Programa - Comunicação Oral Curta - COC15.1 - Expressões de violência e de enfrentamento nas redes digitais
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
ATIVISMO DIGITAL POR DIREITOS À SAÚDE COMO EXPRESSÃO DE CUIDADO: UMA AGENDA PARA DISCUTIR A POLÍTICA DAS ESPERAS E AS LUTAS POR REPARAÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
As esperas impostas e tão comuns no campo da saúde, principalmente relacionadas àquelas pessoas atingidas por epidemias (como a de Zika, Poliomielite e hiv/aids) e pela pandemia de COVID-19, se apresentam aqui como categorias sociológicas, antropológicas e políticas. Da mesma forma o cuidado e a reparação se relacionam em nossas pesquisas às leituras feministas críticas, decoloniais e interdependentes. Assumimos os ambientes digitais como territórios onde as lideranças das associações relacionadas às epidemias e pandemia constroem circuitos de dádiva baseados na circulação de conteúdos para organização, apoio e informação sobre direitos violados, que remetem majoritariamente a um perfil de mulheres, negras, periféricas. Essas ações remetem a um trabalho que pode ser interpretado como um cuidado político: gera carga mental de planejamento, física de dedicação a tornar-se referência e poder vir a ser acionada, e emocional, nas memórias e sofrimento social compartilhado transformado em luta. Nestes eventos sanitários a organização associativa e o ativismo por direitos remetem à temporalidade da cronicidade e da deficiência encarnadas, na tensão entre as necessidades que emergem após estes eventos, e a vida reconfigurada. Os ambientes digitais emergem como mais um território onde o cuidado e o aprendizado político, com letramento compartilhado em rede, se expressa.
Objetivos
Estimular o debate sobre políticas das esperas e lutas por reparação, tendo por base o ativismo por direitos de associações organizadas, que disseminam nos territórios digitais suas agendas;
Discutir como o ativismo digital e associativo organizado se configura como uma metamorfose de um trabalho de cuidado no enfrentamento às violações do direito à saúde.
Metodologia
Este trabalho se sustenta em uma pesquisa baseada em memórias e oralidades, que tem como centro o ativismo por direitos de associações organizadas e relacionadas aos eventos sanitários enunciados anteriormente. Acompanhamos perfis de quatro associações organizadas em com expressões em universos digitais do instagram e facebook: Associação G-14 de pessoas atingidas pela poliomielite; UNIZIKA; AVICO e CAAAIDS. A pesquisa construiu um acervo de memórias que foi complementado com entrevistas individuais on line, observação participante em associações e em eventos organizados durante os anos de 2022 a 2025.
Resultados e Discussão
Como resultados identificamos um perfil de lideranças das associações majoritariamente de mulheres, onde a deficiência e a cronicidade da experiência se expressam no corpo de quem elas cuidam, com agendas de acesso à saúde e benefícios sociais inconclusa. Na pólio concentram-se as pessoas com mais de 55 anos, onde envelhecimento e deficiência são intersecções importantes. No caso da COVID-19 as repercussões da síndrome pós-COVID ou COVID longa intersecciona com agendas de reparação trabalhista e cobranças de punição para os governantes que lideraram o negacionismo. Com relação ao hiv/aids destaca-se a expressão do estigma como barreira para acessar serviços de atenção primaria relacionados à política de descentralização da atenção às pessoas vivendo com hiv/aids. Por fim, a zika reúne a agenda da criança com deficiência e as cargas de cuidado de mulheres que aprenderam a produzir incidência e visibilidade acadêmica, politica e legislativa com resultados em pensão vitalícia e benefícios para as crianças não reduzidos ao BPC. A literacia digital tem se configurado em um território para enfrentamento e denúncia das Políticas da Espera por saúde de um Estado que escolhe quem pode viver e quem pode morrer. Esta discussão se sustenta em uma pesquisa baseada em memórias e oralidades, que tem como centro o ativismo por direitos de associações organizadas e relacionadas aos eventos sanitários enunciados anteriormente. A perspectiva da Ética do Cuidado exige o reconhecimento das interdependências e da dimensão de compromissos em não produzir esperas.
Conclusões/Considerações Finais
Concluímos que os desafios desta população que transita entre instituições médicas e de reabilitação, e convive de forma distinta com as esperas no direito de ter suas necessidades reconhecidas construiu um vocabulário sobre reparação na saúde que se intercepta com o ativismo como uma expressão do trabalho e da política de cuidado nas redes sociais. A produção de redes de informação, apoios, incidência política por direitos sociais, circulação de agendas na internet para visibilidade e pressão na luta, podem indicar essa vertente do cuidado presente no ativismo relacionado às lutas por reparação e enfrentamento das esperas, não sem deixar de expressar também as cargas que remetem ao debate sobre fadiga por acesso.
CANÇÕES QUE CUIDAM: MUSICALIZAÇÃO PARA O ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 SESA/FIOCRUZ
2 SESA
3 UFES
Contextualização
A violência é um fenômeno complexo, que afeta a população em todas as faixas etárias e se manifesta de diferentes formas nos diversos territórios. Em 2001, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências (PNRMAV), configurando-se como uma iniciativa inovadora e desafiadora. Tal política reconhece a violência como um problema de saúde pública e propõe seu enfrentamento por meio de estratégias de cuidado, prevenção e promoção da saúde. Ademais, demanda a superação de um modelo tradicionalmente centrado na atuação isolada do setor saúde, ao enfatizar a necessidade de ações intersetoriais. Nesse contexto, torna-se necessário romper paradigmas e ampliar as fronteiras do Sistema Único de Saúde (SUS), estabelecendo sua articulação com setores como educação, assistência social e segurança pública, de modo a garantir a integralidade do cuidado. Entretanto, a capacitação para o enfrentamento da violência exige sensibilidade e habilidade, uma vez que a construção do conhecimento frequentemente se dá em cenários marcados por preconceitos e por uma cultura que privilegia a responsabilização em detrimento do cuidado.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência do desenvolvimento de um projeto de musicalização de textos técnicos mediados por inteligência artificial (IA), voltados à capacitação de profissionais para o enfrentamento da violência. Pretende-se qualificar o processo de capacitação por meio da ampliação das estratégias de ensino-aprendizagem, uma vez que a incorporação de recursos lúdicos favorece o engajamento, a sensibilização e a fixação dos conteúdos, fortalecendo abordagens centradas no cuidado e na integralidade.
Período de Realização
Nos meses de janeiro e fevereiro de 2026 foi realizada a leitura de notas técnicas, linhas de cuidado e da PNRMAV. A partir dos textos foram elaboradas as letras das músicas. Utilizou-se a ferramenta de IA ChatGPT como apoio na elaboração das rimas, onde a autora das letras realizou sucessivas revisões e ajustes, a fim de assegurar a coerência e a adequação textual. Ao final, foi utilizada a IA Songria para trazer melodia às canções.
Objetivo
Desenvolver e aplicar um projeto de musicalização de conteúdos técnicos a partir das legislações, normas e linhas de cuidados do Ministério da Saúde, sobre o enfrentamento da violência, utilizando IA na criação de canções educativas.
Resultados
As canções temáticas foram apresentadas em um evento de formação das vigilâncias municipais de violência no estado do Espírito Santo no mês de março de 2026, onde obteve avaliação amplamente positiva, destacando-se o interesse dos participantes pela utilização das canções como ferramenta de apoio em processos formativos. Observou-se significativa demanda para incorporação do material em ações de capacitação nos territórios, evidenciando seu potencial de aplicabilidade e replicabilidade. Paralelamente, o projeto foi divulgado em mídias sociais, alcançando retorno igualmente favorável, com manifestações de interesse e solicitações de uso por diferentes públicos.
Aprendizado e Análise Crítica
O projeto apresenta-se como uma proposta transformadora ao introduzir a musicalização, mediada por IA, como estratégia pedagógica em processos de formação institucional sobre o enfrentamento da violência — um campo tradicionalmente marcado por abordagens expositivas e, por vezes, pouco sensíveis às dimensões subjetivas do cuidado. Nesse sentido, destaca-se seu potencial de promover maior engajamento, facilitar a assimilação de conteúdos e contribuir para a redução de resistências, especialmente em contextos permeados por preconceitos e concepções punitivistas. Por se tratar de um projeto recém-implementado, os resultados apresentados referem-se à sua repercussão inicial e à aceitação pelo público-alvo, não sendo possível, até o momento, mensurar de forma sistemática seus impactos na mudança de práticas profissionais. Além disso, embora o uso da IA amplie as possibilidades criativas e de produção, demanda reflexão humana quanto à qualidade, adequação e validação dos conteúdos gerados, evitando introdução de frases de senso comum e até aquelas que reforçam a violência. Há ainda a necessidade de avaliar a sustentabilidade e a integração do projeto às políticas de educação permanente em saúde. Contudo, apesar de tais desafios, a experiência torna-se promissora ao articular tecnologia, arte e educação em saúde, sugerindo que estratégias pedagógicas mais sensíveis e inovadoras podem contribuir para qualificar o enfrentamento da violência e fortalecer práticas centradas no cuidado.
CO-CRIAÇÃO DE PLATAFORMA DE SAÚDE DIGITAL DE ABRANGÊNCIA NACIONAL (EU DECIDO) PARA PLANEJAMENTO DE SEGURANÇA PESSOAL DE MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA POR PARCEIRO ÍNTIMO
Comunicação Oral Curta
1 UFPR
2 CIDACS/FIOCRUZ/UFPR
3 SMS-Paranaguá
4 Nucleo de Mulheres de Roraima
5 UFMS
6 USP
Apresentação/Introdução
A violência por parceiro íntimo (VPI) contra mulheres é um grave problema de saúde pública, que requer estratégias inovadoras para seu enfrentamento e prevenção. Para isso, o diálogo com diferentes atores sociais é imprescindível, especialmente com as próprias vítimas e com profissionais que as atendem. Uma das estratégias inovadoras adotadas internacionalmente é o planejamento de segurança pessoal (PSP), que pode ser feito com apoio de profissionais da rede e mediado por ferramentas de saúde digital, todavia, estudos nesse campo são incipientes no Brasil.
Objetivos
Objetivamos co-criar com mulheres em situação de VPI e profissionais que as atendem uma plataforma de saúde digital de abrangência nacional, denominada “Eu Decido” com versões aplicativo e website, para apoio à tomada de decisão e PSP, desenvolvendo uma tecnologia inovadora para apoiar mulheres em risco e/ou expostas à VPI.
Metodologia
O projeto Eu Decido baseia-se em pressupostos da pesquisa-ação participativa e design centrado na pessoa, envolvendo uma equipe multidisciplinar (saúde coletiva, ciências humanas, direito, comunicação e informática) das cinco regiões brasileiras e do exterior. Inspirada por iniciativas internacionais, nossa equipe conduziu múltiplos estudos consecutivos: primeiro, o estudo de viabilidade da plataforma à realidade brasileira (2018-20); seguido da tradução e adaptação transcultural de instrumentos e conteúdos (2019-2022); desenvolvendo então o protótipo (versão 1.0) do Eu Decido e realizando sua análise de aceitabilidade preliminar (2021-23); sendo todas essas etapas conduzidas com mulheres sobreviventes de VPI e profissionais da Casa da Mulher Brasileira (CMB) de Curitiba (PR). Neste resumo será focado o recorte da pesquisa a partir de 2024, no qual nossa equipe vem refinando e expandindo a abrangência do Eu Decido. Estamos investigando as adaptações necessárias a outros contextos, por meio de pesquisa qualitativa com profissionais e mulheres atendidas nas CMB de Boa Vista (RR), Campo Grande (MS) e em Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Paranaguá (PR), município que não conta com serviços especializados para VPI, refletindo o cenário mais comum do Brasil, que tem a atenção primária à saúde (APS) como principal porta de entrada para o cuidado e apoio às vítimas. Realizamos entrevistas com mulheres (n=39) e 06 grupos focais com profissionais (n=93) desses locais, além de registros em diário de campo. Paralelamente, estabelecemos um Comitê Consultivo, composto por mulheres dos movimentos sociais de mulheres e feministas, profissionais, defensoras populares, gestoras e acadêmicas, que se reunem bimestralmente, como estratégia de engajamento público na ciência. Coletamos também informações da rede intersetorial (serviços de saúde, assistência social, segurança pública e justiça) dos 5.570 municípios brasileiros para alimentar a plataforma. A triangulação de todos esses dados vem subsidiando a análise temática, cotejada pelos estudos de gênero, direitos humanos e do campo da saúde coletiva, e também subsidiando o desenvolvimento da versão 2.0 do Eu Decido.
Resultados e Discussão
Nesta fase da pesquisa, denominada de refinamento e expansão da plataforma Eu Decido (http://eudecido.app), foi possível: 1) ouvir e incorporar as sugestões de mulheres diversas (em perspectiva interseccional) e profisisonais de diferentes regiões brasileiras, que trouxeram contribuições a partir de seus olhares territoriais e culturais, destacando-se dois estados (MS e RR) com grande população rural, indígena e migrante; 2) compreender que o Eu Decido é uma ferramenta de saúde digital altamente viável para apoiar o cuidado das mulheres atendidas na APS na tomada de decisão, capaz de ajudar tanto profissionais quanto as próprias usuárias a refletir sobre sua exposição à VPI e avaliar seus riscos; 3) instrumentalizar, por meio da plataforma, as equipes da APS com informações técnicas detalhadas que auxiliam na elaboração do PSP para o cuidado de cada mulher; 4) alimentar o Eu Decido com 133.270 serviços da rede intersetorial (com localização via GPS e telefone clicável), para facilitar o acesso da usuária aos serviços presenciais, caso ela assim decida, estimulando sua autonomia e agência; 5) co-criar em conjunto com as participantes, recursos e funcionalidades a partir das necessidades delas, fornecendo informações confiáveis sobre os direitos das mulheres e onde buscar ajuda. Por outro lado, necessitamos aperfeiçoar medidas de segurança da usuária.
Conclusões/Considerações Finais
As perspectivas de profissionais e necessidades das mulheres subsidiaram o refinamento do Eu Decido, resultando na versão 2.0 (lançado em março/2026), que está sendo submetido a uma avaliação longitudinal de usabilidade com (n=400) mulheres de todo o Brasil. Caso prove ser eficiente e seguro, o Eu Decido será disponibilizado gratuitamente para utilização nacional, apoiando as mulheres em situação de VPI e profissionais que atuam em seu cuidado integral.
CORPOS SOB CONTROLE: VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA, RELAÇÕES DE PODER E PRODUÇÃO DE SENTIDOS NAS NARRATIVAS DIGITAIS DE MULHERES NO INSTAGRAM
Comunicação Oral Curta
1 ENSP - Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Apresentação/Introdução
A violência obstétrica configura-se como uma expressão contemporânea das desigualdades de gênero no campo da saúde, evidenciando práticas que violam a autonomia, a dignidade e os direitos das mulheres no contexto da assistência ao parto. Mais do que eventos isolados, essas práticas se sustentam em relações de poder historicamente constituídas, que atravessam instituições, saberes e rotinas assistenciais, contribuindo para sua naturalização. No cenário contemporâneo, as tecnologias digitais e as redes sociais consolidam-se como espaços centrais na produção, circulação e disputa de sentidos sobre essas experiências, configurando ambientes nos quais se articulam regimes de visibilidade, silenciamento e reconhecimento.
Objetivos
Investigar as dinâmicas de violência obstétrica a partir de narrativas de mulheres publicadas na rede social Instagram, analisando como essas experiências são percebidas, nomeadas e compartilhadas em ambientes digitais, bem como compreender o papel dessas plataformas na visibilização, contestação e produção de sentidos sobre a violência, em diálogo com a perspectiva da literacia digital crítica.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória-descritiva, baseada na análise temática de conteúdo de 175 comentários coletados por meio da hashtag #violenciaobstetrica no Instagram. A coleta foi realizada ao longo do mês de maio de 2025, a partir de um perfil criado exclusivamente para a pesquisa, com o objetivo de reduzir interferências algorítmicas prévias. Foram incluídos comentários com relatos, percepções ou opiniões de mulheres sobre experiências de violência obstétrica, excluindo-se conteúdos genéricos ou não relacionados ao tema. A análise foi orientada por categorias teóricas e empíricas, fundamentadas em referenciais sobre biopoder, medicalização do parto, relações de gênero, interseccionalidades e comunicação digital, permitindo articular as dimensões individuais das narrativas às estruturas sociais que as produzem e sustentam.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que a violência obstétrica se organiza como prática recorrente e socialmente naturalizada, operando por meio de dispositivos de controle do corpo feminino, desumanização e infantilização das mulheres e reprodução de relações hierárquicas entre profissionais de saúde e parturientes. Relatos de intervenções sem consentimento, agressões verbais, negligência e uso de linguagem despersonalizante revelam mecanismos cotidianos de regulação e disciplinamento do corpo e da conduta feminina no parto. As narrativas também apontam repercussões emocionais duradouras, como medo, humilhação e sofrimento psíquico, além de evidenciar que marcadores sociais como raça e classe intensificam a vulnerabilidade à violência. No âmbito digital, o Instagram emerge como espaço de denúncia, acolhimento e elaboração coletiva, possibilitando a construção de redes de apoio e a circulação de saberes sobre direitos e experiências. Ao mesmo tempo, a mediação algorítmica interfere na visibilidade dessas narrativas, configurando regimes desiguais de circulação e tensionando o reconhecimento público da violência obstétrica.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a violência obstétrica se manifesta de forma estrutural no cotidiano da assistência, sendo sustentada por condições institucionais, culturais e formativas que favorecem sua reprodução. As redes digitais configuram-se como espaços ambíguos, que simultaneamente reproduzem desigualdades e possibilitam resistência, contribuindo para a construção de uma literacia digital crítica e para o fortalecimento de práticas de denúncia, cuidado e produção de conhecimento no campo da Saúde Coletiva, com implicações para a formulação de políticas públicas e para a qualificação da assistência obstétrica.
LITERACIA DIGITAL CRÍTICA COMO ESTRATÉGIA DE ENFRENTAMENTO ÀS VIOLÊNCIAS E PROMOÇÃO DA SAÚDE NO CONTEXTO ESCOLAR
Comunicação Oral Curta
1 DCS/ENSP/FIOCRUZ
2 doutoranda Saúde Coletiva IMS/UERJ
3 CLAVES/FIOCRUZ
4 IOC/FIOCRUZ
5 estudante de pós-doc ENSP/FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
O avanço das violências em diferentes espaços físicos e virtuais evidenciou a necessidade de desenvolver estratégias com estudantes e professores para lidar de forma crítica e responsável com as redes sociais. Este trabalho apresenta um relato de pesquisa do projeto "Literacia Digital" (Edital INOVA/Fiocruz, 2025), que dá continuidade ao estudo anterior "Equidade de Gênero e Comunidade Escolar" desenvolvido na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV). Verificou-se, entre esses estudantes, o desconhecimento das repercussões de ações realizadas em meio digital que podem ser consideradas como discursos de ódio, racismo, sexismo, LGBTQIAPN+fobia, evidenciando tensões na distinção entre o que pode ser compreendido como brincadeira ou agressão. Nesse sentido, a literacia digital crítica se mostra como uma estratégia para fomentar o uso responsável da tecnologia.
Objetivos
O objetivo do presente trabalho é apresentar reflexões e resultados preliminares de uma revisão de escopo que orientarão as ações realizadas com estudantes e professores. A revisão de escopo se guiou pela seguinte pergunta: O que tem sido produzido na literatura internacional sobre literacia digital e violências com adolescentes escolares?
Metodologia
: O protocolo de pesquisa (revisão de escopo) foi construído com base nos seguintes itens/componentes da pergunta: População (Adolescentes Escolares), Conceito (Literacia Digital; Violências; Promoção da Saúde) e Contexto (Escolas). Com base na pergunta, formam elaborados definidas estratégias de busca e elaborados descritores (em português, espanhol e inglês) aplicados às linhas de investigação (1: literacia digital, 2: adolescentes, 3. Violências). O filtro temporal foi o de 2010 a 2026 e aplicado nas principais bases de dados da área da saúde: PORTAL BVS (408), PUBMED (170), ERIC (18), Cochrane Library (4), Web Of Science (359), Embase (48), PsyInfo (57), Science Direct (797), SocINDEX (17), Scielo (3) totalizando, em março, 1759 resultados.
Resultados e Discussão
Esses resultados foram transpostos para os sofwares ZOTERO (construção de biblioteca com o material do resultado da busca), e posteriormente incluídos no Rayyan para revisão de duplo cego.
Conclusões/Considerações Finais
Considerando o contexto escolar como imprescindível para prevenção e intervenção em saúde, a revisão de escopo pode contribuir para compreensão da literacia digital crítica como um recurso fundamental para o questionamento de estruturas de opressão no ambiente virtual. Com um trabalho contínuo e colaborativo, é possível avançar na construção de uma escola mais acolhedora, onde o respeito e a equidade sejam valores centrais no convívio diário. O projeto reafirma a importância da educação midiática e da promoção da saúde como pilares para o exercício da cidadania plena no contexto contemporâneo.
OS CONDENADOS DA SAÚDE: A VIOLÊNCIA DISCURSIVA E OS FAMILIARES DAS VÍTIMAS DO MASSACRE DA PENHA
Comunicação Oral Curta
1 UFJF
2 Fiocruz-RJ
Apresentação/Introdução
Segunda-Feira, 28 de outubro de 2025. Forças policiais invadem o Complexo da Penha e Alemão, na cidade do Rio de Janeiro. Resultado da operação: mais de 120 mortos. Ampla cobertura midiática. Imagens de corpos enfileirados invadem a TV, os jornais e as redes digitais. A cena do massacre e a cena discursiva se confundem. A luta pela interpretação é desencadeada. Motivos e razões de ação tão letal são levantados por parte das autoridades governamentais, vozes privilegiadas pela imprensa hegemônica. Meios contrahegemônicos se pronunciam: páginas pessoais no Instagram, sites críticos, canais de protesto. O grande embate se dá em torno da assertividade da ação policial. Necessária? Não necessária? Emprego de força desproporcional? Letalidade inevitável diante de forte resistência?
Familiares e amigos protestam, choram seus mortos. Há relatos de que os próprios moradores foram resgatar corpos em diferentes espaços das comunidades. Mães demonstram indignação. Mais embates. Mais disputas de sentidos. Mais gestos de interpretação. Mais discursos legitimadores da violência policial. Outros discursos em nome das vítimas. Os familiares são parte da tragédia. Mas há um estranho silêncio. Tanto de uma parte como de outra dos discursos em disputa. Na base dos dois "lados", há a questão jurídica, policial. Mas há algo que não se debate tanto, ou quase nada. O direito das famílias à assistência social e psicológica. Ainda que familiares sejam por vezes ouvidos pela grande mídia, com seus testemunhos e gritos de socorro, as questões de saúde psicológica não são problematizadas pela imprensa e pouco nas redes digitais.
Objetivos
O objetivo do estudo é compreender, na semana restante da tragédia – entre 28 de outubro e 01 de novembro de 2025 – como se constitui a cena discursiva midiática, com ênfase na imprensa e nas redes digitais, principalmente, e de que maneira a questão da saúde psicológica dos familiares, principalmente de mães, e pais e avós, pode ter sido mobilizada pelas frestas de sentido, pelos não ditos, diante do massivo apagamento destas dores. Este objetivo é importante visto que os embates quase que predominantes sobre a questão jurídica acaba por ter, como contraparte, o silenciamento em relação à questão do atendimento e do cuidado psicológico aos familiares. A saúde mental destes não é uma questão nos discursos midiáticos.
Metodologia
A partir de uma teoria dos processos discursivos, que tem como base a Análise de Discurso (em seu percurso Pêcheux-Orlandi), mas que se estende ao diálogo com estudos de comunicação e do jornalismo e também da história da saúde e do SUS, o estudo propõe delinear, a partir da cena da tragédia, uma forma de violência, a discursiva, que não se dá somente pelo ataque direto aos sujeitos, principalmente, racializados e periféricos. Mas, justamente, por formas sutis de não-dizer. Do ponto de vista discursivo, o não dito pode derivar de uma não-saber-dizer, que é uma condição epistêmica; de um não-dever-dizer, que bordeja a questão ética; de um-não-poder dizer, a censura propriamente dita, e que é a dimensão política do silenciamento; e o não-querer-dizer, que é retórico e volitivo. É a partir destas modalidades de silenciamento que nos atentamos a partir da observação direta da cena discursiva instaurada pelo acontecimento histórico do Massacre.
Resultados e Discussão
O episódio demonstra uma forte tendência na história da clínica da República, ou dos serviços de saúde no Brasil, e que, nem o SUS, em que pese ser a primeira iniciativa de cuidado universal, consegue enfrentar: o forte silenciamento sobre o sofrimento psicológico dos que testemunham em suas famílias a violência policial. Silenciados, estes grupos, particularmente as mães, pais e avós dos que sucumbiram em operações policiais, são, pode-se denominar, os condenados da saúde.
Por não estarem feridos fisicamente – o que os levaria aos hospitais – acabam por ser esquecidos como vítimas psicológicas da tragédia familiar. Mesmo que haja grupos independentes hoje trabalhando pelo atendimento psicológico, principalmente, das mães de vítimas da violência policial (como a Raave, Rede de Atenção às Pessoas Afetadas pela Violência de Estado), ainda não se estabeleceu uma política pública sistêmica num país em que a letalidade das ações policiais resulta em mais de 6500 mortos (números do Ministério da Justiça e da Segurança Pública para o ano de 2025), tendo como alvo preferencial jovens negros e periféricos.
Conclusões/Considerações Finais
A questão mais delicada nestas formas de silenciamento, é que, condenados como sujeitos do não cuidado, sequer a discussão da assistência social e psicológica ganhou espaço como política sistêmica de saúde nos discursos midiáticos - e nem na esfera governamental. O clássico Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, se debruça sobre os efeitos psicológicos da violência colonial. Nesse estudo sobre Os Condenados da Saúde, debruçamo-nos sobre os efeitos psicológicos da violência discursiva e de seu apagamento.
REGIMES DE VERDADE E A FALÊNCIA DA SOLIDARIEDADE NA EXPERIÊNCIA DA SAÚDE NAS REDES DIGITAIS: VACINAS, MEDO E POLÍTICA
Comunicação Oral Curta
1 FSP-USP
Apresentação/Introdução
A pandemia de covid-19 intensificou a circulação de conteúdos em saúde e evidenciou uma reconfiguração das condições de produção e validação da verdade. Em ambientes digitais, a verdade deixa de ser regulada por mediações institucionais e passa a ser construída em circuitos discursivos próprios, orientados por convicção, pertencimento e mobilização afetiva. Nesse contexto, a desinformação não se apresenta como falha informacional, mas como parte de uma disputa por regimes concorrentes de veridicção, atravessada por dimensões políticas e morais.
Tais disputas operam como formas de controle social ao organizar sentidos, afetos e interpretações. Medo, indignação e ressentimento estruturam vínculos baseados na desconfiança e na oposição ao outro, produzindo coesão pela erosão da solidariedade. A vacinação, ancorada no princípio do bem comum, é reconfigurada como ameaça individual, evidenciando uma inflexão na experiência da saúde.
Objetivos
Compreender como grupos em redes sociais digitais constroem e legitimam narrativas sobre vacinação contra a covid-19, analisando os processos de produção de sentido e os mecanismos discursivos, afetivos e político-ideológicos que sustentam regimes de verdade concorrentes.
Metodologia
Pesquisa qualitativa orientada pela Análise de Discurso Crítica. Analisa-se um recorte exploratório do corpus composto por publicações de um grupo público no Telegram, criado em janeiro de 2021 e com cerca de 13 mil membros. O material reúne 87 páginas de exportação, com aproximadamente 400 postagens entre novembro de 2024 e março de 2026.
O percurso analítico articula três níveis: (i) textual, com análise de vocabulário, metáforas e estratégias de legitimação; (ii) discursivo, com identificação de interdiscursividade, construção de autoridade e antagonismos; (iii) sociopolítico, voltado à interpretação de valores, afetos e posicionamentos ideológicos em relação ao contexto político-sanitário e às dinâmicas digitais.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que o grupo não opera pela simples circulação de conteúdos desinformativos, mas pela reorganização discursiva de regimes de verdade, nos quais autoridade, evidência e legitimidade são continuamente reconfiguradas.
A vacinação não se apresenta como tema isolado, mas como elemento articulador de uma ecologia discursiva ampliada, na qual conteúdos sobre Estado, censura, tributação, segurança, tecnologia e moralidade são recombinados. Essa articulação produz uma narrativa totalizante de ameaça e controle.
Situado no arco político entre 2021 e 2026, o corpus revela uma mutação: da politização da vacinação durante a pandemia à sua reinscrição, no período recente, em narrativas antiestatais mais amplas. A vacina passa a operar como signo condensador de disputas simbólicas sobre autoridade e legitimidade.
No plano discursivo, observa-se a recombinação de registros científicos, jurídicos e políticos que mimetizam a expertise e deslocam a autoridade epistêmica para circuitos alternativos. Categorias como ciência, direito e liberdade são mantidas, mas têm seus sentidos invertidos.
A circulação de conteúdos vacinais se articula ainda a postagens que mobilizam discursos de ódio e deslegitimação de grupos sociais. Conteúdos que ridicularizam mulheres e atacam populações LGBTQIAPN+ aparecem de forma recorrente, não como elementos periféricos, mas como parte constitutiva da dinâmica do grupo. O discurso de ódio integra a produção de sentidos, reforçando antagonismos e sustentando coesão pela exclusão e produção de inimigos sociais. Tais práticas configuram formas de violência simbólica mediada digitalmente, que organizam pertencimentos e reconfiguram a experiência coletiva da saúde.
A dimensão afetiva é central. Medo, indignação, ressentimento e escárnio operam como infraestrutura da adesão, orientando a circulação dos conteúdos e a formação de vínculos baseados na oposição.
No campo da saúde, observa-se uma inflexão: em contraste com uma concepção relacional baseada no cuidado compartilhado, emerge uma lógica de autopreservação defensiva, na qual a vacinação é significada como ameaça individual.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados indicam que o fenômeno não se limita à desinformação, mas corresponde a uma disputa pela produção da verdade. O negacionismo vacinal integra uma arquitetura discursiva mais ampla, que articula linguagem, afetos e posicionamentos políticos na produção de sentidos.
Ao deslocar a análise da veracidade dos conteúdos para os processos de produção de sentido, o estudo contribui para compreender como regimes de verdade são construídos e disputados em contextos digitais. Tal deslocamento é fundamental para a saúde coletiva, pois evidencia que o enfrentamento desse fenômeno exige considerar não apenas a informação, mas as formas de sociabilidade, os afetos e as dinâmicas políticas que sustentam sua circulação, em diálogo com perspectivas de literacia digital crítica.
SILÊNCIOS DA REDE: ANÁLISE DAS RESPOSTAS DO ESTADO BRASILEIRO NAS MÍDIAS SOCIAIS AO AUMENTO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19.
Comunicação Oral Curta
1 UERJ
Apresentação/Introdução
A violência contra a mulher (VCM) configura-se como grave violação de direitos humanos e relevante problema de saúde pública, historicamente marcada por invisibilidade e naturalização, sobretudo no âmbito privado (Barsted, 2016). No contexto da pandemia de COVID-19, dados evidenciam o agravamento desse fenômeno (FBSP, 2020; DataSenado, 2021), com destaque para a violência psicológica, mais recorrente segundo o Dossiê Mulher (2023). As medidas de distanciamento social intensificaram a convivência com agressores e dificultaram o acesso aos serviços de proteção, ampliando a vulnerabilidade das vítimas. Nesse cenário, a comunicação em saúde assume papel estratégico na difusão de informações, produção de sentidos e mobilização social; contudo, embora haja ampliação de estudos sobre fatores associados ao aumento da violência (Barbosa et al., 2020; Marques et al., 2020; Vieira et al., 2020), permanecem escassas as análises sobre campanhas de enfrentamento, especialmente no que se refere aos mecanismos preventivos previstos na Lei Maria da Penha (LMP) (Moreira, 2022; Santos, 2021).
Objetivos
O estudo teve como objetivo analisar a estratégia de comunicação institucional do Estado brasileiro, com ênfase nas ações preventivas da LMP, a partir das postagens do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) em suas mídias sociais e site, no contexto pandêmico.
Metodologia
A pesquisa, documental, exploratória e qualitativa, teve como corpus 16 publicações veiculadas no Facebook, Instagram, YouTube e no site do MMFDH, selecionadas por sua relação com a VCM. A delimitação temporal abrangeu o período de 3 de fevereiro de 2020 a 22 de maio de 2022 e a análise contemplou tipo de conteúdo, público-alvo, estratégias discursivas e categorias de prevenção, não se restringindo ao conteúdo textual, mas incorporando análise semiótica de personagens, cores, enquadramentos e simbologias, a fim de desvelar a ideologia subjacente à resposta estatal. Esse desenho metodológico permite identificar as dimensões da LMP privilegiadas, confrontando as prioridades da gestão com as necessidades reais das vítimas no contexto do isolamento social.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam uma estratégia comunicacional fragmentada, descontínua e pouco efetiva. Embora a LMP preveja campanhas educativas, observou-se ausência de regularidade, não utilização de dados estatísticos e falta de padronização e coerência entre conteúdos nas diferentes plataformas, comprometendo a sensibilização social (Moreno et al., 2019b). Ademais, programas divulgados nem sempre estavam disponíveis oficialmente, levantando dúvidas quanto à sua legitimidade. Cerca de 70% das publicações não apresentavam público-alvo definido, o que afeta a eficácia das campanhas (Costa, 2011; Moreno et al., 2019a), enquanto 100% enfatizavam o estímulo à denúncia, evidenciando uma abordagem punitiva e posterior ao ato violento, que mantém a mulher no lugar de vítima e negligencia ações preventivas (Taquette, 2007). Observou-se ainda a centralidade do Facebook como principal canal, possivelmente restringindo o alcance das mensagens, além da concentração na prevenção terciária. As representações visuais priorizam mulheres jovens e brancas, desconsiderando a diversidade populacional, e a presença masculina é superficial, como agressores ou rede de apoio. As ações seguem padrão campanhista, com ênfase no “Ligue 180”, reforçando a dimensão punitiva da LMP. Constatou-se ainda baixa visibilidade da violência psicológica, mesmo após sua tipificação pela Lei nº 14.188/2021, indicando lacunas na atualização comunicacional e limitada incorporação de abordagens preventivas primárias.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a atuação do MMFDH deslocou a responsabilidade estatal para a esfera privada, orientada por perspectiva neoconservadora que atribui centralidade à família na resolução da violência (Biroli et al., 2020). Tal enfoque desconsidera que a violência frequentemente se origina nesse espaço e, ao priorizar vínculos familiares em detrimento da autonomia feminina, enfraquece sua compreensão como questão de saúde pública e de direitos, reforçando seu silenciamento (Biroli; Quintela, 2021). No período pandêmico, a comunicação institucional mostrou-se limitada, com baixa ênfase em prevenção primária e centralidade na denúncia via Ligue 180, o que se revela insuficiente diante de contextos de confinamento e desigual acesso à informação e serviços. A ausência de divulgação da rede de apoio e de estratégias inclusivas comprometeu a efetividade das ações, enquanto a ênfase na dimensão terciária reforçou o viés punitivo e a posição da mulher como vítima. Observa-se ainda omissão quanto à violência psicológica e às dimensões educativas previstas na LMP, fundamentais para prevenção. Por fim, a estratégia comunicacional operou como vetor de valores neoconservadores, com estética familiarista e pouco diversa, contribuindo para a invisibilização das desigualdades de gênero e para a limitação do enfrentamento à violência.
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