionados ao CCU, evidenciando as interações entre saberes biomédicos e tradicionais.
Metodologia
Estudo qualitativo realizado em São Gabriel da Cachoeira (AM), no contexto de estratégias de rastreamento baseadas em autocoleta para detecção do HPV. Foram conduzidas 30 entrevistas semiestruturadas (20 com mulheres e 10 com profissionais de saúde), entre 2024 e 2025, em Unidades Básicas de Saúde. Os dados foram analisados por análise temática, com organização em eixos analíticos e garantia de anonimato. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética.
Resultados e Discussão
A pesquisa evidencia que as práticas de cuidado entre mulheres indígenas não se organizam por exclusão entre sistemas médicos, mas por articulação relacional entre diferentes saberes. A biomedicina (“medicina do branco”) e os saberes tradicionais (como chás e benzimentos) são mobilizados de forma complementar, a partir da agência das mulheres em “conciliar os dois” no cuidado em saúde. Essa complementaridade se expressa no uso simultâneo de medicamentos biomédicos e remédios caseiros, entendidos como mutuamente fortalecedores. Como relatado, “eu tomo o remédio da farmácia e o caseiro também”, evidenciando uma lógica de soma. Tal dinâmica dialoga com a intermedicalidade, entendida como zona de contato onde sistemas distintos interagem e produzem formas híbridas de cuidado. Observa-se, contudo, uma hierarquia prática: os saberes tradicionais constituem a primeira instância de cuidado, sendo a biomedicina acionada em situações de agravamento ou ausência de melhora: “primeiro vai pros chás… se não melhorar, vai pro médico”. Esse padrão também é reconhecido por profissionais, que relatam que as usuárias chegam aos serviços “quando já tinham tentado de tudo”. A intermedicalidade também se manifesta nas diferentes temporalidades e lógicas de eficácia atribuídas aos sistemas médicos. Enquanto a biomedicina é associada à rapidez e padronização, os saberes tradicionais são compreendidos como processos mais lentos, dependentes de preparo e continuidade. Ainda assim, sua eficácia é sustentada por fé, experiência e transmissão intergeracional. Outro aspecto central é a tradução de categorias diagnósticas entre sistemas, como no caso da “majuba”, associada a relações entre corpo, território e entidades não humanas. Nesses casos, o cuidado pode envolver práticas tradicionais, como benzimentos para “fechar o corpo”, e intervenções biomédicas, revelando a coexistência de racionalidades. A presença de profissionais indígenas nos serviços, especialmente enfermeiras, facilita essa articulação ao favorecer vínculos de confiança e reduzir a deslegitimação dos saberes locais. Ao mesmo tempo, persistem tensões, relacionadas a diferenças religiosas e à valorização desigual entre sistemas. Nesse contexto, a intermedicalidade configura-se como um espaço dinâmico, atravessado por relações de poder e negociações entre diferentes epistemologias.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados indicam que a efetividade das ações em saúde indígena não reside apenas na incorporação de tecnologias biomédicas, mas na construção de práticas interculturais que reconheçam e dialoguem com saberes tradicionais. Reforça-se a necessidade de modelos de cuidado que promovam equidade, respeitando concepções indígenas de corpo, doença e bem viver.
Realização: