Programa - Comunicação Oral Curta - COC14.1 - Liberdade de ser e narrativas de cuidados contemporâneos
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
NARRATIVAS E PRÁTICAS DE MULHERES AGRICULTORAS NA CONSTRUÇÃO DE AMBIENTES SAUDÁVEIS E ENFRENTAMENTO DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS EM ASSENTAMENTO RURAL
Comunicação Oral Curta
1 UECE/FAEC
2 UECE
3 URCA/CRATO
4 URCA/IGUATU
Apresentação/Introdução
A construção de sistemas de saúde sustentáveis exige o reconhecimento dos territórios, dos saberes locais e das práticas comunitárias que articulam saúde, ambiente e modos de vida. Em áreas rurais do semiárido brasileiro, especialmente em comunidades vinculadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, os quintais produtivos, a organização coletiva e o cuidado com a natureza configuram estratégias centrais de resiliência frente às mudanças climáticas e às iniquidades socioambientais. Nesse contexto, destaca-se o papel das mulheres agricultoras como protagonistas na produção do cuidado, na preservação ambiental e na sustentação da vida no território, sendo fundamentais na construção de respostas coletivas às crises climáticas. Assim, evidencia-se a importância de metodologias participativas que valorizem a escuta, o diálogo e o protagonismo feminino.
Objetivos
Analisar as narrativas e práticas de mulheres agricultoras em atividades participativas em um assentamento rural no município de Crateús, com foco na promoção de ambientes saudáveis e no enfrentamento das mudanças climáticas.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa participante, de abordagem qualitativa, fundamentada em histórias de vida, diários de campo e registros audiovisuais. A experiência foi realizada no Assentamento Rural Palmares e integra o projeto “Vozes da Resistência: Mulheres, Comunicação em Saúde e Mudanças Climáticas”, aprovado por Comitê de Ética (Parecer nº 7.579.162). Foram desenvolvidas rodas de conversa com cinco mulheres agricultoras, utilizando objetos simbólicos do território, palavras geradoras e produções expressivas (desenhos e textos), orientadas por questão norteadora acerca dos ambientes saudáveis. Também foram realizadas visitas aos quintais produtivos e escuta sensível das narrativas. A análise dos dados ocorreu por meio de análise temática, ancorada na Pedagogia da Esperança de Paulo Freire.
Resultados e Discussão
Os achados apresentam que os ambientes saudáveis são compreendidos como espaços de produção da vida, segurança alimentar, cuidado, preservação ambiental e convivência comunitária. Os quintais produtivos emergem como dispositivos centrais de soberania alimentar, sustentabilidade e adaptação às mudanças climáticas, sendo majoritariamente conduzidos pelas mulheres. As participantes expressaram preocupações com poluição, uso de agrotóxicos, queimadas e escassez hídrica, ao mesmo tempo em que reafirmaram práticas de resistência, como a agroecologia, a preservação de sementes crioulas e o cuidado coletivo com o território. Destaca-se o protagonismo feminino na organização comunitária e na transmissão de saberes intergeracionais, configurando as mulheres como agentes centrais na construção de territórios saudáveis e resilientes. Esses resultados dialogam com perspectivas críticas da saúde coletiva, evidenciando o território como espaço de produção de saberes e práticas emancipatórias.
Conclusões/Considerações Finais
Metodologias participativas que integram arte, diálogo e práticas territoriais fortalecem o protagonismo das mulheres e contribuem para a construção de sistemas de saúde mais sustentáveis e resilientes. A experiência reforça a relevância da valorização dos saberes populares e das práticas femininas na promoção da saúde e no enfrentamento da crise climática. Aponta-se a necessidade de políticas públicas intersetoriais que reconheçam, apoiem e ampliem o papel das mulheres na defesa do território, na produção da vida e na construção de ambientes saudáveis.
CORPOS QUE CALAM, OLHARES QUE ACUSAM: O JULGAMENTO NAS PRÁTICAS DE CUIDADO EM SAÚDE DE MULHERES QUE FAZEM USO DE ÁLCOOL E/OU OUTRAS DROGAS NA GESTAÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 UFES
Apresentação/Introdução
Há palavras que não são ditas, mas habitam os corpos. Nos serviços de saúde, mulheres que fazem uso de álcool e/ou outras drogas durante a gestação frequentemente perpassam por espaços marcados por olhares que antecedem a escuta. Antes mesmo de falarem de si, já foram nomeadas, classificadas, inscritas em narrativas que as reduzem ao risco e à falha. Este trabalho toma o julgamento como um analisador, buscando compreender como ele se produz, circula e se sustenta nas práticas de cuidado, operando como um dos “fantasmas” que percorrem a experiência gestacional.
Objetivos
Analisar como o julgamento se manifesta nas relações de cuidado em saúde e seus efeitos na experiência de gestantes que fazem uso de álcool e/ou outras drogas.
Metodologia
Trata-se de um recorte de dissertação de mestrado de natureza qualitativa com abordagem socioanalítica, fundamentada na Análise Institucional, com uso de entrevista aberta e técnicas projetivas. Participaram quatro mulheres em acompanhamento em uma maternidade filantrópica no município de Vitória, Espírito Santo, que fazem uso de álcool e/ou outras drogas na gestação, cujas narrativas foram tomadas não apenas como relatos, mas como analisadores das dinâmicas sociais. A análise se deu pelos conceitos da socioánalise e privilegiou os não-ditos, as hesitações e os afetos, compreendendo o material empírico como produção situada de sentidos, permeadas por relações de poder, saber e moralidade. A pesquisa obteve anuência do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo (CEP/UFES), sob o CAAE nº 88092425.9.0000.5060 e parecer nº 7.569.751.
Resultados e Discussão
O julgamento emerge como presença difusa e persistente, nem sempre explícita, mas constantemente sentida. Ele se manifesta em gestos, silêncios, mudanças de tom, orientações que mais ordenam do que acolhem. Nesse contexto, durante as entrevistas emergiram estratégias de autopreservação: omitir, silenciar, evitar serviços, negociar discursos. O cuidado, nesse contexto, torna-se um território ambíguo, ou seja, lugar de busca por apoio, mas também de exposição e risco simbólico. Os “fantasmas” do julgamento produzem deslocamentos: afastam, retraem, fazem calar. Ao mesmo tempo, revelam fissuras nos serviços de saúde, nas quais experiências de escuta e vínculo se tornam situações raras, porém potentes, capazes de suspender, ainda que provisoriamente, a lógica moralizante. O julgamento, assim, não é apenas uma atitude individual, mas um efeito de engrenagens institucionais que operam na produção de verdades sobre essas mulheres.
Conclusões/Considerações Finais
Ao tomar o julgamento como analisador, este estudo evidencia como práticas de cuidado podem ser capturadas por moralidades que produzem exclusão e sofrimento. Reconhecer esses processos é condição para tensionar e transformar o cuidado em saúde, deslocando-o de uma lógica punitiva para uma ética da escuta. Apostar na redução de danos, na construção de vínculo e no reconhecimento da singularidade dessas mulheres implica também enfrentar os “fantasmas” que habitam os serviços de saúde. Entre silêncios e resistências, há brechas e é nelas que o cuidado pode, enfim, acontecer.
ENTRE A INVISIBILIDADE E A SOBRECARGA: O TRABALHO E O SOFRIMENTO DAS MULHERES NA REPRODUÇÃO SOCIAL
Comunicação Oral Curta
1 UFPR
Apresentação/Introdução
A saúde mental dos grupos e populações expressa a síntese de múltiplas determinações sócio-históricas sobre a unidade biopsíquica. A divisão sociossexual do trabalho com maior carga às mulheres, principalmente negras, constitui a maior exploração delas sob o capitalismo periférico. Desde a Teoria da Reprodução Social (TRS) a exploração do trabalho remunerado e não remunerado constitui uma totalidade contraditória. A insuficiência de políticas protetivas no estágio neoliberal agrava esse cenário, implicando riscos particulares à saúde das mulheres.
Objetivos
Analisar as circunstâncias em que a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado para as mulheres emerge como processo crítico destrutivo da saúde mental. Parte-se do pressuposto da unidade das relações sociais de classe, que indissociadamente também são relações sociais de raça e de gênero, para buscar identificar os perfis de mulheres cuja sobrecarga laboral se associa com o desenvolvimento de sintomas depressivos e ansiosos.
Metodologia
Estudo quantitativo, transversal e exploratório, vinculado a uma pesquisa de mestrado em curso que integra um projeto maior, do qual uma primeira etapa de análise de dados secundários foi realizada em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de um município da região metropolitana de Curitiba-PR (Pena, Bellenzani, Rodrigues, 2025). O delineamento inclui: revisão da literatura; coleta de dados primários com usuárias da referida UBS via questionário online e escalas PHQ-8 e GAD-7. Prevendo-se análise estatística correlacional para sustentar as discussões finais.
Resultados e Discussão
Das 102 respondentes até o momento, têm-se: média etária de 41,7 anos; predomínio de mulheres negras (51%, somadas pardas e pretas); as brancas (47,1%). Predomínio da escolaridade ensino médio completo (39,2%), ensino fundamental incompleto (12,7%) e superior incompleto (12,7%). Quanto à inserção laboral, 33,3% exercem atividade com carteira assinada (CLT), enquanto o trabalho informal (10,8%) e o autônomo formalizado (8,8%). A maternidade é o eixo central da organização da vida, com (76,5%) sendo mães. 70,6% realizam as tarefas domésticas e de cuidados sozinhas ou com pouco auxílio; e 79,4% concordam que por serem mulheres a responsabilização por esses trabalhos recaem mais sobre elas. Achados de outros estudos como o de He et al. (2025) indicam que o número de filhos é um preditor de sintomas depressivos, sugerindo que a responsabilidade pouco compartilhada pelo trabalho de cuidado infantil é uma fonte de estresse parental contínuo. 21,6% das mulheres respondentes dedicam mais de 30 horas semanais somente ao trabalho de cuidado e doméstico não remunerado. Essa carga de trabalho em geral invisibilizada aproxima-se do "ponto de inflexão" segundo estudo Dinh et al. (2017), que postulou o limite de 38 horas semanais totais como o limiar para a deterioração da saúde mental feminina na Austrália. 54,9% foi a prevalência de mulheres da amostra estudada rastreadas com sintomatologia depressiva (PHQ-8) e 61,7% com ansiedade moderada a severa (GAD-7). A ausência de suporte institucional e familiar também agrava o estresse, e os recursos de apoio atuam como moderadores contra o estresse parental (He et al., 2025). Na ausência desse apoio, atender com dedicação as necessidades básicas das crianças concorre com o tempo de autocuidado, lazer e descanso das mulheres mães (Cummins; Brannon, 2022). Na presente amostra, 44,1% avaliam que os trabalhos de cuidados e domésticos não remunerados causam estresse ou prejuízo em parte, enquanto 25,5% avaliam que causam prejuízo total e significativo.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa indica que o sofrimento psíquico não resulta de uma vulnerabilidade clínica individual, mas sim de um conjunto de processos críticos destrutivos, fundados em níveis intensificados de exploração da força de trabalho feminina, com expropriação dos meios e condições para proteção da saúde. Os sofrimentos em curso indicados pelas sintomatologias rastreadas são processos corporificados e subsumidos pelos processos destrutivos que operam como um "nó", recuperando a metáfora de Heleieth Saffioti. Se produzem no seio das relações de exploração-subordinação ensejadas pelo capitalismo-patriarcado-racismo na produção e reprodução da vida das mulheres trabalhadoras, sobretudo negras. O estudo contribui para superar lacunas na Saúde Coletiva latino-americana, ao sinalizar que na determinação social do processo saúde-doença é indissociável a divisão sociossexual do trabalho produtivo e reprodutivo. Isso precisa de maior reconhecimento social e incorporação nas políticas de Atenção Psicossocial e de proteção social às mulheres, como na recente formulação da Política Nacional de Cuidados (Lei nº 15.069/2024).
O CUIDADO E A AUTONOMIA DAS MULHERES USUÁRIAS DA SAÚDE MENTAL NAS METRÓPOLES: DIÁRIOS DE SAMPA E SALVADOR
Comunicação Oral Curta
1 NUSMAD/FIOCRUZ-Brasília
2 NUSMAD/FIOCRUZ-Brasília e TV Pinel
Apresentação/Introdução
Produzido pelo "Morar em Liberdade", projeto do Núcleo de Saúde Mental Álcool e Outras Drogas (NUSMAD/Fiocruz Brasília e TV Pinel), apresenta os diários, que consistem em narrativas de mulheres residentes em São Paulo e Salvador. Em seus episódios, estão presentes as experiências de trabalho, economia solidária, arranjos de moradia e contratualidade social das usuárias da rede de saúde mental. Elas revelam os desafios urbanos enfrentados, abordando formatos de cooperação, justiça social, democracia e cuidado em liberdade. As histórias de vida revelam o cotidiano e os agenciamentos sociais mobilizados para garantia de direitos e o viver nos territórios dessas capitais.
No material estão presentes as reflexões e análises das próprias usuárias em relação ao meio onde estão inseridas, trazendo uma visão abrangente sobre os avanços e pendências oriundas das políticas públicas em saúde mental. Estes diálogos mostram o quanto a construção das redes sociais e também afetivas, contribuem para o fortalecimento da economia solidária junto de iniciativas que prezam pelo reconhecimento e autonomia dos seus integrantes.
Para difundir a pesquisa do "Morar em Liberdade", utiliza-se a página do projeto no Instagram. Lá, encontram-se recortes multimídia dos encontros, combinando imagens da dinâmica urbana com os depoimentos das usuárias, evidenciando os contrastes e os movimentos da vida nessas metrópoles.
Acesse: https://www.instagram.com/moraremliberdade?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==
Objetivos
O objetivo deste material e da apresentação deste conteúdo está em evidenciar os arranjos sociais que foram construídos para e pelos usuários em seus territórios. Afinal, como é viver nas capitais? Nirma, Girlene, Riso e Helisleide nos revelam seus movimentos engajados em uma rede que envolve o trabalho, o morar, o criar, o atuar e os demais modos de existir em meio a complexidade dos contextos urbanos.
Metodologia
A partir de entrevistas semi-estruturadas e dos diários de campo, esta pesquisa foi desenvolvida em formato audiovisual para abranger espaços como plataformas das redes sociais como Instagram e Youtube, salientando o papel de uma produção científica comprometida com os diversos formatos de comunicação.
Resultados e Discussão
Visando fomentar reflexões acerca da reinserção social e modos de viver em liberdade, esta produção audiovisual apresenta as narrativas do cotidiano de mulheres que encontram no trabalho além de uma forma de sustento, uma ferramenta para articulações e fortalecimento de iniciativas que incluem protagonismo político-social para a garantia de direitos como moradia, alimentação, lazer e saúde nos territórios dos grandes centros. Para além da liberdade, é necessário encontrar um lugar no mundo. Elementos oriundos da Reforma Psiquiátrica, da conquista ao acesso a cuidados de qualidade, a proteção dos direitos das pessoas usuárias da rede de saúde mental.
Conclusões/Considerações Finais
As narrativas femininas desta pesquisa perpassam por esta noção de territorialidade e agenciamento, considerando o fazer coletivo, as formas de sustento, a ampliação de redes e a descoberta de habilidades. A partir destes testemunhos de vida em liberdade, os espectadores se deparam com os resultados dos processos oriundos da lei 10.216/01, material que possibilita perceber os avanços e os desafios que permanecem quando tratamos as políticas públicas em saúde mental.
GRAVIDEZ E PATERNIDADE NA ADOLESCÊNCIA: EXPERIÊNCIAS DE ENGAJAMENTO REPRODUTIVO DE HOMENS JOVENS EM CONTEXTOS POPULARES
Comunicação Oral Curta
1 Ministério da Saúde
2 Universidade de São Paulo
3 Universidade Federal de Minas Gerais
Apresentação/Introdução
A participação de homens nos processos reprodutivos permanece um campo ainda pouco explorado na saúde coletiva, historicamente centrado nas mulheres. No caso das juventudes, essa lacuna é ainda mais evidente, especialmente quando se trata da gravidez e da paternidade na adolescência, frequentemente interpretadas a partir de perspectivas normativas e moralizantes. Compreender como jovens homens se implicam nesses eventos exige deslocar leituras centradas na ausência ou irresponsabilidade masculina para uma análise das condições sociais, relacionais e simbólicas que moldam suas possibilidades de engajamento. Trata-se, portanto, de situar a experiência reprodutiva no entrecruzamento entre trajetórias juvenis, construções de masculinidade e desigualdades sociais.
Objetivos
Analisar como homens jovens de camadas populares se engajam na experiência da gravidez e da paternidade na adolescência, considerando suas formas de participação nas decisões reprodutivas, no cuidado e na provisão, bem como os sentidos atribuídos a essas experiências.
Metodologia
Estudo qualitativo de abordagem socioantropológica, baseado em entrevistas biográficas com jovens de 16 a 24 anos, residentes em São Paulo (SP) e Conceição do Mato Dentro (MG), participantes do estudo multicêntrico “Jovens da era digital” (2021–2022). Foram analisadas narrativas de dez jovens de camadas populares envolvidos em episódios de gravidez antes dos 20 anos, em sua maioria autodeclarados negros, por meio de análise temática orientada por referenciais sobre juventudes, gênero e masculinidades. O estudo foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) e pelos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) das instituições envolvidas, com garantia de consentimento, anonimato e confidencialidade.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que o engajamento reprodutivo se configura como processo relacional, situado e dinâmico, atravessado por tensões entre expectativas de gênero e condições concretas de vida. Observam-se relatos de participação masculina nas decisões sobre a gravidez, frequentemente articulados à ideia de corresponsabilidade, ainda que essa participação se dê em contextos marcados por assimetrias nas relações de gênero. Essa implicação convive com a persistência de referenciais tradicionais de masculinidade, nos quais a provisão econômica ocupa lugar central nas representações sobre paternidade e no reconhecimento social do “ser pai”. Entre os jovens analisados, todos de camadas populares e majoritariamente negros, esse ideal se constrói em contextos marcados por inserções precárias no trabalho e por trajetórias escolares interrompidas ou instáveis, restringindo as condições materiais de sustento e tensionando as possibilidades de reconhecimento social como pais.
Ainda que não se trate de uma relação homogênea, os achados sugerem que essas experiências se dão em meio a expectativas sociais que incidem sobre as masculinidades de forma diferenciada, podendo afetar os modos como esses jovens percebem e são reconhecidos em sua condição paterna. Nesse cenário, redes familiares ampliadas assumem papel relevante na sustentação material e afetiva da paternidade juvenil, configurando arranjos nos quais o cuidado é compartilhado, mas frequentemente organizado a partir de divisões de gênero persistentes.
A participação masculina no cuidado cotidiano emerge, em muitos casos, menos como resultado de mudanças normativas consolidadas e mais como resposta a circunstâncias concretas, como a proximidade com o filho, o apoio familiar ou a reorganização das rotinas. Assim, o engajamento não se organiza em termos dicotômicos como presença ou ausência, mas como um campo de negociações e ajustes, no qual permanências e deslocamentos coexistem. As narrativas evidenciam tanto a reprodução de padrões tradicionais quanto a emergência de práticas que tensionam essas referências, ainda que de forma mais circunstancial.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados sugerem que o engajamento reprodutivo de homens jovens não pode ser compreendido apenas a partir de disposições individuais ou de prescrições normativas, mas deve ser situado nas condições sociais, materiais e relacionais que estruturam suas trajetórias. Ao evidenciar a pluralidade e a ambivalência das formas de engajamento masculina, o estudo contribui para tensionar leituras simplificadoras sobre a paternidade na adolescência e para ampliar o debate no campo das ciências sociais e humanas em saúde. Aponta, ainda, para a necessidade de políticas e práticas que reconheçam jovens homens como sujeitos implicados nos processos reprodutivos, considerando suas experiências concretas, seus vínculos e os contextos em que se produzem, e que ampliem as condições para o exercício do cuidado e da corresponsabilidade de forma menos desigual.
OFICINAS DE GRUPO SOBRE GÊNERO E SEXUALIDADE COM ADOLESCENTES: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM SAÚDE MENTAL E DIVERSIDADE NO CONTEXTO ESCOLAR
Comunicação Oral Curta
1 UNICAP
Contextualização
O presente relato sistematiza uma experiência de extensão universitária desenvolvida por estudantes de Psicologia da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), em parceria com o Liceu Nóbrega Artes e Ofícios, instituição comunitária mantida pela UNICAP em colaboração com o Governo do Estado de Pernambuco. O público-alvo contemplou turmas de 7º ano do ensino fundamental, com estudantes de idades entre 11 e 13 anos.
Descrição
A experiência surgiu a partir de demanda da equipe de Psicologia do Liceu, que solicitou atividades sobre sexualidade. Inquietas em não apenas atender a queixa institucional, mas também incluir as necessidades dos próprios estudantes, antes de qualquer planejamento, as extensionistas realizaram um levantamento de demandas com os adolescentes. Por meio de uma caixa de sugestões anônimas, foram coletadas 26 respostas, das quais se destacaram: sexualidade, autoconhecimento, autoestima, educação sexual e preconceito. Essa escuta inicial evidenciou um dado relevante: os adolescentes querem falar sobre si mesmos e sobre suas vivências de uma forma que raramente lhes era ofertada, especialmente no ambiente escolar. A metodologia adotada foi a de Oficinas de Grupo, que se caracteriza como espaço coletivo estruturado para a elaboração de questões centrais em determinado contexto social (Afonso, 2000; Carvalho et al., 2005). Foram realizados quatro encontros, com participação integral das turmas.
Período de Realização
As ações foram realizadas entre setembro e novembro de 2024.
Objetivo
Os objetivos foram: (I) provocar reflexões sobre autoconhecimento e identidade; (II) promover compreensão sobre as diferenças entre gênero, sexo e sexualidade; e (III) fomentar o diálogo sobre diversidade no ambiente escolar, com ênfase no respeito como princípio ético.
Resultados
Na primeira oficina, utilizou-se a dinâmica da "Salada de Frutas", em que cada estudante escolheu e desenhou uma fruta que lhe representasse de alguma forma, atribuindo a ela um significado pessoal. Um episódio marcou profundamente essa ação: um aluno que havia se apresentado com seu nome de batismo buscou as facilitadoras ao final da atividade para compartilhar, de forma reservada, que havia escolhido o tomate porque, assim como o tomate é botanicamente uma fruta, mas socialmente chamado de verdura, ele também se percebia de forma distinta daquela que aparentava para a sociedade. O estudante revelou que se identificava como um menino trans e apresentou seu nome social. Esse momento evidenciou a potência das oficinas como dispositivos de cuidado em saúde mental, capazes de criar condições de acolhimento para experiências de identidade frequentemente silenciadas.
A segunda oficina aprofundou conceitualmente as diferenças entre sexo, sexualidade e gênero, além de abordar que, desde 2019, a homofobia é considerada crime no Brasil (STF, 2019). Apenas quatro estudantes relataram dialogar sobre gênero e sexualidade com os pais, e a maioria afirmou não haver debates produtivos sobre esses temas na escola. Alguns expressaram receio de que as conversas realizadas chegassem às suas famílias, uma informação que aponta para a insegurança psicossocial desses sujeitos. Os adolescentes não constroem seus pensamentos isoladamente, eles reproduzem vozes, manifestações e memórias associadas ao processo de socialização, sendo o discurso narrativo em rodas de conversa uma construção coletiva (Moura; Lima, 2014). A terceira ação consolidou os aprendizados por meio de um quiz interativo, no qual os alunos acertaram todas as questões, indicando apropriação do conteúdo.
Aprendizado e Análise Crítica
Os aprendizados dessa experiência apontam para a urgência da presença da Psicologia e da Saúde Coletiva nos espaços escolares como estratégia de promoção de saúde mental para populações LGBTQIA+. A escola, ao ignorar sistematicamente essas demandas, contribui para a negligência de adolescentes em processo de constituição identitária. A adolescência é uma fase marcada por intensas transformações, demandando espaços de diálogo e programas educativos que incluam aspectos da diversidade (Martins et al., 2011 apud Moura, 2021). A Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais reconhece o ambiente escolar como espaço estratégico para a promoção da saúde e enfrentamento das iniquidades. Esta experiência reforça que intervenções psicossociais participativas, ancoradas na escuta qualificada e no referencial da educação popular em saúde, são capazes de produzir cuidado mesmo em contextos de ausência de políticas institucionais sistemáticas. O impacto foi visível, uma vez que, ao final das ações, estudantes buscaram as extensionistas espontaneamente para tratar de questões pessoais envolvendo gênero e sexualidade, evidenciando que o espaço ofertado foi percebido como seguro e acolhedor e apontando para a atual falta de estratégias desse tipo no dia a dia escolar.
DA EXPERIÊNCIA À AGENDA PÚBLICA: JUVENTUDES EM ACOLHIMENTO E PÓS-ACOLHIMENTO NA FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz Brasília
2 MPDFT
3 TV PINEL/ Fiocruz Brasília
Contextualização
A pesquisa-ação Territórios da Construção de Si: processos de desinstitucionalização de adolescentes e jovens pela maioridade, desenvolvida desde 2021 pela Fiocruz Brasília em parceria com o Ministérios Público do Distrito Federal (MPDFT), fundamenta-se na escuta qualificada e na coprodução de conhecimento com adolescentes em acolhimento institucional e jovens egressos, reconhecendo-os como sujeitos ativos na formulação de saberes e práticas. Ao acompanhar suas trajetórias, a pesquisa busca compreender os desafios da transição para a vida adulta e incidir sobre esses processos, fortalecendo a autonomia, a participação política e a construção de percursos de vida para além da institucionalização.
Ancorada no campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, a experiência dialoga com abordagens que compreendem o cuidado como produção social e relacional, tensionando modelos centrados na tutela e na institucionalização. Nesse sentido, evidencia-se a experiência vivida como dimensão epistemológica fundamental, capaz de produzir leituras críticas sobre as condições de vida e de qualificar a formulação de políticas públicas.
Descrição
A atividade consistiu na realização da Comissão Geral “Saúde Mental e Cidadania das Juventudes do Distrito Federal: Viver e ser egresso dos serviços de acolhimento”, concebida e conduzida pelos próprios adolescentes e jovens participantes da pesquisa. Diferentemente de formatos institucionais tradicionais, os jovens ocuparam a mesa principal, assumindo a condução dos trabalhos, a exposição de análises e a formulação de propostas.
A organização da mesa, a definição da pauta e o desenho do espaço foram construídos coletivamente pelos jovens, que posicionaram representantes do sistema de justiça, secretarias distritais, serviços de acolhimento e demais atores da rede de proteção como ouvintes. Essa inversão da lógica institucional operou como dispositivo de escuta pública, no qual a experiência vivida foi apresentada como base para análise crítica e incidência política.
Período de Realização
A Comissão Geral foi realizada em 10 de outubro de 2024, na Câmara Legislativa do Distrito Federal, como desdobramento do percurso formativo e investigativo desenvolvido no âmbito da pesquisa-ação.
Objetivo
Analisar a produção de agenda pública no âmbito da pesquisa-ação com adolescentes e jovens em acolhimento e pós-acolhimento; Examinar a formulação de problemas públicos e propostas de políticas a partir da experiência vivida; Discutir os desdobramentos desses processos na rede socioinstitucional do Distrito Federal.
Resultados
Os resultados evidenciam a construção de uma leitura estruturada das condições de vida no acolhimento e no pós-acolhimento, com destaque para questões relacionadas à renda, trabalho, moradia, educação, saúde e acesso à justiça. Os participantes identificam contradições nas políticas públicas, como o controle sobre recursos financeiros, a precarização das inserções laborais e a insuficiência de políticas de moradia.
A formulação de propostas concretas, incluindo acesso progressivo à gestão de renda, políticas de inserção no trabalho, alternativas à moradia institucional e ampliação de canais de diálogo com o sistema de justiça, demonstra a capacidade analítica desses sujeitos. A experiência vivida opera, nesse contexto, como base de produção de conhecimento e de problematização das políticas públicas.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que adolescentes e jovens historicamente posicionados como objetos de intervenção produzem diagnósticos consistentes e formulam agendas públicas quando inseridos em dispositivos estruturados de escuta e participação. A pesquisa-ação opera como espaço de tradução da experiência em problema público, tensionando a invisibilidade dessas trajetórias no debate institucional.
No campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, observa-se a necessidade de deslocar a participação social de uma lógica consultiva para uma lógica de formulação, reconhecendo a experiência como dimensão central na produção de conhecimento. Ao mesmo tempo, evidenciam-se limites estruturais das políticas públicas, marcadas pela fragmentação e pela permanência de práticas tutelares.
As análises evidenciam a pesquisa-ação como dispositivo de produção de agenda pública e incidência política, ao articular escuta qualificada, experiência vivida e inserção institucional. A Comissão Geral emerge, nesse processo, como um dos desdobramentos de um percurso mais amplo de formação e coprodução de conhecimento.
Os resultados indicam a necessidade de políticas intersetoriais que reconheçam a participação juvenil como eixo estruturante e incorporem a experiência como dimensão legítima na produção de conhecimento e na formulação de ações no campo da saúde coletiva, superando a lógica tutelar ainda presente nas práticas institucionais.
AUSÊNCIA PATERNA COMO ARTEFATO DE CULTURA: GÊNERO, CUIDADO E DISPUTAS DE SENTIDO NAS HISTÓRIAS DE SI
Comunicação Oral Curta
1 UNICAMP
Apresentação/Introdução
Ao partir de uma perspectiva voltada ao convite de um cuidar-com-o-outro, a experiência da ausência paterna de uma filha, neste trabalho, se coloca como ponto nodal à construção fenômeno-lógico-estrutural de um artefato cultural que se insere no debate das legitimidades sociais e das legitimidades institucionais. No figurar da ausência paterna como experiência de cultura, o corpo da narradora (re)inscreve e (re)configura saberes culturalmente no encontro com o outro. Os Estudos Culturais (EC), nessa construção, operam não como referencial externo, mas como lente que desloca o olhar e convida outros corpos para dialogar com a proposta inscrita e escrita através da produção de conhecimentos e engajamento coletivo: experienciar a Ciência, nesses termos, não é dado bruto, é texto cultural vivido e reconhecido como campo de disputa de sentidos, onde representações hegemônicas sobre cuidado, gênero e pertencimento são codificadas, absorvidas e contestadas. Este estudo não pretende cercear o conceito das ausências que são pater, mas tensionar hegemonias conceituais de modo transgressor e político e subverter a unidade naturalizada da família como cuidado nas políticas públicas de saúde e nos discursos institucionais, uma vez que tem na experiência da ausência paterna um artefato de cultura produzido historicamente por representações, normas e práticas que fixam sentidos sobre quem pertence, quem cuida e quem é reconhecido. Os artefatos de cultura, para os EC, não apenas descrevem o mundo, mas produzem o mundo e, portanto, nomear a ausência paterna como artefato de cultura é gesto político e analítico que recusa a prática hegemônica patriarcal.
Objetivos
Este estudo analisa de forma crítica a experiência da ausência paterna como artefato de cultura a partir de uma concepção ampliada de saúde que considere os núcleos e campos da Saúde Coletiva e a matriz teórico-metodológica dos EC como escolha política para as ações de um cuidado emancipador.
Metodologia
Esta pesquisa é qualitativa, de natureza autoetnográfica e ensaística que tem como base a narrativa da pesquisadora em sua história com a ausência paterna, os aspectos de saúde e doença relacionados a experiência da ausência, o território-corpo da ausência paterna para o feminismo brasileiro e as perspectivas culturais da construção da família em articulação teórica com EC e a literatura sobre o tema. As histórias de si performam a partida da pesquisa: narrar a própria experiência não como dado subjetivo e isolado, mas como método autoetnográfico que parte de um saber situado, interseccionado pelo corpo (auto) em trânsito nos espaços das ausências-presenças que são pater. Este trabalho convoca a saúde do território-corpo que experiencia a ausência paterna e enuncia a profusão de novas instituições fenômeno-lógico-estruturais do cuidado em saúde, principalmente os que dizem respeito à instituição família, onde o pessoal e o político se tornam indissociáveis.
Resultados e Discussão
As histórias de si neste estudo revelam que a família opera como tecnologia cultural hegemônica na organização dos afetos e vínculos, além de atravessar as dimensões ativas que as ausências paternas produzem nas perspectivas de um cuidar que se contrapões aos vieses de saúde-doença/promoção da saúde, uma vez que se limitam a lugares estruturais das relações, mas coexistem com normalizações. A ausência paterna, entre os campos e núcleos da saúde e do cuidado, não é apenas uma experiência vivida: é a representação do Estado como agente nos sentidos das relações familiares institucionalizadas na presença das ações de cuidado. O Estado emerge, assim, como agente direto de uma ausência que é individual e que, ao mesmo tempo, se individualiza em um coletivo político. Ao figurar a ausência no corpo de uma filha-pesquisadora, o estudo torna visível o que o Estado tenta apagar: a pluralidade de arranjos familiares, as sobrecargas que recaem sobre corpos-gêneros-específicos e os saberes produzidos às margens das legitimidades femômeno-lógico-estruturais de um artefato de cultura relegado ao campo privado quando, na saúde e no cuidado de um corpo-filha, a geopolítica das mudanças está na transformação cultural coletiva.
Conclusões/Considerações Finais
Quando a ausência paterna é lida como artefato de cultura, as políticas de cuidado se deslocam. Nesse deslocamento, a ausência paterna não se figura como eixo temático exclusivo à instituição família, mas como um dos fenômenos pelos quais se torna visível a operação cultural da família como instituição, como mecanismo de poder institucionalizado pelas legitimidades estatais, como norma e como campo de disputas simbólicas e afetivas que incidem de forma direta sobre os processos de saúde e de doença culturalmente alocados, inclusive os de filha-corpo. Os EC oferecem ao campo da saúde coletiva e dos cuidados instrumentos para visibilizar essa disputa, interrogar o papel do Estado como codificador de normas familiares e contribuir com a abertura de espaço para outros arranjos, histórias e modos de cuidar e pertencer nas relações.
“E EU NÃO SOU UMA MULHER?”: UMA ESCREVIVÊNCIA FRICCIONAL ENTRE SAÚDE E GÊNERO DE UM CORPO INTERSEXO
Comunicação Oral Curta
1 Instituto de Saúde Coletiva - UFBA
Apresentação/Introdução
Esta pesquisa parte do corpo intersexo não apenas como objeto de investigação, uma vez que o toma como ponto de partida para a produção de conhecimento. Ao compreender o corpo como teoria primeira, o estudo propõe uma reflexão crítica sobre os regimes normativos de sexo e gênero que historicamente definem quais corpos são reconhecidos como legítimos na vida social. A intersexualidade é abordada como uma condição plural e dissidente que desafia as fronteiras naturalizadas entre masculino e feminino. Nesse sentido, o trabalho evidencia como discursos biomédicos, sociais e institucionais atuam na regulação das corporalidades, frequentemente submetendo corpos intersexo a processos de medicalização, invisibilização e controle.
Objetivos
Geral: Escreviver criticamente o percurso de descoberta da condição intersexo de uma pessoa negra do sertão baiano, tensionando as fronteiras entre experiência pessoal e produção de conhecimento no campo da Saúde Coletiva.
Específicos: Narrar, a partir da escrevivência, os atravessamentos subjetivos, corporais e afetivos envolvidos no processo de descoberta da condição intersexo.
Analisar como as intersecções entre sexo, gênero, raça e território influenciam a construção das identidades e das experiências de saúde de uma pessoa intersexo.
Produzir dispositivos narrativos e audiovisuais que ampliem formas sensíveis e contra-hegemônicas de pensar o corpo intersexo.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo de inspiração autoetnográfica que utiliza a escrevivência como orientação epistemológica e metodológica. Conforme proposto por Conceição Evaristo, a escrevivência articula experiência vivida, memória e reflexão crítica, reconhecendo a narrativa pessoal como fonte legítima de produção de conhecimento. O percurso metodológico inclui a elaboração de uma autobiografia crítica, na qual a pesquisadora analisa sua própria trajetória à luz dos debates sobre gênero, corpo e saúde. Foram realizadas entrevistas narrativas semiestruturadas com familiares e pessoas que conviveram com a pesquisadora em diferentes momentos de sua vida, buscando compreender como o percurso foi socialmente percebido e significado. O corpus da pesquisa reúne ainda registros documentais, fotografias e materiais audiovisuais produzidos ao longo da trajetória da pesquisadora, analisados de forma interpretativa em diálogo com os estudos de gênero e a Saúde Coletiva. Como desdobramento criativo, foi produzido o curta-metragem Musa Híbrida, composto por nanovídeos que exploram memórias, afetos e experiências corporais relacionadas à vivência intersexo.
Resultados e Discussão
A análise evidencia que a experiência intersexo é profundamente atravessada por discursos biomédicos, religiosos e sociais que buscam enquadrar o corpo dentro das normas binárias de sexo e gênero. Desde a infância, o corpo intersexo torna-se alvo de interpretações e intervenções que visam restaurar a coerência entre a anatomia, identidade de gênero e expectativa social.
Esses processos revelam o funcionamento de dispositivos de poder que operam através do cuidado e da medicalização. Intervenções cirúrgicas, tratamentos hormonais e classificações diagnósticas frequentemente aparecem como respostas técnicas a uma suposta anomalia corporal, mas que, ao mesmo tempo, refletem normas culturais sobre masculinidade, feminilidade e sexualidade.
As narrativas também evidenciam que o corpo não é apenas objeto de regulação, sendo, sobretudo, espaço de elaboração e reinvenção. A escrevivência possibilita transformar experiências em produção de saberes, reinscrevendo o corpo intersexo como sujeito de conhecimento.
Nesse sentido, a pesquisa contribui para tensionar as epistemologias dominantes no campo da Saúde Coletiva, evidenciando como experiências corporais dissidentes podem ampliar o debate sobre cuidado, autonomia e diversidade corporal.
Conclusões/Considerações Finais
A trajetória analisada nesta pesquisa evidencia que a intersexualidade desafia os CIStemas e pressupostos binários que estruturam grande parte das práticas sociais e institucionais relacionadas ao sexo e ao gênero. Ao passo que revela como essas normas produzem efeitos concretos sobre os corpos e as subjetividades, especialmente no campo da saúde.
Ao mobilizar a escrevivência como método e epistemologia, esta pesquisa propõe deslocar o lugar do corpo intersexo na produção de conhecimento, afirmando-o como território de memória, crítica e elaboração teórica. A escrita de si torna-se, assim, um ato político que tensiona as fronteiras entre experiência e teoria, ciência e narrativa, sujeito e objeto.
Por fim, o estudo aponta para a necessidade de ampliar os debates no campo da Saúde Coletiva sobre diversidade corporal, autonomia e direitos humanos, reconhecendo a intersexualidade como parte legítima da pluralidade humana. Produzir conhecimento a partir dessas experiências implica não apenas revisar práticas biomédicas e políticas de saúde, sobretudo, pensar espaços para epistemologias que marginais e que desafiam as formas tradicionais de pensar o corpo e o cuidado.
“CUIDAR RIZOMÁTICO”: AÇÕES DE EXTENSÃO SOBRE SEXUALIDADE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 Ufes
Contextualização
As ações voltadas à sexualidade na Atenção Primária à Saúde (APS) são fundamentais para a promoção da saúde integral, considerando suas dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais. Quando bem conduzidas, contribuem para reduzir preconceitos, fortalecer o vínculo entre profissionais e usuários e ampliar o acesso aos serviços.
Persistem, porém, desafios como a falta de formação específica, barreiras culturais e institucionais e a presença de preconceitos que podem comprometer o cuidado. Nesse sentido, é essencial investir em estratégias de educação em saúde que valorizem a escuta qualificada, o respeito à diversidade e a criação de espaços seguros de compartilhamento.
Nesse contexto, projetos de extensão universitária têm papel importante ao aproximar universidade e comunidade, contribuindo para transformar práticas em saúde. Destaca-se, na Universidade Federal do Espírito Santo, o projeto “Cuidar Rizomático: criação de multiplicidade na Atenção Primária à Saúde”, desenvolvido na Unidade Básica de Saúde (UBS) de Consolação, em Vitória-ES.
Descrição
As ações sobre sexualidade na UBS são realizadas por meio de rodas de conversa, como espaços coletivos de escuta, troca de experiências e construção compartilhada de saberes. Nesses encontros, utilizam-se dispositivos que estimulam o diálogo e a participação ativa, favorecendo a problematização do tema de forma acessível e acolhedora.
A metodologia participativa contribui para um ambiente seguro, no qual os participantes podem expressar dúvidas, compartilhar vivências e construir conhecimentos coletivamente, fortalecendo o vínculo com a equipe de saúde.
Além disso, são realizadas oficinas nas escolas do território, voltadas ao público adolescente. Nessas ações, a abordagem da sexualidade é adequada à faixa etária, considerando aspectos pedagógicos e socioculturais. As atividades promovem educação em saúde de forma crítica e reflexiva, abordando temas como corpo, consentimento, prevenção, identidade e relações afetivas.
Período de Realização
As ações desenvolvidas na UBS de Consolação ocorrem de forma contínua, com atividades semanais realizadas às segundas-feiras, garantindo regularidade e vínculo com a comunidade. Já nas escolas do território, as intervenções acontecem de maneira periódica, conforme o cronograma estabelecido pela Secretaria de Saúde em articulação com o Programa Saúde na Escola.
Objetivo
Apresentar as estratégias de abordagem da sexualidade por meio de rodas de conversa e oficinas educativas realizadas na UBS de Consolação e em escolas do território.
Resultados
Os resultados observados a partir da implementação das ações evidenciam avanços no campo da educação em saúde voltada à sexualidade. Nota-se uma maior abertura dos participantes para o diálogo sobre o tema, com ampliação da participação nas rodas de conversa e maior disposição para compartilhar dúvidas, experiências e percepções.
Além disso, tem-se observado um aumento na busca por orientações relacionadas à saúde sexual e reprodutiva, o que sugere maior apropriação das informações discutidas nas atividades. Esse resultado aponta para o fortalecimento da autonomia dos usuários em relação ao cuidado com o próprio corpo e à tomada de decisões mais informadas.
No que se refere à formação dos estudantes extensionistas, destaca-se o desenvolvimento de habilidades fundamentais para a atuação em saúde, como a escuta qualificada, a comunicação interpessoal e a mediação de ações educativas. A inserção nas atividades práticas têm possibilitado a construção de uma postura mais sensível e crítica frente às demandas do território, contribuindo para a formação de profissionais mais preparados para atuar na perspectiva da integralidade do cuidado.
Aprendizado e Análise Crítica
Apesar dos avanços observados, ainda se identificam barreiras relacionadas ao constrangimento inicial dos participantes, à presença de tabus socioculturais e, por vezes, à resistência de determinados usuários à participação nas ações desenvolvidas. Além disso, a abordagem da sexualidade demanda preparo técnico e sensibilidade dos facilitadores, o que reforça a necessidade de formação permanente das equipes e dos estudantes envolvidos.
Outro ponto a ser considerado refere-se à limitação do alcance das ações, especialmente no contexto escolar, onde as atividades ocorrem de forma esporádica, conforme cronogramas institucionais. Essa descontinuidade pode impactar a consolidação dos processos educativos e a construção de vínculos com os adolescentes, indicando a importância de estratégias mais regulares e articuladas entre saúde e educação.
Por fim, destaca-se a necessidade de fortalecer a avaliação sistemática dessas práticas, de modo a mensurar seus impactos a longo prazo e qualificar continuamente as intervenções. Assim, embora as ações apresentem potencial significativo para a promoção da saúde e do cuidado integral, sua consolidação depende do enfrentamento desses desafios e do investimento em estratégias sustentáveis no território.
POR UMA FORMAÇÃO EM SAÚDE MENTAL LIGADA À EXPERIÊNCIA E AO TERRITÓRIO
Comunicação Oral Curta
1 ESP-MG
Contextualização
Este relato de experiência surge das inquietações de trabalhadoras da Escola de Saúde Pública do estado de Minas Gerais (ESP-MG) que atuam na docência e na coordenação de ações educacionais no campo da saúde mental. No diálogo com trabalhadoras e gestoras das Redes de Atenção Psicossocial (RAPS), entramos em contato com a diversidade de territórios do estado e pudemos entrar em contato com questões importantes para a formação. Entre elogios e reconhecimentos sobre a importância do trabalho promovido pela Escola, escutamos: “estudar aqui é muito bom, ajuda muito, mas vocês não sabem o que é trabalhar na lógica antimanicomial em municípios de pequeno porte” ou “As aulas da ESP-MG são excelentes, fazem toda a diferença, mas a questão é que vocês falam a partir do centro, da capital. A realidade dos municípios de pequeno porte é outra”. Movidas por essas importantes questões, duas trabalhadoras da escola de saúde elaboraram e realizaram a primeira oficina do projeto “ESP-MG itinerante” que se propõe a realizar oficinas de formação para o trabalho em saúde mental nos territórios dos municípios de pequeno porte.
Descrição
A proposta do projeto ESP-MG itinerante é fazer a formação em saúde mental privilegiando os municípios que têm menos de 15 mil habitantes. Elege-se um município como sede e os demais ao redor são convidados para o encontro formativo. A aposta é que a formação precisa estar no território e experienciar suas forças e contradições. Uma escola andarilha a aprender sobre o fazer saúde mental nos municípios de pequeno porte, alinhada á perspectiva da micropolítica do trabalho vivo em ato.
Período de Realização
2º semestre de 2025
Objetivo
apresentar reflexões sobre formação em saúde mental e território oriundas da primeira oficina do projeto ESP-MG itinerante: diálogos com as RAPS de Minas Gerais.
Resultados
Fizemos uma oficina de 2 dias que contou com Seis municípios foram mobilizados, cerca de 64 trabalhadoras entre médicas, enfermeiras, ACS, psicólogas, nutricionistas, fisioterapeutas participaram da ação.
Muitos aprendizados foram mobilizados.
Foi muito marcante escutar diversas falas contrapondo-se ao movimento antimanicomial. Foi curioso perceber os atravessamentos de raça e de classe nas defesas em favor do manicômio e seu lugar de segurança e manutenção da ordem. Repetia-se enfaticamente a representação social do louco perigoso que atrapalhava a dinâmica social e colocava as pessoas em risco. Quase nenhuma ACS se manifestava. Os participantes afirmaram a impossibilidade do trabalho intersetorial. Nenhum dos presentes conseguiu dizer que política de cultura, lazer e esporte havia na cidade. Houve dificuldade em identificar recursos no próprio território. Afirmou-se que ali, naquela região, não havia cultura.
Outro aspecto marcante foi a personalização do cuidado e da responsabilidade com as pessoas com história de sofrimento mental. Havia um discurso de que a coordenadora do centro de atenção psicossocial era a responsável pelas pessoas em sofrimento mental. Isso significava receber ameaças, receber ligações no próprio telefone celular solicitando intervenções a qualquer dia e horário para os ditos “loucos” que estavam, por exemplo, cantando na porta da igreja e atrapalhando a missa. A trabalhadora sentia no corpo, no seu cotidiano as retaliações por defender o cuidado em liberdade.
Aprendizado e Análise Crítica
Esse jeito de olhar para o que se vive, para o cotidiano, parece mostrar-nos o efeito do colonialismo. Como é possível que não haja cultura num determinado território? Por que os saberes, os fazeres, os modos de viver daquelas localidades são desvalorizados e invisibilizados? Se não se reconhece a cultura local, como lidar com os saberes e práticas que os usuários nos mostram e nos ensinam no cotidiano dos serviços? Ir até os territórios em que vivem e trabalham as educandas dos cursos da ESP-MG foi uma grande escola. É preciso experienciar com os territórios seus limites e desafios, reconhecer suas potencias e opressões. Conviver 2 dias com aquelas pessoas, conhecer os serviços da rede descortinou outras experiencias de cuidado em liberdade que mostraram desafios muito particulares.
Essa experiencia nos ensina que a formação em saúde mental precisa estar em estreita relação com o território, sua cultura, seus atravessamentos, tensionamentos e produção. Precisa dialogar e enfrentar os diversos marcadores da desigualdade aí existentes. Precisa de auto-crítica, de interrogar em que medida reproduz modelos “centro-centrados” e contribui para a invisibilidade de outros modos de ser, de viver, de fazer cuidado em saúde mental. Precisa estar próxima aos desafios enfrentados em cada RAPS para ajudar a problematizar e construir alternativas
Realização: