Programa - Comunicação Oral - CO3.2 - Ambiencia e convivencia de crianças e adolescentes
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
AUTOMUTILAÇÃO ENTRE ADOLESCENTES BRASILEIROS: ASSOCIAÇÃO COM AMBIENTE DE CONVIVÊNCIA, APOIO FAMILIAR E SAÚDE MENTAL, PESQUISA NACIONAL DE SAÚDE DO ESCOLAR 2019
Comunicação Oral
1 UFMG
Apresentação/Introdução
O comportamento autolesivo refere-se a ações intencionais de dano ao próprio corpo, com ou sem intenção suicida, constituindo importante expressão de sofrimento psíquico. Esse fenômeno geralmente emerge durante a adolescência e está associado a múltiplos fatores individuais, familiares e sociais. Nesse sentido, a automutilação pode ser compreendida como expressão do sofrimento psíquico associado às condições sociais, aos ambientes de convivência e às desigualdades que atravessam a vida dos adolescentes. Evidências indicam que adolescentes que praticam automutilação apresentam maior risco de comportamento suicida e outros agravos à saúde. Embora as taxas de autolesão em adolescentes tenham aumentado nas últimas décadas, ainda são escassas, no Brasil, estimativas baseadas em inquéritos populacionais que permitam dimensionar a magnitude do problema a nível nacional e identificar fatores associados.
Objetivos
Analisar a proporção e os fatores associados à automutilação como ferimento mais grave sofrido por adolescentes brasileiros de 13 a 17 anos, utilizando dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2019.
Metodologia
Estudo transversal com dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2019. Foi criada uma subpopulação composta por adolescentes de 13 a 17 anos que relataram ter sofrido acidente ou agressão nos 12 meses anteriores à realização da pesquisa. Entre esses, o desfecho analisado foi a automutilação, identificada por meio de pergunta subsequente referente a causa do ferimento mais grave decorrente do último evento relatado. Inicialmente, realizou-se análise bivariada entre o desfecho e as variáveis independentes, estimando-se as proporções e respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Em seguida, calcularam-se as odds ratios (OR) brutas por meio de regressão logística simples. As variáveis com p<0,20 foram incluídas no modelo múltiplo, estimando-se as OR ajustadas, permanecendo no modelo final aquelas com p<0,05. Todas as análises consideraram o plano amostral complexo e os pesos da pesquisa, utilizando o módulo svy do Stata Statistical Software, versão 16.
Resultados e Discussão
Entre os escolares brasileiros que relataram já ter sofrido algum ferimento grave, 5,26% (IC95% 4,71–5,87) informaram que o ferimento foi decorrente de automutilação. Maiores proporções foram encontradas entre: sexo feminino (7,18%; IC95% 6,23-8,27), 13 a 15 anos (5,83%; IC95% 5,10-6,64), outras raça/cor (7,54%; IC95% 4,60-12,11), morar com a mãe (5,41%; IC95% 4,79-6,11), baixa escolaridade da mãe (6,04%; IC95% 4,70-7,73), Região Norte (7,28%; IC95% 5,75-9,48) e zona rural (7,23%; IC95% 4,33-11,94), já ter experimentado cigarros (6,32%; IC95% 5,26-7,58), bebidas alcóolicas (5,44%; IC95% 4,81-6,15) e outras drogas (6,09%; IC95% 4,91-7,54), sedentarismo (5,78%; IC95% 5,04-6,61), sentir-se tristes (6,31%; IC95% 5,60-7,09), que ninguém se preocupa consigo (6,69%; IC95% 5,87-7,62), irritado(a), nervoso(a) ou mal-humorado(a) (5,79%; IC95% 5,11-6,55), não possuir supervisão dos pais no tempo livre (7,34%; IC95% 6,21-8,66) nem apoio psicoemocional (6,65%; IC95% 5,90-7,49), já ter sido agredido(a) fisicamente pelos pais (6,79%; IC95% 5,87-7,83), possuir amigos (6,76%; IC95% 4,67-9,68), sentir-se inseguro na escola (11,35%; IC95% 9,20-13,92), bullying (6,66%; IC95% 5,76-7,69), autoavaliação de saúde ruim (7,75%; IC95% 6,78-8,84) e perceber-se gordo (7,88%; IC95% 6,54-9,46). Após ajuste do modelo, permaneceram associado ao desfecho: sexo masculino (ORa: 0,68; IC95% 0,53-0,87), ter 16 ou 17 anos (ORa: 0,67; IC95% 0,52-0,87), morar com a mãe (ORa: 1,48; IC95% 1,11-1,96), sentir-se triste (ORa: 1,70; IC95% 1,12-2,59), que ninguém preocupa consigo (ORa: 1,47; IC95% 1,06-2,04), possuir supervisão dos pais no tempo livre (ORa: 0,65; IC95% 0,52-0,81) e apoio psicoemocional (ORa: 0,57; IC95% 0,40-0,82), sentir-se inseguro na escola (ORa: 2,28; IC95% 1,73-3,01) e autoavaliação ruim da saúde (ORa: 1,46; IC95% 1,15-1,87). Os resultados evidenciam que a automutilação entre adolescentes ultrapassa a dimensão individual, configurando-se como expressão de sofrimento psíquico relacionado também às condições de convivência, às desigualdades sociais e à fragilidade das redes de apoio familiar e escolar. A maior chance entre adolescentes que se sentem tristes, que percebem falta de cuidado, com autoavaliação ruim da saúde e que se sentem inseguros na escola, aliada ao efeito protetor da supervisão parental e do apoio psicoemocional, reforça a influência do ambiente de convivência na saúde mental. Esses achados indicam que a automutilação reflete vulnerabilidades sociais e contextos adversos que impactam o bem-estar psicológico dos adolescentes.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados reforçam a influência das vulnerabilidades sociais e do contexto de convivência na saúde mental dos adolescentes, destacando a necessidade de políticas públicas e ações intersetoriais voltadas à construção de ambientes promotores de saúde mental.
EL ARTE COMO FACILITADOR DEL ACCESO DE JÓVENES Y ADOLESCENTES A SERVICIOS DE SALUD MENTAL: UNA EXPERIENCIA INTERSABERES
Comunicação Oral
1 ICICT - Fiocruz
Contextualização
La experiencia se desarrolla en los talleres artísticos del Centro de Salud Mental de las Juventudes, de la ciudad de Paraná, provincia de Entre Ríos, ubicada en la región litoral de Argentina. Se trata de una institución especializada en salud mental de jóvenes y adolescentes, perteneciente al Primer Nivel de Atención del sistema público de salud. Allí se desarrollan talleres de Muralismo, Dibujo, Cerámica y Música, a los que asisten jóvenes de 14 a 24 años.
Descrição
Cada espacio es coordinado por una tallerista idónea en cada lenguaje artístico y una profesional de salud trabajadora del efector. Se realizan encuentros semanales y articulaciones entre los talleres para eventos como el Festival Primavera, Día de la Salud Mental, muestras de fin de año, ferias y participación en actividades de la comunidad.
Cada taller funciona como un espacio de creación colectiva donde el arte opera como lenguaje relacional; posibilitando la expresión de experiencias, subjetividades, conflictos y malestares. Las expresiones artísticas facilitan la configuración de mensajes, lenguajes simbólicos y creación de sentidos, ampliando las posibilidades de vinculación de la población joven con el sistema de salud, desde prácticas no hegemónicas. Además, las creaciones colectivas aportan a la construcción de narrativas compartidas que reducen estigmas y barreras de acceso, y dan lugar al despliegue de prácticas de cuidado y de promoción de salud mental, especialmente con jóvenes en contextos de vulnerabilidad.
Período de Realização
La experiencia se desarrolla desde enero de 2025 hasta la actualidad.
Objetivo
El objetivo de este relato de experiencia, es conocer los procesos colectivos generados en los talleres de arte de un centro de salud mental, especializado en adolescentes y jóvenes, que promueven la construcción de prácticas de cuidado y disminuyen barreras de acceso a la salud.
Resultados
Respecto de los resultados, esta experiencia permitió problematizar el acceso a la salud mental como un proceso situado, atravesado por desigualdades sociales, culturales y territoriales. En este marco, los talleres artísticos se configuran como dispositivos que tensionan las lógicas hegemónicas del modelo biomédico, al habilitar formas de encuentro y cuidado basadas en la horizontalidad, la escucha y la producción colectiva de sentidos.
El arte opera como lenguaje relacional que trasciende las formas tradicionales de comunicación en salud y favorece la legitimación de saberes no institucionalizados vinculados a las vivencias, los territorios y las culturas juveniles, disputando sentidos en torno a la salud mental y sus modos de abordaje.
Las producciones colectivas se constituyen como espacios de construcción de memorias compartidas y de resignificación de experiencias de sufrimiento, contribuyendo a la desestigmatización y al reconocimiento de las juventudes como sujetas/os de derecho y productoras/es de conocimiento. En este proceso, se desplazan posiciones pasivas hacia roles activos en la construcción de prácticas de cuidado.
Además, la articulación con el territorio a través de eventos comunitarios fortalece la dimensión pública y política del cuidado, promoviendo la circulación de producciones en espacios colectivos y ampliando las redes de convivencia.
Aprendizado e Análise Crítica
Se identifican diversos aprendizajes a partir de esta experiencia, principalmente que, el acceso a la salud mental no se reduce a la disponibilidad de servicios, sino que se construye en procesos relacionales que garanticen el acceso. Los dispositivos artísticos posibilitan la emergencia y legitimación de saberes situados, descentrando las jerarquías tradicionales del conocimiento en salud y promoviendo diálogos intersaberes entre profesionales, talleristas y jóvenes.
Otro aprendizaje relevante refiere a la potencia de lo colectivo en la construcción de prácticas de cuidado, donde la creación compartida habilita procesos de identificación, reconocimiento y elaboración de experiencias de sufrimiento, al tiempo que disputa sentidos estigmatizantes en torno a la salud mental.
No obstante, persisten tensiones vinculadas a la sostenibilidad institucional y a las desigualdades estructurales que condicionan estos procesos. Ante la creciente demanda de atención en salud mental en el sector público de salud, es necesario desarrollar estrategias diversas e integrales que contribuyan a la innovación en políticas públicas para la salud de jóvenes y adolescentes.
Es necesario integrar dispositivos artísticos en los abordajes en salud mental desde una perspectiva intersectorial y comunitaria, que reconozca al arte como dimensión central del cuidado.
Se evidencia la importancia de sostener prácticas que articulen salud, cultura y territorio desde una perspectiva intercultural y decolonial, reconociendo tanto las potencialidades como las tensiones que emergen en su institucionalización. Esto implica repensar las políticas públicas en clave de democratización del cuidado, ampliando los modos de acceso y participación en salud mental.
ENTRE A ESCUTA E O LIMITE: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM PRÁTICAS DE SAÚDE MENTAL EM ESCOLAS PÚBLICAS DO RIO DE JANEIRO NO ÂMBITO DO PROEC
Comunicação Oral
1 ESCOLA NACIONAL DE SAÚDE PÚBLICA SERGIO AROUCA - ENSP - Fiocruz
2 INSTITUTO OSWALDO CRUZ - IOC
Contextualização
O Programa Escola e Comunidade (PROEC), instituído pelo Ministério da Educação, busca fortalecer a parceria entre escola, família e comunidade, promovendo cidadania, gestão democrática e cultura de paz na educação pública. Financiado pelo Programa Dinheiro Direto na Escola, visa melhorar a qualidade da educação por meio de projetos formativos (Ministério da Educação, 2026). No cenário de implementação do PROEC no território da Zona Oeste do município do Rio de Janeiro desenvolvi, junto com outra psicóloga, ações com estudantes do ensino fundamental de 5 escolas, responsáveis e educadores sobre promoção da saúde mental ao longo de dois anos. Nessas experiências, pude reconhecer e confirmar o potencial da escola como um espaço de vivências e diversidade, onde emergem tensões, desigualdades e possibilidades de transformação.
Descrição
As ações em saúde mental foram realizadas em momentos diversos contemplando grupos de estudantes, educadores e responsáveis, por meio de rodas de conversa, oficinas e palestras, abordando temas como manejo emocional, autoestima, habilidades de comunicação, violências, suicídio, Burnout e mediação de conflitos. Observou-se maior engajamento no formato de rodas de conversa, que favoreceram a circulação da palavra e a emergência de experiências relacionadas à convivência escolar, incluindo situações de violência entre pares, manifestações de racismo, sofrimento psíquico de educadores e dificuldades no vínculo entre escola e famílias. Diante da proposta pedagógica orientadora das
ações, os temas previstos pelo programa foram trabalhados em diálogo com as demandas de cada escola, reconhecendo que, embora sejam temas transversais, cada turma, turno e polo constroem arranjos singulares de relação com essas questões, expressando modos próprios de participação, interesse e necessidade.
Período de Realização
A experiência se estendeu desde antes do lançamento oficial do programa, em abril de 2024, a junho de 2025.
Objetivo
Este relato objetiva refletir sobre as potencialidades e os limites relativos às práticas de promoção de saúde mental, desenvolvidas em escolas públicas da Zona Oeste do Rio de Janeiro, participantes do PROEC, em contextos marcados por maior vulnerabilidade social.
Resultados
A abertura desses espaços evidenciou tensões entre a proposta institucional de promoção da cultura de paz e as formas concretas de gestão dos conflitos no cotidiano escolar. Longe de suprimir o conflito, a proposta pareceu torná-lo visível e passível de elaboração coletiva. Em alguns contextos, foram observados movimentos por parte dos educadores de um deslocamento das dificuldades para estudantes e famílias, ao mesmo tempo em que se apontava para a baixa participação destas, configurando dinâmicas que fragilizam a construção de vínculos. Paralelamente, houve relatos de adoecimento de educadores e limites enfrentados pelas equipes diante do volume e da complexidade das demandas. Evidenciaram-se ainda, lacunas, como a ausência de estratégias de acompanhamento e a dificuldade de sustentação das situações de sofrimento que emergem nas intervenções, apontando para desafios estruturais na construção de práticas de cuidado no território escolar.
Aprendizado e Análise Crítica
A reflexão sobre a experiência sugere o potencial da proposta do PROEC, mas aponta para a necessidade de acompanhamento, visando à sustentação das ações. Essa continuidade nem sempre foi viável, sobretudo diante de limitações, como a ausência de novos repasses de recursos ou a não seleção da escola para ações subsequentes. Destaca-se a relevância da criação de redes de apoio que contemplem tanto os estudantes quanto os profissionais da educação para lidar com as demandas do cotidiano escolar. Nesse contexto, faz-se necessário problematizar a distribuição de responsabilidades entre os diferentes atores, evitando deslocamentos simplificadores das demandas. A experiência indicou que a construção de espaços de escuta no ambiente escolar sobre temas diversos, como a saúde mental, se sustenta na potência das relações estabelecidas com os/as estudantes, educadores e pais. A participação ativa, especialmente dos/as estudantes, evidencia a escola como um espaço vivo, atravessado por vínculos e possibilidades de construção de sentido. Todavia, a continuidade é uma condição essencial para a sustentação de práticas frutíferas e efetivas. A partir dessa experiência, ingressei em 2025 no mestrado em Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) com um estudo sobre as concepções e práticas de estudantes do 6o do ensino fundamental a respeito das relações de gênero. O projeto encontra-se submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da instituição. Os achados visam contribuir para o fortalecimento do debate sobre gênero na escola, reafirmando a importância de práticas educativas que considerem as dimensões subjetivas, sociais e políticas implicadas na formação de sujeitos críticos e capazes de intervir em suas realidades.
EXPERIÊNCIAS DE LUTO NAS TRAJETÓRIAS DE CUIDADO DE FAMILIARES DE CRIANÇAS COM SÍNDROME CONGÊNITA DO ZIKA
Comunicação Oral
1 UFMA
2 UNICEUMA
3 NINAR
Apresentação/Introdução
Introdução: A epidemia do vírus Zika no Brasil produziu efeitos que ultrapassam o campo da saúde, incidindo sobre dimensões sociais, afetivas e familiares. O diagnóstico da Síndrome Congênita do Zika (SCZ) inscreve as famílias em trajetórias marcadas por incertezas, sobrecarga de cuidado e convivência contínua com a fragilidade clínica das crianças. Nesse processo, foi percebido uma ruptura de expectativas em torno da parentalidade e do desenvolvimento infantil, na medida em que as projeções construídas durante a gestação são tensionadas pelo encontro com uma realidade marcada por necessidades complexas de cuidado, além da iminência da perda concreta, tornando a morte uma possibilidade presente no cotidiano.
Objetivos
Objetivo: Compreender as experiências de luto nas trajetórias de cuidado de familiares de crianças diagnosticadas com SCZ.
Metodologia
Metodologia: Estudo qualitativo, de natureza interpretativa, fundamentado na Teoria Compreensiva. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, gravadas e transcritas, com familiares de crianças diagnosticadas com SCZ, em 2015, início da epidemia, atualmente com cerca de 10 anos de idade. A análise dos dados ocorreu por meio da análise de conteúdo, na modalidade temática, respeitando os princípios éticos em pesquisa com seres humanos.
Resultados e Discussão
Resultados e discussão: Foram entrevistadas dezoito mães, um pai e duas avós. Emergiram três categorias centrais. A primeira “Luto simbólico e rupturas biográficas ou identitárias?”, expressa perdas que antecedem e independem da morte concreta, configurando-se como experiência fundante nas trajetórias de cuidado. Destaca-se, inicialmente, a ruptura das expectativas associadas à gestação e à maternidade, marcada pela perda do filho idealizado — aquele construído simbolicamente ao longo da gravidez — diante do encontro com uma criança que demanda cuidados intensivos e contínuos. Essa experiência instaura um processo de luto simbólico antecipado, no qual os familiares se veem convocados a reelaborar projetos de vida, expectativas de desenvolvimento e sentidos atribuídos à parentalidade. Progressivamente, o cotidiano é reorganizado em torno das demandas, implicando afastamento do trabalho, restrição da vida social e reconfiguração das rotinas familiares. Tais transformações produzem descontinuidades biográficas e reconfigurações identitárias, nas quais a experiência materna passa a ser fortemente ancorada no cuidado intensivo, frequentemente em detrimento de outras dimensões da vida. Esse processo é atravessado por sentimentos de renúncia, isolamento e exaustão. Assim o luto, nesse contexto, não se restringe à perda concreta, mas se manifesta como experiência contínua de reorganização da vida frente à perda do futuro imaginado. A segunda categoria, “Luto antecipatório e presença cotidiana da morte”, nos permitiu compreender que a experiência familiar é atravessada por um estado contínuo de alerta. A morte deixa de ser um evento distante e passa a ser constantemente atualizada diante de intercorrências clínicas, hospitalizações e agravamentos do quadro de saúde da criança. A complexidade clínica, frequentemente marcada pela presença de múltiplos diagnósticos, intensifica a percepção de vulnerabilidade e a sensação de iminência da perda. O luto antecipatório manifesta-se em dupla direção: no temor da morte do filho e no medo de morrer e deixá-lo desassistido, revelando a centralidade do cuidado como eixo organizador da experiência parental e como fonte de sofrimento contínuo. Diante dessas experiências de perda e da constante presença da morte, configura-se a terceira dimensão, “Estratégias de enfrentamento e ressignificação da morte”, que mostrou a mobilização de recursos de enfrentamento para sustentar o cuidado. A fé emerge como importante estratégia, permitindo aos familiares atribuir sentido à experiência vivida e manter a continuidade do cuidado. Elementos como a compreensão da criança como “anjo” e a crença na continuidade da vida após a morte operam como dispositivos de elaboração do sofrimento. Nesse processo, a morte assume caráter ambivalente, sendo simultaneamente temida e ressignificada como possibilidade de cessação do sofrimento, revelando tensões entre valores afetivos, morais e culturais que atravessam as experiências familiares.
Conclusões/Considerações Finais
Considerações finais: O luto, nas trajetórias de cuidado de familiares de crianças com Síndrome Congênita do Zika, configura-se como experiência contínua e estruturante, que ultrapassa a ocorrência da morte concreta e se inscreve nas rupturas, incertezas e reorganizações do cotidiano. Mais do que um evento, o luto emerge como dimensão constitutiva do cuidado, articulando perdas simbólicas, antecipação da morte e processos de ressignificação. Essa compreensão desloca o olhar sobre o cuidado, mostrando a necessidade de reconhecê-lo em sua complexidade, como experiência atravessada por dimensões emocionais, sociais e simbólicas, que permanecem, em grande medida, invisibilizadas nas práticas de saúde.
INFÂNCIA, LEITURA E CIDADANIA: A MEDIAÇÃO LITERÁRIA COMO DIREITO HUMANO NA EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA
Comunicação Oral
1 UFMG
2 FHEMIG
Contextualização
A hospitalização de crianças e adolescentes em unidades oncológicas impõe desafios que extrapolam a dimensão do tratamento clínico em saúde. Nesse contexto, a literatura e a leitura mediada assumem papel estratégico na promoção do cuidado integral, ao possibilitar a expressão de sentimentos, a elaboração simbólica do sofrimento e a manutenção de vínculos com o mundo exterior. Quando realizada de forma sensível, ética e dialógica constitui uma prática cultural e pedagógica que reconhece as infâncias e juventudes como sujeitos históricos e de direitos. Ao assegurar o acesso à palavra, à escuta qualificada e à imaginação, ela promove não apenas entretenimento, mas também emancipação simbólica e fortalecimento da identidade, elementos centrais para a garantia do direito à dignidade humana em ambientes hospitalares. A iniciativa dialoga com as diretrizes da Política Nacional de Humanização do SUS, com a Política Nacional de Extensão Universitária e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Agenda 2030), especialmente no que se refere ao direito à saúde, à educação de qualidade, à igualdade e à redução das desigualdades. Essa abordagem também se ancora nas metodologias participativas e na pesquisa-intervenção, uma vez que as ações são desenvolvidas a partir da escuta ativa das crianças, dos acompanhantes e das equipes multiprofissionais, favorecendo o protagonismo dos sujeitos envolvidos e a produção coletiva de conhecimento.
Descrição
A presente experiência insere-se em uma abordagem qualitativa, de natureza participativa, fundamentada nos princípios da pesquisa-intervenção e da extensão universitária crítica. A metodologia adotada pautou-se na escuta sensível, na observação participante e na construção coletiva de vínculos a partir da mediação literária humanizada. O planejamento inicial incluiu visitas técnicas para pactuação de horários com a equipe multiprofissional do ambulatório, definindo-se as tardes de sexta-feira como período fixo para a realização das sessões de leitura. As obras literárias utilizadas foram previamente selecionadas por extensionistas, que realizaram a triagem, higienização e curadoria dos livros arrecadados via campanhas de doação. A mediação era iniciada por meio de abordagem respeitosa aos responsáveis legais e, em seguida, às crianças e adolescentes. Com o consentimento verbal, era estabelecido o convite à leitura, priorizando o protagonismo do paciente na escolha do título, na definição dos nomes dos personagens e na coautoria da narrativa e, ao final de cada sessão, as crianças e adolescentes recebiam - como presente - o exemplar lido. O encerramento era marcado por conversas espontâneas e acolhedoras, nas quais os participantes expressavam suas percepções sobre a obra e a vivência. Todas as ações foram registradas em diário de campo e discutidas em reuniões de supervisão, compondo um corpus de análise qualitativa a ser interpretado à luz da pedagogia freiriana, dos direitos humanos e da saúde integral.
Período de Realização
A ação foi desenvolvida entre março de 2025 à março de 2026, no setor de oncologia pediátrica do Ambulatório Borges da Costa em Belo Horizonte/MG-Brasil.
Objetivo
Promover a mediação literária como prática de cuidado integral, direito humano e exercício de cidadania junto a crianças e adolescentes em tratamento oncológico.
Resultados
A partir da análise qualitativa dos registros de campo elaborados pelas discentes extensionistas combinada à observação participante e ao relato espontâneo dos sujeitos envolvidos foi possível identificar efeitos significativos relacionados ao bem-estar emocional, à ampliação do repertório simbólico das crianças e adolescentes atendidos, e à valorização do direito à leitura como elemento de cidadania cultural. Em primeiro plano, observou-se que muitas crianças participantes relataram ter pouco ou nenhum contato com livros fora do ambiente escolar, tornando a mediação literária uma experiência rara, significativa e inaugural. A leitura mediada, nesse contexto, evidenciou-se como prática promotora de cidadania e inclusão social, ao garantir o acesso a um direito cultural previsto no artigo 215 da Constituição Federal de 1988 e reafirmado no ECA. A entrega do exemplar lido ao final da sessão simbolizou, além da partilha, a democratização do acesso ao livro e à literatura. Os resultados apontam, ainda, para o fortalecimento do papel social da universidade pública, ao articular saberes interdisciplinares e ações concretas de cuidado com base na extensão universitária transformadora.
Aprendizado e Análise Crítica
Concluiu-se que a mediação literária é uma tecnologia do cuidado, capaz de proporcionar respiro simbólico, estímulo cognitivo e fortalecimento de vínculos afetivos. Possibilitou assegurar à criança e ao adolescente o direito ao lazer, cultura, dignidade, respeito e convivência comunitária fosse cumprido. Assim, o projeto confirma a leitura guiada como uma prática política e terapêutica indispensável para a construção de ambientes hospitalares mais humanizados e inclusivos.
PERFIL DAS TENTATIVAS E ÓBITOS POR SUICÍDIO ENTRE INDÍGENAS EM MINAS GERAIS E ESPÍRITO SANTO (2018–2024): DESAFIOS PARA O CUIDADO NA SAÚDE MENTAL
Comunicação Oral
1 1. Programa de Pós-Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde (PPgCAS), Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Governador Valadares 2. Grupo de Estudos Interdisciplinar em Cuidado Farmacêutico, Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Governador Va
2 2. Grupo de Estudos Interdisciplinar em Cuidado Farmacêutico, Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Governador Valadares (UFJF/GV) 3. Programa de Pós-Graduação em Assistência Farmacêutica (PPgASFAR), Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) 4.
3 3. Programa de Pós-Graduação em Assistência Farmacêutica (PPgASFAR), Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) 4. Laboratório de Inovação para o Cuidado em Saúde, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
4 1. Programa de Pós-Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde (PPgCAS), Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Governador Valadares (UFJF/GV) 2. Grupo de Estudos Interdisciplinar em Cuidado Farmacêutico, Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Gov
5 5. Distrito Sanitário Especial Indígena Minas Gerais e Espírito Santo (DSEI MG/ES)
6 2. Grupo de Estudos Interdisciplinar em Cuidado Farmacêutico, Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Governador Valadares (UFJF/GV)
Apresentação/Introdução
A saúde mental entre povos indígenas deve ser compreendida a partir de uma perspectiva ampliada, que incorpora dimensões socioculturais, territoriais e coletivas, frequentemente associadas ao conceito de Bem-Viver. Processos históricos de desigualdade, preconceito, violências estruturais, perdas territoriais, mudanças climáticas, crimes ambientais e transformações nos modos de vida têm impactado essas populações, contribuindo para o aumento de agravos psíquicos. Nesse contexto, o comportamento suicida destaca-se como um problema de saúde pública, especialmente em cenários marcados por vulnerabilidades sociais, fragilização dos vínculos comunitários, violência territorial e afastamento das práticas tradicionais. Entretanto, ainda persistem lacunas importantes quanto a dados epidemiológicos desses desfechos, especialmente em relação a dados produzidos nos distritos sanitários.
Objetivos
Descrever o perfil dos casos de tentativas e óbitos por suicídio entre povos indígenas em Minas Gerais e Espírito Santo.
Metodologia
Estudo ecológico, do tipo série temporal, proveniente do consolidado anual de dados da saúde mental do Distrito Sanitário Especial Indígena Minas Gerais e Espírito Santo (DSEI MG/ES). Foram incluídos registros de tentativas e óbitos por suicídio entre indígenas acompanhados pela atenção psicossocial no período de 2018 a 2024. Para tentativas, foram analisadas as seguintes variáveis: sexo, idade, número de tentativas e o número de atendimentos realizados pela equipe de atenção psicossocial para o indígena em risco de suicídio e/ou seus familiares. Para o desfecho óbitos, além dessas variáveis, foi analisado o número de tentativas prévias. Realizou-se análise descritiva dos dados. O estudo foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (n.º 7.543.846).
Resultados e Discussão
Foram registrados 133 casos de tentativas de suicídio (média anual de 19) e 15 óbitos por suicídio (média anual de 2,14). Observou-se predominância do sexo feminino nas tentativas (n=72; 54,1%), com média de idade de 28 anos, enquanto os óbitos ocorreram majoritariamente entre homens (n=14; 93,3%), com média de 30 anos. Ambos os desfechos concentraram-se em adultos jovens, evidenciando a centralidade desse grupo etário no fenômeno. Isso pode estar relacionado a transformações nos modos de vida e nas relações socioterritoriais, que impactam a construção da identidade, o pertencimento e os vínculos comunitários, especialmente entre jovens. A intensificação do contato com a sociedade não indígena, associada à maior exposição ao uso de álcool e outras substâncias, pode contribuir para o agravamento do sofrimento psíquico. Dentre os 15 que obtiveram êxito no suicídio, apenas quatro tiveram registro de tentativas prévias, incluindo casos de repetição em um mesmo indivíduo, o que evidencia lacunas na identificação do sofrimento mental e comportamento suicida, além de possíveis fragilidades na continuidade do cuidado. Em relação à assistência psicossocial, registraram-se 126 atendimentos nos casos de tentativas e 61 registros relacionados aos casos de óbito, indicando a presença dos serviços no território. Contudo, esses dados estimulam reflexões sobre o quantitativo de profissionais qualificados, a jornada de trabalho, a efetividade das intervenções e sua adequação às especificidades socioculturais. A análise dos desfechos evidencia uma possível falha na identificação precoce e no acompanhamento dos indígenas em risco suicida, reforçando a necessidade de qualificar a vigilância e fortalecer estratégias de cuidado articuladas com as comunidades.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados destacam as diferenças relevantes entre tentativas e óbitos por suicídio entre povos indígenas dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, com maior ocorrência de tentativas entre mulheres jovens e predominância de óbitos entre homens, sugerindo letalidade mais elevada nesse grupo. A menor frequência de registros de tentativas prévias entre os óbitos e a variação nos atendimentos indicam inserção dos serviços. No entanto, também revelam desafios na continuidade e efetividade do cuidado em saúde mental. Isso sugere possíveis fragilidades na identificação precoce e no acompanhamento de indivíduos em maior risco. O enfrentamento do comportamento suicida requer ações construídas em diálogo com as comunidades indígenas, que considerem as diferenças etnoculturais e etnossociais de cada povo, evidenciando a necessidade de abordagens interculturais que integrem as práticas tradicionais de cura com os tratamentos preconizados pelas evidências científicas. Ademais, é necessário o fortalecimento das políticas públicas em saúde mental indígena e o reconhecimento do comportamento suicida como um problema de saúde iminente que requer cuidado efetivo, longitudinal e culturalmente sensível.
Realização: