Programa - Comunicação Oral - CO5.1 - Branquitude nas práticas e na formação em Saúde
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
BRANQUITUDE E NÃO-ASSISTÊNCIA NA PANDEMIA DE COVID-19: ANÁLISE DO RACISMO INSTITUCIONAL “EM NEGATIVO” NA FAVELA DA PEDREIRA, BELO HORIZONTE, SOB A VIVÊNCIA DE UMA ACS
Comunicação Oral
1 UFMG
Apresentação/Introdução
Este relato integra o projeto nacional “PÓS-COVID-19 e as favelas brasileiras”, que investiga os impactos da pandemia sob as lentes da Determinação Social da Saúde e da interseccionalidade. O núcleo da UFMG tem como território a Pedreira Prado Lopes (PPL), favela mais antiga da capital mineira. Originada no século XX, abrigou os trabalhadores pobres e negros que construíram a cidade, mas acabaram segregados para fora das infraestruturas da Avenida do Contorno. A partir desse panorama, a investigação volta-se à experiência de uma mulher negra, moradora da PPL e ACS, cujo relato é o fio condutor da análise. Compreendida a partir de uma perspectiva emic, sua narrativa biográfica não é tratada como mera ilustração, mas como lugar de produção de conhecimento sobre como o racismo institucional estruturou o cuidado no SUS na crise sanitária, revelando processos sociais que a atravessam e a excedem.
Objetivos
O estudo analisa a entrevista de Lorena (nome fictício), realizada no componente qualitativo do núcleo UFMG, a partir dos estudos sobre branquitude e racismo institucional, buscando identificar como a violência racial se manifestou na PPL durante a pandemia, rastreando lastros de omissão estatal, respostas comunitárias à margem das políticas oficiais e iniquidades que, produzidas naquele contexto, continuam a reverberar no pós-pandemia.
Metodologia
A pesquisa ancora-se em entrevista biográfica semiestruturada, tomando como fio condutor a narrativa de Lorena, cuja dupla posição, moradora da favela e ACS, configura um lugar de enunciação privilegiado. A análise é conduzida por Análise Temática Reflexiva, orientada pelos estudos das relações raciais na Saúde Coletiva e reconhecendo a posicionalidade da pesquisadora. Mobiliza-se o “Pacto da Branquitude”, de Cida Bento, que evidencia a proteção institucional garantindo vantagens ao grupo racial branco; e as “Políticas do Negativo”, de Mônica Mendes Gonçalves, embasando que a discriminação no SUS opera majoritariamente de forma velada, materializando-se pela omissão, burocratização e não-assistência direcionadas aos corpos negros.
Resultados e Discussão
A análise das narrativas evidencia que a pandemia não criou ruptura, mas aprofundou e tornou legível uma gramática de abandono estruturante da relação entre Estado e favela: a atuação em negativo como modalidade ordinária de governo dos corpos negros. Na favela, historicamente forjada como zona de não-cuidado, o aparato de saúde não esteve ausente, mas operou ativamente pela não-assistência, em um contexto em que o governo federal obstruía protocolos de cuidado, negava a gravidade da crise e desmontava as condições institucionais de resposta, o 'deixar morrer' deixou de ser efeito colateral para se tornar política de Estado. Isso se reflete na divisão racial do trabalho, que estruturou o cuidado na Atenção Primária nesse período: Lorena aponta a rotatividade médica em contraste à sua fixação:
“[...] porque aqui troca demais de médico, de enfermeiros, porque eles, toda hora eles ficam esgotados, e a gente que lida com a mazela da comunidade [...] Parece que a gente tem uma resistência muito grande, né? E isso vem, eu acho que lá da nossa raízes, né? Da… do povo escravo.”
A fala desvela um mecanismo preciso das Políticas do Negativo: a branquitude profissional detém o privilégio da mobilidade e do recuo, enquanto o ônus da continuidade do cuidado recai sobre a mulher negra periférica, cuja "resistência", ela mesma nomeia, não é virtude, mas herança da escravidão. Essa engrenagem é mantida pelo pacto da branquitude:
“O preconceito, hoje, ele é mais velado. Porque é feio ter preconceito de pobre, de preto... Ninguém acha bonito isso. E, quem acha, fica num grupinho ali de elite e fala entre as quatro paredes.”
A imagem das "quatro paredes" é analiticamente densa: nomeia a arquitetura do pacto, sua invisibilidade pública e operação nos bastidores. O racismo descrito não opera pela declaração, mas pela cumplicidade silenciosa que organiza quem cuida, quem recua, quem decide e quem é deixado para morrer. O racismo na saúde atua também pela economia da omissão calculada: as falhas, a burocracia e a inoperância não são acidentes do sistema, mas sua forma de funcionamento dirigida aos corpos negros — o que Gonçalves nomeia como a positividade destrutiva do negativo. É no silêncio dessa engrenagem que a política do "deixar morrer" se viabiliza, não apenas normalizando, mas produzindo o abandono dos corpos negros na favela como condição estrutural e não como exceção.
Conclusões/Considerações Finais
Com o avançar da pesquisa multicêntrica, espera-se compreender melhor como a branquitude operou na pandemia e como o racismo, constituinte da máquina pública, exacerbou desigualdades e propagou o vírus, retroalimentando mortes de pessoas negras nas favelas. Sob essa ótica, a entrevista de Lorena não é apenas um relato sobre a Covid-19, mas atua como um avaliação empírica de como a branquitude institucional tomou decisões - ou deixou de tomar, pelo negativo - que impactaram os corpos negros durante a pandemia.
O PAPEL DA BRANQUITUDE NA ESTRUTURAÇÃO DO CUIDADO EM SAÚDE MENTAL EM UMA COMUNIDADE QUILOMBOLA
Comunicação Oral
1 UFBA
2 Warwick
Apresentação/Introdução
A saúde mental no campo da Saúde Coletiva, vem sendo compreendida através de uma perspectiva ampliada, que abrange os determinantes sociais em saúde e refletem as interconexões entre os fatores sociais, biológicos e psicológicos, como forma de configurar as condições de vida e cuidado das pessoas (Rocha et al., 2023). Tal perspectiva revela-se especialmente pertinente ao analisar o contexto de comunidades quilombolas, as quais vivenciam frequentemente experiências em saúde mental atravessadas por sentimentos negativos, estereotipização de seus corpos, além da negação de direitos (Silva; Ribeiro, 2023). Tais experiências se dão no âmbito de uma sociedade fortemente marcada pelas desigualdades raciais e na qual a branquitude representa uma posição social e estrutural responsável pela manutenção dos privilégios e reprodução das desigualdades, consequentemente, repercutindo na saúde mental de comunidades quilombolas.
Objetivos
Analisar o processo do cuidado em saúde mental de uma comunidade quilombola e observar como a branquitude incide sobre as relações e práticas de cuidado neste contexto.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo que integra uma pesquisa mais ampla (ORI) de base participativa que aborda as intersecções entre racismo, iniquidades sociais e saúde mental no Brasil. que buscou compreender como a branquitude contribui para a estruturação do cuidado em saúde mental, pelo viés de pessoas quilombolas. O estudo foi realizado em uma comunidade quilombola localizada na região metropolitana de Salvador-BA, por um período de doze meses. A produção de dados foi orientada pelas memórias e registros das observações em campo das dinâmicas territoriais e pelas interações com os membros da comunidade e suas lideranças, bem como, por meio de ações desenvolvidas no território, que possibilitou uma percepção situada dos processos analisados. A análise foi orientada pela concepção de branquitude proposta por Bento (2022).
Resultados e Discussão
Os achados evidenciaram que o cuidado em saúde mental da comunidade quilombola é atravessado por desigualdades e iniquidades raciais. Se expressando através de relatos, observou-se as barreiras de acesso aos serviços de saúde e a qualidade do cuidado recebido como experiências marcadas pela desumanização, por uma possível desqualificação profissional e de gestão que invalida saberes locais, e consequentemente, gera experiências de racismo na saúde. Vale notar que trata-se de um quadro de profissionais (seja da assistência ou da gestão) construído majoritariamente por pessoas brancas.
Dessa forma, é possível perceber que a branquitude, por se apresentar como um dos elementos estruturantes da sociedade, logo, também é responsável por estruturar a saúde mental. Isso ocorre devido a supremacia branca e da relação de poder imposta estruturalmente no cotidiano, como um movimento coletivo, que assegura privilégios para pessoas brancas, enquanto relega péssimas condições para pessoas negras (Bento, 2022).
Por outro lado, foi percebido movimentos de luta, resistência e produção de saberes dentro da comunidade quilombola, que contribuem para tensionar os modelos hegemônicos que são baseados no eurocentrismo, e favorecem a produção do cuidado e concepção em saúde mental, ancorados em suas experiências coletivas. Conforme Bento (2022), a branquitude reproduz a convicção do etnocentrismo, ou seja, considera seus saberes como centro de tudo e o modelo a ser seguido. E no combate a essa ideia, a comunidade questiona e resiste ao modelo imposto, pautando lutas coletivas, que irão representar estratégias fundamentais para o enfrentamento dessas desigualdades raciais.
Os saberes produzidos no território quilombola tensionam a hegemonia e superioridade branca, evidenciando a necessidade de reconhecer e incorporar diversas formas de produzir cuidado em saúde mental, que leve em consideração os saberes e práticas ancestrais.
Conclusões/Considerações Finais
Nesse ínterim, o estudo evidenciou que a branquitude é um dos mecanismos que atravessa a estrutura do cuidado em saúde mental dessa comunidade, contribuindo para a reprodução de desigualdades e iniquidades raciais, que acabam por impactar nas problemáticas que envolvem também outros tipos de cuidado. Em vista disso, torna-se relevante a reflexão acerca dos efeitos da branquitude e do racismo na saúde mental de comunidades quilombolas. Além disso, urge a adoção de práticas de cuidado baseado na equidade e no cuidado com valorização dos saberes ancestrais, a fim de que seja proporcionado um cuidado com qualidade e humanização para as comunidades quilombolas.
QUANDO O CORPO É TERRITÓRIO DE RESISTÊNCIA: ATRAVESSAMENTOS ÉTNICO-RACIAIS NA FORMAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral
1 INSTITUTO AGGEU MAGALHÃES (IAM) FIOCRUZ PERNAMBUCO
Contextualização
A saúde coletiva, enquanto campo interdisciplinar comprometido com a compreensão ampliada dos processos de saúde, adoecimento e cuidado, tem afirmado, em seu horizonte normativo, princípios como equidade, integralidade e justiça social. Contudo, no plano concreto da formação, persistem matrizes teóricas e pedagógicas marcadas pela centralidade de referenciais eurocentrados, que invisibilizam intelectuais negros e negras, fragilizam a abordagem das relações raciais e secundarizam o racismo como elemento estruturante da determinação social da saúde. Nesse cenário, discutir os atravessamentos étnico-raciais na formação em saúde coletiva torna-se fundamental para compreender como desigualdades históricas são reproduzidas nos currículos, nas práticas institucionais e nos modos de legitimação do conhecimento científico.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência elaborado a partir da trajetória de uma pesquisadora negra no âmbito da Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva e, posteriormente, do Mestrado em Saúde Pública. Ao longo desse percurso, a inserção em espaços formativos e institucionais revelou tensões importantes entre o discurso da equidade e a efetiva incorporação da questão racial como eixo estruturante da formação. Foram observadas a escassez de bibliografia antirracista, a baixa presença de intelectuais negros e negras nos referenciais adotados, o desconhecimento de parte do corpo docente acerca do racismo como determinação social da saúde e a dificuldade de reconhecimento da legitimidade de pesquisas comprometidas com a justiça racial. Diante disso, a experiência vivida deixou de ser apenas vivência individual e passou a ser reelaborada como categoria analítica e política, mobilizando a escrevivência como possibilidade metodológica de inscrever a experiência negra no campo científico, transformando presença, memória, território e denúncia em produção de conhecimento.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida entre os anos de 2022 e 2026, no contexto da Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva e do Mestrado em Saúde Pública da Fiocruz Pernambuco, articulando vivências acadêmicas, institucionais e territoriais ao longo desse itinerário formativo.
Objetivo
Analisar os atravessamentos étnico-raciais na formação em saúde coletiva, com ênfase no silenciamento epistêmico das produções negras, na fragilidade da incorporação do racismo como categoria central de análise e na necessidade de deslocamentos teóricos, metodológicos e políticos capazes de fortalecer uma formação crítica, antirracista e socialmente referenciada.
Resultados
A experiência revela que o racismo institucional também opera no interior da formação em saúde coletiva, seja pela marginalização de epistemologias negras, seja pela dificuldade de reconhecer o tema racial como constitutivo das iniquidades em saúde. Verificou-se a predominância de referenciais eurocentrados nos currículos, a abordagem ainda periférica do racismo nos componentes formativos e a limitada abertura institucional para acolher, validar e incentivar pesquisas com enfoque étnico-racial. Além disso, observou-se que a baixa familiaridade de parte do corpo docente com autores e autoras negras repercute diretamente na formação discente, comprometendo a construção de análises mais críticas sobre território, vulnerabilização, cuidado e produção de vida. Em contrapartida, a aproximação com intelectuais como Jurema Werneck, Fanon, Patricia Hill Collins e Conceição Evaristo fortaleceu o percurso formativo, oferecendo densidade analítica, sustentação ético-política e novos marcos interpretativos para compreender o racismo como estrutura produtora de desigualdade, sofrimento e exclusão, mas também para afirmar resistência, memória e produção de saber. Também se evidenciou que a disputa por legitimidade acadêmica permanece atravessada por barreiras institucionais que dificultam o reconhecimento de perspectivas antirracistas como centrais à formação crítica em saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência permitiu compreender que a ausência de epistemologias negras na formação em saúde coletiva não constitui simples lacuna bibliográfica, mas expressão de uma lógica histórica de hierarquização dos saberes, que define quais sujeitos podem falar, quais experiências podem ser convertidas em teoria e quais agendas são reconhecidas como legítimas no campo científico. Nesse sentido, enfrentar o racismo na formação em saúde demanda mais do que a inclusão pontual do tema em disciplinas ou eventos: exige revisão curricular, deslocamento de cânones, ampliação das referências teóricas e reconhecimento da experiência negra como fundamento legítimo de interpretação da realidade. Como aprendizado central, destaca-se que produzir conhecimento comprometido com a justiça racial implica assumir a escrita como ato político, elaborar criticamente a própria trajetória e disputar os sentidos da formação em saúde coletiva. Assim, a escrevivência mostrou-se como estratégia epistemológica de denúncia e resistência frente aos silenciamentos institucionais.
QUANTAS MAIS VÃO MORRER? O SILÊNCIO BRANCO DIANTE DOS ALTOS ÍNDICES DE MORTES MATERNAS NO BRASIL
Comunicação Oral
1 IFF/Fiocruz
Apresentação/Introdução
A mortalidade materna, em sua maioria evitável, permanece elevada no Brasil e atinge cotidianamente mulheres negras. Essas mortes, que não deveriam ocorrer, evidenciam a seletividade do cuidado e a persistência do racismo obstétrico.
Esse cenário histórico se relaciona à construção e à manutenção da branquitude enquanto sistema de privilégios forjado no período colonial e continuamente atualizado. Nesse contexto, o racismo estrutura desigualdades no acesso, na qualidade da atenção e nos desfechos em saúde, impactando de maneira profunda a experiência reprodutiva de mulheres negras.
Além disso, observa-se um silêncio diante desses óbitos. Esse silêncio é parte de um pacto de manutenção de privilégios brancos, isto é, da branquitude, sendo uma forma de não nomear, não confrontar e não interromper práticas racistas. Trata-se de um silêncio pactuado, que atua na tentativa de naturalização e de invisibilização de mortes evitáveis, deslocando-as para o campo da fatalidade e contribuindo para a reprodução das desigualdades raciais na saúde.
Objetivos
Problematizar, a partir de cenas do cotidiano relacionadas à mortalidade materna de mulheres negras no Brasil, a articulação entre a branquitude e o silêncio branco na produção, naturalização e perpetuação dessas mortes evitáveis.
Metodologia
Este estudo fundamenta-se no feminismo negro antirracista, em diálogo com autoras como Cida Bento, Lélia Gonzalez, Fátima Oliveira, bell hooks, entre outras intelectuais negras. Parte-se do reconhecimento dos saberes produzidos por essas autoras para problematizar a persistência do racismo nas instituições e nas relações sociais, especialmente no campo da saúde materna.
Esse debate parte da análise de diferentes cenas do cotidiano brasileiro relacionadas à mortalidade materna de mulheres negras. A partir da observação diária, do olhar atento às repercussões na mídia e de trocas cotidianas e com profissionais de saúde, busca-se compreender a relação da branquitude com essas mortes evitáveis, bem como romper com o silêncio que tenta naturalizá-las.
Resultados e Discussão
A cada cinco horas, em nosso país, uma mulher morre em virtude da gestação ou parto; a cada dez mortes maternas, nove são evitáveis; a cada dez mortes maternas, 6 a 7 são de mulheres negras.
Quando iniciamos a pesquisa, sabíamos que esse não seria um tema fácil — como evidenciar o pacto da branquitude e o silêncio branco no cotidiano dessas trajetórias?
As histórias, porém, surgiram em diferentes espaços: consultas, aulas, entrevistas, mídias e conversas cotidianas. Repetem-se — mudam apenas as personagens: Alyne, Queli, Raquel, Rafaela, Jenifer, Jaqueline, entre tantas outras. Mulheres que sangram sem atendimento, têm suas dores menosprezadas, são mandadas para casa ou desqualificadas. A morte materna atravessa o cotidiano e atinge de forma brutal famílias negras no Brasil.
Essas histórias compartilham a causa, a forma e a cor. A morte materna expressa como a desigualdade racial impacta diretamente a saúde, evidenciando o racismo estrutural nas instituições.
Não há humanização possível enquanto persistir a desumanização racial.
Em relato de uma profissional de saúde de uma maternidade pública do Rio de Janeiro, dois casos de mortes maternas evitáveis de mulheres negras evidenciam o problema: em um, complicações e hemorragia pós-parto sem cuidado adequado; em outro, uma gestante com comorbidades e sofrimento emocional sem assistência compatível. Em ambos, o descuido e o racismo no período gravídico-puerperal foi marcante.
Nesse contexto, o silêncio branco atua como mecanismo central, ao negar o racismo obstétrico e deslocar a responsabilidade para o acaso ou para as próprias mulheres, perpetuando práticas violentas. Trata-se de uma forma ativa de violência que sustenta o racismo no campo da saúde.
Apesar disso, mulheres negras constroem resistências e redes de cuidado, ainda que a branquitude como estrutura de poder siga limitando o acesso a uma assistência digna, equitativa e respeitosa.
Conclusões/Considerações Finais
A branquitude e o racismo impactam cotidianamente a saúde reprodutiva das mulheres negras, comprometendo o acesso e a garantia de seus direitos. Assim, a pergunta segue ecoando: quantas mais vão morrer?
A persistência da mortalidade materna entre mulheres negras, mesmo sendo evitável, demonstra a má qualidade da assistência, as barreiras de acesso aos serviços de saúde e as violências institucionais no ciclo gravídico-puerperal - expressões do racismo sustentado pela branquitude.
Superar esse cenário exige a efetivação da equidade em saúde e o enfrentamento direto do racismo e da branquitude. Assim, romper com o silêncio branco e promover a responsabilização ativa da sociedade são passos fundamentais para a transformação dessa realidade.
REVISÃO DE LITERATURA DA BRANQUITUDE COMO OBJETO DE PESQUISA NO CAMPO DA CIÊNCIAS DA SAÚDE
Comunicação Oral
1 Faculdade de Saúde Pública - USP
Apresentação/Introdução
Reconhecer as desigualdades raciais dissociadas da discriminação racial é um dos sinais da branquitude, no qual o sujeito branco vê a si mesmo como norma universal, em contraposição aos tidos como racializados, não brancos. E isso, entra em consonância com a lacuna na discussão da branquitude no cuidado em saúde de uma população majoriariamente negra.
Objetivos
Entender como a temática da branquitude é abordada no campo das ciências da saúde. Discutir a relevância de um Descritor em Ciências da Saúde que contemple a “branquitude/whiteness”.
Metodologia
Revisão da literatura nas bases de dados eletrônicos PubMed, Scielo, BVS, BDTD no período de janeiro a maio de 2025. A pesquisa nas bases de dados foi guiada pela combinação dos seguintes descritores, obtidos no Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “Racismo/Racism”, “Atenção Primária à Saúde/Primary Health Care”, “Saúde das Minorias/Minority Health”; e, “Branquitude/Whiteness”, apesar da inexistência de DeCs para o termo.
Critérios de inclusão: artigos que abordassem as pessoas brancas e/ou a branquitude como objeto de pesquisa nas relações raciais no campo da saúde; período de 2015 a 2025, português e inglês. Critérios de exclusão: não abordem relações raciais no campo da saúde.
Resultados e Discussão
Revisão da literatura nas bases de dados eletrônicos PubMed, Scielo, BVS, BDTD em maio de 2025, pela combinação Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e palavras-chave, pela inexistência de DeCs para branquitude. Incluídas publicações contendo as pessoas brancas e/ou a branquitude como objeto de pesquisa nas relações raciais no campo da saúde; de 2015 a 2025, português e inglês. Foram encontrados 4704 publicações pelo DeCs de “Racismo/Racism” e 61 pela palavra chave “Branquitude/Whiteness”. Destes, 9 foram selecionados para leitura integral. Os conteúdos partem de um aspecto de adensamento teórico e nomeação de situações e reflexões que envolvem a branquitude. O filtro dos últimos 10 anos, porém, ressaltamos a existência de discussões e publicações anteriores de grande relevância.
Conclusões/Considerações Finais
A lacuna existente da branquitude como eixo central de pesquisa nas relações raciais é evidenciada, fortemente relacionada aos aspectos constitucionais da branquitude, que assim opera na manutenção das estruturas de poder do sujeito branco. Nos debates sobre o modo como se explicam as desigualdades raciais o que se observa é o eixo em torno do “outro”, não branco, desviando do reconhecimento do papel do branco nas relações raciais no campo da ciências da saúde. A inexistência de um DeCs que contemple a branquitude pode ser um fator que contribui na invisibilização do termo na produção no campo.
SEU PROFESSOR É BRANCO? OS ENTRAVES PARA O ENEGRECIMENTO DOS QUADROS DOCENTES NOS CURSOS DE FISIOTERAPIA E SUAS IMPLICAÇÕES NA SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA
Comunicação Oral
1 UFPE
Apresentação/Introdução
As desigualdades étnico-raciais no Brasil estão historicamente ancoradas no racismo estrutural e institucional, atravessando o acesso à educação, aos espaços de poder e às práticas em saúde. No campo da Saúde Coletiva, tais desigualdades se expressam nos determinantes sociais da saúde, impactando de forma desproporcional a população negra e contribuindo para a produção de iniquidades no cuidado. Já no que se refere à formação nos cursos de saúde, a baixa representatividade negra na ocupação dos cargos de docência e de coordenação dos cursos, aliada à limitada inserção crítica da temática racial nos currículos, fortalece a perpetuação de estruturas excludentes que influenciam a construção do conhecimento para uma formação profissional antirracista e, consequentemente, a qualidade da assistência ofertada para pessoas negras e quilombolas.
Objetivos
Analisar as percepções de docentes sobre relações étnico-raciais na formação em Fisioterapia, problematizando como essas dinâmicas influenciam a ocupação de espaços de poder e seus desdobramentos na saúde da população negra.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/CCS/UFPE), sob parecer de número 7.772.365. A coleta de dados foi realizada entre junho de 2025 a março de 2026, por meio de entrevistas, pautadas em um questionário semiestruturado, de forma presencial e remota, através da plataforma Google Meet. As entrevistas foram gravadas e depois transcritas para análise. Foram incluídos no estudo coordenadores do curso de Fisioterapia de instituições de ensino superior públicas e privadas da região Nordeste do Brasil, de ambos os sexos. Foram excluídos do estudo, os docentes de licença ou afastados da função no momento da coleta dos dados.
Resultados e Discussão
No total, foram entrevistados 14 docentes, com idade média de aproximadamente 43 anos. Dentre estes, 9 se autodeclararam brancos e 5 pardos. As narrativas analisadas evidenciam a persistência de barreiras estruturais e simbólicas à inserção de pessoas negras em posições de destaque na academia, bem como a fragilidade de iniciativas institucionais voltadas à equidade racial. Uma das falas aponta que a ocupação desses espaços por pessoas negras, muitas vezes, ocorre de forma instrumentalizada, sem compromisso com mudanças estruturais:
“Eu vejo também que, quando acontece de uma pessoa preta/parda ocupar um cargo, muitas vezes é uma necessidade (da instituição) de se mostrar antirracista, mas na verdade não é uma atitude para pensar em mudanças de fato estruturais” (Docente 04, pardo).
Outra narrativa destaca a relação entre ausência de representatividade e limitação na tomada de decisões, evidenciando como a exclusão dos espaços de poder contribui para a manutenção das desigualdades:
“Quando você não está nesse espaço de poder, você também não decide. Então as mudanças, elas vão ser muito lentas, né? E a quem interessa [...] essa perpetuação dessas diferenças sociais” (Docente 11, branca).
Além disso, os demais relatos reforçam a percepção de que iniciativas institucionais voltadas à diversidade racial tendem a ocorrer de forma pontual e pouco efetiva, sem promover mudanças estruturais nas dinâmicas de poder, além de evidenciarem a influência da descontinuidade de políticas públicas na consolidação de ações voltadas à equidade racial.
Conclusões/Considerações Finais
A análise das narrativas evidencia que o racismo estrutural no ambiente acadêmico se expressa não apenas pela sub-representação de pessoas negras, mas também pela forma como a inserção nesses espaços ocorre, frequentemente dissociada de transformações efetivas nas relações de poder. A ocupação pontual de cargos por sujeitos negros, quando orientada por demandas institucionais de visibilidade, tende a operar como mecanismo simbólico, com baixo impacto na redistribuição de poder e na produção de mudanças estruturais.
Ademais, a exclusão histórica de pessoas negras dos espaços decisórios limita a incorporação de perspectivas diversas na construção de políticas e práticas acadêmicas, contribuindo para a manutenção de desigualdades. Soma-se a isso a fragilidade e descontinuidade das políticas públicas voltadas à equidade racial, que, ao dependerem de interesses de gestão, dificultam avanços consistentes nos campos da saúde e da educação.
Nesse contexto, a formação em Fisioterapia ainda carece da incorporação crítica das relações étnico-raciais em seus processos formativos e institucionais, o que repercute diretamente na produção do cuidado em saúde. A ausência de diversidade nos espaços de decisão e a limitada problematização dessas questões nos processos formativos restringem o desenvolvimento de práticas sensíveis às especificidades da população negra e aos determinantes sociais da saúde. Assim, torna-se fundamental avançar para além da representatividade formal, promovendo transformações estruturais que articulem formação crítica, diversidade nos espaços de poder e fortalecimento de políticas de Estado comprometidas com a equidade racial.
FORMAÇÃO DE PROFISSIONAIS DA SAÚDE EM PERSPECTIVA ANTIRRACISTA: ANÁLISE DE CURSOS DE GRADUAÇÃO DA UFRB.
Comunicação Oral
1 UFSCar
2 UFRB
Apresentação/Introdução
A pesquisa de pós-doutoramento investigou experiências docentes na abordagem de temas relacionados a educação das relações étnico-raciais (ERER), saúde da população negra, história e cultura afro-brasileira, em cursos de graduação em saúde e no curso de Pós-graduação em Saúde da População Negra e Indígena da Universidade do Recôncavo da Bahia (UFRB). O conjunto de normativas aprovadas desde 2003 no Brasil compõe políticas afirmativas no campo do currículo: Lei 10.639; Artigo 26 A e 79 B da LDB, Res. CNE 01/2004 e as Portarias CNS n. 992/2009 e 569/2017, dentre outras. Em uma sociedade racista como a brasileira, em que as relações raciais entre negros e brancos mantem desigualdades sociais, é preciso que os/as profissionais da saúde compreendem a relação entre raça/cor e determinações sociais de saúde (Monteiro, Silva, Araújo, 2021). E que o racismo afeta a saúde da população negra. Para Petronilha Silva (2007) a ERER é um processo de reeducar as relações entre pessoas de diferentes grupos étnico-raciais de forma a questionar e romper com hierarquizações baseadas na ideia de que uns são inferiores e outros superiores, em razão de sua raça. O currículo, território de disputas (Arroyo, 2011) é tencionado seja pelos sujeitos e atores sociais, neste caso, pelo movimento negro, que de diversas formas denuncia que o racismo afeta a sua saúde e que “morte tem cor” (Batista, Scuder, Pereira, 2004). Neste trabalho apresentamos a análise de cinco projetos pedagógicos de cursos (PPC) de graduação da área da saúde da UFRB.
Objetivos
O objetivo geral da pesquisa foi identificar e analisar experiências docentes na abordagem de temas de educação das relações étnico-raciais (ERER), saúde da população negra (SPN), antirracismo em cursos da saúde em uma universidade do nordeste, na graduação e pós-graduação. Neste trabalho objetivo é apresentar os dados coletados a partir da análise dos PPC de cursos da saúde da UFRB em relação a presença da abordagem de temas de ERER e SPN, bem como as referências teóricas e metodologias utilizadas.
Metodologia
A pesquisa qualitativa e interdisciplinar, articula educação e saúde, e se respalda em perspectiva antirracista (Dei, Johal, 2005). Os PPC foram identificados a partir de levantamentos na página da UFRB em 2025. Identificados os PPC fez-se a leitura flutuante e a aprofundada. Fez-se uso das categorias e instrumentos de coleta de dados da pesquisa A Educação das Relações Étnico-Raciais nos Cursos de Pedagogia do Brasil (CNPq 402937/2021-0) com inclusão de termos relativos à saúde da população negra e suas normativas. Para identificar a abordagem de temas relacionados a ERER e PNSIPN nos PPC utilizamos a ferramenta “localizar” do word seguido de preenchimento de googleforms com as informações obtidas e o Microsoft Copilot (assistente virtual de inteligência artificial generativa desenvolvido pela Microsoft). Para o Copilot, definimos um prompt de busca das categorias com solicitação de indicação do contexto (página e trecho do texto). Foram organizadas quadros com os resultados e gráficos de predominância de categorias localizadas. O projeto foi submetido ao CEP - CAAE: 90672825.2.0000.5504
Resultados e Discussão
Os dados demonstram que os PPC de modo geral contemplam ERER e SPN de forma transversal e/ou em componente curricular específico, obrigatório ou optativo sobre saúde da população negra ou tema afins. As categorias utilizadas aparecem de forma desigual nos cursos. Por exemplo, a presença dos termos Raça/racial/étnico-racial e racismo/discriminação, respectivamente, aparecem nos PPC: Enfermagem 6 e 8 vezes; Psicologia 5 e 3; Medicina aparece 7 e 1, Nutrição 14 e 4. O PPC de Nutrição traz o componente curricular “Saúde da População Negra” e é curso em que é mais expressiva a abordagem crítica sobre raça, equidade e saúde com referências à branquitude, negritude, população indígena, diversidade étnico-racial e discriminação racial. O PPC de Medicina possui um componente de “medicina tradicional africana” e o Bacharelado Interdisciplinar em Saúde (BIS) inclui “Diversidade, Cultura e Relações Étnico-Raciais” sendo este o principal eixo de abordagem direta dos temas relativos a RER e SPN. Os PPC sugerem alguma aproximação à abordagem antirracista ou afrocentrada.
Conclusões/Considerações Finais
A produção científica sobre formação em saúde e temas relacionadas a saúde da população negra ainda é escassa, heterogênea e dispersa mas demonstram que poucos são os cursos de graduação com implementação das normativas que constituem políticas curriculares de ação afirmativa. Os PPC da saúde analisados demonstram alguns avanços importantes na UFRB com a inclusão de temas da saúde da população negra, racismo e outros, podendo constituir-se como referência a outras instituições de ensino. Os PPC elaborados mais recentemente, como o de Nutrição, são os que mais apresentam a abordagem do tema investigado.
Realização: