Programa - Comunicação Oral Curta - COC3.3 - Territórios do futuro: Visões, caminhos, encruzilhadas
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
APOIO DE PARES NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL: IMPLEMENTAÇÃO DA ESTRATÉGIA “COMUNIDADE DE FALA” NO NORTE DE MINAS GERAIS
Comunicação Oral Curta
1 Unimontes
Apresentação/Introdução
A Reforma Psiquiátrica brasileira instituiu um modelo de cuidado orientado pela desinstitucionalização e pela reabilitação psicossocial, deslocando o foco da doença para a vida em comunidade. Nesse contexto, o conceito de recovery enfatiza autonomia, protagonismo e reconstrução de projetos de vida. Estratégias de apoio de pares têm sido reconhecidas como dispositivos potentes ao valorizar o saber da experiência vivida e promover relações horizontais no cuidado. No entanto, sua implementação na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) ainda é incipiente no Brasil, especialmente em contextos regionais, evidenciando a necessidade de pesquisas de implementação que aproximem evidências e práticas.
Objetivos
Implementar e analisar a estratégia de apoio de pares, por meio da metodologia “Comunidade de Fala”, na RAPS de municípios do Norte de Minas Gerais, investigando seus efeitos sobre autonomia, empoderamento e processos de recovery.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, participativa, ancorada na ciência da implementação, desenvolvida em Montes Claros, São Francisco e Janaúba. Participam profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), usuários do serviço e familiares. A intervenção organiza-se em três etapas: pré-implementação (diagnóstico e planejamento participativo), implementação (oficinas de capacitação com equipe do CAPS e usuários sobre a “Comunidade de Fala” e seu método de trabalho; Realização de palestras dos usuários com o objetivo de compartilhar suas histórias de recuperação, e avaliação (análise das percepções dos participantes). Os dados são produzidos a partir de entrevistas com usuários e profissionais dos serviços, além de discussões coletivas envolvendo o público das palestras. A analise se dá à luz da saúde coletiva e da antropologia médica, com foco nos sentidos atribuídos ao cuidado e às trajetórias de adoecimento.
Resultados e Discussão
A implementação da estratégia nos três municípios evidencia a potência do apoio de pares como tecnologia leve no contexto da RAPS. Observa-se a formação de núcleos locais da “Comunidade de Fala”, com participação ativa de usuários, familiares e trabalhadores, organizados em espaços de diálogo e construção coletiva. As atividades incluem oficinas formativas, encontros narrativos e apresentações públicas conduzidas por usuários, que compartilham suas trajetórias de sofrimento, tratamento e reconstrução de sentidos. Nos municípios de Montes Claros, São Francisco e Janaúba, a inserção da estratégia nos serviços, especialmente nos CAPS e em espaços comunitários, tem favorecido a ampliação do acesso à fala, à escuta e à construção de vínculos horizontais. A narrativa emerge como dispositivo central de cuidado, permitindo que experiências individuais sejam ressignificadas coletivamente, fortalecendo sentimentos de pertencimento, esperança e continuidade da vida. Do ponto de vista dos participantes, destacam-se efeitos relacionados ao fortalecimento da autonomia, aumento da autoestima e reconhecimento do próprio lugar como sujeito de direitos. A experiência também contribui para a redução do estigma, ao tornar visíveis trajetórias de recovery em espaços públicos e fora dos muros institucionais dos serviços de saúde. Para os profissionais, observa-se deslocamento de práticas centradas no modelo biomédico para abordagens mais dialógicas e compartilhadas. A implementação revela, ainda, desafios importantes, como a necessidade de institucionalização das práticas, a sustentação dos grupos ao longo do tempo e a integração mais efetiva com a rotina dos serviços. Por outro lado, evidencia-se elevada aceitabilidade da estratégia, associada à sua capacidade de produzir engajamento e corresponsabilização no cuidado. Tais achados dialogam com experiências de suporte de pares que destacam o valor da troca de vivências e do apoio mútuo na promoção do cuidado e da inclusão social.
Conclusões/Considerações Finais
A implementação do apoio de pares por meio da “Comunidade de Fala” configura-se como estratégia inovadora e alinhada aos princípios da Reforma Psiquiátrica e dos direitos humanos. Contribui para a qualificação do cuidado na RAPS, ao promover práticas mais horizontais, participativas e centradas na experiência vivida. Além disso, fortalece o campo da pesquisa de implementação em saúde mental no Brasil, com potencial de replicabilidade em outros contextos e ampliação de políticas públicas baseadas no protagonismo dos usuários.
ASSOCIAÇÃO ENTRE EXPERIÊNCIAS ADVERSAS NA INFÂNCIA E OBESIDADE NA VIDA ADULTA: UMA ANÁLISE TRANSVERSAL NA TERCEIRA ONDA DO ELSA-BRASIL
Comunicação Oral Curta
1 Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública (PPGEPI), Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rio de Janeiro (RJ)
2 Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde, Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rio de Janeiro (RJ)
Apresentação/Introdução
Experiências Adversas na Infância (EAI) relacionadas à disfunção familiar, como divórcio ou falecimento dos pais, familiares em situação de privação de liberdade, com doenças mentais ou que fazem uso de drogas, têm sido associadas ao desenvolvimento de obesidade na vida adulta. Sugere-se que o estresse psicossocial desencadeado pelas EAI promova desenvolvimento de quadros ansioso-depressivos e sentimentos de desamparo que, por sua vez, podem ativar múltiplos mecanismos precursores da adiposidade, como o uso da alimentação como regulador emocional, além de alterações fisiológicas, tal qual estresse persistente, modulação negativa da saciedade, a inflamação subclínica e a potencial desaceleração do gasto energético. A literatura aponta disparidades entre homens e mulheres na prevalência de obesidade, na percepção e impacto das EAI e nas alterações neuroendócrinas causadas pelo trauma precoce. No entanto, são escassos os estudos em países de média renda, como o Brasil, onde características adversas da comunidade que favorecem a ocorrência das EAI, como a baixa condição socioeconômica da comunidade e a violência comunitária, estão marcadamente presentes.
Objetivos
Analisar a associação transversal entre o acúmulo de EAI relacionadas à disfunção familiar e a obesidade na vida adulta entre homens e mulheres participantes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil).
Metodologia
Foram avaliados 11878 participantes da terceira onda de seguimento do ELSA-Brasil (2017-2019) vinculados a seis centros de pesquisa localizados nas capitais dos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. A variável de exposição foi obtida por meio de um questionário de disfunção familiar, adaptado para a população brasileira, composta por cinco itens: ter vivenciado a separação ou a morte dos pais; ter convivido com membro familiar usuário de drogas; com algum tipo de transtorno mental ou que vivia em situação de privação de liberdade, em três categorias, sendo elas ausência de exposição a EAI, exposição a um tipo de EAI, ou a dois ou mais tipos de EAI. A obesidade foi avaliada segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde, ou seja, Índice de Massa Corporal igual ou superior a 30,0 kg/m². A associação do acúmulo de EAI e a obesidade foi avaliada pelo teste Qui-quadrado de Pearson, adotando nível de significância de 5%. A análise de associação foi estratificada por sexo.
Resultados e Discussão
A população de estudo tinha predominância de mulheres (56%), indivíduos autodeclarados brancos (53%), pertencentes à faixa etária de 55 a 64 anos (39%), e com nível superior completo (59%). A prevalência de obesidade entre os participantes foi de 28%, sendo de 25% entre os homens e 30% entre as mulheres. Tanto os homens quanto as mulheres com obesidade eram, em maioria, pessoas negras e menos escolarizadas. Não houve associação estatisticamente significativa entre o acúmulo de EAI e obesidade entre os homens. Por outro lado, para mulheres, observou-se que, quanto maior o acúmulo de EAI, maior a prevalência de obesidade. Estes resultados vão de encontro à literatura internacional, que indica que o maior acúmulo de EAI está associado à maior prevalência e incidência de obesidade na vida adulta. Além disso, a presença de associação entre EAI e obesidade somente entre mulheres pode ser explicada por diferenças hormonais, sendo que as mulheres frequentemente experimentam níveis mais altos de hormônios do estresse após a vivência de EAI, e as flutuações hormonais podem afetar o controle do peso, tornando-as mais propensas a lidar com a depressão e a ansiedade por meio do comer emocional.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados mostraram que quanto maior o acúmulo de adversidades na infância relacionadas à disfunção familiar, maior a prevalência de obesidade na vida adulta entre mulheres participantes do ELSA-Brasil. Acredita-se que as EAI podem se constituir um determinante social para o desenvolvimento de obesidade na vida adulta, especialmente entre as mulheres. Dessa forma, destaca-se a necessidade de criação e aperfeiçoamento de políticas públicas que buscam articular ações intersetoriais para a proteção a famílias em vulnerabilidade e para maximizar o impacto preventivo na saúde das futuras gerações.
ESTRATÉGIAS PARA PREVENÇÃO DA AUTOLESÃO EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES: EVIDÊNCIAS E IMPLICAÇÕES PARA ATUAÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (CLAVES), Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.
2 Université Paris Cité
Apresentação/Introdução
A autolesão é um comportamento intencional de causar danos ao próprio corpo, sem intenção suicida consciente1-2, frequentemente associado ao manejo de sofrimento psíquico, estresse e adversidades3-4. Entre adolescentes, apresenta aumento expressivo, configurando-se como problema relevante de saúde pública5, com crescimento no Brasil marcado por desigualdades de gênero, raça e condições sociais6-9. Esse fenômeno insere-se em contextos de transformações nos modos de convivência, fragilização de vínculos e ampliação de vulnerabilidades, sendo compreendido como expressão de sofrimento socialmente produzido10-11. Apesar disso, estratégias preventivas permanecem incipientes12-13. Intervenções organizam-se nos níveis universal, seletivo e indicado9-14, destacando-se aquelas voltadas ao desenvolvimento de competências socioemocionais, como regulação emocional, empatia e manejo do estresse, que atuam como fatores de proteção15-18.
Objetivos
Este estudo tem como objetivo mapear a produção científica nacional e internacional sobre estratégias de prevenção da autolesão não suicida em crianças e adolescentes, com ênfase nas intervenções voltadas ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais e suas implicações para o cuidado em saúde mental.
Metodologia
Revisão de escopo conduzida conforme o Joanna Briggs Institute19 e orientada pelo PRISMA-ScR, com protocolo registrado. A pergunta, baseada no PCC, investigou evidências sobre estratégias socioemocionais na prevenção da autolesão em crianças e adolescentes. A busca (jan–jul/2022) incluiu bases bibliográficas, Google Acadêmico e sites institucionais, considerando publicações (2010–2022) em português, inglês, espanhol e francês. Foram identificados 821 registros, com seleção por revisores independentes e consenso. Após critérios de elegibilidade, incluíram-se 27 estudos. A extração contemplou dados descritivos e analíticos sobre intervenções, marcadores sociais e resultados. A análise seguiu abordagem qualitativa de conteúdo19-20, com categorização indutiva em caracterização das produções e estratégias de prevenção, com foco em habilidades socioemocionais e articulação intersetorial.
Resultados e Discussão
Os estudos analisados evidenciam crescente produção científica sobre prevenção da autolesão, com destaque para Brasil e Estados Unidos, predominando investigações com adolescentes em contexto escolar. Observa-se diversidade terminológica e metodológica, com prevalência de abordagens quantitativas voltadas à avaliação de intervenções baseadas em habilidades socioemocionais, especialmente regulação emocional, frequentemente associada a modelos teóricos de autorregulação e regulação afetiva 21-40. A autolesão é compreendida como estratégia de manejo de emoções intensas, articulada a fatores de risco como conflitos familiares, bullying e isolamento social 25,26,30.
As intervenções identificadas concentram-se em programas escolares, com uso de abordagens como Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia Dialética Comportamental, além de iniciativas digitais e ações psicoeducativas. Evidências apontam melhorias em habilidades sociais, regulação emocional e redução de comportamentos autolesivos 22,35,41, embora persistam limitações quanto à padronização de avaliação e acompanhamento longitudinal 12,42. Destaca-se o potencial de intervenções online para ampliação do acesso ao cuidado, apesar de desigualdades no acesso às tecnologias 43.
A articulação intersetorial emerge como elemento central, envolvendo saúde, educação, assistência social e políticas públicas, ainda que frequentemente de forma fragmentada 9, 39,44. Iniciativas como o toolkit “Helping Adolescents Thrive” e experiências locais evidenciam a importância de estratégias integradas e culturalmente sensíveis 9,44.
Conclusões/Considerações Finais
A análise indica que, embora as estratégias enfatizem fatores individuais, como competências socioemocionais, a autolesão deve ser compreendida no contexto de determinantes sociais e modos de convivência que produzem sofrimento psíquico. Conclui-se que a prevenção requer abordagens multissetoriais, sustentadas por políticas públicas, ampliação do acesso ao cuidado e integração entre intervenções individuais e estruturais, de modo a responder à complexidade da saúde mental de crianças e adolescentes.
INFÂNCIA NA ERA DIGITAL: RISCOS, EXPOSIÇÕES E IMPACTOS NA SAÚDE MENTAL NO CONTEXTO DAS PLATAFORMAS ONLINE
Comunicação Oral Curta
1 IESPES
Apresentação/Introdução
O uso de tecnologias digitais por crianças tem crescido de forma significativa nos últimos anos, transformando precocemente suas formas de socialização, aprendizado e construção de identidade. O acesso ampliado a redes sociais, plataformas digitais e ambientes interativos expõe esse público a múltiplos estímulos, nem sempre adequados ao seu desenvolvimento. Nesse contexto, o ambiente virtual passa a constituir um importante determinante social e tecnológico da saúde, influenciando diretamente o bem-estar infantil.
Casos recentes amplamente divulgados na mídia e nas redes sociais evidenciam a exposição de crianças a conteúdos impróprios, interações com desconhecidos e situações de violência digital, revelando fragilidades nos mecanismos de proteção e regulação dessas plataformas. Tais situações reforçam a vulnerabilidade infantil e apontam para a necessidade de uma abordagem ampliada no campo da saúde coletiva, considerando os impactos psicossociais decorrentes dessas experiências.
Objetivos
Evidenciar os impactos da exposição ao ambiente digital na saúde mental de crianças, considerando os riscos associados às plataformas online.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter descritivo e exploratório, desenvolvido por meio de revisão integrativa da literatura. A busca foi realizada nas bases de dados SciELO, PubMed e Google Acadêmico, utilizando descritores como “saúde mental infantil”, “ambiente digital”, “redes sociais” e “violência digital”, combinados por operadores booleanos.
Foram incluídos artigos científicos publicados nos últimos cinco anos, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês e espanhol, que abordassem a relação entre o uso de plataformas digitais e os impactos na saúde mental de crianças. Foram excluídos estudos duplicados, incompletos ou que não apresentassem relação direta com a temática proposta.
A seleção dos estudos foi realizada por meio da leitura dos títulos e resumos, seguida da leitura completa dos textos elegíveis. A análise dos dados ocorreu por categorização temática, permitindo identificar padrões e fatores associados aos riscos do ambiente digital e seus efeitos na saúde mental infantil.
Resultados e Discussão
Os estudos analisados indicam que o uso excessivo e sem supervisão de plataformas digitais pode trazer impactos negativos para a saúde mental de crianças. Entre os principais fatores identificados destacam-se o acesso a conteúdos inadequados, a exposição a interações não supervisionadas e a ocorrência de violências digitais, como o cyberbullying.
Além disso, a dinâmica das plataformas digitais, baseada em estímulos constantes e mecanismos de engajamento, pode favorecer dependência, dificuldade de regulação emocional e alterações comportamentais. A ausência de mediação adequada por adultos e a fragilidade dos mecanismos de controle contribuem para a ampliação desses riscos.
Do ponto de vista psicossocial, tais exposições podem desencadear ansiedade, medo, alterações no sono, irritabilidade e prejuízos na socialização. Esses fenômenos devem ser compreendidos como resultado da interação entre determinantes sociais, tecnológicos e familiares, evidenciando a necessidade de estratégias de prevenção e cuidado que considerem a complexidade do ambiente digital.
Conclusões/Considerações Finais
A presença crescente de crianças no ambiente digital configura um importante desafio contemporâneo para a saúde coletiva, ao expô-las a riscos que impactam diretamente sua saúde mental. A análise evidencia que a vulnerabilidade infantil nesse contexto está relacionada à insuficiência de regulação das plataformas, à ausência de educação digital crítica e à fragilidade na mediação familiar.
Dessa forma, torna-se fundamental o desenvolvimento de ações intersetoriais que promovam a proteção da infância no ambiente virtual, incluindo a regulação das plataformas digitais, o fortalecimento do papel das famílias e a atuação dos serviços de saúde na prevenção e identificação precoce do sofrimento psíquico.
RODAS DE CONVERSA E ESCRITA NO ESPAÇO ESCOLAR E ACADÊMICO: A ESCOLA PARA ESCUTADORES E A PROMOÇÃO DE SAÚDE MENTAL
Comunicação Oral Curta
1 Cefet
Contextualização
Rodas de conversa e escrita como projeto de extensão em escola da rede federal de ensino, para estudantes de qualquer segmento.
Descrição
Considerando o espaço escolar oportuno para rodas de conversa e escrita e conjugando a experiência da escrita com as histórias vividas por estudantes, essas rodas, concebidas como espaços de convivência, compartilhamento de afetos, fortalecimento de laços sociais e promoção à saúde mental, eram divididas em três momentos: o de apresentação de cada um e de leitura de poema ou crônica; o segundo, de conversa e escuta sobre as reverberações do texto e sobre experiências escolares; por fim, convite à escrita livre, compartilhada ao final.
Período de Realização
Maio a dezembro de 2023 e maio a dezembro de 2025.
Objetivo
Criar um espaço coletivo de encontros que visava facilitar a circulação a palavra falada e estimular a criação de textos, que não precisavam ter parâmetros formais. O escritor brasileiro Cristóvão Tezza (2012) aponta que “(...) escrevemos porque queremos chegar aos outros”, podendo ser a escrita uma forma de buscar o encontro. Larrosa (1994) aponta que “o sentido do que somos depende da história que contamos”, aos outros e a nós mesmos. Tezza e Larrosa parecem nos dizer que contar é contar-se, narrar é narrar-se e fazê-lo pela escrita é encontrar o outro. Unimos as reflexões sobre escrita e leitura com as contribuições da psicanálise no que se refere à linguagem e à escuta, incluindo aspectos que se vinculam à saúde mental em sua noção ampliada ao propor essas rodas de conversa e escrita como encontros inspirados na ideia de Dunker (2023) acerca de uma escola escutadora e para escutadores, em que a escuta tenha um lugar relevante e de promoção de saúde mental. Nos dizeres de Dunker, a “escola escutadora é uma escola na qual há tempo para nomear o sofrimento e onde ele pode ser reconhecido antes de ser patologizado e encaminhado para algum especialista”.
Resultados
Nos dois anos intercalados do projeto, os encontros aconteceram em frequência média quinzenal e com uma média de 4 a 5 alunos, embora em alguns houvesse baixa adesão ou nenhum interessado. A baixa frequência nos evidenciava a queixa manifesta referente à falta de tempo dos estudantes para atividades não curriculares devido ao excesso de disciplinas do ensino médio integrado na instituição em que o projeto ocorreu. Apesar do objetivo extensionista, em 2025 não conseguimos trazer estudantes de fora, como no primeiro ano. Malgrado tais dificuldades, acredita-se que se pôde proporcionar um espaço de acolhimento e de ampliação de uma linguagem emocional que auxiliasse na compreensão de si e do mundo, bem como o compartilhamento e a garantia de um espaço contínuo, confiável e estável de encontros, onde, além do relato de si (Butler, 2017) e compartilhado entre os alunos, novos autores e obras foram apresentados. Alguns alunos, nos dois anos, voltavam sempre e, no segundo ano, alguns, com grande interesse em escrita, se motivaram a enviar textos escritos no encontro ou ampliados a partir deles.
Aprendizado e Análise Crítica
A dificuldade de adesão pela falta de tempo livre evidencia o acento conteudista da escola em questão, com tradição técnica e tecnológica. Notou-se um interesse maior pelo projeto nos alunos do ensino médio integrado, mais frequentes nos dois anos, havendo alunos externos do mesmo segmento frequentando o primeiro ano. E os alunos que estão entrando manifestam maior sentimento de solidão. Ainda que se possa pensar que cada vez menos se lê e se escreve, não são poucos os alunos com interesse na leitura em livros de papel, com hábito de leitura e interesse pela escrita, levando a sério os convites à escrita. Apesar do discurso de que a saúde mental dos estudantes é algo fundamental e sendo a proposta dos encontros uma tentativa de ampliar os espaços de escuta e de pertencimento, a escola não oferece apoio ou facilitações de propostas como essa, sendo necessário o desejo das coordenadoras e bolsistas para a concretização dos encontros.
O projeto de extensão, realizado em dois anos não consecutivos com o auxílio de bolsista, é um projeto piloto. Por vezes, suscitou desestímulo das coordenadoras, devido à dificuldade de realização. O fato de haver poucos mas constantes alunos, que vinham por interesse próprio, permitiu que assuntos fossem aprofundados, histórias fossem compartilhadas pela escrita e pela fala e um vínculo se estabelecesse com alguns, embora os encontros não fossem grupos terapêuticos. Apesar do interesse de alunos e das manifestações faladas e escritas quanto à importância dessa experiência em suas vidas, ainda são poucos os alunos contemplados devido à rotina escolar, que impede uma frequência maior. A ideia é que se possa estabelecer uma continuidade nos anos, com dia fixo de encontro, que se torne mais conhecido, que tenha sua garantia de espaço, para, ao se tornar referência em sua função escutatória, possa permitir o reconhecimento do sofrimento sem patologizá-lo.
SAÚDE MENTAL NO CONTEXTO HOSPITALAR: RODAS DE CONVERSA COMO ESTRATÉGIA DE PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL ENTRE TRABALHADORES DE UM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO
Comunicação Oral Curta
1 HUB/UnB
Contextualização
A saúde mental dos profissionais de saúde configura-se como um desafio crescente no contexto hospitalar, especialmente em instituições marcadas por sobrecarga física e emocional, conflitos interpessoais, desvalorização financeira e pressão institucional. À luz das diretrizes da Política Nacional de Humanização do SUS e da compreensão ampliada de saúde, torna-se fundamental a criação de espaços coletivos de escuta, vínculo e cuidado no ambiente de trabalho.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência sobre rodas de conversa realizadas durante a campanha Janeiro Branco em um hospital universitário federal. A proposta foi desenvolvida com metodologia participativa, em formato de roda de conversa, valorizando os saberes do cotidiano, a escuta ativa e a construção coletiva de sentido. Foram utilizadas dinâmicas corporais, músicas, cartas terapêuticas, estratégias de Comunicação Não Violenta e elementos da Terapia Comunitária Integrativa.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida em janeiro de 2026, com encontros realizados ao longo da campanha Janeiro Branco. Participaram aproximadamente 50 trabalhadores, entre profissionais da saúde, administrativos e lideranças, em encontros com duração média de 2 horas e 30 minutos.
Objetivo
Analisar a experiência de rodas de conversa realizadas durante a campanha Janeiro Branco em um hospital universitário federal, com foco na promoção da saúde mental, no fortalecimento de vínculos e na prevenção de riscos psicossociais no trabalho.
Resultados
A experiência foi motivada por sinais institucionais de adoecimento, como elevado absenteísmo e aumento da demanda por acolhimento em saúde mental. Como resultado, observou-se baixa adesão em relação ao total de trabalhadores, associada a fatores como estigma em saúde mental, sobrecarga laboral e descrédito em ações institucionais. Entretanto, entre os participantes, houve engajamento progressivo, aprofundamento das discussões e compartilhamento de vivências relacionadas ao sofrimento psíquico, como cansaço emocional, frustração, dificuldade de descanso, culpa, isolamento e necessidade de cuidado.
Aprendizado e Análise Crítica
Como aprendizados, a experiência evidenciou a importância de dispositivos de escuta para a legitimação do sofrimento e fortalecimento de vínculos no trabalho em saúde, além de destacar a necessidade de estratégias sensíveis ao contexto institucional e às condições reais de participação dos trabalhadores.
Do ponto de vista analítico, as rodas de conversa mostraram-se potentes como estratégia de promoção da saúde mental e humanização do trabalho, ao favorecer a circulação da palavra e a construção coletiva de sentido. Contudo, evidenciaram limites importantes, especialmente quando não articuladas a mudanças estruturais nas condições de trabalho. Assim, reforça-se que intervenções dessa natureza devem integrar políticas institucionais mais amplas de cuidado, valorização dos trabalhadores e prevenção de riscos psicossociais no SUS.
Realização: