Programa - Comunicação Oral - CO15.1 - Violências, discursos masculinistas,educação e ativismos: redes como espaços de disputas
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
DESPATOLOGIZAR A VIOLÊNCIA MASCULINA: 110 ANOS DE ATAQUES CONTRA ESCOLAS E O AGRAVAMENTO DO FENÔMENO NA ERA DIGITAL
Comunicação Oral
1 IMS/UERJ
Apresentação/Introdução
Esta pesquisa de doutorado (em andamento) investiga os ataques contra escolas ocorridos no mundo entre 1913 e 2023 e demonstra como a popularização da internet, o sensacionalismo midiático e a cultura patriarcal contribuíram para o agravamento do fenômeno na virada do século XX para o XXI. Consideramos como marcos históricos decisivos para tal a cobertura midiática do ataque à Columbine High School em 1999 (EUA) – responsável por inspirar mais de 50 novos ataques contra escolas nos EUA e em outros países mesmo passadas mais de duas décadas - e o “massacre de Isla Vista” ocorrido na Universidade de Santa Barbara em 2014 (EUA), este último considerado como responsável por popularizar a existência de homens que se identificam como “celibatários involuntários”, os Incel. Na década de 1990, surgiram comunidades virtuais onde pessoas se encontravam para debater suas dificuldades em estabelecer relacionamentos românticos e sexuais. Com o passar do tempo, estas passaram a ser dominadas por um público masculino heterossexual que se percebe como vítimas desta sociedade contemporânea que seria hierarquizada a partir da aparência física das pessoas e controlada pelas mulheres (DOMINGUES, 2023). As atuais comunidades Incel – componentes do universo conhecido como machosfera - giram em torno da retórica misógina e pela celebração – e incentivo – da violência contra mulheres. Há comprovação de que os Incel foram responsáveis por alguns ataques contra escolas pelo mundo na última década, inclusive no Brasil, e suas motivações não se resumem – como o senso comum midiático tenta impor - apenas a transtornos psiquiátricos ou frustração com a vida. Coincidentemente, identificamos a partir de 1913 práticas análogas aos Incel em outros homens que cometeram este tipo de violência escolar em épocas “off-line”.
Objetivos
Posto que os estudos sobre a relação entre ataques contra escolas e masculinidades dos autores são embrionários - sobretudo os que examinam casos ocorrido em décadas anteriores à popularização da internet -, esta investigação pretende desnaturalizar e historicizar este fenômeno de violência a fim de desconstruir a constante patologização dos autores como estratégia atenuante dos efeitos nefastos da cultura patriarcal. Também pressupomos que falta de ética da grande mídia mundial e, posteriormente, a não regulação das redes sociais foram determinantes para o aumento de casos observado a partir de 1999.
Metodologia
Realizamos pesquisa documental com fontes disponíveis em hemerotecas digitais e no repositório virtual schoolshooters.info. Examinamos 121 episódios de ataques contra escolas entre 1913 e 2023 ocorridos na América do sul, América do norte, Europa e Oceania. Esta pesquisa investiga atualmente casos nos continentes africano e asiático. Analisamos documentos originais como cartas suicidas, diários, correio eletrônico, inquéritos policiais e relatórios judiciais referentes aos episódios; classificamos cronologicamente os casos e organizamos os dados em seções temáticas; amparados pela literatura teórica, tecemos seus contextos sociopolíticos.
Resultados e Discussão
Observamos que 97 casos ocorreram na América do Norte; 9 na América do Sul; 13 na Europa e 2 na Oceania. Entre 1913 e 1998, período anterior ao ataque em Columbine, contabilizamos 39 casos, este número cresce para 82 entre 1999 e 2023 , o que aponta para a influência direta da cobertura midiática e frouxa regulação das redes sociais no agravamento do fenômeno. Em relação a gênero, 117 ataques foram cometidos por homens cis; 2 por homens trans e 2 por mulheres cis. Em 86 ataques a autoria foi de pessoas brancas; 12 de negros; 10 de pessoas de origem asiática, 3 de pessoas de origem indigena e em 10 não foi possível identificar. Sobre faixa etária, 94 foram cometidos por adolescentes e jovens entre 10 e 29 anos; 27 cometidos por adultos entre 30 e 69 anos. Os dados foram contextualizados a partir de literatura teórica sobre violência, mídia e masculinidades, incluindo recentes estudos sobre grupos masculinistas e radicalização na internet. Citamos Mariana Domingues (2023), André Villela de Souza Lima-Santos e Manoel Antônio dos Santos (2022) - cujos trabalhos se debruçam sobre a temática dos Incel/ grupos masculinistas -, Daniel Welzer-Lang (2001), Michael Kimmel (1998), bell hooks (2004) e Flora Daemon (2015).
Conclusões/Considerações Finais
Ao analisar em perspectiva esta cronologia de 110 anos de ataques contra escolas compreendemos que são episódios de violência extrema cometidos em sua maioria por homens cisgênero, adolescentes ou jovens brancos da América do Norte. O período de maior incidência de ataques ocorreu coincidentemente a partir da década da popularização da internet, surgimento dos Incel/ grupos masculinistas digitais e ascensão política de forças da extrema-direita. Defendemos que reduzir este fenômeno ao estigma da patologização psiquiátrica é insuficiente para explicar o processo histórico no qual ele se insere e atrapalha uma avaliação mais profunda que relacione sua ocorrência a uma perspectiva de gênero.
EDUCAÇÃO PARA AS MÍDIAS NO ENSINO MÉDIO: PERSPECTIVAS FREIREANAS
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ / UNIRIO
2 FIOCRUZ
Contextualização
As redes sociais representam hoje um ambiente socio técnico de alta densidade simbólica e valor societário no qual adolescentes — em plena fase de constituição identitária — tornam-se particularmente vulneráveis ao antiensino pela desinformação e a outros riscos sob diversos formatos e meios.
Descrição
Os resultados são experiências adquiridas no contexto do programa IOC+ Escolas; Oficina #38 – Desinformação e negacionismo científico/ambiental. O Programa envolve escolas da rede pública do Estado do Rio de Janeiro e busca promover a participação de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/FIOCRUZ) em encontros nas escolas para apresentação de seus temas de pesquisa. Pesquisadores interagem com alunos em ações de divulgação científica ligadas à transversalidade dos temas relacionados à saúde (eixos - educação em ciências; promoção da saúde; e divulgação científica).
ATIVIDADES
Oficinas dialógicas oferecidas aos alunos do ensino médio do Colégio Estadual David Capistrano, Niterói/RJ.
Dinâmica - rodas de conversas preliminares para destacar temas geradores relevantes às vivências dos adolescentes.
Com base nos relatos de experiências, reelaboração de conteúdos e métodos para encontros posteriores com outras turmas.
Questões preliminares apresentadas:
• Apresentações dos pesquisadores > o que fazem os cientistas? > como descobrem coisas? > para que serve a ciência? > quais foram as maiores contribuições da ciência?
• “Estudo dos casos ordinários” – apresentados exemplos biográficos fictícios de personagens que se tornavam disseminadores de “fake News”.
• “Batalha dos tempos perdidos” (à época usavam celulares) e jogo da “máquina do tempo” – para levantar debates sobre a economia do tempo.
• “Por que as pessoas eram mais velhas antigamente?” e quanto tempo extra ganhamos desde o início do século XX.
• Inovações à frente de seu tempo > “inovações atrasadas” > inovações em retrocesso (vacinas e hesitação vacinal).
A partir daí as conversas seguiam por rumos diversos em função dos relatos, dúvidas e vivências.
Período de Realização
Oficinas realizadas ao longo do ano de 2024
Objetivo
Desenvolver estratégias de ensino direcionadas a adolescentes do ensino médio que considerem uma dinâmica dialógica, centrada nas experiências vividas e que busque a construção de perspectivas críticas coletivas sobre alguns problemas trazidos pela nova economia das redes sociais digitais.
Resultados
No decorrer dos encontros, e a partir dos relatos dos alunos, diversas novas temáticas e abordagens foram desenvolvidas. Em síntese, percebemos que a dinâmica dos encontros parece ter se adaptado melhor aos momentos de diálogo suscitados pelos temas geradores e incitações apropriadas. Em relação à retórica, o páthos representado pela dinâmica procedural do “estudo dos casos ordinários” parece ter levantado os debates mais ricos, com muitos relatos de casos sobre conhecidos e parentes obcecados por teorias da conspiração e fake News. A dinâmica elaborada incialmente considerava o uso de plataformas como o Caroot© e o Mentimeter©, através dos quais era possível visualizar enquetes rápidas e construção de nuvens de palavras como sínteses de conceitos. Mais recentemente, tivemos que adaptar essa dinâmica à interdição dos celulares em sala, conforme a Lei 15.100/2025.
Tentamos imprimir um “timing” mais acelerado nas oficinas – melhor adaptado às percepções e ao interesse dos adolescentes de nosso tempo. Percebeu-se muito interesse e curiosidade sobre temas mais complexos que envolviam hesitação vacinal e negacionismo ambiental/percepção do tempo – o que justificaria a organização de um minicurso com maior número de encontros e atividades (ideia em construção).
Aprendizado e Análise Crítica
Acreditamos que no ensino médio, abordagens educativas que deem conta de problemas tão atuais exigem a articulação de novas dimensões psíquicas, sociais e informacionais, bem como estratégias educativas inspiradas em perspectivas críticas, como a proposta por Paulo Freire. Atividades norteados por elementos da pedagogia de Freire como estratégia para inscrever o diálogo e a vivência concreta no coração do processo educativo, provaram-se exitosas não apenas como dispositivos metodológicos, mas como categorias ontológicas da formação humana. Sob tais perspectivas, a matéria-prima essencial foi a experiência vivida dos adolescentes na forma de encontros dialógicos centrados no aqui e agora do mundo digital que transcendiam os conteúdos classicamente oferecidos pela escola. De tal forma, as oficinas almejavam ascender a dimensões críticas, éticas e políticas ilustradas e mediadas pelas coisas do mundo.
Em síntese, as oficinas dialógicas com os alunos de ensino médio funcionaram como uma tecnologia leve (E. Merhy), capaz de produzir vínculo, autonomia e corresponsabilização na dimensão das redes sociais habitadas por consumidores acríticos e excessivamente auto-centrados.
DISPUTAS DISCURSIVAS, CRUZADA ANTIGÊNERO E POLÍTICAS PÚBLICAS: A CIRCULAÇÃO DO PAES POP TRANS NAS REDES DIGITAIS
Comunicação Oral
1 UNIFESSPA
Apresentação/Introdução
As expressões de gênero e sexualidade estiveram, desde o início da década de 2010, no centro de grandes controvérsias públicas no Brasil, mobilizando diferentes atores e arenas, especialmente no atual contexto de fortalecimento de conservadorismos, como parte de uma agenda transnacional antidireitos. Os temas, articulações e discursos que dão base à essa ofensiva são bastante parecidos em diferentes partes do mundo. Com matizes específicos, a ofensiva contra direitos e políticas que visam promover, (i) a equidade de gênero; (ii) a justiça reprodutiva; (iii) a educação em sexualidade nas escolas; e (iv) a igualdade entre pessoas LGBTQIA+ e pessoas cisgêneras e heterossexuais, especialmente os direitos da população trans, têm unido amplos setores conservadores em diferentes países. E essa ofensiva tem fomentado verdadeiros pânicos morais em defesa da chamada “família tradicional”, ou seja, da família cisheteronormativa e monogâmica, e em oposição a políticas públicas que promovam o respeito à diversidade e à autonomia, que têm sido acionadas como instrumentos para “corromper” crianças, adolescentes e jovens.
Objetivos
O estudo tem como objetivo analisar as disputas discursivas em redes digitais que atravessaram a elaboração e lançamento do Programa de Atenção Especializada à Saúde da População Trans (PAES Pop Trans), anunciado pelo Ministério da Saúde do Brasil, em 2024, assim como seu posterior recuo, ao não publicar o Programa. O PAES Pop Trans tem como principal diretriz redirecionar a abordagem do governo federal ao cuidado especializado em saúde para a população trans brasileira, dado o compromisso mais amplo assumido pela atual gestão federal de avançar no processo de construção da justiça social no país e enfrentamento de iniquidades. O Programa é fruto de ampla participação social, envolvendo movimentos sociais, pesquisadores, representantes de serviços especializados, representantes de Conselhos e membros do Judiciário.
Metodologia
O material empírico tem como base postagens publicadas nas redes sociais de instituições de referência na defesa dos direitos da população trans e da “movimentação antitrans”. O estudo se volta especialmente para a atuação nas redes sociais da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), que capitaneou o conjunto de articulações de denúncia da não publicação do Programa, e a Associação Matria – Mulheres Associadas, Mães e Trabalhadoras do Brasil, que tem assumido protagonismo na movimentação antigênero no país, em nome da defesa dos direitos das mulheres e das crianças. Interessa-nos compreender como essas instituições produziram sentidos sobre o anúncio do Programa, inscrevendo-o em determinadas formações discursivas, bem como analisar os gestos de interpretação mobilizados diante do recuo do Ministério e da não publicação da política. Argumenta-se que o cancelamento do Programa não se reduz a uma decisão administrativa, mas configura-se como gesto discursivo que reatualiza memórias históricas de patologização e reinscreve as identidades trans em regimes de exclusão.
Resultados e Discussão
Partindo da compreensão de que políticas públicas não se esgotam em sua dimensão normativa, mas se constituem também como objetos de disputa simbólica e midiática, propomos que políticas públicas voltadas à população trans não se constituem apenas como instrumentos de gestão, mas como acontecimentos discursivos que mobilizam regimes de verdade, disputas morais e conflitos em torno da legitimidade de identidades e expressões de gênero. A não publicação do Programa, cuja elaboração envolveu diferentes atores, produziu uma arena simbólica na qual se buscou disputar sentidos sobre identidades de gênero, direitos da população trans, saúde, ciência e direitos humanos. Os resultados preliminares indicam que as postagens analisadas em defesa do PAES Pop Trans operam como contra-narrativas ao discurso antigênero, mobilizando repertórios de direitos humanos e evidências científicas para reafirmar a legitimidade do atendimento integral à saúde da população trans. Ao mesmo tempo, revelam os limites institucionais da política pública diante da pressão de grupos conservadores e da amplificação digital de pânicos morais.
Conclusões/Considerações Finais
O trabalho busca contribuir para evidenciar como as plataformas digitais se configuram como espaços centrais de disputa simbólica em torno das políticas públicas, revelando que a arena comunicacional é hoje um território privilegiado para a ofensiva antigênero e também para seu enfretamento. Ao analisar o PAES Pop Trans como acontecimento discursivo, nos propomos a abordar a batalha em torno da saúde trans como uma disputa que trata simultaneamente da produção social da verdade sobre corpos, identidades e direitos.
O ATIVISMO DIGITAL FEMINISTA NO BRASIL E A PAUTA DAS VIOLÊNCIAS SEXUAIS
Comunicação Oral
1 IFF/Fiocruz
Apresentação/Introdução
A expansão das mídias sociais digitais demandou a reorganização das ações de ativismo dos movimentos sociais em geral e do feminismo em particular (Martinez, 2021). No Brasil, uma série de mobilizações evidenciaram a influência social e política que esse ativismo digital feminista (ADF) exerce sobre os indivíduos e esferas políticas decisórias hoje (Segurado; Ferraz, 2021). Entre as pautas centrais de diversas campanhas do feminismo digital está a violência sexual, o que foi responsável por popularizar a discussão sobre essa forma de violência e provocaram mudanças legislativas no país (Almeida, 2019).
Apesar da relevância do tema, não encontramos, na saúde coletiva, estudos nacionais que abordassem a atuação dos movimentos feministas no campo digital. Acreditamos que o investimento nesse tipo de estudo pode subsidiar uma aproximação entre as práticas e experiências do ativismo digital e o campo da Saúde Coletiva, num diálogo que permita a qualificação de ambos os grupos de atores e de suas respectivas estratégias de atuação-prevenção-enfrentamento.
Objetivos
Esse estudo tem como objetivo analisar, com base na literatura científica nacional, como o ADF se apresenta no Brasil e o destaque dado às violências sexuais e os modos de seu enfrentamento.
Metodologia
Utilizou-se o método de revisão integrativa (Botelho; Cunha; Macedo, 2011) e os resultados são apresentados seguindo as recomendações presentes no Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analysis (PRISMA). A investigação foi realizada em outubro de 2025, em 6 bases de dados (Web of Science, Scielo, Scopus, Oasis, PubMed e SocIndex). A análise temática conduziu a interpretação dos dados (Braun; Clarke, 2020), que foi organizada a partir de 4 eixos: 1) o surgimento do ADF no Brasil; 2) principais pautas e grupos/coletivos; 3) atuação do ADF brasileiro no enfrentamento à violência sexual; e 4) referência à interseccionalidade.
Resultados e Discussão
Foram selecionados 31 artigos, publicados entre 2016 e 2024. A maior parte dos artigos foi publicada em português, tendo mulheres como suas primeiras autoras. Todos situam-se na área de Ciências Sociais e Humanas, não sendo encontradas/os artigos especificamente da área de Saúde Coletiva. Categorizamos os temas do ADF brasileiro em 5 grupos que se interconectam: violências de gênero; direitos sexuais e reprodutivos; desigualdades e estruturas de poder; raça e racismo; e participação política e tecnologias. A violência sexual é um dos temas mais citados nos artigos sobre o ADF brasileiro, tendo destaque nas campanhas como #MeuPrimeiroAssédio, #NãoMereçoSerEstuprada, #MeuAmigoSecreto e #MeToo. Apontamos ainda outras estratégias de enfrentamento utilizadas pelos grupos feministas, como a produção de materiais audiovisuais, cartilha e manuais sobre o tema. Esses grupos têm buscado produzir relatórios e dados em uma perspectiva interseccional com temas importantes para o feminismo, como a violência contra mulheres e o feminicídio, apresentando dados de grupos específicos, como mulheres negras, trans e travestis.
A literatura analisada nos permite identificar alguns pontos centrais que caracterizam o ADF brasileiro, tanto em suas convergências ao ADF internacional quanto ao que supostamente teríamos como marcas nacionais. Entre eles, destaca-se o uso de diferentes linguagens e estratégias comunicacionais, como a narrativa pessoal, sendo o afeto e a vulnerabilidade recursos centrais de mobilização (Papacharissi, 2015). O ADF brasileiro tem demonstrado sua importância no cenário político nacional, considerando sua capacidade de mobilização e a abrangência de pautas, alinhadas a questões simultaneamente locais e globais. Além de atuar como uma pedagogia feminista, sensibilizando a sociedade em relação a temas relevantes para os feminismos, a atuação de diversos grupos/coletivos do ADF provocou mudanças legislativas e influenciou a agenda pública. O ADF tem sido capaz de dialogar de forma mais horizontal, usar recursos comunicacionais criativos, “furando bolhas” e tensionando a banalização das violências de gênero (Bogado; De Cunto, 2018)
Conclusões/Considerações Finais
O ADF é um importante espaço de produção de dados e conhecimento, de formação e de disseminação de informação. Entre as estratégias exploradas pelo ADF, que podem ser apreendidas pela Saúde Coletiva, destacamos o uso criativo da linguagem e dos recursos comunicacionais para divulgar dados e sensibilizar a população sobre temas relevantes e a importância da agilidade na identificação-mobilização-resposta diante de eventos que causam indignação e comoção públicas, como casos de violência de gênero e de propostas de mudanças legislativas que ameaçam direitos sexuais e reprodutivos de meninas e mulheres. A capacidade de mobilização do ADF configura-se, atualmente, como um grande capital político, sendo cada vez mais necessária a ocupação dos territórios e narrativas das mídias pelos movimentos sociais para a garantia de cidadania e defesa da democracia.
RADICALIZAÇÃO MASCULINA, RED PILL, VIOLÊNCIA DE GÊNERO E EFEITOS WEWRTHER E PAPAGENO: ENSAIO SOBRE RISCOS SOCIOTÉCNICOS PARA A SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral
1 MS
Apresentação/Introdução
O crescimento de ecossistemas digitais misóginos — como a chamada machosfera e o movimento “red pill” — produz novas formas de radicalização masculina que articulam ressentimento, hostilidade e desinformação contra mulheres. Esses espaços operam como comunidades de socialização violenta, que legitimam agressões, reforçam estereótipos e estimulam comportamentos de ódio. Em paralelo, a cobertura midiática de feminicídios no Brasil ainda reproduz enquadramentos sensacionalistas, romantizados ou culpabilizadores, criando um ambiente de significativa vulnerabilidade simbólica. Esse cenário exige interpretação desde o campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, considerando os efeitos psicossociais e coletivos das dinâmicas de discurso.
Objetivos
Este ensaio tem como objetivo analisar como processos de radicalização masculina on-line interagem com práticas de comunicação sobre feminicídios, produzindo riscos de contágio simbólico e ampliando tensões de gênero que afetam a saúde coletiva. Pretende-se discutir mecanismos de legitimação da violência, efeito Werther, enquanto contágio simbólico, e efeito Papageno, enquanto possibilidades de intervenção ética, educacional e comunicacional.
Metodologia
Este texto adota uma metodologia ensaística, articulando literatura sobre violência de gênero, estudos críticos de plataformas, pesquisas sobre ecossistemas “red pill”, teorias de construção social da violência e referenciais da comunicação em saúde, especialmente aos aspectos interralacionados à suicidologia. O ensaio não é ausência de método, mas uma forma específica de racionalidade científica, voltada à interpretação crítica, à articulação conceitual e à produção de inteligibilidade sobre totalidades sociais complexas. O ensaio se caracteriza não como tentativa provisória, mas como experimento reflexivo: um modo de pensar que testa ideias, aproxima campos teóricos, reflete sobre o objeto e interroga seus próprios pressupostos. A análise enfoca como algoritmos de recomendação, identidades masculinas em crise e narrativas de ressentimento produzem disposições subjetivas favoráveis à violência, e como tais disposições dialogam com representações midiáticas amplamente divulgadas sobre feminicídios.
Resultados e Discussão
A análise sugere que conteúdos red pill funcionam como dispositivos de radicalização emocional, oferecendo explicações simplificadas para relações de gênero e convertendo frustrações pessoais em hostilidade contra mulheres. A circulação de discursos de ódio em plataformas de vídeo e redes sociais amplia o alcance dessas ideologias, transformando-as em identidades políticas e comunidades de pertencimento. Ao mesmo tempo, enquadramentos midiáticos inadequados sobre feminicídios podem reforçar a percepção de que a violência é inevitável, justificável ou parte de um drama emocional masculino. A combinação desses fatores configura ambiente sociotécnico que favorece o contágio simbólico de comportamentos e narrativas violentas, intensificando riscos para mulheres e para a construção de relações sociais não violentas. Destaca-se ainda que a ausência de diretrizes nacionais para comunicação responsável sobre feminicídio constitui lacuna crítica. A literatura em comunicação e gênero tem demonstrado que os enquadramentos midiáticos não apenas informam sobre a violência, mas produzem sentidos, hierarquias morais e atribuições de responsabilidade. Análises discursivas apontam que a mídia frequentemente reforça regimes simbólicos que naturalizam a dominação masculina e subordinam mulheres à condição de vítimas ou objetos narrativos. Uma aproximação com o referencial do Efeito Werther e do Efeito Papageno aponta caminhos para elaboração de diretrizes éticas na divulgação de feminicídios, potencialmente capazes de reduzir o contágio de narrativas violentas. Essa articulação entre métodos de comunicação sobre feminicídio e suicídio podem contribuir com o desenvolvimento de políticas robustas de enfrentamento à misoginia digital, combinando proteção de direitos, formação crítica, regulação de comunicação e fortalecimento de redes de cuidado e de proteção às mulheres.
Conclusões/Considerações Finais
A radicalização masculina on-line representa ameaça emergente para a saúde coletiva, exigindo estratégias intersetoriais que integrem comunicação pública, educação de gênero, literacia digital crítica, políticas de regulação das plataformas digitais e de comunicação em saúde. Ao mesmo tempo, ressalta-se que pesquisadoras brasileiras têm argumentado que, embora o feminicídio não seja um ato autoinfligido, há similaridades estruturais nos mecanismos comunicacionais entre feminicídio e suicídio: repetição narrativa, identificação simbólica, normalização da violência e redução da censura moral, gerando um contágio simbólico comparável ao Efeito Werther (no fenômeno do suicídio). No entanto, diferentemente do suicídio (Efeito Papageno), não existem diretrizes consolidadas para a comunicação do feminicídio, constituindo lacuna teórica e política relevante.
Realização: