Programa - Comunicação Oral Curta - COC29.2 - Nos Encontros do Cuidado: Corpos, Trajetórias e Travessias em Busca de cuidado
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
A RUA COMO TERRITÓRIO DE CUIDADO: EXPERIÊNCIA DO ACOMPANHAMENTO DE UMA PESSOA EM SITUAÇÃO DE RUA E DO CONSULTÓRIO NA RUA NA FORMAÇÃO EM MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE
Comunicação Oral Curta
1 SEMSA/ESAP
Contextualização
Ao pensar em território, geralmente se associam termos como comunidade e população adscrita. No entanto, há um campo que permanece, muitas vezes, por ser preenchido: o das pessoas em situação de rua. Embora numerosas nos territórios urbanos, seguem invisibilizadas, como se integrassem a paisagem das cidades sem, de fato, serem reconhecidas como sujeitos de direito. A população em situação de rua (PSR) materializa, de forma contundente, as expressões das desigualdades sociais e de saúde, evidenciando os limites históricos da efetivação do direito à saúde e reafirmando a centralidade dos determinantes sociais no processo saúde-doença (VALLE; FARAH, 2020).
Apesar de o Sistema Único de Saúde (SUS) se fundamentar nos princípios, como universalidade, equidade e integralidade, o acesso da PSR aos serviços de saúde é atravessado por múltiplas barreiras sociais, estruturais e organizacionais (FRAGA; MODENA; SILVA, 2024). Nesse contexto, o território ultrapassa a delimitação geográfica e se configura como espaço vivo, relacional e em constante produção. Para a PSR, a rua não é apenas cenário, mas lugar de existência e construção de vínculos. Tal compreensão desafia os modos tradicionais de organização do cuidado e exige práticas sensíveis, capazes de dialogar com a complexidade desses modos de vida (ENGSTROM et al., 2016)
Descrição
O CnaR configura-se como um dispositivo que desloca o cuidado para além das estruturas institucionais e convencionais, operando de forma itinerante, sustentado pela busca ativa e pela construção compartilhada do cuidado. No contexto da residência em MFC, essa vivência possibilita o desenvolvimento de habilidades fundamentais, como a escuta qualificada, a construção de vínculo, o trabalho multiprofissional, interculturalidade e a atuação em contextos marcados por vulnerabilidades, ampliando a compreensão do cuidado para além dos espaços formais de saúde (FRAGA; MODENA; SILVA, 2024).
No território de uma ESF, a experiência de acompanhamento de uma pessoa em situação de rua em tratamento para tuberculose evidenciou, de maneira concreta, os desafios e as potências do cuidado integral e longitudinal fora dos moldes tradicionais. O cuidado exigiu a incorporação de estratégias como a realização de busca ativa contínua, a adaptação do seguimento às condições de vida da pessoa, a centralidade da construção de vínculo para favorecer a adesão ao tratamento, além da abordagem multiprofissional e da articulação com a Rede de Atenção à Saúde.
Período de Realização
Trata-se de um relato de experiência ocorrido no período de junho a novembro de 2025, no território de uma equipe de Saúde da Família (ESF), na zona leste de Manaus.
Objetivo
Este trabalho tem como objetivo relatar a experiência de como o desenvolvimento de competências necessárias ao cuidado integral de uma pessoa em situação de rua em tratamento para tuberculose foi consolidado pela experiência no módulo de Consultório na Rua (CnaR), na residência em Medicina de Família e Comunidade (MFC).
Resultados
Nesse processo, destacou-se o papel fundamental dos Agentes Comunitários de Saúde, que atuaram de forma ativa nas buscas, possibilitando a localização, o acompanhamento do usuário no território e a consolidação de uma rede viva. Médicos e enfermeiros participaram dessas abordagens, favorecendo intervenções oportunas e ampliando o acesso ao cuidado. A vinculação da pessoa à Unidade de Saúde da Família foi construída gradualmente, a partir do contato mais próximo com a equipe de enfermagem e médica, além do acompanhamento conjunto com o serviço social, com o objetivo de reduzir vulnerabilidades e qualificar o acesso ao serviço de saúde. Como resultados, observou-se a efetiva vinculação do usuário à equipe de saúde, a ampliação do acesso aos serviços, o fortalecimento do vínculo como mediador da adesão ao tratamento da tuberculose e a articulação interprofissional como elemento central para a continuidade do cuidado.
Aprendizado e Análise Crítica
Esta experiência evidenciou a necessidade de mudanças nos modelos tradicionais de cuidado, a centralidade do vínculo na produção de saúde, principalmente em contextos de vulnerabilidade, a potência do trabalho em equipe e da valorização do território, além da importância de reconhecer a rua como espaço legítimo de cuidado.
Diante disso, a experiência do CnaR como área docente-assistencial na residência em MFC mostrou-se fundamental para sustentar esse cuidado, ao oferecer ferramentas concretas para a atuação em territórios e junto a grupos historicamente invisibilizados. Essa vivência favoreceu o reconhecimento das singularidades, o desenvolvimento de habilidades de comunicação, a ampliação da orientação comunitária e o fortalecimento do cuidado centrado na pessoa. Evidencia-se, então, que a inclusão da PSR como parte pertencente ao território exige a revisão de práticas institucionalizadas e o enfrentamento das barreiras estruturais ainda presentes no SUS, reafirmando o papel da MFC e da Atenção Primária à Saúde na redução das iniquidades e na efetivação do direito à saúde.
BARREIRAS PERSISTENTES NO ACESSO AO CUIDADO EM SAÚDE BUCAL ENTRE A PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
Comunicação Oral Curta
1 UFU
Apresentação/Introdução
Apesar da cobertura universal e equânime em saúde bucal ofertada pelo Sistema Único de Saúde, populações vulneráveis, como a população em situação de rua, continua a enfrentar dificuldades tradicionais para acessar os serviços odontológicos.
Objetivos
Compreender os significados do acesso à saúde bucal entre pessoas em situação de rua.
Metodologia
Foi realizado um estudo qualitativo com pessoas em situação de rua de um município de grande porte do interior do Brasil. Elas foram abordadas nas ruas por um entrevistador, cirurgião-dentista, que trabalhada da Atenção Primária do município. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas, analisados utilizando a Teoria Fundamentada nos Dados e categorizados de acordo com o Modelo de Acesso à Saúde Centrado no Paciente.
Resultados e Discussão
Foram entrevistados 18 homens em situação de rua nos meses de fevereiro a setembro de 2025. Os participantes da pesquisa percebem a deterioração da saúde bucal é resultado do uso de drogas e tentam resolver o problema com as ferramentas disponíveis no seu contexto de vida: abuso de álcool e drogas, tentativas de extrair o dente (automutilação) e uso de medicamentos encontrados no lixo. A capacidade de buscar pelo atendimento é inviabilizada pela sensação de discriminação. A capacidade de alcançar o serviço de saúde bucal é limitada por barreiras persistentes nos serviços públicos de saúde brasileiros: exigências burocráticas (como o endereço) e preconceito e discriminação por parte dos profissionais de saúde. Iniciativas governamentais, como os Consultórios na Rua, auxiliam pessoas em situação de rua a obterem atendimento médico e social. Contudo, essas iniciativas não oferecem serviços odontológicos e os pacientes ainda identificam falas preconceituosas. A capacidade de engajamento dessas pessoas não condiz com a natureza inadequada e de baixa resolução dos tratamentos oferecidos, quando o acesso é efetivado.
Conclusões/Considerações Finais
Considerando o princípio da equidade, os indivíduos em situação de rua deveriam ser o foco de esforços específicos para o acesso a serviços de saúde. Contudo, essa população enfrenta obstáculos tradicionais ao tentar obter atendimento odontológico público no Brasil. Nesse contexto, a automutilação e o uso de drogas são métodos empregados para aliviar a dor de dente.
CAMINHOS TRILHADOS EM BUSCA DE CUIDADO: ITINERÁRIOS TERAPÊUTICOS DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA EM PALMAS/TO
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Federal do Tocantins
Apresentação/Introdução
A subjetividade e trajetórias de vida influenciam o processo saúde-doença-cura (Carmo; Guizardi, 2018). Os Itinerários Terapêuticos (IT) são estratégias que organizam esses percursos em arenas: profissional, popular e informal (Kleinman, 1978/80). O acesso à saúde quando somada as vulnerabilidades, as pessoas enfrentam dificuldades multidimensionais: individual, social, programática (Alves; Souza, 1999). Estudos sobre população em situação de rua (PSR) revelam barreiras socioeconômicas/culturais. Esta pesquisa justifica-se pela análise dos IT da PSR em Palmas/TO, identificando percepções, estratégias, serviços e obstáculos para visibilizar demandas em políticas públicas (Ayres et al., 2022).
Objetivos
Compreender os Itinerários Terapêuticos da população em situação de rua de Palmas, Tocantins.
Metodologia
Estudo descritivo-exploratório misto. O levantamento dos dados quantitativos foi realizado por meio do Sistema de Informação E-SUS (2016-2023) versão 5.0.16, da rede de saúde municipal de Palmas - TO. Para análise desses dados, foi utilizado a estatística descritiva. Na etapa de coleta de dados qualitativos, foram realizadas entrevistas guiadas por um roteiro semiestruturado, elaborado pela própria pesquisadora, caracterizando o perfil sociodemográfico. Ademais, as questões norteadoras exploraram as concepções subjetivas de saúde e de adoecimento, as estratégias de cuidado escolhidas e os pontos de apoio buscados pelos sujeitos, investigando-se, por fim, a percepção dos participantes quanto à resolutividade desse percurso em busca de cuidado. A amostra da pesquisa considerou amostragem não probabilística por conveniência e por saturação (Minayo, 2008). Na análise qualitativa foi utilizada a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo (Lefevre F & Lefevre, 2012).
Resultados e Discussão
A análise dos dados do E-SUS revela que, em setembro/2023, Palmas/TO registrava 178 pessoas em situação de rua (PSR) cadastradas pela equipe consultório na rua (eCR), predominantemente homens (86%) na faixa etária de 25-49 anos (67%).
Quanto à escolaridade, 59% (106 pessoas) concentravam-se no ensino fundamental (alfabetização ao completo), com maior incidência nas 5ª a 8ª séries (35,4%; 63 registros), seguido de 1ª a 4ª séries (11,8%; 21) e fundamental completo (10,7%; 19). Observaram-se inconsistências, pois 45 cadastros não informavam esse dado.
Entre 2016-2023 (início da eCR local), totalizaram-se 21.034 atendimentos à PSR, sendo distribuídos entre as Unidades Básicas de Saúde (45,4%; 9.545), nos Centros de Atenção Psicossocial (45%; 9.472) e equipe do consultório na rua (6,9%; 1.449), sendo os principais motivos: exame médico geral (45,9%; CID sem doença específica, para investigação em assintomáticos), transtorno mental por uso de álcool/drogas (21,5%) e outros transtornos mentais (7%).
As entrevistas ocorreram de novembro/2023 a março/2024: 4 em unidades de saúde, 9 na rua (locais de permanência). Dos 13 participantes, 2 são mulheres e 11 homens; quanto a escolaridade: 3 eram analfabetos, 6 finalizaram o fundamental, 4 tinha até o ensino médio. A idade média dos entrevistados é de 44 anos e a permanência média em situação de rua é de 17 anos. Os participantes foram identificados por ordem cronológica de início das entrevistas, tendo a letra “P” como prefixo seguida da posição de participação, totalizando P1 a P13.
Mediante aplicação da metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (Lefevre & Lefevre, 2012) foram encontrados os IT da PSF de Palmas que traduz uma pluralidade terapêutica e por caminhos não lineares. O percurso inicia-se frequentemente no setor informal (amigos de rua, uso de substâncias para alívio imediato) e no setor popular (conhecimento tradicional e religioso). O Consultório na Rua destaca-se como o principal elo de confiança, sendo essencial para superar o estigma e garantir o acesso dessa população às políticas públicas.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência da PSR revela um modo de viver que desafia modelos tradicionais de cuidado à saúde. Diariamente, enfrentam negação de direitos básicos como moradia, alimentação e serviços essenciais. Seus IT não seguem rotas formais, mas trajetórias adaptadas: ações próprias, ajuda mútua e práticas coletivas nas ruas.
O cuidado vai além de consulta/remédio: redes informais, saberes tradicionais, improvisos e resistência à exclusão. Ainda assim, sustentado na lógica biomédica rígida, ignorando contextos social/cultural/existencial, gerando barreiras, sendo necessário aprofundar pesquisas junto aos profissionais frente ao cuidado centrado na pessoa.
Por fim, é necessário repensar a saúde ampliada, reconhecendo saberes da PSR como legítimos. Políticas e profissionais devem enxergar, escutar e dialogar para romper ciclos de invisibilidade, promovendo efetividade assistencial.
CUIDADO EM SAÚDE DESTINADO ÀS PESSOAS LGBTQIA+ NO CONSULTÓRIO NA RUA
Comunicação Oral Curta
1 UFAM
Apresentação/Introdução
O cuidado em saúde, na perspectiva da saúde coletiva, é entendido como um processo
vivo, relacional, ético e político. Ele convoca à escuta, ao acolhimento e ao reconhecimento
das necessidades dos sujeitos em sua integralidade. Tal concepção está na base do Sistema
Único de Saúde (SUS), que, desde sua criação, se organiza a partir dos princípios da
universalidade, da integralidade e da equidade. Tais princípios buscam assegurar o acesso
universal aos serviços, a articulação entre ações de promoção, prevenção e assistência, e o
reconhecimento das desigualdades para promover justiça social em saúde (Brasil, 1990; Paim,
2008). Nesse sentido, é possível compreender que as práticas de saúde devem assumir o
compromisso de ofertar um cuidado que supere a lógica normativa e biomédica, alcançando
assim os determinantes sociais, culturais e subjetivos da vida, possibilitando o enfrentamento
das desigualdades que afetam, sobretudo, populações historicamente vulnerabilizadas (Ayres,
2004).
Objetivos
Investigar como os princípios da Política Nacional de Saúde Integral LGBT, estão
presentes ou ausentes nas ações cotidianas das equipes dos Consultórios na Rua,
identificando possíveis tensões, estratégias e lacunas existentes no contexto local.
Metodologia
Esta proposta de pesquisa está ancorada em uma abordagem qualitativa, de caráter
descritivo e exploratório, que possibilita a compreensão de aspectos subjetivos, sociais e
históricos da realidade humana. A abordagem qualitativa constitui-se como um instrumento
privilegiado para acessar sentidos, percepções e representações construídas pelos sujeitos, por
meio da escuta atenta de suas narrativas. Segundo Costa e Minayo (2019), esse tipo de
investigação permite que o pesquisador atue como um porta-voz das experiências de grupos
sociais inseridos em contextos específicos, evidenciando fenômenos socioculturais,
interacionais e simbólicos. Assim, o ambiente natural torna-se o campo legítimo de
observação e interpretação dos processos que conformam a realidade social, valorizando o
ponto de vista dos sujeitos e indo além da quantificação objetiva dos dados (Minayo, 2012).
Além disso, trata-se de uma pesquisa de natureza descritiva e exploratória. O caráter
exploratório justifica-se pelo objetivo de aprofundar a compreensão sobre um fenômeno ainda
pouco investigado na literatura científica: as práticas de cuidado desenvolvidas por
profissionais dos Consultórios na Rua junto às pessoas LGBTQIA+, em contextos
amazônicos.
Resultados e Discussão
Diante desse cenário, ao se observar a Região Norte do Brasil é possível evidenciar o
enfrentamento de desafios históricos na consolidação das políticas públicas de saúde, em
razão de sua vasta extensão territorial, diversidade sociocultural e limitações na infraestrutura
(Garnelo & Sousa, 2020). No Amazonas, essas barreiras se refletem na concentração de
serviços em Manaus, o que sugere possíveis dificuldades para interiorizar e efetivar ações
voltadas às pessoas LGBTQIA+. Considerando, portanto, o cenário oportuno para a pesquisa,
Manaus conta com duas equipes do Consultório na Rua e Manacapuru com uma, ambas
4
atuando junto a pessoas em situação de rua. Sendo assim, a análise desses contextos é
fundamental para compreender como os marcadores territoriais, institucionais e culturais
influenciam a lógica de cuidado em saúde das equipes do CnaR.
As práticas de cuidado em saúde voltadas às pessoas LGBTQIA+ seguem marcadas
por estigmas, discriminações e violências estruturais, que negam a legitimidade de suas
identidades e dificultam o acesso aos serviços (Calazans et al., 2018). Esse cenário reforça a
urgência de formar profissionais capazes de acolher essas demandas com sensibilidade,
competência técnica e compromisso ético. Diante disso, torna-se essencial investigar como os
princípios de integralidade, equidade e interseccionalidade são incorporados nas práticas de
cuidado desenvolvidas na APS.
Ao buscar ramificações para essa pergunta, espera-se contribuir para a qualificação das
políticas públicas e das práticas profissionais no SUS, implicando na transformação social.
Conclusões/Considerações Finais
É possível compreender que esta pesquisa contribua significativamente para a ampliação do
conhecimento sobre as práticas de cuidado desenvolvidas por profissionais das equipes dos
Consultórios na Rua junto à população LGBTQIA+ em situação de rua no contexto
amazônico. A partir da escuta qualificada dos sujeitos participantes, pretende-se identificar
sentidos, estratégias e desafios que atravessam o exercício profissional no campo da saúde,
especialmente diante das múltiplas vulnerabilidades que marcam esse grupo social. Os
resultados poderão subsidiar reflexões críticas sobre a implementação da Política Nacional de
Saúde Integral LGBT, bem como revelar lacunas na formação e sensibilização das equipes
para atuação com populações dissidentes de gênero e sexualidade.
DESIGUALDADES NAS RUAS: BARREIRAS NO CUIDADO GINECOLÓGICO DE MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA
Comunicação Oral Curta
1 UFMS
Apresentação/Introdução
Mulheres que vivem nas ruas enfrentam uma situação de fragilidade intensificada, resultado tanto de sua marginalização social quanto das desigualdades de gênero. Muitas vezes ignoradas pelas políticas públicas e pela sociedade, essas mulheres são alvos de preconceito, discriminação e diversas formas de agressão, o que agrava suas condições de vida e dificulta a obtenção de direitos essenciais, como o acesso à saúde. O acesso dessas mulheres aos cuidados ginecológicos é complexo e enfrenta diversas dificuldades
Objetivos
Identificar as principais barreiras enfrentadas no atendimento ginecológico de mulheres em situação de rua
Metodologia
Trata-se de um estudo de revisão integrativa, focado em pesquisas publicadas nos últimos 5 anos sobre a saúde ginecológica de mulheres em situação de rua no Brasil. As bases de dados consultadas foram SciELO, LILACS, Google Scholar e PubMed. A questão formulada para a pesquisa: qual a dificuldade encontrada pela mulher em situação de rua no atendimento ginecológico? A busca foi realizada em março de 2026, sendo encontrados um total de 135 artigos relevantes, 25 na base de dados SciELO, 20 LILACS, 60 Google Scholar e 30 PubMed. após a remoção de duplicatas e a aplicação dos critérios de inclusão foram selecionados 15 artigos.
Resultados e Discussão
As barreiras no atendimento ginecológico de mulheres em situação de rua são complexas e interligadas, envolvendo dimensões sociais, institucionais e subjetivas, refletindo um cenário de vulnerabilidade e exclusão social. No plano estrutural, destacam-se pobreza, violência, insegurança alimentar e ausência de rede de apoio, que dificultam o acesso e a continuidade do cuidado. No âmbito institucional, a rigidez dos serviços, a exigência de documentação, a descontinuidade do cuidado e o preconceito comprometem o acesso e a qualidade da assistência. Barreiras interpessoais, como vivência descriminatórias, medo, vergonha e traumas, dificultam especialmente a realização de exames ginecológicos. O estigma associado à situação de rua e ao uso de substâncias psicoativas agrava a exclusão. Na saúde reprodutiva, há dificuldades no acesso a contraceptivos e ao pré-natal, decorrentes da instabilidade de vida. A saúde menstrual também é comprometida pela falta de infraestrutura e insumos básicos. Em síntese, essas barreiras exigem ações intersetoriais, com foco na equidade, humanização e adaptação dos serviços às necessidades dessa população.
Conclusões/Considerações Finais
As mulheres em situação de rua enfrentam barreiras complexas no acesso à saúde ginecológica, decorrentes de desigualdades sociais, estruturais e subjetivas que as mantêm em um ciclo de exclusão. Soma-se a isso a inflexibilidade dos serviços, a burocracia e o despreparo profissional, que reforçam práticas excludentes. Barreiras emocionais também dificultam ainda mais a busca por cuidado. Esse cenário revela que a desigualdade não está apenas no acesso, mas também na forma como o cuidado é ofertado. Torna-se necessário construir estratégias intersetoriais, humanizadas e adaptadas à realidade dessas mulheres. Garantir o direito à saúde exige a superação de barreiras históricas e estruturais
DETERMINANTES SOCIAIS E TRAJETÓRIAS ASSISTENCIAIS DA TUBERCULOSE EM PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA: DESAFIOS À INTEGRALIDADE DO CUIDADO NO SUS
Comunicação Oral Curta
1 UERJ
Apresentação/Introdução
A tuberculose (TB) configura-se como um agravo fortemente determinado por condições sociais e ambientais, incidindo de forma desproporcional em populações submetidas à pobreza, exclusão social e precariedade das condições de vida, como a população em situação de rua (PSR). Sua ocorrência está associada a desigualdades estruturais, incluindo classe, raça e gênero, além de condições territoriais marcadas por insegurança alimentar, ausência de moradia e exposição a ambientes insalubres. Nesse sentido, compreender a TB exige ultrapassar abordagens biomédicas, incorporando a análise dos determinantes sociais e ambientais que produzem e reproduzem a doença nos territórios.
Objetivos
Analisar a participação social e a oferta de cuidado a partir das trajetórias assistenciais de pessoas em situação de rua com tuberculose no Brasil, articulando essa análise aos determinantes sociais e ambientais da saúde e às desigualdades estruturais que atravessam o processo saúde-doença.
Metodologia
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter exploratório, realizada nas bases Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PubMed e SciELO, contemplando estudos publicados entre 2013 e 2023. A estratégia de busca foi orientada pela metodologia PICO, utilizando descritores relacionados à população em situação de rua, tuberculose e integralidade do cuidado. Foram incluídos estudos empíricos disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês e espanhol. Após aplicação dos critérios de elegibilidade, dez estudos compuseram o corpus analítico, sendo submetidos à análise de conteúdo, à luz dos referenciais da determinação social do processo saúde-doença.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que as trajetórias assistenciais das pessoas em situação de rua com TB são profundamente marcadas por determinantes sociais e ambientais, expressos na invisibilidade social, estigmatização, violência institucional, ausência de redes de apoio e precariedade das condições de vida nos territórios urbanos. Tais fatores se articulam a processos históricos de exclusão e desigualdade estrutural, impactando diretamente o acesso, a continuidade e a adesão ao tratamento.
Observa-se que as ações em saúde são frequentemente fragmentadas, com baixa articulação intersetorial, o que limita a efetividade do cuidado. Por outro lado, destacam-se como estratégias relevantes a atuação das equipes de Consultório na Rua, a construção de vínculo, a escuta qualificada e práticas centradas no sujeito. A análise evidencia que as trajetórias assistenciais constituem importante ferramenta para compreender os percursos dos sujeitos nos serviços de saúde e nos territórios, permitindo identificar pontos de ruptura no cuidado e as múltiplas interações entre condições sociais, ambientais e institucionais. Ao articular essa categoria aos determinantes sociais e ambientais, o estudo contribui para uma leitura ampliada da tuberculose como expressão das desigualdades e injustiças sociais.
Conclusões/Considerações Finais
O enfrentamento da tuberculose na população em situação de rua exige políticas públicas intersetoriais, territorializadas e orientadas pela equidade, capazes de responder à complexidade dos determinantes sociais e ambientais envolvidos. Ressalta-se a importância de fortalecer a participação social, valorizar saberes locais e desenvolver estratégias que considerem as especificidades dos territórios e das populações vulnerabilizadas. Reafirma-se a necessidade de superar abordagens fragmentadas, contribuindo para a redução das desigualdades e para o avanço na eliminação da tuberculose como problema de saúde pública.
O CUIDADO NO TEMPO DA RUA: REORGANIZAÇÃO DO ACESSO AO DIAGNÓSTICO PARA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA EM SÃO PAULO
Comunicação Oral Curta
1 Centro Social Nossa Senhora Bom Parto
Contextualização
A população em situação de rua (PSR) expressa de forma contundente as desigualdades sociais e sanitárias que estruturam o processo saúde-doença nos grandes centros urbanos brasileiros. No município de São Paulo, a vida nas ruas é atravessada por múltiplas violências, instabilidade territorial, ações de dispersão e perda recorrente de pertences, incluindo documentos e insumos de saúde. Tais condições impactam diretamente a possibilidade de acesso e continuidade do cuidado, evidenciando limites importantes na organização dos serviços de saúde.
No âmbito do Sistema Único de Saúde, observa-se que a estruturação dos fluxos assistenciais permanece majoritariamente ancorada em unidades fixas, horários restritos e pressupostos de estabilidade do usuário. No caso da realização de exames laboratoriais, a exigência de comparecimento em jejum, no período matutino, revela-se incompatível com a dinâmica de vida da PSR, operando, na prática, como barreira de acesso e mecanismo de exclusão institucional.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência baseado em prática assistencial no âmbito do Sistema Único de Saúde, sem coleta ou utilização de dados identificáveis de usuários; construído a partir da prática no território, com base na identificação de dificuldades recorrentes de acesso aos exames laboratoriais por usuários acompanhados pela Equipe do Consultório na Rua de Santo Amaro. A proposta foi desenvolvida por meio de articulação entre o Consultório na Rua, laboratório de referência e unidades da rede de saúde, buscando reorganizar o processo de coleta de acordo com as necessidades concretas da população atendida.
Período de Realização
O fluxo implementado passou a contemplar a realização de coletas em horários flexíveis, definidos a partir do planejamento da equipe e das condições dos usuários, incluindo intervenções em via pública e em dispositivos de acolhimento. O acondicionamento e transporte das amostras seguiram as normativas sanitárias vigentes, com pactuação prévia junto ao laboratório para viabilizar o processamento em fluxo adaptado.
A experiência foi desenvolvida no período de 2025 a 2026, no território de abrangência do Consultório na Rua de Santo Amaro, município de São Paulo, encontrando-se em curso no momento da submissão.
Objetivo
Este trabalho tem como objetivo descrever e analisar a construção de um fluxo de coleta laboratorial territorializado, desenvolvido pela equipe do Consultório na Rua de Santo Amaro, como estratégia de enfrentamento às iniquidades no acesso ao diagnóstico e discutindo como a reorganização dos processos assistenciais, a partir do território, pode contribuir para a produção do cuidado integral e para a efetivação da equidade no Sistema Único de Saúde.
Resultados
A experiência evidenciou que a ampliação do acesso ao diagnóstico depende não apenas da oferta de serviços, mas da forma como estes se organizam no território. A flexibilização dos processos assistenciais possibilitou maior aproximação com os usuários, favorecendo a realização de exames e a continuidade do cuidado. Ao mesmo tempo, revelou-se a centralidade do trabalho intersetorial e da corresponsabilização entre equipes na produção do cuidado integral.
Aprendizado e Análise Crítica
Como aprendizados, destaca-se a necessidade de deslocar o eixo do cuidado do serviço para o território, reconhecendo as especificidades da vida nas ruas e os determinantes sociais que atravessam esse contexto. A organização tradicional dos serviços, quando descolada dessas realidades, tende a reproduzir desigualdades e limitar o acesso à saúde.
Conclui-se que a construção de fluxos territorializados e flexíveis constitui estratégia fundamental para garantir o direito à saúde da população em situação de rua, fortalecendo práticas de cuidado integral e ampliando a capacidade do SUS de responder às iniquidades sociais.
PREVALÊNCIA DE INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS NA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NO CENTRO DE MANAUS AMAZONAS
Comunicação Oral Curta
1 Universidade do Estado do Amazonas - UEA
Apresentação/Introdução
O crescimento da população em situação de rua (PSR), especialmente em áreas urbanas, constitui um importante desafio social e de saúde pública, marcado por exclusão, vulnerabilidade e acesso limitado a direitos básicos. Estima-se que milhões de pessoas vivam nessa condição no mundo, com aumento expressivo no Brasil nas últimas décadas. Apesar da relevância do tema, há escassez de estudos sobre a PSR na região Norte, especialmente na Amazônia, o que limita a compreensão das necessidades em saúde e a formulação de políticas públicas mais equitativas. Nesse contexto, a PSR apresenta elevada vulnerabilidade às Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), associada a fatores como práticas sexuais desprotegidas, uso de substâncias psicoativas e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Evidências apontam maior exposição a agravos como HIV, sífilis e hepatites virais, além de fragilidades na continuidade do cuidado. Diante disso, torna-se fundamental investigar a prevalência de IST nessa população, especialmente em contextos pouco explorados, como o município de Manaus.
Objetivos
Objetivo Geral: Identificar a prevalência das infecções sexualmente transmissíveis na população em situação de rua no Centro de Manaus assistida pela Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de Manaus
Metodologia
Trata-se de um estudo de campo, com abordagem quantitativa, que objetiva identificar a prevalência de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) em pessoas em situação de rua no centro de Manaus (AM), cadastradas no Centro de Acolhida da Pastoral do Povo da Rua Dom Sérgio Eduardo Castriani. Participaram do estudo pessoas em situação de rua cadastradas na pastoral, indivíduos com idade ≥18 anos e condições cognitivas adequadas, sendo excluídos aqueles com alterações mentais ou comportamento agressivo. A amostra foi composta por 131 participantes, selecionados por conveniência, entre março e junho de 2024. Foram aplicados questionários estruturados e realizados testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites B e C. Os dados foram analisados por estatística descritiva, com cálculo de frequências absolutas e relativas. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa (parecer nº 5.677.089; CAAE: 62724422.0.0000.5016).
Resultados e Discussão
Participaram do estudo 131 pessoas em situação de rua, sendo 79 (60%) do sexo masculino e 52 (40%) do sexo feminino, com predominância da faixa etária de 30 a 39 anos (34%), perfil semelhante ao descrito na literatura para essa população. Foram realizados testes rápidos para sífilis (n=128), HIV (n=131), hepatites B e C (n=130), observando-se prevalência de 22% de sífilis reagente, 4% de HIV e 1% de hepatite C, sem casos reagentes para hepatite B. A elevada prevalência de sífilis evidencia importante vulnerabilidade da população em situação de rua às IST, associada a fatores como práticas sexuais desprotegidas, uso de substâncias psicoativas e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Esses achados são consistentes com estudos nacionais que apontam maior exposição dessa população a agravos infecciosos. Embora a prevalência de HIV e hepatite C tenha sido menor em termos absolutos, os resultados permanecem relevantes quando comparados à população geral, reforçando as iniquidades em saúde vivenciadas por esse grupo. Destaca-se que o acesso aos serviços de saúde ocorre, em geral, de forma fragmentada e tardia, o que dificulta ações de prevenção, diagnóstico precoce e continuidade do cuidado. Nesse sentido, estratégias territorializadas, como a testagem rápida em espaços de acolhimento, mostram-se fundamentais para ampliar o acesso e reduzir barreiras assistenciais. Adicionalmente, observa-se que a baixa adesão a medidas preventivas, como o uso regular de preservativos, associada à instabilidade das condições de vida, potencializa a exposição contínua às IST. A vulnerabilidade social, somada à ausência de políticas públicas efetivas e integradas, contribui para a manutenção desse cenário. Assim, reforça-se a necessidade de intervenções intersetoriais que articulem saúde, assistência social e educação, com foco na promoção do cuidado integral, redução de danos e fortalecimento do vínculo com os serviços de saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados evidenciam a elevada prevalência de sífilis e a presença de casos de HIV e hepatite C entre pessoas em situação de rua no centro de Manaus, reforçando a vulnerabilidade dessa população às infecções sexualmente transmissíveis. Fatores como condições de vida precárias, práticas de risco, estigma e dificuldades de acesso aos serviços de saúde contribuem para a manutenção desse cenário, evidenciando importantes iniquidades em saúde. Destaca-se a relevância de estratégias territorializadas, como a testagem rápida em espaços de acolhimento, para ampliação do acesso ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento. Os resultados apontam para a necessidade de fortalecimento de políticas públicas intersetoriais, com abordagens humanizadas e inclusivas, especialmente no contexto amazônico, ainda marcado por lacunas de dados e acesso.
INTERFACE DA SAÚDE SEXUAL DE EDUCADORAS SOCIAIS E OS CUIDADOS NÃO FORMAIS ÀS ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RUA OU ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL
Comunicação Oral Curta
1 UFRJ
2 UERJ
3 UNIRIO
Apresentação/Introdução
Este trabalho é um recorte da pesquisa de doutorado em enfermagem que teve por objeto “a percepção de educadoras sociais sobre saúde sexual e suas interfaces com os cuidados não formais desenvolvidos junto as adolescentes em acolhimento institucional”
Objetivos
Nesse recorte focamos o objetivo: discutir a interface das percepções das educadoras sociais que atuam em instituições de acolhimento de adolescentes e ou em situação de rua sobre saúde sexual e os cuidados não formais desenvolvidos junto aos adolescentes.
Metodologia
Pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória. Realizada com educadoras sociais em três unidades de acolhimento da rede pública municipal do Rio de Janeiro (SMASDH/RJ). Pesquisa realizada nos anos de 2022-2023. Utilizou-se Análise de Conteúdo e a Teoria dos Roteiros Sexuais (Scripts Sexuais), de Gagnon e Simon. Pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa sob o nº CAAE: 53731621.4.0000.5282.
Resultados e Discussão
As educadoras sociais estão na faixa etária entre 25 e 64 anos; ensino médio e/ou superior completo; a maioria se autodeclarara casada; cristã; preta e parda; possuem entre 12 e 72 meses de tempo experiência de trabalho em unidades de acolhimento; capacitadas em diversos temas, exceto sobre a saúde sexual; média de um salário-mínimo e meio percebidos. As educadoras sociais afirmam que possuem informações sobre saúde sexual, sendo meios de acesso as informações: internet, mídias sociais, escolas, faculdades e igreja; as enfermeiras são profissionais que mais assistem e orientam sobre saúde sexual. A saúde sexual para elas tem relação com a percepção de si mesmas, empoderamento, a ideia do amor romântico e parceiro único nas relações afetivas. Destaca-se relações estáveis e de parceiros únicos como fatores de proteção das IST. O cuidado da sua saúde sexual se dá a partir da consulta ginecológica, mamografia, ultrassonografia de mamas, coleta de preventivo, periodicidade, sendo assistidas e orientadas por enfermeiras na atenção básica de saúde. As participantes percebem os comportamentos imprudentes e intempestivos das adolescentes, alertam sobre os riscos para gestação não planejada e IST. O tema sexo é sempre constante no diálogo entre as adolescentes. As educadoras sociais constroem e desenvolvem os cuidados não formais estabelecendo diálogos e considerando sua própria experiência de vida. As educadoras cuidam de sua saúde sexual considerando as informações adquiridas nas experiências de vida. Não possuem capacitação na temática da saúde sexual, o que se destaca, considerando o cuidado às adolescentes em situação de acolhimento. A construção e o desenvolvimento dos cuidados não formais se dão através das estratégias que as educadoras sociais usam no manejo diário com as adolescentes acolhidas. As educadoras sociais se utilizam das suas experiências de vida para cuidar de maneira informal, devido à ausência de capacitação. É possível pensar que ela possa transferir o cuidado materno desenvolvido no âmbito familiar, como um cuidado profissional nas unidades de acolhimento institucional. O diálogo ocorre de maneira sistemática, a fim de que as adolescentes compartilhem as dúvidas que surgem diariamente. A escuta ativa tem sido uma das ferramentas utilizadas a todo momento e sinalizam a valorização de escutar atentamente a adolescente, bem como trabalhar sempre com a verdade. Reiteram que trabalhar com a verdade junto às adolescentes pode promover o senso de responsabilidade e os limites que fazem parte da construção de civilidade.
Conclusões/Considerações Finais
Diante das histórias de vida de cada adolescente, a educadora social percebe as fragilidades emocionais, a agressividade como mecanismo de defesa, o comprometimento da autoimagem e de se verem como um sujeito de possibilidades e de direitos. As educadoras utilizam da valorização e sensibilização das adolescentes no dia a dia, aproveitando as oportunidades para trabalharem as questões que o grupo apresenta uma maior carência, como, por exemplo, o desconhecimento do seu corpo, a valorização de si mesma, a importância de valorizar as oportunidades de estar na escola, bem como as atividades extramuro escolares. O manejo a partir da história de vida de cada adolescente, geralmente, ultrapassa a esfera do mecânico, requer da educadora social um toque de resiliência, para auxiliá-las no fortalecimento da autoestima e na construção da identidade. É necessário refletir acerca da educação permanente, auxiliando no cuidado de si e no manejo junto às adolescentes acolhidas no cuidado da saúde sexual
IMPLEMENTAÇÃO PILOTO DA OFERTA DE PREP POR EDUCADORES PARES EM CONTEXTOS DE RUA E LAZER: UMA ABORDAGEM DE REDUÇÃO DE DANOS COM JOVENS LGBTQIA+
Comunicação Oral Curta
1 Marcia Coutto
Apresentação/Introdução
O acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) no Brasil permanece atravessado por barreiras estruturais que afetam especialmente jovens LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade, incluindo pessoas em situação de rua e frequentadoras de territórios de sociabilidade noturna. Tais barreiras envolvem estigma, violência institucional e distanciamento dos serviços formais de saúde. Nesse cenário, a redução de danos se apresenta como uma ética do cuidado que valoriza a autonomia, os saberes territoriais e a construção de vínculos. A partir de uma perspectiva interseccional, compreende-se que marcadores como raça, gênero, classe e trajetória com a política de drogas produzem desigualdades sobrepostas que impactam diretamente o acesso à saúde. Em diálogo com perspectivas críticas da psicologia, como proposto em Psicologia Suja, entende-se que o cuidado não pode ser dissociado das condições materiais e afetivas produzidas por violências estruturais.
Objetivos
Analisar a viabilidade e as potencialidades da implementação de estratégias de ampliação do acesso à PrEP por meio da prescrição da profilaxia por educadores pares em territórios de vulnerabilidade social, considerando uma abordagem interseccional no cuidado e na organização do trabalho.
Metodologia
Pesquisa participativa
Resultados e Discussão
Os achados indicam que os territórios de sociabilidade e circulação da juventude LGBTQIA+ configuram-se como espaços estratégicos para a produção direta do cuidado no território, nos quais a presença de educadores pares pode favorecer o estabelecimento de vínculos, a circulação de informações e a ampliação do interesse pela saúde sexual, em particular a PrEP, pelos resultados que tivemos encontros, os jovens buscam por espaços de afeto, afirmação e vínculo fora de casa, por isso a socialização na rua para muitos se faz necessária. Observou-se também desconfiança em relação aos serviços institucionais de saúde, bem como barreiras relacionadas à burocracia, ao preconceito e à inadequação dos horários e formatos de atendimento em rodas participativas. A incorporação de uma perspectiva interseccional evidenciou que tais barreiras são intensificadas por marcadores sociais como raça, gênero e condição de moradia. Além disso, a escuta em campo revelou que afetos como medo, desconfiança e experiências prévias de violência institucional atravessam as decisões sobre o cuidado, indicando a necessidade de estratégias que considerem dimensões subjetivas e políticas na produção do acesso à saúde.
Conclusões/Considerações Finais
O plano piloto evidencia a potência da redução de danos como ética orientadora de práticas que tensionam os modelos biomédicos tradicionais de prescrição, ao propor a descentralização do cuidado e a valorização de agentes comunitários não institucionalizados. A experiência também destaca a importância da interseccionalidade na organização das práticas, incluindo processos de formação, vinculação e contratação de educadores pares, reconhecendo-os como produtores de cuidado e conhecimento. Em diálogo com perspectivas críticas como a de Psicologia Suja, o trabalho aponta para a necessidade de reconhecer os afetos e as experiências situadas como dimensões centrais do cuidado, rompendo com modelos universalizantes e normativos. Ao mesmo tempo, revela desafios éticos, técnicos e políticos, especialmente no que se refere à regulamentação da prescrição por pessoas não profissionais da saúde e à necessidade de articulação com o SUS. A experiência aponta para a construção de modelos de cuidado que integrem redução de danos, justiça social e protagonismo das populações afetadas.
Realização: