Programa - Comunicação Oral - CO13.10 - Experiências interprofissionais, reorganização do cuidado e território cidadã
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ENTRE A VIGILÂNCIA E A MEDICALIZAÇÃO: A REORGANIZAÇÃO DO CUIDADO AO DESENVOLVIMENTO INFANTIL NA APS A PARTIR DA EMULTI EM MARICÁ/RJ
Comunicação Oral
1 Centro de Medicina e Projetos Especiais (CEMPES - Maricá)
Contextualização
A atenção ao desenvolvimento infantil na Atenção Primária à Saúde (APS) constitui um campo estratégico e, simultaneamente, atravessado por disputas entre projetos de cuidado. De um lado, afirmam-se perspectivas ancoradas na clínica ampliada, na interprofissionalidade e na centralidade do território e das relações; de outro, intensificam-se processos de medicalização, protocolização da vida e antecipação diagnóstica, que produzem uma captura do desenvolvimento infantil por lógicas normativas, biomédicas e especializadas. Nesse cenário, a APS frequentemente tem sua potência esvaziada, sendo reduzida a espaço de triagem e encaminhamento.
Este trabalho analisa a construção de diretrizes técnicas para avaliação, acompanhamento e intervenção precoce no desenvolvimento infantil, elaboradas coletivamente pela equipe multiprofissional (eMulti) no município de Maricá/RJ, como dispositivo de intervenção no processo de trabalho e de disputa de modelo assistencial no interior do SUS. Trata-se de um produto técnico-político que emerge da problematização das práticas locais, marcadas por heterogeneidade de condutas, fragilidades no manejo clínico e sobreencaminhamentos, e que busca reposicionar a Atenção Primária à Saúde (APS) como coordenadora do cuidado.
Descrição
O processo de construção do documento orientador foi mediado pela gestão da eMulti e estruturado a partir de uma estratégia participativa, envolvendo profissionais das dez equipes e a gerência da Saúde da Criança. Como ponto de partida, realizou-se a problematização do uso da Caderneta da Criança no cotidiano dos serviços, identificando limites, potencialidades e diferentes formas de apropriação. A partir disso, promoveram-se espaços coletivos de troca sobre práticas do território, possibilitando a sistematização de experiências, a circulação de saberes e a construção de consensos provisórios sobre o cuidado ao desenvolvimento infantil.
Esse percurso operou, simultaneamente, como estratégia de elaboração do documento e como dispositivo de sensibilização e capacitação dos profissionais, ao fomentar reflexões críticas sobre o processo avaliativo, critérios de encaminhamento e possibilidades de intervenção na APS. A interação entre os trabalhadores explicitou racionalidades em disputa e favoreceu diretrizes mais aderentes às realidades territoriais.
A apresentação do documento foi organizada como momento formativo de alinhamento coletivo, incluindo oficina lúdica e participativa, orientada à construção de abordagens populares de avaliação e intervenção, valorizando o brincar, a criatividade e os saberes das famílias como tecnologias de cuidado. Tal estratégia desloca a centralidade de práticas normativas e reafirma o cuidado como produção relacional e situada.
Metodologicamente, o estudo articula sistematização da experiência, análise crítica de fluxos assistenciais e produção interprofissional de diretrizes, em diálogo com normativas nacionais e referenciais da saúde coletiva. O documento organiza o cuidado a partir de eixos como avaliação longitudinal e situada do desenvolvimento, uso crítico de instrumentos
Período de Realização
NOVEMBRO - 2025 ATÉ O MOMENTO
Objetivo
Analisar o processo de construção coletiva de diretrizes para avaliação, acompanhamento e intervenção precoce no desenvolvimento infantil na Atenção Primária à Saúde, a partir da experiência da eMulti em Maricá/RJ, enquanto dispositivo de reorganização do cuidado e de disputa de modelo assistencial no SUS.
Resultados
Os achados evidenciam que a eMulti pode operar como dispositivo analisador e indutor de mudanças na micropolítica do trabalho em saúde, ao tensionar saberes, redistribuir responsabilidades e ampliar a capacidade resolutiva das equipes. Ao mesmo tempo, o estudo explicita como o campo do desenvolvimento infantil tem sido progressivamente governado por dispositivos de normalização, vigilância e controle, exigindo a produção de práticas contra-hegemônicas que afirmem a singularidade, o vínculo e a integralidade do cuidado.
Conclui-se que a elaboração coletiva de diretrizes, ancorada na experiência dos trabalhadores e no território, constitui uma estratégia potente de resistência à medicalização e de afirmação de uma APS implicada, resolutiva e comprometida com a produção de vida, recolocando o desenvolvimento infantil no campo da clínica ampliada e da defesa do SUS.
Aprendizado e Análise Crítica
A análise da experiência evidencia que a adoção de estratégias participativas na construção de diretrizes permite reconduzir os processos de trabalho de forma mais estratégica, a partir da qualificação da gestão do cuidado e do fortalecimento da Atenção Primária à Saúde como espaço privilegiado de promoção e prevenção. Tal movimento tensiona a lógica mercantilizante do cuidado, frequentemente orientada pela especialização precoce e pelo encaminhamento, ao reafirmar a APS como locus de cuidado resolutivo, integral e territorializado.
ESTRATÉGIA INSTITUCIONAL PARA QUALIFICAR O PREENCHIMENTO DOS MARCADORES DE CONSUMO ALIMENTAR NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral
1 UNB
2 USP
Contextualização
Os marcadores de consumo alimentar no sistema e-SUS APS constituem importantes ferramentas para o monitoramento do perfil alimentar da população na Atenção Primária à Saúde (APS), subsidiando ações de promoção da saúde e vigilância alimentar e nutricional. No entanto, fragilidades no preenchimento desses dados podem comprometer sua qualidade e utilização.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido no âmbito do Programa de Educação Tutorial (PET), envolvendo a construção de instrumentos diagnósticos e estratégias educativas voltadas à qualificação do registro dos marcadores alimentares na APS. As ações foram realizadas com profissionais de saúde em uma Unidade Básica de Saúde no Distrito Federal.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida entre fevereiro e março de 2026.
Objetivo
Descrever a implementação de uma estratégia institucional para qualificar o preenchimento dos marcadores de consumo alimentar no âmbito da Atenção Primária à Saúde.
Resultados
Com os dados coletados foi contemplado a identificação das barreiras no uso dos marcadores alimentares na APS, destacam-se principalmente a falta de capacitação (46,7%), falta de tempo (40%) e a sobrecarga de trabalho (33,3%) como os motivos que mais dificultam a adesão do formulário nos atendimentos. Uma proporção de 46,7% relataram não conhecer o formulário de marcadores alimentares do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, no entanto, foi constatado que os profissionais de maneira unânime consideram o preenchimento dos marcadores alimentares com potencial de trazer benefícios práticos para o cuidado do usuário. Com relação às potencialidades, dentre as estratégias que facilitariam o preenchimento dos marcadores, foram citados o uso de materiais explicativos como infográficos, manuais e cartazes, orientações sobre como e onde preencher o formulário na plataforma e principalmente a estratégia de sensibilização dos servidores no uso da ferramenta por meio de capacitações transmitidas durante as reuniões de equipe. Diante ao proposto, é elaborada uma estratégia institucional para a qualificação dos profissionais com relação ao preenchimento dos marcadores, sendo o produto a construção de um vídeo de capacitação desenvolvido de forma colaborativa pela equipe. O material foi elaborado com base nos resultados do diagnóstico, buscando atender às principais dificuldades apontadas pelos profissionais. Para isso, foi construído um roteiro estruturado, seguido do planejamento das gravações e organização das falas. O vídeo apresenta linguagem clara e objetiva, abordando a importância dos marcadores de consumo alimentar e a demonstração prática do preenchimento no sistema e-SUS APS. Após a gravação, o material passou por edição e revisão final, garantindo sua qualidade técnica e didática.
Aprendizado e Análise Crítica
Durante a aplicação do instrumento realizado presencialmente na UBS, a equipe vivenciou de perto o cotidiano dos profissionais atuantes na Atenção Primária. A prática possibilitou o contato direto com os participantes da pesquisa proporcionando conversas que enriqueceram na temática da pesquisa, as trocas de ideias realizadas evidenciou as motivações reais que limitam a representatividade dos dados registrados pelos marcadores na região relacionada à unidade. Com relação aos desafios enfrentados, há a dificuldade em obter respostas dos funcionários no questionário, em decorrência da rotina atarefada que possuem, para isso o instrumento foi adaptado para ser estruturado de maneira mais sucinta e prática a fim de coletar dados relevantes e eficazes sem interferir no funcionamento da unidade básica, assim como a construção do vídeo de capacitação que possui a proposta de implementar e qualificar as equipes atuantes na APS a utilizar a ferramenta de maneira correta e de acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira (2014) sem afetar a qualidade metodológica, nem comprometer a continuidade do cuidado dos usuários. A experiência evidenciou a importância dos marcadores de consumo alimentar como instrumentos estratégicos para o planejamento em saúde na APS, bem como a necessidade de investimentos contínuos em educação permanente dos profissionais. Destaca-se que ações educativas, como capacitações e materiais audiovisuais, podem contribuir para o fortalecimento do uso qualificado dos sistemas de informação, embora ainda existam desafios relacionados à adesão e incorporação dessas práticas na rotina dos serviços.
INTERPROFISSIONALIDADE NO PRÉ-NATAL ODONTOLÓGICO: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE UMA EQUIPE DE SAÚDE DA FAMÍLIA EM MANAUS-AM
Comunicação Oral
1 UFAM
2 SEMSA Manaus
Contextualização
A gestão do cuidado na Atenção Primária à Saúde (APS) enfrenta o desafio histórico de superar modelos fragmentados e puramente procedimentais. No campo da saúde bucal, essa cisão é intensificada por fluxos burocráticos que isolam o cirurgião-dentista da equipe multiprofissional, produzindo barreiras de acesso para grupos prioritários, como as gestantes. Na Unidade Básica de Saúde da Família N 16, em Manaus-AM, identificou-se que o pré-natal odontológico (PNO) apresentava baixa adesão, associada à inexistência de percursos assistenciais definidos e ao absenteísmo gerado pelo intervalo entre a captação e o atendimento. Tal cenário reflete um problema recorrente na APS, relacionado à fragilidade da integração interprofissional e à desarticulação dos processos de trabalho.
Descrição
A experiência consistiu na implementação de um fluxo de “vaga sempre aberta” com acolhimento imediato para o PNO. Após a confirmação da gestação e a primeira consulta com a enfermagem, as usuárias passaram a ser conduzidas diretamente ao atendimento odontológico no mesmo turno, com reorganização da agenda clínica para absorção dessa demanda. A estratégia foi sustentada pela incorporação do tema nas reuniões de equipe, pela atuação dos Agentes Comunitários de Saúde na busca ativa e por ações educativas voltadas à desconstrução de crenças sobre o cuidado odontológico na gestação. A partir de 2024, a prática foi articulada ao Mestrado Profissional em Saúde da Família (UFAM), resultando em revisão de escopo, que evidenciou a ausência de fluxos e a baixa integração como problema estrutural, e no desenvolvimento de tecnologia educacional regionalizada (álbum seriado) para apoiar o diálogo de forma horizontal e culturalmente situada, validada quanto à sua aplicabilidade na APS.
Período de Realização
Setembro de 2023 - Atual.
Objetivo
Sistematizar a experiência de reestruturação do fluxo de acesso ao PNO e refletir sobre o impacto da integração interprofissional na gestão do cuidado à gestante no SUS.
Resultados
A reorganização do processo de trabalho resultou na ampliação do acesso, com alcance de 100% das gestantes cadastradas, e na inserção efetiva da saúde bucal no pré-natal da unidade. Para além dos indicadores, observou-se a consolidação de uma prática interprofissional, com fortalecimento do vínculo entre equipe e usuárias e maior corresponsabilização pelo cuidado. A utilização de tecnologia educacional regionalizada qualificou o diálogo clínico, favorecendo uma abordagem mais horizontal e culturalmente situada.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que o baixo acesso ao PNO não se reduz a uma questão de adesão individual, mas expressa fragilidades na organização do cuidado. A superação desse cenário ocorreu a partir da ocupação de espaços coletivos de planejamento e da integração entre saberes. Nesse sentido, a interprofissionalidade se afirma como ferramenta política de equidade, capaz de deslocar o cuidado de uma lógica fragmentada para uma perspectiva integrada e territorializada. O uso de tecnologias leves demonstra que o rigor da gestão pode coexistir com o reconhecimento das identidades e subjetividades das usuárias, tensionando modelos normativos de cuidado na APS.
O TERRITÓRIO NA CONSTRUÇÃO DO CUIDADO COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES: APOIO MATRICIAL ENTRE UM CENTRO ESPECIALIZADO EM REABILITAÇÃO E A ATENÇÃO PRIMÁRIA EM SALVADOR-BA
Comunicação Oral
1 UFBA / CEPRED/ HEMOBA
2 CEPRED
Contextualização
O apoio matricial ou matriciamento corresponde a uma metodologia de trabalho entre equipes de saúde que possui caráter técnico- pedagógico e assistencial para a construção conjunta do cuidado no âmbito das Redes de Atenção à Saúde (RAS). Diante do exposto, o apoio matricial deve estar alinhado a uma lógica de trabalho horizontalizada tendo a Atenção Primária à Saúde (APS) como coordenadora do cuidado em rede no território. Assim sendo, esse cuidado é descrito em legislações, a exemplo da portaria nº 793/2012 que institui a Rede de Cuidado à Pessoa com Deficiência (RCPD) e orienta a participação de usuários, família e equipe, para a construção de forma matricial do Projeto Terapêutico Singular (PTS), além de sinalizar que os atendimentos no Centro Especializado em Reabilitação (CER) sejam articulados com os outros pontos da rede. Contudo, o apoio matricial sob a lógica do cuidado no território encontra barreiras em razão da fragilidade das redes de saúde em Salvador e sua interlocução. Realidade que gera iniquidades e atinge a crianças e adolescentes com deficiência, majoritariamente negras, tornando esta população ainda mais vulnerável.
Descrição
Trata-se de uma experiência de construção de apoio matricial no setor de reabilitação intelectual de um CER III de referência na Bahia que compreende três modalidades de reabilitação, a saber: física, auditiva e intelectual, localizado na cidade de Salvador. O setor atende crianças e adolescentes entre 3 a 18 anos com diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Desenvolvimento Intelectual e condições associadas, com atendimentos interdisciplinares e sob uma lógica institucional de intersecção com o território. Dessa forma, a construção do apoio matricial com a APS iniciou com um mapeamento desse público e os seus Distritos Sanitários (DS). Salvador possui 12 DS e 162 UAP. A partir desse mapeamento, foi possível estimar os DS com o maior número de usuários e categorizá-los por alta demanda, com matriciamentos contínuos e média e baixa demandas com matriciamentos e monitoramento dos casos para possível aumento da demanda. A maioria mora em áreas periféricas, suscetíveis à violência. Esses resultados foram apresentados para a área técnica da pessoa com deficiência da Secretaria Municipal de Saúde e referências da área de cuidado à pessoa com deficiência de cada distrito. Além disso, com o apoio dos DS foi possível realizar contatos mais resolutivos via e-mail com as UAP, adentrando o território desses serviços.
Período de Realização
A construção teórica do apoio matricial teve início em 2021 e ainda está em execução para se estabelecer como fluxo da reabilitação intelectual.
Objetivo
Ampliar a prática da reabilitação no território com a Atenção Primária, ao estabelecer o fluxo de apoio matricial na reabilitação intelectual, possibilitando o cuidado compartilhado entre as equipes do CER, APS e usuárias.
Resultados
O apoio matricial com as unidades ocorreu de forma presencial e remota, iniciou-se com discussões de casos e pactuações entre as equipes, a partir de um documento de interlocução entre APS e rede especializada. Em virtude dessas pactuações, a equipe do CER planejou ações no campo assistencial, como visitas ao ambiente escolar junto com a equipe da APS, encaminhou genitores para atendimento na unidade, pactuou visitas domiciliares conjuntas e conheceu a ambiência e ações dessas unidades da atenção primária para o público da reabilitação intelectual e suas cuidadoras, além dos equipamentos de lazer e serviços existentes que possam ser acessados. Já no campo técnico-pedagógico, têm sido planejadas oficinas para profissionais da APS, com foco na importância da puericultura e ações da rede, além de uma cartilha sobre o apoio matricial direcionada aos profissionais do CER.
Aprendizado e Análise Crítica
O apoio matricial está previsto na legislação e no projeto-piloto da reabilitação intelectual do CER III. Contudo, identificou-se a escassez de literatura científica e de modelos assistenciais voltados para a realidade da RCPD, sendo que a maior parte dessa literatura é voltada para a saúde mental. Com isso, foi necessário explorar experiências da Saúde Mental, Saúde Coletiva, Estudos da Deficiência e a Geografia de Milton Santos para agregar a compreensão do cuidado ampliado no território que é compreendido como território usado que se traduz em espaço de identidade e de barreiras físicas e sociais, como a violência urbana presente em grande parte dos locais que as usuárias vivem.
O matriciamento tem sido estratégia essencial para conhecer usuárias e estabelecer uma relação de cuidado mais resolutiva no território ao considerar itinerários terapêuticos e dimensões de raça, gênero e fatores socioeconômicos no desenvolvimento de pessoas com deficiência (PCD). Entretanto, desafios como a operacionalização dos matriciamentos remotos, devido à barreira tecnológica, e a fragilidade da RAS, marcada por fluxos pouco estruturados, evidenciam a necessidade de fortalecer a articulação entre RCPD e APS alinhadas aos princípios do SUS.
OFICINAS EMANCIPATÓRIAS E A CONSTRUÇÃO COLETIVA DE UM JOGO SOBRE VACINAÇÃO POR JOVENS ESCOLARES
Comunicação Oral
1 EEUSP
2 UFPE
Apresentação/Introdução
A juventude é um período marcado por intensas transformações biológicas, sociais e culturais, sendo compreendida como uma construção histórica e plural, atravessada por diferentes contextos e formas de viver. No Brasil, as políticas de saúde ainda priorizam a noção de adolescência vinculada ao fator biológico, embora avanços tenham ocorrido com a incorporação da perspectiva de juventude nas políticas públicas. Nesse cenário, insere-se o Programa Nacional de Imunizações (PNI), referência mundial na oferta gratuita de vacinas e responsável pela redução de doenças preveníveis. O PNI possui um calendário específico para a faixa etária juvenil, com imunizantes contra alguns tipos de Papilomavírus Humano (HPV) e a Meningite (Meningo ACWY). Apesar disso, observa-se, desde 2016, uma queda significativa na cobertura vacinal, associada a fatores complexos que incluem aspectos individuais, sociais e organizacionais, além da chamada hesitação vacinal. Entre jovens, esse fenômeno ainda é pouco estudado, mas pode estar relacionado à falta de informação, educação em saúde e limitações dos serviços. Considerando as desigualdades sociais e as diferentes formas de inserção social da juventude, torna-se fundamental compreender o fenômeno da hesitação vacinal juvenil, a fim de subsidiar políticas públicas mais efetivas.
Objetivos
Os objetivos deste trabalho são compreender as percepções e atitudes de jovens de 9 a 15 anos em relação à vacinação e construir coletivamente estratégias de enfrentamento.
Metodologia
Trata-se de estudo qualitativo que utiliza a metodologia da pesquisa-ação emancipatória para estimular a participação crítica de jovens na compreensão de sua realidade. Foram realizadas oficinas com estudantes de 9 a 14 anos de duas escolas públicas de São Paulo, localizadas em regiões com diferentes níveis de vulnerabilidade juvenil. Os encontros semanais abordaram diversas temáticas, mas aqui trazemos a temática da vacinação. Os dados foram coletados por meio de fotos e de gravações, transcritos e analisados no software MaxQDA, utilizando Análise de Conteúdo. A pesquisa seguiu os procedimentos éticos com consentimento dos responsáveis e assentimento dos participantes. O tema da vacinação apareceu pela primeira vez em oficinas em que foram discutidos os usos dos serviços de saúde disponíveis no território. As jovens mencionaram o uso dos centros de saúde majoritariamente para tratar doenças agudas e para a vacinação. Quando indagadas sobre seus conhecimentos das vacinas, como a importância, o funcionamento da vacina no corpo e o motivo da vacinação, não souberam responder. Sendo assim, foi organizada uma excursão ao campus da universidade e ao museu da vacina no Instituto Butantã, para que elas pudessem conhecer o espaço universitário e os processos relacionados à produção dos imunobiológicos e à vacinação. Após a ida ao museu, em uma das oficinas seguintes, foi proposto por elas a construção de um jogo educativo. O propósito desse jogo seria a estruturação do conhecimento obtido durante a visita ao instituto e também uma maneira de divulgação dessa informação. Durante o processo de construção do jogo, elas desenvolveram o manual de regras, a idealização das peças e do tabuleiro, discutiram sobre o que haviam aprendido, sobre os pontos que ainda tinham dúvidas e trocaram experiências.
Resultados e Discussão
Atualmente o jogo de tabuleiro já encontra-se em fase de elaboração da tipografia e dos elementos gráficos para, posteriormente, entrar na fase de validação, estando as jovens envolvidas em todos os processos. Os resultados preliminares evidenciam que, embora a vacinação esteja presente no cotidiano das jovens, há lacunas importantes de conhecimento sobre seu funcionamento, importância e objetivos, o que pode ser um fator para a hesitação vacinal. A experiência das oficinas, como a visita ao museu e a construção coletiva de um jogo educativo, mostrou-se potente para promover aprendizado significativo, protagonismo juvenil e compartilhamento de informações. Durante as discussões para elaboração do jogo optou-se por um dinâmica com uso de cartas desafio e a “fato ou fake”, que possibilitaram identificar e problematizar concepções equivocadas amplamente disseminadas, por exemplo crenças como a associação entre vacinas e autismo, a ideia de que apenas meninas necessitam da vacina contra o HPV. Por outro lado, ao longo das atividades, observou-se a incorporação de conhecimentos corretos, como a gratuidade das vacinas no SUS e a importância da vacinação para proteção coletiva.
Conclusões/Considerações Finais
Destaca-se que estratégias participativas e contextualizadas, que considerem as formas de viver das juventudes, são fundamentais para fortalecer a adesão à vacinação. Assim, a pesquisa reforça a importância de incluir jovens como sujeitos ativos na produção de conhecimento e no desenvolvimento de ações em saúde, contribuindo para políticas públicas mais efetivas e sensíveis às suas realidades
REFLEXÕES SOBRE O DIREITO À SAÚDE NA AMAZÔNIA: COLAPSO POR FALTA DE OXIGÊNIO EM MANAUS E OS DESAFIOS DA GOVERNANÇA EM SAÚDE
Comunicação Oral
1 UEA
2 UERJ
Apresentação/Introdução
A pandemia de COVID-19 evidenciou fragilidades estruturais e de governança nos sistemas de saúde, especialmente em regiões com características geográficas e socioeconômicas adversas, como o estado do Amazonas. O direito à vida e à saúde, garantidos pela Constituição Federal de 1988 e pela Lei nº 8.080/1990, enfrentaram desafios sem precedentes diante da rápida disseminação do SARS-CoV-2. No Amazonas, a baixa densidade demográfica (2,53 hab/km²), as vastas distâncias e a concentração de serviços de alta complexidade exclusivamente na capital impõem obstáculos históricos à gestão pública.
Nesse contexto, a identificação e subsequente disseminação da variante Gama, em janeiro de 2021, impulsionou um crescimento abrupto de casos, culminando no colapso do fornecimento de oxigênio hospitalar em Manaus. Este episódio, descrito por profissionais como um "cenário de terror", resultou em mortes por asfixia e na transferência emergencial de pacientes para outras capitais brasileiras. A crise não apenas revelou a precariedade da rede assistencial, mas expôs como a falência da governança pode comprometer o direito fundamental à saúde.
Objetivos
Analisar, sob a perspectiva do direito à saúde, como o colapso do fornecimento de oxigênio em Manaus evidenciou os desafios de governança em saúde e as fragilidades na capacidade de resposta do sistema público diante de emergências sanitárias na região amazônica.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, baseada em levantamento bibliográfico e análise documental. Foram analisados artigos científicos das bases SciELO, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), além de relatórios oficiais da OPAS/OMS, legislações federais e estaduais, e dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). O recorte temporal compreendeu materiais publicados entre janeiro de 2020 e outubro de 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol. Utilizaram-se os descritores “direito à saúde”, “COVID-19”, “governança em saúde”, “Amazonas” e “vulnerabilidade em saúde”, empregando o operador booleano AND. Os dados foram submetidos à técnica de análise de conteúdo de Bardin, permitindo a categorização em eixos temáticos: direito à saúde e vulnerabilidades regionais; governança e gestão de crises; e o colapso assistencial em Manaus.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que o colapso no Amazonas não foi resultado de um evento isolado, mas expressão de falhas sistêmicas na governança federativa. Identificou-se que a fragmentação entre as esferas municipal, estadual e federal comprometeu a resposta à emergência, revelando a fragilidade de mecanismos resilientes de gestão de risco. O gargalo principal consistiu no modal aéreo, uma vez que o oxigênio gasoso ocupa muito volume e o líquido exige aeronaves específicas, como a C-130 da Força Aérea Brasileira - FAB. Somado a isso, a gestão logística terrestre foi um ponto crítico: a decisão de transportar oxigênio pela BR-319, via precária e intrafegável no período chuvoso, resultou em atrasos fatais de mais de 96 horas, enquanto a alternativa fluvial pelo Rio Madeira seria mais rápida e econômica.
A crise também expôs a vulnerabilidade das populações ribeirinhas, indígenas e periféricas, para as quais o isolamento social foi inviável devido à dependência econômica dos centros urbanos e à pobreza estrutural. A análise revelou que, além dos desafios geográficos, o estado enfrentou problemas de desvio de conduta e corrupção sistema, como a aquisição de respiradores superfaturados e inadequados, investigada pela “Operação Sangria”. A concentração de leitos de UTI em Manaus (alcançando 101% de ocupação clínica em janeiro de 2021) evidenciou a necessidade de descentralização da atenção terciária para evitar o esgotamento do sistema em crises futuras.
Conclusões/Considerações Finais
A ruptura assistencial em Manaus serve como um marco crítico para o aprimoramento do SUS na Amazônia. Conclui-se que a efetivação do direito à saúde depende de uma governança que integre eficiência logística, transparência administrativa e planejamento adaptado às realidades locais. O episódio demonstrou que omissões institucionais e falhas de coordenação federativa resultaram em mortes evitáveis. Torna-se imperativo fortalecer políticas públicas voltadas à ampliação da infraestrutura no interior, à vigilância genômica de variantes e ao estabelecimento de fluxos logísticos sustentáveis, garantindo que o sistema de saúde seja resiliente o suficiente para proteger a vida em contextos de alta vulnerabilidade.
Realização: