Programa - Comunicação Oral Curta - COC3.1 - O cuidado no território: práticas psicossociais
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
A PREVENÇÃO DO SUICÍDIO NO TERRITÓRIO: DESPATOLOGIZAÇÃO DO CUIDADO E O PAPEL DOS GUARDIÕES COMUNITÁRIOS
Comunicação Oral Curta
1 Fundação Oswaldo Cruz
Apresentação/Introdução
A abordagem hegemônica da prevenção ao comportamento suicida no Brasil ainda é fortemente marcada pela lógica biomédica e patologizante, reduzindo um fenômeno multideterminado a um sintoma psiquiátrico individual. Essa perspectiva frequentemente ignora o contexto social, a perda de sentidos existenciais e as violências estruturais que perpassam sujeitos marginalizados (NAVASCONI, 2019). Nos serviços de urgência, essa visão moralista resulta em graves violações de direitos humanos, com pacientes submetidos a julgamentos e perda de autonomia (ALBUQUERQUE et al., 2019). Como a intervenção estritamente médica se mostra insuficiente diante de vulnerabilidades sociais complexas (SILVA FILHO, 2019), é urgente repensar a assistência, aliada a um cuidado territorial, amparado na articulação intersetorial e no papel dos guardiões comunitários.
Objetivos
Analisar, a partir do discurso de especialistas, as estratégias de despatologização do cuidado ao comportamento suicida e a potência da atuação intersetorial no território, com ênfase no papel estratégico dos guardiões comunitários.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, vinculada a projeto apoiado pela FAPERJ. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, de forma remota, com 13 especialistas (8 psicólogos e 5 psiquiatras) com atuação e notório saber na prevenção do suicídio. A seleção ocorreu por amostragem em "bola de neve". O material empírico foi transcrito na íntegra e submetido à Análise de Conteúdo na modalidade temática, buscando desvelar os núcleos de sentido das narrativas (MINAYO, 2004). O estudo cumpriu as exigências éticas e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da ENSP/FIOCRUZ (CAAE: 57134422.6.0000.5240).
Resultados e Discussão
A análise evidenciou a urgência de uma virada epistemológica na suicidologia brasileira: as ações devem abandonar a pergunta excludente sobre "como evitar a morte a qualquer custo" para questionar "quem é o sujeito, onde ele está inserido e como produzir vida".
O primeiro eixo de tensão recai sobre a crítica à hipermedicalização. Os especialistas reconhecem que o saber médico e as intervenções farmacológicas/hospitalares são indispensáveis para o manejo agudo das crises e preservação imediata da vida. Contudo, denunciam que o equívoco está em tratar a medicalização como sinônimo de prevenção. Ao resumir o suicídio a um transtorno, impõe-se uma "performance" de melhora (LIMA, 2022) que destitui o indivíduo de sua subjetividade. Como resumiu um entrevistado: "A gente acha que o suicídio é doença ou sintoma de doença, logo, vai oferecer tratamento. [...] A gente está míope em relação ao que é o suicídio" (E5). Essa miopia inviabiliza a escuta real e retroalimenta o estigma.
Para superar essa centralidade na área da saúde, emerge a necessidade de utilizar a vasta capilaridade da Atenção Básica do Sistema Único de Saúde (SUS) não como a única executora das ações, mas como grande articuladora de uma rede intersetorial (dialogando com o SUAS, educação e sociedade civil). É nessa malha que se promove a coletivização do cuidado por meio dos guardiões. Estes são atores inseridos ativamente na comunidade (educadores, lideranças religiosas, líderes comunitários e agentes de segurança) que, se devidamente sensibilizados, atuam como o primeiro ponto de acolhimento. A identificação do risco não pode ser monopólio exclusivo dos serviços de saúde.
O ambiente escolar foi referenciado como o principal território de atuação desses guardiões. Criticou-se, porém, o fato de as escolas se recusarem a incluir o debate da violência em suas propostas pedagógicas (ASSIS et al., 2018). Quando a escola abre espaço para a diversidade de identificações (esporte, teatro, atividades lúdicas), ela deixa de ser um local de adoecimento e exclusão para gerar pertencimento. "Eu acho que a gente precisa coletivizar o cuidado, porque senão a gente vai estar enxugando gelo", refletiu um participante (E3).
Conclusões/Considerações Finais
Prevenir o comportamento suicida requer a coragem de romper com práticas tutelares que violam os direitos dos pacientes, sem, contudo, descartar a ciência médica no manejo das crises agudas. A despatologização do sofrimento devolve a dignidade e a autonomia ao sujeito. Ao utilizar o SUS como articulador para descentralizar o cuidado, amparado na capacitação de guardiões comunitários, o Estado e a sociedade assumem uma postura ativa. Assim, espaços cotidianos são transformados em verdadeiras redes de sustentação, focadas não apenas na remissão de sintomas, mas na produção de sentidos plurais e dignos de vida.
CUIDADO EM SAÚDE NO CÁRCERE: PERSPECTIVAS DAS PESSOAS PRIVADAS DE LIBERDADE EM UMA UNIDADE PRISIONAL FEMININA NO INTERIOR DE PERNAMBUCO
Comunicação Oral Curta
1 UEFS
2 UNINASSAU PETROLINA-PE
Apresentação/Introdução
A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade (PNAISP) atua como um pilar essencial para assegurar que o sistema carcerário brasileiro ofereça cuidados médicos dignos e abrangentes. Fundamentada nos princípios do SUS, essa diretriz reforça que a restrição de liberdade não anula o direito constitucional à saúde, exigindo uma atuação estatal que promova a proteção e recuperação dos detentos. Além da assistência geral, o ordenamento jurídico instituiu a Política Nacional de Atenção às Mulheres em Situação de Privação de Liberdade e Egressas do Sistema Prisional, uma política específica voltada para as mulheres encarceradas que busca humanizar o tratamento penal sob uma perspectiva de gênero. Esse modelo normativo garante às mulheres o acesso a atendimento psicossocial e procedimentos adaptados às suas necessidades biológicas e sociais particulares. Assim, o conjunto dessas normas visa integrar a população prisional à rede de saúde pública, combatendo desigualdades e preservando a dignidade humana dentro das instituições penais.
Objetivos
Este estudo buscou compreender como são exercidas as práticas de saúde em uma cadeia pública no interior de Pernambuco.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo exploratório conduzido entre outubro e novembro de 2024 em uma cadeia pública feminina no interior de Pernambuco. A pesquisa envolveu oito mulheres encarceradas que acessaram o serviço de saúde após a prisão e que estavam em situação de cárcere há pelo menos seis meses, sendo excluídas aquelas com condições emocionais instáveis que dificultassem a comunicação. O estudo também cumpriu com as exigências éticas cabíveis, tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade Uninassau Petrolina.
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, garantindo a autonomia das participantes, e encerrada ao se atingir o critério de saturação teórica das respostas. Para organizar e analisar as informações coletadas, a pesquisa adotou a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), o que possibilitou reconstruir narrativas que representam de maneira fiel o pensamento do grupo investigado, promovendo uma análise qualitativa aprofundada
Resultados e Discussão
O sujeito coletivo da pesquisa foi composto por oito mulheres em uma unidade prisional de Pernambuco, predominantemente autodeclaradas pardas, com faixa etária estabelecida entre 28 e 49 anos. Quanto ao estado civil e à escolaridade, nota-se a prevalência de uniões consensuais e uma expressiva heterogeneidade no nível de instrução, que abrange desde o ensino fundamental incompleto até o ensino superior incompleto
Sobre a identidade de gênero e a orientação sexual, a amostra demonstra diversidade ao englobar indivíduos cisgêneros e uma pessoa transgênera, dividindo-se entre orientações heterossexuais, homossexuais e bissexual. Por fim, no que diz respeito à maternidade, constata-se que a grande maioria das participantes (n=6) possui filhos, variando de um a oito filhos
O cuidado em saúde nas unidades prisionais é percebido de forma predominantemente negativa devido a diversas falhas operacionais e estruturais, como a ausência contínua de profissionais, a demora nos encaminhamentos e as dificuldades com transporte para situações de emergência. Essas deficiências comprometem seriamente a assistência e atuam como graves fatores estressores na rotina prisional, agravando problemas de saúde mental como ansiedade, depressão, automutilação e pensamentos suicidas. Diante dessa carência de suporte adequado e da frustração com os processos externos, evidencia-se a urgência por melhorias estruturais, destacando-se a necessidade de que o atendimento de saúde, especialmente o voltado à saúde mental.
Vale destacar que tem DSC que o sujeito coletivo apresenta experiências de cuidado ágil e acolhedor, com encaminhamentos rápidos e atenção dedicada, mostrando que há iniciativas individuais que contribuem para um atendimento mais humanizado e eficiente. Esses resultados evidenciam a coexistência de lacunas críticas e boas práticas pontuais, apontando para a necessidade de intervenções estruturais e organizacionais que promovam uma assistência mais acessível, resolutiva e abrangente na cadeia em estudo.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo realizado sobre as práticas de saúde exercidas em uma unidade prisional feminina revelou a gravidade da situação vivenciada pelas PPL, tendo em vista o enfrentamento dos desafios relacionados à precariedade do sistema penitenciário brasileiro. As dificuldades no acesso a cuidados de saúde, a falta de recursos adequados para garantir o autocuidado e a escassez de atendimento psicológico são questões críticas que afetam diretamente a saúde física e mental das PPL. As barreiras estruturais e a limitação de recursos humanos são evidentes, evidenciando que a implementação da PNAISP é uma tarefa complexa
LINHAS DE CUIDADO EM LIBERDADE: A PRÁTICA DO CROCHÊ COMO PROMOÇÃO DE SAÚDE MENTAL NO CAPS
Comunicação Oral Curta
1 UFAM
Contextualização
O presente relato apresenta a experiência do projeto de extensão “Crochê-Terapia: Tecendo uma arte de cuidado” na atividade desenvolvida no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) III Benjamin Matias Fernandes, localizado em Manaus/AM. Inserido na lógica da atenção psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS), o projeto alinha-se à necessidade de práticas territoriais e substitutivas ao modelo manicomial, comprometidas com o cuidado em liberdade e com a valorização dos sujeitos em seus contextos de vida. Em oposição às estruturas que historicamente invisibilizam e excluem os sujeitos em sofrimento psíquico ético-político, utiliza-se a prática de tecer do crochê não apenas como técnica manual, mas como um recurso de comunicação verbal e não verbal. Nesse sentido, valorizando saberes populares e manuais buscando romper com a centralidade biomédica tradicional, possibilitando a expressão da subjetividade e a promoção da saúde mental.
Ademais, o projeto compreende o crochê como uma forma de expressão artística e cultural que pode atuar como ferramenta terapêutica no fortalecimento de vínculos, no compartilhamento de experiência e na produção de sentido, favorecendo espaços coletivos de convivência, escuta e construção de narrativas. Dessa maneira, o projeto utiliza a arteterapia com as técnicas do crochê como ferramenta de reconexão entre o sujeito e o seu território, fomentando sua autonomia e o fortalecimento das redes de apoio coletivas no território, em diálogo com práticas de cuidado ampliado no campo da saúde mental e com pressupostos da desinstitucionalização.
Descrição
A atividade consistiu em uma prática pontual realizada pelos participantes do projeto em conjunto dos Técnicos de Referência (TR), em um único encontro grupal com os usuários do serviço. Assim, a proposta centrou-se no ensino do crochê, utilizando o fazer manual como instrumento de cuidado terapêutico, com uma perspectiva coletiva e relacional do cuidado, contrapondo práticas individualizantes e medicalizantes. Nesse contexto, articulou-se a prática do crochê à escuta qualificada, ao compartilhamento de experiências e a valorização de formas não verbais de expressão, possibilitando a materialização e reflexão dos sentimentos e experiências durante o momento de tecitura. Mesmo em um encontro breve, buscou-se construir um espaço acolhedor, que favorecesse a participação dos usuários e a circulação de afeto e narrativa, reconhecendo o grupo como um dispositivo de cuidado em saúde mental.
Período de Realização
A prática foi realizada em junho de 2025 com acompanhamento da equipe multidisciplinar do CAPS III, tendo também como finalidade conhecer o território, os usuários e a realidade do serviço.
Objetivo
Ademais, o projeto tem como objetivo promover o cuidado por meio de uma atividade expressiva, integrando o recurso artístico como facilitador capaz de fomentar autonomia, autoestima, capacidade de expressão, formação e reconstrução de vínculos afetivos, dessa forma, estimulando troca de experiências entre os participantes e ampliação das formas de comunicação.
Resultados
Foi observado a receptividade dos usuários à proposta, ainda que marcada pela dificuldade no aprendizado das técnicas do crochê. Destaca-se que muitos dos usuários participantes apresentaram limitações na execução da atividade, o que esteve associado a verbalização de falas autodepreciativas, mostrando insegurança e baixa autoestima, aspectos que se explicam por vulnerabilidades sociais, exclusão e sofrimento psíquico. Apesar disso, o espaço do fazer coletivo contemplou um ambiente leve e fluído que favoreceu apoio mútuo, troca de experiências vividas entre os participantes e momentos de escuta. Assim, evidencia-se o crochê como mediador da construção de vínculos e da interação no cuidado em saúde mental.
Aprendizado e Análise Crítica
Refere-se ao aprendizado, a vivência demonstrou que práticas expressivas demandam adaptação de acordo com as singularidades do sujeito, sendo fundamental uma condução sensível, não normativa e acolhedora, em consonância com os cuidados da atenção psicossocial e da luta antimanicomial. Como análise crítica, destaca-se que a realização de apenas um encontro limitou a criação de vínculos e os efeitos da prática. No entanto, a experiência foi significativa ao ponto de, no início do ano de 2026, os TR's convidarem novamente o projeto para realizar práticas de crochê frequentes, indicando um reconhecimento da instituição sobre o potencial da proposta. Assim, o relato reafirma a importância da promoção e do cuidado em saúde, valorizando práticas de crochê e demais recursos artísticos como ferramentas potentes de humanização, participação e afeto no contexto da atenção psicossocial, especialmente na construção de estratégias coletivas de enfrentamento do sofrimento psíquico em contextos marcados por desigualdades sociais.
O PAPEL DO PSICÓLOGO NA ATENÇÃO TERCIÁRIA FRENTE ÀS DEMANDAS DE SUICÍDIO: ARTICULAÇÃO ENTRE HOSPITAL E REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL
Comunicação Oral Curta
1 Faculdade Santa Teresa - FST
Contextualização
Estima-se que o suicídio é a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo e que mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos (WHO, 2025). As razões que permeiam o suicídio são multifacetadas e influenciadas por fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais presentes ao longo de toda a vida dos sujeitos. Conforme a World Health Organization (WHO) “todos os anos, 727 mil pessoas tiram a própria vida, e muitas outras tentam o suicídio. Cada suicídio é uma tragédia que afeta famílias, comunidades e países inteiros, com consequências duradouras para aqueles que ficam”.
Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP, 2014) o suicídio é “um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção seja a morte, de forma consciente e intencional, mesmo que ambivalente, usando um meio que acredita ser fatal” (p. 9). Por outro lado, o comportamento suicida é compreendido como uma ação referente ao desejo de por fim à própria vida. Essa ação inclui desde o pensamento, o planejamento, a tentativa até a consumação do ato. Assim, “o suicídio é considerado um evento final, produto de múltiplos fatores conscientes e inconscientes que foram interagindo de formas variadas durante toda a vida do indivíduo” (Lima e Moraes, 2023, p.543).
Embora inúmeros casos de suicídio fossem notificados ao longo dos anos no Brasil, foi somente em 1990 que ele passou a ser considerado um problema a ser enfrentado pela saúde pública e que demandaria estratégias integradas de cuidado em diferentes níveis de atenção. Dessa forma, no cenário da atenção terciária, especialmente em hospitais gerais, tem se notado um crescente número de usuários que chegam nas emergências em situação de crise aguda, frequentemente após tentativas de suicídio ou com ideação suicida grave.
Diante disso, a atuação do psicólogo torna-se essencial para o manejo do sofrimento psíquico, avaliação de risco e construção de estratégias de cuidado que ultrapassem o atendimento imediato, articulando-se com a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Tal articulação é fundamental para garantir a continuidade do cuidado e a prevenção de novas crises.
Descrição
O presente relato refere-se à experiência de atuação psicológica em um hospital de média e alta complexidade na cidade de Manaus, frente ao acolhimento de pacientes admitidos por tentativa de suicídio. A intervenção ocorreu por meio de atendimentos individuais à beira leito, escuta qualificada, avaliação do risco de autoextermínio e acolhimento dos familiares. Paralelamente, foram realizadas discussões de caso com a equipe multiprofissional, visando à construção de um protocolo de atendimento para essas demandas. Foram realizadas também, articulação com dispositivos de atenção à saúde mental por meio de encaminhamentos qualificados e contato interinstitucional, com o objetivo de assegurar o seguimento do cuidado após a alta hospitalar.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida no período de março/2021 à março/2026 durante minha atuação profissional como Psicologia Hospitalar na atenção terciária.
Objetivo
Relatar a experiência de atuação do psicólogo na atenção terciária frente às demandas relacionadas ao comportamento suicida, com ênfase na articulação entre o contexto hospitalar e a Rede de Atenção Psicossocial.
Resultados
Observou-se que a intervenção psicológica no ambiente hospitalar contribuiu significativamente para a redução do sofrimento psíquico apresentada pelo paciente, visto que favorece a expressão emocional e a construção do vínculo terapêutico. Da mesma maneira, a avaliação sistemática do risco de suicídio possibilitou maior segurança nas condutas clínicas e no planejamento da alta hospitalar.
Por outro lado, a articulação com a rede mostrou-se um elemento central na continuidade do tratamento, porém enfrentamos desafios que envolveram a limitação na oferta de serviços de acompanhamento em saúde mental no município.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a importância da escuta qualificada, da postura ética e da atuação interdisciplinar no manejo de situações de crise. Verificou-se também a necessidade do psicólogo assumir um papel ativo na articulação em rede, compreendendo os fluxos do sistema de saúde e estabelecendo comunicação efetiva com outros serviços.
Destaca-se ainda, a necessidade do cuidado com os familiares, frequentemente impactados pelo evento, e a importância de incluí-los no processo terapêutico do paciente.
Contudo, apesar dos avanços na política de saúde mental brasileira, ainda há fragilidades e carências que afetam os serviços de atenção à saúde em diferentes locais do país. E em se tratando da região amazônica, percebe-se tanto a necessidade de investimento na ampliação de unidades de atendimento em saúde mental, o fortalecimento da RAPS no Amazonas, quanto a importância da qualificação de profissionais aptos a acolher demandas de saúde mental nos diferentes níveis de atenção à saúde visando à integralidade do cuidado e à efetiva prevenção do suicídio.
PERSPECTIVAS DA RESIDÊNCIA MULTIPROFISSIONAL E A INTERDISCIPLINARIDADE EM SAÚDE MENTAL COM ATUAÇÃO EM UM CAPS III EM MANAUS, AMAZONAS.
Comunicação Oral Curta
1 UEA
Contextualização
Contextualização: A residência multiprofissional em saúde configura-se como uma estratégia formativa baseada na educação em serviço, que articula teoria e prática no cotidiano do Sistema Único de Saúde (SUS), No contexto de um CAPS III em Manaus, essa vivência possibilita a integração entre teoria e prática, com atuação direta na atenção psicossocial, favorecendo o trabalho interdisciplinar, considerado fundamental para a construção de práticas que superem a fragmentação do cuidado, com base na atenção psicossocial territorializada, centrada no cuidado em liberdade e na reinserção social.
Descrição
Descrição: A atuação ocorreu em equipe composta por residentes de enfermagem, farmácia e psicologia, com suporte de preceptores e profissionais do serviço. O cenário caracteriza-se por elevada demanda assistencial, atendendo usuários de diversas zonas da cidade. As atividades desenvolvidas incluíram acolhimento, atendimentos individuais, grupos terapêuticos, consultas com médico especialista, elaboração de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS), visitas domiciliares, discussões de casos, reuniões semanais e articulação com a rede de atenção psicossocial.
Período de Realização
Período de realização: Trata-se de um relato de experiência desenvolvido em um CAPS III no município de Manaus, Amazonas, que iniciou em março de 2026 e está em curso com um período de aproximadamente seis meses, no âmbito da residência multiprofissional em saúde mental e atenção psicossocial.
Objetivo
Objetivo: Refletir sobre as contribuições da residência multiprofissional e da prática interdisciplinar na qualificação do cuidado em saúde mental, considerando os princípios da humanização, ambiência e cuidado em comunidade no contexto do CAPS, com atuação no período de março e abril de 2026.
Resultados
Resultados: Na prática, observou-se a inserção ativa dos residentes em diferentes dispositivos do CAPS, com participação direta no cuidado aos usuários. Participação de grupos e atividades de acolhimento, bem como na construção de projetos terapêuticos e nas reuniões de discussões de casos e também nas visitas domiciliares. De forma inicialmente como ouvintes ou observadoras, e com o tempo de forma mais autônoma e participativa, com grupos terapêuticos sendo guiados pelas residentes, onde é possível ver a interdisciplinaridade se concretizar nessa construção compartilhada das condutas, especialmente nas discussões de caso, elaboração de (PTS) e manejo de crises, promovendo maior resolutividade do cuidado. Destaca-se a ampliação do escopo de atuação dos profissionais, que passam a atuar de forma integrada, para além de suas formações específicas, como profissionais de saúde mental para além de suas singularidades.
Aprendizado e Análise Crítica
Aprendizados: A experiência contribuiu para o desenvolvimento de competências como escuta qualificada, trabalho em equipe, manejo de crises e flexibilidade diante de contextos adversos. Evidenciou-se a importância da atuação em rede e da articulação intersetorial para a continuidade do cuidado. A vivência no CAPS permitiu compreender a saúde mental como prática territorializada, mas sobretudo interdisciplinar com união e compreensão de todos os saberes, centrada nas singularidades dos usuários, ampliando o olhar sobre o cuidado longitudinal e a complexidade das demandas. A troca entre diferentes núcleos profissionais potencializou aprendizagens e fortaleceu a construção de uma prática mais sensível e colaborativa.
Análise crítica: A experiência evidencia fragilidades na rede de atenção psicossocial em Manaus, especialmente quanto à insuficiência de serviços para atender à demanda. A centralização do cuidado em poucos dispositivos gera sobrecarga, dificulta o acesso e compromete a continuidade do acompanhamento. Nesse contexto, a residência multiprofissional se mostra fundamental na formação de profissionais críticos e preparados para atuar no SUS. Ressalta-se a necessidade de ampliação da rede, investimento em recursos humanos e fortalecimento das políticas públicas de saúde mental, a fim de garantir cuidado integral e de qualidade.
SAÚDE MENTAL NA ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO GESTACIONAL: DESAFIOS À LUZ DA INTERSECCIONALIDADE E DESMEDICALIZAÇÃO DO CUIDADO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 URCA
2 UNIFAP/SMS Milagres-CE
Apresentação/Introdução
A saúde mental no período gestacional constitui uma dimensão fundamental do cuidado, embora frequentemente secundarizada nos modelos tradicionais de atenção à saúde. No âmbito da assistência pré-natal, reconhecida como estratégia central para a promoção da saúde materna, observa-se a predominância de abordagens biomédicas centradas em aspectos clínicos e obstétricos. Tal perspectiva mostra-se insuficiente para apreender a complexidade das experiências gestacionais, especialmente quando atravessadas por desigualdades sociais. A incorporação da interseccionalidade no campo da saúde materna permite ampliar essa compreensão ao evidenciar que iniquidades resultam da interação entre múltiplos sistemas de poder, como gênero, raça e classe, que se articulam na produção de vulnerabilidades. Nesse sentido, a abordagem interseccional contribui para deslocar análises fragmentadas e normativas, favorecendo a construção de estratégias de cuidado mais sensíveis aos contextos sociais, culturais e territoriais.
Objetivos
Analisar os limites e desafios para a incorporação da atenção à saúde mental na estratificação de risco gestacional, à luz da interseccionalidade e da desmedicalização do cuidado em saúde.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa com fase documental, baseada na análise de normativos e diretrizes institucionais que orientam a gestão do cuidado pré-natal e a estratificação de risco gestacional no estado do Ceará. Foram examinados critérios, fluxos e recomendações presentes nos documentos, com ênfase na identificação da presença, ausência ou forma de abordagem de elementos relacionados à saúde mental. A análise foi conduzida por meio da técnica de análise de conteúdo temática, orientada pelo referencial da interseccionalidade.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que, embora o protocolo de estratificação de risco gestacional inclua elementos como vulnerabilidade social, contexto familiar e aceitação da gestação, tais aspectos são abordados de maneira fragmentada e não articulada a uma perspectiva ampliada de saúde mental. Predomina uma lógica biomédica que privilegia a identificação de agravos clínicos, relegando o sofrimento psíquico a uma posição secundária e não estruturante na classificação de risco. Ademais, observa-se a ausência de uma abordagem que integre de forma consistente os determinantes sociais da saúde, o que contribui para a invisibilização de experiências marcadas por múltiplas opressões. Esse cenário evidencia a persistência de processos de medicalização e subinclusão, nos quais determinadas vulnerabilidades não são reconhecidas como relevantes para a organização do cuidado.
Apesar de avanços conceituais e operacionais, observa-se que a estratificação de risco gestacional, amplamente utilizada na organização do cuidado, permanece predominantemente ancorada em critérios biomédicos. Ainda que inclua algumas condições relacionadas à saúde mental, como transtornos depressivos e ansiosos, transtornos mentais graves e uso de substâncias psicoativas, essa incorporação ocorre de forma limitada e desarticulada dos determinantes sociais e psicossociais. Tal configuração reduz a capacidade dos serviços de reconhecer e responder de forma equitativa às necessidades das gestantes, especialmente aquelas em contextos de maior vulnerabilidade.
No contexto da Atenção Primária à Saúde, a integralidade se coloca como princípio estruturante e dimensão central para a qualificação do cuidado. Sua efetivação requer o reconhecimento da complexidade biopsicossocial das gestantes, bem como a incorporação de práticas que dialoguem com seus contextos de vida. No entanto, a materialização desse princípio ainda representa um desafio cotidiano para as equipes, demandando reorganização dos processos de trabalho e adoção de abordagens críticas e contextualizadas.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a ausência de uma abordagem integrada da saúde mental na estratificação de risco gestacional contribui para a reprodução de iniquidades no cuidado pré-natal. Destaca-se a necessidade de incorporar perspectivas interseccionais e práticas desmedicalizantes na organização dos serviços, de modo a fortalecer a integralidade e ampliar a capacidade de resposta às necessidades das gestantes em sua diversidade.
SUICÍDIOS E PANDEMIA DA COVID-19 EM DIADEMA/SP: UMA ANÁLISE QUALITATIVA PELA ESTRATÉGIA DA AUTÓPSIA SOCIAL
Comunicação Oral Curta
1 NEPO - UNICAMP
2 UFPE
3 USP
4 UNIFESP
5 UFAL
Apresentação/Introdução
Introdução e Objetivos A pesquisa “Suicídios e Pandemia Covid-19: números, atos e vozes”, atuou sobre o fenômeno do suicídio durante a crise sanitária da covid-19, de 2020, no município de Diadema (SP). O estudo, iniciado pelos 29 casos de óbitos registrados no período, buscou compreender dimensões subjetivas e sociais envolvidas, para além das estatísticas.
Objetivos
O objetivo primordial deste trabalho é discutir a aplicação da estratégia metodológica da Autópsia Social como uma proposta robusta para análise dos possíveis motivos e circunstâncias para mortes autoinfligidas com ênfase no contexto de isolamento social ocasionado pela pandemia. Apresenta-se desafios operacionais e caminhos para a realização da pesquisa em um cenário complexo imposto pelo isolamento social, demarcando as potencialidades da técnica na produção de informações científicas densas e humanizadas sobre processos de morte autoinfligidas.
Metodologia
Metodologia A investigação fundamentou-se em uma abordagem qualitativa e territorializada. Diadema destaca-se por possuir 100% de cobertura pela Estratégia de Saúde da Família (ESF) e uma rede estruturada de 20 Unidades Básicas de Saúde (UBS). A operacionalização do trabalho de campo foi viabilizada por uma integração direta com a Secretaria Municipal de Saúde, onde as Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) desempenharam o papel vital de elo entre os serviços, o território e a academia, facilitando a identificação dos locais dos óbitos e o primeiro contato com as famílias e comunidades enlutadas. Para a coleta de dados, a cidade foi dividida em quatro regiões administrativas, com duplas de entrevistadoras responsáveis por mapear os casos em cada setor. O ponto de partida consistiu no contato com os gerentes das UBS e ACS. Pela pandemia, a metodologia incluiu entrevistas presenciais quando seguros e via WhatsApp (voz ou vídeo). A amostra final compreendeu 13 óbitos, envolvendo a escuta de 20 informantes, majoritariamente familiares e amigos próximos. O processamento das informações utilizou o software MAXQDA, que permitiu a organização das falas, codificação e subcodificação. Essa ferramenta foi essencial para identificar temas recorrentes e analisar a co-ocorrência de assuntos, garantindo que a análise das associações temáticas mostrassem as narrativas dos entrevistados, sem indução das pesquisadoras. Adicionalmente, empregou-se a análise hermenêutica para "reconstruir" cada caso, transformando dados epidemiológicos isolados em narrativas vivas dos "sujeitos do óbito".
Resultados e Discussão
A sistematização dos 13 óbitos estudados dos 29 identificados inicialmente mostrou um perfil sociodemográfico marcado pelo predomínio masculino (11 casos) e uma concentração etária significativa entre 36 e 55 anos (8 casos). Um dado central para a análise territorial é que cerca de 85% dos suicídios ocorreram na própria residência dos sujeitos, reforçando a importância das equipes de saúde da família que atuam no ambiente doméstico. O enforcamento/sufocamento foi o método prevalente seguido pela intoxicação por substâncias narcóticas ou psicodélicas A suspensão temporária das visitas domiciliares pelas ACS no início da pandemia tornou despercebidos alguns óbitos. restringindo o acesso da investigação a certas famílias. Além disso, o estigma social em torno do suicídio e a alta mobilidade populacional de Diadema, resultaram em recusas de participação. A análise cruzada entre os locais e os métodos sugeriu que o ambiente privado se tornou um espaço de isolamento onde a rede de proteção não pode detectar riscos iminentes.
Conclusões/Considerações Finais
suicídios em Diadema não são eventos impulsivos, mas o desfecho de trajetórias marcadas por precariedade, conflitos e desamparo social. A leitura hermenêutica mostrou vidas entremeadas por pobreza e solidão, com baixo pertencimento a grupos sociais. O paradoxo de gênero persiste: masculinidades hegemônicas e instabilidade profissional na pandemia criaram um complexo de silenciamento e sofrimento psíquico nos homens. Apesar da cobertura de 100% da ESF, a prevalência de mortes domiciliares expôs lacunas entre a cobertura teórica e a prática do cuidado. Intervenções isoladas são insuficientes para trajetórias fragmentadas, nas quais a relação precarizada com o trabalho e o subemprego e desemprego podem ser fatores decisivos para a morte autoinfligida, especialmente entre os homens. Destaca-se a urgência de políticas de prevenção e de posvenção, para acolher enlutados, reafirmando o suicídio como um fenômeno social que exige respostas continuas e dinâmicas da rede pública, especialmente em casos de grandes crises sanitárias, reafirmando que nem medicamentos e nem intervenções isoladas bastam. A metodologia adotada, autópsia social, se revelou portanto, extremamente eficaz, transformou números em sujeitos do óbito, mostrando fatores que moldaram o sofrimento construído em trajetórias individuais e sociais ao longo do tempo.
TERRITÓRIO E VIOLÊNCIA AUTOPROVOCADA: UMA ANÁLISE ESPACIAL NO ESTADO DE PERNAMBUCO (2020–2024)
Comunicação Oral Curta
1 Residente em Saúde Coletiva do Instituto Aggeu Magalhães – FIOCRUZ
2 Residência Multiprofissional em Saúde da Família da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas - UNCISAL
Apresentação/Introdução
A violência autoprovocada é definida como a violência contra si mesmo, estando subdividida em comportamento suicida e autoagressão. A lesão autoprovocada e outros conceitos contíguos necessitam de uma abordagem multifatorial, multideterminada e multifacetada considerando as diversas conjunturas que influenciam nas formas de ser e pertencer. O território pode ser compreendido como produto da espacialidade, atores sociais e relações sociais de poder e apropriação que afetam, segregam, controla e classifica os indivíduos e grupos sociais.
Objetivos
O objetivo da pesquisa é analisar espacialmente as notificações de violência autoprovocada no estado de Pernambuco (PE).
Metodologia
Trata-se de um estudo ecológico, descritivo e transversal, cuja unidade espacial de análise foram os 184 municípios de PE, com exceção de Fernando de Noronha. A identificação dos padrões espaciais e áreas de alta incidência foram analisadas segundo as notificações de violência autoprovocada no período de 2020 a 2024. Os dados foram obtidos no SINAN, utilizando o filtro "Lesão Autoprovocada". Para caracterização do perfil sociodemográfico, utilizou-se as variáveis: sexo, identidade de gênero, orientação sexual, raça, faixa etária, escolaridade, estado civil e meios de agressão. Os dados populacionais e geográficos foram obtidos do IBGE 2024. Na análise espacial, utilizou-se a taxa de incidência acumulada e o método bayesiano empírico local para suavização das taxas, corrigindo flutuações aleatórias e aumentando a estabilidade do indicador. Verificou-se a dependência espacial global pelo Índice de Moran, com correção de valores extremos. Para identificar padrões espaciais locais, aplicou-se o Índice de Moran Local (LISA), sendo o Moran Map utilizado para representar municípios com significância estatística (p<0,05). Foram consideradas áreas de alta incidência os municípios classificados como Q1 (alto/alto). A tabulação foi realizada no Excel, e a análise espacial no QGIS e GeoDa. O estudo utilizou dados secundários, públicos e agregados, sendo dispensada aprovação ética conforme as Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016.
Resultados e Discussão
Entre 2020 e 2024 foram registrados em Pernambuco 29.129 casos de violência autoprovocada, com predomínio do sexo feminino (72,8%), negros (80,1%), indivíduos de 15 a 24 anos (40,8%), solteiros (50,4%). Quanto à orientação sexual nota-se maiores registros de heterossexuais (48,1%). Em relação aos meios de violência, identificou-se um predomínio do envenenamento (71,7%), seguido de objeto perfurocortante (14,3%). Observou-se maiores percentuais de “Não se aplica” (53,8%) ou “Ignorado” para as variáveis identidade de gênero (53,8% e 45%, respectivamente) e escolaridade (53,6%). O Índice de Moran Global identificou a formação de clusters do tipo alto-alto nas regiões da VIII, IX, X e XI GERES, indicando que essas áreas concentram municípios com altas ocorrências cercados por vizinhos com o mesmo padrão. No que se refere ao Índice de Moran Local, evidenciou os aglomerados alto-alto, estatisticamente significativos, nas regiões da VIII, IX e XI GERES, reforçando a presença de áreas prioritárias no interior do estado. O Índice de Moran Global (I = 0,348; p = 0,001) confirma que a distribuição espacial não é aleatória, apresentando dependência espacial estatisticamente significativa.
A análise espacial evidencia que as áreas de alta incidência estão localizadas no interior do estado, não aleatoriamente, sugerindo fragilização na organização das redes de atenção psicossocial e nas formas de acolhimento e abordagens utilizadas. A distribuição espacial reforça que o território é resultado das relações sociais, desigualdades e estigmas sociais. A regionalização do planejamento, monitoramento e avaliação através das GERES permite intervenções de acordo com a realidade territorial. A predominância dos casos em pessoas do sexo feminino e negros, à luz da interseccionalidade, nos permite compreender que o sofrimento psíquico não deve ser analisado isoladamente, tendo em vista que as violências se interseccionam a partir de marcadores sociais, gênero, raça e classe. A concentração dos casos na faixa etária de 15 a 24 anos, coincide com ciclos de maiores exposições a pressões sociais, conflitos identitários, fragilidades educacionais e trabalhistas e outras formas de opressão intensificadas de acordo com gênero, raça e classe. Ressalta-se a limitação nas informações, uma vez que, variáveis como identidade de gênero, orientação sexual e escolaridade apresentam alto percentual de não preenchimento, expressão da invisibilização grupos historicamente vulnerabilizados. Estudos apontam que esses grupos enfrentam estigmatização e invisibilização tanto social quanto institucional, o que reforça a necessidade de qualificar a produção de informações de saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Dessa forma, compreende-se que as desigualdades sociais, econômicas, territoriais e de gênero são problemas estruturantes na saúde, acesso e longitudinalidade do cuidado.
TRAMAS DO CUIDADO EM SAÚDE MENTAL E INVENÇÕES NO COTIDIANO EM TEMPOS DE CRISE
Comunicação Oral Curta
1 UFJF
Apresentação/Introdução
A pandemia da Covid-19 representou enormes desafios para as políticas públicas de saúde no Brasil e no mundo, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS). Dentre os inúmeros agravos vivenciados foi amplamente notificado o agravamento do sofrimento psíquico entre sujeitos e grupos sociais. Emoções como medo, insegurança e falta de esperança somaram-se às múltiplas perdas que marcaram este período, culminando em quadros marcados por ansiedades, tristezas e o aumento do consumo de medicamentos psicotrópicos. A pandemia da Covid-19 em articulação com outras crises (econômica, ambiental, política) redefiniram a necessidade de edificarmos políticas do cuidado em contextos de desigualdades. A crise pandêmica pode ser descrita como um evento crítico que desestabilizou as gramáticas cotidianas da vida, produzindo tempos de incertezas e instabilidades. Face a esse cenário, as necessidades de cuidado em saúde mental conformaram-se como um desafio em relação à proposição de políticas e práticas sintonizadas com as necessidades e singularidades de sujeitos e grupos inscritos em seus territórios de vida. Cotidiano entendido como o espaço-tempo onde o ordinário da vida se produz e se refaz, inclusive em cenários de devastação. Cuidado como uma atividade que inclui tudo o que é feito para manter, continuar e consertar nosso mundo para que possamos viver nele da melhor maneira possível
Objetivos
O objetivo deste trabalho é apresentar alguns resultados da investigação intitulada “Pandemia da Covid-19 e a produção de cuidados sócio-comunitários em saúde mental no âmbito da APS”, que objetivou identificar e compreender os efeitos da pandemia da Covid-19 na produção de cuidados sócio-comunitários em saúde mental entre sujeitos e grupos sociais atendidos no âmbito da APS
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa-ação-participante, abordagem que compreende a pesquisa como uma ação dialógica, considerando a intercientificidade como premissa central na produção do conhecimento. A pesquisa foi realizada entre 2022 e 2025 nas cidades de Juiz de Fora, Bias Fortes e São João Del-Rei no Estado de Minas Gerais, tendo sido empregadas caminhadas comunitárias, visitas domiciliares, diário de campo, entrevistas individuais e grupais como estratégias de construção dos dados. A pesquisa ocorreu em articulação com serviços de saúde locais e em territórios com elevados indicadores de desigualdades e pobreza. Participaram da pesquisa diferentes sujeitos como crianças, adolescentes, mulheres e agentes comunitárias de saúde (ACS).
Resultados e Discussão
Enfatizaremos aqui os resultados construídos a partir do trabalho realizado com mulheres atendidas na esfera da ESF e as ACS, a partir dos seguintes eixos temáticos: 1) fortalecimento de tecnologias afetivas de cuidado em meio à precariedade; 2) reconhecimento de redes sócio-afetivas de cuidado face ao luto e a medicalização da experiência. As incertezas produzidas pela pandemia explicitaram a importância do trabalho das ACS como mediadoras centrais do cuidado em saúde mental, uma vez que essas profissionais acionaram um "estoque de conhecimentos" produzido sócio culturalmente que contribuiu para identificar e acolher o sofrimento vivido durante a pandemia, configurando-se como sujeitos centrais para o cuidado em saúde mental em cenários de crise. Além disso, depreendemos que a crise dos cuidados e o cenário de perdas favoreceu processos de medicalização do sofrimento, a partir do uso de psicotrópicos entre as mulheres. As invenções do cuidado produzidas passam pelo reconhecimento das múltiplas redes de apoio, afetos e solidariedade que se manifestaram a partir de relações pautadas em uma ética ordinária, expressa na troca de saberes, no suporte doméstico compartilhado e na manutenção dos vínculos de vizinhança, que funcionaram como barreiras contra o isolamento radical e a medicalização. Em meio às incertezas, dores e sofrimentos produzidos pela pandemia, verificamos a capacidade de inventividade de sujeitos diversos, sinalizando que as práticas de cuidado em saúde mental sinalizam para um conjunto de relações interdependentes que desafiam o ideal de homem liberal e autossuficiente. As saídas possíveis fabricadas em meio ao cenário de devastação apontam para a necessidade de construirmos políticas e práticas de cuidado desde uma gramática que esteja situada no cotidiano vivido, que se expressa na circulação de tecnologias vivas de cuidado acionadas e inventadas em tempos de crise.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados da pesquisa podem contribuir que as políticas de saúde e saúde mental na esfera do SUS ocorram a partir da integração dos saberes localizados em meio ao ordinário, compreendendo o cuidado não como uma obrigação de cunho individual, mas um direito a ser construído coletivamente com vozes diferentes que produzem as tessituras da vida em meio às múltiplas adversidades. Tais conhecimentos podem ser valiosos para o enfrentamento do cenário de policrises em que vivemos, qualificando as diferentes políticas de cuidado construídas em dialogo com o SUS.
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