Programa - Comunicação Oral Curta - COC31.2 - Violências, territórios, gênero e interculturalidade
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
ENTRE PALAVRAS E SILÊNCIOS: A LITERATURA COMO CAMINHO PARA ENXERGAR A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NA APS
Comunicação Oral Curta
1 UFRB
2 Instituto Korihé
Contextualização
A violência doméstica é reconhecida como um problema de saúde pública, dada sua alta prevalência e suas repercussões na saúde física, sexual, reprodutiva e mental das mulheres. Apesar disso, uma parcela significativa dos casos permanece invisibilizada, inclusive no âmbito dos serviços de saúde, impactando o acesso ao cuidado e a integralidade da atenção. Considerando esse contexto, torna-se essencial a criação de espaços formativos que promovam a sensibilização de estudantes e trabalhadores de saúde para o acolhimento e abordagem qualificada de mulheres em situação de violência doméstica na Atenção Primária à Saúde (APS).
Descrição
As atividades foram desenvolvidas ao final de atendimentos, no contexto de feedback formativo conduzido pela preceptoria, bem como em momentos específicos destinados às atividades pedagógicas. Foram realizadas leituras compartilhadas de livros e textos literários, com o intuito de provocar reflexões sobre: a) a construção do olhar sobre as pessoas; b) a compreensão dos sintomas como possíveis expressões de sofrimentos sociais; c) o entendimento da violência doméstica e seus impactos na saúde das mulheres; d) estratégias de abordagem na APS; e) a discussão do prazer feminino como dimensão do cuidado integral. Foram utilizados os livros “Os invisíveis” (Tino Freitas e Odilon Morais), “A Cidade dos Carregadores de Pedras” (Sandra Branco), “A Moça Tecelã” (Marina Colasanti), “Leila” (Tino Freitas e Thais Beltrame), além do texto “Um passeio pelo meu corpo padrão – o meu padrão”, do livro “Pacientes que Curam”, de Julia Rocha.
Período de Realização
A experiência ocorreu em um município do Sertão da Bahia, no período de janeiro a abril de 2026.
Objetivo
Este trabalho tem como objetivo a experiência de uso da literatura como tecnologia leve na sensibilização de estudantes e residentes para o cuidado a mulheres em situação de violência doméstica na APS.
Resultados
Inicialmente, observou-se estranhamento por parte dos participantes quanto ao uso de literatura, especialmente infantil, como ferramenta na formação médica. Contudo, esse movimento foi seguido pela valorização da potência desses recursos na abordagem de temas complexos de forma sensível, acessível e provocadora. Ao longo do processo, emergiu a compreensão de que sintomas frequentemente apresentados pelas mulheres nos serviços de saúde podem estar relacionados a contextos de sofrimento social, incluindo a violência doméstica, sendo muitas vezes invisibilizados em atendimentos marcados por limitações de tempo e escuta. Evidenciou-se, ainda, a necessidade de fortalecimento do acolhimento e do vínculo como elementos centrais para o cuidado e para a promoção da autonomia das mulheres. Destaca-se o papel das tecnologias leves na produção do cuidado, conforme proposto por Merhy, ao favorecerem encontros mais sensíveis, éticos e implicados.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência revelou que a incorporação da literatura potencializou a mobilização de afetos, a ampliação e qualificação da escuta, bem como a produção de reflexões críticas sobre o cuidado. Adicionalmente, a experiência evidenciou que o uso da literatura na abordagem do tema ampliou as possibilidades de fortalecimento das tecnologias leves na produção do cuidado na APS, favorecendo o acesso a situações de violência doméstica, cuja abordagem é frequentemente marcada por desconforto entre trabalhadores de saúde. Como aprendizados, destaca-se o potencial das práticas formativas no cotidiano dos serviços para a transformação das práticas de cuidado, bem como a importância de investir na formação de profissionais por meio de práticas pedagógicas mais sensíveis capazes de abordar temas complexos e frequentemente silenciados, como a violência doméstica.
EQUIDELAS: PERCEPÇÕES DAS FUTURAS TRABALHADORAS DO SUS ACERCA DA EQUIDADE DE GÊNERO NO TRABALHO EM SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 UFAM
Apresentação/Introdução
As mulheres representam a maior parcela da força de trabalho do Sistema Único de Saúde (SUS), correspondendo a cerca de 75% dos profissionais em atividade, com forte presença em funções assistenciais, de cuidado e de gestão. Essa predominância expressa o processo histórico de feminização do trabalho em saúde, frequentemente associado ao papel socialmente atribuído às mulheres como cuidadoras. Entretanto, apesar de sua expressiva participação, persistem desigualdades estruturais relacionadas ao gênero, à raça e à classe social, que repercutem nas condições de trabalho, na valorização profissional, na remuneração e nas oportunidades de ascensão na carreira
Objetivos
Nesse contexto, a pesquisa teve como objetivo analisar as percepções das futuras trabalhadoras do SUS acerca da equidade de gênero no trabalho em saúde, tomando como campo empírico as estudantes vinculadas ao Programa PET-Saúde Equidade da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Metodologia
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, estruturado em duas etapas: revisão bibliográfica e coleta de dados por meio de questionário online. O instrumento, elaborado no Google Forms, continha 21 questões, incluindo dados sociodemográficos e perguntas abertas relacionadas à rotina acadêmica, experiências no território, percepção sobre desigualdades de gênero, estereótipos, discriminação, assédio e proposições para enfrentamento das iniquidades. Participaram da pesquisa nove estudantes do sexo feminino integrantes do PET-Saúde Equidade. A análise dos dados foi realizada com base no método de análise de conteúdo de Bardin, permitindo a identificação de categorias temáticas relacionadas às experiências e percepções das participantes.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciaram que as estudantes possuem uma rotina marcada por elevada demanda acadêmica, frequentemente conciliada com atividades profissionais, ações de extensão e participação em atividades comunitárias nos territórios de atuação do PET. Observou-se a presença de importante rede de apoio familiar, especialmente materna, além de forte envolvimento com práticas de cuidado em saúde coletiva, incluindo ações em comunidades rurais e discussões territoriais. Esses achados apontam para a formação de futuras profissionais com forte compromisso social e inserção nos princípios do SUS, especialmente no que se refere à integralidade, territorialização e cuidado centrado na comunidade.
Em relação às percepções sobre equidade de gênero, a maioria das participantes relatou identificar diferenças no tratamento entre homens e mulheres nos serviços de saúde e entre colegas de trabalho, bem como barreiras para o crescimento profissional feminino no SUS. Foram mencionadas desigualdades salariais, menor valorização de mulheres em cargos técnicos e de liderança e persistência de estereótipos que associam as mulheres à emotividade, empatia e funções tradicionalmente assistenciais. Também surgiram relatos indiretos de assédio moral, sexual e discriminação racial, demonstrando que, mesmo entre futuras profissionais, já existe a percepção das múltiplas violências e desigualdades que atravessam o ambiente de trabalho em saúde.
A discussão dos achados reforça a permanência da divisão sexual do trabalho e das desigualdades de gênero no campo da saúde, mesmo em um contexto no qual as mulheres constituem a maioria da força de trabalho. A análise evidencia que tais desigualdades não se restringem à dimensão ocupacional, mas articulam-se com marcadores interseccionais como raça, maternidade e posição socioeconômica, impactando diretamente a saúde mental, a permanência e o desenvolvimento profissional das trabalhadoras do SUS. Nesse sentido, as participantes propuseram estratégias de enfrentamento, como rodas de conversa sobre equidade, ações de letramento racial, criação de espaços seguros de denúncia, fortalecimento de lideranças femininas e apoio institucional às mulheres com filhos, demonstrando uma perspectiva crítica e transformadora sobre o tema.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que as futuras trabalhadoras do SUS apresentam elevada consciência crítica acerca das desigualdades de gênero presentes no trabalho em saúde, bem como potencial para contribuir na construção de práticas mais inclusivas, humanas e equânimes. O estudo destaca a importância da continuidade de pesquisas e políticas públicas voltadas à valorização das mulheres no SUS, desde a formação acadêmica até a inserção profissional, fortalecendo os princípios da equidade e da justiça social no sistema de saúde.
SENTINELAS DO SILÊNCIO: O OLHAR DO EDUCADOR DA PRIMEIRA INFÂNCIA SOBRE O ABUSO SEXUAL DE CRIANÇAS NO AMAZONAS
Comunicação Oral Curta
1 Universidade do Estado do Amazonas-UEA
2 Faculdade Católica do Amazonas
3 Universidade do Estado do Amazonas- UEA
Apresentação/Introdução
O abuso sexual infantil (ASI) é uma violação dos direitos humanos que incorpora profundas desigualdades sociais e assimetrias de poder. Através da lente da Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano (TBDH), esta pesquisa propõe ver o ASI não como um evento isolado, mas sim como um fenômeno processual moldado e interdependente com sistemas socioculturais¹. O professor é o sentinela dentro do microssistema escolar em seus “processos proximais”, trocas diárias que permitem a decodificação de mudanças comportamentais em crianças que ainda não adquiriram a linguagem verbal². O exossistema(redes de proteção e políticas públicas) é, portanto, caracterizado por vazios institucionais e distâncias geográficas que marginalizam as políticas públicas, mas incentivam o silenciamento e a reprodução da violência estrutural no contexto amazônico³. Assim, a percepção do educador é atravessada por dispositivos de controle e medo, revelando que a proteção na primeira infância é um desafio de justiça cognitiva e intersetorialidade.
Objetivos
Analisar as percepções e os significados atribuídos por educadores da educação infantil ao fenômeno do abuso sexual infantil, explorando os desafios e as barreiras que envolvem a identificação e a denúncia no contexto escolar em municípios do Amazonas.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo e exploratório. Com o intuito de captar diferentes realidades sociodemográficas, a pesquisa ocorreu na capital Manaus e em três municípios do interior do estado do Amazonas: Iranduba, Careiro Castanho e Presidente Figueiredo. Compuseram a pesquisa 30 educadores atuantes na primeira infância em instituições da rede pública de ensino. Utilizou-se técnica de Grupo Focal, para coleta de dados, totalizando 5 grupos cada um com 6 participantes. Os diálogos provenientes dos grupos focais foram gravados, transcritos e submetidos à leitura, análise e categorização, com o intuito de identificar os significados e a estrutura dos conteúdos das falas dos participantes. O processo de organização e codificação foi operacionalizado com o auxílio do software de análise qualitativa MaxQDA.O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa (Parecer nº 5.894.417).
Resultados e Discussão
A análise dos dados revelou que o educador identifica o abuso através de sinais físicos notados na higiene e alterações bruscas de comportamento, incluindo isolamento e regressões. O lúdico emergiu como um canal de denúncia subjetiva fundamental, onde crianças projetam traumas em brincadeiras de faz-de-conta. Entretanto, a discussão destaca desafios críticos do exossistema que paralisam a ação docente:Medo de Represálias: No interior do Amazonas, a proximidade territorial e a influência de agressores na comunidade geram medo real de retaliações físicas.Invisibilidade do Retorno: A rede de proteção é percebida como frágil devido à ausência de feedback institucional do Conselho Tutelar, gerando um sentimento de "vazio" após o encaminhamento.Tensões no Mesossistema: Há uma deslegitimação da palavra do professor pela gestão escolar, muitas vezes motivada pela dependência econômica da família em relação ao agressor.Lacuna Técnica: A formação profissional é vista como insuficiente, mantendo a prática no nível do "instinto" e gerando insegurança para o manejo técnico do tema.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a atuação do educador como agente de proteção no Amazonas é severamente tencionada pelo medo e pelo isolamento institucional. Ressalta-se que, por se tratar de um estudo qualitativo realizado em recortes territoriais específicos, os resultados refletem uma realidade local, não permitindo generalizações amplas. Todavia, os achados evidenciam que a proteção integral só se efetivará quando o exossistema oferecer suporte real ao microssistema escolar. É imperativo fortalecer os mecanismos de proteção ao denunciante e implementar programas de formação continuada que integrem saúde e educação, transformando a sensibilidade instintiva em uma vigilância cientificamente engajada na defesa da vida infantil.
REFERÊNCIA
1.Bronfenbrenner U. Bioecologia do desenvolvimento humano: tornando os seres humanos mais humanos. Porto Alegre: Artmed; 2011.
2.da Costa de Paula T, Reyes Ormeño G, da Silva MA, Guimarães Santana M. Identificação da formação de profissionais da educação infantil sobre o tema do abuso sexual . EOL [Internet]. 15º de agosto de 2022 [citado 19º de março de 2026];17(40):61-80. Disponível em: https://educacaoonline.edu.puc-rio.br/index.php/eduonline/article/view/1094
3.Freitas MR de, Romite P. Análise de intervenção intersetorial na prevenção à violência sexual na primeira infância. Res Soc Dev. 2021;10(2):e1237110212371.
4.Bardin L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70; 2016.
5.Brasil. Lei nº 14.344, de 24 de maio de 2022. Cria mecanismos para a prevenção e o enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a criança e o adolescente. Diário Oficial da União. 25 mai 2022.
A INSERÇÃO DO SETOR SAÚDE NA REDE ESTADUAL DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES EM MATO GROSSO: TENSÕES, CAMINHOS E APRENDIZADOS
Comunicação Oral Curta
1 UFMT
2 SES-MT
Contextualização
A violência contra as mulheres constitui um fenômeno estrutural, atravessado por desigualdades de gênero, raça, território e poder, exigindo respostas intersetoriais e territorializadas no âmbito das políticas públicas. No estado de Mato Grosso, esse cenário se expressa de forma particularmente grave, com elevados índices de feminicídio e violência sexual, sendo o estado um dos que apresentam as maiores taxas de feminicídio no país, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública publicado em 2025, o que evidencia a urgência de reorganização das respostas institucionais e do papel da saúde nesse campo.
No plano normativo, a instituição das Redes Estaduais de Enfrentamento da Violência contra a Mulher e de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, por meio do Decreto nº 1.708/2025, bem como a aprovação do Plano Estadual de Metas para o Enfrentamento da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (2025–2035), representam avanços importantes ao estabelecer diretrizes para a atuação integrada entre diferentes setores. Nesse arranjo, destaca-se a criação da Câmara Temática de Defesa da Mulher, instância colegiada responsável por discutir, propor e acompanhar a implementação das ações intersetoriais, da qual a Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso participa como parte da rede institucional. No entanto, a existência de instrumentos legais e instâncias formais não garante, por si só, a efetiva articulação entre as políticas, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde.
Descrição
Este relato de experiência apresenta e discute o processo em curso de inserção e fortalecimento da atuação do setor saúde nessa rede, a partir da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso, com foco na organização da Rede de Atenção à Saúde. Trata-se de uma experiência situada no cotidiano da gestão estadual, marcada por tentativas de estruturar respostas ainda pouco sistematizadas historicamente.
Período de Realização
Desenvolvida entre 2025 e 2026, no âmbito da Coordenadoria de Organização de Redes de Atenção à Saúde, essa experiência se dá no interior de espaços intersetoriais formalmente instituídos e evidencia que a entrada da saúde nesse debate não ocorre de forma linear, mas atravessada por tensionamentos institucionais, disputas de atribuições e diferentes compreensões sobre o papel do cuidado.
Objetivo
O objetivo deste relato é refletir sobre os caminhos percorridos, os limites encontrados e os aprendizados produzidos na tentativa de organizar a atuação da saúde no enfrentamento da violência contra mulheres, reconhecendo seu papel estratégico como porta de entrada do sistema, mas também suas limitações estruturais.
Resultados
Como resultados parciais, observa-se a ampliação do reconhecimento do papel da saúde, antes frequentemente reduzido à notificação, e o início da construção de diretrizes e fluxos assistenciais no âmbito da Rede de Atenção à Saúde. Ao mesmo tempo, tornam-se evidentes lacunas importantes, como a fragmentação entre níveis de atenção, a ausência de definição clara de responsabilidades e a dificuldade de articulação com a rede intersetorial formalmente instituída.
Aprendizado e Análise Crítica
Os aprendizados indicam que a inserção da saúde nesse campo não se sustenta apenas por normativas ou diretrizes, mas exige processos contínuos de negociação, construção coletiva e reposicionamento institucional. A gestão estadual emerge como ator estratégico na indução da organização da rede, especialmente na mediação entre regiões de saúde e na articulação com outras políticas públicas.
A reflexão crítica, inspirada em abordagens interseccionais e decoloniais, evidencia que ainda operamos sob lógicas fragmentadas e centradas no modelo biomédico, com limitada incorporação das dimensões sociais e territoriais da violência. Além disso, o próprio sistema de saúde pode reproduzir violências institucionais quando não dispõe de condições para acolher e cuidar de forma adequada.
Conclui-se que o enfrentamento da violência contra mulheres no SUS não se reduz à formalização de redes e planos, mas se constitui como um processo em disputa, que exige a construção de arranjos concretos de cuidado, articulação intersetorial e reconhecimento das complexidades dos territórios.
CARTAS REFLEXIVAS: PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA NO NAMORO ENTRE MENINAS ADOLESCENTES POR MEIO DE METODOLOGIA EDUCATIVA PARTICIPATIVA NO TERRITÓRIO AMAZÔNICO
Comunicação Oral Curta
1 UEA
2 FMT-HVD
Contextualização
A violência no namoro configura-se como expressão da violência de gênero, com elevada prevalência na adolescência e potencial de evoluir para desfechos graves, como o feminicídio. No Brasil, adolescentes figuram entre os grupos mais afetados por diferentes formas de violência, em contextos marcados por desigualdades de gênero e vulnerabilidades sociais. Na região amazônica, tais iniquidades se articulam a dimensões territoriais e socioculturais específicas, reforçando a necessidade de abordagens interseccionais e decoloniais. Apesar da relevância do tema, ações preventivas voltadas à violência no namoro ainda são incipientes, especialmente no ambiente escolar, evidenciando a importância de estratégias educativas que promovam reflexão crítica, equidade de gênero e construção de relações não violentas.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência de uma atividade educativa desenvolvida com adolescentes no âmbito do estudo Moara, em uma escola pública de tempo integral de Manaus-AM. O estudo Moara teve como objetivo principal avaliar o impacto de atividades educativas na promoção de saúde, na equidade de gênero e na melhoria nos processos de leitura. Participaram 16 adolescentes do sexo feminino, com 12 anos de idade. A atividade foi conduzida por equipe multiprofissional, utilizando abordagem participativa e dialógica, baseada em roda de conversa, dinâmicas interativas e produção de cartas reflexivas (“Minhas Cartas”). Foram utilizados vídeos e recursos audiovisuais para problematizar diferentes formas de violência no namoro, bem como apresentar referências de relações saudáveis.
Período de Realização
A atividade foi realizada em setembro de 2024, durante o período letivo, com duração de uma hora, nas dependências da escola.
Objetivo
Promover reflexão crítica sobre as múltiplas formas de violência no namoro, estimulando sua identificação precoce e o enfrentamento dessas situações entre meninas adolescentes, por meio de metodologias educativas participativas.
Resultados
Por meio das cartas reflexivas revelou-se a ampliação da compreensão das participantes acerca das diversas formas de violência, com destaque para o reconhecimento da violência psicológica e autoprovocada. Observou-se o fortalecimento de valores como empatia, respeito, autonomia e empoderamento feminino. Emergiram duas categorias principais: (1) compreensão da violência e suas consequências, evidenciando maior capacidade de identificação de situações abusivas; e (2) dimensão emocional do processo educativo, marcada por sentimentos de desconforto, introspecção e engajamento. O ambiente de escuta ativa favoreceu a expressão de experiências e a construção de vínculos solidários entre as participantes.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que práticas educativas participativas, centradas no diálogo e na escuta, são subsídios para a promoção de consciência crítica e para o fortalecimento de sujeitos de direitos. O reconhecimento das dimensões emocionais como parte do processo educativo mostrou-se central, indicando que o desconforto pode atuar como elemento mobilizador da reflexão. A inserção de referências positivas de relacionamentos contribuiu para ampliar repertórios e possibilidades de identificação de relações saudáveis.
Apesar dos resultados promissores, a intervenção apresenta limitações, como o número reduzido de participantes e a realização pontual da atividade, o que restringe a generalização dos achados. Ainda assim, a experiência reforça a necessidade de institucionalização de ações contínuas e intersetoriais, articulando saúde, educação e assistência social. Destaca-se a importância de abordagens interseccionais e decoloniais, que considerem as especificidades territoriais e socioculturais da Amazônia, bem como as desigualdades de gênero que atravessam a experiência das adolescentes. A incorporação dessas perspectivas é essencial para o enfrentamento estrutural da violência de gênero.
CARTOGRAFANDO O CORPO-TERRITÓRIO: USO DE UMA METODOLOGIA FEMINISTA PARA A ESCUTA DE PERSPECTIVAS UNIVERSITÁRIAS AMAZONENSES SOBRE VIOLÊNCIA DE GÊNERO
Comunicação Oral Curta
1 UEA
2 FIOCRUZ
Contextualização
As universidades, como instituições constituídas a partir de um sistema de base colonial, racista e patriarcal, configuram-se como territórios atravessados por relações de poder que (re)produzem e sustentam iniquidades. A partir de uma perspectiva interseccional, compreende-se que essas dinâmicas incidem de forma diferenciada sobre os sujeitos, tornando algumas trajetórias mais expostas a violências de gênero e sexuais no cotidiano acadêmico, especialmente na região Norte. Nesse contexto, as violências de gênero e sexuais não se restringem a relações individualizadas, mas se manifestam de múltiplas formas e de maneira contínua, sendo encenadas nos territórios e nos corpos que os habitam. Tais experiências são moldadas por marcadores sociais e produzem efeitos que ultrapassam a violência em si, irradiando-se como silenciamentos e conformando modos de agir, falar e circular pelo campus. Esta experiência buscou produzir estratégias e sustentar espaços de escuta de violências vivenciadas, tensionando a compreensão da universidade como um espaço de presumida segurança e neutralidade e ampliando relatos que, no cotidiano, permanecem à margem.
Descrição
A oficina foi realizada a partir de um convite de minha orientadora do mestrado, como forma de aproximação com o campo de minha pesquisa. Situa-se em uma perspectiva feminista de produção do conhecimento, que reconhece a não neutralidade da pesquisadora e sua implicação na forma de escutar, observar e conduzir o processo, a partir de sua posição como mulher, jovem e nortista. A atividade foi desenvolvida com base na metodologia do corpo-território, compreendendo o corpo como espaço atravessado por experiências, memórias e relações de poder. Trata-se de uma abordagem de raízes latino-americanas, vinculada à educação popular feminista e à construção coletiva de saberes, sustentada pelo diálogo horizontal e pela partilha de experiências. Realizada em uma turma de Enfermagem, a proposta incluiu uma adaptação metodológica com uso de materiais expressivos como cerâmica fria, cartolina e pincéis, buscando ampliar formas de expressão do vivido. Inicialmente, foi conduzido um momento de mindfullness, favorecendo a reconexão com sensações, memórias e afetos. Em seguida, os estudantes utilizaram a cerâmica para expressar percepções e experiências relacionadas à violência de gênero na universidade. Enquanto as produções secavam, organizaram-se em grupos para construir mapas do território universitário, identificando espaços percebidos como mais acolhedores e mais inseguros. Ao final, foram encorajados a colocar suas esculturas sobre os mapas, articulando corpo e território em uma mesma composição. Por fim, foram convidados a comentar sobre suas produções.
Período de Realização
Março/2026
Objetivo
Descrever a realização de oficina com a metodologia corpo-território e cerâmica sobre percepções de (in)segurança e violência de gênero no cotidiano acadêmico de estudantes amazonenses.
Resultados
Os resultados revelam que a percepção de segurança é maior em espaços de convivência feminina, como centros acadêmicos e banheiros com presença exclusiva de mulheres. Ambientes como salas de aula com professoras e núcleos de apoio psicológico foram citados como seguros. Em contrapartida, a insegurança predomina em locais isolados ou de circulação mista, como elevadores, escadas, estacionamentos e laboratórios, na presença de autoridades masculinas. Nota-se que os homens tenderam a subestimar inseguranças no território que as mulheres, por outro lado, relataram como persistentes e ameaçadoras. As cerâmicas produzidas simbolizaram a realidade emocional das participantes, materializando sentimentos de opressão, silenciamento, depressão, impotência e vulnerabilidade. Essas peças também expressaram a objetificação do corpo feminino, a relação de continuidade entre formas de violência simbólica até as mais explícitas, a dominação masculina no campus e a ineficácia de proteção à comunidade pelas estruturas institucionais. Esses registros revelam que o coletivo porta marcas profundas em sua trajetória acadêmica e, como estratégia de resistência, encontram caminhos no diálogo entre pares e no suporte psicológico. Além disso, foi percebido que os discentes se decepcionam com a faculdade. Houveram algumas percepções de que o distanciamento de redes de apoio influenciou na percepção sobre sua vulnerabilidade à violências.
Aprendizado e Análise Crítica
Com esta experiência, compreendo que a metodologia de corpo-território mobilizou emocional e intelectualmente os discentes e para alguns, foi um exercício de alteridade, pois a divergência na percepção entre gêneros sobre segurança indica desigualdades nas vivências universitárias. A metodologia permitiu a expressão criativa de conteúdos que são classificados como "tabus" ou que são sistematicamente silenciados por estruturas de poder. Há falhas estruturais no acolhimento e reconhecimento institucional de violências em que, ao contrário de protetoras, instâncias administrativas foram reconhecidas como locais de perpetuação da violência.
CONTRIBUIÇÕES DA COMUNICAÇÃO E SAÚDE PARA PENSAR A VIOLÊNCIA DE GÊNERO A PARTIR DA INTERSECCIONALIDADE E DA COLONIALIDADE
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz
Apresentação/Introdução
A violência de gênero é um problema de saúde pública. A luta feminista colocou o gênero na agenda pública, assim, políticas públicas foram criadas, tanto para a mudança cultural, quanto para o enfrentamento da violência. Ao mesmo tempo, contemporaneamente, há uma retomada do discurso misógino, uma revalorização do masculino. Como efeito, temos o aprofundamento da violência de gênero e a sua banalização enquanto característica ‘natural’. No Brasil, os corpos que mais vitimados têm gênero e raça, ou seja, em sua maioria, são mulheres negras que sofrem em maior grau a violência. O SUS possui mecanismo e instrumentos que buscam enfrentar e mitigar os impactos da violência de gênero na saúde, contudo, a permanência (e o agravamento) do problema demonstra a importância de mobilizar novos conhecimentos para responder a violência de gênero. O campo da Comunicação e Saúde contribui para problematizar as desigualdades em saúde e a interseccionalidade e a decolonialidade conformam o nosso olhar para a violência de gênero.
Objetivos
Discutir as contribuições do campo da Comunicação e Saúde para o enfrentamento da violência de gênero no âmbito do Sistema Único de Saúde e problematizar o olhar hegemônico sobre a violência de gênero no campo da saúde, refletindo sobre quais as possíveis contribuições de um olhar interseccional e decolonial para esse fenômeno.
Metodologia
Nosso estudo parte das contribuições do campo da Comunicação e Saúde. Por isso, compreendemos a violência de gênero na saúde como a expressão de um fenômeno cultural e socialmente produzido. Nesse sentido, buscamos observar as lutas, as disputas e os tensionamentos ocorridos nos últimos anos. Iniciamos por uma aproximação com os temas da violência de gênero e da interseccionalidade e decolonialidade no campo da saúde coletiva. A construção metodológica parte do diálogo entre duas teses de Doutorado que discutem as temáticas e que pensam a partir da produção dos sentidos.
Resultados e Discussão
O Mapa Nacional da Violência de Gênero de 2025, do Senado Federal, até junho do ano passado tinha registrado 718 vítimas de feminicídio, representando 4 mulheres vítimas de feminicídio todos os dias no Brasil. 63,6% dessas mulheres eram negras; 70,5% tinham entre 18 e 44 anos; 64,3% dos casos aconteceram dentro da casa das vítimas; e em quase 80% dos casos se tratava de companheiro ou ex-companheiro da vítima.
Esses números, além de reforçarem a necessidade de seguirmos nos debruçando sobre o tema, a fim de reforçar vozes dessa arena de disputas por poder, que é o campo da Comunicação e Saúde, apontam para a violência como linguagem, uma forma de comunicação entre homens, em que a vítima é usada como mensagem. Por isso, em sociedade, essa violência pode ser naturalizada, mídias, instituições e, sobretudo, práticas cotidianas, ensinam sobre tolerar, banalizar e reproduzir violências.
Gênero é o determinante social da saúde que, neste trabalho, é analisado junto com raça e classe, configurando desigualdades que atuam de maneira combinada. Mulheres negras, pobres ou periféricas, por exemplo, enfrentam múltiplas opressões e o campo da saúde precisa considerar essas sobreposições. A violência — especialmente contra mulheres — é uma linguagem de poder dentro do patriarcado, usada para manter hierarquias e comunicar dominação entre homens, sendo sustentada por estruturas sociais, simbólicas e históricas, sendo a Comunicação uma dessas estruturas e neste trabalho privilegiada.
A Comunicação é espaço de lutas por hegemonia, de disputas simbólicas e de produção de sentido. Ou seja, ela não é mero processo informativo, mas prática social que não está desconectada de contextos culturais e relacionais. Por isso, pensar a justiça social a partir do direito à saúde passa por, radicalmente, construir a Comunicação como um direito.
Conclusões/Considerações Finais
A violência é um fenômeno social complexo e problema de saúde pública. Ou seja, precisa ser compreendida dentro das relações de poder e desigualdade. Por isso, fatores estruturais como relações de gênero, racismo, classe social, orientação sexual e outros marcadores sociais são determinantes sociais da violência. Nesse sentido, a interseccionalidade e a decolonialidade, como formas de olhar (e de intervir) para as desigualdades, contribuem para problematizar a questão da violência de gênero no campo da saúde coletiva de modo situado e que considere os diferentes contextos sociais e culturais.
CUIDADO À SAÚDE MENTAL DE MENINAS ADOLESCENTES NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE: REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS EQUÂNIMES DIRECIONADAS PELA INTERSECCIONALIDADE
Comunicação Oral Curta
1 UNEB
Apresentação/Introdução
A equidade é um dos princípios fundamentais do Sistema Único de Saúde (SUS). Embora o direito à vida e ao desenvolvimento pleno seja universalmente assegurado, existem marcadores históricos, sociais e culturais, que influenciam na maneira como a saúde é acessada. Dessa forma, a equidade visa tratar desigualmente os desiguais, direcionando atenção e recursos aos grupos em situação de maior vulnerabilidade. Dentre os públicos atendidos pelo SUS, tem-se a população adolescente. A adolescência é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma fase do desenvolvimento marcada por múltiplas transformações biopsicossociais que abarca dos 10 aos 19 anos, sendo, no Ocidente, associada a rebeldia, conflito e irresponsabilidade. Quando a adolescência é analisada sob a perspectiva de gênero, observa-se que as normas sociais que atribuem às mulheres papéis de docilidade, recato e subalternidade contribuem para a banalização e deslegitimação de suas experiências no campo da saúde. Adicionalmente, as pressões estéticas, expectativas sobre o “ser mulher” e maior exposição a diferentes formas de violência impactam na saúde mental. Nesse viés, a interseccionalidade se apresenta como ferramenta teórico-metodológica e lente analítica para alcance da equidade, pois contribui para a compreensão das dimensões que estruturam as desigualdades e os modos de existir. Marcadores de gênero, raça, classe, sexualidade, faixa etária e dentre outros, permitem investigar como sistemas de opressão (racismo, branquitude, capitalismo, cisheteropatriarcado) se entrecruzam na produção das subjetividades e nas condições de acesso ao cuidado à saúde.
Objetivos
Refletir sobre como a interseccionalidade pode contribuir para o alcance da equidade no cuidado à saúde mental de meninas adolescentes no SUS.
Metodologia
Trata-se do recorte de um levantamento bibliográfico realizado na construção de um projeto de pesquisa de mestrado intitulado “Demandas de saúde mental de meninas adolescentes: estratégias e desafios no processo de trabalho do Agente Comunitário de Saúde”, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências do Cuidar em Saúde (PPGCCS) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus VII. A pesquisa foi realizada entre os meses de Maio e Novembro de 2025. Foram consultados documentos do Ministério da Saúde, da OMS e das bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs), Base de Dados de Enfermagem (BDEnf), Scientific Electronic Library Online (Scielo), Portal de Periódicos Eletrônicos em Psicologia (Pepsic), publicados língua portuguesa e em qualquer período. Utilizou-se as palavras-chave: “adolescentes”, “meninas”, “saúde mental”, “agente comunitário de saúde” para realizar a busca. Foram selecionadas as publicações que descrevessem sobre aspectos gerais da adolescência, a questão de gênero e o cuidado em saúde no SUS, realizando leituras exaustivas e flutuantes para a construção das categorias de fundamentação teórica do projeto.
Resultados e Discussão
Ainda que a interseccionalidade não se configure como eixo central ou tema primário de busca para a construção do projeto de pesquisa que deu origem a este levantamento, a pouca articulação dos achados com o tema da interseccionalidade emergiu como um dado relevante. Existe um volume significativo de publicações voltadas à temática da adolescência, todavia, sob uma perspectiva universalizante e homogênea. Nesse movimento, questões de gênero, raça, classe e território tendem a ser secundarizadas, o que pode limitar a compreensão das adolescências. A interseccionalidade permite considerar que: adolescentes negras estão mais expostas a situações de violência física e sexual, se comparado às adolescentes não negras; adolescentes indígenas vivenciam o entrecruzamento de colonialidade, gênero e etnia, que intensificam a insegurança de direitos em contraste com as não indígenas; mulheres cisgênero heterossexuais enfrentam normas de submissão, cuidado maternal e limitações que se reverberam na saúde mental; mulheres LGBTQIAPN+, sofrem todos os impactos anteriormente citados, com o acréscimo da discriminação quanto a orientação sexual e identidade de gênero, que intensificam a exclusão social e a insegurança. Ademais, não se pode desconsiderar o próprio entrecruzamento dos exemplos supracitados, acrescidos de contextos periféricos, das águas, das florestas, do campo, de baixa renda, do trabalho precoce/exploratório, de deficiências, entre outras condições. Dessa forma, a interseccionalidade, torna possível compreender que a saúde mental e as condições de acesso ao cuidado não se distribuem de forma homogênea, exigindo o reconhecimento e o enfrentamento dessas desigualdades estruturais.
Conclusões/Considerações Finais
A interseccionalidade se constitui como um caminho para a promoção da equidade no cuidado à saúde mental de meninas adolescentes no SUS, pois, tensiona práticas homogêneas e universalizantes que generalizam e invisibilizam as especificidades desse público.
ENTRE A ÉTICA DO CUIDADO E A PRECARIZAÇÃO INSTITUCIONAL: DESAFIOS DO ACOLHIMENTO A MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA NO SUS
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz - Minas Gerais
2 UFMG
Contextualização
A reflexão sobre a violência de gênero no Brasil revela dados alarmantes, conforme estatísticas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2025) o qual evidenciou crescimento importante da maioria das tipologias de violência contra as mulheres (VCM). Esse quadro se torna ainda mais crítico diante do caráter subnotificado, silenciado e naturalizado do fenômeno. Ademais, embora reconhecida como universal, a VCM pode ser analisada interseccionalmente com maior incidência entre mulheres racializadas e em situação de vulnerabilidade social. Neste contexto, em que pese o avanço do arcabouço político-legal brasileiro, persiste, no país, uma distância entre o reconhecimento normativo da violência e a efetividade das respostas oferecidas pelo Estado. Essa lacuna revela contradição central: o Brasil estrutura-se formalmente como Estado Democrático de Direito, mas convive com diretrizes neoliberais que restringem investimentos em políticas, inclusive de saúde.
Descrição
Este relato de experiência baseia-se na vivência em ambulatório especializado no atendimento a mulheres em situação de violência, localizado em um complexo hospitalar de universidade pública mineira. Com uma década de funcionamento, o serviço oferece rodas de conversa entre pares e atendimentos individuais realizados por profissionais, pós-graduandos e graduandos de diversas áreas.
Período de Realização
O trabalho decorre de observação participante e atendimentos realizados entre agosto e dezembro de 2025.
Objetivo
Objetiva-se analisar a tensão entre a potência clínica do acolhimento ético e os limites estruturais impostos por uma rede atravessada por lógicas neoliberais e patriarcais. Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza analítico-reflexiva, estruturado como relato de experiência e norteado pelo processo de sistematização reflexiva. Considerando que os pesquisadores atuaram simultaneamente como profissionais e autores da análise, reconhece-se a implicação subjetiva na produção dos dados.O trabalho possui aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa local sob o parecer nº 3.742.630 (CAAE: 19748819.3.0000.5149).
Resultados
A experiência da violência produz vulnerabilidades subjetivas e sociais. Relatos recorrentes evidenciaram que o espaço era percebido como o primeiro local de escuta não julgadora, sugerindo a centralidade da dimensão relacional no cuidado. Essa situação revela simultaneamente um fato preocupante e os pontos positivos do serviço. A assistência à saúde depende da qualidade da relação entre profissional e sujeito, sendo necessária uma escuta baseada no acolhimento radical do que é dito, pois qualquer julgamento negativo pode silenciar a história. Assim, habilidades clínicas como autossuporte e acolhimento radical precisam ser desenvolvidas. A clínica psicossocial destaca a necessidade de suporte aos afetos emergentes no campo (desespero, aflição, angústia, ansiedade), sendo a aceitação radical a atitude de acolher contradições, medos e vergonhas. Esse comportamento favorece relatos positivos: manter postura de abertura, acolhimento e legitimação fez com que mulheres relatassem melhora após os atendimentos. Apesar desses efeitos subjetivos, as condições estruturais de vulnerabilidade impõem limites à transformação restrita ao espaço clínico, sendo necessário examinar os condicionantes institucionais que incidem sobre a efetividade do cuidado. Na roda, observa-se que muitas usuárias carecem de direitos fundamentais, evidenciado pela necessidade de estarem acompanhadas de filhos e netos (devido à ausência de creches ou rede de apoio), pela supervalorização do lanche coletivo (especialmente entre aquelas com histórico de insegurança alimentar), pelo absenteísmo motivado pela falta de recursos para mobilidade urbana e pela queixa de morosidade no acesso aos serviços de saúde (considerando a dependência do SUS e sua fragilidade local). Diante disso, a lógica de contenção de gastos impõe restrições à consolidação de redes intersetoriais de cuidado, sendo a proposta da ética do cuidado uma importante alternativa. Essa cosmovisão entende o ser humano como relacional (contrariando o individualismo liberal) e defende que pessoas em sofrimento necessitam de uma rede sólida de cuidados. A vulnerabilidade não é vista como deficiência individual, mas como condição intrínseca à humanidade que demanda respostas éticas e políticas, sendo o cuidado uma categoria pública capaz de romper com a lógica da negligência.
Aprendizado e Análise Crítica
A produção deste trabalho possibilitou refletir criticamente sobre a prática de cuidado no contexto de VCM, marcado por contradições entre avanços normativos e limites institucionais. Nesse sentido, torna-se necessário que os serviços públicos revisem suas práticas clínicas, orientações técnicas e capacidade de articulação, a fim de fortalecer a resolutividade e evitar novas formas de violência institucional.
ENTRE A NORMA E O TERRITÓRIO: A DISCRICIONARIEDADE DOS BUROCRATAS DE NÍVEL DE RUA NO ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DE GÊNERO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ/RJ
2 Fiocruz/RJ
3 Fiocruz/Rj
Apresentação/Introdução
As violências de gênero são definidas como qualquer tipo de ato violento que fira a dignidade humana praticado contra alguém em situação de vulnerabilidade devido a sua identidade de gênero ou orientação sexual. Baseado no arcabouço legal instituído pela Lei nº 11.340/2006, elas são classificadas como física, psicológica, moral, patrimonial e sexual. Há, ainda, a violência institucional que é aquela praticada nas e/ou pelas instituições que prestam serviços às mulheres, sendo perpetrada por ação ou omissão de agentes públicos.
Os implementadores de políticas são denominados burocratas de nível rua (BNR), termo utilizado para descrever agentes estatais que trabalham diretamente no atendimento aos usuários dos serviços públicos. O que os define não é a posição hierárquica, mas serem o elo de conexão e acesso entre usuários e Estado. O principal elemento para análise dos BNR é o conceito de discricionariedade, definido como o espaço de liberdade para tomada de decisão, dentro do constrangimento colocado pelas regras. Por estarem na linha de frente, acaba sendo inevitável que os BNR adotem ações discricionárias para garantirem, de alguma forma, a aplicação das políticas.
Objetivos
A presente pesquisa busca analisar o atendimento a mulheres em situação de violência de gênero em dois dispositivos de atenção primária à saúde, com foco nas narrativas e práticas dos BNR. Além de tentar compreender como elementos institucionais e sociais influenciam o comportamento dos indivíduos nos processos decisórios da implementação de políticas públicas. Como hipótese, tem-se que o exercício de discricionariedade conduzido pelos operadores produzem efeitos que podem reduzir ou aumentar as rotas críticas e que esse exercício de discricionariedade é influenciado por diferentes fatores sociais, organizacionais, relacionais e individuais.
Metodologia
Trata-se de um estudo de abordagem socioatropológica qualitativa, fundamentado em um trabalho de campo realizado em dois dispositivos da APS na zona norte do Rio de Janeiro realizada entre novembro de 2022 e maio de 2023. A coleta de dados envolveu a observação participante e 14 entrevistas semiestruturadas com profissionais de diferentes categorias. A análise seguiu a técnica de análise de conteúdo temática, buscando identificar padrões nas tomadas de decisão e nos sentidos atribuídos à violência. Após a sistematização do material coletado, foram destacadas 3 categorias: ausência de dispositivos da rede intersetorial; formação e compreensão sobre violência de gênero e estratégias de enfrentamento na atuação profissional
Resultados e Discussão
Os resultados da pesquisa revelam que a implementação da política de enfrentamento à violência de gênero no território é atravessada por violência institucional, caracterizada pela escassez de dispositivos na rede intersetorial e pela ausência de protocolos de ação e fluxos assistenciais padronizados. Essa lacuna institucional configura-se como uma barreira determinante na rota crítica das usuárias, forçando os burocratas de nível de rua (BNR) a operarem em um cenário de imprevisibilidade. Diante da carência de formação qualificada e de diretrizes programáticas baseadas na Política Nacional de Enfrentamento às Violências Contra a Mulher, o atendimento torna-se dependente da subjetividade e da discricionariedade do profissional. Na prática cotidiana, as decisões são frequentemente norteadas por memórias e experiências pessoais, transformando o improviso em uma estratégia para tornar a política exequível.
Conclusões/Considerações Finais
Em suma, os BNR atuam entre o que está prescrito na política de saúde e o que é possível no contexto que estão inseridos. É por meio de sua autonomia limitada e da capacidade de oferecer respostas adaptadas que se define, na ponta do serviço, o acesso das populações aos direitos. Ao processarem as demandas e queixas de violências de gênero no cotidiano da atenção primária, os agentes frequentemente enfrentam desafios como a falta de infraestrutura e integração na rede assistencial, o que requer a atuação discricionária em variados episódios. As ações destes agentes públicos podem tanto facilitar quanto dificultar o acesso aos serviços de saúde, influenciando diretamente as rotas críticas no atendimento às mulheres. A análise considera que as vivências dos operadores e as complexas interações entre os aspectos institucionais e sociais são cruciais para entender o campo das políticas públicas voltadas para o enfrentamento das violências de gênero e os limites enfrentados na implementação delas.
ENTRE VIOLÊNCIAS E RESISTÊNCIAS: APRENDIZADOS NA CONSTRUÇÃO DE PRODUTOS EDUCACIONAIS PARA A SAÚDE MENTAL DE TRABALHADORAS DO SUS
Comunicação Oral Curta
1 UFAL Arapiraca
2 Secretaria Municipal de Saúde
Contextualização
As múltiplas formas de violência que ocorrem em espaços de trabalho especialmente aquelas atravessadas por marcadores de gênero, raça, classe e território, produzem efeitos profundos e cumulativos na vida das trabalhadoras. Tais experiências comprometem não apenas sua integridade física, mas também sua saúde mental, autoestima e senso de pertencimento, afetando suas relações sociais, sua segurança subjetiva e a forma como se percebem e se posicionam nos ambientes laborais. Nesse contexto, a proteção e o cuidado em saúde mental configuram-se como dimensões indissociáveis da promoção da saúde ocupacional, exigindo a construção de estratégias que incorporem o acolhimento, a escuta qualificada, o fortalecimento do autocuidado e o suporte institucional. O desenvolvimento de produtos educacionais fundamentado em abordagens participativas, promovem o protagonismo e o empoderamento das trabalhadoras na transformação das situações de violência nos espaços de trabalho. São estratégias que ampliam e empoderam as trabalhadoras no reconhecimento, identificação e enfrentamentos às violências.
Descrição
A experiência foi realizada pelo Grupo de Aprendizagem Tutorial (GAT) “Todos por elas!” que integra o Programa de Educação pelo Trabalho (PET) Saúde com tema: “Tudo para elas, nada sem elas: construindo equidade com as trabalhadoras do SUS”. Como parte das ações para promover equidade e prevenir as violências relacionadas ao trabalho na saúde, o GAT realizou seminários temáticos para alinhamento teórico da equipe acerca de gênero, raça, classe social, saúde mental e violências no trabalho. Como desdobramento das discussões, foi proposta a elaboração de produtos para educação em saúde, orientados pelo Método CTM³ (Concepção do Produto, Referencial Teórico e Referencial Metodológico), fundamentado nas abordagens da Análise Transacional, da Aplicação Multissensorial e da Programação Neurolinguística. Foram desenvolvidos três produtos educacionais: o Baralho das Emoções, voltado à escuta, acolhimento e autocuidado em saúde mental; o manual A dor que não vira número, sobre a subnotificação dos transtornos de saúde mental das trabalhadoras; o jogo virtual Escala de Risco, dinâmica educativa para identificação das violências no trabalho. Os produtos foram apresentados e aplicados com as trabalhadoras por meio de um Ciclo de Atividades, desenvolvidas nos espaços de trabalho do SUS com profissionais dos níveis de atenção primária e secundária. Para cada produto foi realizada uma atividade educativa com as trabalhadoras na rede de atenção à saúde no município. Acadêmicos dos cursos de Medicina, Enfermagem, Serviço Social, Psicologia e Administração, Preceptoras do serviço e docentes conduziram as atividades. O manual “A dor que não vira número” foi apresentado em uma roda de conversa com as profissionais do Núcleo de Vigilância Hospitalar despertando a atenção para a subnotificação dos transtornos psíquicos, incentivando uma postura mais crítica em relação aos registros de saúde e fortalecendo a produção de dados capazes de embasar ações institucionais. O jogo virtual “Escala de Risco”, foi aplicado em uma atividade dinâmica com Agentes Comunitárias de Saúde para estimular a identificação e o reconhecimento das violências vividas nos espaços laborais, favorecendo um processo coletivo de reflexão sobre vulnerabilidades e estratégias de enfrentamento. O “Baralho das Emoções” foi apresentado em uma oficina para profissionais do CEREST, visando proporcionar um espaço de escuta, acolhimento e autocuidado, reforçando a importância do apoio mútuo e da valorização das experiências subjetivas das trabalhadoras.
Período de Realização
junho de 2024 a dezembro de 2025
Objetivo
desenvolver e apresentar ferramentas de educação em saúde para prevenção das violências e promoção de práticas que fortaleçam o cuidado em saúde mental para trabalhadoras do SUS.
Resultados
A experiência demonstrou o potencial da utilização de tecnologias leves e de práticas de trabalhos interdisciplinares para a promoção da saúde mental. Além disso, os produtos educacionais traduzem evidências em práticas de cuidado e educação permanente para desconstrução das violências nos espaços laborais. Recomenda-se incorporar essas estratégias à rotina dos serviços de saúde, com espaços permanentes de escuta, continuidade das ações e replicabilidade em outros pontos da rede visando fortalecer ambientes de trabalho equitativos e protetores.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a articulação ensino-serviço-comunidade favorece respostas mais aderentes às necessidades de cuidado, proteção e valorização das trabalhadoras do SUS. Os produtos educacionais demonstraram potencial para traduzir evidências em práticas acessíveis de escuta, acolhimento, educação permanente e problematização da subnotificação. Como análise crítica, destaca-se a necessidade de ampliar o alcance da iniciativa, incorporar os produtos à rotina dos serviços e fortalecer espaços permanentes de cuidado, monitoramento e enfrentamento das violências no trabalho.
Realização: