Programa - Comunicação Oral - CO5.2 - Saúde da População Negra: políticas do negativo
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
DINÂMICAS INTERSECCIONAIS DE VULNERABILIZAÇÃO DE MULHERES NEGRAS - RESISTÊNCIAS E CUIDADO COLETIVO EM SAÚDE.
Comunicação Oral
1 ENSP/FIOCRUZ
2 IFRJ
3 Escola Politécnica Joaquim Venâncio/FIOCRUZ
4 CEDIPA/FIOCRUZ
5 INI/FIOCRUZ
6 Redes Maré
Apresentação/Introdução
Conduzido por uma equipe de pesquisadoras negras, desenvolvemos estudo não extrativista, compartilhado com movimentos sociais, sobre saúde de mulheres negras e processos de vulnerabilização em espaços e condições situadas como no cárcere, situação de rua e em violação de direitos em favela na cidade do Rio de Janeiro. Analisamos e denunciamos históricas, estruturais e cotidianas dinâmicas de vulnerabilização às quais mulheres negras são submetidas e suas más condições de saúde, a partir de epistemes contra-hegemônicas do feminismo negro decolonial latino-americano. Nossa aposta político-acadêmica é de contribuir para o fortalecimento de espaços e estratégias de resistência compartilhada, acolhimento terapêutico e qualificação/letramento racial dialógico, favorecendo maior visibilidade sobre racismo anti-negro genderizado junto às comunidades acadêmico-epistêmica, governamental e sociedade em geral.
Objetivos
Analisar o perfil sócio epidemiológico de mulheres negras vulnerabilizadas em: território de favela, situação de rua e privadas de liberdade, com destaque para mortalidade materna, violências de gênero e raça e doenças transmissíveis;
Conhecer e analisar histórias de vidas de mulheres negras enquanto dinâmicas de vulnerabilização, desvelando enredos e tramas racistas cotidianamente operadas;
Mapear e apoiar estratégias coletivas de apoio, sobrevivência e re-existência desenvolvidas por coletivas de mulheres negras como Mulheres em Ação no Alemão, Fonatrans e Elas em Cena da Redes Maré;
Analisar o lugar de mulheridades negras em programas e políticas públicas.
Metodologia
Estudo de métodos mistos, quali-quantitativo. A etapa quantitativa refere-se a dois estudos, o primeiro se refere a um estudo ecológico de séries temporais com base em dados secundários dos Sistemas de Informação em Saúde (SIS), com vistas a caracterização do perfil epidemiológico da saúde da mulher negra. O segundo trata-se de um inquérito, voltado para universo de mulheres atendidas pelas coletivas, configurando estudos de caso a partir de dados primários. A etapa qualitativa é composta por observação participante nos encontros das Coletivas de Mulheres, seguida de entrevistas semi-estruturadas de profundidade, com objetivo de analisar as dinâmicas e condições de vida, bem como as experiências de mulheres negras no cuidado à saúde. Outra estratégia metodológica é a análise documental de programas e políticas públicas.
Resultados e Discussão
Os espaços precarizados do território metropolitano é majoritariamente ocupado por pessoas negras, em cujo recorte racial, são a maioria em situação de rua, bem como com vivência de cárcere e efetivamente encarceradas. Do universo trabalhado, são majoritariamente vítimas de violências sexuais, doméstica e de Estado. O racismo obstétrico também está presente na história de vida da grande maioria das mulheres, assim como a insegurança alimentar e nutricional/fome, doenças próprias da determinação social tanto transmissíveis como não transmissíveis, como tuberculose, hipertensão e diabetes. As estratégias de sobrevivência e busca do bem viver são parte estratégica da agenda das coletivas de mulheres trabalhadas no estudo, que além de produzir espaços de diálogo, trocas, apoio e cuidado mútuo, também são mediadoras de acesso às políticas sociais, incluído as de saúde e assistência social.
Conclusões/Considerações Finais
Ainda que reconhecendo potentes esforços recentes, as políticas públicas carecem de ancoragens técnico-políticas e metodológicas, e ancoragem conceitual crítica que abarquem as diversas intersecções de vulnerabilização, como as de gênero, raça, classe, sexualidade, entre outras. A abordagem discursiva sobre equidade ainda padece de uma leitura universalizante das desigualdades, e assim lidando menos com a noção de corpo, vivência situada e condições histórico-material e ancestral de vida, em perspectiva interseccional.
A aposta no compartilhamento de saberes – em perspectiva emancipatória, contrária à matriz da colonialidade do poder, do saber e de gênero deve ser fruto de um pacto dinâmico, sistemático e cotidianamente estabelecido e re-estabelecido em diálogo com as coletivas de mulheres (Quijano, 2010; Lugones, 2014). É somente a partir de uma relação verdadeiramente dialógica, produtora de confluências de saberes, que se pode criar as possibilidades de produção de transformações, como nos ensina Nego Bispo, a partir da noçãode contra-colonialidade. Uma sociedade fundamentada na colonialidade, escravismo, cis-hétero-patriarcalismo produz lugares de mundo assimetrizados (Gonzalez, 1988), tendo nas condições de vida e saúde da mulher negra inegáveis exemplos desse perverso construto social. Assim, é urgente que a mulher negra ocupe lugar significativo na agenda de políticas sociais.
ESCURECER O CUIDADO: TECNOLOGIAS RELACIONAIS E AQUILOMBAMENTO NAS PRÁTICAS DE SAÚDE DE MULHERES NEGRAS NO SOL NASCENTE (DF)
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ/ BRASÌLIA
Apresentação/Introdução
A “planicidade” utópica que fundamenta o projeto urbanístico de Brasília, simbolizada pela leveza e mobilidade irrestrita de suas “Asas”, mascara as iniquidades estruturais nas margens periféricas. No território do Sol Nascente, habitado majoritariamente por mulheres negras (68,3%), o racismo territorial se evidencia na precariedade da infraestrutura e no apagamento epidemiológico institucional.
Historicamente atravessadas pelas violências articuladas de raça, classe e gênero que estruturam a colonialidade, essas mulheres enfrentam a negligência sistêmica da rede formal de Atenção Primária à Saúde. Ainda assim, produzem respostas ativas e situadas: nas encruzilhadas da periferia, constroem táticas insurgentes de resistência e sustentação da vida.
Diante das insuficiências do Estado na garantia de proteção, as redes comunitárias, como as cozinhas solidárias, emergem como tecnologias sociais potentes e espaços de aquilombamento, constituindo arranjos fundamentais de cuidado, proteção e continuidade da vida.
Objetivos
O objetivo geral é:
analisar, sob a lente teórico-metodológica da interseccionalidade, as práticas e os sentidos do cuidado em saúde produzidos por mulheres negras do Sol Nascente, mobilizados em tecnologias sociais comunitárias (cozinha solidária), tensionando sua relação com a APS
Para alcançar tal propósito, o estudo visa especificamente:
- descrever as experiências dessas mulheres no acesso à rede a partir dos atravessamentos estruturais de gênero, raça e classe;
-investigar as estratégias insurgentes de cuidado forjadas no território vivido;
- compreender como elas significam o cuidado institucional ofertado; e
sistematizar aprendizados e recomendações a partir de suas narrativas, de modo a subsidiar a descolonização e a qualificação da organização territorial do cuidado no Sistema Único de Saúde
Metodologia
Estudo qualitativo, exploratório e interpretativo. O campo empírico será constituído por espaços de organização coletiva e tecnologias sociais no Sol Nascente/DF, a exemplo de iniciativas como cozinhas solidárias. As participantes serão mulheres negras, maiores de 18 anos, inseridas na dinâmica do espaço. A coleta de dados ocorrerá via grupo focal e diário de campo. O corpus será submetido à Análise de Conteúdo Temática (Bardin), tendo a interseccionalidade (Collins e Bilge) como operador teórico para desvelar as articulações entre raça, gênero, classe e território na produção do cuidado.
Resultados e Discussão
O diagnóstico sociodemográfico evidencia as "encruzilhadas do cuidado": embora 94% das moradoras dependam exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), a insuficiência da rede local impõe uma peregrinação forçada, na qual 41,2% buscam assistência em outra região (Ceilândia). A pesquisa problematiza como o racismo institucional atua como tecnologia de desproteção na APS e demonstra como a cozinha solidária subverte essa negligência. Esses espaços acionam o "aquilombamento" e a amefricanidade como saberes ativos de manutenção da vida, operando como autênticas tecnologias relacionais antirracistas.
Conclusões/Considerações Finais
A universalidade normativa do SUS não assegura equidade substantiva às mulheres negras. Conclui-se que o reconhecimento do território e de seus arranjos comunitários como tecnologias válidas de cuidado é premissa para descolonizar a gestão em saúde. O estudo alerta para a urgência de transitar de um universalismo abstrato para um universalismo concreto, incorporando as lógicas de aquilombamento à formulação das políticas da APS.
INTERLOCUÇÕES EM CONVERSAÇÃO: CONSTRUÇÃO DE UMA PESQUISA QUE BUSCA A DESCOLONIZAÇÃO DO SUS
Comunicação Oral
1 Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT)
2 SMS Souza (PB)
3 Coletivo Ciganagens
4 UFG
5 LACES/FIOCRUZ/RJ
6 UEFS
7 LEER/USP
8 PPGICS/FIOCRUZ/RJ
9 UFBA e Coletivo Ciganagens
Apresentação/Introdução
Apresentamos resultados preliminares de uma pesquisa que se inscreve no movimento de descolonização do SUS, denominada “Interseccionalidades e (de)colonialidades na Política Nacional de Integração em Saúde dos Povos Ciganos: uma abordagem e um caminho para descolonizar o SUS”. A pesquisa está ancorada no Laboratório de Comunicação e Saúde (LACES) da Fundação Oswaldo Cruz/RJ, financiada pelo Programa de Políticas Públicas e Modelos de Atenção e Gestão à Saúde (PMA/Fiocruz/RJ).
Em 2018, o Ministério da Saúde publicou a Portaria 4348, instituindo a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Povo Cigano/Romani (PNAISPCR) no SUS, que prevê o combate ao racismo e a criação de comitês técnicos com representantes ciganos para fortalecer a participação social. Após quase 10 anos, pouco do previsto foi executado. Mesmo sob uma lógica decolonial e reparatória, a falta de investimentos, de atenção gestora e de apropriação da política por profissionais e por pessoas ciganas, evidenciam negligenciamento em suas condições de saúde. Práticas de racismo institucional persistem entre profissionais do SUS, que desconhecem especificidades culturais e de gênero desses povos, descumprindo o princípio da equidade.
Objetivos
Com o objetivo de compreender que dispositivos institucionais e comunicacionais do SUS operam na produção da colonialidade em relação à população cigana e como poderiam ser descolonizados, adotamos a perspectiva da produção compartilhada de conhecimento (“pesquisar com”), com a participação de pessoas ciganas em todos os níveis: coordenação geral, coordenação e execução da pesquisa de campo, consultores (interlocutores) e produção de materiais de divulgação.
A atuação ocorreu na preparação do projeto, desenvolvimento de campo, análises e resultados preliminares. Atualmente seguimos coletivamente no aprofundamento das análises, resultados e circulação. A investigação busca localizar a gênese do anticiganismo no SUS, caracterizar esse modo de pensar/agir e propor formas de decolonização e alternativas aos responsáveis pelas políticas, aos gestores do SUS e aos trabalhadores da saúde.
Metodologia
Trabalhamos com o método das Conversações (ARAUJO, s/d), que promove sucessivas aproximações ao tema, por diferentes formas de interlocução com as pessoas e grupos com interesses contemplados na pesquisa. De forma articulada, lançamos mão de metodologia fílmica, que por uma abordagem anticolonial, semiológica e intercultural (SILVA JÚNIOR, 2018) potencializa vozes ciganas.
A pesquisa ocorreu em Porto Real-RJ, Itumbiara-GO, Souza-PB, Tangará da Serra-MT e Camaçari-BA. A interlocução com as pessoas ciganas ocorreu em 2025, em rodas de conversa e aproximações individuais, também com gestores e profissionais que atuam com essa população nesses locais.
Foram previstos seminários presenciais com os participantes, facilitando o intercâmbio de ideias e reflexões e construção coletiva do projeto em suas etapas. Dois ocorridos, o terceiro reservado às conclusões.
Resultados e Discussão
Confirma-se: as políticas da área, pensadas de forma equitativa, na prática são desconsideradas por profissionais, situação denunciada e traduzida em práticas concretas nas rodas ciganas. As pessoas todas, ciganos, gestores e profissionais da saúde desconhecem a PNAISPCR e a Portaria que dispensa ciganos itinerantes de comprovante de endereço no SUS. Ora, como uma política pode ser implementada se a própria população e os executores a desconhecem?
Outra constatação importante é que a inclusão cigana e o atendimento humanizado no SUS dependem da boa relação com a classe política local. Fora desse contexto surgem inúmeras situações de racismo. No entanto, há diferenças nesse cenário, as especificidades variam conforme a desigualdade social. Em Itumbiara-GO, a vulnerabilidade é total, com descaso do poder público em 10 acampamentos (alguns existentes há quarenta anos) sem energia ou água, onde o racismo é sofrido em vários ambientes. Nesta cidade (assim como em Camaçari, Tangará e Porto Real), a Atenção Primária à Saúde não recebeu apenas críticas, mas também elogios, marcadamente pela atuação dos Agentes Comunitários de Saúde.
Já Souza, que abriga a maior comunidade cigana da América Latina, 3 mil pessoas vivendo no local há 20 anos, enfrenta problemas severos na APS, com relatos de racismo e atendimentos precários na USF local. Em Tangará, Porto Real e Camaçari, o racismo é menos evidente devido à aproximação com o poder público local. Um ponto comum em todos os locais foram falhas na Atenção Especializada. A falta de especialistas e o serviço deficitário e preconceituoso em UPA e unidades de urgência foram as queixas principais, tanto pelas filas quanto pela dificuldade institucional em compreender a forma cigana de lidar com adoecimento com internações, quando ocorrem muitas visitas e presença de membros da comunidade nas portas das unidades de saúde.
Conclusões/Considerações Finais
A porta apenas está começando a abrir. Ainda há muito o que caminhar...
PAPANICOLAU EM TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS DO PIAUÍ: BARREIRAS DE ACESSO, INIQUIDADES RACIAIS E IMPACTOS NA SAÚDE DA MULHER NEGRA
Comunicação Oral
1 UFPI
2 FIOCRUZ - PI
3 FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
O câncer do colo do útero é um grave problema de saúde pública no Brasil, afetando desproporcionalmente mulheres negras e quilombolas. O exame de Papanicolau é a principal estratégia de rastreamento dessa condição e sua oferta pela Atenção Primária à Saúde (APS) representa uma das expressões mais concretas da integralidade do SUS nos territórios. Quando realizado regularmente, permite a detecção precoce e reduz a morbimortalidade. Contudo, sua adesão é condicionada a determinantes sociais, raciais e territoriais que aprofundam desigualdades históricas. Comunidades quilombolas no Piauí vivem em territórios marcados por baixa cobertura de serviços, precariedade de infraestrutura e vulnerabilidades que se articulam ao racismo estrutural, produzindo barreiras ao cuidado. Compreendê-las, a partir das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, é condição para formular respostas que reconheçam a determinação social do adoecimento e fortaleçam a APS como eixo do cuidado integral.
Objetivos
Analisar a situação do rastreamento do câncer do colo do útero entre mulheres quilombolas nas macrorregiões de saúde do Piauí, identificando barreiras de acesso ao exame Papanicolau, valorizando os resultados positivos da APS territorial e discutindo fragilidades a partir das iniquidades raciais e territoriais em saúde.
Metodologia
Estudo epidemiológico, de abordagem quantitativa e caráter avaliativo, realizado em territórios quilombolas das quatro macrorregiões de saúde do Piauí: Litoral, Meio Norte, Semiárido e Cerrado. A amostra incluiu 204 mulheres entre 25 e 64 anos, faixa recomendada para rastreamento pelo Ministério da Saúde. Foram coletados dados de escolaridade, realização, periodicidade e motivos da não realização. Classificada em: em dia (≤3 anos), atrasado (>3 anos) e nunca realizado. As análises incluíram distribuição de frequências, Teste Exato de Fisher e razão de prevalência bruta, tendo o Litoral como macrorregião de referência.
Resultados e Discussão
“A idade média foi 44,1 anos, e 70,9% tinham baixa escolaridade, refletindo a privação educacional historicamente imposta aos quilombolas e que compromete a literacia em saúde — a capacidade de acessar e utilizar informações para decisões sobre o próprio corpo. Do total, 73,5% estavam com o exame em dia, resultado que expressa o esforço da APS local na oferta do Papanicolau nesses territórios e deve ser reconhecido como conquista do SUS. A análise por macrorregião, contudo, revela desigualdades que não podem ser ignoradas. O Litoral teve o melhor desempenho: 95,8% em dia e quase nenhuma nunca realizou o exame. Esse resultado evidencia que onde a APS opera com maior capilaridade, vínculo e continuidade do cuidado, a integralidade do SUS se concretiza — e salva vidas. O Cerrado, em contraste, configura o pior cenário: apenas 54% em dia, 28,6% nunca realizaram o exame e razão de prevalência de não estar em dia 11 vezes superior ao Litoral (RP = 11,048; IC95%: 1,592–76,668; p = 0,0151). O Semiárido concentrou o maior percentual de atrasos (17,3%). O Teste Exato de Fisher confirmou associação estatisticamente significativa entre macrorregião e situação do exame (p = 0,0001 para estar em dia; p = 0,0003 para nunca ter realizado). Onde os números são piores, o que se revela não é apenas fragilidade técnica da APS, mas o peso do abandono histórico de territórios negros pelo Estado. Entre as que nunca realizaram o exame, 84,6% declararam não achar necessário — não por recusa autônoma, mas como produto de um sistema que não produziu vínculo, informação e cuidado culturalmente situado. A não percepção do risco é ela mesma um efeito da exclusão. As barreiras articulam-se em múltiplas dimensões: geográfica, pela distância das unidades de saúde; simbólica, pelo constrangimento do exame ginecológico sem acolhimento culturalmente competente; laboral, pelas jornadas acumuladas de trabalho doméstico, agrícola e de cuidado; e relacional, pela desconfiança historicamente construída frente às instituições. Em oncologia, o tempo é determinante. O câncer do colo do útero é curável quando detectado precocemente. Para a mulher quilombola sem acesso ao rastreamento pela APS, o silêncio do sistema pode significar o avanço de uma lesão que, identificada a tempo, teria mudado de trajetória.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados evidenciam que a baixa adesão ao Papanicolau em parte dos territórios quilombolas piauienses não é produto de escolhas individuais, mas de determinações estruturais que articulam raça, território, classe e gênero. Onde a APS chega com qualidade e vínculo, os números demonstram sua potência — e isso deve ser afirmado como argumento político pelo fortalecimento do SUS. Onde os números deixam a desejar, é preciso investir em estratégias de educação em saúde, formação de profissionais em competência cultural e racial e ampliação da presença territorial da APS. Reconhecer as mulheres quilombolas como sujeitas de direito e a integralidade do SUS como horizonte ético é o ponto de partida para a produção de equidade em saúde nesses territórios.
PRÁTICAS DE REVIDE E SAÚDE COLETIVA: O ENFRENTAMENTO À DESABITAÇÃO NEGRA NA COMUNIDADE NELSON MANDELA EM CAMPINAS-SP
Comunicação Oral
1 UNICAMP
Apresentação/Introdução
O sistema colonial produziu e segue reproduzindo espaços de moradia profundamente racializados. No Brasil, o processo de urbanização operado pelas elites brancas foi historicamente justificado por discursos sanitaristas e higienistas que resultaram na remoção sistemática de populações negras, configurando um verdadeiro projeto de "desabitação negra". Em Campinas-SP, essa dinâmica forjou uma cidade cindida territorialmente, onde o vetor norte concentra a riqueza, e o sudoeste abriga as ocupações e a população negra. Esse cenário evidencia como a branquitude atua ativamente no fomento e na reprodução das iniquidades em saúde e moradia. É neste contexto periférico que surge a Comunidade Mandela, a partir de 2016. Nascida da reivindicação pelo direito à moradia, a comunidade consolida-se como um coletivo que resiste e inventa formas de viver à revelia da violência estrutural e do abandono institucional.
Objetivos
Compreender como as práticas cotidianas da Comunidade Mandela, conceituadas como "práticas de revide", operam no enfrentamento à violência antinegra e atuam como importantes indutoras de saúde e cuidado coletivo para seus moradores, subvertendo a lógica necropolítica do planejamento urbano.
Metodologia
Trata-se de um Relato de Pesquisa ancorado em uma abordagem qualitativa, situado entre a etnografia urbana e a cartografia. O trabalho de campo ocorreu na Comunidade Mandela com observação participante entre janeiro e maio de 2024. Foram mobilizadas múltiplas técnicas de coleta: elaboração de diário de campo, realização de entrevistas semiestruturadas com moradores e lideranças (marcadamente femininas e negras), construção de um acervo fotográfico e clipping de mídia (2017-2024) para mapear a disputa discursiva sobre o território.
Resultados e Discussão
A análise rompe com a ótica patogênica que estigmatiza as periferias, adotando a Teoria Salutogênica (Antonovsky) aliada ao conceito antropológico de "Revide" (Soares). O revide constitui a invenção criativa de condições para a vida digna frente à violência. Os resultados apontam que o revide da Comunidade se materializa em três eixos centrais de indução de saúde: i). Tecnologias Habitacionais Periféricas: Diante da entrega de "casas-embrião" de 15m² pelo Estado os moradores responderam com a tecnologia dos "barracos-puxadinhos". Autogeridas e baseadas no reaproveitamento e na solidariedade comunitária, essas construções subvertem a "brancopia" urbana oficial, garantindo a adequação dos espaços às dinâmicas familiares; ii). Construção de Espaços de Sociabilidade: Opondo-se à "edicularização da vida" e à fragmentação imposta pela racionalidade neoliberal, a comunidade criou espaços comuns (campinho de terra, adega) e ritos festivos (arraiás, bloco de carnaval). Tais vivências fortalecem o cuidado mútuo, notadamente na criação coletiva das crianças, atuando como o sistema imunológico social do território; e iii). Mobilização e Organização Coletiva: Dividida em câmaras de "auto-organização" (assembleias) e de "reivindicação" (passeatas, barricadas), a mobilização estruturou o embate contra reintegrações de posse violentas e a repressão policial. As lutas e vitórias convertem o trauma em autoestima, ampliando a capacidade de manejo comunitário.
Conclusões/Considerações Finais
A trajetória da Comunidade Mandela demonstra que a luta por moradia transcende o espaço físico; trata-se de um enfrentamento sistemático ao racismo e à desabitação negra forjada pela branquitude. As práticas de revide configuram-se como dispositivos legítimos de produção de saúde, expandindo o senso de coerência (compreensibilidade, manejabilidade e significância) do coletivo. Reconhecer e legitimar esses saberes periféricos é um compromisso da Saúde Coletiva para desestabilizar epistemologias higienistas, restituindo a centralidade da agência negra na promoção da vida.
RACISMO, VIOLÊNCIA ARMADA E SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA NO RECIFE
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ/PE
Apresentação/Introdução
A violência armada no Brasil constitui um fenômeno histórico e socialmente produzido, atravessado por desigualdades de raça, classe e território. Longe de atingir a população de forma homogênea, seus efeitos incidem de maneira desproporcional sobre a população negra, especialmente nos espaços urbanos periféricos, onde se concentram processos de segregação socioespacial, precarização das condições de vida e exposição ampliada à morte violenta (Cerqueira; Bueno, 2024). Nesse cenário, a violência por arma de fogo não pode ser compreendida apenas como questão de segurança pública, mas como expressão do racismo estrutural e como problema de saúde pública, na medida em que afeta de forma profunda as condições de viver, adoecer e morrer da população negra (Werneck, 2016).
No Recife, essa dinâmica adquire contornos particularmente relevantes, considerando a persistência de desigualdades raciais inscritas na formação da cidade e materializadas na distribuição desigual da proteção estatal, dos recursos urbanos e da exposição à violência letal (Santana, 2019). A concentração de homicídios por arma de fogo em bairros periféricos evidencia que determinados corpos e territórios são historicamente posicionados em zonas de desproteção, nas quais o Estado se faz presente de modo seletivo, seja pela violência direta, seja pela negligência (Silva et al, 2024).
A partir de uma perspectiva decolonial Fanon (2022) e antirracista, este estudo parte do entendimento de que a violência armada vivenciada pela população negra produz impactos sobre a saúde mental, os vínculos comunitários, a experiência do território e as estratégias cotidianas de cuidado e resistência.
Objetivos
Analisar como a população negra residente em territórios periféricos do Recife, percebe e ressignifica a violência por arma de fogo, estabelecendo relações entre o racismo, as estratégias de resistência e os territórios de proteção.
Metodologia
Trata-se de estudo qualitativo, de caráter exploratório, delineado como estudo de caso. A abordagem qualitativa foi adotada por possibilitar a apreensão de significados, percepções e experiências dos sujeitos em contextos socialmente situados (Minayo, 2010).A pesquisa foi desenvolvida no município do Recife (PE), com foco em quatro bairros selecionados a partir de análise prévia de clusters de homicídios por arma de fogo, a partir da pesquisa de (Silva et al, 2024), sendo escolhidos os seguintes bairros: Várzea e Ibura (maior risco) e Alto José do Pinho e Morro da Conceição (menor risco). Participaram do estudo 04 moradores autodeclarados negros, com faixa etária entre 29 e 59 anos, nascidos e criados nos territórios investigados, com participação ativa como lideranças comunitárias. A amostragem foi intencional, orientada pela relevância dos sujeitos para o objeto de estudo. A análise dos dados foi realizada por meio da Análise de Conteúdo, seguindo as etapas de organização do material, leitura flutuante, codificação, construção de categorias e interpretação à luz dos referenciais teóricos.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que a violência armada é percebida pelos sujeitos como fenômeno profundamente racializado, no qual a população negra, especialmente jovens residentes nesses territórios, constituem o principal grupo exposto à morte. Percebe-se a não aleatoriedade da violência, que se organiza a partir da interseção entre raça, território e condição socioeconômica. Essa dinâmica expressa a existência de diferentes regimes de proteção dentro do espaço urbano, nos quais territórios periféricos são marcados por maior exposição à violência letal e à precarização das condições de vida.
Além disso, evidencia-se a presença de uma atuação estatal ambígua, que se materializa tanto pela ausência de políticas quanto pela presença de práticas repressivas no âmbito da segurança pública.
Ressalta-se a presença de estratégias de resistência e produção de vida nos territórios, destacando as iniciativas comunitárias, redes de solidariedade, práticas culturais e educativas, que atuam como dispositivos de proteção social e ressignificação do território.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados dialogam com os princípios da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, ao evidenciar o racismo como determinante social da saúde e a necessidade de ações intersetoriais no SUS. Pode-se observar que os territórios periféricos não são apenas espaços de desproteção, mas também de produção de respostas coletivas das comunidades frente à violência. A construção de territórios de proteção ocorre a partir da ocupação social dos espaços, do fortalecimento das redes comunitárias e da mobilização política, ainda que atravessada por limites estruturais, como a ausência de políticas públicas efetivas.
Realização: