Programa - Comunicação Oral Curta - COC25.1 - Percursos do Cuidado Intercultural
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE EM COMUNIDADES DA PESCA ARTESANAL: PRÁTICAS DE CUIDADO NA RESEX ACAÚ-GOIANA
Comunicação Oral Curta
1 UFPB
Apresentação/Introdução
Territórios da pesca artesanal configuram espaços socioculturais complexos nos quais trabalho, ambiente e modos de vida se entrelaçam na produção da saúde. A Reserva Extrativista Acaú-Goiana, localizada entre Paraíba e Pernambuco, abriga comunidades tradicionais cuja reprodução social depende diretamente dos ecossistemas costeiros e estuarinos. Apesar da relevância econômica, cultural e alimentar da pesca artesanal, essas populações permanecem historicamente invisibilizadas nas políticas públicas e nos serviços de saúde. Nesse sentido, a Atenção Primária à Saúde (APS), operacionalizada principalmente pela Estratégia Saúde da Família (ESF), constitui a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde e desempenha papel central na produção do cuidado territorializado. Contudo, desafios relacionados à formação profissional, à organização dos serviços e ao reconhecimento das especificidades socioculturais desses territórios podem limitar a efetividade das ações de saúde.
Objetivos
Analisar as estratégias de cuidado desenvolvidas pelas equipes da Estratégia Saúde da Família em territórios da pesca artesanal da RESEX Acaú-Goiana, considerando as relações entre trabalho, ambiente e saúde no cotidiano da Atenção Primária.
Metodologia
Estudo exploratório de abordagem qualitativa com componente descritivo quantitativo, realizado com 109 trabalhadores vinculados a nove Unidades de Saúde da Família que atuam em territórios da pesca artesanal na RESEX Acaú-Goiana. Inicialmente foi aplicado questionário sociodemográfico e profissional para caracterização dos participantes. Em seguida, realizaram-se grupos focais com profissionais de diferentes categorias da equipe de saúde. Os dados qualitativos foram analisados por meio da Análise de Conteúdo Temática, buscando identificar sentidos atribuídos às práticas de cuidado nos territórios dos povos das águas.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que o cuidado ofertado às comunidades da pesca artesanal é marcado por ações fragmentadas e predominantemente curativas, com baixa integração entre promoção da saúde, prevenção de agravos e vigilância em saúde. As práticas educativas realizadas pelas equipes tendem a seguir pautas definidas pelas gestões municipais, frequentemente desvinculadas das especificidades do território e das condições de trabalho da pesca artesanal. Essa dinâmica limita o potencial transformador das ações de educação em saúde e dificulta o reconhecimento dos determinantes socioambientais do adoecimento. Ao mesmo tempo, foram identificadas potências relacionadas ao vínculo estabelecido entre equipes e comunidades, especialmente por meio da atuação dos Agentes Comunitários de Saúde, que desempenham papel fundamental na mediação entre serviços e território. Também se evidenciou que processos de educação permanente territorializados podem ampliar a capacidade das equipes de reconhecer vulnerabilidades e construir respostas mais adequadas às necessidades locais.
Conclusões/Considerações Finais
O fortalecimento da Atenção Primária à Saúde em territórios da pesca artesanal exige estratégias que reconheçam a centralidade do território, do trabalho e do ambiente na produção da saúde. Investimentos em educação permanente, práticas de cuidado territorializadas e articulação intersetorial mostram-se fundamentais para superar abordagens fragmentadas e promover cuidado integral às populações tradicionais. Tais iniciativas contribuem para enfrentar desigualdades socioambientais e fortalecer a construção de territórios saudáveis e sustentáveis, em consonância com os desafios contemporâneos da saúde coletiva.
COMPETÊNCIAS INTERCULTURAIS DE AGENTES DE SAÚDE: ENFRENTAMENTO DAS INIQUIDADES NO SUS
Comunicação Oral Curta
1 UFRGS
Apresentação/Introdução
O Programa Saúde com Agente (PSA), instituído em 2020, representou um marco na qualificação profissional na APS ao ofertar cursos técnicos para os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e os Agentes de Combate às Endemias (ACE). O intuito desse programa foi capacitar esses profissionais para que, ao identificarem as demandas sociosanitárias, pudessem construir estratégias de cuidado territorizadas, especialmente em comunidades em situações de maior vulnerabilidade social. Na vasta diversidade cultural no Brasil, refletir sobre as competências interculturais dos profissionais de saúde é fundamental para compreender o cotidiano de trabalho na APS, suas situações multiculturais e relações plurais na integração entre agentes de saúde e os diversos grupos sociais.
Objetivos
Interpretar como as competências interculturais dos agentes de saúde no cotidiano de trabalho influenciam na construção do cuidado frente à diversidade cultural dos distintos territórios.
Metodologia
Este estudo integra o projeto de pesquisa "A formação no programa Saúde com Agente: análises sobre processos de trabalho, indicadores de saúde nas comunidades, perfil sociodemográfico e desenvolvimento de habilidades e competências para ACS e ACE", aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CAAE: 60867922.6.0000.5347). O estudo possui uma abordagem qualitativa, com abrangência nacional, e os participantes da pesquisa foram os agentes de saúde cursistas da formação técnica do PMSA entre 2022 e 2023. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas com ACS/ACE, e o roteiro abordou temas sobre competência cultural. A aplicação do instrumento aconteceu nas cinco regiões do país, de forma remota. Para a análise, os dados foram sistematizados em uma matriz de códigos, estruturados em categorias para análise do discurso (AD).
Resultados e Discussão
Foram consideradas 106 entrevistas, distribuídas em todas as regiões, com predominância de mulheres que atuavam como ACS. Oestudo contemplou áreas metropolitanas e rurais. A proximidade e o acompanhamento das famílias em visitas domiciliares (VD) e a inspeção territorial favorecem que os agentes sejam sensíveis a perceber como as singularidades no modo de viver influenciam nas demandas de saúde. Um ponto central para esses profissionais são as intensas discrepâncias sociais e econômicas nas regiões. Nesse cenário, o processo de trabalho territorializado é atravessado por profundas desigualdades sociais, onde os marcadores de diferença — como classe, raça e gênero — influenciam o acesso e a qualidade do cuidado e os desafiam a estabelecer processos de trabalho. Por isso, os agentes se deparam com questões contraditórias e sentimentos ambivalentes em relação às suas competências interculturais, pois embora compreendam que os aspectos culturais podem ser mediados na produção do cuidado em saúde, entendem que as profundas desigualdades sociais fogem de suas competências e os limitam em suas potencialidades. Apesar disso, os agentes buscam estratégias (comunicação horizontal, diálogo entre diferentes, não recriminação, incorporação de práticas locais e saberes populares, entre outras) que amenizem as iniquidades em saúde ao proporcionar um atendimento mais equânime.
Conclusões/Considerações Finais
As questões culturais e interculturais estão relacionadas aos diversos modos de “viver a vida” pelos indivíduos em distintos territórios. O trabalho dos agentes de saúde nos territórios estabelece um elo muito importante entre o serviço de saúde e a comunidade, fortalecendo seus vínculos com diversos grupos sociais, com diferentes crenças e culturas.
Frente aos desafios macrossociais, o trabalho territorial e na comunidade dos agentes, permeado por sensibilidade cultural, favorece a coprodução de lógicas clínicas e sanitárias que rompem ações protocolares em saúde ao considerarem as singularidades das pessoas, comunidades e regiões. Na perspectiva das competências culturais, estas ações encontram o reconhecimento de diferentes necessidades e das características étnicas, raciais e culturais que marcam os processos de saúde e doença. Assim, ao conviverem e partilharem experiências nos territórios, os agentes de saúde desenvolvem e moldam novas formas para suas intervenções em saúde, transformando a prática profissional em uma estratégia de resistência e enfrentamento às iniquidades em saúde.
ECOLOGIA HUMANA E ECOLOGIA MÉDICA NA CAATINGA: SABERES INDÍGENAS E PRÁTICAS INTERCULTURAIS DE SAÚDE NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO
Comunicação Oral Curta
1 UFOB
2 UFPB
3 UNIVASF
4 SEDUCE/Petrolina
5 IF Brasília
6 IF Sertão
Apresentação/Introdução
A Ecologia Humana constitui um campo interdisciplinar que investiga as relações dinâmicas entre seres humanos e seus ambientes naturais, sociais e construídos, considerando processos de adaptação, organização social e sustentabilidade. Ao compreender o ser humano como parte integrante dos ecossistemas, essa perspectiva evidencia como práticas culturais, modos de vida e formas de ocupação do território influenciam e são influenciadas pelas condições ambientais. Em articulação, a Ecologia Médica amplia essa abordagem ao analisar as interações entre saúde, ambiente e processos de adoecimento, incorporando fatores biológicos, sociais, culturais e ecológicos em uma perspectiva holística. Tal enfoque permite compreender a saúde para além de sua dimensão biomédica, reconhecendo-a como resultado de múltiplas determinações que envolvem relações com o território, com os outros e com o mundo simbólico.
No contexto do semiárido brasileiro, particularmente no bioma Caatinga, essas abordagens revelam-se fundamentais para compreender como populações tradicionais constroem práticas de cuidado baseadas na integração entre território, cultura e saúde, em condições marcadas por escassez hídrica e variabilidade ambiental. Nesse cenário, destacam-se os saberes tradicionais, especialmente aqueles conduzidos por mulheres pajés, curandeiras, raizeiras e parteiras, que desempenham papel central na produção e na transmissão de conhecimentos relacionados ao cuidado. Suas práticas articulam dimensões físicas, espirituais e comunitárias, sustentando formas próprias de atenção à saúde. A presente pesquisa insere-se nesse contexto e parte de um vínculo direto com a comunidade, fundamentado em relações de proximidade, convivência e confiança, o que possibilita uma compreensão mais situada e sensível das dinâmicas locais de cuidado e saúde.
Objetivos
Analisar como saberes tradicionais, à luz da Ecologia Humana e da Ecologia Médica, contribuem para práticas de cuidado em saúde no contexto da Caatinga, destacando o protagonismo feminino e as possibilidades de diálogo intercultural com a Atenção Primária à Saúde.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, com abordagem etnográfica, realizada em território indígena do povo Atikum-Umã, localizado no semiárido nordestino, em contexto de diversidade sociocultural marcado pela proximidade com comunidade quilombola. Foram utilizadas observação participante, entrevistas semiestruturadas com mulheres pajés, parteiras, raizeiras e demais membros da comunidade, além do registro de práticas terapêuticas locais. O vínculo prévio com o território possibilitou maior inserção nas dinâmicas culturais e no acesso aos saberes tradicionais. A análise dos dados foi realizada por meio de abordagem temática, da análise do conteúdo.
Resultados e Discussão
A Ecologia Humana é um campo interdisciplinar que analisa as relações entre seres humanos e seus ambientes naturais, sociais e construídos, considerando adaptação, organização social e sustentabilidade. Ao entender o ser humano como parte dos ecossistemas, evidencia-se como práticas culturais, modos de vida e formas de ocupação do território influenciam e são influenciados pelo ambiente. A Ecologia Médica complementa essa perspectiva ao examinar as interações entre saúde, ambiente e adoecimento, integrando fatores biológicos, sociais, culturais e ecológicos. Assim, a saúde passa a ser compreendida como resultado de múltiplas determinações, para além da visão estritamente biomédica. No semiárido brasileiro, especialmente na Caatinga, essas abordagens ajudam a compreender como populações tradicionais desenvolvem práticas de cuidado integradas ao território e à cultura, em um contexto de escassez hídrica. Destacam-se os saberes tradicionais, frequentemente conduzidos por mulheres como curandeiras, raizeiras e parteiras, que desempenham papel essencial na produção e transmissão de conhecimentos de cuidado. Suas práticas articulam dimensões físicas, espirituais e comunitárias, sustentando formas próprias de atenção à saúde. Esta pesquisa parte de uma relação próxima com a comunidade, baseada na convivência e na confiança, permitindo uma compreensão mais sensível das dinâmicas locais de cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Os saberes tradicionais no contexto da Caatinga, especialmente aqueles conduzidos por mulheres, constituem elementos fundamentais para práticas de saúde sustentáveis e culturalmente contextualizadas. A articulação desses conhecimentos com a Atenção Primária à Saúde pode fortalecer o cuidado intercultural no SUS, contribuindo para práticas mais integradas e eficazes. Destaca-se a necessidade de reconhecimento institucional desses saberes e do fortalecimento de políticas públicas que promovam o diálogo horizontal entre diferentes sistemas de conhecimento.
ENTRE RIOS E MEDICAMENTOS: DESAFIOS DA ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA EM UMA UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE FLUVIAL NA AMAZÔNIA.
Comunicação Oral Curta
1 UFOPA
Contextualização
A assistência farmacêutica constitui um componente essencial da Atenção Primária à Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo fundamental para a promoção do uso racional de medicamentos e para a integralidade do cuidado (BRASIL, 2014). Além disso, compreende um conjunto de ações que envolvem seleção, programação, aquisição, armazenamento, distribuição e dispensação de medicamentos, articuladas à educação em saúde e ao acompanhamento farmacoterapêutico dos usuários. Em territórios amazônicos, marcados por isolamento geográfico, limitações estruturais e diversidade sociocultural, o acesso a medicamentos e insumos de saúde apresenta desafios singulares, exigindo estratégias diferenciadas de organização do cuidado (FIGUEIRA et al., 2020).
Nesse contexto, fatores como longas distâncias, sazonalidade dos rios, dificuldades logísticas e limitação de recursos humanos impactam diretamente a continuidade da assistência. As Unidades Básicas de Saúde Fluviais (UBSF) emergem como importantes dispositivos para reduzir iniquidades, ampliando o acesso às ações de saúde em comunidades ribeirinhas, populações indígenas e comunidades tradicionais, contribuindo para a equidade no SUS e para a efetivação do direito à saúde nesses territórios.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência com abordagem crítico-reflexiva, desenvolvido a partir da atuação de residente farmacêutica na Residência Multiprofissional em Estratégia Saúde da Família da Universidade Federal do Oeste do Pará, no contexto da UBSF Abaré, localizada na região oeste do Pará. O cenário envolveu atendimento a populações ribeirinhas, indígenas e comunidades tradicionais, com desenvolvimento de ações de dispensação de medicamentos, orientação quanto ao uso racional, acompanhamento de usuários e participação em atividades educativas e de planejamento em saúde na Atenção Primária.
Adicionalmente, foram realizadas atividades de organização do estoque, controle de validade e monitoramento do consumo de medicamentos, bem como articulação com a equipe multiprofissional para discussão de casos e construção de planos de cuidado compartilhados.
Período de Realização
O estudo foi desenvolvido no período de março a outubro de 2025.
Objetivo
Refletir sobre os desafios da assistência farmacêutica em uma Unidade Básica de Saúde Fluvial na Amazônia, considerando as especificidades territoriais e interculturais do cuidado.
Resultados
A experiência evidenciou que a assistência farmacêutica na UBSF Abaré é marcada por limitações no acesso a medicamentos e insumos, com oferta predominantemente voltada a condições básicas e programas como Hiperdia e planejamento familiar. Essa restrição impacta a resolutividade das ações e exige estratégias adaptativas no cuidado, como priorização de casos, uso racional dos recursos disponíveis e fortalecimento de ações educativas.
Observou-se que o uso de medicamentos no território é frequentemente descrito como automedicação. No entanto, em contextos de acesso intermitente aos serviços de saúde, essa prática pode representar também uma estratégia de cuidado socialmente construída, baseada na experiência e na circulação de saberes comunitários (GAMA; SECOLI, 2020). Nesse sentido, o farmacêutico assume papel fundamental na orientação qualificada, respeitando os contextos de vida dos usuários e promovendo o uso seguro dos medicamentos.
Identificou-se ainda forte presença de saberes tradicionais, especialmente entre populações indígenas e ribeirinhas, com uso de plantas medicinais associado a medicamentos alopáticos. Essa prática, embora culturalmente relevante, pode envolver riscos relacionados a interações medicamentosas e efeitos adversos, evidenciando a necessidade de uma atuação farmacêutica sensível ao diálogo intercultural (BRASIL, 2012). Também foi observado que a comunicação em saúde, por vezes limitada por barreiras linguísticas e culturais, demanda estratégias diferenciadas e adaptadas à realidade local.
Aprendizado e Análise Crítica
Destaca-se a ampliação do olhar do farmacêutico para além da dimensão técnica, incorporando aspectos sociais, culturais e territoriais que influenciam o uso de medicamentos. A residência multiprofissional contribuiu para o desenvolvimento de competências como escuta qualificada, educação em saúde, trabalho em equipe e mediação intercultural, favorecendo uma prática mais humanizada.
Na UBSF, a assistência farmacêutica enfrenta desafios relacionados a determinantes territoriais, sociais e culturais que impactam o acesso e o uso de medicamentos. A automedicação pode representar estratégia de autocuidado diante dessas barreiras.
A limitação no abastecimento e na oferta de medicamentos evidencia a necessidade de fortalecimento das políticas públicas. Destaca-se ainda a importância da integração entre saberes biomédicos e tradicionais, promovendo um cuidado integral, sensível ao contexto sociocultural.
FINANCIAMENTO DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: POTENCIALIZANDO O CUIDADO DE POPULAÇÕES ESPECÍFICAS
Comunicação Oral Curta
1 SES/RS
Contextualização
A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui o nível de atenção responsável por organizar o cuidado, coordenar as redes e responder por mais de 80% das necessidades de saúde da população. Apesar disso, o subfinanciamento histórico da APS no Brasil tem comprometido a execução de seus atributos essenciais, resultando em dificuldades no acesso, sobrecarga de profissionais e baixa efetividade dos serviços. Diante desse cenário, o Rio Grande do Sul instituiu, por meio do Decreto nº 56.061/2021, o Programa Estadual de Incentivos para Atenção Primária à Saúde (PIAPS), cujo propósito é qualificar o cuidado ao fortalecer o financiamento municipal com repasses regulares e automáticos. O PIAPS se estrutura em cinco componentes: (1) Sociodemográfico; (2) Incentivo às Equipes da APS; (3) Promoção da Equidade em Saúde; (4) Primeira Infância Melhor; e (5) Estratégico de Qualificação da APS. Entre eles, o componente Sociodemográfico se destaca por induzir equidade a partir de repasses per capita diferenciados conforme características populacionais específicas dos municípios.
Descrição
As reflexões aqui apresentadas consideram também dados populacionais provenientes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rede Interagencial de Informações para a Saúde (RIPSA), Cadastro Único, dados da Superintendência dos Serviços Penitenciários e o Sistema de Registro Nacional Migratório, utilizados como critérios para o cálculo dos repasses. O componente sociodemográfico prevê um repasse total de R$ 109.670.003,31 para o ano de 2026, distribuído conforme critérios que incluem população geral, municípios com percentual elevado de população rural, crianças de zero a quatro anos, pessoas idosas em diferentes faixas etárias, população indígena, negra, migrante internacional, privada de liberdade, assentada, pessoas com deficiência e população em situação de rua. Os valores variam entre R$ 5,08 e R$ 6,72 per capita, refletindo a heterogeneidade das necessidades em saúde.
Período de Realização
Análise do componente Sociodemográfico entre 2021 e 2025 do PIAPS. Os resultados observados ao longo do período analisado evidenciam que o recurso tem permitido aos municípios desenvolver estratégias mais alinhadas às demandas de populações específicas, fortalecendo ações territorializadas. Municípios com grande concentração de migrantes internacionais, por exemplo, utilizaram o incentivo para ampliar o acolhimento, qualificar a comunicação intercultural e reorganizar fluxos de cuidado. Da mesma forma, municípios com menor capacidade econômica têm se beneficiado da regularidade e previsibilidade dos repasses, possibilitando planejamento de médio a longo prazo, algo historicamente desafiador em contextos de baixa arrecadação.
Objetivo
O presente trabalho trata-se de um relato de experiência baseado na análise normativa do PIAPS e no acompanhamento técnico das ações de planejamento municipal decorrentes da aplicação do componente Sociodemográfico.
Resultados
O componente Sociodemográfico do PIAPS tem se mostrado uma estratégia promissora para qualificar a APS, ao reconhecer a heterogeneidade das necessidades em saúde entre os municípios gaúchos, respondendo aos desafios de acesso, vulnerabilidade social e complexidade sanitária. A experiência demonstra que modelos de financiamento sensíveis aos determinantes sociais ampliam a capacidade de resposta dos serviços e contribuem para intervenções mais centradas nas pessoas.
Aprendizado e Análise Crítica
Entretanto, permanece o desafio estrutural do financiamento: embora a APS seja reconhecida como eixo prioritário do SUS, ainda há uma destinação desproporcional de recursos para outros níveis de atenção. Neste sentido é fundamental aprofundar o debate sobre o financiamento da APS, tanto no estado do RS quanto no restante do país, pois a consolidação de um sistema robusto e equitativo depende de investimentos compatíveis com o papel estruturante da APS, bem como da superação da lógica que concentra a maior parte dos recursos nas ações de média e alta complexidade.
GOVERNANÇA DA INFORMAÇÃO EM EMERGÊNCIAS SANITÁRIAS: COMUNICAÇÃO DE RISCO E POVOS INDÍGENAS NO BRASIL E NA BOLÍVIA
Comunicação Oral Curta
1 USP, UFS
2 UPSA, Bolívia
3 UAB, Bolívia
Apresentação/Introdução
Emergências sanitárias evidenciam a centralidade da informação na organização das respostas em saúde pública, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais e diversidade cultural. A comunicação de risco constitui componente essencial da governança sanitária, sendo reconhecida por organismos internacionais como elemento estratégico para apoiar decisões informadas e promover comportamentos protetivos. Em territórios indígenas, entretanto, a circulação de informações em saúde enfrenta barreiras estruturais associadas à diversidade linguística, às desigualdades de acesso e às assimetrias históricas nas relações com o Estado. Nesse contexto, a governança da informação emerge como dimensão analítica central para compreender a comunicação de risco como obrigação estatal vinculada ao direito à informação em saúde. Este estudo dialoga com o campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde ao analisar comparativamente a comunicação de risco dirigida a povos indígenas no Brasil e na Bolívia durante a pandemia de COVID-19, articulando governança sanitária, direitos humanos e interculturalidade.
Objetivos
Analisar comparativamente a comunicação de risco dirigida a povos indígenas no Brasil e na Bolívia durante a pandemia de COVID-19, compreendendo-a como dimensão da governança da informação em emergências sanitárias e como obrigação estatal vinculada ao direito à informação em saúde.
Metodologia
Trata-se de análise documental crítica de caráter comparativo, fundamentada em marcos normativos internacionais, relatórios multilaterais, documentos estatais e literatura científica sobre governança sanitária, comunicação de risco e saúde indígena. O corpus incluiu documentos publicados entre 2005 e 2024, organizados em três camadas analíticas: marcos normativos anteriores à pandemia, documentos produzidos durante a emergência sanitária e relatórios avaliativos posteriores. As fontes foram identificadas em bases bibliográficas e repositórios institucionais, sendo analisadas a partir de quatro dimensões: produção e desagregação de dados, fluxos institucionais de comunicação, acessibilidade das informações e registros de circulação territorial por mediações comunitárias. A comparação foi conduzida de forma interpretativa, articulando parâmetros normativos e evidências documentais.
Resultados e Discussão
A análise identifica, nos dois países, distanciamentos entre compromissos normativos e práticas documentadas de comunicação de risco. No Brasil, apesar da existência de um subsistema específico de saúde indígena, foram observadas fragilidades na produção e desagregação de dados, inconsistências na comunicação institucional e limitações na acessibilidade das informações. Documentos técnicos, relatórios de direitos humanos e decisão judicial do Supremo Tribunal Federal registraram dificuldades na vigilância epidemiológica e barreiras no acesso à informação em territórios indígenas, com papel relevante desempenhado por mediações comunitárias na circulação das mensagens. Na Bolívia, o corpus documental foi composto predominantemente por relatórios multilaterais e documentos de direitos humanos, com menor rastreabilidade pública de estratégias estatais específicas de comunicação de risco. A comparação evidencia que, em ambos os contextos, a comunicação de risco permaneceu condicionada por fragilidades estruturais na governança da informação, incluindo limitações na produção de dados, instabilidade institucional e dificuldades na circulação territorial das informações.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que a comunicação de risco dirigida a povos indígenas não se apresentou, de forma consistente, como política pública estruturada e territorializada nos contextos analisados. As fragilidades documentadas evidenciam desigualdades persistentes na efetivação do direito à informação em saúde e reforçam a necessidade de integrar comunicação de risco, produção de dados e governança da informação em estratégias de preparação e resposta a emergências sanitárias. O estudo contribui para o campo da Comunicação e Saúde ao compreender a comunicação de risco como dimensão estruturante da governança sanitária, especialmente em contextos interculturais e territorialmente diversos, dialogando com os desafios contemporâneos da saúde coletiva.
MUITAS CAMADAS DE INVISIBILIDADE: POPULAÇÃO QUILOMBOLA, DOENÇA PULMONAR OBSTRUTIVA CRÔNICA E DESAFIOS DA APS
Comunicação Oral Curta
1 UFMA
Apresentação/Introdução
Recentemente o 1o censo demográfico quilombola apresentou um panorama da diversidade socio territorial brasileira. (IBGE, 2023). Ainda pouco se sabe sobre as dificuldades de acesso aos serviços de saúde, as barreiras geográficas e culturais enfrentadas por usuários e profissionais de saúde, assim como a infraestrutura, os recursos humanos e a gestão dos serviços presentes nos territórios.
Alcântara (MA) apresenta peculiaridades que revelam vulnerabilidades das condições locais de vida. É um município que desde os anos 80 é cenário de disputa territorial entre o Estado Brasileiro e comunidades quilombolas desapropriadas. Tem uma população rural (18.467 habitantes) de maior proporção quilombola autodeclarada do país (84,6%), situada em 152 comunidades. Apresenta taxa de qualidade de vida (IDHM 0,573), de ocupação com trabalho formal (8,49%) e percentual da população com rendimento de até ½ salário-mínimo (56,4%). Em termos de indicadores de saúde, a taxa de óbitos por nascidos vivos é de 34,88, mais do que o dobro da taxa do estado do Maranhão (15,32).
O município sofre impactos sobre suas atividades produtivas, resultantes das práticas de produção de carvão vegetal (caieira), de queimadas de material orgânico e do uso de fogão à lenha. Tais práticas constituem atividades potencialmente nocivas à saúde na perspectiva de fatores de risco modificáveis.
No Brasil, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) é a quarta principal causa de morte. Nas regiões Norte e Nordeste houve aumento das taxas de mortalidade entre 2000 e 2016. Essas taxas, quando ajustadas à idade e à situação socioeconômica, apresentam um aumento em regiões com índices socioeconômicos mais baixos. É a quinta maior causa de internação no Sistema Único de Saúde (SUS) entre pacientes com mais de 40 anos.
A doença apresenta como sintomas: tosse, expectoração, dispneia, respiração ofegante. São fatores de risco para a doença: tabagismo ou inalação de gases em ambiente ocupacional ou domiciliar, como fumaça de lenha, poluição ambiental, idade superior a 40 anos, história familiar de DPOC e a genética.
O alto custo social e de saúde é atribuído a repetidas hospitalizações e à perda de produtividade. O diagnóstico precoce é o principal fator para a redução dos custos associados à DPOC e a melhora da vida do paciente. É uma doença prevenível, com possibilidade de diagnóstico e tratamento na atenção primária.
Objetivos
Analisar o diálogo sobre atenção à saúde quilombola e os itinerários terapêuticos, a partir da perspectiva de profissionais de saúde e usuários.
Metodologia
Articular as marcas de pertencimento social, como idade, sexo/gênero, raça/etnia, posição de classe (escolaridade, renda, profissão), às condições de vida, de trabalho e de adoecimento é analisar as relações de poder, valores e hierarquias em que estão distribuídos socialmente os indivíduos em interação. A abordagem interseccional considera as opressões e os conflitos, mas também as negociações e as pontes interculturais. Pesquisa, de cunho qualitativo, realizada desde o início de 2025, junto a profissionais de saúde e usuários da APS, por equipe de pesquisadoras do PPGSC/UFMA. As percepções de adoecimento, as medidas terapêuticas adotadas, em torno de uma lógica popular, biomédica ou ambas, os itinerários percorridos por sujeitos em busca de uma solução para suas aflições são examinados a partir das observações de campo e de grupos focais realizados, separadamente, com profissionais e usuários. Os processos de trabalho em saúde, as condições materiais e intersubjetivas do trabalho, bem como as relações de poder estruturadas e estruturantes das formas de organização e gestão dos serviços de saúde, completam as questões analisadas.
Resultados e Discussão
A doença apresenta caráter insidioso, cujos sintomas (cansaço, fraqueza, desânimo) são “naturalizados” como algo próprio do envelhecimento e/ou do tabagismo e pouco valorizados por usuários e profissionais de saúde. Apesar do aumento da taxa de mortalidade, a doença apresenta um caráter “invisibilizado” por profissionais de saúde, que revelam desconhecimento em relação aos fatores de risco e ao manejo da doença. Distintas racionalidades norteiam visões e comportamentos sobre corpo, saúde e doença entre profissionais e usuários. Tal descompasso dificulta o diálogo e a continuidade do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Obstáculos em relação à infraestrutura, à rotatividade de profissionais de saúde e à precariedade das condições de trabalho, além da falta de medicamentos e equipamentos dificultam o atendimento das necessidades da população, a construção de um vínculo pautado na territorialidade e na confluência de perspectivas culturalmente distantes. Este conjunto de elementos compromete a função de coordenadora da rede, da APS.
PRODUTO DE EDUCAÇÃO E GESTÃO DO CUIDADO À SAÚDE DA POPULAÇÃO ROMANI SOB A ÓPTICA DO CUIDADO CULTURALMENTE COMPETENTE
Comunicação Oral Curta
1 PPGSCol/UNESC
2 Curso Enfermagem/UNESC
Contextualização
O termo genérico Cigano é utilizado para designar um grupo populacional extremamente heterogêneo do povo Romani. As populações Romani em geral vivem à margem da sociedade. No campo da saúde sofrem com a falta de conhecimento dos profissionais sobre seus costumes e cultura, além de práticas discriminatórias individuais e institucionalizadas, que estão ligadas à redução do acesso e uso dos serviços de saúde pelos Romani. Na enfermagem, o termo cuidado transcultural surgiu a partir da teoria de Madeleine Leininger, em 1950. Esta teoria busca proporcionar o cuidado a partir do respeito aos valores, crenças e práticas culturais dos indivíduos e de suas famílias. Neste sentido, a enfermagem transcultural trabalha a partir das diversidades das pessoas que precisam cuidados.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência sobre a construção de um produto no campo da saúde coletiva sobre o cuidado transcultural a saúde da população Romani. Para elaboração do manual, foi realizado uma ampla revisão narrativa, a qual analisou pesquisas e ensaios teóricos publicados no formato de artigos, capítulo de livros, dissertações e teses, legislações e documentos oficiais sobre a história da saúde dos povos Romani no Brasil. Para busca foram utilizadas as seguintes bases de dados Bireme/BVS Brasil, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, biblioteca da Fiocruz e da ABRASCO, o site oficial da Associação Internacional Maylê Sara Kalí (AMSK), legislações publicadas e guias desenvolvidos pelo Ministério da Saúde (MS) sobre o povo Romani no Brasil, além de base de dados de indicadores nacionais como o Cadastro Único. Foram analisados materiais publicados entre os anos de 2020-2025.
Período de Realização
O produto foi elaborado nos anos de 2024 e 2025.
Objetivo
Relatar a experiência da produção e desenvolvimento de um guia sobre a saúde da população Romani sob a óptica do cuidado culturalmente competente.
Resultados
O produto construído foi apresentado como trabalho final do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva - Mestrado Profissional, da Universidade do Extremo Sul Catarinense. Está estruturado em 20 capítulos, os quais apresentam informações sobre a origem, cultura, costumes, modo de vida e saúde da população Romani. Em relação à saúde, o material apresenta características específicas sobre a saúde da criança, da mulher, do homem, do idoso, de saúde mental e do luto neste grupo populacional. Ainda apresenta dados epidemiológicos atualizados obtidos no CadÚnico e as políticas públicas voltadas à população Romani. Além disso, para a área da enfermagem em saúde coletiva, há dois roteiros para a realização de consultas de enfermagem sobre a saúde do homem e da mulher Romani, considerando aspectos do processo de enfermagem exigido conforme legislação atual do exercício profissional. O material está sustentado na Teoria do Cuidado Transcultural de Madeleine Leininger e traz informações para auxiliar o profissional a enfrentar os desafios encontrados no atendimento aos Romani. Também conta com links com informações úteis aos profissionais que desejam conhecer mais sobre a saúde deste grupo populacional.
Aprendizado e Análise Crítica
a construção do material orientativo possibilitou perceber a necessidade de atualizações e ampliação dos materiais oficiais disponibilizados pelo MS voltados à população Romani, bem como, de investimentos em ações de educação permanente aos profissionais da Atenção Primária à Saúde. Entre os cuidados para a construção do material, destacamos a diagramação apresentar imagens que expressam a singularidades das diferentes etnias encontradas no Brasil que compõem o povo Romani, em especial a Rom, a Calón e a Sinti. Mesmo com a existência desde 2018 da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Povo Cigano/Romani pouco se sabe sobre esta população e como utilizam os serviços de saúde, sendo ainda escassos os estudos e materiais oficiais do MS sobre eles, o que acarreta dificuldades aos profissionais da saúde em desenvolver um cuidado integral e culturalmente competente seguindo os preceitos do SUS. Visto a limitação de materiais encontrados sobre o tema, destacamos a necessidade de investimentos em pesquisas sobre a temática que garantam o respeito a cultura e tradições, logo, que possibilite a participação ativa de membros do povo Romani na construção de estudos. Neste sentido, o manual aqui apresentado visa auxiliar os profissionais de saúde, em especial de enfermagem, a prestar um atendimento mais integral, equânime e culturalmente competente à população Romani, a partir do respeito a sua diversidade cultural e modo de ser e existir no mundo. Acreditamos que o acesso à informação é de suma importância para romper barreiras, estereótipos e preconceitos, o povo Romani merece ter suas histórias, tradições e costumes respeitados e cabe aos profissionais da saúde conhecer seus direitos, os quais devem ser assegurados em todo o território nacional.
VIVÊNCIAS INTERCULTURAIS EM SAÚDE: RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE SABERES ANCESTRAIS, RESISTÊNCIA E PRODUÇÃO DO CUIDADO EM TERRITÓRIO ARGENTINO
Comunicação Oral Curta
1 UNESP
2 UNRN
Contextualização
Um dos grandes desafios na América Latina é a construção da interculturalidade na Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente no cuidado aos povos originários, historicamente marcados por desigualdades. Esses grupos enfrentam invisibilização cultural, expropriação territorial, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e ausência de práticas sensíveis às suas especificidades.
Diante disso, torna-se essencial reconhecer e valorizar os saberes tradicionais como parte do cuidado, promovendo o diálogo entre diferentes racionalidades médicas. Na Argentina, o povo Mapuche vivencia essas desigualdades, expressas na marginalização social e na fragilidade de políticas públicas culturalmente sensíveis. Embora a APS devesse ser um espaço estratégico para práticas interculturais, sua implementação ainda é limitada, dificultando a integração entre biomedicina e medicina tradicional.
A medicina tradicional Mapuche, baseada em uma cosmovisão que articula dimensões físicas, espirituais e territoriais, mantém papel central no cuidado. A partir de uma experiência de intercâmbio em saúde na região de Bariloche, este relato evidencia encontros, tensões e possibilidades de diálogo entre a medicina tradicional e os serviços formais de saúde.
Destaca-se que a construção de práticas mais resolutivas e culturalmente sensíveis exige a integração entre medicina tradicional e biomedicina. Experiências que promovem essa articulação são estratégicas para fortalecer abordagens interculturais e contribuir para um cuidado mais equitativo e integral.
Descrição
O presente relato de experiência apresenta vivências durante intercâmbio de Doutorado Sanduíche no Exterior, realizado na região de Bariloche, o qual possibilitou a aproximação e interação com o povo Mapuche em diferentes contextos. Tais encontros permitiram analisar as formas de aproximação com os saberes tradicionais e as práticas de cuidado dessa população, bem como suas relações com os serviços formais de saúde. Nesse sentido, busca-se evidenciar os desafios e as potencialidades do diálogo intercultural, destacando a valorização das práticas ancestrais na construção de um cuidado mais integral, equitativo e culturalmente sensível.
Período de Realização
Novembro de 2025 - Janeiro de 2026
Objetivo
Refletir sobre as possibilidades de articulação entre saberes tradicionais Mapuche e práticas de cuidado, evidenciando desafios estruturais e caminhos para o fortalecimento do cuidado intercultural.
Resultados
A medicina tradicional, baseada no uso de plantas medicinais, na espiritualidade e na relação com o território, mantém-se ativa e adaptada às necessidades atuais das comunidades originárias em Bariloche. Mesmo diante da ausência de políticas interculturais, o povo Mapuche resiste, preservando esses saberes no cuidado em saúde.
Apesar das limitações da Atenção Primária à Saúde, como barreiras geográficas e baixa incorporação da interculturalidade, há iniciativas que favorecem o diálogo entre sistemas de cuidado, como a atuação de agentes indígenas e materiais em dialeto local. No entanto, a articulação com a biomedicina ainda enfrenta preconceitos e racismo estrutural.
Destaca-se o protagonismo das mulheres e a adaptação da medicina ancestral a novas demandas. Persistem desafios como acesso a recursos naturais e fragilidade de políticas públicas, reforçando a necessidade de maior valorização dos saberes tradicionais.
Aprendizado e Análise Crítica
As vivências com os povos originários permitiram reconhecer a potência dos saberes tradicionais Mapuche e seu papel central na produção de um cuidado integral em saúde. A interculturalidade, nesse contexto, depende da construção de relações horizontais, baseadas no respeito, na escuta e na valorização das cosmovisões desses povos.
Destaca-se a importância da mediação cultural, do protagonismo comunitário e do papel das mulheres na sustentação das práticas de cuidado. No entanto, a articulação entre medicina tradicional e biomédica ainda é incipiente, ocorrendo de forma pontual e sem respaldo consistente de políticas públicas.
Observa-se o predomínio de uma lógica biomédica hegemônica, associada ao racismo estrutural e à invisibilização dos povos originários, o que fragiliza o desenvolvimento de ações interculturais. Somam-se a isso entraves burocráticos que dificultam a continuidade das práticas tradicionais, especialmente quanto ao acesso a recursos naturais.
Apesar desses desafios, o povo Mapuche demonstra forte capacidade de resistência e adaptação, reafirmando a relevância de sua medicina. Torna-se essencial fortalecer políticas interculturais, ampliar a formação em saúde e incentivar o diálogo entre saberes, visando uma saúde mais inclusiva e equitativa.
ITINERARIO TERAPÊUTICO DE MULHERES COM CÂNCER DE COLO DO UTERO NO NORDESTE BRASILEIRO: AVALIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Apresentação/Introdução
O processo de transição epidemiológica transformou as Doenças Crônicas não transmissíveis em um grave problema de saúde pública (Kowalski, et al., 2020). Dentre elas, as neoplasias constituem uma das principais doenças, com destaque para o câncer do colo uterino (CCU) que possui alta incidência na população feminina (Onu, 2022). No Brasil, ele é o terceiro tipo de neoplasia mais incidente na população feminina (Brasil, 2023). O problema se intensifica nas regiões Norte e Nordeste, que possuem os maiores índices de mortalidade em comparação aos estados do Sul e Sudeste do país (Luizaga et al., 2023).
O CCU é uma doença altamente curável se diagnosticada e tratada de forma precoce, porém muitas mulheres são diagnosticadas de forma tardia, o que compromete o prognóstico e exige a implementação de formas de tratamento mais agressivas, intensificando os impactos físicos e emocionais. A garantia do acesso ao diagnóstico precoce condiciona o prognóstico da mulher, o que levanta a necessidade de discussão acerca do itinerário terapêutico de mulheres com diagnóstico de CCU.
Este é um recorte da pesquisa “Itinerários Terapêuticos de mulheres com diagnóstico de Câncer de Colo Uterino em um município de pequeno porte do Nordeste brasileiro”, fruto do Mestrado Profissional em Saúde da Família (Profsaúde).
Objetivos
Esta análise pretende analisar as experiências de mulheres que vivenciaram o CCU, no que se refere à organização, disponibilidade, qualidade e acessibilidade dos serviços existentes no território.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa desenvolvida em um município de pequeno porte do interior da Bahia. Foram realizadas oito entrevistas com mulheres que tiveram diagnóstico de CCU entre os meses de novembro de 2025 a fevereio de 2026. As entrevistas foram gravadas e posterioremnte transcritas com o auxílio do Clipto.Ai. Os sujeitos participantes foram identificados por códigos, garantindo seu anonimato.
Para análise tomou-se como referencial teórico o modelo de Análise Holística de Itinerários Terapêuticos (Trad, 2015), composto por quatro dimensões interdependentes: simbólica, contextual, racionalidades e práticas terapêuticas e avaliação da experiência. Por meio dessas dimensões, busca-se compreender o ponto de vista de quem vivencia o processo, além de conhecer os aspectos dos diversos contextos imbricados no percurso de cuidado (Trad, 2015). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal da Bahia Parecer nº 7.925.686.
Resultados e Discussão
A análise da dimensão avaliação da experiência evidenciou como as mulheres percebem e atribuem significado aos serviços de saúde acessados ao longo de seus IT. Uma parte significativa das falas aponta para experiências negativas, especialmente relacionadas à ausência de práticas preventivas regulares, como a não realização do exame preventivo em tempo oportuno o que demonstra não apenas questões individuais, mas também limitações na oferta e na condução de ações educativas e de promoção da saúde, fundamentais no âmbito da APS.
Percebeu-se também busca tardia pelos serviços de saúde, muitas vezes associada à ausência de sintomas e descontinuidade do cuidado, com percursos fragmentados e preferência por serviços hospitalares em detrimento da Atenção Primária a Saúde (APS), indicando possível descrédito da mesma. Esses elementos sugerem fragilidade na coordenação do cuidado e no papel da APS como ordenadora da rede, contribuindo para IT mais longos e, por vezes, mais complexos e ineficientes.
As mulheres relataram dificuldades na comunicação entre elas e os profissionais, expressas pela insuficiência de orientações claras sobre prevenção, diagnóstico e tratamento. Essa lacuna colabora para sentimentos de insegurança, medo e incertezas durante o percurso terapêutico, o que pode gerar desinformação, baixa percepção de risco e procura tardia por cuidados. Verificou-se pouco vínculo com as unidades de APS, em alguns casos, centrado em ações pontuais, como visitas do Agente Comunitário de Saúde (ACS).
Apesar das dificuldades, também foram identificadas experiências positivas, relacionadas ao acompanhamento contínuo, acolhimento e facilidade no contato com profissionais de saúde, especialmente ACS, o que contribui para maior confiança nos serviços e adesão às condutas propostas. Essas vivências indicam que, quando há vínculo e acompanhamento, o cuidado tende a ser mais efetivo e percebido de forma mais positiva pelas usuárias.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a dimensão “avaliação das experiências” revelou que, embora existam iniciativas de cuidado efetivas, persistem desafios importantes na organização dos serviços, especialmente no que se refere à garantia do acesso, à continuidade e à integralidade da atenção. Os IT das mulheres com CCU são atravessados por desigualdades no acesso e fragilidades na organização dos serviços, prevenção e detecção precoce.
‘‘O QUE A TERRA DÁ?‘‘ POR UMA COSMOPERCEPÇÃO DO CUIDADO BASEADA NOS CORPOS-TERRITORIAIS
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ
2 UFAM
Apresentação/Introdução
As comunidades quilombolas, os povos indígenas e outras populações tradicionais manifestam uma diversidade de modos de existência. Esses modos de existência não devem ser compreendidos como blocos monolíticos, pois não são culturas fechadas, estáticas ou isoladas, mas sim dinâmicas e permeáveis, capazes de incorporar novas influências e construir sentidos coletivos.
Esse é o problema do norte global: ele se estende do campo das ciências cartesianas para a esfera das políticas públicas de saúde do Estado. Ao não reconhecer outros modos de existência — ou, como diria Guattari (1992), outros "territórios existenciais" — do sul global, limita-se a uma visão restrita. Essa postura contribui para a marginalização de saberes e práticas locais, dificultando a construção de políticas públicas de saúde mais inclusivas e adaptadas às realidades do sul global.
Um caminho para compreender esses modos de existência é reconhecer que os territórios tradicionais representam verdadeiros “universos de referências” — cognitivas, afetivas e estéticas — ligados aos chamados “territórios existenciais”. Nego Bispo, em suas obras, como A terra dá, a terra quer, vai nesta direção. Apresenta um conjunto rico de conceitos contracoloniais que contribuem para pensar as relações entre indivíduo, território e natureza. Tais conceitos são elaborados a partir de modos de vida, leituras de mundo e práticas políticas, entre os quais se destacam, a biointeração, a reciprocidade com a terra, a oralidade e a circularidade do tempo.
Nesse sentido, a comunidade ocupa um lugar central na produção da saúde, sendo o espaço onde o cuidado se constrói e circula. É nas relações cotidianas, nas redes de apoio e na transmissão intergeracional de saberes que o cuidado se efetiva. Cuidar, portanto, não se restringe à atuação de especialistas, mas configura-se como uma responsabilidade coletiva, aprendida e exercida no convívio.
Objetivos
O objetivo é descrever a ontologia subjacente à organização social da produção do cuidado de comunidades quilombolas, localizadas na Região de Saúde dos Lagos, no Rio de Janeiro, à luz do pensamento de Nego Bispo, buscando, assim, romper com a ditadura do método cartesiano.
Metodologia
A pesquisa é de cunho qualitativa que versa sobre as contribuições teórico-metodológico pós-modernas sobre à organização social da produção do cuidado de parcelas da população historicamente apartadas das políticas públicas, como por exemplo, povos e comunidades que têm seus modos de vida, produção e reprodução social relacionados predominantemente com o campo, a floresta, os ambientes aquáticos, a agropecuária e o extrativismo, como as populações quilombolas.
Resultados e Discussão
Os questionamentos radicais que a metodologia científica pós-moderna faz dos paradigmas anteriores, à medida que os métodos matemáticos e naturais cartesianos são inférteis em captar os fenômenos mais qualitativos. Essa situação, impulsiona, em certa medida, as pretensões das ciências sociais e humana na compreensão dos processos saúde-doença-cuidado, em especial, as perspectivas oriundas das cosmopercepções Indígena, Negra, Feminista e Queer, brotadas de uma sociologia das ausências.
Identificamos dois percursos metodológicos que comunga com essa cosmopercepção. O primeiro é denominado de “carreira do doente” ou “itinerário terapêutico” que se refere aos diferentes percursos feitos pelo paciente em busca de tratamento. Assim, itinerário terapêutico é o conjunto de processos implicados na busca de um tratamento desde a constatação de uma desordem, passando por todas as etapas institucionais (ou não) em que se podem atualizar diferentes interpretações (paciente, família, comunidade, categorias de curadores e outros) e curas.
O segundo chamado de “redes vivas” que diz respeito as redes construídas pelos usuários e seus familiares à procura de satisfazer suas necessidades de cuidado em saúde.
Ambas podem ser aplicadas por meio da ideia de “paisagens psicossociais” sensível a desvendar outros mundos, que partindo do plano comum se apresentam de forma heterogênea. A cartografia das paisagens psicossociais, enquanto método (percurso), tem como finalidade constituir territórios existenciais.
Conclusões/Considerações Finais
Nossas reflexões teórico-metodológicas não anulam os métodos formais das ciências tradicionais, mas apresentam nosso objeto de pesquisa sob uma nova perspectiva. O neologismo “corpos-territoriais” que compreende na perspectiva da paisagem sentimento de cartografar a produção do cuidado dos sujeitos, isto é, do paciente, dos trabalhadores (as) da saúde, dos feiticeiros e dos religiosos que praticam as benzeções na comunidade. Essa comunga o que Nego Bispo denomina de biointeração, de reciprocidade com a terra, de oralidade e da circularidade do tempo. Diante disso, como podemos, de fato, produzir saúde a partir dos modos de vida, dos territórios e das relações que sustentam a vida?
Realização: