Programa - Comunicação Oral - CO29.1 - Caminhos para a Construção do Cuidado nas Políticas para a População em Situação de Rua
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ANÁLISE DAS PRÁTICAS DAS EQUIPES DE CONSULTÓRIO NA RUA NO BRASIL: ACESSO E CUIDADO INTEGRAL À POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA
Comunicação Oral
1 ENSP/FIOCRUS
2 ENSP/FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
A população em situação de rua (PSR) é marcada por barreiras no acesso aos serviços essenciais, estigmatização e invisibilidade, notadamente na ausência de informações em censos demográficos e na maioria dos sistemas de informação, que poderiam subsidiar formulação de políticas e ações públicas efetivas. Compreender o processo saúde-doença dessa população, além de considerar as desigualdades sociais que se expressam na vida e saúde, requer reconhecer as estratégias de cuidado integral, práticas que articulem prevenção, promoção, atenção e acompanhamento continuado, considerando o cuidado territorializado, intersetorial e as singularidades de contextos de vida. As normativas que instituíram as equipes de Consultório na Rua (eCR) (Política Nacional de Atenção Básica, 2011 e orientações técnicas), reconhecem a vulnerabilização da PSR, propondo uma concepção de equipe itinerante, capilarizada no território, para permitir acesso e qualidade da atenção. O registro cotidiano das ações das eCR no Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB) traz dados que, se analisados, permitem captar aspectos importantes do cuidado à PSR.
Objetivos
O objetivo deste estudo foi analisar as práticas das eCR da APS no Brasil entre 2020 e 2024, que envolvam a produção de cuidado à PSR.
Metodologia
Trata-se de estudo quantitativo, exploratório e descritivo, utilizando-se dados secundários (acesso público e restrito pelo e-gestor) do SISAB, em todo o território nacional, no período, tendo como código identificador o número da equipe. A análise se organiza nos seguintes eixos: perfil das pessoas cadastradas e produção assistencial das eCR. Os dados sociodemográficos coletados do cadastro de pessoas atendidas, embora anonimizados, permitem individualização; os demais registros de produção se referem aos procedimentos de saúde, atividades educativas e territoriais realizadas. São utilizadas técnicas de estatística descritiva, com medidas de frequências.
Resultados e Discussão
Ao final do período estudado, havia 245 equipes cadastradas no Brasil, que prestavam assistência à PSR em todas as regiões do país (principalmente Nordeste e Sudeste e em diferentes capitais). O perfil da população cadastrada era de predominância masculina (77,9%), maioria negra — parda (52,1%) e preta (17%) — e adultos em idade produtiva (entre 18 e 60 anos). Entretanto, havia um número grande de registros sem informação acerca da escolaridade, orientação sexual e da condição no mercado de trabalho.
As eCR registraram, em média, 68.516 atendimentos por ano, no período analisado. A distribuição dos atendimentos por local apontava a rua como principal espaço de cuidado, seguida pelas UBS e instituições e abrigos, com crescimento contínuo dos atendimentos na rua ao longo do período.
A consulta no dia e a escuta inicial/orientação, ou seja, de demanda espontânea, concentravam-se a maior parte dos atendimentos, evidenciando organização do cuidado orientada à resposta a demandas imediatas. Condutas como agendamento de consultas e retorno para cuidado continuado indicam estratégias voltadas à longitudinalidade, embora com tendência de redução ao longo do período. O volume de registros sem informação quanto ao tipo de atendimento também merece atenção.
No acumulado dos quatro anos, as dez condições de saúde mais frequentes foram: uso de álcool, álcool e outras drogas, tabagismo, saúde mental, puericultura, saúde sexual e reprodutiva, hipertensão, reabilitação, tuberculose e doenças sexualmente transmissíveis. Uso de substâncias e saúde mental ocupam as quatro primeiras posições em todos os anos. Hipertensão e obesidade crescem progressivamente. A tuberculose também se mantém em posição relevante no período.
As ações de prevenção são destacadas pelos testes rápidos para HIV, sífilis e hepatite C, correspondem a quase 87% de todos os procedimentos registrados. As atividades coletivas cresceram 47% no período, educação em saúde e reunião de equipe somam metade da produção coletiva, e as reuniões intersetoriais mais que triplicaram no período, indicando que o cuidado envolve tanto as ações voltadas aos usuários quanto processos de organização do trabalho e articulação com outros setores, essencial para a efetivação do cuidado integral.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados preliminares sugerem que as eCR desenvolvem escopo ampliado de ações (integralidade), em modelo flexíveis, de baixa exigência (em consonância ao conceito de redução de danos), incorporando atenção à demanda imediata e o acompanhamento longitudinal aos diferentes agravos (condições infecciosas, crônicas, aos ciclos de vida, como gestação), com abordagem intersetorial, o que corresponde à concepção de cuidado integral, conforme normativas brasileiras. O volume de registros sem informação indica aspectos que merecem atenção na qualificação dos dados. Analisar as práticas registradas é uma forma de tornar visível o cuidado ofertado à PSR, buscando superar a lógica excludente e afirmar o direito à saúde como um direito universal.
COLABORATÓRIO NACIONAL POP RUA: QUALIFICAÇÃO DO TRABALHO EM REDE E DA PARTICIPAÇÃO POPULAR, COM A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA (PSR).
Comunicação Oral
1 Fiocruz Brasília / NUPOP
Contextualização
O Colaboratório Nacional Pop Rua é um projeto de construção coletiva que surge a partir das discussões da Frente Parlamentar Pop Rua, da Câmara Federal, com participação de diversos movimentos sociais, com destaque para o Movimento Nacional de População em Situação de Rua e a Clínica Luiz Gama (Departamento de Direito - USP).
A partir das discussões do GT Pop Rua foi proposto, para ser financiado via emenda parlamentar, um Colaboratório que possa acompanhar as políticas públicas para a população em situação de rua (PSR), qualificar os trabalhadores que atuam com esta população e formar os movimentos sociais, para incidir no campo político, referente à garantia de direitos.
Tendo em vista o acúmulo do Núcleo de Estudos de População em Situação de Rua – NuPop Fiocruz Brasília – com pesquisas no campo, com atividades de ensino, pesquisa e extensão, atuando com outros projetos, em âmbito nacional, que envolvem e atuam com a PSR. Neste contexto, o NuPop foi indicado para a construção e condução do Colaboratório.
O Colaboratório Nacional de População em Situação de Rua tem como objetivos: (1) construir e operar estratégias de acompanhamento das Políticas Públicas específicas para a população em situação de rua - PSR (em âmbito nacional e regional); (2) qualificar pessoas com trajetória de rua no âmbito político (participação social), fomentando e fortalecendo o controle social e; (3) fomentar e apoiar estratégias de qualificação dos serviços e equipes que atuam com a PSR.
Descrição
O Colaboratório Nacional Pop Rua é uma iniciativa que articula formação, pesquisa, incidência política e participação social para garantir os direitos da PSR. Está estruturado em quatro instâncias: 1. Fórum Consultivo; 2. Polos Descentralizados; 3. Escola Nacional Pop Rua e; 4. Grupo de Pesquisas. O projeto está presente em 14 capitais, abrangendo todas as regiões do país.
Período de Realização
Março de 2023 a março de 2025
Objetivo
Fortalecer e qualificar as ações das políticas públicas e da sociedade civil com a população em situação de rua, fomentando formativos baseados na Educação Permanente, para trabalhadores e gestores das políticas públicas, além de pessoas com trajetória de rua.
Resultados
No período de março de 2023 a março de 2026, foram realizadas 1.104 atividades (realizadas pelos Polos Descentralizados e pela Escola Nacional). No total, o Colaboratório Nacional Pop Rua mobilizou 36.643 pessoas/participantes, através de suas atividades. Além disso, houve ampliação da capacidade de incidência da PSR e de suas organizações nos conselhos e conferências, fortalecimento das redes locais SUS e SUAS.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a potência de uma abordagem colaborativa, horizontal e territorializada na defesa dos direitos da PSR e na qualificação das políticas públicas. O projeto enfrenta desafios como a fragmentação das políticas públicas, resistência institucional e a precariedade das condições de trabalho nas redes locais. Ainda assim, as ações diretas com os territórios, aliado à valorização dos saberes da rua, fortalecem os vínculos comunitários e institucionais.
A atuação descentralizada do Colaboratório Nacional Pop Rua se mostrou estratégica para o fortalecimento da intersetorialidade e da participação. É essencial reconhecer a rua como espaço de produção de conhecimento e política, valorizando o protagonismo de seus sujeitos. A consolidação dessa estratégia requer investimento em formação permanente, apoio às equipes locais e institucionalização dos aprendizados como políticas públicas.
ENTRE A RUA E A REDE: CUIDADO À POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NO RIO DE JANEIRO
Comunicação Oral
1 SMS RJ
Contextualização
A população em situação de rua (PSR) é marcada por processos históricos de invisibilização e exclusão social, sendo frequentemente associada a estigmas que reforçam a negação de direitos. A Política Nacional para a População em Situação de Rua orienta a implementação de ações intersetoriais, visando à organização de redes de cuidado que garantam atenção integral, envolvendo saúde, assistência social e outros setores. Nesse cenário, o Consultório na Rua (CnaR) da Aréa Programática 5.1 em trabalho conjunto com a equipe de Saúde Bucal (eSB)do CMS Henique Monat localizado no bairro da Vila Kennedy, destaca -se como importante estratégia ampliando o cuidado para além do modelo centrado na doença, promovendo ações no território e favorecendo o acesso dessa população aos serviços de saúde.
Descrição
O CnaR realiza abordagens territoriais, promovendo vínculo e facilitando o acesso aos serviços de saúde. em articulação com as equipes da APS, contribui para a continuidade do cuidado e organização dos fluxos assistenciais. No campo da saúde bucal, a equipe do Consultório na Rua, em conjunto com a equipe de saúde bucal (eSB), realiza a avaliação da PSR do território utilizando o consultório móvel odontológico. Após essa avaliação inicial, são encaminhados e acompanhados para atendimento individual em cadeira odontológica na unidade de saúde.
A partir da identificação de outras demandas, os usuários são acompanhados pela equipe de Saúde da Família (eSF), com atendimento médico e de enfermagem, além do suporte da equipe multiprofissional (eMulti). Destaca-se ainda a articulação com a rede intersetorial, incluindo equipamentos da assistência social, como CRAS e CREAS, ampliando a resposta às necessidades sociais e de saúde dessa população.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida no município do Rio de Janeiro, no âmbito da atuação do Consultório na Rua em articulação com a unidade de Atenção Primária a Saúde: Centro Municipal de Saúde Henrique Monat, no bairro da Vila Kennedy no período recente , novembro de 2025 a março de 2026, de organização e fortalecimento das ações interdisciplinares no território.
Objetivo
Analisar a experiência de articulação interdisciplinar e intersetorial no cuidado à população em situação de rua, desenvolvida pelo Consultório na Rua em parceria com a equipe de Saúde da bucal da ESF. Com foco nas desigualdades sociais e de saúde, destacando as estratégias adotadas para garantir o acesso ao atendimento em saúde bucal, a construção de vínculos e o enfrentamento das iniquidades no território.
Resultados
A experiência evidenciou a ampliação do acesso da PSR aos serviços de saúde, especialmente no campo da saúde bucal, onde se observou elevada demanda reprimida, com queixas frequentes de dor, necessidade de extrações, presença de restos radiculares e reabilitação oral. A atuação integrada possibilitou maior adesão ao cuidado, fortalecimento de vínculos e continuidade do acompanhamento.
A articulação entre CnaR, ESF e rede intersetorial contribuiu para respostas mais integrais às necessidades dos usuários, incluindo encaminhamentos para assistência social e outros serviços. Observou-se também impacto positivo na autoestima e na dignidade dos usuários, a partir do acesso ao cuidado e da escuta qualificada.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que o acesso da população em situação de rua aos serviços de saúde permanece profundamente atravessado por desigualdades sociais e em saúde, que extrapolam as barreiras organizacionais e se expressam na estigmatização, na invisibilidade social, na fragilidade de vínculos institucionais e na descontinuidade do cuidado. Essas iniquidades estão diretamente relacionadas aos determinantes sociais da saúde, como pobreza, exclusão social, insegurança alimentar e ausência de acesso a direitos básicos, impactando de forma significativa as condições de saúde dessa população. Nesse contexto, a atuação do Consultório na Rua articulada à Atenção Primária a Saúde se mostra potente, ao tensionar práticas tradicionais e ampliar o acesso, embora ainda enfrente limites institucionais, como insuficiência de recursos, rigidez dos fluxos e dificuldades na integração efetiva da rede de atenção.
A saúde bucal revelou-se estratégica como porta de entrada para o cuidado, ao responder a demandas concretas e imediatas, como dor e sofrimento, favorecendo a construção de vínculo, o acolhimento e a ampliação da adesão ao acompanhamento longitudinal. No entanto, a elevada demanda reprimida, associada à complexidade das condições de vida da PSR, evidencia a necessidade de ampliação da oferta de serviços e da construção de práticas mais flexíveis, equânimes e centradas nas singularidades dos usuários.
Como aprendizado, destaca-se a importância do fortalecimento de práticas territoriais, interdisciplinares e intersetoriais, bem como do investimento na qualificação profissional e no aprimoramento das redes de cuidado, visando à efetivação do direito à saúde e à redução das desigualdades que marcam a vida da população em situação de rua.
GUIA INTERSETORIAL SUS E SUAS – AÇÕES INTEGRADAS COM A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA
Comunicação Oral
1 Fiocruz Brasília / NUPOP
Contextualização
A população em situação de rua (PSR), vivencia múltiplas vulnerabilidades, decorrentes de desigualdades estruturais, violências institucionais e barreiras persistentes no acesso aos direitos sociais. No Distrito Federal ( DF), a fragmentação entre o Sistema Único de Saúde ( SUS) e o Sistema Único de Assistência Social ( SUAS) é histórica e produz descontinuidades no cuidado, o que dificulta respostas integrais às necessidades dessa população. Diante desse cenário, o Colaboratório Nacional Pop rua, em parceira com a Fiocruz- Brasília e com as Secretarias de Estado de Saúde ( SES/DF) e de Desenvolvimento Social ( Sedes/DF), desenvolveu uma estratégia político-técnico, com foco no fortalecimento da intersetorialidade entre as políticas públicas.
Descrição
A experiência consistiu na elaboração coletiva do Guia Intersetorial para a Integração dos Serviços de Saúde e Proteção Social às Pessoas em Situação de Rua no Distrito Federal. O processo se deu por meio de metodologia ativas e participativas, envolvendo trabalhadoras/es, gestoras/es da saúde e da assistências social, pesquisadora/es e apoiadoras/es institucionais. Foram realizadas cinco oficinas presenciais e reuniões técnicas interinstitucionais, com foco na análise do cotidiano dos serviços, no mapeamento das competências e na pactuação de fluxos. Participaram serviços como Consultório na Rua; Centro de Referência Especializado de Assistência Social; Serviço Especializado em abordagem social, Unidades Básicas de Saúde e Unidades de acolhimento, resultando na construção de itinerários articulados e orientados pelo território
Período de Realização
A elaboração do Guia Intersetorial, ocorreu entre o último trimestre de 2023 e segundo trimestre de 2024, com etapas posteriores de sistematização, validação técnica e disseminação ao longo de 2025
Objetivo
Sistematizar fluxos integrados de atendimento e subsidiar profissionais da rede SUS e SUAS na adoção de práticas colaborativas que fortaleçam a equidade, a integralidade do cuidado e a garantia de direitos fundamentais da população em situação de rua do Distrito Federal.
Resultados
A experiência resultou na elaboração de 12 fluxogramas intersetoriais, contemplados desde orientações gerais de acesso até recortes específicos por ciclos de vida e condições de vulnerabilidade, como crianças e adolescentes, pessoas idosas, população LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, saúde mental, uso de álcool e outras drogas, situação de violência e processo de desospitalização. O Guia consolidou ferramentas como a Clínica Ampliada, o Projeto Terapêutico Singular (PTS) e o Apoio Matricial como eixos estruturantes do cuidado compartilhado, qualificando a comunicação entre equipes e fortalecendo o acompanhamento continuado.
Aprendizado e Análise Crítica
A construção do Guia evidenciou que a intersetorialidade não se efetiva apenas como diretriz normativa,exigindo espaços permanentes de diálogo, corresponsabilização e superação dos isolamentos institucionais. A incorporação da Clínica Ampliada permite deslocar o olhar estritamente biomédico para uma escuta ética que reconhece a PSR como sujeito autônomo e protagonista do cuidado. A análise crítica aponta que, embora o documento contribua para padronizar os fluxos e fortalecer a articulação SUS e SUAS, sua sustentabilidade no território depende de investimentos contínuos em educação permanente, oficinas regionais e enfrentamento de estigmas institucionais ainda presentes nos serviços. A experiência reafirma a Redução de Danos como estratégia ética fundamental, ao sustentar práticas de cuidado pactuadas, não coercitivas e sensíveis às singularidades da vida nas ruas.
JOGO EDUCATIVO "CONSULTÓRIO NA RUA: QUEM FAZ O QUE?": FERRAMENTA DE QUALIFICAÇÃO DAS EQUIPES DE ATENÇÃO PRIMÁRIA PARA O CUIDADO INTEGRAL À POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA
Comunicação Oral
1 EPSJV/FIOCRUZ
Contextualização
O crescimento da população em situação de rua (PSR) é uma realidade em todo o território nacional e reflete o desemprego, a pobreza e as desigualdades sociais. A complexidade que envolve a situação de rua, as iniquidades sociais e a precariedade das condições de vida e saúde reafirmam a importância de qualificar os profissionais da Atenção Primária à Saúde para o cuidado integral a populações em situação de extrema vulnerabilidade. Uma das estratégias potentes para a qualificação desses profissionais é a utilização de jogos educativos no processo de ensino aprendizagem.
Descrição
O jogo educativo denominado "Consultório na Rua: quem faz o que?" foi pensado a partir da experiência que tivemos com a elaboração do jogo "Saúde da Família: quem faz o que?" sobre as atribuições dos profissionais da Estratégia Saúde da Família, lançado em 2024. O jogo atual está sendo construído coletivamente por profissionais do Consultório na Rua (CnaR) que atuam no município do Rio de Janeiro (Coordenadora geral do CnaR, agente de ação social e articulador de rede) e por três pesquisadoras da Fiocruz, uma que integra o coletivo "Trilhas de Cuidado nas Ruas" e duas responsáveis pelo desenvolvimento de games e que participaram do jogo anterior.
Na primeira etapa, iniciada em 2025, foram listadas todas as atribuições das equipes do Consultório na Rua a partir dos documentos da política e das normativas institucionais. Na segunda etapa, ainda em 2025, foram definidas as atividades específicas realizadas por cada um dos profissionais da equipe e as atividades coletivas. A terceira etapa, de abril a maio de 2026, será feita a validação do jogo, por meio de oficinas, com a participação de trabalhadores que têm experiencia de atuação junto à PSR em diferentes regiões do país.
Modo de jogar: Cada jogador recebe um determinado número de cartas e a cada rodada tem que relacionar uma determinada atribuição aos profissionais que devem realizá-la no cotidiano do trabalho, de modo a discutir o processo de trabalho, as atribuições específicas e coletivas da equipe de saúde, a longitudinalidade e continuidade do cuidado e as articulações intra e intersetoriais necessárias para o cuidado integral.
Período de Realização
Junho de 2025 a maio de 2026
Objetivo
O objetivo do jogo é contribuir para qualificação dos profissionais da Atenção Primária à Saúde que atuam junto à população em situação de rua, principalmente das equipes de Consultório na Rua, de modo a produzir uma reflexão crítica sobre o cuidado integral nas práticas cotidianas.
Resultados
O jogo é um instrumento potente para discutir o cuidado integral para a PSR e pode ser utilizado nos processos de qualificação dos profissionais, seja em reuniões de equipe como em atividades de educação permanente. Trata-se de um jogo colaborativo que foi construído visando uma linguagem dialógica e participativa que permite a interação dos profissionais e a possibilidade de fortalecer o trabalho em rede. Nas etapas de elaboração do jogo ficou evidenciado que o trabalho real que se processa no cotidiano não se restringe ao trabalho prescrito. Assim sendo, auxiliar na retirada de documentos de identidade, acompanhar a PSR nas consultas aos especialistas para assegurar que o atendimento seja realizado, visitar os usuários em caso de internação, entre outras atividades, transcendem as normativas da Política Nacional de Atenção Básica e de outros documentos da gestão.
Aprendizado e Análise Crítica
Ao longo do processo de elaboração ficou evidenciada a complexidade que envolve o processo de trabalho com a PSR e a dificuldade em selecionar as atribuições prioritárias que devem compor o jogo. As práticas de cuidado integral se fundamentam na lógica da redução de danos e da baixa exigência e se concretizam de modo itinerante, com atividades individuais e coletivas nos territórios da rua, da linha do trem e/ou na unidade básica de saúde. Entendemos que o jogo precisa incluir as atividades que não se configuram como trabalho prescrito, pois são fundamentais como estratégias de cuidado integral que promovem o acesso aos direitos básicos de cidadania.
O jogo responde à necessidade de qualificação dos profissionais da atenção primária no cuidado integral à PSR. Uma questão importante que impacta na sua distribuição é o elevado custo do jogo impresso. Uma das possibilidades que será discutida nas oficinas de validação é a elaboração do jogo em formato digital para ampliar a sua disseminação em todo o território nacional.
O jogo educativo e colaborativo é uma ferramenta de educação em saúde importante para a qualificação dos profissionais. Tem o potencial de um aprendizado coletivo e compartilhado pelas equipes de saúde, podendo contribuir para uma reflexão crítica sobre o cotidiano de trabalho e para as possibilidades de construção de novos arranjos de produção de cuidado integral que atendam às especificidades e necessidades em saúde dessa população vulnerabilizada.
O CUIDADO REGISTRADO: UMA ANÁLISE DA AMPLIAÇÃO DOS ATENDIMENTOS DO CONSULTÓRIO NA RUA EM BELO HORIZONTE FRENTE AO PARADOXO DA INVISIBILIDADE INSTITUCIONAL
Comunicação Oral
1 Instituto René Rachou - Fiocruz Minas
2 Instituto René Rachou - Fiocruz Minas/ Departamento de Nutrição Clínica e Social, Escola de Nutrição, Universidade Federal de Ouro Preto
Apresentação/Introdução
O direito à saúde, embora constitucionalmente assegurado, enfrenta desafios na sua efetivação para grupos em extrema vulnerabilidade como a População em Situação de Rua (PSR). No Sistema Único de Saúde (SUS), a estratégia do Consultório na Rua (CnaR) surge como um dispositivo de equidade, operando uma clínica fundamentada em tecnologias leves. Em Belo Horizonte (BH), o serviço foi reestruturado em 2022, dobrando equipes e incluindo médicos. Contudo, a qualidade da informação é uma dimensão política: o que não se registra permanece invisível. Este estudo investiga em que medida os registros representam ou silenciam o cuidado do CnaR em BH, sob a premissa de que a "política dos registros" pode barrar a visibilidade da integralidade.
Objetivos
Investigar criticamente a representação do CnaR de BH nos registros assistenciais (2019–2023), analisando a qualidade dessas informações. Busca-se, complementarmente, descrever o perfil sociodemográfico e os padrões de diagnóstico da população atendida, comparando os registros entre categorias profissionais e períodos de reconfiguração do serviço.
Metodologia
Estudo transversal e descritivo-analítico do CnaR de BH. Analisou-se dados secundários contendo 79.612 atendimentos (17.583 indivíduos) extraídos dos sistemas municipais de informação em saúde (SISREDE e SIGRAH), de 2019 a 2023. A avaliação da qualidade da informação foi operacionalizada tendo como quadro analítico as dimensões de completude, consistência, acurácia e granularidade. O processamento estatístico, por meio de frequências e medidas descritivas, foi realizado no software R. A pesquisa foi aprovada pelos Comitês de Ética da Fiocruz Minas e da Secretaria Municipal de Saúde de BH.
Resultados e Discussão
A reestruturação em 2022 elevou os atendimentos de 13.910 (2021) para 23.550 (2023), com cobertura integral em BH. Contudo, a série temporal revela o "paradoxo da invisibilidade": consultas médicas cresceram 120,6%, enquanto os registros multiprofissionais caíram 48% (2022-2023). Isso sugere que a lógica clínica pode ter comprimido ações territoriais ou pode refletir instabilidades no SIGRAH, tensionando a consistência dos dados. Quanto ao perfil, 75% dos atendidos são negros, incidência superior à média nacional da PSR (68%, CadÚnico/2022), reafirmando o racismo estrutural como determinante. Há alta integridade em campos administrativos, mas o campo "situação de rua" estava ausente em 73,3% dos cadastros. Esse "paradoxo da completude seletiva" indica um sistema que privilegia a burocracia em detrimento da vulnerabilidade, comprometendo a identificação do público-alvo. A distribuição por sexo nos registros (45%-55%) diverge do perfil masculino (84%) do Censo PopRua 2022 de BH. A inversão é acentuada nos atendimentos médicos (54,2% mulheres), sugerindo hipóteses como padrões de procura, envelhecimento e feminização da PSR, além de um viés informacional por limitações de registro. Essa discrepância tensiona a acurácia dos dados frente à demografia real da rua. Por fim, a análise dos diagnósticos mostra que 90% dos registros não médicos concentram-se em "Códigos Z" (fatores inespecíficos), enquanto médicos utilizam categorias clínicas variadas. Essa concentração revela a baixa granularidade dos sistemas de informação, que, concebidos para a rotina padronizada da atenção básica, mostram-se insuficientes para capturar as tecnologias leves e a complexidade da clínica da rua, como a redução de danos e o vínculo. Como resultado, a invisibilidade do cuidado intersetorial e multiprofissional produz uma imagem epidemiológica distorcida da política, dificultando o planejamento pautado na equidade.
Conclusões/Considerações Finais
O panorama dos dados do CnaR em BH sugere uma política em plena transformação, cuja expansão territorial e clínica associou-se a mudanças no acesso da PSR à saúde. A reestruturação de 2022 pode ter ampliado o potencial de resolução para agravos prevalentes, contudo, os dados revelam o paradoxo da invisibilidade multiprofissional frente a uma visibilidade clínica questionável por inconsistências de perfil. A lacuna na "situação de rua" e a baixa granularidade geram uma imagem distorcida, reafirmando que o que não é mensurado corre risco de despriorização política. O desafio central reside em equilibrar a necessária resolutividade clínica com a preservação da identidade multiprofissional da "clínica da rua". Qualificar dados é condição política para que o cuidado integral seja visível e planejado com equidade e fidedignidade às singularidades da população.
Realização: