Programa - Comunicação Oral - CO29.3 - Vidas em Travessia: Mulheres, Cuidado e Produção de Saúde nas Ruas
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
FACILIDADES E DIFICULDADES NO ACESSO AOS SERVIÇOS DE SAÚDE POR MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA: PERCEPÇÃO DE PROFISSIONAIS DE UM CONSULTÓRIO NA RUA
Comunicação Oral
1 Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Apresentação/Introdução
A saúde no Brasil é um direito garantido pela Constituição Federal, devendo assegurar acesso universal e igualitário aos serviços. Entretanto, persistem desafios, sobretudo para populações vulneráveis, como as mulheres em situação de rua. Essa população vivencia condições como pobreza extrema, fragilidade de vínculos familiares, violência e estigma social, que dificultam o acesso aos serviços de saúde. No caso das mulheres, somam-se vulnerabilidades específicas, como maior exposição à violência e barreiras relacionadas a gênero e raça. Embora dispositivos como Consultório na Rua (CnR) ampliem o acesso, ainda há limitações na oferta de cuidado integral.
Objetivos
Descrever as facilidades e dificuldades no acesso aos serviços de saúde por mulheres em situação de rua em um município do interior da Bahia na percepção de profissionais de um CnR.
Metodologia
Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, realizado no CnR em um município de grande porte do interior da Bahia. Participaram quatro profissionais da equipe, sendo escolhidos aqueles com formação técnica ou graduação e tempo mínimo de seis meses de atuação, sendo excluídos aqueles afastados por licença médica, maternidade ou férias no momento da coleta. O número de participantes foi definido pelo critério de saturação. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas, realizadas presencialmente, em local reservado, com duração média de 13 minutos. Os dados foram analisados por meio da Análise de Conteúdo Temática. Como este estudo foi realizado com seres humanos, foi submetido e aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), conforme parecer 8.006.600, de 27 de novembro de 2025 (CAAE 92130525.0.0000.0053).
Resultados e Discussão
Enquanto facilidades identificadas pelos profissionais do CnR foi citado o fato de as usuárias não necessitarem se deslocar para a realização do atendimento, uma vez que a equipe se dirige até o seu território. Além disso, foi descrita a articulação intersetorial com outros dispositivos da rede, como a Secretaria de Desenvolvimento Social, o programa Corra pro Abraço e o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), bem como os agendamentos e encaminhamentos realizados pela equipe do CnR, o que geralmente garante maior rapidez no atendimento. Os profissionais ainda citaram como facilidade que a equipe também se responsabiliza pela entrega da guia de marcação de exames e/ou consultas, bem como, sempre que possível, pela realização de lembretes às usuárias acerca dos atendimentos previamente agendados. Entre as dificuldades descritas, destacam-se a discriminação, a estigmatização, o preconceito e a invisibilidade das pessoas em situação de rua (PSR), bem como da equipe do CnR, por parte de alguns profissionais dos serviços que compõem a Rede de Atenção à Saúde (RAS). Ademais, identificou-se que o atendimento às usuárias é, por vezes, realizado quando estas se encontram sob efeito de substâncias psicoativas, o que pode comprometer a qualidade da assistência prestada. Outros desafios citados incluem o deslocamento para regiões sob influência de facções rivais, o desconhecimento, por parte de profissionais da RAS acerca das atribuições do CnR, bem como as dificuldades em localizar as usuárias para comunicação sobre agendamentos e garantir a compreensão destas quanto à importância do atendimento ou do serviço previamente agendado.
Conclusões/Considerações Finais
Embora o acesso aos serviços de saúde por mulheres em situação de rua seja permeado por facilidades que ampliam e fortalecem o cuidado às pessoas em situação de rua, persistem desafios que o impactam diretamente. Assim, torna-se fundamental o desenvolvimento de estratégias que promovam a qualificação dos profissionais da RAS, o fortalecimento da articulação intersetorial e a redução do estigma e da discriminação, de modo a garantir um cuidado mais humanizado, integral e equânime a essa população.
PELOS CAMINHOS DO CUIDADO: OS ITINERÁRIOS TERAPÊUTICOS DE MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA E EM USO DE DROGAS
Comunicação Oral
1 SMS Fortaleza / UECE
2 UNICHRISTUS/UECE
3 UECE /Ministério da Saúde
4 UECE
5 Ministério da Saúde
6 SEAS -CE
Apresentação/Introdução
A população em situação de rua caracteriza-se como um grupo heterogêneo, que tem em comum a vivência de pobreza extrema, vínculos familiares fragilizados ou rompidos, além de enfrentar processos intensos de exclusão social e preconceito, utilizando os logradouros públicos como espaço de moradia e sobrevivência.
De acordo com dados do Observatório do CadÚnico, o Brasil possui aproximadamente 377.356 pessoas em situação de rua, número que vem apresentando crescimento nos últimos anos. Ao se considerar o recorte de gênero, observa-se que, embora o número de mulheres seja inferior ao de homens, elas se encontram mais vulnerabilizadas, sobretudo em função das diversas formas de violência a que estão expostas.
Além disso, o cuidado em saúde dessas mulheres é atravessado por especificidades relacionadas às questões fisiológicas, como a menstruação e a gestação, bem como por determinantes sociais que intensificam sua condição de vulnerabilidade.
Nesse contexto, ser mulher em situação de rua e em uso de drogas implica na construção de itinerários terapêuticos singulares, frequentemente sustentados por redes de apoio informais estabelecidas nas ruas e por saberes populares.
Objetivos
Compreender os itinerários de cuidado das mulheres em situação de rua e em uso de drogas em capital nordestina.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, onde teve como coleta de dados a observação participante e entrevista semiestruturada, onde 14 mulheres em situação de rua e em uso de drogas foram interlocutoras do estudo, com idade entre 25 a 40 anos, o tempo em situação de rua de 3 meses a 21 anos e o uso de drogas vária de 3 anos a 36 anos. A análise das narrativas foi conduzida pela hermenêutica fenomenológica de Paul Ricoeur, permitindo interpretar as experiências e linguagens vivenciadas. A pesquisa ocorreu entre os anos de 2024 e 2025, na cidade de Fortaleza, capital do estado do Ceará. A pesquisa respeitou a as diretrizes da Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde e teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa.
Resultados e Discussão
Com base nas narrativas e nas observações, percebe-se que as mulheres em situação de rua sofrem constantes violências físicas, verbais, psicológicas e sexuais. A maioria relata que é melhor estar na rua com um companheiro; no entanto, muitas também referem sofrer violências por parte desses parceiros.
As interlocutoras ainda relatam o cuidado em pequenos gestos cotidianos, como um abraço, a escuta e o apoio entre si, bem como nas redes que se formam com outras pessoas em situação de rua, vendedores de bancas e membros da comunidade próxima, que criam vínculos e ajudam de alguma forma.
Algumas afirmam buscar cuidado na unidade básica de saúde, no Consultório na Rua, no Centro POP e em contêineres; outras, no entanto, desconhecem esses últimos equipamentos. Observa-se que, quanto mais distante do centro da cidade, menores são as ofertas de serviços que chegam até essas mulheres.
Em relação ao uso de drogas e às suas formas de cuidado, as interlocutoras narram que procuram usar com alguma pessoa de confiança ou em um local considerado seguro, buscando alternativas para não ficarem expostas durante o uso, devido às violências a que estão submetidas. Relatam, inclusive, já terem sofrido abusos ou tentativas de violência enquanto estavam sob efeito de substâncias. Outras afirmam não utilizar mais de uma droga simultaneamente e, quando fazem uso de crack, evitam a “bora”, pois “pega mais”.
Além disso, muitas mulheres utilizam doações para obter itens de higiene pessoal, tomam banho em equipamentos públicos, em ONGs ou na casa de pessoas próximas.
Dessa forma, os itinerários terapêuticos das interlocutoras apresentam articulações entre os subsistemas propostos por Kleinman popular, profissional e folk, embora este último apareça em menor proporção nas narrativas.
Conclusões/Considerações Finais
Com isso, foi possível compreender que o cuidado na rua é atravessado por diversas situações: trata-se, muitas vezes, de uma fuga da violência que, paradoxalmente, pode conduzir a novas situações de violência. Observa-se também a construção de caminhos de cuidado por meio das redes de apoio que se constituem nas ruas, bem como dos vínculos estabelecidos com outras pessoas em situação de rua, com o território e com ONG.
Além disso, o cuidado se expressa nas próprias estratégias desenvolvidas pelas mulheres, especialmente no âmbito da redução de danos e na articulação em busca dos cuidados profissionais.
PERCEPÇÕES DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE ACERCA DO ACESSO À SAÚDE DE GESTANTES E MÃES EM SITUAÇÃO DE RUA
Comunicação Oral
1 UEFS
Apresentação/Introdução
A legislação brasileira assegura o acesso universal e igualitário à saúde como direito de todos. No entanto, no contexto de pessoas em situação de rua, esse direito é atravessado por fatores como preconceito e exclusão social. No contexto de mulheres nessa condição, o desenvolvimento de um período gravídico-puerperal ocorre em um cenário de intensificação de vulnerabilidades sociais e biológicas, o que implica a necessidade de respostas assistenciais capazes de superar os fluxos tradicionais do cuidado.
Nesse contexto, destaca-se a atuação das equipes do Consultório na Rua (eCR) e do Programa Corra Pro Abraço, que atuam sob o princípio da Redução de Danos e do acolhimento, com vistas a promover o acesso a direitos e o acompanhamento integral destas gestantes e mães.
Objetivos
Este estudo objetivou compreender as percepções de profissionais do Consultório na Rua e do Programa Corra Pro Abraço acerca do acesso aos cuidados de saúde durante a gestação, o parto e o puerpério de mulheres em situação de rua.
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratório de abordagem qualitativa realizado em um município de grande porte do interior da Bahia.
Participaram do estudo seis profissionais das equipes do Consultório na Rua e do Programa Corra Pro Abraço. Foram incluídos profissionais da eCR com seis ou mais meses de atuação e experiência no cuidado de pelo menos uma mulher em situação de rua no período gravídico-puerperal, bem como profissionais do Programa Corra Pro Abraço com seis ou mais meses de atuação. Foram excluídos aqueles afastados por algum tipo de licença e/ou férias.
A coleta de dados ocorreu por entrevista semiestruturada e foi encerrada sob o critério de saturação dos dados. A análise foi realizada por meio da Análise de Conteúdo Temática, conforme Minayo, Deslandes e Gomes (2016). Para garantir o sigilo, os participantes foram identificados pela letra C seguida de um número.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana sob o parecer de n° 7.516.078.
Resultados e Discussão
Os resultados apontam que a garantia de acesso à saúde foi entendida pelos participantes como pilar essencial da vida humana e associada à garantia de dignidade e bem-estar. Entretanto, emergiu que, embora esse direito esteja assegurado por instrumentos legais, no contexto de gestantes e mães em situação de rua, a implementação prática é limitada, o que resulta em um acesso seletivo e excludente aos serviços de saúde. Portanto, o processo de exclusão em saúde de pessoas em vulnerabilidade concretiza-se diante desta realidade.
Somado a isso, foi apontado que as vulnerabilidades sociais da vida nas ruas são intensificadas pela condição de gênero, uma vez que a estrutura patriarcal contribui para relações desiguais e exposição destas mulheres a múltiplas formas de violência e subordinação.
Nesse sentido, esse duplo fator de vulnerabilidade pode comprometer o atendimento das suas necessidades singulares em saúde e aumentar o risco de complicações obstétricas e desfechos negativos. Então, compreende-se a potencialidade em que a questão de gênero pode interferir nas diversas formas de produção de vida no cotidiano.
Diante disso, percebeu-se que essas usuárias possuem demandas ampliadas em saúde, o que exige uma abordagem baseada na equidade, com acesso à saúde articulado a outras áreas requeridas, como assistência social, apoio jurídico e acompanhamento psicológico.
Nessa perspectiva, foi referido que há a oferta de cuidados essenciais do período gravídico-puerperal, como acompanhamento pré-natal, realização de exames, acesso a medicamentos e serviços da rede, com o destaque de que essa oferta deve estar pautada na sensibilidade e no reconhecimento das singularidades dessas mulheres, com respeito à autonomia e ao protagonismo delas na produção do cuidado.
Além disso, destacou-se o papel fundamental desses profissionais como mediadores entre essas gestantes/mães e o sistema de saúde, que contribui para a minimização das barreiras impostas pelos estigmas que impactam de forma negativa nas condições de vida destas mulheres.
Conclusões/Considerações Finais
Desse modo, a percepção dos profissionais indica que o direito de acesso à saúde para gestantes e/ou mães em situação de rua é assegurado por políticas públicas, porém, na prática, enfrenta obstáculos relacionados à violência de gênero e às particularidades de seus modos de vida. Destaca-se, assim, a importância da efetivação desse acesso como estratégia para reduzir vulnerabilidades e promover melhores condições de vida e saúde.
O estudo apresenta limitações quanto à delimitação a um único município, o que restringe a generalização dos resultados. Por outro lado, possibilitou reflexões sobre o acesso de gestantes/mães em situação de rua aos serviços de saúde, podendo, dessa forma, contribuir para a reformulação de políticas públicas em contextos semelhantes e para a superação de estigmas, preconceitos e limitações sobre esse grupo.
QUALIFICANDO A CONDUÇÃO DO PRÉ-NATAL DAS MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral
1 UFRJ
Apresentação/Introdução
A qualidade da assistência pré-natal é um fator determinante na prevenção da morbimortalidade materna, fetal e infantil. No entanto, as gestantes em situação de rua (PSR) enfrentam vulnerabilidades extremas e barreiras significativas no acesso aos serviços de saúde, que incluem desde dificuldades estruturais até o estigma por parte dos profissionais e a violência. A situação de rua é caracterizada pela pobreza extrema, vínculos familiares fragilizados e falta de moradia regular. Além disso, a interseccionalidade de marcadores sociais como raça, gênero e classe potencializa o racismo institucional e dificulta o acolhimento dessas mulheres na rede de saúde. Embora políticas como a Rede Alyne e Consultório na Rua (CnaR) prevejam o cuidado a esse grupo, observa-se uma escassez de materiais específicos que orientem as equipes da Atenção Primária à Saúde (APS) no manejo das complexidades e singularidades desse acompanhamento. Esta pesquisa apresenta reflexões iniciais de uma dissertação de mestrado profissional em atenção primaria a saúde em andamento que investiga manejo do pré-natal em gestantes em situação de rua, visando a partir revisão integrativa de literatura e revisão técnico normativa a construção de produto técnico tecnológico em formato de cartilha para nortear o processo de trabalho dos profissionais da APS em especial os que não possuem equipe de consultório na rua em seu território de atuação.
Objetivos
O objetivo geral deste estudo é desenvolver um material educativo para apoiar o manejo do pré-natal de gestantes em situação de rua no contexto da APS. Os objetivos específicos incluem: realizar uma revisão integrativa para analisar o estado do conhecimento sobre o tema,identificar os fatores facilitadores e dificultadores do manejo clínico, e validar o conteúdo do material com juízes especialistas.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa do tipo metodológico e descritivo. O estudo é conduzido em quatro etapas principais: 1.Revisão Integrativa: Busca em bases de dados (SciELO, PubMed, BVS, entre outras) utilizando a estratégia PICO para fundamentar o conteúdo científico. 2.Grupo Focal: Realizado com profissionais das equipes de Consultório na Rua do Município do Rio de Janeiro para captar insights sobre a prática assistencial cotidiana. 3.Elaboração da Cartilha: Construção do conteúdo educativo com base nos dados das etapas anteriores. 4.Validação por Juízes: Utilização da Técnica Delphi para garantir o rigor metodológico e o consenso entre especialistas sobre a adequação e clareza do material. O projeto atende às normas éticas de pesquisa com seres humanos, com previsão de submissão ao Comitê de Ética e Pesquisa (CEP).
Resultados e Discussão
Os resultados preliminares da revisão integrativa identificaram 413 registros iniciais, selecionando-se 14 artigos para análise final. A literatura aponta que a população feminina em situação de rua é majoritariamente negra e pobre, sofrendo os impactos do racismo estrutural no acesso à saúde. Estudos indicam que essas gestantes têm duas vezes mais chances de engravidar e apresentam maiores riscos de complicações obstétricas em comparação a mulheres com moradia. A discussão destaca que a falta de protocolos específicos na APS contribui para a negligência e a baixa adesão ao pré-natal. Observou-se que o acolhimento e o vínculo estabelecido pelas equipes de CnaR e da Estratégia de Saúde da Família (ESF) são primordiais para resultados positivos, porém os profissionais carecem de ferramentas que abordem a assistência de forma itinerante e interseccional.
Conclusões/Considerações Finais
A construção de um material educativo específico mostra-se essencial para conferir segurança técnica e sensibilidade ética aos profissionais de saúde. Por tratar-se de uma dissertação em desenvolvimento, apresentam-se neste trabalho os pressupostos teóricos, o delineamento metodológico e as primeiras reflexões decorrentes do processo investigativo. Espera-se que o produto final (PTT) contribua diretamente para a redução das iniquidades em saúde, fortalecendo a rede de cuidado e promovendo o acesso digno e humanizado a gestantes em alta vulnerabilidade social, além de contribuir para ampliar o debate no campo assistencial visando a qualificação e enfrentamento da mortalidade materna, em especial nas mulheres em situação de rua, bem como oferecer subsídios para reflexões.
A FUNÇÃO DO MÉDICO DO CONSULTÓRIO NA RUA NO CUIDADO INTEGRAL DE PESSOAS LGBTI+ EM SITUAÇÃO DE RUA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
Comunicação Oral
1 ENSP
2 SMS RJ
Apresentação/Introdução
Este estudo integra um projeto de doutorado em Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) e analisa a função do médico do Consultório na Rua (CnaR) no cuidado integral de pessoas LGBTI+ em situação de rua no Município do Rio de Janeiro (CAAE 90726725.8.3001.5279). A pesquisa parte da constatação de que a População em Situação de Rua (PSR) é historicamente marcada por processos de exclusão, racismo estrutural, LGBTfobia e aporofobia, que se expressam em barreiras de acesso ao SUS e às políticas sociais. No caso da PSR_LGBTI+, essas vulnerabilidades se sobrepõem, produzindo hiperexposição à violência, adoecimento e violações de direitos.
O CnaR, enquanto estratégia da Atenção Primária à Saúde (APS), ocupa posição singular na garantia do cuidado integral, articulando clínica ampliada, redução de danos, intersetorialidade e defesa de direitos. Entretanto, a prática médica nesse contexto permanece pouco estudada, especialmente diante das novas normativas municipais — o Caderno de Promoção da Saúde da População LGBTI+ (2023) e o Programa de Atenção Integral à Saúde de Transexuais e Travestis (PAI-TT) — que ampliam responsabilidades da APS no cuidado relacionado a gênero e sexualidade. Assim, compreender como médicos do CnaR operam essas diretrizes é fundamental para qualificar o cuidado e enfrentar desigualdades.
Objetivos
Objetivo Geral
Compreender como a prática médica das equipes de CnaR do Rio de Janeiro interfere no acesso e nas condições de cuidado da população LGBTI+ em situação de rua.
Objetivos Específicos
Identificar práticas e funções cotidianas dos médicos do CnaR relacionadas a gênero, sexualidade e saúde da PSR_LGBTI+.
Analisar como a prática médica contribui para a oferta de cuidado integral.
Identificar obstáculos à integralidade na perspectiva da clínica ampliada.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória, situada no campo da Saúde Coletiva e da pesquisa social em saúde. O estudo combina:
Pesquisa documental, incluindo legislações, portarias, manuais técnicos, normativas municipais e nacionais (PNAB, PN_LGBTT, PN_PN, PN_PSR, CPS_LGBTI+, PAI-TT).
Revisão bibliográfica (2011–2024) em bases como SciELO, LILACS e PubMed, com descritores relacionados a PSR, LGBTI+, integralidade e prática médica.
Pesquisa de campo, com entrevistas semiestruturadas com os 14 médicos das equipes de CnaR do município. As entrevistas abordarão práticas de cuidado, desafios, experiências com PSR_LGBTI+, intersetorialidade, processo transexualizador e percepções sobre racismo e LGBTfobia.
Análise temática (Flick, 2009), articulando categorias teóricas (integralidade, clínica ampliada, interseccionalidade, vulnerabilidade, decolonialidade) e categorias empíricas emergentes.
A pesquisa segue as Resoluções 466/12 e 510/2016, com aprovação do CEP/ENSP.
Resultados e Discussão
A análise documental e bibliográfica já realizada evidencia:
Crescimento expressivo da PSR no Rio de Janeiro, com forte concentração de pessoas negras, jovens e empobrecidas, e subnotificação histórica de dados sobre gênero e sexualidade.
Invisibilidade da PSR_LGBTI+ nas políticas públicas, apesar de avanços normativos recentes.
Persistência de barreiras de acesso ao SUS, incluindo discriminação institucional, burocracias, ausência de registro de identidade de gênero e orientação sexual nos sistemas de informação e fragilidades na rede de acolhimento.
Ampliação das responsabilidades da APS, especialmente com o CPS_LGBTI+ e o PAI-TT, que demandam dos médicos do CnaR novas competências relacionadas ao processo transexualizador, cuidado hormonal, saúde sexual e reprodutiva e enfrentamento da LGBTfobia.
Centralidade da clínica ampliada e da intersetorialidade como ferramentas para o cuidado integral, mas ainda tensionadas por práticas biomédicas hegemônicas e por disputas morais nos territórios.
Indícios de que a prática médica no CnaR ultrapassa o núcleo tradicional da medicina, incorporando funções sociais, psicossociais e de advocacy, especialmente na defesa de direitos da PSR_LGBTI+.
As entrevistas evidenciam que, apesar do CnaR ser dispositivo e baixa exigência, de cuidado em liberdade e escuta livre de preconceitos, ainda há um desconhecimento sobre as políticas de cuidado LGBTI+ na prática diária.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados preliminares apontam que o cuidado integral à PSR_LGBTI+ exige do médico do CnaR uma atuação que articula clínica, direitos humanos e enfrentamento das desigualdades estruturais. A prática médica se revela atravessada por racismo, LGBTfobia e colonialidade, demandando posturas éticas e políticas que ultrapassam o modelo biomédico tradicional.
A pesquisa em andamento busca aprofundar como esses profissionais constroem estratégias de cuidado em meio às vulnerabilidades e às disputas institucionais, contribuindo para o fortalecimento da APS como espaço de equidade, acolhimento e promoção de cidadania. Espera-se que os achados subsidiem a qualificação das políticas públicas e das práticas profissionais voltadas à PSR_LGBTI+ no SUS.
CORPOS EM RESISTÊNCIA: GÊNERO, TERRITÓRIO E PRODUÇÃO DO CUIDADO NA RUA
Comunicação Oral
1 UFJF
2 EEUSP
Contextualização
Os corpos em situação de rua se constituem como corpos em resistência, produzindo modos próprios de existir, cuidar e sobreviver em contextos marcados por profundas iniquidades em saúde. Essas iniquidades são produzidas no entrelaçamento entre desigualdades estruturais, violências institucionais e precarização das condições de vida, evidenciando a centralidade dos determinantes sociais da saúde e tensionando a efetivação dos princípios de equidade e integralidade no Sistema Único de Saúde.
Essas experiências não se distribuem de forma homogênea, sendo atravessadas por marcadores sociais como gênero, raça e sexualidade, que operam de maneira interseccional na produção de vulnerabilidades. Mulheres e pessoas LGBTQIA+ em situação de rua vivenciam formas específicas de violência: física, sexual, simbólica e institucional e têm suas demandas em saúde sexual e reprodutiva frequentemente invisibilizadas ou reduzidas a abordagens fragmentadas.
Nesse contexto, o Consultório na Rua se configura como estratégia que tensiona modelos tradicionais de atenção, ao deslocar o cuidado para o território e reconhecer a rua como espaço legítimo de produção de vida e cuidado.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência, de natureza qualitativa, construído a partir da atuação como enfermeira no Consultório na Rua em um município de médio porte de Minas Gerais. O trabalho articula prática profissional e reflexão crítica no campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, mobilizando aportes como vulnerabilidade, interseccionalidade e cuidado em liberdade.
A produção dos dados ocorreu a partir da experiência no cotidiano do trabalho em saúde, com registro em diário de campo e observações participantes nas ações do Consultório na Rua, incluindo atendimentos, abordagens territoriais e articulações com a rede de serviços.
O território caracteriza-se como urbano, com concentração de pessoas em situação de rua na região central, marcada por intenso fluxo populacional e presença de pontos de uso de substâncias psicoativas. As ações se desenvolvem de forma itinerante em praças, vias públicas e equipamentos da rede socioassistencial.
O cuidado se configura como prática relacional e situada, produzido no encontro com sujeitos cujas trajetórias são marcadas por múltiplas exclusões. As ações frequentemente se iniciam fora dos espaços institucionais, a partir de demandas como dor e sofrimento psíquico. O vínculo se apresenta como tecnologia central, embora persistam desafios como fragmentação da rede e dificuldades de acesso a direitos básicos.
Período de Realização
Janeiro de 2024 a julho de 2025.
Objetivo
Analisar criticamente as práticas de cuidado em saúde desenvolvidas no âmbito do Consultório na Rua, com ênfase na saúde sexual e reprodutiva de mulheres e pessoas LGBTQIA+ em situação de rua.
Resultados
O perfil das pessoas atendidas é predominantemente masculino. No entanto, evidenciam-se casos complexos envolvendo mulheres, nos quais as questões de gênero impactam diretamente a saúde, especialmente na saúde sexual e reprodutiva.
Entre as mulheres acompanhadas, destacam-se gestantes em alta vulnerabilidade que, em sua maioria, não conseguem manter o pré-natal mínimo, não realizam exames e apresentam dificuldades de vínculo com serviços de referência. Durante o período analisado, todas eram usuárias de substâncias psicoativas, com dificuldades de adesão, uso de medicações e continuidade do cuidado.
Soma-se a esse contexto a vivência recorrente de violências de gênero, além da realização de trocas sexuais como estratégia de sobrevivência.
Evidenciam-se barreiras no acesso aos serviços de saúde, especialmente na saúde sexual e reprodutiva, relacionadas à fragmentação da rede e à inadequação das ofertas às dinâmicas da vida na rua.
Embora haja oferta de insumos e testagens, tais ações se mostram insuficientes quando dissociadas do vínculo e das condições de vida. A baixa adesão, sobretudo entre gestantes de alto risco, indica a necessidade de reconfiguração das práticas.
O território emerge como dimensão constitutiva do cuidado, onde se produzem vínculos e possibilidades de acesso. O Consultório na Rua atua como mediador entre usuários e serviços.
Aprendizado e Análise Crítica
O cuidado em saúde na rua se configura como prática ética, política e territorial, que exige o reconhecimento das singularidades dos sujeitos e a problematização das normas institucionais.
A escuta qualificada, a redução de danos e a continuidade do cuidado no território são estratégias centrais em contextos de alta vulnerabilidade.
O Consultório na Rua opera como dispositivo contra-hegemônico no SUS, ao afirmar equidade e integralidade como práticas concretas. Os corpos em situação de rua se configuram como corpos em resistência.
Reafirma-se a necessidade de fortalecimento de políticas públicas intersetoriais, com atenção às dimensões de gênero e sexualidade.
Realização: